Angústia
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me
restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas
noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se
misturam à realidade e me produzem calafrios.
Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que
eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão
gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa.
Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de
uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham
ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de
prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o
beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga
uma opinião à toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram
as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama.
Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As
mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das
palmas cicatrizaram.
Impossível trabalhar. Dão-me um ofício, um relatório, para datilografar, na
repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado
uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro. Tento vencer a obsessão,
capricho em não usar a borracha. Concluo o trabalho, mas a resma de papel fica
muito reduzida.
À noite fecho as portas, sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca
emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal.
Vitória resmunga na cozinha, ratos famintos remexem latas e embrulhos no
guarda-comidas, automóveis roncam na rua.
Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras
deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte
nomes. Quando não consigo formar combinações novas, traço rabiscos que
representam uma espada, uma lira, uma cabeça de mulher e outros disparates.
Penso em indivíduos e em objetos que não têm relação com os desenhos:
processos, orçamentos, o diretor, o secretário, políticos, sujeitos remediados que
me desprezam porque sou um pobre-diabo.
Tipos bestas. Ficam dias inteiros fuxicando nos cafés e preguiçando,
indecentes. Quando avisto essa cambada, encolho-me, colo-me às paredes como
um rato assustado. Como um rato, exatamente. Fujo dos negociantes que soltam
gargalhadas enormes, discutem política e putaria.
Não posso pagar o aluguel da casa. Dr. Gouveia aperta-me com bilhetes de
cobrança. Bilhetes inúteis, mas dr. Gouveia não compreende isto. Há também o
homem da luz, o Moisés das prestações, uma promissória de quinhentos mil-réis,
já reformada. E coisas piores, muito piores.
O artigo que me pediram afasta-se do papel. É verdade que tenho o cigarro e
tenho o álcool, mas quando bebo demais ou fumo demais, a minha tristeza
cresce. Tristeza e raiva. Ar, mar, ria, arma, ira. Passatempo estúpido.
Dr. Gouveia é um monstro. Compôs, no quinto ano, duas colunas que
publicou por dinheiro na seção livre de um jornal ordinário. Meteu esse
trabalhinho num caixilho dourado e pregou-o na parede, por cima do bureau.
Está cheio de erros e pastéis. Mas dr. Gouveia não os sente. O espírito dele não tem ambições. Dr. Gouveia só se ocupa com o temporal: a renda das
propriedades e o cobre que o tesouro lhe pinga.
Não consigo escrever. Dinheiro e propriedades, que me dão sempre desejos
violentos de mortandade e outras destruições, as duas colunas mal impressas,
caixilho, dr. Gouveia, Moisés, homem da luz, negociantes, políticos, diretor e
secretário, tudo se move na minha cabeça, como um bando de vermes, em cima
de uma coisa amarela, gorda e mole que é, reparando-se bem, a cara balofa de
Julião Tavares muito aumentada. Essas sombras se arrastam com lentidão
viscosa, misturando-se, formando um novelo confuso.
Afinal tudo desaparece. E, inteiramente vazio, fico tempo sem fim ocupado
em riscar as palavras e os desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, até
que deixo no papel alguns borrões compridos, umas tarjas muito pretas.
. . .
Se pudesse, abandonaria tudo e recomeçaria as minhas viagens. Esta vida
monótona, agarrada à banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é
estúpida. Vida de sururu. Estúpida. Quando a repartição se fecha, arrasto-me até
o relógio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da-Terra.
Que estará fazendo Marina? Procuro afastar de mim essa criatura. Uma
viagem, embriaguez, suicídio...
Penso no meu cadáver, magríssimo, com os dentes arreganhados, os olhos
como duas jabuticabas sem casca, os dedos pretos do cigarro cruzados no peito
fundo.
Os conhecidos dirão que eu era um bom tipo e conduzirão para o cemitério,
num caixão barato, a minha carcaça meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem
as alças, revezando-se no mister piedoso e cacete de carregar defunto pobre,
procurarão saber quem será o meu substituto na diretoria da fazenda.
Enxoto as imagens lúgubres. Vão e voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares. Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento
dessas coisas. Não sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando
a rua.
À medida que o carro se afasta do centro sinto que me vou desanuviando.
Tenho a sensação de que viajo para muito longe e não voltarei nunca. Do lado
esquerdo são as casas da gente rica, dos homens que me amedrontam, das
mulheres que usam peles de contos de réis. Diante delas, Marina é uma ratuína.
Do lado direito, navios. Às vezes há diversos ancorados. Rolam bondes para a
cidade, que está invisível, lá em cima, distante. Vida de sururu.
Há quinze anos era diferente. O barulho dos bondes não deixava a gente
ouvir o sino da igreja. O meu quarto, no primeiro andar, era um inferno de calor.
Por isso, à hora em que os outros hóspedes iam para a escola, estudar medicina,
eu dava um salto ao Passeio Público e lia, debaixo das árvores, o noticiário da
polícia. Naturalmente a pensão se fechou e d. Aurora, que naquele tempo era
velha, morreu.
O calor aqui também é grande demais. E faltam plantas. Apenas, um pouco
afastados, coqueiros macambúzios, perfilados, como se esperassem ordens.
Cidade grande, falta de trabalho. O meu quarto ficava junto à escada, e à
noite o cheiro do gás era insuportável. Quando escurecia, Dagoberto, estudante e
repórter, vinha despejar sobre a minha cama um compêndio de anatomia e uma
cesta de ossos.
O bonde chega ao fim da linha, volta. Bairro miserável, casas de palha,
crianças doentes. Barcos de pescadores, as chaminés dos navios, longe.
D. Aurora, que tinha sobrenome inglês, às seis horas encostava-se ao guarda-
louça e rosnava, agitava os caracóis brancos, pregava os óculos nos hóspedes
que comiam demais e nos que estavam em atraso. Havia um rapaz de Minas,
dispéptico, que ela adorava e queria casar com a neta. Enquanto os outros
mastigavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre os discursos da câmara.
Retorno à cidade. Os globos opalinos do Aterro iluminam o gramado murcho
e a praia branca. Os coqueiros empertigados ficam para trás. Penso numa ditadura militar, em paradas, em disciplina. Os navios também ficam para trás. A
pensão, o meu quarto abafado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos de
Dagoberto somem-se.
O carro passa pelos fundos do tesouro. É ali que trabalho. Ocupação estúpida
e quinhentos mil-réis de ordenado.
Rua do Comércio. Lá estão os grupos que me desgostam. Conto as pessoas
conhecidas: quase sempre até os Martírios encontro umas vinte. Distraio-me,
esqueço Marina, que algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez
da realidade, mas agora não vejo os navios, a recordação da cidade grande
desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dirige-se ao interior.
