Angústia
Posfácio
SILVIANO SANTIAGO
Na superfície do fluxo narrativo, Angústia (1936), de Graciliano Ramos, se
organiza por um duplo processo de rememoração, levado a cabo por Luís da
Silva, narrador e personagem do romance. Luís fixara residência na capital do
estado natal, Maceió. Era funcionário público e, nas horas vagas e noturnas,
jornalista e escritor.
O primeiro processo de rememoração se enquadra dentro de recurso da
retórica clássica, conhecido na linguagem cinematográfica como flashback, e se
evidencia no desenrolar da ação dominante. Vai do primeiro capítulo até o final
do penúltimo e abre um arco em meados da década de 1930, que abrange ano e
meio da vida rotineira e transtornada de Luís em Maceió. O crime, que encerra a
ação do romance, parte de um domingo de janeiro do ano anterior. Naquele dia
Luís tinha visto pela primeira vez Marina e por ela se apaixonado. O
relacionamento amoroso não se encaminhou para o final feliz. Pelo contrário.
Conduziu o apaixonado ao ciúme da amada e ao ódio do rival. Enforca Julião,
jovem e petulante milionário, conhecido estuprador de mocinhas pobres e
ambiciosas. Como coronel do sertão, cangaceiro ou cobra sorrateira, Luís faz
justiça com as próprias mãos. Acuado por pressentimentos apavorantes, sente necessidade de compartilhar a experiência solitária e infeliz. Escreve-a e a
resume de maneira notável no último capítulo, sentença judicial autopunitiva,
anterior à justiça dos homens. O justiceiro apaixonado permanece como tal.
Muda o objeto. Transforma-se no “carrasco de si mesmo”, para retomar o título
do poema de Charles Baudelaire.
O segundo processo de rememoração é produto da memória do personagem.
Sob a forma de fragmentos, Luís passa em revista e a limpo os trinta e poucos
anos de vida que antecedem o momento do encontro decisor com Marina.
Personagens e fatos levantados pela memória do narrador/personagem aparecem
soltos e pululantes no corpo do romance. Para me valer do achado feliz e
pioneiro de Lúcia Helena Carvalho, em A ponta do novelo (Ática, 1983), a
grande narrativa recompõe o passado remoto de Luís ao lhe abrir, de maneira
intermitente, brechas, que logo são ocupadas por “micronarrativas”. A ação
descrita por estas antecede e, por isso, extrapola o quadro cronológico da grande
narrativa da paixão por Marina, da punição do amante e da autopunição. As
micronarrativas autobiográficas mantêm entre elas uma estrutura tão fechada
quanto a da grande narrativa. Pespontam o fluxo narrativo dominante com
comentários críticos, irônicos ou simbólicos.
O Brasil descrito pelas micronarrativas é o da República Velha (1889-1930).
Ali estão plantadas as raízes sentimentais de Luís. Ele não é um citadino.
Transplantara-se do campo para a capital, transformando-se em representante
típico da juventude tenentista, isto é, “molambo que a cidade puiu demais e
sujou”. Nas comunidades rurais alagoanas, o relacionamento entre os humanos é
rude e áspero. São todos dominados pela vontade férrea do coronel, que toma
assento no topo da pirâmide político-familiar. O comportamento dos membros
do clã e dos animais é dado sem solução de continuidade. São sobreviventes
num mundo que está ruindo. Revoltado contra o estado das coisas e
entusiasmado pela transformação revolucionária da sociedade, Luís tinha se
desligado da vida familiar e rural para assumir “vida de cigano”. As viagens pelo
país complementam o relato da experiência infantil e juvenil no campo.
Como o amanuense Belmiro, no romance homônimo de Ciro dos Anjos, Luís
perdeu o alicerce patriarcal e, na capital, constrói — mais pelos cinco sentidos
do que pela razão — réplicas empobrecidas da nobre pirâmide familiar rural.
