A representação social na construção da velhice
A representação socioeducativa da velhice Precavida
A representação
socioeducativa da velhice
precavida
Miguel Arturo Chamorro Vergara
Introduzindo
O envelhecimento da população, crescente ano a ano, traz um rico suporte de saberes e interesses acerca dos processos através dos quais atrelam-se funções e papéis da longevidade. Esses saberes permitem que se relativize visões já condenadas, mas ainda prevalentes, sobre a velhice e as ideias de desvínculo, afastamento social e rejeição da pessoa velha por parte da sociedade. Da mesma forma, também é possível desconfiar do vitalismo, da cultura do rejuvenescimento, das possibilidades e potencial medicamentoso à disposição da velhice com promessas de frear e retardar o natural processo do envelhecimento, abrindo espaço para críticas a adoecimentos e perdas, responsabilizando os velhos por essas ocorrências, até recentemente próprias da vivência do envelhecer.
Não se têm dúvidas de que estas e outras concepções pesam nas fragmentadas ideias apriorísticas do envelhecimento, revelando-nos de fato um conhecimento complexo, mas incompleto, porque em construção, na medida em que a velhice é ressaltada pela vivência e valorizada pelo protagonismo das pessoas. O envelhecimento é, de fato, uma problemática sociocultural desafiadora, por representar uma “realidade latente” que deve ser enfrentada por cada ser humano em situação social específica, conforme D’ Alencar (2013).
Nesse sentido, toda iniciativa de procurar nas teorias do pensamento social algumas categorias de análise voltadas para uma leitura da representação social do indivíduo que envelhece permite perceber uma perspectiva preventiva e educativa capaz de preservar, de forma íntegra, a velhice na sociedade.
Ao teorizar sobre o estado integrativo dos sistemas sociais, Mills (1960), por exemplo, levou em conta a influência da interação social entre os diferentes sistemas/ subsistemas, comunidades locais e organizações formais, além de elementos tradicionais da sociedade (como a cultura, valores, crenças) e a personalidade dos indivíduos, mostrando como esses aspectos, em conjunto, exercem um papel importante no processo de mudança do sistema social.
Acrescente-se ainda que a análise da ciência social é, também, qualificada pela qualidade e lugar do investigador enquanto integrante ou não do mundo social estudado, situação que influencia seus julgamentos, impregnados de valores, ideias, pensamentos (BASTIDES, 1974). Essa questão é também referida por Melucci (2005) quando questiona as práticas de pesquisa introduzidas com a aproximação cada vez maior do pesquisador com os fenômenos sociais com os quais está trabalhando, o que significa que o investigador partilha das práticas sociais onde a ação social de pesquisa está momentaneamente desenvolvida.
Nesse sentido, o interesse por desvendar o fenômeno do envelhecimento foca-se na verificação de como a velhice é vivenciada e representada na sociedade atual, e a partir de quais pontos de vista pode-se fazer uma leitura da pessoa que envelhece enquanto parte integrante de toda a construção e representação social.
A possibilidade de tal interpretação coloca o envelhecimento como um sistema social de caráter integrativo, na medida em que a vivência do envelhecer é construída em ambiente onde é possível o compartilhamento do processo, bem como a busca pelo protagonismo, por parte da pessoa envelhecente.
Esse pensamento concebe a importância da liberdade existencial dos atores não como um tema central nas ciências sociais, porque este encarna uma histórica discussão de interesses filosóficos, mas como liberdades que são exercidas no cotidiano, a exemplo das políticas, consumo, comodismo, práticas religiosas e culturais. Há de se entender que as liberdades sociais são limitadas na vida moderna, embora incorporem rica trama de emancipações sociais dos indivíduos (SIMMEL, 1986).
As liberdades vivenciadas no processo do envelhecimento evocam espaço cada vez maior, tanto na dinâmica sociocultural quanto no aporte interpretativo das visões de mundo, de saberes e demandas da velhice, expressas em diferentes circunstâncias e interações, como as sociabilidades, pertencimentos, conflitos e convicções, que podem contribuir para uma ação precavida para envelhecer com qualidade de vida, o que significa educativamente processar uma conscientização do percurso vital da vida social que traz o envelhecimento urbano. A partir dessa perspectiva, será possível construir estratégias e alternativas que venham promover uma estruturação socioambiental do envelhecimento, com autonomia, capacidade ecológica e cognitiva para as pessoas que envelhecem.