Tenho a impressão de que ele me vai levar ao meu município sertanejo. E nem
percebo os casebres miseráveis que trepam o morro, à direita, os palacetes que
têm os pés na lama, junto ao mangue, à esquerda. Quanto mais me aproximo de
Bebedouro mais remoço. Marina, Julião Tavares, as apoquentações que tenho
experimentado estes últimos tempos, nunca existiram.
Volto a ser criança, revejo a figura de meu avô, Trajano Pereira de Aquino
Cavalcante e Silva, que alcancei velhíssimo. Os negócios na fazenda andavam
mal. E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros
manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho
para cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando com a vitória do partido que
padre Inácio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira,
envergavam o espinhaço e comiam o mandacaru que Amaro vaqueiro cortava
nos cestos. O cupim devorava os mourões do curral e as linhas da casa. No
chiqueiro alguns bichos bodejavam. Um carro de bois apodrecia debaixo das
catingueiras sem folhas. Tinham amarrado no pescoço da cachorra Moqueca um
rosário de sabugos de milho queimados. Quitéria, na cozinha, mexia em
cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no caritó.
Eu andava no pátio, arrastando um chocalho, brincando de boi. Minha avó,
sinha Germana, passava os dias falando só, xingando as escravas, que não
existiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. Às vezes subia à vila, descomposto, um camisão vermelho por cima
da ceroula de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri, alpercatas e varapau. Nos
dias santos, de volta da igreja, mestre Domingos, que havia sido escravo dele e
agora possuía venda sortida, encontrava o antigo senhor escorado no balcão de
Teotoninho Sabiá, bebendo cachaça e jogando três-setes com os soldados. O
preto era um sujeito perfeitamente respeitável. Em horas de solenidade usava
sobrecasaca de chita, correntão de ouro atravessado de um bolso a outro do
colete, chinelos de trança, por causa dos calos, que não aguentavam sapatos. Por
baixo do chapéu duro, a testa retinta, úmida de suor, brilhava como um espelho.
Pois, apesar de tantas vantagens, mestre Domingos, quando via meu avô naquela
desordem, dava-lhe o braço, levava-o para casa, curava-lhe a bebedeira com
amoníaco. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomitava na
sobrecasaca de mestre Domingos e gritava:
— Negro, tu não respeitas teu senhor não, negro!
Quando o carro para, essas sombras antigas desaparecem de supetão — e
vejo coisas que não me excitam nenhum interesse: os focos da iluminação
pública, espaçados, cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério;
um palácio transformado em albergue de vagabundos; escuridões, capoeiras,
barreiras cortadas a pique no monte; a frontaria de uma fábrica de tecidos; e, de
longe em longe, através de ramagens, pedaços de mangue, cinzentos. À medida
que nos aproximamos do fim da linha as paradas são menos frequentes. Os
postes cintados de branco passam correndo, o carro está quase vazio, as
recordações da minha infância precipitam-se. E a decadência de Trajano Pereira
de Aquino Cavalcante e Silva precipita-se também.
Estava pegando um século quando entrou a caducar. Encolhido na cama de
couro cru, mijava-se todo, contava os dedos dos pés e caía na madorna. De
repente acordava sobressaltado:
— Sinha Germana!
Meu pai largava o Carlos Magno, abria o tabaqueiro, deixava a rede,
impaciente:
— Que é que há?
— Homem, você não me dirá onde está sua mãe? Aqui mais de uma hora
chamando essa mulher!
— Morreu.
— Que está me dizendo? estranhava o velho arregalando os olhos quase
cegos. Quando foi isso?
Camilo Pereira da Silva amolava-se:
— Deixe de arrelia. Morreu o ano passado.
— Tanto tempo! dizia Trajano. E vocês calados...
Punha-se a folgar com os dedos e pegava no sono. Quinze minutos depois
estava berrando:
— Sinha Germana!
Acabou-se numa agonia leve que não queria ter fim. E enterrou-se na
catacumba desmantelada que nossa família tinha no cemitério da vila. Mestre
Domingos pegou na alça do caixão e declarou a meu pai que a morte é um
mundéu. Fomos morar na vila. Meteram-me na escola de seu Antônio Justino,
para desasnar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu era
um cavalo de dez anos e não conhecia a mão direita. Aprendi leitura, o
catecismo, a conjugação dos verbos. O professor dormia durante as lições. E a
gente bocejava olhando as paredes, esperando que uma réstia chegasse ao risco
de lápis que marcava duas horas. Saíamos em algazarra. Eu ia jogar pião,
sozinho, ou empinar papagaio. Sempre brinquei só.
. . .
Uma chuvinha renitente açoita as folhas da mangueira que ensombra o fundo do
meu quintal, a água empapa o chão, mole como terra de cemitério, qualquer
coisa desagradável persegue-me sem se fixar claramente no meu espírito. Sinto-
me aborrecido, aperreado.
Debaixo da chuva azucrinante, espécie de neblina pegajosa, a mangueira do
quintal e as roseiras da casa vizinha estão quase invisíveis.
Emendo um artigo que Pimentel me pediu, artigo feito contra vontade, só
para não descontentar Pimentel. Felizmente a ideia do livro que me persegue às
vezes dias e dias desapareceu.
Penso em mestre Domingos, no velho Trajano, em meu pai. Não sei por que
mexi com eles, tão remotos, diluídos em tantos anos de separação. Não têm
nenhuma relação com as pessoas e as coisas que me cercam.
Releio com desgosto o artigo que vou dar a Pimentel.
Os defuntos antigos me importunam. Deve ser por causa da chuva. Nos
meses compridos daqueles invernos de serra muitas vezes fiquei tardes inteiras
sentado à porta da nossa casa na vila, olhando a rua que desaparecia debaixo de
um lençol branco de água em pó. Os chuviscos entravam pela sala, os móveis e a
roupa da gente pareciam cobrir-se de pontinhas de alfinetes. De tempos a tempos
um vulto embuçado passava na calçada. O velho Acrísio, de cachimbo na boca,
chegava à janela para conversar com meu pai. Não entrava: dava umas notícias,
esfregando as mãos, aguentando aqueles pinguinhos que não molhavam, apenas
lhe umedeciam o capote e o cachenê de lã vermelha.
Agora a chuva é um pouco diferente, o nevoeiro menos denso. De longe em
longe a água bate no telhado com força, depois continua a peneira que oculta o
jardim da casa vizinha.
Se Marina tivesse a ideia de se banhar ali àquela hora da tarde, eu não lhe
veria o corpo. Talvez visse apenas uma sombra, como acontece no cinema
quando se apresentam mulheres nuas. Este pensamento esquisito — Marina
despida, arrepiada, coberta de carocinhos — bole comigo durante alguns
minutos.
