Amamentação: um híbrido natureza-cultura

João Aprígio Guerra de Almeida · Capítulo 1 de 7

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Amamentação: um híbrido natureza-cultura

Prefácio

 

Ao longo dos tempos e nos distintos espaços, a amamentação revelou e revela diferentes significados, que oscilam em torno de, pelo menos, dois pólos: natureza e cultura. Esses significados ora se separam, ora se fundem, dependen¬ do do momento e da finalidade de seu uso. Às vezes, a associação desses dois aspectos é tão presente que um assume a denominação do outro. Ou seja, em torno do aleitamento, pode-se, por vezes, perceber que um hábito cultural, para ser perpetuado, seja assimilado como algo que faz parte da natureza, não cabendo nenhum questionamento. Outras vezes, depara-se com interpretações culturais que não reduzem o ser humano a um mamífero qualquer, redirecionando e redimensionando um movimento natural da espécie.

Ao se desconstruírem as representações da amamentação, pode-se perceber que esses sentidos socialmente construídos se erguem da fusão do biológico e da cultura. Essa fusão se faz presente, seja diante de imagens com acento na natureza, como a de uma mãe que amamenta o filho, associada a significados próprios de uma cultura, seja na imagem fabricada pela cultura, como o caso da mamadeira, que supostamente se encontra a serviço da natureza, facilitando a sobrevivência. Sua presença é tão marcante que nem sempre é possível a sua desconstrução para que se chegue aos seus elementos.

No interior dessa ampla gama de significações, pode ser ressaltado o sentido da vida. Através da amamentação, nutrem-se seres em seus primeiros estágios de desenvolvimento e solidificam-se relações interpessoais, formando vínculos e condições que facilitam a sobrevivência e a caminhada em direção à maturidade. Mesmo constatando que esse sentido é hegemônico, na atualidade, não se pode dizer que a ausência do aleitamento materno inviabiliza a vida dos filhos. O aparecimento de substitutos da mãe, que surgem por vários motivos, e a criação de artifícios e artefatos podem entrar em cena para que seja garantida a vida.

Frente a essas perspectivas, nem sempre o olhar daqueles que atuam no campo da saúde leva em conta a amplitude do assunto em questão. É comum, ao se tornar um objeto de estudo, a amamentação ser recortada e tratada apenas sob o prisma biológico. Sabe-se que, no âmbito da investigação científica, os recortes são necessários para que se possa buscar um grau mínimo de resposta para as questões a serem estudadas. O problema está no saber recortar, que pode ter como produto pedaços que, ao serem reunidos, não configuram novamente uma compreensão maior. Mas o produto dessa empreitada também pode ser a obtenção de partes que, embora tenham a sua identidade própria, remetem a uma perspectiva que a extrapola.

Há momentos em que alguns profissionais da área, no afã de trazer uma resolutividade imediata para o alcance de padrões nutricionais e a redução de doenças, entre outras metas, nem sempre se dão conta do cenário das emoções do qual a amamentação faz parte. As ações e as reações são atravessadas por componentes emocionais que, mesmo não estando explícitos, fornecem sentidos que as sustentam. Assim, os fluxos lácteos não operam só no plano dos nutrientes, podendo alimentar as emoções tão necessárias para os vínculos que são apreendidos em uma relação específica e são, gradatívamente, ampliados nas relações interpessoais mais amplas.

Também é comum as atenções serem restritas a um dos componentes da relação proporcionada pela amamentação. Geralmente elege-se a criança como único e exclusivo foco das ações profissionais, esquecendo-se de que os benefícios e/ou prejuízos não ocorrem só para quem recebe o leite, mas também para quem o doa. A transitividade entre sujeito e objeto não pode ser desconsiderada, sob o risco de não se entender a sintaxe do processo.

Para que não se corra o risco de se chegar a essas e a outras tantas reduções, além do refinamento de técnicas e das descobertas de melhores condições do aleitamento, não se podem perder de vista as interpretações culturais que em torno dele se configuram. As demarcações que vão sendo realizadas, para que se operem com maior eficiência em uma determinada especialidade, dentro do campo da saúde, não devem se distanciar da experiência daqueles que vivenciam o objeto de atuação do profissional.

Na direção de um posicionamento que recusa a redução, Amamentação: um híbrido natureza-cultura procura perseguir o tempo todo uma abordagem da amamentação como reflexo de condicionantes sociais, econômicos, políticos e culturais. Nele, múltiplas relações são abordadas para que se possa chegar a uma compreensão mais ampla da temática em questão. Em sua trajetória, procura-se, ao contrário do lugar comum, trabalhar em um movimento contrário à dicotomia costumeiramente estabelecida entre o biológico e o social, situados em zonas excludentes. Como resultado, tem-se uma rica análise da amamentação como um objeto híbrido construído na relação de aspectos da natureza e da cultura.

Deve-se destacar também que a sua eficiência do livro, bem como o seu mérito, não é devido apenas à abordagem adotada. As marcas que o seu autor consegue nele imprimir contribuem de forma decisiva para a qualidade da obra. Essas marcas se expressam sobretudo no trato do assunto que reúne, de forma competente, conhecimentos técnicos adquiridos ao longo de uma carreira científica e o olhar de quem foi sensível ao captar o que estava subentendido nos fatos, presentes em uma atuação profissional.

Assim, entre os meandros da amamentação e as reduções que em torno dela se operam, vence um olhar que não se contenta com o estabelecido. Instigado pelo desejo de enxergar mais do que se mostra, o autor traz uma decisiva contribuição para o campo aqui problematizado.

Certamente, outras descobertas serão suscitadas pela leitura deste livro. Para isso, basta que o leitor não só busque uma informação sobre o assunto, mas consiga estabelecer um diálogo entre sua experiência, de mamífero e de partícipe de uma cultura, com aquilo que o texto quer dizer.

Romeu Gomes

Doutor em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública

(ENSP/FIOCRUZ) Coordenador dos cursos de mestrado e

doutorado em Saúde da Mulher e da Criança/ Instituto Fernandes

Figueira (IFF/FIOCRUZ)