Compreender Angústia ou O Amanuense Belmiro (1937) é compreender o papel
desempenhado por (principalmente) vizinhos, profissionais boêmios e colegas de
repartição no mundo urbano do filho de fazendeiro, desenraizado na grande
cidade. A fragmentação urbana, dramatizada à perfeição por Érico Veríssimo em
Caminhos cruzados (1935), é nos romances tenentistas a alegoria da comunidade
rural perdida.
Será por coincidência que a ação dos três grandes romances citados se passa,
respectivamente, em Maceió (Nordeste), Belo Horizonte (Centro-Oeste) e Porto
Alegre (Sul)? Será por coincidência que os três tenham sido escritos por
provincianos que viviam na capital do estado natal? Não seria o caso de convidar
o leitor a contrapor os três romances regionais e derrisórios às alegorias
propriamente nacionais e progressistas dos anos 1920, tal como oferecidas por
Macunaíma, de Mário de Andrade, e Memórias sentimentais de João Miramar,
de Oswald de Andrade?
Em Angústia, o trançado entre a grande narrativa e as micronarrativas tem a
originalidade acentuada pela forma inusitada como ocorrem os encaixes. A cada
momento as intervenções subversivas da memória rural do personagem fazem a
linearidade impulsiva da memória urbana explodir, redirecionando-a para o
passado remoto. Em outras palavras: a lembrança dos acontecimentos recentes
na capital é alicerçada e, ao mesmo tempo, quebrada e explicada pela lembrança
de acontecimentos e de figuras humanas do antigo mundo sertanejo, dominado
pelos coronéis. Angústia teria sido um romance catastrófico — composto de
longas passagens obscuras do passado recente e estilhaços esclarecedores do
passado remoto —, não fosse a maestria incomparável do ficcionista.
O romancista buscou e encontrou uma cadência dramática em que a
harmonização do todo se constrói também pela função de ligadura emprestada às
partes mínimas do discurso ficcional. Trata-se de romance em que a integridade física do conjunto artístico foi soldada por sobras, que saltam aos olhos do leitor
perspicaz. Busca a plenitude estética sem abjurar a superabundância. Não se
trata de modo de composição encontrado nos padrões clássicos da ficção luso-
brasileira. Seja a oitocentista dos mestres Eça de Queirós e Machado de Assis.
Seja a do próprio autor, como está patente em outros romances seus. No cárcere
do Estado Novo, infeliz com o texto desconjuntado que tinha mandado ao editor,
Graciliano anotou: “Necessário meter-me no interior [do estado], passar meses
trancado, riscando linhas, condensando observações espalhadas.” Malgrado a
opinião negativa do autor sobre o filho, assinalemos que há na superabundância
um terceiro processo de rememoração, agora de responsabilidade do próprio
texto.
O discurso ficcional da rememoração, bipolar como vimos, é suplementado
pelas rememorações do texto, que elegem e realçam pela repetição certos
elementos ou passagens. Tudo se passa no terceiro processo de rememoração
como se Angústia fosse uma peça de pano. Desenrolada no balcão da leitura, as
figuras estampadas (vale dizer: certas palavras e curtíssimas passagens)
aparecem e desaparecem no tecido unido com a desenvoltura de símbolos ou
emblemas. Esse terceiro processo, que chamaremos de interno, produz uma
quantidade apreciável de casulos de redundância no tecido narrativo, que podem
ser facilmente apanhados e catalogados pelo crítico e servir de munição para o
ataque.
Um desses críticos, e dos mais abalizados, Antonio Candido, chama Angústia
de “romance excessivo”. Contrasta-o com “a descrição e despojamento dos
outros” romances, para acentuar que nele há “partes gordurosas e corruptíveis”.
Reconhece, no entanto: “talvez por isso mesmo seja mais apreciado” (Ficção e
confissão, José Olympio, 1956). Rui Mourão vai além na crítica, ao ficar aquém
da análise discursiva. Até a frase — observa ele em Estruturas (Arquivo/INL,
1971) — sofre um “carreamento acumulador”. O autor de S. Bernardo “violenta-
se”, “produzindo frases, senão redundantes, de expressão multiforme e
superpostas”.