Gostava de me lavar assim quando era menino. A trovoada ainda roncava no
céu, e já me preparava. Às vezes a preparação durava três dias. O trovão rolava
por este mundo, os relâmpagos sucediam-se com fúria. Quitéria encafuava-se,
oferecia peles de fumo a Santa Clara, escondia a cabeça debaixo das cobertas e gritava: — “Misericórdia!”; meu pai largava o romance, nervoso; Trajano
Pereira de Aquino Cavalcante e Silva chamava sinha Germana, que tinha
morrido. Quando o aguaceiro chegava, o couro cru da cama do velho Trajano
virava mingau, tanta goteira havia; a rede suja de Camilo fedia a bode; os bichos
da fazenda vinham abrigar-se no copiar; o chão de terra batida ficava todo
coberto de excremento.
Eu tirava as alpercatas, arrancava do corpo a camisinha de algodão
encardida, agarrava um cabo de vassoura, fazia dele um cavalo e saía
pinoteando, pererê, pererê, pererê, até o fim do pátio, onde havia três pés de juá.
Repetia o exercício, cheio de alegria doida, e gritava para os animais do curral,
que se lavavam como eu. Fatigado, saltava no lombo do cavalo de fábrica, velho
e lazarento, galopava até o Ipanema e caía no poço da Pedra. As cobras tomavam
banho com a gente, mas dentro da água não mordiam.
O poço da Pedra era uma piscina enorme. Antes de entrar nela, o Ipanema
tinha dois metros de largura e arrastava-se debaixo dos garranchos de algumas
quixabeiras sem folhas.
Quando eu ainda não sabia nadar, meu pai me levava para ali, segurava-me
um braço e atirava-me num lugar fundo. Puxava-me para cima e deixava-me
respirar um instante. Em seguida repetia a tortura. Com o correr do tempo
aprendi natação com os bichos e livrei-me disso. Mais tarde, na escola de mestre
Antônio Justino, li a história de um pintor e de um cachorro que morria afogado.
Pois para mim era no poço da Pedra que se dava o desastre. Sempre imaginei o
pintor com a cara de Camilo Pereira da Silva, e o cachorro parecia-se comigo.
Se eu pudesse fazer o mesmo com Marina, afogá-la devagar, trazendo-a para
a superfície quando ela estivesse perdendo o fôlego, prolongar o suplício um dia
inteiro...
Debaixo da chuva, a mangueira do quintal está toda branca. O papagaio na
cozinha bate as asas, sacudindo os salpicos que vêm da biqueira. Afago o pelo
macio do meu gato mourisco, que dorme enroscado numa cadeira. As ideias
ruins desaparecem. Marina desaparece.
Ponho-me a vagabundear em pensamento pela vila distante, entro na igreja,
escuto os sermões e os desaforos que padre Inácio pregava aos matutos: —
“Arreda, povo, raça de cachorro com porco.” Sento-me no paredão do açude,
ouço a cantilena dos sapos. Vejo a figura sinistra de seu Evaristo enforcado e os
homens que iam para a cadeia amarrados de cordas. Lembro-me de um fato, de
outro fato anterior ou posterior ao primeiro, mas os dois vêm juntos. E os tipos
que evoco não têm relevo. Tudo empastado, confuso. Em seguida os dois
acontecimentos se distanciam e entre eles nascem outros acontecimentos que vão
crescendo até me darem sofrível noção de realidade. As feições das pessoas
ganham nitidez. De toda aquela vida havia no meu espírito vagos indícios.
Saíram do entorpecimento recordações que a imaginação completou.
A escola era triste. Mas, durante as lições, em pé, de braços cruzados,
escutando as emboanças de mestre Antônio Justino, eu via, no outro lado da rua,
uma casa que tinha sempre a porta escancarada mostrando a sala, o corredor e o
quintal cheio de roseiras. Moravam ali três mulheres velhas que pareciam
formigas. Havia rosas em todo o canto. Os trastes cobriam-se de grandes
manchas vermelhas. Enquanto uma das formigas, de mangas arregaçadas,
remexia a terra do jardim, podava, regava, as outras andavam atarefadas,
carregando braçadas de rosas.
Daqui também se veem algumas roseiras maltratadas no quintal da casa
vizinha. Foi entre essas plantas que, no começo do ano passado, avistei Marina
pela primeira vez, suada, os cabelos pegando fogo.
Lá estão novamente gritando os meus desejos. Calam-se acovardados,
tornam-se inofensivos, transformam-se, correm para a vila recomposta. Um
arrepio atravessa-me a espinha, inteiriça-me os dedos sobre o papel.
Naturalmente são os desejos que fazem isto, mas atribuo a coisa à chuva que
bate no telhado e à recordação daquela peneira ranzinza que descia do céu dias e
dias.
Meu pai cochilava, encostado ao balcão. Na saleta da nossa casa, por detrás
da bodega, eu recordava as lições, entorpecido. Enfiando os olhos pela janela, via na rua o meu vizinho Joaquim Sabiá, de cócoras, fazendo construções com
areia molhada. Havia um grande silêncio, um silêncio incômodo. Às vezes
punha-me a tossir, para me convencer de que não tinha ficado surdo. Era como
se a gente houvesse deixado a terra. De repente surgiam vozes estranhas. Que
eram? Ainda hoje não sei. Vozes que iam crescendo, monótonas, e me causavam
medo. Um alarido, um queixume, clamor sempre no mesmo tom. As ruas
enchiam-se, a saleta enchia-se — e eu tinha a impressão de que o brado
lastimoso saía das paredes, saía dos móveis. Fechava os ouvidos para não
perceber aquilo: as vozes continuavam, cada vez mais fortes. Que seriam?
Tentava descobrir a causa do extraordinário lamento. Supunha que eram patos
gritando, embora nunca tivesse ouvido a voz dos patos. Também me inclinava a
admitir que fossem sapos. Mas os sapos do açude da Penha cantavam de outra
forma. Não podiam ser sapos. A verdade é que muitas vezes perguntei a mim
mesmo se realmente ouvia aquele barulho grande, diferente dos outros barulhos.
Perguntei naquele tempo ou perguntei depois? Não sei. Tenho-me esforçado por
tornar-me criança — e em consequência misturo coisas atuais a coisas antigas.
. . .
Penso na morte de meu pai. Quando voltei da escola, ele estava estirado num
marquesão, coberto com um lençol branco que lhe escondia o corpo todo até a
cabeça. Só ficavam expostos os pés, que iam além de uma das pontas do
marquesão, pequeno para o defunto enorme. Muitas pessoas se tinham tornado
donas da casa: Rosenda lavadeira, padre Inácio, cabo José da Luz, o velho
Acrísio.
