Antropologia da saúde
Identidade feminina e nervoso: crises e trajetórias
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Identidade feminina e nervoso: crises
e trajetórias
Maria Gabriela Hita
Introdução
Inserido em uma perspectiva da sociologia da saúde e antropologia médica, o presente artigo procura discutir algumas experiências potencialmente fragilizadoras à saúde mental, na trajetória de vida de mulheres pobres. O artigo trata do sentido fragilizador de experiências, práticas, eventos e contexto na vida de 14 mulheres auto-referidas como "nervosas", em uma comunidade urbana de baixa renda na cidade de Salvador.
Este artigo se diferencia da abordagem epidemiológica sobre "fatores sociais de risco à saúde mental" (teórica e metodologicamente), mantendo entretanto uma constante interlocução com esta perspectiva. Parte do pressuposto de que explorar as relações entre cultura e sociedade, por um lado, e saúde mental, por outro, não é simplesmente identificar fatores estressores no meio social. Pelo contrário, requer a compreensão de uma interação complexa de experiências que se desenvolvem ao longo de uma trajetória de vida. Assim, aqui se procura enfatizar o "processo" através do qual os indivíduos dão sentido e respondem às condições externas do meio social. Os conceitos de "experiência"
e "processo" são centrais nesta abordagem1. A opção pelo termo "experiência fragilizadora", (em vez de fator de risco) reflete o intuito de compreender não apenas condições sociais "externas", objetivas, mas também os modos específicos pelos quais os indivíduos se situam frente a situações, conferindo-lhes sentido. A idéia de "processo de fragilização " põe em evidência o transcurso temporal, ou seja, a trajetória de vida a partir do qual os indivíduos desenvolvem modos próprios de lidar com e interpretar as situações.
"Processo de fragilização" remete, na análise da qualidade de eventos, à presença de um "eu" (self) que vivencia, age sobre e confere sentido ao mundo. Esse "eu" é constituído na experiência. Uma coisa é explicar os fatos objetivos ou eventos externos à consciência; outra, é compreender a forma como estes ganham significado e são incorporados à vida. Isso não significa dizer que essas entidades sejam totalmente independentemente pois, uma e outra podem estar ligadas entre si formando uma única referência, tanto pessoal como social (Hita e Alves, 1995).
Uma análise sócio-antropológica de eventos quando construída a partir de quem as vivencia, pressupõe uma compreensão não apenas das características pessoais e subjetivas dos indivíduos, mas também do contexto, da situação social em que se encontra esse self. Sendo construído pela complexa interação social com o "outro", o indivíduo partilha, reflete e (re)constrói conjuntamente uma série de pressupostos, objetivações, modelos explicativos e padrões de comportamento que constituem os componentes essenciais da sua vida quotidiana. Essas categorias sociais são elaboradas intersubjetivamente e é através delas que os indivíduos desenvolvem determinadas experiências, estabelecem campos de significação e adquirem um senso de sua própria identidade.
Abordar o tema da constituição, manutenção e/ou mudança da identidade remete, portanto, à noção do self e seu estar no mundo. O self é uma entidade reflexa, cuja formação entranha uma dialética entre a auto-identificação e a identificação que é feita pelos outros, entre o objetivamente atribuído e o que é subjetivamente assumido pela internalização (nas socializações primária e secundária da
sociedade) 2. É pela internalização que a subjetividade do outro me é acessível objetivamente e me é significativa, compreendo os processos subjetivos momentâneos do outro quando os torno meus. Isso pressupõe que compartilhamos definições de situações e as definimos reciprocamente (assumimos o mundo e o recriamos). Quando tal não acontece fala-se de problemas ou conflitos de identidade (Berger e Luckmann, 1983)
Identidade - aqui tomada enquanto profundamente ligada a e sustentada pela manutenção de rotinas - e conflito de identidade -crise, exigência de mudança ou adaptação - são caras de uma mesma moeda, duas formas possíveis de manutenção da realidade social: a de rotina e a de crise. A primeira forma está destinada, a manter a realidade internalizada da vida cotidiana pelo desempenho normal de papéis e rotinas esperadas (o que constitui a essência da institucionalização). Na segunda, a lida com o rotineiro passa a se
apresentar como problemas de diversos tipos 3. O setor não problemático da realidade da vida cotidiana continua sendo-o somente até novo aviso, até que sua continuidade não seja interrompida pela aparição de um problema. Quando isto ocorre, haverá um esforço do sujeito para integrar o setor problemático dentro do que já não é problemático; do contrário estará enfrentando uma nova realidade que transcende aos limites do seu conhecimento, propiciando o surgimento do que a psicanálise denomina de conflitos ou crises de identidade.