Nesse sentido a ação socioeducativa valoriza o aporte dado pelas representações sociais da vida cotidiana, desde uma perspectiva crítica das relações sociais, em especial aquelas construídas pelo segmento idoso nos saberes da vida cotidiana.
Não se pode omitir, no entanto, as diferentes visões em torno da velhice que alinham uma base quase sempre generalizada, focadas nas questões de integração, doença e qualidade de vida, apontadas como situações centrais para pessoas nessa etapa da vida.
Por conta disso, toda relevância das atribuições dadas à imagem da velhice oferece influências sobre o processo em si, importando conhecer a significação dessa imagem atribuída e absorvida pelo próprio velho, em que o significante muda de acordo com interesses e possibilidades de concretude da vida em sociedade.
Nessa perspectiva interpretativa, a interioridade dos saberes da consciência social do indivíduo pode oferecer um campo de dados para análise dos conteúdos da experiência do envelhecimento social de acordo com as especificidades referenciadas do contexto sociocultural onde acontece e está inserido.
2 A representação da velhice
A representação social da velhice elucida um processo de estruturação da consciência humana, seja por diversos sentidos dos estados mentais ideológicos impostos, muitas vezes, incongruentes a vida social, adotando uma dependência e ressonância nos modos de agir e pensar da população idosa.
Infelizmente, uma representação da velhice a partir de juízos de valor que delimitam a visão da velhice para sintomas, desgaste físico, perda de capacidades motoras e mentais, cujo foco está centrado na concepção predominante da ciência médica, expressa a inevitabilidade do declínio dessas capacidades (MARCHAND, 2001). Esta perspectiva de velhice acaba determinando-a como produto biológico, em que o organismo que envelhece se transforma e vai perdendo progressivamente suas faculdades.
Ao contrário disso, quando se concebe a velhice a partir do meio social onde ela ocorre, tenta-se levar em conta fatores pessoais e sociais do ambiente históricosocial em que vive a pessoa, e as possíveis influências dessa interação entre o indivíduo e seu meio (GUBRIUM, 1972). Abordar uma perspectiva sociocultural na questão do envelhecimento envolve um conjunto de significados utilizados pelos grupos sociais sob diferentes aspectos. Não se têm dúvidas de que o significado de ser velho tem levado em conta ideias, conceitos e valores simbolicamente construídos pelos grupos sociais, tendo em vista os diferentes momentos históricos e as diferentes sociedades. Essa compreensão favorece o repúdio à velhice, considerada sempre propensa a doenças, à dependência de remédios, médicos e cuidadores e, mesmo, ao pouco interesse pela vida.
No entanto, por outra parte, nas liberdades individuais estabelecem vínculos e sociabilidades dotadas de sentimentos para satisfazer necessidade de comunicação, gerando um processo de identificação social de pertencimentos. É positiva a potencialidade do vínculo social na velhice, motivando-a à construção de um processo de identificação e auto-organização social. As formas de sociabilidade, segundo Gurvitch (1941), estimulam as consciências sociais a prever necessidades de ações coletivas, porque existem desejos individuais que convergem para interesses comuns e coletivos.
Essa forma de interação social voluntária gera um processo espontâneo de consciência social, promovendo um pluralismo de significados estimulados por símbolos, ideias e valores que o psiquismo humano lhes atribui e que se revelam nas demandas e acordos humanos. Numa sociabilidade, estabelece-se um processo enriquecedor de interiorização humana, que pode revelar uma dimensão ainda desconhecida da vida social, vivenciada através de envolvimentos e da convivência.
Embora seja real o despreparo da sociedade para viver e conviver com a velhice, têm crescido tentativas de auxílio a quem se aproxima desse estágio, de modo a enriquecer-se sem diminuir-se enquanto ser humano que consegue viver mais. Ainda assim, a sociedade ainda não se acostumou com a ideia de que é necessário pensar e planejar o envelhecimento. Vive-se o despreparo, a recusa, a negação do próprio envelhecimento, atitude que reflete a imagem ainda negativa associada à velhice.