Fui sentar-me numa prensa de farinha que havia no fundo do nosso quintal.
Tentei chorar, mas não tinha vontade de chorar. Estava espantado, imaginando a
vida que ia suportar, sozinho neste mundo. Sentia frio e pena de mim mesmo. A
casa era dos outros, o defunto era dos outros. Eu estava ali como um bichinho abandonado, encolhido na prensa que apodrecia. Ouvia o barulho de um
descaroçador de algodão, próximo, no Cavalo-Morto. E via o corredor da nossa
casa, por onde passavam a batina de padre Inácio, a farda de cabo José da Luz, o
vestido vermelho de Rosenda e o capote do velho Acrísio.
Que ia ser de mim, solto no mundo? Pensava nos pés de Camilo Pereira da
Silva, sujos, com tendões da grossura de um dedo, cheios de nós, as unhas roxas.
Eram magros, ossudos, enormes. O resto do corpo estava debaixo do lençol
branco, que fazia um vinco entre as pernas compridas. Eu não podia ter saudade
daqueles pés horríveis, cheios de calos e joanetes. Procurava chorar —
lembrava-me dos mergulhos no poço da Pedra, das primeiras lições do alfabeto,
que me rendiam cocorotes e bolos. Desejava em vão sentir a morte de meu pai.
Tudo aquilo era desagradável. — “Isto é um cavalo de dez anos e não conhece a
mão direita.”
Agora eu tinha catorze, conhecia a mão direita e os verbos.
Voltei à sala, nas pontas dos pés. Ninguém me viu. Camilo Pereira da Silva
continuava escondido debaixo do pano branco, que apresentava no lugar da cara
uma nódoa vermelha coberta de moscas. Rosenda queimava alfazema num caco
de telha. Seu Acrísio não servia para nada. Era impossível saber onde se fixava o
olho de padre Inácio, duro, de vidro, imóvel na órbita escura. Ninguém me viu.
Fiquei num canto, roendo as unhas, olhando os pés do finado, compridos, chatos,
amarelos.
Sempre abafando os passos, dirigi-me novamente ao fundo do quintal, com
medo daquela gente que nem me havia mandado buscar à escola para assistir à
morte de meu pai. Até a preta Quitéria se esquecera de mim. Ao passar pela
cozinha, encontrei-a mexendo nas panelas e lastimando-se. Sentei-me na prensa,
cansado, o estômago doendo. Que iria fazer por aí à toa, miúdo, tão miúdo que
ninguém me via? Encostei-me ao muro, escorreguei por cima da madeira
bichada, adormeci pensando nos mergulhos do poço da Pedra, nos bolos e nos
pés de Camilo Pereira da Silva. E, enquanto dormia, ouvia a cantiga dos sapos
no açude da Penha, o burburinho dos intrusos que se acavalavam no corredor, o barulho do descaroçador de algodão no Cavalo-Morto. Vozes chegavam-me,
confusas, e eu não conseguia apreender o sentido delas. Visões também. Via a
casa da fazenda, arruinada, os bichos definhando na morrinha, o chiqueiro
bodejando, relâmpagos cortando o céu. A chuva caía, eu andava pelo pátio, nu,
montado num cabo de vassoura. Quem me acordou foi Rosenda, que me trazia
uma xícara de café.
— Muito obrigado, Rosenda.
E comecei a soluçar como um desgraçado.
Desde esse dia tenho recebido muito coice. Também me apareceram alguns
sujeitos que me fizeram favores. Mas até hoje, que me lembre, nada me
sensibilizou tanto como aquele braço estirado, aquela fala mansa que me
despertava.
— Obrigado, Rosenda.
Iam levando o cadáver de Camilo Pereira da Silva. Corri para a sala,
chorando. Na verdade chorava por causa da xícara de café de Rosenda, mas
consegui enganar-me e evitei remorsos.
Na casa escura, cheia das lamentações de Quitéria, não encontrei sossego.
Adormeci pela madrugada.
No dia seguinte os credores passaram os gadanhos no que acharam. Tipos
desconhecidos entravam na loja, mediam peças de pano. Chegavam de chapéu
na cabeça, cigarro no bico, invadiam os quartos, praguejavam. Enterrar os
mortos, obra de misericórdia. O morto estava enterrado. Padre Inácio e os outros
sumiram-se. E os homens batiam os pés com força, levavam as mercadorias,
levavam os móveis, nem me olhavam, nem olhavam Quitéria, que se encolhia
gemendo “Misericórdia!”, como quando o trovão rolava no céu e os bichos iam
abrigar-se no copiar da fazenda.
Passei a noite a um canto da sala de jantar, numa rede encardida, a cabeça
debaixo do cobertor, com medo da alma de Camilo Pereira da Silva. Pensava na
rede armada no copiar, no poço da Pedra, no pátio branco onde se arrastavam
cascavéis e jararacas. Aquilo agora tinha outro dono. O cupim continuava a roer os mourões do curral e os caibros da casa, o carro de bois apodrecia sob as
catingueiras, os bichos bodejavam no chiqueiro. Mas a sombra do velho Trajano
não brincava com os dedos dos pés, Amaro vaqueiro não cortava mandacaru
para o gado, a cachorra Moqueca tinha morrido, Camilo Pereira da Silva não
folheava o romance.
Que estaria fazendo a alma de Camilo Pereira da Silva? Provavelmente
rondava a casa, entrava pelas portas fechadas, olhava as prateleiras vazias. As
outras almas mais antigas, Trajano, seu Evaristo, sinha Germana, não me
atemorizavam; mas aquela, tão próxima, ainda agarrada ao corpo, dava-me
tremuras. O suor corria-me pelo rosto. Como estariam os pés de Camilo Pereira
da Silva? Certamente estavam inchados, verdes, com pedaços ficando pretos.
. . .
Seu Ivo, silencioso e faminto, vem visitar-me. Faz agrados ao gato e ao
papagaio, entende-se com Vitória e arranja um osso na cozinha. Não quero vê-lo,
baixo os olhos para não vê-lo.
Fico de pé, encostado à mesa da sala de jantar, olhando a janela, a porta
aberta, os degraus de cimento que dão para o quintal. Água estagnada, lixo, o
canteiro de alfaces amarelas, a sombra da mangueira. Por cima do muro baixo ao
fundo veem-se pipas, montes de cisco e cacos de vidro, um homem triste que
enche dornas sob um telheiro, uma mulher magra que lava garrafas.
Seu Ivo está invisível. Ouço a voz áspera de Vitória e isto me desagrada.
Entro no quarto, procuro um refúgio no passado. Mas não me posso esconder
inteiramente nele. Não sou o que era naquele tempo. Falta-me tranquilidade,
falta-me inocência, estou feito um molambo que a cidade puiu demais e sujou.