O conflito pode ser definido como a coexistência de condutas (motivações) contraditórias, incompatíveis entre si. Tanto pode funcionar como um elemento propulsor do desenvolvimento do indivíduo, como pode chegar a constituir uma situação paralisadora e neste caso, introduz-se a idéia de crise. Frente a um conflito, o indivíduo pode reagir afirmativamente: existe a possibilidade de que adote um movimento de auto-contenção, isto é, que venha a se inserir de forma ativa e crítica frente ao equilíbrio anterior. Trata-se de um processo de reorganização psíquica em que as contradições vividas são enfrentadas, o que levaria a uma situação de reflexão e juízo crítico por parte do indivíduo (Burin, 1987). A partir dessa idéia podemos dizer que o que caracteriza a vida de pessoas tidas como "normais" não é a ausência de conflitos, senão a possibilidade de os resolver, o saber lidar com eles (Bleger, 1963).
Na mesma direção apontada por Burin, Kaes (1977) define as crises como um ato de suspensão da identidade, uma ruptura dos sentimentos de si, da continuidade e mesmidade que constituem a subjetividade. A idéia de crise refere-se mais diretamente a um movimento de entrega e rendição frente ao problema (conflito), induz à concepção de fragilização, de situação de quebra do equilíbrio anterior, de sentimentos de padecimento. Trata-se de um momento carregado de sofrimento, onde a sensação prevalescente é a de pena, dor e perda. Em outros termos, uma etapa depressiva, um momento de vulnerabilidade na constituição da subjetividade
que exige medidas externas ao indivíduo para a sua contenção4. A crise é manifestação extrema e explícita do conflito (agravamento); o conflito, pelo contrário, pode se manter latente, desapercebido.
Para a mulher parecem haver situações problemáticas que são peculiares a seu gênero, indicando formas específicas de ruptura, tipos de conflitos que podem transformar-se em dadas situações em crises. Segundo algumas correntes haveriam formas específicas de "adoecimento" das mulheres que estão vinculadas a sua própria situação de gênero.
Doença mental e gênero feminino
Abordagens epidemiológicas sobre a doença mental tem apontado que as mulheres sofrem mais do que os homens dos chamados distúrbios afetivos e neuroses (Weissman & Klerman, 1977; Freden Iars, 1982 apud Burin, 1987; Sartoris & Rapella, 1985 apud Burin,
1987; Miles, 1988) 5. Em torno desta afirmação existe um complexo e interminável debate.
Uma das vertentes do debate busca comprovar a validade da associação entre gênero e saúde/doença mental apoiando-se em dois argumentos básicos, por vezes apresentados como opostos na causação do fenômeno. Uns frisam susceptibilidades de ordem biológica específicas ao gênero feminino, apontando para a relação entre o campo da saúde reprodutiva (tensão pré-menstrual, uso de anticoncepcionais, distúrbios do pós-parto, menopausa etc.) e a doença mental. Outros chamam a atenção para fatores sociais: o papel da mulher na sociedade caracterizado por posição subordinada, status desvantajoso, falta de poder, maior dependência (e menor auto-estima) - levando a que as mulheres vivenciem os eventos de forma distinta dos homens, sendo mais suscetíveis ao stress que estes (Weissman & Klerman,1977; Miles, 1988).