Inserir a representação social como possibilidade de compreender o processo do envelhecimento, é considerar, em primeiro lugar, que o comportamento humano envolve componentes sociais, além do que a representação que um grupo elabora sobre o que deve fazer para criar uma rede de relações entre seus componentes exige a definição de objetivos comuns e procedimentos específicos. Em segundo lugar, compreender que a noção de representação social, além de ter sido fundante no desenvolvimento da sociologia e antropologia, trouxe como categoria de análise um conhecimento socialmente elaborado, utilizado para descrever as respostas sociais dos indivíduos, assim como as crenças e significados que emergem das interações cotidianas que lhes são significativas.
O conceito de representação social, de Emile Durkheim, já esquecido para muitos autores, vem sendo utilizado amplamente nas ciências humanas, desde Serge Moscovici, nos anos sessenta do século passado, que o deslocou da órbita da sociologia para deixá-lo gravitar na da psicologia social. Moscovici (2001) questiona a separação do individual e do coletivo feita por E. Durkheim e, de alguma forma, contestando a divisão entre o psíquico e o social, elabora a interseção indivisível dessas duas dimensões. A representação social é, então, compreendida como uma organização de imagens e de linguagem que simboliza atos e situações de uso comum. Como afirma Farr (1995, p. 37), a teoria da representação social “é uma forma sociológica de psicologia social”.
No contexto contemporâneo da sociedade, os aportes da
psicologia social1 trouxeram importante contribuição no que diz respeito a teorizações metodológicas através de um corpo de ideias e procedimentos que ampliam a leitura das relações sociais, a partir das subjetividades socioculturais. Esta ferramenta permite explorar o mundo social mas, em especial, o mundo das percepções dos sujeitos, com seus comportamentos e atitudes na dinâmica da vida, o que sugere a necessidade de apreender as suas diferentes formas de representação, situando-as em uma metodológica precavida, para possibilitar uma estruturação social do envelhecimento sem determinismo. Essa metodologia é uma ação interativa propícia a precaver a vida social do indivíduo que envelhece sob pressões históricas da sociedade quanto estrutura social que aprisiona e limita sua autonomia, fazendo perder sua liberdade e qualidade de vida.
A busca pelo significado do envelhecer deve considerar ideias, conceitos e valores construídos simbolicamente por diferentes grupos, em diferentes contextos históricos.
Numa abordagem integral do envelhecimento, responder aos fatores de desengajamento ou afastamento do indivíduo, colocando-o como um ator passivo, sem explorar os motivos de tal afastamento da estrutura social, significa limitá-lo a perda de papéis, tornando seus conhecimentos obsoletos. Não se pode desconsiderar que esses fatores expressam situações sócio-históricas da vida cotidiana que permitem reconhecer a influência de elementos contextuais como obstáculos, limitações e desafios que exigem interpretação mais aprofundada das subjetividades da velhice.
Entretanto, para aceder ao conteúdo subjetivo e às características comportamentais desses atores sociais, é preciso instrumentalizar a representação construída do envelhecimento, enriquecendo-a com suportes teóricos, refinando o campo metodológico do sistema social onde se encontra a velhice.
Partindo dessa premissa, as representações do envelhecimento enquanto fenômeno humano expressam-se nos espaços de convívio e de participação na vida social. Beauvoir (1990) explica que a velhice precisa aprender a lidar com sua imagem, às vezes incerta, confusa e contraditória, situada dentro de uma problemática complexa, em que cada indivíduo, ao assumir seu destino, traz à reflexão o sentido que confere à própria existência.
O envelhecimento não pode ser reduzido a meras visões ideológicas, incluindo um conceito abstrato criado no início do século XX – a terceira idade –, o qual configura um discurso dominante como problema social, sendo a idade de 60 anos o critério de classificação para fixar a decadência humana. Contrariamente a isso, a iniciativa de desconstrução que trabalha a ideia de percurso e descontinuidade da vida madura visando uma auto-organização valoriza as trajetórias individuais e coletivas dos cuidados. Sobretudo, enfatiza práticas socioeducativas capazes de ser transmitidas às gerações seguintes para a continuidade da vida (BERGER; LUCKMANN, 1999).