Fumo. Assisto a uma discussão do barbeiro André Laerte com o negociante
Filipe Benigno. As palavras me chegam quase apagadas, destituídas de senso. É
provável que não digam nada. Filipe Benigno é um pouco nebuloso: só percebo dele claramente as barbas brancas e os olhos miúdos. Mas a figura de André
Laerte tem bastante nitidez. Parece um gato: anda em redor do outro como se
estivesse preparando um salto para agarrá-lo. Tem um avental manchado de
sangue, um bigodinho ralo e faz “Pfu!” Seu Batista, vestido em robe de chambre,
passeia na calçada, com as mãos atrás das costas. D. Conceição, mulher de
Teotoninho Sabiá, prepara milho para o xerém. Carcará solta gargalhadas que se
ouvem na outra extremidade da rua. O doutor juiz de direito conta ao vigário
histórias de onças e jacarés do Amazonas. Cabo José da Luz, à porta do quartel,
espalha tristezas:
Assentei praça. Na polícia eu vivo
Por ser amigo da distinta farda...
O sino da igrejinha bate a primeira pancada das ave-marias.
Não, não é o sino da igreja, é o relógio da sala de jantar. Oito e meia. Preciso
vestir-me depressa, chegar à repartição às nove horas. Apronto-me, calço as
meias pelo avesso e saio correndo. Paro sobressaltado, tenho a impressão de que
me faltam peças do vestuário. Assaltam-me dúvidas idiotas. Estarei à porta de
casa ou já terei chegado à repartição? Em que ponto do trajeto me acho? Não
tenho consciência dos movimentos, sinto-me leve. Ignoro quanto tempo fico
assim. Provavelmente um segundo, mas um segundo que parece eternidade. Está
claro que todo o desarranjo é interior. Por fora devo ser um cidadão como os
outros, um diminuto cidadão que vai para o trabalho maçador, um Luís da Silva
qualquer. Mexo-me, atravesso a rua a grandes pernadas.
Tenho contudo a impressão de que os transeuntes me olham espantados por
eu estar imóvel.
Imóvel. Camilo Pereira da Silva também estava imóvel, debaixo da terra. D.
Conceição vinha oferecer-me comida. As meninas dela, d. Maria e Teresa,
tentavam consolar-me. Retraía-me como um animal acuado, fechava os ouvidos às consolações, cerrava os olhos, apalpava a cabeça e sentia a dureza de ossos,
dava estalos com os dedos e ouvia o som de ossos.
— Obrigado, muito obrigado.
Não precisava de nada. Os ossos de Camilo Pereira da Silva
desconjuntavam-se na podridão da cova, e a alma já não me fazia medo. Era uma
alma que envelhecia e estava fora da terra, provavelmente no purgatório.
Quitéria rezava alto na cozinha:
— Ofereço este padre-nosso e esta ave-maria às almas do purgatório.
Era lá que devia estacionar uma parte de meu pai, curando uns restos de
pecados. Leves pecados. Apenas muita preguiça. Por isso eu aguentava fome e
ouvia as lamentações de Quitéria.
Para que banda ficaria o purgatório? Seu Antônio Justino não sabia. Nem eu.
Sabia onde ficavam o Rio de Janeiro, São Paulo, Minas, lugares que me atraíam,
que atraem a minha raça vagabunda e queimada pela seca. Resolvi desertar para
uma dessas terras distantes. Abandonei a vila, com uma trouxa debaixo do braço
e os livros da escola. — “Adeus, d. Conceição. Muito obrigado pela comida com
que me matou a fome. Adeus, Joaquim Sabiá, d. Maria, Teresa. Adeus, Quitéria,
Rosenda, cabo José da Luz.” E comecei a andar lentamente pelo caminho
estreito, afastando-me da vila adormecida.
Começo a andar depressa, receando encontrar o ponto encerrado. Tolice.
Provavelmente tudo aquilo se passou num segundo. Tenho a impressão de que
uma objetiva me pegou, num instantâneo. Ficarei assim, com a perna erguida, a
pasta debaixo do braço, o chapéu embicado.
Luís da Silva, a caminho da repartição, lesando, pensando em defuntos.
. . .
Este mês fiz um sacrifício: dei uns dinheiros ao Moisés das prestações para
amortizar a minha conta. Dr. Gouveia há de ter paciência: espera mais uns dias. Deixarei de andar pela rua do Sol para não encontrá-lo. O que não posso é
continuar a esconder-me de Moisés. Escondo-me, estive algumas semanas sem ir
ao café, com receio de ver o judeu. E gosto do café, passo lá uma hora por dia,
olhando as caras.
Há o grupo dos médicos, o dos advogados, o dos comerciantes, o dos
funcionários públicos, o dos literatos. Certos indivíduos pertencem a mais de um
grupo, outros circulam, procurando familiaridades proveitosas. Naquele espaço
de dez metros formam-se várias sociedades com caracteres perfeitamente
definidos, muito distanciadas. A mesa a que me sento fica ao pé da vitrina dos
cigarros. É um lugar incômodo: as pessoas que entram e as que saem empurram-
me as pernas. Contudo não poderia sentar-me dois passos adiante, porque às seis
horas da tarde estão lá os desembargadores. É agradável observar aquela gente.
Com uma despesa de dois tostões, passo ali uma hora, encolhido junto à porta,
distraindo-me.
Pois ultimamente precisei renunciar ao café, por causa de Moisés. Ele
também se esquivava. Há dias deu de cara comigo ao dobrar uma esquina e
empalideceu, balbuciou na sua língua avariada:
— Olá! Como vai? Estou com muita pressa.
É um péssimo cobrador. Dei-lhe este mês cem mil-réis para pôr termo a esses
vexames. Mas ainda devo muito, nem sei quanto. A culpa é minha. Quando me
vendeu as fazendas, Moisés foi franco:
— Isto é caro como o diabo. Você faz melhor negócio comprando a dinheiro
noutra loja.
Mas eu estava na pindaíba e precisava adquirir os trapos para Marina. Desde
então venho suando para reduzir o débito. Quando me atraso, Moisés foge de
mim. Agora, depois de receber o cobre, declarou-me que as mercadorias já
tinham sido pagas. Infelizmente não me podia dar quitação, porque os troços que
vende são do tio, judeu verdadeiro.
— Está muito bem.
E o constrangimento desapareceu. Às seis horas estamos de novo sentados junto à vitrina dos cigarros. Moisés fala com abundância, desforrando-se do
silêncio em que estivemos ultimamente. Procura a expressão, coça a testa, franze
os beiços numa careta que lhe mostra os dentes largos e diz:
— Está percebendo?
