Anamorfoses na música eletroacústica mista

2 - Anamorfoses na música eletroacústica mista

2 - Anamorfoses na música

 

eletroacústica mista

 

Tempi reali, tempo virtuale 1 :em direção a uma

 

virtualização dos meios instrumentais

 

Um aspecto bastante peculiar na performance da música

eletroacústica mista reside nas distorções de cunho audiovisual

observadas no gesto instrumental. Estas deformações atuam, por

um lado, no olhar, nas relações descontínuas entre a ação do

músico e o que de fato se ouve a partir das transfigurações do

material, entrando em conflito com a presença física do performer

em cena, e, por outro lado, na escuta propriamente, já que entram

em jogo objetos sonoros cujas causas não se conhecem e que

podem estar menos ligados à ação humana advinda do gesto

instrumental, mais “maquinizados” pela sua relação com processos

referentes à ação de outras máquinas adaptadas ao fazer musical.

 

Esta “deformação” do gesto instrumental, sua anamorfose, pode ser

observada no seguinte Estudo anamórfico para percussão múltipla,

em que o papel das interferências eletroacústicas realizadas ao vivo

é instaurar pequenos “curtos-circuitos”, distorções mais ou menos

sutis no gesto do performer a partir da gravação em tempo real de

trechos tocados e sua posterior reprodução transformada em

diferentes momentos.

 

Exemplo sonoro 3 – Estudo anamórfico para percussão múltipla

(Gati, 2014)2

 

Como já foi mencionado, a escritura instrumental e a eletroacústica

“contaminam-se” uma à outra, provocam-se, desafiam-se. Somente

para mencionar o fator do espaço, pode-se recorrer às experiências

cruciais a partir dos anos 1950 em um desejo de levar o esfacelamento espacial proporcionado pelos meios eletroacústicos

ao campo instrumental: Gruppen (1955-57) de Stockhausen, para

três grupos orquestrais; 3 as já citadas Rimes pour Différentes

Sources Sonores de Pousseur e Poésie pour Pouvoir de Boulez,

ambas com fita magnética, e Allelujah 1 (1955-56) de Berio, para

seis grupos instrumentais, todas envolvendo um enorme reflexo do

que representou o esfacelamento do espaço trazido pela

experiência em estúdio.4

 

Desde o final da década de 1940, quando efetivamente se tem

como dada a origem da música eletroacústica, o universo musical é

inundado por uma vasta gama de sons e processamentos sonoros

possíveis, refletindo também uma significativa tendência de

mudança na escritura instrumental: como consequência, pode-se

pensar nas análises de espectros sonoros para definir espaços

harmônicos por Gerard Grisey5; ou nos arquétipos sonoros definidos

por Helmut Lachenmann,que parte também de um processo

analítico (definição de arquétipos de ataque-ressonância, trama

sonora, flutuação etc.) para sintetizá-los em modelos escritos para

corpos instrumentais, acabando por definir a “música concreta

instrumental”. 6

 

Hoje, já após um substancial avanço no sentido dos recursos

eletroacústicos terem mudado a forma de escrever ou mesmo fazer

música instrumental, o que nos interessa particularmente são as

expansões possíveis e peculiares que o aparato eletroacústico, com

toda uma história repertoriada de processos, técnicas e realizações

musicais, promove no corpo instrumental.

 

A partir do momento em que são introduzidos elementos e

processos intermediários de produção sonora na execução direta

instrumental, surge uma problemática fundamental com uma

mudança significativa no gesto instrumental; promovemos, em certa

medida, uma virtualização do instrumento, abrimos a possibilidade

desse instrumento adquirir características muito particulares de um

“ambiente acusmático”, pode-se dizer. Estas características podem

surgir no âmbito da execução instrumental em si – possibilita-se,

por exemplo, uma “maquinação”7 no gesto musical, incorporando

elementos próprios e somente possíveis de serem realizados pela

máquina eletroacústica –; em transformações espectrais; e em

realocações espaço-temporais – o som produzido pode ser levado,

virtualmente, a qualquer lugar ou tempo8 em uma performance,

desvinculando-se potencialmente do gesto instrumental.

 

Na música eletroacústica mista, em que coexistem universos

sonoros eletrônicos e corpos instrumentais fisicamente presentes,

surge uma problemática essencial de ambiguidades via um jogo

ilusório entre referencialidade a um objeto “real” e não

referencialidade, entre o que provém do intérprete em cena e o que

é difundido por alto-falantes, se há transformações ao vivo de

elementos espaciais ou morfológicos do corpo instrumental ou se

são ouvidas “estruturas pré-elaboradas em estúdio, constituídas a

partir dos próprios instrumentos ou a estes timbricamente correlatas”

(Menezes, 1998).

 

E é esta problemática da música mista, ligada às deformações até

certos limites de uma “realidade” instrumental em função de sua

potencial virtualização pelos recursos eletroacústicos, que passarei

a denominar anamorfose.

 

A esfera eletroacústica abre, portanto, um amplo e peculiar campo

de possibilidades à música instrumental, que mapearei com alguns

exemplos práticos a seguir. É preciso dizer que estes exemplos

serão importantes para ilustrar situações mais comuns ligadas às

anamorfoses na música mista, que investigarei mais a fundo daqui

em diante; não houve, certamente, qualquer pretensão de esgotar

as transformações possíveis na interação com os meios

eletroacústicos. Os exemplos podem ainda conter, eventualmente,

mais de uma característica além daquela à qual foi associado:

 

1) Alto controle na dinamização espacial dos sons, tanto no

âmbito das trajetórias espaciais possíveis quanto na distinção

de planos sonoros Ouçamos inicialmente, para ilustrar esta interferência possível do

dispositivo eletroacústico no tocante a um maior controle da

distribuição de planos e profundidades sonoros no espaço, um

trecho de Contexture III (Tempi reali, Tempo virtuale), para dois

pianos e live-electronics, de Flo Menezes, em que se delineiam

claramente distintos espaços de profundidades entre os pianos:

 

Exemplo sonoro 4 – Diferenciação de profundidades em

Contexture 9 III (Menezes, 1990)

 

2) Transformações ou transfigurações10 espectrais em

diversos níveis e com alto controle

 

O exemplo sonoro 1 volta a ser uma referência importante aqui, já

que o ataque metálico sofre uma mudança de rumo em direção a

um som “flautado”: além da transfiguração que ocorre com seu

decaimento, prolongado artificialmente, há ainda uma transformação

com a inserção de reverberação e de um fenômeno de batimento

pelo compositor, levando a esta qualidade de “som de flauta”,

sintetizando a presença dos dois universos instrumentais da peça

(flautas e percussão metálica).

