A representação social na construção da velhice

Raimunda Silva D’Alencar · Capítulo 1 de 14

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A representação social na construção da velhice

Apresentação

 

Raimunda Silva d’ Alencar

A realidade do crescimento da população idosa, retratada em diferentes projeções demográficas, é inquestionável e vista como resultado de diversos aspectos, desde os avanços sócio sanitários ao desenvolvimento científico.

O investimento nas áreas geronto-geriátricas não só tem potencializado um elevado crescimento da velhice nas últimas décadas, com alterações significativas nos modelos de velhice e modos de envelhecer, como tem colaborado com a formação e visibilidade de inúmeros profissionais, como educadores físicos, fisioterapeutas, engenheiros civis, geriatras, pedagogos, arquitetos, odontólogos, ortopedistas, nutricionistas, assistentes sociais, planejadores, administradores, juristas, psicólogos, neurologistas e outros, preocupados em disponibilizar conhecimentos cada vez mais aprofundados e mecanismos que colaborem, efetivamente, com o envelhecimento, priorizando a manutenção da capacidade funcional e cognitiva.

Parte desse conhecimento geronto-geriátrico já construído e em construção tem ampliado as instâncias de intervenção e de investigação qualitativa em torno do processo de envelhecimento e da velhice propriamente.

Apesar do já inquestionável investimento, ainda é comum a percepção da maior longevidade vinculada a aspectos negativos, tratada como uma realidade homogênea, como se os velhos fossem todos iguais, o que faz com que a compreensão dos problemas enfrentados por eles também sejam vistos, no geral, de forma homogênea.

As transformações próprias do envelhecimento, apesar de importantes mudanças de perspectivas, geram repúdio e inquietação, mas, ao mesmo tempo, geram resignação nas pessoas que ‘alcançam’ a velhice, porque passam a considerar que já não são vistos com a mesma energia e capacidade para fazer coisas, participar de concursos públicos, assumir cargos, enfrentam dificuldades com a assistência à saúde, entre outros aspectos geralmente interpretados de forma negativa. Além disso, nem sempre os idosos são levados em conta quando se trata de tomar decisões, inclusive de assuntos que lhes dizem respeito diretamente. Além do descrédito à sua fala, suas atitudes e comportamentos podem passar por censuras inusitadas.

As demandas que a velhice traz, associadas àquelas próprias da sociedade onde essa velhice se desenvolve, crescem na mesma proporção do aumento da longevidade e são, de alguma forma, amparadas por políticas públicas já de amplo conhecimento popular, a exemplo do Estatuto do Idoso. Envolvem condições de protagonismo, amparo e dignidade, que devem ser garantidas aos idosos, independentemente da cor, do gênero ou outra condição. Apesar de envolver protagonismo, a velhice ainda é atravessada por importantes dilemas, entre os quais o caráter não universal a tal protagonismo.

Diariamente confrontados com uma grande massa de informações, as novas questões e os eventos que surgem para enfrentamento por esse segmento exigem uma busca permanente por sua compreensão, aproximando-o daquilo que já conhecem, não apenas através da linguagem que faz parte de seu repertório, mas com o acréscimo de novas linguagens, ainda não plenamente acessíveis a todo esse segmento, além da inserção de novas questões, a exemplo de novos papéis no ambiente familiar, crescimento de doenças antes atribuídas aos jovens, como a AIDS,

e usuários de crack, conforme apontado por Trench e Rosa (2011)1. Nas conversações diárias, em casa, no trabalho, com os amigos, os idosos são instados a se manifestar sobre eles, não só procurando explicações, mas fazendo julgamentos e tomando posições.

Essas interações sociais potencializam situações de consenso no âmbito das quais a população, de um modo geral, e os idosos, em particular, constroem ou se apropriam de representações que passam a fazer parte do seu universo, não mais como simples opiniões, mas como ‘verdades’ do senso comum; essas construções visam dar conta da complexa realidade em que vivem. Sendo de livre escolha, as interações sociais e as situações de consenso não apenas facilitam a comunicação, mas orientam atitudes e condutas desses idosos, ajudando a forjar a identidade de grupo e o sentimento de pertencimento ao grupo escolhido.

As representações construídas traduzem seus sistemas de conhecimento, mas também de valores, ideias e práticas que não só orientam os idosos para a convivência no ambiente em que vivem, onde nem sempre recebem o respeito que merecem, como possibilitam a comunicação e troca entre pessoas com as quais convivem, direta ou indiretamente.

Os artigos aqui apresentados tratam de modos de interpretar a realidade cotidiana e de como a sociedade e, particularmente, idosos, crianças e jovens apropriam-se dela, conforme sugerem os

conteúdos aqui analisados. O primeiro deles, intitulado Semânticas

do envelhecimento - modos de envelhecer nos anos 70, as autoras Monique Borba Cerqueira e Aline Ângela Victoria Ribeiro analisam mudanças na trajetória do envelhecimento no Brasil a partir de matérias publicadas na Revista Veja nos anos 70 e o desdobramento desse período sobre o envelhecimento na atualidade.

Silvia Virginia Coutinho Areosa, Cristiane Redin Freitas e Juliana

Eisenhardt analisam, no texto Representações sociais de idosos

sobre a adaptação em uma Instituição de Longa Permanência, os motivos do ingresso na instituição e como se dá o processo de adaptação, dificuldades enfrentadas e facilidades disponibilizadas pela mesma, para uma mais adequada permanência, considerando que nem todos os idosos chegam a esses espaços por livre escolha.