Armado o contrassenso crítico, ali foi encerrado Angústia. Os “defeitos” de
composição na frase e no discurso ficcional não empanam a “alta qualidade” do
romance. Ponhamos abaixo o contrassenso. Dos casulos de redundância
nascerão borboletas! O romance é excepcional porque recebeu a composição
justa. A superabundância dos detalhes foi alimentada pela imaginação
enraivecida do apaixonado. A compulsão à repetição foi impulsionada pela
escrita do paranoico obsessivo. Marina e o assassinato de Julião, o crime e a
autopunição — eis os pontos fulcrais da experiência de vida de Luís da Silva em
Maceió, narrada por ele próprio. Composto de outra forma, Angústia não teria
sido tão exitoso.
Subversivo ao cânone luso-brasileiro? Sim. Subversivo ao cânone
graciliânico? Sim. Subversivo à famosa leitura que João Cabral de Melo Neto
faz do estilo “faca só lâmina” do romancista? Sim. E daí? A qualidade do
romance decorre da “psicologia de composição” adequada, única e original
dentro da literatura luso-brasileira. Ela o vincula não só a temas universais, mas
também aos “defeitos” assinalados pelos críticos em clássicos da literatura
ocidental, como os romances de Honoré de Balzac ou Fiodor Dostoievski.
Angústia é o anti-Gustave Flaubert. Não há palavra certa no lugar certo, porque
palavra e lugar perderam o estatuto de certeza conferido pela narrativa realista e
objetiva.
Vale a pena deter no procedimento de soldagem por sobras do fluxo
narrativo. Angústia rechaça a construção do discurso por frases justapostas
(parataxe, segundo a terminologia gramatical), em que pouco do sentido da frase
anterior é carreado para a frase seguinte. Há como que um hiato semântico entre
elas, a ser preenchido pelo leitor. Já a construção determinante do discurso
ficcional no romance que iremos ler se dá pela contaminação abusiva da frase
seguinte pela frase anterior, da sequência seguinte pela sequência anterior. Seja
para seguir semelhanças, seja para acentuar diferenças, seja pela combinação dos
dois motivos, a junção de frases em sequência e de sequências em parágrafo
desconhece fronteiras semânticas claras e precisas. Isto é, desconhece finais e re-começos bruscos, como na junção de elementos pela parataxe. Estamos bem
próximos do recurso retórico que se encontra na montagem cinematográfica,
conhecido como sobreimpressão. Uma imagem desaparece pouco a pouco (fade
out). Outra imagem, semelhante e/ou diferente, vai sobrepondo-se pouco a
pouco à anterior (fade in).
Eis um exemplo de contaminação por semelhança e diferença. A
micronarrativa nos leva à escola primária, onde o menino Luís via, do outro da
rua, uma casa que tinha um “quintal cheio de roseiras”. Acrescenta: “Moravam
ali três mulheres velhas que pareciam formigas. Havia rosas em todos os
cantos”. Fade out. Fade in: a macronarrativa nos leva a Luís, já adulto, em
Maceió, em momento decisivo da ação. Ele repara o quintal vizinho: “Daqui
também se veem algumas roseiras maltratadas no quintal da casa vizinha. Foi
entre essas plantas que, no começo do ano passado, avistei Marina pela primeira
vez, suada, os cabelos pegando fogo”. A micronarrativa se encaixa, pela
repetição, na macronarrativa e vice-versa. Basta que o leitor dê continuidade à
leitura do primeiro grupo semântico (vizinhas-roseiras-mulheres-formigas) pelo
segundo (vizinha-roseiras-Marina), para topar adiante com belíssima passagem,
em que o corpo de Marina é recomposto por “formigas”, que se grudam ao braço
de Luís. Elas (as formigas e Marina) — lá longe e grudadas à pele — mordem-
no e o envenenam. Inspirada — ou não — pela estética surrealista de Luis
Buñuel/Salvador Dalí, cimentada no clichê da femme fatale dos romances
policiais e do filme noir, é deslumbrante e inédita na nossa literatura a
continuação da cena, que se passa entre a janela e o quintal da vizinha:
Ao pegar-me a mão, [Marina] ficou agarrada, os dedos contraídos, o braço estirado, mostrando-se, na faixa de luz que entrava pela janela. Isto me dava a impressão de que o meu braço havia crescido enormemente. Na extremidade dele um formigueiro em rebuliço tinha tomado subitamente a conformação de um corpo de mulher. As formigas iam e vinham, entravam-me pelos dedos, pela palma e pelas costas da mão, corriam-me por baixo da pele, e eram ferroadas medonhas, eu estava cheio de calombos envenenados. Não distinguia o movimento desses bichinhos insignificantes que formavam o peito, a cara, as coxas e as nádegas de Marina [...].