 

Em outro exemplo, desta vez voltado ao processamento eletrônico

em tempo real, tomaremos um trecho de Nomoi, para violino e live-

electronics (Gati, 2013), em que são exploradas estas possibilidades

de transfiguração pelo prolongamento do som via ação de feedback

e filtragens do sinal. Embora estejamos diante de uma redução em

dois canais do áudio, há paralelamente espacialização ao vivo em

oito canais por meio do algoritmo desenvolvido no Ircam, o Spat.11

 

Exemplo sonoro 5 – Trecho de Nomoi, para violino e live-

electronics12

 

3) Introdução de novos materiais concomitantes e provenientes

da esfera instrumental, que chamaremos daqui em diante de

adição instrumental Conforme ilustrado na figura e exemplo sonoro seguintes, o papel

principal das transformações eletroacústicas em Nomoi foi o de

impingir aperiodicidades a uma escrita bastante periódica, regular

para o violino, seja no âmbito das durações (rítmicas escritas de

maneira extremamente regular levadas a resultados irregulares,

dispersos), seja no âmbito harmônico-timbrístico (ampliado pela

agregação de alturas pelos recursos eletrônicos e alterações

espectrais). O início da peça ilustra bem esta expansão rumo a uma

aperiodicidade:

 

Figura 4 – Trecho inicial de Nomoi, para violino e live-electronics

 

Fonte: Gati (2013).

 

Exemplo sonoro 6 – 13 Nomoi , abertura

 

Como se pode notar na comparação entre a escrita instrumental e a

escritura construída com recursos eletroacústicos por meio do

exemplo sonoro anterior, o direcionamento a um resultado

aperiódico ocorre no aumento da complexidade em duas frentes,

tanto na distribuição temporal de eventos (multiplicam-se as notas

em pizzicato por meio de delays com vários intervalos de tempo)

quanto no campo frequencial (a partir de um grupo fixo de alturas

definido para ser tocado pelo violino há uma explosão no registro de

transposições em tempo real a um espaço frequencial não

temperado). Isto sem mencionar o critério espacial, da pulverização

dos sons pelo espaço da performance –a estreia foi realizada com o

auxílio de oito alto-falantes ao redor do público.

A adição instrumental pode ser observada em inúmeros casos,

como na obra Désintégration (1983), para ensemble, em que Tristan

Murail pretende que a esfera eletroacústica atuante (bande,

referente a fita magnética) seja tão “instrumental” que a dispõe na

partitura como um segundo ensemble escrito. Para a performance,

este material eletroacústico é proveniente de gravação prévia do

ensemble e deve ser projetado juntamente com a execução

instrumental. Esta atitude de Murail em relação à notação dos

materiais pré-gravados é também encontrada, por exemplo, em

obras mistas de Jonathan Harvey.

 

Harvey utilizou recursos eletroacústicos para atuar diretamente na

distribuição espectral de corpos instrumentais. Particularmente em

suas peças para instrumentos e tape, como na trilogia Inner Light a

partir de 1973, os sons pré-elaborados em estúdio atuam ora como

realces de parciais de notas tocadas pelos instrumentos, ora como

alturas que compõem o campo harmônico definido pelo compositor,

ora como interferências que levam de um parcial a outro, de um

harmônico a outro, buscando criar mudanças espectrais sutis e

integrar a estruturação harmônica (pensada como campo discreto

de alturas) com a caracterização espectral em si: “minha predileção

estética é integrar mais e mais; por meio de transições contínuas

timbres são integrados à estrutura e [...] estrutura integra-se ao

timbre” (Harvey in Emmerson, 1986, p.180).14

 

Comentando seu segundo trabalho realizado no Ircam, Bhakti,

Harvey (ibidem, p.183-4) revela pistas curiosas sobre a

diferenciação entre o ambiente eletroacústico e o instrumental,

assim como – para nós, aqui, o mais importante – suas mesclas,

contatos:

 

Eu senti as diferenças sociais e espirituais entre a música

proveniente de alto-falantes e a música tocada ao vivo como

sendo esteticamente insuportáveis e que elas deveriam ser

contrapostas – tornadas ambíguas – por meio da maior

similaridade possível entre o som, a estrutura do tape, e a

música executada ao vivo. Adicionalmente, os inúmeros

pequenos desvios no tape em relação à estrita imitação

instrumental podem ser mais eficazes, porque o ouvinte infere

de maneira precisa o quão distantes estão de sua “base”. Um

plano frontal pode ser composto contra um claro plano de

fundo. Ambiguidade está constantemente presente já que o

ouvido não tem certeza se os sons são provenientes do tape ou

do intérprete ao vivo. Esta fronteira é intrigante: os cálculos

necessários para criar identidades precisas e o terreno comum

das ambiguidades dançam delicadamente com as associações

culturais dos instrumentos, advindas de vários séculos de

uso.15

 

Dadas as possibilidades desenvolvidas em diversos graus nos itens

elencados acima – e, obviamente, não limitadas a elas –, podem ser

criadas ambiguidades que passam a enriquecer a performance,

ambiguidades estas que habitam o material musical em si – de qual

fonte provém este som que ouço? Como foi gerado? É processado

ao vivo ou não? – até a própria dinâmica da performance, colocando

em dúvida constante o que se ouve em relação ao que e onde se

vê, tornando as possíveis deformações do gesto instrumental uma

problemática essencial da composição mista.

 

Denominaremos, daqui em diante e em seus diversos níveis, essas

ambiguidades, distorções, anamorfoses na música eletroacústica

mista. O conceito de anamorfose parte de um contexto visual

relativo às deformações de imagens ao olhar, como no caso dos

espelhos não planos, e foi aplicado à percepção sonora por Pierre

Schaeffer no seu Traité des Objets Musicaux (1966, livro III,

capítulos XII a XIV). No capítulo seguinte trataremos de investigar

melhor este conceito com o intuito de ampliá-lo, para abarcar as

deformações dos meios instrumentais pelos meios eletroacústicos.