Benedita Edina da Silva Lima Cabral e Kátia Ramos Silva

apresentam Imagens de si, imagens do outro: construção de

identidades e alteridade entre idosas, texto em que discutem como se dá o encontro e/ou embate entre as diferentes velhices, identificando fronteiras e aproximações entre a chamada velhice ativa/saudável e a velhice institucionalizada/doente/pobre para perceber como os membros de cada grupo social se reconhecem no outro.

Ancoragem das representações sociais: o lugar do velho na

percepção de estudantes de enfermagem é o artigo apresentado pelas pesquisadoras Raimunda Silva d’Alencar, Andréa Evangelista Lavinsky, Talita Machado Levi e Ariadne Nascimento Santos com o propósito de compreender como jovens acadêmicos de enfermagem constroem e expressam as representações em torno da velhice e o lugar ocupado por esse segmento em diferentes instâncias como universidade, família, trabalho.

O artigo Representação social da pessoa idosa: percepções de

jovens-adultos do estado de Goiás foi apresentado pelas pesquisadoras Ivone Félix de Sousa, Marli Bueno de Castro, Wanny Carolie Teixeira Nunes e Larissa Cole, cujo propósito foi medir prevalências das representações sociais positivas e negativas em relação à pessoa idosa.

Amanda Dias Vieira e Wagner Augusto Hundertmarck Pompéo exploram aspectos da representação social dos idosos em período pretérito e atual, apontando perspectivas de futuro no artigo

Representação Social e Terceira Idade: aspectos e (novas)

perspectivas.

Idosas no contexto da vida cotidiana: como percebem o corpo, apresentado por Raimunda Silva d’ Alencar, buscou compreender as representações que as idosas constroem sobre seus próprios corpos, os componentes afetivos e cognitivos ligados à compreensão e percepção do corpo, sobre um corpo ideal, e como os significados que constroem afetam as práticas cotidianas de autocuidado.

Vania Herédia e Josiane Bonvolini disponibilizaram o trabalho

Representações da velhice no olhar dos jovens, objetivando apresentar as diversas percepções que os jovens têm sobre o envelhecimento humano, construindo elementos para a discussão sobre o tema, levando em consideração que a caminhada existencial pode ser planejada pelos jovens enquanto jovens.

Rita de Cássia da Silva Oliveira, Paola Andressa Scortegagna e

Flávia Oliveira Alves da Silva apresentam o artigo Múltiplos olhares

sobre a velhice: representações sociais a partir da percepção de

crianças, adultos e idosos, objetivando refletir sobre diferentes representações sociais da velhice a partir da perspectiva de crianças, adultos e idosos.

Talita Santos Oliveira Sampaio, Lucas Silveira Sampaio, Claudia Ribeiro Santos Lopes, Hernane Borges de Barros Pereira e Alba

Benemérita Alves Vilela apresentaram o artigo Relações

estabelecidas entre idosos e familiares em estado de corresidência onde discutiram as significações decorrentes das relações estabelecidas entre idosos cadastrados na área de abrangência de duas Unidades de Saúde (USF) e respectivos familiares corresidentes.

Representações sociais da intergeracionalidade no boi brilho do

SESC de São Luís/MA, apresentado por Conceição de Maria Goulart Braga Cuba, aponta o significado da presença das mulheres com 60 anos e mais no Boi Brilho do SESC em São Luís, interagindo com crianças de seis até doze anos incompletos e adolescentes de doze a dezoito anos de idade, revelando novas possibilidades de envelhecer e uma identidade alternativa da velhice.

A representação socioeducativa da velhice Precavida é o trabalho apresentado pelo Prof. Miguel Arturo Chamorro Vergara propondo a construção de um espaço de sociabilidades, que está chamando Precavida, para que idosos se encontrem e, a partir de vivências conjuntas, ressignifiquem o próprio processo de envelhecimento, buscando alternativas capazes de superar os estereótipos com que ainda são tratados.

O livro A Representação Social na Construção da Velhice, ao tratar de diferentes questões a respeito do envelhecimento e da velhice, retirando-lhes a homogeneidade com que ainda são encarados esses processos, dada a sua pluralidade, complexidade e ambiguidade, insere questões que ampliam a discussão a respeito dos lugares socialmente estereotipados que parte da sociedade ainda atribui a uma importante parcela desse segmento.

A partir das representações sociais construídas por crianças, jovens e o próprio idoso, sobre educação, corpo, trabalho, família, corresidência, cultura, identidade, alteridade e as possibilidades de desconstruir a associação linear da velhice com doenças, perdas, fragilidade, o livro acrescenta e estimula o leitor a investigações mais aprofundadas sobre esses temas.

Devo registrar aqui o meu mais sincero agradecimento aos colaboradores desta publicação, por compartilharem suas ideias, e aproveito para realçar o orgulho de reunir profissionais de elevada qualificação técnica, pesquisadores envolvidos ativamente na produção de conhecimento em torno de questões da velhice e envelhecimento.

Reitero agradecimentos a todos os autores e potenciais leitores deste livro.

Ilhéus, Bahia, 2017