Amor de Perdição
Fim.
* * * * *
[1] Ha vinte annos que eu ouvi d'um coevo do facto a historia do assassinio assim contada: Era em quinta Feira santa. Marcos Botelho, irmão de Domingos, estava na festa de endoenças, em S. Francísco, defrontando com uma dama, namorada sua, e desleal dama que ella era. N'outro ponto da igreja estava, apontado em olhos e coração á mesma mulher, um alferes de infanteria. Marcos enfreou o seu ciume até ao final do officio da paixão. Á sahida do templo encarou no militar, e provocou-o. O alferes tirou da espada, e o fidalgo do espadim. Terçaram as armas longo tempo sem desaire nem sangue. Amigos de ambos tinham conseguido aplacal-os, quando Luiz Botelho, outro irmão de Marcos, desfechou uma clavina no peito do alferes, e alli á entrada da «rua do Jogo da Bola» o derribou morto. O homicida foi livre por graça regia.
[2] É a casa-palacete da «rua da Piedade», hoje pertencente ao doutor Antonio Girardo Monteiro.
[3] Esclarece este dizer de D. Rita a certidão de idade de Simão, a qual tenho presente, e é extrahida por Herculano Henrique Garcia Camillo Galhardo, reitor da real Igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, a folhas 159 v. Reza assim:
«Aos dois dias do mez de maio de 1784, pôz os santos oleos o reverendo padre cura João Domingues Chaves a Simão, o qual foi baptisado em casa em perigo de vida pelo Reverendo Frei Antonio de S. Pelagio, etc.»
[4] N'alguns papeis que possuimos do corregedor de Vizeu achamos esta carta: «Meu amigo, collega e senhor. Entregará, ao portador d'esta, que é o senhor padre Manoel de Oliveira, as cincoenta moedas em que lhe fallei na sua passagem para Lisboa. A appellação de seu filho está a meu cuidado, e está segura, apesar das grandes forças contrarias. Seu amigo—O desembargador Antonio José Dias Mourão Mosqueira. Porto 11 de fevereiro de 1805.—Sobrescripto: Ill.^mo Snr. D.^or Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Menezes.—Lisboa.»
(Nota do auctor).
[5] Este romance foi escripto n'um dos cubiculos-carceres da Relação do Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pelas sombras das abobadas. Anno da Graça de 1861.
[6] Hoje então!… Vou-lhes contar um lance memorando d'um philosopho da actualidade, lance unico pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa. Hoje (21 de Setembro de 1861) estava eu no escriptorio do illustre advogado Joaquim Marcellino de Mattos, e um cliente entrou contando o seguinte:—«Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de ***; e fui roubado em oitocentos mil reis por minha mulher, que fugiu com um amante para Vianna. Venho saber se posso querelar, e receber o meu dinheiro.» —Póde querelar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor quer querelar por adulterio?—Responde o queixoso: «O que eu quero é o meu dinheiro.»—Mas, redargue o consultor, o senhor póde querelar de ambos, d'ella por adultera, e d'elle como receptador do furto.—«E receberei o meu dinheiro?»—Conforme. Eu sei cá se elle tem o seu dinheiro?! O que sei é que não póde pronuncial-a a ella como ladra.—«Mas os meus oitocentos mil reis?!»—Ah! o senhor não se lhe dá que sua mulher fuja e não volte?—«Não, senhor doutor, que a leve o diabo; o que eu quero é o meu dinheiro.»—Pois querele d'ambos, o veremos depois.—«Mas não é certo receber eu o meu dinheiro?!»—Certo não é; veremos se depois de pronunciado as authoridades administrativas capturam o ladrão com o seu dinheiro.—«E, se elle o não tiver já?—redargue o marido consternado.»—Se o não tiver já, o senhor vinga-se na querela por adulterio.—«E gasta-se alguma coisa?»—Gasta, sim; mas vinga-se.—«O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor: a mulher deixal-a ir, que tem cincoenta annos.»—Cincoenta annos!—acudiu o doutor—o senhor está vingado do amante. Vá para casa, deixe-se de querelas, que o mais desgraçado é elle.
Encadernação N.° 2465
FAUSTO FERNANDES
ENCADERNOU
Patio de D. Fradique, 1—LISBOA
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