 

Até aqui, é importante dizer que os exemplos precedentes enfocam

prioritariamente situações de fusão espectral ou que atuam no limite

para o contraste entre as esferas instrumental e eletroacústica,

situações estas que possibilitam o surgimento de anamorfoses. Podemos elencar assim duas situações de anamorfoses na música

mista:

 

1) Adição instrumental: é a esfera eletroacústica que agrega

materiais oriundos e ainda bastante característicos do corpo

instrumental em questão.

 

2) Similaridade espectral: há imitações de qualidades

espectrais de uma ou outra esfera. Esta delimitação se

aproxima do conceito de transferência espectral, desenvolvido

por Menezes.16

 

Vejamos agora um exemplo de Parcours de l’Entité que, a partir da

adição instrumental – materiais gravados oriundos da percussão e

da flauta –, permitirá notar diferentes graus de distanciamento entre

o que é executado ao vivo e em tempo diferido; nos casos de maior

afastamento e distinção entre as duas esferas há, mesmo assim,

transferências espectrais que conferem uma forte unidade ao

material. O primeiro exemplo sonoro a seguir reproduz somente o

tape; é no segundo exemplo sonoro que podemos ouvir o resultado

global do trecho com a esfera instrumental “ao vivo”.

 

Exemplo sonoro 7 – Transferências espectrais em Parcours de

l’Entité (somente o tape)

 

Exemplo sonoro 8 – Transferências espectrais em Parcours de

l’Entité 17 ( tape e corpo instrumental)

Figura 5 – Trecho da página 2 da partitura de Parcours...

correspondente aos exemplos sonoros acima

 

Fonte: Menezes (1998).

 

Mesmo que o resultado auditivo seja bastante “instrumental”, por

assim dizer, a anamorfose surge não só pela desconexão

audiovisual em situação de performance como também nos

pequenos desvios espectrais de certos sons na esfera

eletroacústica, que são “retocados”, distorcidos levemente pelo

compositor (a maior distorção neste trecho corresponde ao “sopro”

advindo de materiais de flauta e transferido ao estrato

eletroacústico, indicado na figura anterior pelos elementos gráficos

na bande numérique).

 

Há ainda um caso particular de interação em que a esfera

instrumental sofre alterações de timbre pelos processos

eletroacústicos mantendo, no entanto, um vínculo energético com o

movimento do performer e com o que seria esperado do instrumento

musical utilizado, isto é, o som resultante segue um envelope

dinâmico condizente com o movimento humano a um dado

instrumento musical – não nos surpreende tanto em termos de

deslocamento temporal com o estrato eletroacústico quanto no nível

da qualidade espectral. Isto resulta, como veremos em seguida na

obra Instantânea (Ruviaro, 2005), para piano e eletrônica em tempo

real, em um instrumento musical composto, ampliado pelo aparato

eletroacústico.

Figura 6 – Trecho inicial de Instantânea, de Bruno Ruviaro

 

Fonte: Ruviaro (2005).

 

Exemplo sonoro 9 – Bruno Ruviaro: trecho de Instantânea

(piano e eletrônica em tempo real)18

 

O início da obra apresenta uma situação de total fusão entre o som

produzido pelo piano (preparado com fitas adesivas que abafam o

som das cordas) e pelo processamento eletroacústico em tempo

real. O envelope dinâmico do som resultante é próximo ao que seria

o do piano sem a intervenção eletrônica, ou seja, o comportamento

temporal do som resultante é familiar, condizente com o gesto do

pianista. A anamorfose que atua no gesto instrumental é de ordem

eminentemente espectral, não tanto no nível do envelope dinâmico:

a surpresa acontece principalmente no conteúdo espectral que

esperamos ouvir do piano. Nesta grande seção, ouve-se um novo

instrumento, modificado não somente pela preparação, mas

também pela ampliação e transformação espectral pelos recursos

eletroacústicos (programação em Max/MSP). Aqui, portanto, a

eletrônica em tempo real radicaliza a modificação espectral já

realizada pela preparação.

 

Mas como este instrumento difere de fato do piano preparado?

Adotemos uma situação hipotética: imagine um piano preparado.

Agora imagine que o amplifico. A amplificação por si traz não só

uma “qualidade espectral” particular, mas um gesto vinculado a

possíveis transformações que podem estar ocorrendo via recursos eletroacústicos. É evidente que isto depende da experiência musical

e de um repertório por parte do ouvinte, mas, neste caso, o vínculo

energético – em termos de uma ação do intérprete condizente com

o encaminhamento energético esperado para o som mesmo após o

processamento – tende a minimizar a diferença entre o piano

preparado e o instrumento da peça de Ruviaro, que surge como

uma espécie de extensão contínua, uma ampliação timbrística do

piano (assim como o piano preparado de John Cage).

 

Sem dúvida instaura-se uma ambiguidade com relação à qualidade

espectral, uma anamorfose: ao ver o piano no palco, surpreendemo-

nos com o resultado sonoro produzido, embora a maneira de tocar,

como no piano preparado, se mantenha. Esta é uma situação,

portanto, que nos parece importante por ser um caso-limite em que

a anamorfose no gesto instrumental na música mista se aproximaria

até a uma anamorfose na música instrumental sem recursos

eletroacústicos, não fosse a qualidade espectral típica resultante

que constitui um gesto da música eletroacústica – dificilmente, por

exemplo, o compositor chegaria às especificidades do timbre

realizado pelo live-electronics somente com uma preparação do

piano.

 

Em correspondência de Ruviaro com este autor, o compositor

ressaltou o aspecto da fusão no que se refere ao posicionamento

dos alto-falantes no palco: de forma sintomática, a mescla almejada

por Ruviaro com o estrato eletroacústico “não seria possível” sem

um posicionamento específico das caixas acústicas, reforçando

nosso argumento da diferenciação entre o instrumento criado com

recursos eletrônicos e o piano preparado:

 

Um ponto crucial da Instantânea, para mim, é que foi a primeira

vez que eu experimentei com o posicionamento dos alto-

falantes próximos ao piano (de preferência debaixo do piano, ou

ao lado e para trás). Marco Stroppa faz muito isto, com o

mesmo objetivo: reaproximar o som eletroacústico fisicamente

do local de onde vem o som instrumental, com o intuito de

alcançar uma mistura que de outra forma não seria possível

(alto-falantes nos cantos do palco não funcionam bem para este

fim). Claro, isto que falei acima é somente um detalhe da

realização técnica que serve ao objetivo musical que você está

discutindo – a fusão tímbrica do acústico e eletroacústico. Mas

costumo pontuar este comentário com respeito à peça já que

penso fazer bastante diferença na performance, e nem todo

performer que vai tocá-la tem esta consciência ou experiência a

princípio.