Sim, percebo, embora ele tenha sintaxe medonha e pronúncia incrível. Faz
rodeios fatigantes, deturpa o sentido das palavras e usa esdrúxulas de maneira
insensata. Escuto-o. Os ouvidos são para ele, os olhos para as figuras habituais
do café. Os olhos estão quase invisíveis por baixo da aba do chapéu, e uma folha
da porta oculta-me o corpo. Uma criaturinha insignificante, um percevejo social,
acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem.
Perto um capitalista fala muito alto, e os cotovelos sobre o mármore dão-lhe
na sala estreita espaço excessivo. No grupo da justiça as palavras tombam
medidas, pesadas, e os gestos são lentos. Além dois políticos cochicham e olham
para os lados.
Moisés comenta o jornal. Nunca vi ninguém ler com tanta rapidez. Percorre
as colunas com o dedo e para no ponto que lhe interessa. Engrola, saltando
linhas, aquela prosa em língua estranha, relaciona o conteúdo com leituras
anteriores e passa adiante. É um dedo inteligente o do Moisés. O resto do corpo
tem pouca importância: os ombros estreitos, a corcunda, os dentes que se
mostram num sorriso parado. O que a gente nota é o dedo. O dedo e a voz
sibilada, descontente, sempre a anunciar desgraças. Moisés é uma coruja. Acha
que tudo vai acabar, tudo, a começar pelo tio, que esfola os fregueses. E eu
acredito em Moisés, que não escora as suas opiniões com a palavra do Senhor,
como os antigos: cita livros, argumenta. Prega a revolução, baixinho, e tem os
bolsos cheios de folhetos incendiários.
De repente cala-se: foi o doutor chefe de polícia que apareceu e começou a
cochichar com os políticos. O dedo de Moisés some-se entre as folhas do jornal,
o revolucionário esconde-se por detrás do sorriso inexpressivo. Covardia. Mas
afasto este pensamento severo. Moisés não tem jeito de herói: é apenas um
sujeito bom e inteligente. Por isso fiz o sacrifício de lhe dar cem mil-réis, que me vão transtornar o orçamento.
Estava tão abandonado neste deserto... Só se dirigiam a mim para dar ordens:
— Seu Luís, é bom modificar esta informação. Corrija isto, seu Luís.
Fora daí, o silêncio, a indiferença. Agradavam-me os passageiros que me
pisavam os pés, nos bondes, e se voltavam, atenciosos:
— Perdão, perdão. Faz favor de desculpar.
— Sem dúvida. Ora essa.
Ou então:
— Tem a bondade de me dizer onde fica a rua do Apolo?
— Perfeitamente, minha senhora. Vamos para lá. É o meu caminho.
Agora estou defronte de um amigo, amigo que me liga pouca importância, é
verdade, amigo todo entregue aos telegramas estrangeiros, mas que me custou
cem mil-réis. Parece-me que até certo ponto Moisés é propriedade minha. Os
cem mil-réis me vão fazer muita falta.
Estremeço: dr. Gouveia entra na sala, marcha para a vitrina dos cigarros.
— Vamos dar o fora, Moisés?
Dois minutos depois estamos sentados num banco da praça Montepio. Aqui
há sossego, não vêm cá certos indivíduos impertinentes. O que me desgosta é ver
de relance, nos bancos do centro, que a folhagem disfarça mal, pessoas
atracadas. Sinto furores de moralista. Cães! Amando-se em público,
descaradamente! Cães! Tremo de indignação. Depois esmoreço: julguei
distinguir entre as folhas dos crótons o vulto de Marina. Foi ilusão, mas a
imagem permanece. Cachorrada!
Moisés fala em políticos reacionários. Encho-me de ferocidade:
— Malandros! ladrões!
Agora Moisés está contando as perseguições aos judeus, na Europa. Lembro-
me do tio dele e digo comigo que provavelmente a narração é exagerada. Se
Moisés não fosse inteligente, com certeza muitos daqueles fatos não existiriam.
Sofrimentos. Iniquidades.
— Aqui há tanto disso! Mas somos fatalistas, estamos habituados e não temos imaginação como vocês.
Entro a falar sobre a minha vida de cigano, de fazenda em fazenda,
transformado em mestre de meninos. Quando ensinava tudo que seu Antônio
Justino me ensinara, passava a outra escola. Tinha o sustento. Depois era a
caserna. Todas as manhãs nos exercícios. — “Meia-volta! Ordinário!” As peças
do fuzil, marchas na lama, a bandeira nacional, o hino, as tarimbas sujas, os
desaforos do sargento. Em seguida vinha a banca de revisão: seis horas de
trabalho por noite, os olhos queimando junto a um foco de cem velas, cinco mil-
réis de salário, multas, suspensões.
E coisas piores, que me envergonham e não conto a Moisés. Empregos
vasqueiros, a bainha das calças roída, o estômago roído, noites passadas num
banco, importunado pelo guarda. Farejava o provinciano de longe, conhecia o
nordestino pela roupa, pela cor desbotada, pela pronúncia. E assaltava-o:
— Um filho do Nordeste, perseguido pela adversidade, apela para a
generosidade de v. exª.
Valorizava a esmola:
— Trago um romance entre os meus papéis. Compus um livro de versos, um
livro de contos. Sou obrigado a recorrer aos meus conterrâneos. Até que me
arranje, até que possa editar as minhas obras.
Recebia, com um sorriso, o níquel e o gesto de desprezo. O frege-moscas
fedia a vinho podre, e o galego, de tamancos, coberto de nódoas, era asqueroso.
Mais tarde, já aqui em Maceió, gastando sola pelas repartições, indignidades,
curvaturas, mentiras, na caça ao pistolão.
— Escrevi muito atacando a república velha, doutor; sacrifiquei-me,
endividei-me, estive preso por causa da ideologia, doutor.
Afinal, para se livrarem de mim, atiraram-me este osso que vou roendo com
ódio.
— Chegue mais cedo amanhã, seu Luís.
E eu chego.
— Informe lá, seu Luís.
E eu informo. Como sou diferente de meu avô!
Um dia um cabra de Cabo Preto apareceu na fazenda com uma carta do
chefe. Deixou o clavinote encostado a um dos juazeiros do fim do pátio, e de
longe ia varrendo o chão com a aba do chapéu de couro. Trajano Pereira de
Aquino Cavalcante e Silva soletrou o papel que o homem lhe deu e mandou
Amaro laçar uma novilha. O cabra jantou, recebeu uma nota de vinte mil-réis,
que naquele tempo era muito dinheiro, e atravessou o Ipanema, tangendo o
bicho. Dia de Natal meu avô foi à vila, com a mulher, e encontrou no caminho o
grupo de Cabo Preto, que se meteu na capoeira para não assustar a dona. Sinha
Germana, de saias arregaçadas, escanchada na sela, um mosquetão na maçaneta,
não viu nada, mas meu avô fez um gesto de agradecimento aos angicos e aos
mandacarus que marginavam a estrada. Quando a política de padre Inácio caiu, o
delegado prendeu um cangaceiro de Cabo Preto. O velho Trajano subiu à vila e
pediu ao doutor juiz de direito a soltura do criminoso. Impossível. Andou, virou,
mexeu, gastou dinheiro com habeas corpus — e o doutor duro como chifre.
