A Viúva Simões
Capítulo X
O Rosas balouçava-se em uma grande cadeira austríaca no seu terraço do Flamengo, ouvindo Luciano ler a última carta de Ernestina e uma de Sara, dirigida à mãe. Acabada a leitura, o Rosas deitou ao ar o fumo azul do seu havano e o amigo perguntou-lhe:
— E então?!
— É o que eu dizia: você tem de casar com ela!
— É boa! Se a gente tivesse de casar com todas as mulheres a quem faz a corte!...
— Mas você foi mais longe do que isso!
— Aqueles olhos põem-me tonto! A verdade é esta: eu amo Ernestina, mas não quero casar com ela...
— Por quê?!
— Não sei! aquela filha... o gênio dela mesmo, incomoda-me, irrita-me! Você não vê esta carta? Manda a filha para Friburgo e é exatamente agora que me pede para não ir vê-la!
— Muito bem. Isso compreende-se... é uma mulher honesta... você, que diabo! é um homem perigoso! Mas, deixe-se de histórias! peça a viúva e case-se. É mulher garantida, vê-se por essas cartas. Afinal, você gosta dela... lá por embirrar com a filha não é razão! O caso é outro. Você é um galanteador e julga que as mulheres nasceram só para joguetes do seu capricho...
— Bonito! Ponha-se agora com frases...
— Ora! quantos amores já lhe conheci! Mas o tempo passa. Vá-se ver ao espelho! Tem já muitos cabelos brancos e olhe que por ter vindo de Paris não pense que não haja por aí outros mais chics...
Luciano relia a carta de Sara.
— A pequena não escreve mal...
— É muito expansiva!
— Você não compreende? A mãe quer catequizar-me com as cartas da filha.
E guardando os papéis no bolso:
— Bem! Ela talvez deseje que eu lhe desobedeça...
— É até provável que conte com isso...
— Acha?
— Ora! com certeza.
— Pois não vou; há de chamar-me primeiro, se quiser. Hoje vou passar a tarde com...
— Clara Silvestre?
— Não! com o Henrique Bastos... ele convidou-me para um passeio a S. Paulo, vou-lhe dizer que aceito.
— Faz bem.
Entretanto, Ernestina sentia-se febril, quase doente de ansiedade, esperando o momento em que Luciano fosse pedir oficialmente a sua mão. Ele escrevia-lhe de S. Paulo, mas as cartas iam rareando e as saudades crescendo. Ernestina foi duas vezes a Friburgo; afogava a filha em beijos e abraços e voltava com uma enorme lista de encomendas que acrescentava sempre com mais tetéias e gulodices. Todavia, sentia nessa dura experiência ser impossível viver longe da sua querida Sara, e teimava em prolongar a separação, pagando com lágrimas de saudade esse sacrifício.
Três meses depois da ausência, Luciano voltou a casa de Ernestina; encontrou-a em doce palestra com D. Candinha Nunes. Sara voltaria no dia seguinte. Ernestina estava radiante. Ele achou-a pálida, transparecia nela o cansaço da tristeza e da solidão, embora a alegria do momento a sacudisse nervosamente.
Passaram a tarde no jardim; à noite entraram para a sala, mobiliada de novo, e entretiveram-se vendo os arranjos e modificações feitos em tudo pela viúva para surpreender Sara.
D. Candinha exclamava:
— Qual! não há amor como o de mãe! Vejam como Ernestina pensa na filha!
Luciano abanava afirmativamente a cabeça, vendo Ernestina embaraçada, tateando as coisas,
Às dez horas, como o Nunes não aparecesse, D. Candinha disse:
— Ora, o senhor meu marido esqueceu-se de mim! Seu Luciano, acompanha-me à cidade?
— Até à sua casa, minha senhora.
Despediram-se; e Ernestina, retendo a mão de Luciano, disse:
— Ela chega amanhã!... Vem vê-la?
— Certamente...
Não puderam dizer mais nada... D. Candinha, murmurava já fora:
— Que noite linda!