Outra vertente procura debilitar a força da associação identificada entre gênero e saúde/doença mental em desordens psico-afetivas. Alguns estudos sustentam que os dados das pesquisas que apontam para esta associação estariam superestimados - e que seus resultados são portanto artificiais - uma vez que, comparadas aos homens, as mulheres têm maior número de sintomas (são mais perceptivas no que toca às suas emoções), têm maior consciência dos danos, tendem a reportá-los mais facilmente e buscam mais tratamento, o que não é o mesmo que afirmar que sofrem mais do
mesmo mal (Freden Iars, 1982; Sartoris & Rapella, 19856).
Dentre as desordens psico-afetivas destaca-se, sem dúvida, a depressão. Ela é um dos problemas mentais mais diagnosticado no século XX e até muito recentemente é pensado como o principal problema feminino (Russel, 1995). Parece ter capturado o lugar ocupado pela histeria no imaginário do sec. XIX. No seu debate surge a polêmica sobre sua base biológica ou socialmente
induzida7. Alguns estudos recentes igualmente questionam a maior associação estatística deste tipo de problemas ao gênero feminino. Três estudos recentes sobre a depressão entre homens e mulheres nos EUA, Suécia, Alemanha, Canadá e Nova Zelândia apontam uma maior aproximação desta diferenciação sexual tão frisada em estudos epidemiológicos tradicionais. Explicações factiveis da atual proximidade estatística de índices de depressão em ambos sexos se apóiam em argumentos como o da crescente participação da mulher na força de trabalho e sobre o conjunto de mudanças comportamentais das mulheres modernas em direção a uma maior individuação e autonomia, em suma a sua nova maneira de inserir-se no mundo em relação a modelos passados (J.M. Murphy, 1986;
Klerman 8 et al, 1989; Joice et al., 1990). Estes novos achados questionam a idéia que associa depressão a um problema de natureza inerentemente feminina. De um ponto de vista sociológico é completamente questionável o tipo de tese que sustenta a idéia da existência de uma debilidade psiquiátrica inerente a mulher em relação ao homem. A corrente médica, por sua vez, procura recuperar terreno perdido através da invenção de "novos problemas" femininos, mais atrelados ao campo biológico, como os fenômenos descobertos neste século, da síndrome pré-menstrual, a qual parece estar substituindo o lugar antes pertencente à histeria e depressão.
Independentemente da discussão sobre a causação e/ou diminuição dos diferenciais sexuais da depressão ou desordens psico-afetivas tidas como tipicamente femininas, tem-se encontrado achados interessantes tanto na psiquiatria quanto na sociologia da saúde sobre a relação do gênero com a saúde mental. Estes achados apontam na direção da identificação de um conjunto de circunstâncias e situações mais ou menos gerais à condição da mulher ao longo da história, que buscam elucidar os contextos e situações específicas enfrentadas pela mulher por pertencer ao gênero feminino. Tratam-se de situações que se de um lado começam a mudar, por outro, continuam sendo vigentes para grandes contingentes de mulheres que vivem em um contexto marcado pela presença concomitante de novos e velhos modelos de ser mulher.
Os estudos de Brown & Harris (1970) encontraram que a vulnerabilidade à depressão nas mulheres está relacionada com a presença dos seguintes processos: perda da mãe antes dos 11 anos de idade, presença em casa de 3 ou mais crianças com menos de 14 anos, ausência de relação confidencial, principalmente com o marido e perda do trabalho (tempo parcial ou completo). A literatura especializada aponta que mulheres casadas, integralmente donas de casa, são mais vulneráveis à doença mental e propensas à insatisfação e sentimentos depressivos (Oakley, 1974; Rosenberg, 1984, Graham, 1984, Miles, 1988). A frustração da rotinização e o caráter interminável das tarefas, a ausência de regras, a invisibilidade e falta de reconhecimento destas atividades, e a pesada responsabilidade pela saúde e bem estar geral da família, combinados com a propensão ao isolamento, incrementam sintomas de ansiedade e depressão. Esta situação piora no caso de mães com filhos pequenos que têm maior dificuldade de se inserir em trabalhos extra domésticos e que sofrem maiores pressões para enfrentar (Burin, 1987; Miles, 1988).
