Alexandre Herculano

Manoel Caldas Cordeiro · Capítulo 6 de 6

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Alexandre Herculano

V o Politico

V

O POLITICO

Quando em 1840 Herculano foi eleito deputado por Cintra, teve occasião de pedir a palavra no parlamento; tinha uns apontamentos que consultava, á medida que ia falando.

O que seria a camara dos deputados em 1840?

Cheia d'abbades somnolentos, de provincianos ridiculos, de bachareis grotescos e analphabetos inconscientes, não é hoje muito facil fazer uma idéa approximada do que era então esse antro de palradores.

No meio do discurso, um pouco interrompido, do deputado por Cintra ouviu-se o grito de: «larga a sebenta!» que produziu o riso contido d'aquella camara patusca. O homem que pronunciou esta phrase symbolisou depois a tagarelice parlamentar e petulante no seu apogeu; palrou durante vinte e tantos annos, acclamado por uma burguezia que lhe admirava a cabeça e a careca, fez discursos que são o mais irresistivel narcotico dos poucos que teem a coragem de consultal-os, morreu conhecido e feliz. Tem duas estatuas--uma defronte de S. Bento, d'essa casa de cuja inutilidade prejudicial elle foi o mais triste e curioso symbolo, outra em Aveiro. Chamou-se José Estevão.

Alexandre Herculano, ferido no seu orgulho, nunca mais quiz frequentar aquella feira de gado.

Os seus trabalhos resumbram todos um invencivel rancor aos politicos e á politica. A sua indole triste sombreou-se. O despeito e o tedio azedou-lhe o caracter. Adivinhou a vulgar corrupção que se alastrava por todas as classes e, com a integridade inherente ao seu espirito, fugiu. Esta deserção d'um campo, onde o paiz lhe podia merecer tantos serviços, era inevitavel. O presente não o tentava. Com uma ancia vulgar nos espiritos que chegaram ás cumiadas da cultura intellectual, tentou brutificar-se na vida do campo, beber a grandes tragos a alegria que a natureza entorna na alma dos animaes e das plantas. Mas estava muito intellectualisado.

O brado que levantou a favor dos monges e dos padres pobres, foi recebido pelos livres-pensadores burguezes como uma contradição com os ataques na celebre questão Eu e o Clero. A Herculano, temperamento religioso por educação, repugnava, o abandono e a miseria em que o governo deixara os antigos frades, negando-se mesmo a pagar o insignificante subsidio que promettera aos que se secularisassem. Á sua indole, estreita e inquebrantavel em questões de rectidão, custava a comprehender que os ministros renegassem todos os programmas com que subiam ao poder e faltassem a todas as promessas, como se elles tivessem sido inventados para outra cousa! Esta surpreza n'um homem ambicioso, transformou-se mais tarde n'um rancor que, nos ultimos annos da sua vida, se affogou em desprezo por tudo que dissesse respeito á politica. D. Pedro V, de quem Herculano foi o mentor, consultava-o a miudo sobre os negocios do estado e a maneira de resolvel-os. Herculano gostava d'este papel de ministro do culto e, póde affiançar-se que se o tivesse exercido por mais tempo, muitos dos que elle desprezava, teriam sentido por detraz do manto do rei, a pata do leão, atirando-os á insignificancia d'onde nunca deviam ter saido. Este poder, exercido por um mais longo prazo, se o reinado de D. Pedro V tivesse sido duradouro, é forçoso dizel-o, embora não muito democratico, seria benefico e talvez evitasse a lenta agonia em que Portugal agora se revolve. Mas quiz o destino que tal não succedesse. Herculano, apenas chegou a Lisboa a rainha Estephania, sentiu o espirito accesso em ciume contra a mulher que ia dominar o rei com o mesmo, ou talvez maior, prestigio com que elle--o grande intellectual--tinha dominado. Este resentimento explica-se bem: Herculano olhava D. Pedro com o carinho affectuoso d'um pae e, o que mais é, d'um pae que houvesse podido identificar á sua alma a alma d'esse filho do espirito. A rainha fôra para a indole religiosa e casta de D. Pedro a esposa, a symbolisadora do amor santo; Herculano julgou que ella vinha roubar-lhe uma parte do dominio que elle exercia no rei--e odiou-a. Este odio, comprehende-se bem, nunca revestiu as formas bruscas d'um completo rompimento; e, como provinha d'um sentimento do espirito que, se não era muito elevado, estava muito longe de ser mesquinho, manifestou-se apenas por pequenos embates de palavras e dois ou tres casos anecdoticos mais ou menos conhecidos.

Por morte da rainha e do rei, Herculano, que já quasi se affastara do paço, foge e vae isolar-se em Val-de-Lobos.

A historia em Portugal acaba no reinado de D. Pedro V.

Com Luiz I começa essa longa opera-buffa, ridicula e sinistra a um tempo, com um cunho tão enorme de corrupção e de infamia, a que se assiste n'um suffocamento de indignação e lagrimas, que arrastou Portugal a este fim desesperado.

O centenario de Camões foi o unico ponto claro no horisonte negro. Mas Herculano morreu tres annos antes de se realisar esse grande acontecimento nacional--onde Portugal affirmou pela ultima vez a sua força desesperada no meio da agonia.

Herculano, podendo desempenhar um elevado papel na politica portugueza, nada fez. O unico homem em quem elle exercera uma salutar influencia--o rei--morreu, deixando o seu mentor afogado em nojo pelos homens e pela existencia.

N'algumas maneiras de pensar e de sentir, Herculano revelou-se superiormente; depois a nausea pela vida e pelos viventes, communicou-lhe esse desprezo que pareceu tão grande porque tombava de muito alto, e lhe deu o cunho d'intransigencia e de força, n'um tempo em que todos são maleaveis e fracos.

Analysei as manifestações intellectuaes da altiva personalidade a quem a burguezia idolatrou, mais por ouvir contar certas particularidades rudes do seu viver, do que por lhe ter lido as obras.

Homem d'um seculo convulsionado e contradictorio foi, como elle, impersistente e convulsivo. O critico exclusivista que condemnasse qualquer obra por trazer uma rajada d'azedume, esquecendo-se da epoca em que foi feita, seria tão extraordinario como o medico que quizesse persuadir um agonisante de que estava curado.

É impossivel exigir d'alguem que seja alegre, que tenha saude e fé em tempos de tristeza, de desalento e de duvida.

Herculano podia repetir a phrase d'um homem muito diverso d'elle, o melancolico Amiel: «sem ter ainda morrido, sou uma alma d'outro mundo; os outros parecem-me sonhos, e eu sou um sonho dos outros.»

O homem que foi um poetisador sombrio e solitario, não devia amar um seculo de sciencia e d'industria. Não o amou Herculano, como o não amam os espiritos atormentados a quem o tedio do viver exagerou a nostalgia pelos tempos que passaram--e onde tantos doloridos põem o ideal d'uma felicidade, chimerica e impossivel para os grandes taciturnos.

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