A Igreja do Diabo

Machado de Assis · Capítulo 1 de 4

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A Igreja do Diabo

Machado de Assis Real

Projeto Machado de Assis Real

 

Capítulo 1

 

De uma idéia mirífica1

 

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo

dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem

contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que

exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones2,

sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divi-

nos, dos descuidos e obséquios3 humanos. Nada fixo, nada regular.

Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio

eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

 

— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura,

breviário4 contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à

farta, as minhas prédicas5, bulas, novenas e todo o demais aparelho

eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a

minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras

religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não

acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero.

 

Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

 

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços,

com um gesto magnífico e varonil6. Em seguida, lembrou-se de ir

ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os

 

1 Excelente.

2 Regras padrões.

3 Favores.

4 Livro com ofícios.

5 Sermões, pregações.

6 Particular do homem; viril.

 

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olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:

 

— Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo

que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra

para o infinito azul.

 

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