Tem sido igualmente apontado que o trabalho remunerado funciona como um importante protetor contra desordens psicológicas (Brown
e Harris, 1978; Cooperstock e Lennard, 1979; Sharpe, 19849). Entretanto, as mulheres que trabalham fora de casa, e minimizam o problema do isolamento, podem sofrer por sua vez, pelo excesso de trabalho devido à sobrecarga resultante da conhecida dupla jornada de trabalho, já que normalmente é a mulher que continua assumindo a maior parte das tarefas domésticas. Fator agravante é a presença da violência doméstica tão marcante na nossa cultura com ainda fortes marcas patriarcais e que tem mais drástica incidência nos setores populares.
Igualmente, outros aspectos insatisfatórios da vida das mulheres diagnosticados como deprimidas foram encontrados por Agnes Miles. Resultados de suas pesquisas na Inglaterra com mulheres neuróticas assinalam que entre os principais processos de "fragilização" das mulheres se destacam por ordem de maior intensidade: casamentos insatisfatórios, ações passadas (ou traumas), mudanças hormonais (ou problemas de ordem reprodutivo), relações familiares insatisfatórias (família de origem), eventos vitais adversos ou dificuldades severas como cuidado de parentes doentes ou velhos e padecimento de doenças físicas crônicas. Também apareceram manifestados problemas de infância e no trabalho assalariado dos pacientes (Miles, 1988).
De forma relativamente consensual entre os estudos psicanalíticos também se aponta para a forte manifestação de uma série de crises nas mulheres (especialmente as de classe média) de forma bastante sistemática e geral, principalmente quando atingem a meia-idade. Este, parece ser um período especialmente fragilizante na mulher. Na maturidade ela teria maior probabilidade de entrar em crise, principalmente, no que concerne a concepção que tem de si mesma ligada, às multideterminações que até então sustentavam a sua identidade. Trata-se de um sentimento de perda da juventude, da capacidade de procriar, do papel materno a medida que os filhos vão deixando o lar e do papel de esposa quando o companheiro morre ou a abandona. Os desejos e relações amorosas também podem mudar durante ou após uma crise. Algumas mulheres passariam a questionar seus desejos originais para com seus cônjuges, o que poderia conduzi-las a considerar os vínculos de amor como experiência dolorosa que procurariam evitar. Outras, pelo contrário, encontrariam na criação de novos vínculos de amor a possibilidade de superar velhos conflitos. Trata-se, em suma, de situações que podem ser vivenciados com maior ou menor dificuldade a depender do sujeito e sua trajetória de vida específica.
Até aqui se inseriram algumas das mais importantes variáveis quando se fala de crise de identidade do sexo feminino: aquelas em torno à centralidade das experiências maternais, de esposa e atividades domésticas, assim como os efeitos nefastos de uma maior exclusão feminina do âmbito público, entre outras. Estas experiências próprias do gênero feminino, tão direta e historicamente atreladas a formas de ser mulher, parecem confluir de forma mais sistemática e concentrada em períodos de crises identitárias.
Contudo, estes modos de ser mulher assumem significações e particularidades distintas em contextos sociais, históricos e culturais específicos. Como entender estas categorias tão gerais quando aplicadas a mulheres de classe trabalhadora urbana de uma cidade nordestina do Brasil? O que de fato e de que modo específico fragiliza e debilita a "saúde mental" de mulheres pobres baianas e quais os significados por elas atribuídos a estes processos?