A representação da velhice convive com atribuições significativas em torno de um sistema de convenções inserido em determinada cultura (D’ALENCAR, 2013), portanto, em situações específicas, determinadas, e em interações sociais as mais diversas. Essa vivência realça a necessidade do exame das liberdades de escolha do sujeito em torno das possibilidades e limitações a serem enfrentadas, da mesma forma que realça também a flexibilidade e pluralidade identitária de ser velho. O que d’Alencar revela interessante levar em conta é que:
[…] o problema com a velhice não é a velhice em si, mas a maneira como o
próprio idoso e os outros se colocam perante ela: o idoso se vê e é visto em
lugar onde seus projetos já foram realizados ou estão abandonados.E todos
sabemos que, sem reconhecer o valor da existência e os aspectos da
condição humana, não é possível compreender a velhice, em especial
quando ela perde o poder de reivindicação e o poder de exigir o
cumprimento daquilo que é de direito: repeito, dignidade, cidadania (2013, p.
51).
Essa dinâmica das ressignificações da velhice e do ser idoso num mundo contemporâneo representado traz um cenário complexo de restrições e possibilidades oferecidas no processo estrutural da sociedade em que regras e normas imposta, conforme Durkheim (1960), pautam uma vida social regida, gerada por uma ordem externa ao indivíduo para exercer o caráter impessoal da suas liberdades e decisões. Por conseguinte como superar as atitudes e modelos de velhices pautados, padronizados da sociedade que auxilia a domesticação da formação da sua imagem?
Por isso, ao observar o mundo social em torno da construção da imagem da velhice, pode-se afirmar que a representação social reduz as individualidades e singularidade dessa velhice, considerando que a vida social é normatizada, reprimida pela regra, como afirma Durkheim:
Mesmo estando de acordo com sentimentos que me são próprios, sentindo-
lhes interiormente a realidade, esta não deixa de ser objetiva: pois não fui eu
quem os criou, mas recebi-os através da educação.Contudo quantas vezes
não ignoramos o detalhe das obrigações que nos incumbe desempenhar e
precisamos para sabe-lo consultar o código e seus intérpretes autorizados.
Assim também o devoto ao nascer encontra prontas as crenças e as práticas
da vida religiosa, existindo antes dele porque existem fora dele.O sistema de
sinais que me sirvo para exprimir pensamentos, o sistema de moedas que
emprego para pagar as dívidas, os instrumentos de crédito que utilizo nas
relações comerciais, as práticas seguidas na profissão etc, etc. Funcionam
independentemente do uso que delas faço…. Estamos pois diante de
maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade
marcante de existir fora das consciências individuais (DURKHEIM, 1960, p.
2).
A explicitação focada na origem social proveniente de esquemas de pensamento, de percepção e ação, estabelece uma correspondência entre as estruturas sociais e as estruturas simbólicas dos indivíduos, por meio das quais é visualizado o processo de assimilação das representações coletivas. Nesse sentido, a liberdade do envelhecer está representada no determinismo estrutural da sociedade, que institucionaliza ações reguladoras para o envelhecimento.
Esse processo estruturante da sociedade, ao assimilar o capitalismo como sistema socioeconômico, segundo Karl Marx, contribuiu expressivamente para restringir as liberdades, ao não considerar os indivíduos como pessoas concretas e, sim, como entes abstratos como comprador, vendedor, empregador e empregado. Nessa concepção, o homem deve ser visto de acordo com suas condições e situações sociais, já que produz sua existência em grupos pertencentes a classes sociais, a exemplo da burguesia/ operariado. Levando-se em consideração que a liberdade é uma realização autônoma da autoconsciência do homem, a luta pela liberdade é uma ação emancipadora, ante os limites propostos pela burguesia, com restrições da vida humana, seja pela jornada de trabalho, seja pelo regime assalariado.
Entretanto, as restrições na vida social a partir das motivações individuais como afirma Max Weber (1979) não condicionam o ato de comunicar, permitindo ao indivíduo emancipar-se na relação com os outros, escolher a ação social que lhe convém, por seus comportamentos e condutas, dependendo das situações apresentadas no momento.
O envelhecimento representado tem essa dinâmica em que o sujeito que envelhece projeta-se no objeto das suas vivências, e não meramente nas ideias da velhice padronizada. É indiscutível que o indivíduo só pode ter reconhecimento porque ele mesmo conta sua trajetória de vida.