 

Anamorfose

 

Dicionário 19 Littré :

 

s. f. (a-na-mor-fô-z’)

 

Imagem deformada desenhada sobre uma superfície plana que,

refletida por um espelho cilíndrico vertical, resulta em uma

figura regular.20

 

Etimologia: palavra grega fictícia derivada de outra palavra

fictícia, sendo esta última proveniente do prefixo ANA que

indica transposição, e do termo grego que significa forma.21

 

Dicionário Aurélio (Ferreira, 1999, p.131):

 

[do gr. anamórphosis, ‘transformação’.] s. f. 1. Biol. Evolução

contínua, sem etapas descontínuas ou saltos. [...] 3. Ópt.

Deformação de uma imagem formada por um sistema óptico

cuja ampliação longitudinal é diferente da ampliação

transversal.

 

Dicionário Houaiss22:

 

1. art. plást representação de figura (objeto, cena etc.) de

maneira que, quando observada frontalmente, parece distorcida

ou mesmo irreconhecível, tornando-se legível quando vista de

um determinado ângulo, a certa distância, ou ainda com o uso

de lentes especiais ou de um espelho curvo.

 

[...]

 

5 ópt. deformação de uma imagem obtida por um sistema

óptico que permite uma variação da ampliação transversal

relativamente à ampliação longitudinal.

 

Etimologia:

 

anamorf(o)- + -ose; cp. gr. Anamórphōsis, ‘formado de novo’

 

A metáfora do espelho, extremamente valiosa na arte especialmente

quando faz referência direta à imitação, põe a imagem em

evidência: imagem de um objeto, que no caso das coisas reflete

seus diversos ângulos conforme as condições da luz e da posição

relativa que ocupa frente ao observador, e no caso de um sujeito

atua como metáfora ao próprio “eu”. A imagem é o reflexo de algo

que vemos e que adquire um estatuto próprio, uma autonomia em

relação a sua contraparte “real”. Danto nos traz um argumento muito

válido para pensar o dado sonoro como imagem, autônoma em

relação ao objeto de origem, analisando o estatuto da imagem em

dois contextos distintos: Platão e Hamlet. É curioso que em A

república, no livro X, Platão (apud Danto, 2005, p.43) tenha

vislumbrado a “perfeição” mimética na mais clara imagem da

realidade não pelos meios de representação de então, mas

precisamente por meio de um espelho: “Em breve criarás o Sol e os

astros, e a Terra e a ti mesmo, e os outros animais e plantas, e

todas as demais coisas das quais acabamos de falar, no espelho”.

Pode-se pensar em certa aflição demonstrada por Platão no tocante

à condição da “arte” de seu tempo: questiona a necessidade mesma

de outro meio de representação da realidade já que podemos

experimentá-la pessoalmente, esta mesma realidade que já temos

dada diante de nós.

 

Hamlet, no entanto, apresenta uma condição de incerteza no

espelho, ao mesmo tempo em que revela uma perspectiva única de poder olhar a si próprio, poder formar uma imagem de si e ver-se

enfim como centro das mais diversas contradições:

 

Hamlet: Vamos, vamos, sentai-vos; não vos movereis.

Nem saireis daqui, sem que eu vos ponha aos olhos

Um espelho onde vejais o fundo de vossa alma.

Rainha: Que queres tu fazer? Pretendes me matar?

Socorro! Aqui! Socorro!

[...]

Ó Hamlet.

Não fales mais. Fazes que eu volte o meu olhar

Para o interior de minha própria alma, e aí

Diviso manchas negras, de tão firme cor,

Que não sairão jamais.23

 

Esta ideia de constituir uma imagem cujos contornos e atribuições

de significados ensejam uma intenção, e com variações e nuances

sempre em movimento, estiveram ligadas ao papel que o espelho

carrega contendo, inclusive, possíveis deformações face ao que se

espera ver. A anamorfose, retrato destas distorções, traz um

elemento importante no que se refere ao comportamento da

imagem, que pode ser moldada de forma a realçar um traço de

ilusão presente no olhar, já que só a partir de certos ângulos sou

dado a ver a forma “real” do objeto representado no caso de um

espelho curvo. 24

 

François Bayle fala em anamorfose como uma das ações possíveis

de serem realizadas em um som a partir de procedimentos

eletroacústicos, caracterizando diferentes aspectos morfológicos

das “imagens” sonoras. Partindo do raciocínio de que a imagem

sonora tem o poder de “converter o tempo em objeto”, assim podem

ser, em suas palavras, os diversos processos de transformação de

um som:

 

podem-se aplicar aí limitações tais como torção, deformação,

inversão: anamorfose (ana: refazer);

pode-se, a partir de duas imagens, produzir uma terceira,

híbrida, por mascaramento e cruzamento contínuo de traços:

metamorfose (meta: sucessão);

 

pode-se analisar a imagem para gerar ou sintetizar outras

imagens: 25 morfogênese. (Bayle, 1993, p.85)

 

Interessa-nos neste trabalho a situação do dado instrumental

quando não totalmente transformado, metamorfoseado, por um tal

distanciamento ao gesto instrumental que este perca sua

identidade, mas deformado até certo limite: na peça de Ruviaro, por

exemplo, vista no item anterior, apesar da distância radical que o

meio eletroacústico impõe em termos espectrais ao piano,

permanece o vínculo energético entre sons eletroacústicos com a

ação do intérprete e, mais ainda, permanece uma similaridade em

termos de envelope dinâmico entre o som resultante e o ataque

“seco” (staccato) no registro médio de um piano não preparado. E

isto possibilita algum nível de identificação com o gesto do piano,

precisamente na maneira de tocar: há, então, anamorfose.Por outro

lado, poderia haver anamorfose também se imaginássemos que na

peça de Ruviaro o processamento em tempo real desvinculasse

temporalmente em diversos níveis o som resultante das notas

tocadas em um piano não preparado – por exemplo, por meio de

delays 26 e transposições das alturas tocadas. Neste segundo caso,

o gesto instrumental também é deformado por deslocamentos

temporais. Na música eletroacústica mista, realizar uma anamorfose

em um objeto sonoro frequentemente leva a uma condição de

dúvida frente ao material por conta da dualidade com o gesto

instrumental – que enseja a história, o repertório e a própria ação

instrumental –, tornando ambíguos os momentos em que o material

se porta como se fosse mais “inumano” ou mesmo desconectado,

deslocado ou fragmentado face ao percurso instrumental.