As implicações hermenêuticas são muitas e não se esgotam, é claro, nas
palavras de que nos valemos para apresentar a sequência. Convidamos o leitor a
explorá-la. Também chamamos a sua atenção para o fato de ali estar patente a
maneira como por todo o romance, em si fragmentado, o narrador fragmenta a
figura de Marina. A fragmentação no tecido narrativo não é apenas consequência
do modo narrativo, é também produto de uma visão retorcida/distorcida de
mundo, de que o modo é mera consequência. Vejam-se estes dois outros
exemplos de fragmentação. Do nome próprio, com intenção lírica: “Em duas
horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome,
arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar.” E do corpo da amada,
com intenção sádica: “Veio-me o pensamento maluco que tinham dividido
Marina. Serrada viva, como se fazia viva antigamente. Essa ideia absurda e
sanguinária deu-me grande satisfação. Nádegas e pernas para um lado, cabeça e
tronco para o outro.”
Se o processo de composição do texto procede por contaminação abusiva, já
a caracterização do personagem Luís da Silva se dá pela figura dominante da
incompatibilidade. Incompatibilidade de temperamentos, como diz o advogado
para justificar o divórcio e como dirá o leitor ao analisar sucessivos
desentendimentos e desencontros entre Luís e Marina. Angústia, ao contrário dos
filmes de Pedro Almodóvar, é um romance onde laços de intimidade familiar e
amorosa, ou de amizade profunda, não são atados. Laço é morte. Pedaços de
corda e corpos de cobra pululam pelo romance. O laço é dado na corda ao final
de Angústia, para Luís enforcar Julião. Na micronarrativa simbólica, o corpo da
cobra se enrosca em laço para esgoelar o roceiro. A solidão é o estado natural do
narrador/personagem, isso porque a aproximação do outro corrompe: “Eu queria
gritar e espojar-me na areia como os outros. Mas meu pai estava na esquina [...]
e não consentia que me aproximasse das crianças, certamente receando que me
corrompesse. Sempre brinquei só. Por isso cresci assim besta e mofino.”
Assinalemos mais dois exemplos de incompatibilidade.
A antipatia de Luís por Julião Tavares nasce no primeiro encontro e continua como “ódio” até o momento do enforcamento. É tão óbvia que não vale a pena
persegui-la com citações. Moisés poderia ser o amigo querido de Luís. Em
virtude de dívida contraída, Luís se esconde dele. Mais do que a promissória,
distanciam-no a fala e a dubiedade comportamental do amigo. Segundo o
narrador, Moisés tem “sintaxe medonha e pronúncia incrível”, “deturpa o sentido
das palavras e usa esdrúxulas de maneira insensata”. Ao ler o jornal, Moisés
aponta com o dedo a notícia ou artigo revolucionários. Ao entrar o chefe de
polícia, “o dedo some-se entre as folhas do jornal, o revolucionário esconde-se
por detrás do sorriso inexpressivo. Covardia”.
A incompatibilidade entre os amigos prossegue e cala fundo nas respectivas
posturas políticas. O que interessa a Moisés “é o sofrimento da multidão, a
tragédia periódica das secas”. Cala mais fundo ainda no tocante à concepção de
literatura: “Moisés atacaria os livros feitos com frases bem-arrumadas. A arte
deveria estar ao alcance de todos, a serviço da política.” Luís da Silva, ao ler o
slogan “Proletários, uni-vos”, pichado no muro sem a vírgula e o traço de união,
comenta: “Não dispenso as vírgulas e os traços. Quereriam fazer uma revolução
sem vírgulas e sem traços? Numa revolução de tal ordem não haveria lugar para
mim”.