Quando esse indivíduo passou a morar na cidade, o cenário do envelhecimento é urbano, e o processo de agregação a multidões se manifesta, segundo Simmel (1986, p. 2), da seguinte forma:
El tipo del citadino - que se manifiesta naturalmente en una multitud de
formas individuales - crea para sí mismo un órgano de protección contra el
desarraigo con que lo amenazan la fluidez y los contrastes del medio
ambiente; reacciona ante ellos no con sus sentimientos, sino con su razón, a
la cual la exaltación de la conciencia - y por las razones mismas que la
hicieron nacerle confiere primacía; así, la reacción a los fenómenos nuevos
se ve transferida al órgano psíquico menos sensible, el más alejado de las
profundidades de la personalidad.
Vê-se o desafio de abordar a vida subjetiva em relação à convivência cotidiana, relações e reações entre homens, ambiente e coisas. Uma das possibilidades é situar a representação social no contexto da dinâmica interativa entre pessoas idosas e suas sociabilidades, construídas pela espontaneidade dos desejos e operações mentais, fundamentais para o entendimento do processo comunicativo do indivíduo no seu cotidiano, elementar para toda a sociedade.
Simmel nos coloca frente a essa liberdade conquistada pelos indivíduos
Los problemas fundamentales de la vida moderna provienen del hecho de
que el individuo anhela a cualquier precio —ante las fuerzas aplastantes de
la sociedad, de la herencia histórica, de la civilización y de las técnicas—
preservar la autonomía y la originalidad de su existencia: último avatar del
combate contra la naturaleza que el primitivo debe entablar para asegurar su
sobrevivencia física. El siglo XVIII pudo apelar al hombre a que se liberara de
todos los vínculos tradicionales (en el Estado y la Religión, la Moral y la
Economía) a fin de que se desarrollara sin trabas su naturaleza,
originariamente buena e idéntica en todos; el siglo XIX pudo a su vez
proclamar, al lado de la libertad, el carácter único de cada hombre y de sus
actividades, mediante la división del trabajo que hace al individuo irreductible
a los otros e irremplazable en la medida de lo posible, pero que lo hace,
simultáneamente, depender de sus semejantes; Nietzsche, en fin, pudo ver
en la lucha más desenfrenada de cada uno contra todos —o el socialismo
pudo ver en la supresión de toda competencia— la condición del desarrollo
completo de la persona; en todos esos esfuerzos se manifiesta el mismo
tema fundamental: la resistencia del sujeto, que siente la amenaza de ser
nivelado y usado por un mecanismo a la vez social y técnico (SIMMEL 1982,
p. 1).
Quando o envelhecimento se organiza em direção ao aprendizado da maturidade, o indivíduo é comunicado sobre os assuntos de um sistema social vivo, de práticas comuns, de maneiras de envelhecer consciente, daquilo que faz parte de nós e ocorre com a chegada da velhice.
Assim, as velhices concebidas enquanto construções sociais comunicam seu processo situacional, relacional, contextual e trazem uma crítica ao sistema ainda prevalecente que, na sua pretensão racionalista, mecanicista e positivista não ressaltam em profundidade as nuances das intersubjetividades, dentre as quais a exposição das liberdades de escolhas dos indivíduos para ser e viver o curso da própria velhice.
Esta é uma das riquezas da representação social, porque traz nas dimensões do mundo interativo a convivência da realidade subjetiva e da ação significativa da interação. Em termos ideais, especialmente para esse segmento etário, tanto a liberdade, como a independência e a autonomia, que Debert (1999, apud BARROS, 2011) chamou a reprivatização da velhice, correspondem à responsabilização que tem o indivíduo com o seu próprio bem-estar e autocuidado. Na interação com o ambiente social, os indivíduos se reapropriam da realidade de forma criativa, impondo maneiras de viver a vida através de táticas, estratégias e improvisações, de acordo com as circunstâncias (CERTEAU, 1998).
A velhice, por ser uma experiência heterogênea e comum, tem diversos repertórios, levando-se em consideração as crenças dos indivíduos. Para Goffman (2001), as representações permitem examinar uma dramaturgia da vida social a partir da crença do indivíduo na impressão da realidade social. O indivíduo é, para esse autor, um ator social que encena, apresenta a realidade e pode fabricar ou remodelar situações sociais de interesse. A relevância da representação dos atores está diretamente ligada ao conteúdo da interação realizada. Conforme o autor, “um indivíduo pode estar convencido de seu ato ou ser cínico a respeito dele” (GOFFMAN, 2001, p. 27). Nesse sentido, a representação social do indivíduo adquire importância quando é possível avaliar os papéis sociais que este exerce e dá a conhecer.
