A formação cultural dos jovens do MST: a experiência do assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto
Considerações finais: alguns horizontes e desafios do MST perante os jovens
Considerações finais: alguns
horizontes e desafios do MST perante
os jovens
Neste livro, procuramos refletir o processo de formação cultural de jovens que integram as bases da luta pela terra organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, no município de Ribeirão Preto, interior do Estado de São Paulo, autodenominado "capital nacional do agronegócio", buscando, com isso, as experiências das novas gerações em seu grupo familiar, no assentamento Mário Lago e no movimento social do qual participam.
Objetivamos compreender as formas de participação dos jovens nas instâncias político organizativas do MST, no assentamento Má rio Lago e no movimento social, enquanto organização política que dirige os processos de luta travados naquele município; analisamos também as formas de manifestação dos jovens e os conteúdos que integram, bem como a consciência presente desses sujeitos acerca da reprodução de sua existência e a capacidade de projeção de fu -turo derivada da experiência concreta no MST.
Metodicamente, consideramos a história concreta de grupos sociais integrantes das classes trabalhadoras nos seus aspectos contraditórios como produto e negação das relações sociais impulsionadas pelas forças motrizes do capitalismo. Por isso, recuperamos aspectos por nós considerados fundamentais da história brasileira, nos quais grupos de trabalhadores emergem, ora como sujeitos de processos de exclusão, oriundos do avanço de relações capitalistas singularizadas pelo problema agrário não solucionado, ora como protagonistas de movimentos de resistência perante a hegemonia do capital privado.
Movimentos descontínuos, irregulares, expressos de distintas maneiras até, pelo menos, fins da década de 1970, quando ganham unidade e expressão nacional com o surgimento do MST, que, contando com o apoio de setores progressistas da Igreja Católica e forças políticas partidárias situadas no campo da esquerda, se con -solida no contexto da globalização da vida social, das relações produtivas do campo e da cidade. Diante da solidificação do com -plexo internacional do agronegócio, da amplificação da especulação financeira e da especulação imobiliária, do desemprego estru tural, da insegurança urbana, dos riscos ambientais, dos campos vazios de gente e da derrocada das experiências socialistas, disputa um projeto popular democrático de desenvolvimento do espaço agrário brasileiro.
Movido pela luta pela terra, por reforma agrária e pela transformação radical da vida social – objetivos gerais aprovados quando do surgimento do movimento –, o MST se espacializou, promovendo ampla guerra de posições e, ao mesmo tempo, a territorialização de famílias de trabalhadores. Nesse processo, em fins da década de 1980, chega ao município de Ribeirão Preto e, com as dificuldades inerentes à luta pela terra no Brasil, passa a promover um debate contemporâneo sobre temas da questão agrária no país, renovando esperanças e sonhos de grupos distintos, dominantemente trabalhadores da cidade com origens no campo, de criar formas mais solidárias de manifestação da vida. Já em 2003 – mesmo quando a esperança fora enterrada por aqueles que, num dia bem distante de sua chegada ao poder, através da disputa partidária, disseram defender interesses de outros trabalhadores –, conquista a Fazenda da Barra, construindo o assentamento Mário Lago.
Movimento contínuo de trabalhadores em luta, o MST conforma a prática da formação cultural das novas gerações, como emanações de sua lógica política, dada através daquilo que os sujeitos experimentam e tratam no âmbito da consciência, enquanto categorias sociais distintas presentes em seu interior.
Assim, consolidou se o processo de formação cultural dos jovens do assentamento Mário Lago que, ora se revelaram através da militância política junto com lideranças e quadros do MST, ora através de manifestações políticas e culturais de formas de viver que protestam contra a negligência da sociedade brasileira, de norte a sul, de leste a oeste, da direita à esquerda, para com esses jovens, filhos da classe trabalhadora, sua fração sobrante, encontrada às margens do processo político hegemônico e, por essa razão, degradada, esterilizada pela lógica mercantil engendrada sob a égide do capital.
Jovens que, ao se integrarem à luta pela terra, dominantemente ao lado de seus familiares, inauguraram uma realidade política marcada pela diversidade, no que toca ao lugar que passaram a ocupar na família, no assentamento Mário Lago ou no MST: jovens que vivem com pais, tios, tias, avôs, avós, irmãos, irmãs, outros jovens, cuja atividade principal é o trabalho – no assentamento ou na ci dade – ou o estudo; jovens que militam no MST e, por isso, se afastam da família para trilhar os caminhos da luta política; jovens que se unem na radicalização da luta pela terra, quando chamados a engrossar as bases do movimento social, participando de processos de ocupação de terras, marchas, mobilizações, atos públicos, sendo, por isso, reconhecidos pela coragem, força e resistência.