— Está direito, exclamou Trajano plantando o sapatão de couro cru na palha
da cadeira do juiz. Eu vou soltar o rapaz.
No sábado reuniu o povo da feira, homens e mulheres, moços e velhos,
mandou desmanchar o cercado do vigário, armou todos com estacas e foi
derrubar a cadeia.
Está aí uma história que narro com satisfação a Moisés. Ouve-me desatento.
O que lhe interessa na minha terra é o sofrimento da multidão, a tragédia
periódica das secas. Procuro recordar-me dos verões sertanejos, que duram anos.
A lembrança chega misturada com episódios agarrados aqui e ali, em romances.
Dificilmente poderia distinguir a realidade da ficção. De resto a dor dos
flagelados naquele tempo não me fazia mossa. Penso em coisas percebidas
vagamente: o gado, escuro de carrapatos, roendo a madeira do curral; o cavalo
de fábrica, lazarento e com esparavões; bodes definhando na morrinha; o carro
de bois apodrecendo; na catinga parda, manchas brancas de ossadas e o voo
negro dos urubus. Tento lembrar-me de uma dor humana. As leituras auxiliam-me, atiçam-me o sentimento. Mas a verdade é que o pessoal da nossa casa sofria
pouco. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva caducava; meu pai vivia
preocupado com os doze pares de França; Quitéria, coitada, era bruta demais e
por isso insensível. Os outros moradores da fazenda, as criaturas que viviam em
ranchos de palha construídos nas ribanceiras do Ipanema, não se queixavam.
José Baía falava baixo e ria sempre. Sinha Terta rezava novenas e fazia partos
pela vizinhança. Amaro vaqueiro alimentava-se, nas secas, com sementes de
mucunã lavadas em sete águas, raiz de imbu, miolo de xiquexique, e de tempos a
tempos furtava uma cabra no chiqueiro e atirava a culpa à suçuarana. Dores só as
minhas, mas estas vieram depois.
. . .
A minha criada Vitória anda em cinquenta anos, é meio surda e possui um
papagaio inteiramente mudo, que pretende educar assim:
Currupaco, papaco,
A mulher do macaco
Ela fia, ela cose,
Ela toma tabaco
Torrado no caco.
O papagaio prega na velha o olho redondo. Em seguida cerra as pálpebras e
baixa a cabeça. Às vezes se aborrece da gaiola e bate as asas. A dona corre para
o quintal e espia a folhagem da mangueira:
— Meu louro, meu louro! Currupaco, papaco. Meu louro! Onde andará o
sem-vergonha desse papagaio?
Só se acomoda depois de percorrer a vizinhança e encontrar o fugitivo. Pega
então a parolar com ele, que não diz nada. Quando se cansa, agarra o jornal e lê com atenção os nomes dos navios que chegam e dos que saem. Nunca embarcou,
sempre viveu em Maceió, mas tem o espírito cheio de barcos. Dá-me
frequentemente notícias deste gênero:
— O Pedro II chega amanhã. O Aratimbó vem com atraso. Terá havido
desastre?
Não sei como se pode capacitar de que a comunicação me interessa. Há três
anos, quando a conheci, a mania dela me espantava. Agora estou habituado. Leio
o jornal e deixo-o em cima da mesa, dobrado na página em que se publica o
movimento do porto. Vitória toma a folha e vai para a cozinha ler ao papagaio a
lista dos viajantes.
No princípio do mês, quando se aproxima o recebimento do ordenado,
excita-se e não larga o Diário Oficial.
— Faltam dois dias, falta um dia, é hoje.
E faz cálculos que não acabam, cálculos inúteis, porque não gasta nada: usa
os meus sapatos velhos e traz um xale preto amarelento que deve ter dez anos.
Recolhe a mensalidade e mete-se no fundo do quintal, põe-se a esgaravatar a
terra como se plantasse qualquer coisa. Esquece os navios e as lições ao
papagaio.
Volta a tratar das ocupações domésticas, mas de quando em quando lá vai
rondar a mangueira e acocorar-se junto ao canteiro das alfaces. Dá um salto à
cozinha, fala com o louro, tempera a boia. Minutos depois está novamente
remexendo a terra.
Observo esses manejos. Sentindo-se observada, levanta-se, deita água no
caco das galinhas, vai ao banheiro, sai com uma braçada de roupa, que estende
no arame esticado entre a cerca e um dos ramos da mangueira. Entra em casa,
abre o jornal e anuncia:
— O delegado fiscal viajou ontem.
Nota, pela minha cara, que o delegado fiscal não me interessa e dá uma
notícia importante:
— O arcebispo chegou do Rio.
Escapole-se, vai consertar a cerca, tapar os buracos por onde passam bichos
que estragam a horta. Da minha cadeira vejo-lhe o cocó grisalho, a cabeça curva,
atenta sobre a terra que escava, fingindo tratar dos canteiros ou fincar as estacas
da cerca. No outro dia tirará as estacas, que, de tanto removidas, fizeram ali uma
espécie de porteira.
Nem à noite a pobre descansa: levanta-se pela madrugada e abre a porta do
fundo, cautelosamente. Cautela inútil. Como é meio surda, pensa que não faz
barulho, mas arrasta os sapatões com força, e as pernas reumáticas atiram-na
contra os móveis, às escuras, tropeçam nos degraus de cimento quebrado.
Ausenta-se uma hora. Depois a porta range de novo e as pisadas reaparecem. Daí
a pouco está a criatura resmungando, fazendo contas intermináveis. Erra os
números e recomeça. Esta agitação dura quatro, cinco dias por mês. Sossega,
volta às listas dos passageiros, à tagarelice com o papagaio:
Currupaco, papaco,
A mulher do macaco...
A voz é áspera e desdentada. E, acompanhando a cadência, tremem as
pelancas do pescoço engelhado como um pescoço de peru, tremem os pelos do
buço e as duas verrugas escuras. É terrivelmente feia.
Logo que me entrou em casa, descobri nela uma particularidade alarmante.