O modo verbal, de que se serve o narrador, condiciona a vinda da almejada
revolução proletária à boa gramática e nos remete à boa sorte do futuro do
pretérito (“quereriam fazer uma revolução...”). Se a negação da parataxe pela
contaminação distancia Angústia dos outros romances de Graciliano,
reconheçamos que esse importantíssimo detalhe verbal coloca todos no mesmo
saco. Etiqueta: a frequência no uso expressivo do futuro do pretérito. Celso
Cunha e Lindley Cintra afirmam que se emprega esse tempo verbal “nas
afirmações condicionadas, quando se referem a fatos que não se realizaram e
que, provavelmente, não se realizarão”. Abonam a definição com exemplo de S.
Bernardo: “Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só.” Exemplos
extraordinários também não faltam em Vidas secas:
A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. [...] Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, sinhá Vitória vestiria saias de ramagens vistosas.
No dia de são-nunca, completemos a citação.
Aos três processos de rememoração, que caracterizamos como fundamento
do fluxo narrativo de Angústia, se soma a escapada pelo e para o futuro do
pretérito. Sem nunca se realizar no plano do real, a brecha escapista se abre na
escuridão do presente como epifania da vida miserável. Retomemos palavras de
Angústia por esse outro viés: “Escrevo, invento mentiras sem dificuldade. Mas
as minhas mãos são fracas, e nunca realizo o que imagino.” No futuro do
pretérito graciliânico se cruzam imaginação fértil e fraqueza, lampejos de
esperança e sofrimento. As boas intenções da ficção contrastam-se com a
brutalidade do real. O futuro do pretérito é o mais evidente sinal da frustração e
da insularidade do ser humano miserável no universo romanesco de Graciliano
Ramos. É também a certeza de que, no decálogo dos direitos humanos dos
miseráveis, está inscrito o direito ao sonho. Até a cachorra Baleia dele se
beneficia: “Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de
Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela [...]”.
As muitas passagens escritas no futuro do pretérito, se lidas com o cuidado e
a tolerância ideológica que reclamam, nos remetem — pelo avesso — ao fulcro
de um pessimismo basilar, formatado pela irracionalidade. Ao relegar a grande
maioria (perdoem o pleonasmo) dos viventes à miséria, a organização
socioeconômica do mundo se apresenta de tal forma injusta, cruel e caótica, de
tal modo fixa para todo o sempre, que os personagens de Graciliano perdem o
norte ditado pela razão revolucionária e passam a jogar a moeda do caminho
esperançoso na contingência irracional da (boa) sorte. Desta, caso se
transformasse em fonte, jorraria a água milagrosa que tornaria os deserdados da
terra humanos e felizes. Leiamos um trecho de Vidas secas, em que a vitória
sobre a “sorte ruim” é a garantia do prêmio ainda em vida:
Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem.
Em Angústia o acesso à vida digna só pode estar na conjunção se,
condicionada pela (boa) sorte na loteria. O direito ao sonho de Luís da Silva (a
felicidade no amor) esteve em jogo na possibilidade do bilhete de loteria sair
premiado. Sorte grande:
Cem contos de reis, dinheiro bastante para a felicidade de Marina. Se eu possuísse aquilo, construiria um bangalô no alto do Farol, um bangalô com vista para a lagoa. Sentar-me-ia ali, de volta da repartição, à tarde, como Tavares & Cia., Dr. Gouveia e os outros, contaria histórias à minha mulher, olhando os coqueiros, as canoas dos pescadores.
— 16.384.
[...] Marina dormiria num colchão de paina [grifo nosso]. E quando saltasse da cama, pisaria num tapete felpudo que lhe acariciaria os pés descalços.
— 16.384.
Não são enigmáticas as quatro últimas palavras de Angústia: “Um colchão de
paina.” A felicidade terrena do casal Marina e Luís.
Agosto de 2003