O drama da velhice é que ela não apenas enfatiza o recalque social de estar ou sentir-se velho, ou de ser visto e tratado como decadente ou inútil, mas reflete uma representação negativa. Milene (2008), ao desenvolver estudo com mulheres idosas, explorou os conteúdos negativos e percebeu o discurso significativo do medo, da solidão, do choro e das emotividades expressas nas experiências distintas da vida cotidiana. Essas emotividades mostram como, na pluralidade e diversidade das representações, os pensamentos, as emoções e sentimentos de outros se assemelham aos nossos. Nesse sentido, a dimensão emocional do ser humano, conforme Goleman (2001), exerce uma força interior significativa à vida. Por isso, o conteúdo dos nossos sentimentos e anseios é essencial para o reconhecimento da vivência cotidiana, sobretudo em situações de perigo e desafios enfrentados.
As emoções desempenham funções concretas, preparam o corpo para diferentes respostas, tais como a raiva, o medo, a felicidade, o amor, os sentimentos de afeição, surpresa, tristeza, todos intrínsecos à sobrevivência humana. As sensibilidades humanas, nas dimensões do mundo social, refletem encontro e partilha com nossos semelhantes, quando trocamos experiências pessoais e coletivas. Nas palavras de Schutz (1979, p. 33),
…En cambio en la vida cotidiana, cuando comparto, por motivos pragmáticos
comunes, encuentro listas las construcciones y presupongo que puedo
captar los motivos de mis semejantes y comprender adecuadamente sus
acções para todos los fines prácticos.
O reconhecimento das representações sociais como um sistema de interpretação da relação do indivíduo permite observar suas ligações e transformações sociais (JODELET, 2001). Como diz essa autora,
de fato representar ou se representar corresponde a um ato de pensamento
pelo qual um sujeito se reporta a um objeto. Este pode ser uma pessoa,
quanto uma coisa, um acontecimento material, psíquico ou social, um
fenômeno natural, uma idéia, uma teoria, etc. Pode ser tanto real quanto
imaginário ou mítico, mas é necessário. Não há representação sem objeto
(JODELET, 2001, p. 22).
Este significativo pensamento da autora realça a valorização da dinâmica social que sustenta a representação social, sendo ambas fenômenos de aderência às formas de pensamento dos indivíduos, ou do grupo a que pertencem, seja pelas solidariedades ou pelas afiliações sociais. Este caráter prático da representação assinala sua força na ação e relação do mundo social, sobretudo na apresentação e reconstrução do objeto, formas de saber, suportes de linguagens, discurso, imagens, crenças, elementos culturais, dentre outros.
As representações dominantes das ideologias construídas sobre o envelhecimento passam pelas mentalidades das velhices bem-sucedidas, excluindo-se as doentes, inúteis, consumistas, assim como seus sonhos, reconstruídos a partir da reformulação do curso de vida, em resposta a desejos postergados, ou liberdades reprimidas.
Em função disso, torna-se imprescindível verificar na representação das velhices no sistema social a relação institucionalizada ou padronizada que a sociedade estabelece sobre as representações do envelhecimento na velhice das pessoas.
Em autores como Mills (1960), encontra-se uma leitura do sistema social no que se refere à capacidade dos indivíduos em representar no ambiente onde estão inseridos, fazendo-os integrantes do processo de participação social. Do ponto de vista desse autor, a ação social tem sua importância para a melhoria da qualidade de vida de pessoas, especialmente as de classes sociais menos favorecidas. Para ele, a sociedade é formada por sistemas e subsistemas, que vão proporcionar às pessoas, de um modo geral, uma qualidade melhor de vida através de diferentes buscas, levando em consideração a influência da cultura na sociedade. Com esse sistema estrutural-funcional, é possível analisar os valores partilhados e interiorizados pelos velhos, quando padrões socioculturais intervêm na suas representações.
Também essa dinâmica está atrelada à sociabilidade, estimulada pelas aproximações e interações, prontas para estabelecer as necessárias convergências de trocas, de valores, de emoções. Integração, pertencimento e interação são ingredientes importantes no processo do envelhecimento ativo, capaz de proporcionar autonomia e preservação das capacidades cognitivas e físicas.
Na visão de Schutz (1979), este processo interativo leva o sujeito à apreensão e socialização através de experiências dentro de um mesmo ambiente vivido por outros, conferindo-lhe um estoque de conhecimentos construídos a partir da intersubjetividade.