 

Uma imagem deformada pressupõe que o objeto original ainda está

lá, mesmo que mascarado: um círculo desenhado no papel e visto

de lado se deforma em uma elipse, mas continua sendo um círculo

no papel. As duas formas convivem, permitem um “lá-e-cá” do ponto de vista da observação. Algo similar é muito presente na música

mista: por mais que se deforme um objeto, a anamorfose reflete o

estado em que ele convive com um “outro”, que se mescla a ele. O

ataque inicial de Parcours de l’Entité é o ataque em um instrumento

metálico (uma bigorna), mas passa por uma transição até um som

flautado criado artificialmente, transição esta que reflete um

momento ambíguo, que remodela um som inicial para chegar a

outro. O objeto sonoro global é único, mas a imagem dele reflete

tanto o metal quanto a flauta. A anamorfose está no entrevir, no

reflexo mutável, na transição, na ilusão.

 

Eventualmente, o objeto “real” estará tão distorcido que será

irreconhecível, como no quadro clássico The Ambassadors de Hans

Holbein The Younger (1533), que, visto frontalmente, dispõe uma

figura “estranha” ao centro: somente vista de lado, quando nos

afastamos lateralmente diante do quadro, é que a figura toma sua

forma “correta”, uma caveira27.

 

Mesmo havendo deformações em diferentes intensidades, a

condição de dúvida acaba sendo muito constante na música mista

precisamente pelo referencial “real” do instrumental presente, nas

aproximações e distanciamentos que o material musical realiza

entre suas esferas eletroacústica e instrumental:

 

O moto da atualidade resume-se [...] na coexistência não

pacífica dos oponentes, na constante dúvida que permeia a

dicotomia sígnica presente em cada ato da comunicação, na

ilusão desfeita a cada momento de que se está diante da

indubitável unidade da coisa percebida, na riqueza da

diversidade perceptiva presente na complexa, equívoca e

propulsora dramaticidade sígnica, dramaticidade esta presente

– no que se refere às estruturas musicais – no bojo de cada

gesto musical: ser e não ser; eis, pois, a condição de nossa

atualidade estética [...] A certeza da coexistência não pacífica

entre a coisa e sua representação transmuta-se, na música

eletroacústica mista, em uma outra: em uma profícua, constante

e dúbia ilusão. (Menezes, 1998)

Anamorfoses temporais e funcionais segundo

 

Pierre Schaeffer

 

Nos capítulos XII, XIII e XIV do seu Traité des Objets Musicaux

(1966), assim como no quarto tema de reflexão do Solfejo do objeto

sonoro (1967), Pierre Schaeffer introduz o conceito de anamorfoses

temporais, emprestado (como tantos outros também o seriam na

análise e terminologia geral da música eletroacústica) de um meio

puramente visual, conforme já mostramos. Schaeffer vinculou o

termo anamorfose inicialmente a uma investigação de como

funciona nossa percepção sonora do passar do tempo, da

identificação do antes e do depois face à medida física do tempo. As

anamorfoses temporais, para ele, foram uma maneira de esclarecer

que a percepção auditiva não era redutível a uma unidade de

medida:

 

o termo anamorfose refere-se a [...] certas “irregularidades”

marcantes na passagem da vibração física ao som percebido,

levando a pensar em uma espécie de deformação psicológica

da “realidade” física, e tais irregularidades traduzem

simplesmente a irredutibilidade da percepção à medida física.

(Schaeffer, 1966, p.216)28

 

As anamorfoses temporais compreendiam, desta maneira, o

deslocamento que age entre a passagem do tempo “medido” e

nossa percepção desta mesma passagem enquanto fenômeno

apreendido, de eventos sonoros localizáveis em um eixo antes-

depois que toma proporções deslocadas frente a uma realidade

física mensurável. Comparando ainda dois sons que eventualmente

possuam o mesmo tempo “cronométrico”, a mesma duração, nossa

percepção pode distingui-los em duração se um deles contiver muito

mais informação espectral que o outro.29

 

A partir de 1957, há inúmeras experiências de Schaeffer neste

campo que relatam uma preocupação fundamental com o ataque

dos sons, transiente que parecia ter importância predominante na percepção global de diversos sons instrumentais. O transiente de

ataque foi então estudado em diferentes instrumentos musicais:

tomando uma mesma nota articulada em staccato tocada oito vezes

em sequência por um trompetista (com a intenção de tocá-las da

forma mais semelhante possível), Schaeffer (1966, p.215) obtém

imagens no osciloscópio de oito figuras razoavelmente diferentes,

provando certo mistério e complexidade relacionados não somente

ao início destes sons, os fenômenos transitórios que dariam origem

a ele, mas também a como objetos sonoros bastante similares em

termos auditivos podem apresentar curvas dinâmicas visualmente

tão díspares.

 

Com a hipótese de ser o ataque um fator fundamental na percepção

timbrística de um som, a ideia de Schaeffer foi, então, prosseguir

seus experimentos a partir da supressão do ataque para observar o

que ocorria cortando alguns décimos de segundo iniciais de sons

instrumentais gravados. Por meio da experiência do som grave de

piano – suprime alguns décimos de segundo, depois meio segundo

e em seguida um segundo, sem alteração perceptível do som

ouvido –, ele conclui, em primeiro lugar, que os complexos

fenômenos transitórios iniciais e a insurgência física de um som não

estão, necessariamente, ligados à percepção do ataque. Em outras

palavras, o ataque percebido de um som e seu surgimento físico,

seu início, não necessariamente coincidem. Da mesma maneira, a

percepção temporal deste mesmo som pode não se alterar, mesmo

com supressões significativas (em termos de décimos de segundo)

de seu início. Contrariamente ao que se pensava no início, não é o

ataque que define o comportamento de um som: é a curva dinâmica

(sua forma global) que determina nossa percepção de ataque.