Sou um desleixado. Quando mudo a roupa, esqueço papéis nos bolsos. Deixo
frequentemente níqueis e pratas sobre os móveis. Essas frações de pecúnia
somem-se, e certa vez desapareceu-me da carteira uma cédula de cinquenta mil-
réis. As faltas coincidem com uma grande excitação da velha. Recomeçam as
fugas para o quintal. Vendo-lhe o cocó bambeante entre as folhas de alface, sei
perfeitamente que ela está enterrando o dinheiro. Descubro ao pé da cerca, junto
à raiz da mangueira, covas frescas.
Assustei-me a princípio, depois me tranquilizei. A nota de cinquenta mil-réis foi achada entre as páginas de um livro. E as moedas voltam para os lugares
donde saíram. Finjo não prestar atenção a elas, para a mulher não se ofender,
meto algumas no bolso, com indiferença. Só quando estou necessitado, digo por
alto, escolhendo as palavras:
— Vitória, hoje pela manhã deixei cair umas pratas no chão. Apanhei duas
ou três, mas parece que as outras rolaram para trás da cama. Você, varrendo o
quarto, não terá encontrado algumas?
Vitória estica-se, o pescoço encarquilhado incha, os olhos miúdos fuzilam, as
verrugas tremem indignadas:
— O senhor tem cada uma! Se não está satisfeito comigo, é dizer. Já vivi em
muita casa de gente rica, seu Luís. Criei-me vendo dinheiro, seu Luís. Se não
está achando bom, é arriar a trouxa. Desconfiança comigo, não.
— Deixe disso, criatura. Quem falou em desconfiança? É que derrubei as
moedas. Que você não viu está claro, não se discute. Dê uma busca.
— Ah! exclama Vitória. Eu não tinha compreendido bem.
Torna-se amável, coça o queixo cabeludo, puxa conversa fora de propósito, a
voz sumida, uns risinhos encabulados. Julgando-me distraído, afasta-se nas
pontas dos pés, olhando-me com o rabo do olho, e vai apanhar alfaces. Daí a
pouco volta, entra no quarto, arrasta a cama, examina os cantos da parede:
— Só vejo teia de aranha.
De repente aparece chocalhando as moedas:
— Estão aqui. Não sei quando o senhor quer tomar jeito. A vida inteira
perdendo dinheiro!
Guardo algumas pratas e deixo o resto em cima da mesa. Não há perigo.
Receio é que Vitória se engane nas contas e me traga mais que o que tirou.
. . .
Em janeiro do ano passado estava eu uma tarde no quintal, deitado numa espreguiçadeira, fumando e lendo um romance. O romance não prestava, mas os
meus negócios iam equilibrados, os chefes me toleravam, as dívidas eram
pequenas — e eu rosnava com um bocejo tranquilo:
— Tem coisas boas este livro.
Lia desatento, e as letras esmoreciam na sombra que a mangueira estirava
sobre o quintal.
Moisés e Pimentel apareciam-me às vezes, e alguns rapazes acanhados
vinham pedir-me em segredo artigos e composições poéticas, que eu vendia a
dez, a quinze mil-réis. Isto chegava para o aluguel da casa — e dr. Gouveia não
me importunava. Distraía-me com leituras inúteis. Quando me caía nas mãos
uma obra ordinária, ficava contentíssimo:
— Ora, muito bem. Isto é tão ruim que eu, com trabalho, poderia fazer coisa
igual.
Os livros idiotas animam a gente. Se não fossem eles, nem sei quem se
atreveria a começar.
Esse que eu lia debaixo da mangueira, saltando páginas, era bem safado. Por
isso interrompia a leitura, acendia o cigarro.
Foi numa dessas suspensões que percebi um vulto mexendo-se no quintal da
casa vizinha. Como já disse, existe apenas uma cerca separando os dois quintais.
Do lado esquerdo há um muro, e ignoro completamente o que se passa além
dele. Mas daquela banda o que temos é a cerca baixa, que Vitória conserta
sempre por causa das galinhas e para guardar dinheiro nos pés das estacas
podres. Para lá dessa linha de demarcação tudo me era familiar: o banheiro,
paredes-meias com o meu, algumas roseiras, um monte de lixo que a inquilina,
senhora idosa, às vezes queimava.
O vulto que se mexia não era a senhora idosa: era uma sujeitinha vermelhaça,
de olhos azuis e cabelos tão amarelos que pareciam oxigenados. Foi só o que vi,
de supetão, porque não sou indiscreto, era inconveniente olhar aquela
desconhecida como um basbaque. Demais não havia nada interessante nela.
Onde andaria a senhora idosa, que todas as manhãs ia regar as plantas, com um pano branco amarrado à cabeça? Mudara-se, provavelmente, e aquela que ali
estava devia ser moradora nova.
— Sim senhor, disse comigo, muito poética, aí entre as roseiras, com os
cabelos pegando fogo e a cara pintada.
Sentia a ausência da senhora idosa, cheia de rugas, tranquila, um pano
amarrado à cabeça e o regador na mão, movendo-se tão devagar que era como se
estivesse parada. Essa outra estava em todos os lugares ao mesmo tempo,
ocupava o quintal inteiro. Um azougue.
— Que diabo tem ela?
E mergulhei na leitura, desatento, está claro, porque o livro não valia nada.
Virava a página muitas vezes, e quando isto acontecia, olhava, fingindo
desinteresse, a mulher dos cabelos de fogo. Tinha as unhas pintadas.
— Lambisgoia!
Fiquei lendo o romance, péssimo romance, enquanto a tipinha se mexeu entre
as roseiras. Notei, notei positivamente que ela me observava. Encabulei. Sou
tímido: quando me vejo diante de senhoras, emburro, digo besteiras. Trinta e
cinco anos, funcionário público, homem de ocupações marcadas pelo
regulamento. O Estado não me paga para eu olhar as pernas das garotas. E aquilo
era uma garota. Além de tudo sei que sou feio. Perfeitamente, tenho espelho em
casa. Os olhos baços, a boca muito grande, o nariz grosso. Como se chamava a
senhora idosa que vinha regar as plantas? A verdade é que nunca me empatou a
leitura. Fiquei ali até que escureceu e a mulherinha deu o fora. Mais tarde
informei-me:
— Ó Vitória, a vizinha aqui da direita mudou-se?
— Morreu, disse Vitória depois de me fazer repetir a pergunta quatro vezes,
porque era lua nova e ela estava inteiramente surda. O senhor não viu o enterro?
Pois é. Agora há outros moradores.
Pobre da velha. Morta e enterrada, e eu nem havia percebido alteração na
casa.
Moisés e Pimentel apareceram à noite e conversaram muito, mas ouvi-os distraído.
Além das plantas mencionadas, havia também um mamoeiro no quintal
vizinho. Era engraçada o diabo da pequena. Para o inferno. Um homem lido e
corrido, pegando trinta e cinco anos, amolecendo, preocupando-se com aquela