São esses sujeitos que encontram bases comuns para a reflexão da vida em movimento e expressam, enquanto grupo, referências e valores coletivos que poderíamos considerar como capazes de elevar a condição humana a um padrão ético de defesa da integridade física e moral, política e cultural de homens e mulheres, adultos e idosos, crianças, adolescentes e dos próprios jovens, ainda que a vida debaixo da lona preta carregue constrangimentos, limitações, precariedade nos aspectos materiais da reprodução da existência.
Nas suas expressões conscientes, um repertório de utopias, cons -truído sobre bases afetivas, culturais e políticas de transição entre formas espontâneas de consciência para a condição de reconhecimento ético político, da necessidade de construção de novas relações sociais ou, pelo menos, relações cujo epicentro não está em categorias centrais da sociedade capitalista, como o trabalho assalariado, a produção e o consumo de mercadorias. Construção possível através de formas distintas de ser e estar na sociedade, marcadas pela proteção, pela superação da violência, do individualismo, do interesse pessoal, através do rigor na conduta ética, através da solidariedade, da cooperação pacífica.
Os jovens reconhecem a luta por direitos sociais constituídos, ou outros a se constituir, como aspecto marcante de sua experiência no assentamento Mário Lago. Esses sujeitos afirmam gostar do assentamento, ainda que vivam constrangimentos, motivados pela falta de infraestrutura, expressa pela ausência de água, de boas condições de moradia e de energia elétrica, demarcando posições políticas tanto no interior do assentamento quanto perante a cidade e as relações que nela estabeleceram antes da chegada ao então acampamento Mário Lago e ainda estabelecem, seja para aquisição de bens que o assentamento não é capaz de oferecer para a sobrevivência desses grupos ou outros bens conspícuos que integram o mundo repleto de mercadorias que habita as sociedades contemporâneas; seja, ainda, para vender a força de trabalho, a fim de contribuir com a reprodução de toda a família que vive no assentamento, num momento em que, dado o processo de transição entre a condição de acampamento e assentamento, o território ainda não oferece boas condições para a produção da vida material.
Por essa razão, em termos gramscianos, os jovens produzem "bases de ações vitais", "elementos de coordenação de uma ordem moral" que inauguram horizontes. Horizontes que por vezes se deparam com limites objetivos e subjetivos do MST, os quais pas -samos a expor, como contribuição ao desenvolvimento das experiências de formação cultural dos jovens do assentamento Mário Lago.
No estudo sobre a formação cultural dos jovens do MST, a experiência do assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto, revela que a presença desses sujeitos na luta do MST é maior na fase de acampamento, quando chegam para se juntar aos pais ou outras referências adultas que participaram do processo de ocupação do território.
Nessa fase do processo de luta, marcada por grande efervescência política e cultural, os jovens têm suas capacidades mobilizadas para a construção do projeto político, coletivo, popular democrático do MST, voltando se tanto para dentro da comunidade, na organização política interna do acampamento, sobretudo no que diz respeito a sua vida cultural, quanto para fora, intervindo na sociedade junto com o movimento social, em processos de despejos, novas ocupações, atos públicos, marchas e outras manifestações que integram o repertório do MST na disputa por frações do território.
Alguns jovens se destacam pela participação mais aguerrida na luta do movimento, revelando se para o MST como militantes. Com isso, passam a receber atenção especial, sendo, então, progressivamente aproximados dos quadros dirigentes do movimento. Outros jovens vivem a luta de forma mais estrita, permanecendo próximos de seus pais ou referências com as quais foram para o acampamento.
O avanço da luta significa a construção do assentamento rural. A euforia dá lugar à normalidade; a agitação à morosidade e a novidade aos constrangimentos da vida debaixo da lona preta. Aqueles que despontaram como militantes tendem a se afastar da vida cotidiana do acampamento/assentamento, como é o caso de dois jovens que participaram de nossa pesquisa, e vão viver outras lutas, em outros lugares, criando vínculos orgânicos com o MST. Enquanto outros jovens, a grande maioria, passam a ser mobilizados esporadicamente, o que configura um aspecto marcadamente descontínuo, irregular de sua formação cultural.
Se, para alguns jovens, o MST é a instância de disciplina do cotidiano, para outros, é a instituição familiar. Se, no primeiro caso, a disciplina dos jovens está associada a sua intensa participação política nas frentes de luta do movimento, no segundo caso, a dis -ciplina da família não implica seu envolvimento político no assentamento Mário Lago ou no movimento social.