 

E aqui ocorreu uma constatação desta distorção, deste

deslocamento denominado anamorfose temporal, entre a duração

(medida física) de um som e sua efetiva percepção, já que o

resultado auditivo propriamente dito nessa experiência do piano era

essencialmente inalterado, ao passo que fisicamente houve a

supressão do ataque por meio de cortes sucessivos no comprimento

da fita magnética. O uso da fita, meio indispensável à época desses experimentos de Schaeffer, reforça ainda mais esta distorção

revelada pelo experimento, já que uma porção de fita recortada

manualmente não impedia que a nota, ao ser tocada novamente,

estivesse aparentemente inalterada.

 

As experiências de Schaeffer a partir daí desvelam desdobramentos

das anamorfoses temporais que acabam por recair nas suas

formulações sobre a própria noção de instrumento musical e em

outro conceito interessante, referente às transmutações

instrumentais. Investigando os limites de reconhecibilidade e

transformação do timbre no piano pelas manipulações na fita

magnética, surgem comparações que nos servem para começar a

pensar como operam as anamorfoses com as transformações

eletroacústicas em um dado corpo instrumental, como são

ampliadas as características de um instrumento até seu limiar de

reconhecibilidade – adentrando o campo da anamorfose.

 

Retomando os experimentos com o piano estabelecidos por

Schaeffer, surge uma pista curiosa: gravando uma nota grave

tocada no instrumento, ele depois a transpõe por aceleração da fita

a duas oitavas superiores; comparando com a nota “real” tocada

duas oitavas acima, a transposição artificial é descrita como mais

“rica” harmonicamente, porém com um ataque mais brando que o

ataque da nota de fato tocada naquela altura. Trata-se, então, de

uma ampliação do piano que se obtém pela transposição artificial

com a alteração da velocidade de leitura do som gravado. E é a

percepção deste instrumento ampliado, que ora pode nos chegar

como uma ampliação, ora como um novo instrumento de fato, é

precisamente neste limite, que entram em jogo as anamorfoses no

âmbito dos materiais da música mista.

 

Para Schaeffer, a noção de instrumento musical evoca a

“permanência de uma causa”, além, por suposto, de uma carga

histórica que vincula a produção de sons característicos a

determinadas fontes. No caso do piano, por exemplo, muito embora

a curva dinâmica e o comportamento espectral de uma nota tocada

no extremo grave seja muito diferente do extremo agudo, como podemos ver na figura a seguir, um ouvido relativamente treinado

reconhece imediatamente que se trata de um piano. Fica claro, por

outro lado, que não há necessidade de haver uma carga histórica

para definir ou delimitar um instrumento capaz de produzir música,

já que inúmeras obras musicais, em diversos períodos históricos,

trouxeram sons provenientes dos mais inusitados objetos. Não nos

interessa, obviamente, avaliar a pertinência do uso de uns ou outros

instrumentos, mas sim as relações musicais que o ouvido faz e que

conferem sentido musical às combinações desses sons.

 

Figura 7 – Espectros e curvas dinâmicas de notas do piano tocadas

do grave (esquerda) ao agudo (direita)

 

Repare que, na nota mais grave, a curva dinâmica (representada no

plano superior da imagem) é menos inclinada, e o ataque tende a

aderir aos transientes de decaimento e sustentação do som. A

percepção de ataque é, desta maneira, mantida mesmo após cortes

relativamente significativos da porção inicial do som.

Fonte: elaborada pelo autor

 

À parte a importância da investigação de Schaeffer acerca da noção

de instrumento musical, tomarei outro aspecto em que o tema volta

a ter relevância aqui: a noção de timbre instrumental. É neste

conceito que surge o antagonismo entre causalidade e estrutura harmônica. Para além de identificar uma ou mais fontes sonoras que

eventualmente estejam produzindo o que ouço, um pensamento

musical que de fato conecta esses sons, relaciona-os uns com os

outros, caracteriza esta oposição definida por Schaeffer entre

causalidade e estrutura. Isto vai ser denominado anamorfose

funcional, já que o timbre instrumental permite aproximar sons pelas

características espectrais, sons esses que podem vincular-se por

um elo estrutural, formar uma unidade, uma figura comum em um

contexto – aqui a noção de figura se revela particularmente útil, já

que Schaeffer se reporta ao aspecto estritamente funcional dos

sons, destituídos de sua origem. A partir do estudo da anamorfose

temporal e funcional podemos então começar a estender o uso do

termo à música mista, abarcando distorções impingidas em um

corpo instrumental por manipulações eletroacústicas que o afastam

mais ou menos de seu “resultado” esperado enquanto instrumento

reconhecível, ou, ainda, enquanto resultado sonoro esperado para

um gesto realizado ou repertoriado.

 

Anamorfoses na música eletroacústica mista

 

O foco em uma apresentação ao vivo, visual ou musicalmente –

e estou pensando aqui em performances solo –, é o intérprete.

Assim, eu não abusaria de todo o potencial de um sistema de

difusão como faço em peças para tape, porque exagerar na

difusão tenderá a prejudicar as relações musicais

cuidadosamente elaboradas entre o intérprete ao vivo e o

conteúdo do domínio acusmático. Em outras palavras, há

mesclas importantes, ambiguidades sonoras importantes que

você destrói se intensificar demais a difusão do componente

acusmático. Uma das coisas mais importantes na relação entre

um instrumento e tape é o jogo de ambiguidades, e desejo

mantê-lo e realçá-lo.

 

Denis Smalley30

 

É exatamente esta potencial contradição entre a presença humana

e materiais sonoros que transcendem limites espaço-temporais a característica marcante da música mista. Por meio de uma situação

de imersão pelo campo de atuação dos alto-falantes – que, como é

o caso em muitas performances de música mista, envolvem o

público –, um constante estado de incertezas se apresenta ao

ouvinte. Pensa-se aqui em dois tipos de situações criadas pelas

anamorfoses:

 

1) quando se notam quebras, curtos-circuitos no gesto

instrumental do ponto de vista energético pelas transformações

eletroacústicas, causando uma “estranheza”, sensação de

desconexão;

 

2) quando a coexistência de materiais sonoros advindos de

naturezas distintas pode dar origem a situações ambíguas

(anamorfoses) em que uma esfera (eletroacústica ou

instrumental) passa a “imitar” a outra em termos espectrais.