Essas contribuições das ciências sociais na questão do envelhecimento destacam o velho enquanto sujeito que tem papéis e funções sociais, está inserido em contextos de culturas específicas, convive com outros sujeitos no mesmo ambiente, participa, interage, e se constitui em sujeito de ação, em autor da própria vida. O requerimento por qualidade de vida, pela preservação da capacidade física e cognitiva, requer também que condições sejam disponibilizadas e acessíveis à população envelhecente, estimulada a lutar por direitos. Assim este sujeito do campo da pesquisa social: como é a vida cotidiana do “idoso” e o exame que nos empenhamos a fazer do seu envelhecimento traz um campo amplo e diverso de interesse empírico, situando num dos fenômenos sociais observáveis da Sociedade.
3 Ação socioeducativa na velhice –
intervenção “precavida”
Todo processo de envelhecimento requer interação constante com o ambiente social e representa possibilidades da vida que desejamos levar em nosso cotidiano. Nessa procura, é possível situar metodologicamente a vivência precavida voltada para a velhice como uma forma preventiva e intersubjetiva, e uma alternativa socioeducativa de interação entre idosos e não idosos, residentes em diferentes bairros e espaços sociais da vida urbana a participarem de saberes e conhecimentos de autocuidado da velhice disponibilizados por iniciativas voluntárias de profissionais de diferentes áreas do conhecimento, de orientações de educador físico, sociais, nutricionistas e dos próprios saberes de idosos para propiciar um processo de estruturação benéfica para sua velhice.
Este processo está encar nado dentro da perspectiva sociocultural da pessoa, funcionando na base dos significados das representações dos indivíduos. Parte-se da escolha da estratégia espacial constituída por um segmento social constituído por sociabilidades, afetos, interesses comuns através da formação de grupos pequenos na vida social onde interage uma faixa etária variável de idade: jovens, adultos e idosos.
Esses grupos pequenos são convidados a vivenciar o enfoque precavido da velhice nessa perspectiva intergeracional, propiciando atividades coletivas de conscientização a respeito do autocuidado do envelhecimento social.
A vivência da velhice precavida anima e motiva o potencial de cada idoso que integra o grupo, explorando habilidades e reforçando no indivíduo o sentido da vida, escrevendo, pintando, criando, trabalhando, partilhando, celebrando, exercitados no seu próprio tempo, na sua cotidiana rotina, como forma de reconhecer-se e ser reconhecido redescobrindo, no processo existencial, as possibilidades da disposição e limitações no ser humano, em que a vida acrescenta coisas a realizar, criando um sentimento profundo do vivido, revivido e ainda por viver.
Por outra parte, as emotividades do corpo social empreendidas em sociabilidades dos espaços da escola, das igrejas, das associações, assim como na vizinhança do bairro, amigos, família etc. permitem partilhar e conviver com demandas de uma sociedade em conflitos com a pessoa idosa.
A ação socioeducativa precavida é um procedimento metodológico voltado a interagir nesses grupos pequenos nos quais há pessoas envelhecidas e não envelhecidas de diversas condições e categorias sociais do espaço social urbano para estimular a vivência e os significados de um envelhecer participativo a partir de saberes locais e conhecimentos interdisciplinares que aportam a problemática da velhice.
Entre as demandas de uma velhice precavida estão aquelas atreladas ao corpo-saúde, à cultura e pertencimento ao ambiente social, mantendo relações socioafetivas e nelas transmitindo saberes e conhecimento de autocuidado. O envelhecimento traz consigo um complexo processo de desgaste corporal, de medos de doenças crônicas e, com elas, a dependência de consumo de medicamentos, de assistência médica constante e dependências de outras pessoas inclusive para deambular. Essas situações têm repercussões importantes nas relações socioculturais, pois interferem na longevidade e comprometem a qualidade de vida.
Nesse sentido, a busca da qualidade de vida na velhice exige mudança das percepções dos problemas da realidade da velhice para uma autoafirmação e integração social. Por isso a necessidade de inserir na dinâmica desses pequenos grupos sociais os saberes do envelhecimento para serem integrados às relações sociais, culturais e afetivas, com liberdade de escolha Nesse sentido, no Precavida, são os indivíduos que escolhem o que desejam fazer.