Tanto no caso dos primeiros quanto dos demais, os jovens assumem clara posição em favor do assentamento perante a cidade, definindo marcos daquilo que consideram inaceitável na sociedade brasileira no contexto das cidades, como a exploração, a fome, o desemprego, a falta de acesso aos bens de cidadania, a privação dos direitos sociais historicamente constituídos, as situações de violência, física e moral, e quaisquer práticas de degradação da condição humana. A essas situações, os jovens respondem com a amizade, o companheirismo, a solidariedade, a luta por direitos sociais, a cooperação pacífica, a mobilização de capacidades para o confronto político de disputa de territórios, enfim, através do envolvimento afetivo com seus iguais, seus companheiros, o território conquistado, a luta do MST.
Além disso, esses sujeitos afirmam que sua responsabilidade, para além do momento em que são convocados pelo MST para participar de algumas lutas, é produzir uma sociabilidade apoiada pelos valores e princípios que integram o repertório filosófico do MST; por isso, devem ser considerados sujeitos capazes de intervir na construção de seu assentamento, através das responsabilidades que podem assumir na comunidade da qual fazem parte.
Disso decorre, primeiro, que o MST deve intervir permanentemente no cotidiano dos jovens do assentamento Mário Lago, em seu tempo livre e em seu tempo produtivo, destacando a consciência do dever, que precisa estar associada à defesa do território em que vivem, por seu envolvimento com práticas de recuperação da degradação registrada no lugar, pela defesa do aquífero Guarani, pela criação de espaços educativos, voltados para práticas de formação das novas gerações, crianças e adolescentes, e de jovens e adultos, pela criação, proteção e zelo dos lugares nos quais de -dicam seu tempo livre e por todos os espaços destinados às ativi -dades políticas e culturais coletivas da comunidade. Nesse caso, os jovens destacados pela militância, que deixam de viver o co tidiano do assentamento Mário Lago, poderiam atuar como elo entre os demais jovens e o movimento social, atuando como seus in -terlocutores. Com isso, o MST estaria, ao mesmo tempo, reaproximando esses jovens militantes do território que os revelou para a luta política.
Segundo, a consciência dos jovens deve encontrar acolhida pela criação de fóruns específicos para sua manifestação, dada a inca -pacidade de instâncias consultivas e deliberativas de organização política do assentamento e do MST para congregar a vontade dos jovens.
Uma vez considerados como forças políticas capazes de pro -tagonizar ocupações de frações do território, os jovens com mais experiências, aqueles que integram setores de organização do movimento social e aqueles que vivem o cotidiano do assentamento Mário Lago, podem atuar na formação cultural das novas gerações, crianças, adolescentes e outros jovens que chegam pela primeira vez a um acampamento do MST, operando como intelectuais do movimento social, voltando se sobretudo para atividades culturais.
Igualmente, o tempo produtivo também deve se constituir em momento da formação cultural dos jovens, em razão de sua importância nas condições de existência desses sujeitos no assentamento Mário Lago. Assim, o trabalho deve ser desenvolvido junto com seus pais, com outros jovens ou mesmo com outras famílias e grupos ao lado dos quais escolherem viver, pois, para os jovens, a família é a base da mobilização da luta pela terra. Além disso, para eles, a terra significa trabalho, sobrevivência, a elevação ética das relações que travaram até o momento de sua chegada ao MST, inclu sive na busca pela superação das amarras impostas às relações de gênero, que, fundamentalmente, definem o lugar dos jovens associado ao trabalho no lote familiar e o das jovens no trabalho do lar. Os jovens podem, com isso, contribuir para a superação da divisão sexual do trabalho e, ao mesmo tempo, dos possíveis sentidos autoritários, por vezes presentes na instituição familiar.
Cada momento da formação cultural dos jovens deve ter como premissa a preservação dos valores, sentimentos, sonhos e utopias, ainda que em termos elementares, por eles construídos ao longo de sua experiência e a partir dela, desenvolvendo os pela elevação de seu nível intelectual e moral, pela difusão de uma concepção política e ideológica unitária e coerente. Pois, à medida que o MST assim o fizer, estará, em termos gramscianos, atuando como escola, formando as novas gerações para o futuro.
Por fim, queremos lembrar, mais uma vez, os escritos de Antonio Gramsci. Para ele, hegemonia não é igual a dominação e não se identifica somente com a reorganização das formas produtivas e com a socialização da riqueza material socialmente produzida. Antes, diz respeito ao conjunto das relações, operando no interior da estrutura econômica e política, no modo de pensar, na consolidação ideológica e no modo de ser de cada um no interior da sociedade. Por isso, a formação das novas gerações deve ocupar lugar desta -cado entre aqueles que disputam consciências na sociedade.
Nesse novo período de lutas que se inaugura, quando da comemoração dos 25 anos de existência do Movimento dos Trabalha dores Rurais Sem Terra, em 2009, impulsionar o movimento dos jovens conflagrados em seu interior ou se omitir perante essas vozes que ecoam em seus acampamentos e assentamentos é projetar bases para o amanhã ou sucumbir diante dos próprios desafios.