 

As anamorfoses atuam em uma zona de intersecção entre a “fusão”

e o “contraste” das esferas instrumental e eletroacústica, nos

momentos em que é instaurada a “condição de dúvida”, nas

mesclas envolvidas no ir-e-vir da situação de fusão. Os conceitos de

fusão e contraste elaborados por Flo Menezes em Atualidade

estética da música eletroacústica (1998) e no artigo Por uma

morfologia da interação (2006, [2001]) fornecem um bom indício

para compreendermos as anamorfoses:

 

Mesmo diante da mais convincente fusão espectral do

instrumental com o eletroacústico, o ouvido sempre revelará

aspectos de distinção da qualidade espectral oriunda do

universo acústico daquela proveniente dos sons

eletroacústicos, da mesma forma como buscará algum mínimo

ponto de contato e identificação entre ambos os universos

sonoros em meio ao contraste mais radical. (idem, 2006, p.383-

3)

 

A esfera instrumental e estruturas eletroacústicas podem conviver

fluidamente em uma espécie de híbrido (fusão) ou em situações de

contraste, em que mostram mais claramente duas dimensões distintas do material musical. A partir desta distinção elaborada por

Menezes, podemos inferir que é precisamente na zona de

intersecção entre os dois estados que surgem situações ambíguas

(anamorfoses); é no vai-e-vem ao contraste sutil que nos damos

conta de que há a deformação, a anamorfose. Claro está que pode

haver contraste e fusão, e a anamorfose atua entre elas, instaura a

“condição de dúvida”:

 

Para haver fusão entre as escrituras instrumental e

eletroacústica, será necessário que haja transferências

localizadas de características espectrais de uma esfera de

atuação à outra [...] na fusão instaura-se uma condição de

dúvida. Em certa medida, fusão implica propositadamente, da

parte do compositor, confusão para o ouvinte [...] Ainda que de

forma alguma hegemônico, o estado de dúvida traduz-se como

momento supremo da interação. (idem, ibidem, p.385-6)

 

E são precisamente esses “estados de dúvida” que são aqui

denominados anamorfoses na música eletroacústica mista; eles

ocorrem no gesto instrumental, deformações da “realidade” física de

um corpo instrumental pela ação do aparato eletroacústico. A fusão

implica um estado em que as duas esferas se “confundem”, mas a

anamorfose que nos interessa mais aqui é a partir da esfera

instrumental, do gesto do instrumentista: poderia sim haver

“confusão” no fato isolado de haver transferências espectrais

(imitações nas qualidades espectrais) entre um e outro objeto ou

evento sonoro em um ambiente acusmático não referencial, seja

pela igualdade de planos de profundidades, seja pela união (fusão)

de seus espectros. Pense-se, por exemplo, na confluência de um

plano sonoro de ruído rosa com outro de ruído branco, em que há

certamente momentos de dúvida quando conformam um som

híbrido; neste caso, a anamorfose ocorre, mas não guarda qualquer

vinculação com o gesto instrumental pela junção entre materiais que

não fazem referência ao seu domínio. Uma possível analogia surge:

a transferência espectral, que confere características espectrais

comuns a sons distintos, pode atuar então como anamorfose

funcional conforme definida por Schaeffer.

Podemos pensar na abertura que o termo gesto instrumental

permite, no sentido de tornar esta ideia de anamorfose na música

eletroacústica mista mais ampla, abarcando inclusive certos

mecanismos instrumentais que mais têm a ver com instaurar um

processo. Mesmo assim, temos que considerar que um ataque em

pizzicato em um violino tem um peso cultural incomparável com um

objeto sonoro provocado por um processo como, por exemplo, o

toque em um tam-tam que esteja acoplado a um colar de sementes,

cujo movimento se realimenta da própria vibração do tam-tam.

Podemos pensar então que é no gesto instrumental, no gesto com o

sentido beriano, que traz uma história, que a anamorfose no caso da

música mista tende a ser mais enfatizada.

 

1 Referência à obra mista Contexture III: Tempi reale, Tempo

virtuale (Flo Menezes, 1990), que usaremos a título de exemplo a

seguir.

 

2 Disponível em: <https://soundcloud.com/tiago-gati>.

 

3 Embora não contenha uma contraparte eletroacústica, a obra é

fortemente influenciada pelas experiências contemporâneas em

estúdio de Stockhausen.

 

4 Mais detalhes em Menezes (1998, p.15-6).

 

5 “A eletrônica e a análise do som transformaram radicalmente, a

partir dos anos 1970, minha escritura instrumental [...] As formas e

os sons que imagino seriam sem dúvida impensáveis sem a

influência revigorante da eletrônica” (Grisey, 2008 [1985], p.175,

tradução livre).

 

5 O termo “música concreta instrumental”, utilizado pelo compositor

alemão, refere-se à busca por uma desfamiliarização da técnica

instrumental, pela utilização não usual de instrumentos

sedimentados historicamente, em meio ao contexto da música de

concerto.

7 Pensa-se aqui em um exemplo específico que trata esta questão:

Machination, obra mista de George Aperghis para três vozes

femininas, que, muito enfaticamente, promove quebras no fluxo

musical e oral via recursos eletroacústicos, “maquinizando” a própria

voz.

 

8 Além do caso da difusão de sons pré-elaborados em estúdio, é

possível transformar ao vivo os sons provenientes dos instrumentos

de diversas maneiras: alterações de duração, altura ou outras

modificações espectrais, captação e reprodução de materiais

tocados pelo intérprete em momentos posteriores (pelo uso de

delays ou da gravação e reprodução de um buffer) e, finalmente,

uma reconfiguração do espaço da performance, pelas possíveis

alterações e manipulações das trajetórias e planos dos sons no

espaço. Algumas destas transformações serão exemplificadas mais

adiante.

 

9 Disponível em: <https://soundcloud.com/tiago-gati>.

 

10 Adoto, em diversos momentos, a diferença entre transfiguração,

que sugere modificação até certo limite de reconhecibilidade,

mantendo a identidade, e transformação, que leva a um polo mais

distante, caracterizando já um outro som, sem qualquer referência

ao de origem. É precisamente nesses meandros que se instauram

as anamorfoses, quando se impõe a condição de dúvida. Danto

(2005, p.246-7) lança um argumento interessante acerca desta

diferenciação: “uma escultura de Napoleão como imperador romano

não se limita a representá-lo em trajes arcaicos [...]. Faz parte da

estrutura de uma transfiguração metafórica que o objeto da metáfora

mantenha sua identidade o tempo todo e seja reconhecido como tal.