É necessário compreender e apostar nos ambientes sociais promovidos por estes pequenos grupos, pois representam o microcosmo da sociedade, uma miniatura de leitura da sociedade (MILLS, 1960). Este foco de interesses pelas relações sociais íntimas dos agrupamentos da sociedade são sistemas sociais de interação grupal e satisfaz, muitas vezes, as necessidades de seus membros de maneira imediata.
Essas razões colocam a velhice e o envelhecimento num campo de oportunidades para o relacionamento com o outro, com o diferente, gerando múltiplos processos de interação. Nesse campo de discussão, o Precavida explora, nesses grupos, os desejos, os sentimentos, as preocupações e, sobretudo, as sabedorias do envelhecer desde um olhar integrativo de todo o sistema social.
Basicamente a vivência precavida funciona através de encontros interativos de caráter socioculturais, motivados por atitudes restauradoras de cuidados com a vida humana, descobrindo a importância do cuidado individual para cuidar do corpo, dos alimentos locais, dos remédios caseiros apropriados e nutritivos, saberes importantes e oportunos da velhice a serem identificados e socializados.
A troca de saberes é abordada a partir de um esquema de três eixos temáticos como: Corpo/Mente/Espiritualidade, que formam um triskle que integra e liga todas as atividades e ações a serem realizadas pelas pessoas.
O corpo. O participante trabalha uma atividade física em grupo, portanto, coletivamente, aprendendo os exercícios baseados em alongamento dinâmico, permitindo desenvolver conhecimentos acerca da importância funcional do corpo, fáceis, simples, capazes de serem realizados em suas próprias casas. São auxiliados com apoio de técnicas corporais estimuladas com bolas de diferentes tipos, bastão com peso, aros de plásticos, cordas, fitas elásticas, cones, bambolês, material acessível para desenvolver um conjunto de exercícios coordenados. São executados os movimentos com acompanhamento de educador físico e instrutor, com aquecimento prévio. Os exercícios e os movimentos são direcionados para a capacidade neuromuscular e cardiovascular, bem como para o aumento da mobilidade articular e de amplitude de movimento angular. Esses exercícios do corpo fortalecem os braços, as pernas e as costas.
A mente. O participante concentra-se na assimilação das informações e conhecimentos sobre temas de interesses atrelados à saúde, à educação alimentar/nutricional e ao uso do tempo livre com atividades de gosto pessoal auxiliado por saberes partilhados dos próprios membros, complementados com palestras, textos, apostilas e oficinas de conhecimentos específicos. Os membros do grupo compartilham diversos domínios de fazeres, como técnicas artesanais, culinárias, decorativas, pintura, jardinagem.
A espiritualidade. Baseada na disposição solidária de cuidado e proteção entre os pares. Aproveita a liberdade religiosa como parte integral de cada um e discute a necessidade de respeito e convivência pacífica, fomentando a solidariedade, indo de encontro a um mundo egoísta, consumista e individualista. Com a realização de atividades integrativas, visitas domiciliares encontros-jornada, passeios, celebrações, meditação reflexiva, orações, tenta-se reforçar a partilha coletiva, ressaltando a pedagogia do próximo.
Uma ação integrativa, como propõe ser o Precavida, trabalha para desconstruir a associação padronizada da velhice, circunscrita apenas às limitações, focada apenas em perdas, em problemas, esquecendo outras potencialidades das pessoas incluídas nessa etapa da vida. O Precavida prega uma vida social mais íntegra à cultura da velhice.
Considerações
No decorrer deste texto, tentou-se fazer uma reflexão em torno do fenômeno social do envelhecimento, envolvendo uma perspectiva interativa das representações em torno da velhice, sinalizando projetos de cursos de vidas, traçando a sociabilidade enquanto trilha para explorar os saberes e significados da população que envelhece, dentro de uma concepção sistêmica da vida, podendo chegar à melhoria da saúde e da qualidade de vida, a partir de retomada de hábitos de responsabilidade pessoal de autocuidado (CAPRA, 2006). Isto faz da velhice um organismo vigoroso que precisa ser preservado.
Esse processo representa um movimento simultâneo como alternativa de mudanças para a compreensão das velhices, provocado pela experiência de integração que promove em cada participante, potencializando a superação da solidão, fortalecimento de vínculos afetivos, sobretudo pelo desamor e ausência de admiração social para com a figura da velhice.
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