A Viúva Simões

Júlia Lopes de Almeida · Capítulo 11 de 21

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A Viúva Simões

Capítulo X

 

O Rosas balouçava-se em uma grande cadeira austríaca no seu terraço do Flamengo, ouvindo Luciano ler a última carta de Ernestina e uma de Sara, dirigida à mãe. Acabada a leitura, o Rosas deitou ao ar o fumo azul do seu havano e o amigo perguntou-lhe:

— E então?!

— É o que eu dizia: você tem de casar com ela!

— É boa! Se a gente tivesse de casar com todas as mulheres a quem faz a corte!...

— Mas você foi mais longe do que isso!

— Aqueles olhos põem-me tonto! A verdade é esta: eu amo Ernestina, mas não quero casar com ela...

— Por quê?!

— Não sei! aquela filha... o gênio dela mesmo, incomoda-me, irrita-me! Você não vê esta carta? Manda a filha para Friburgo e é exatamente agora que me pede para não ir vê-la!

— Muito bem. Isso compreende-se... é uma mulher honesta... você, que diabo! é um homem perigoso! Mas, deixe-se de histórias! peça a viúva e case-se. É mulher garantida, vê-se por essas cartas. Afinal, você gosta dela... lá por embirrar com a filha não é razão! O caso é outro. Você é um galanteador e julga que as mulheres nasceram só para joguetes do seu capricho...

— Bonito! Ponha-se agora com frases...

— Ora! quantos amores já lhe conheci! Mas o tempo passa. Vá-se ver ao espelho! Tem já muitos cabelos brancos e olhe que por ter vindo de Paris não pense que não haja por aí outros mais chics...

Luciano relia a carta de Sara.

— A pequena não escreve mal...

— É muito expansiva!

— Você não compreende? A mãe quer catequizar-me com as cartas da filha.

E guardando os papéis no bolso:

— Bem! Ela talvez deseje que eu lhe desobedeça...

— É até provável que conte com isso...

— Acha?

— Ora! com certeza.

— Pois não vou; há de chamar-me primeiro, se quiser. Hoje vou passar a tarde com...

— Clara Silvestre?

— Não! com o Henrique Bastos... ele convidou-me para um passeio a S. Paulo, vou-lhe dizer que aceito.

— Faz bem.

 

Entretanto, Ernestina sentia-se febril, quase doente de ansiedade, esperando o momento em que Luciano fosse pedir oficialmente a sua mão. Ele escrevia-lhe de S. Paulo, mas as cartas iam rareando e as saudades crescendo. Ernestina foi duas vezes a Friburgo; afogava a filha em beijos e abraços e voltava com uma enorme lista de encomendas que acrescentava sempre com mais tetéias e gulodices. Todavia, sentia nessa dura experiência ser impossível viver longe da sua querida Sara, e teimava em prolongar a separação, pagando com lágrimas de saudade esse sacrifício.

Três meses depois da ausência, Luciano voltou a casa de Ernestina; encontrou-a em doce palestra com D. Candinha Nunes. Sara voltaria no dia seguinte. Ernestina estava radiante. Ele achou-a pálida, transparecia nela o cansaço da tristeza e da solidão, embora a alegria do momento a sacudisse nervosamente.

Passaram a tarde no jardim; à noite entraram para a sala, mobiliada de novo, e entretiveram-se vendo os arranjos e modificações feitos em tudo pela viúva para surpreender Sara.

D. Candinha exclamava:

— Qual! não há amor como o de mãe! Vejam como Ernestina pensa na filha!

Luciano abanava afirmativamente a cabeça, vendo Ernestina embaraçada, tateando as coisas,

Às dez horas, como o Nunes não aparecesse, D. Candinha disse:

— Ora, o senhor meu marido esqueceu-se de mim! Seu Luciano, acompanha-me à cidade?

— Até à sua casa, minha senhora.

Despediram-se; e Ernestina, retendo a mão de Luciano, disse:

— Ela chega amanhã!... Vem vê-la?

— Certamente...

Não puderam dizer mais nada... D. Candinha, murmurava já fora:

— Que noite linda!