Trata-se, portanto, mais de uma transfiguração que de uma

transformação: Napoleão não se converte em imperador romano;

ele simplesmente porta os atributos de um imperador romano”.

 

11 A programação em Max/MSP foi realizada por André Perrotta. A

estreia foi em outubro de 2013 no Sesc Consolação, com Elissa

Cassini ao violino.

12 Disponível em: <https://soundcloud.com/tiago-gati>.

 

13 Disponível em: <https://soundcloud.com/tiago-gati>.

 

14 É interessante notar que, assim como no exemplo dado de Murail

e em outras obras com fita magnética do compositor britânico, como

Bhakti para 15 instrumentos e tape (1982) e Tombeau de Messiaen

(1994), o tape é encarado como uma extensão tão contínua da

escritura instrumental que é inclusive escrito na partitura em notação

convencional. Tristan Murail também revela uma particular busca

por criar um continuum entre elaboração harmônica e timbre em

Mémoire-Érosion, para trompa e ensemble (1976). O compositor

francês revela, por exemplo, ter valorizado intervalos de 12ª e 17ª,

bastante pronunciados nas arcadas em sul ponticello (parciais 3 e 5)

dos instrumentos de corda (Murail, 2000, p.6-7).

 

15 No original: “I felt the social and spiritual differences between

loudspeaker music and live-player music to be aesthetically

insupportable and that they should be contradicted – made

ambiguous – by having the sound and structure of the tape music as

similar as possible to the live music. In addition, the numerous small

departures in the tape from strict instrumental imitation can be more

effective because the listener gauges so precisely how far removed

they are from their ‘base’. A foreground can be composed against a

clear background. Ambiguity is constantly present in that the ear is

often unsure whether it is hearing tape or live player. This borderland

is intriguing: the numbers necessary to create precise identities and

the middle ground of ambiguity dance in delicate play with the

instruments’ cultural associations, created by several centuries of

usage”.

 

16 “Para haver fusão entre as escrituras instrumental e

eletroacústica, será necessário que haja transferências localizadas

de características espectrais de uma esfera de atuação à outra”

(Menezes, 2006 [2001], p.385-6).

 

17 Disponível em: <https://soundcloud.com/tiago-gati>.

18 Disponível em: <https://soundcloud.com/tiago-gati>.

 

19 Dictionnaire de la langue française, par É. Littré. Texto integral

disponível em <http://www.littre.org/>.

 

20 No original: “Image déformée dessinée sur une surface plane, qui,

réfléchie par un miroir cylindrique vertical, offre une figure régulière”.

 

21 No original: “Mot grec fictif dérivé d’un autre mot fictif, ce dernier

provenant de ANA indiquant transposition, et du terme grec signifiant

forme”.

 

22 Grande Dicionário Houaiss. Disponível em

<http://houaiss.uol.com.br/>.

 

23 Versão em português presente em Shakespeare (1976). No

original (Hamlet, Prince of Denmark. Cena IV, Ato III): “Ham. Come,

come, and sit you down; you shall not budge: / You go not, till I set

you up a glass / Where you may see the inmost part of you. / Queen:

What wilt thou do? Thou wilt not murder me? / Help, help, ho! / [...] O

Hamlet, speak no more! / Thouh turn’st mine eyes into my very soul;

/ And there I see such black and grained spots, / As will not leave

their tinct” (Shakespeare, 1993).

 

24 Abordei as relações entre esta ilusão visual e a ilusão do relevo

sonoro na conferência Immersion, presence and Drama in the

Musical Space of Performance with Loudspeakers na Universidad

Autónoma de Madrid em março de 2013, comparando a

necessidade de situar-se em um ponto específico de observação

tanto para apreciar com clareza a ilusão em obras pictóricas que

realizam um trompe l’oeil (literalmente, “enganar os olhos”) quanto

para perceber uma trajetória sonora circular cuidadosamente

elaborada em estúdio por meio de alto-falantes.

 

25 No original: “– on peut y appliquer des contraintes telles que

torsion, déformation, inversion: anamorphose (ana: en remontant); /

on peut à partir de deux images en produire une troisième, hybride, par masque et croisement continu de traits: métamorphose (méta:

succession); / on peut analyser l’image pour générer, synthétiser

d’autres images: morphogenèse.”

 

26 É precisamente isso que ocorre no início de Nomoi, para violino e

live-electronics. Harvey também realiza essa mesma ideia, em

tempo diferido, em Tombeau de Messiaen, para piano e tape: os

sons eletroacústicos adicionam notas do piano transpostas a alturas

correspondentes a doze séries harmônicas, uma para cada nota

temperada, causando uma sensação de “desafinação”.

 

27 É possível consultar a figura no link:

http://www.nationalgallery.org.uk/paintings/hans-holbein-the-

younger-the-ambassadors.

 

28 No original: “Le terme anamorphose se rapporte à [...] certaines

‘irrégularités’ remarquables, dans le passage de la vibration

physique au son perçu, faisant penser à une espèce de déformation

psychologique de la ‘réalité’ physique, et dont nous verrons qu’elles

traduisent simplement l’irréductibilité de la perception à la mesure

physique”.

 

29 Outros compositores também investigaram a percepção da

passagem do tempo em música, notadamente Olivier Messiaen e

Gérard Grisey (deste último ver, por exemplo, “Devenir du son” e

“Tempus ex machina” (2008), em que fala de uma “espessura do

presente”, existente entre dois eventos sonoros e variável conforme

a caracterização espectral de ambos).

 

30 No original: “The focus of a live performance visually and

musically – and I am thinking about solo performance here – is the

performer. So, I don’t want to use as full a diffusion system as I do

for tape pieces, because overdoing the diffusion will tend to

undermine the carefully considered musical relationships between

the live performer and the content of the acousmatic domain. In

other words, there are important blends, important ambiguities of

sound, which you destroy if you start over-diffusing the acousmatic component. One of the most important things about the relationship

between an instrument and tape is the game of ambiguities, and I

want to maintain and enhance this” (Smalley, 2000, p.14).