As reflexões de teor psicanalítico sobre questões relacionadas ao gênero, na maioria das vezes associadas a estudos da classe media, nos parecem interessantes, contudo insuficientes e em grande medida até inadequadas para compreender a realidade de mulheres de classe trabalhadora. Uma leitura de teor antropológico, entretanto, permite uma melhor elucidação das particularidades e significados específicos de cada contexto social.
A seguir analisamos alguns elementos marcantes na trajetória de vida de quatorze mulheres de classe trabalhadora de Salvador que se auto-referem como nervosas. A análise visa contribuir para uma identificação de elementos estruturais dessas trajetórias bem como para uma compreensão dos significados de que se revestem para
as mulheres10.
Um elemento a se considerar na análise das histórias de vida é o fato de que a narrativa e re-interpretação do passado elaborada pelos indivíduos é sempre influenciada pelo ponto de vista que assumem no presente. As vezes é mais fácil inventar coisas que nunca aconteceram que omitir as que aconteceram na realidade, como forma de harmonizar o passado que se recorda com o que se re-interpreta. A nova realidade se torna mais dominante e plausível que a anterior. Pode ser muito sincero adotar tal procedimento: subjetivamente não se está contando mentiras com respeito ao passado, senão alinhando-o com a verdade que se vive no presente e que, por força, deve abarcar tanto o presente como o passado.
Um conjunto de experiências comuns são compartilhadas por estas mulheres (aspectos objetivos ou estruturais de sua infância) e são re-elaborados desde uma narrativa situada no seu agora, desde um "eu" espacial e temporal que é definido pelos outros e por si mesmo como "pessoa nervosa". Sem identificar estes aspectos objetivos ou estruturais (eventos) como causas ou predisponentes a desordem mental (um debate complicado de enfrentar neste artigo), é interessante apresentá-los sucintamente com vistas a complementar o perfil da amostra a analisar.
Antes porém, é importante fazer um rápido esclarecimento sobre o que a pesquisa denominou uma "pessoa nervosa". A categoria de "nervoso" é uma categoria êmica que, entretanto, parece apresentar uma interface importante com os chamados problemas "psico-afetivos" da psiquiatria. É possível que algumas das mulheres consideradas "nervosas" na pesquisa fossem enquadradas por psiquiatras como sofrendo de problemas psico-afetivos. Não utilizamos os diagnósticos psiquiátricos para sua definição ou identificação, mas a auto-identificação do sujeito como pessoa sofredora de problemas de "nervoso". Nos interessava sua própria avaliação e sentimentos, e como estes estariam confluindo na interpretação e significação que as mulheres dão às suas vidas, angústias e vivências específicas, principalmente aquelas mais difíceis ou associadas aos momentos de maior crise.
Em pesquisa realizada em bairro popular de Salvador, Rabelo procurou sintetizar os múltiplos significados do nervoso: "Nas narrativas produzidas por informantes do bairro sobre o nervoso ressalta seu caráter polissêmico. O termo abarca um conjunto complexo de signos e está associado a diversas situações e contextos causais. A grosso modo os signos relativos ao nervoso compõem três nodulos básicos. O primeiro reúne signos de agressividade e violência: o nervoso é descrito como um estado em que as pessoas facilmente apelam para agressão, seja física ou verbal. Maridos que batem em suas mulheres ou pais que espancam seus filhos por qualquer motivo, gente que percebe provocação onde não existe e parte logo para briga ante a mínima provocação. São pessoas que se alteram com facilidade, xingam, gritam e batem, criando verdadeiras cenas tanto no domínio da casa quanto no espaço público da rua. Um segundo nódulo, bastante relacionado ao primeiro, abarca os signos de agitação e impaciência: descreve pessoas avexadas ou agoniadas, que se mostram insatisfeitas e/ou excessivamente preocupadas frente a problemas do cotidiano, a quem falta um pouco de tranquilidade e/ou jogo de cintura para levar a vida. A este nódulo estão ligados certos signos corporais como andar de um lado para o outro, se tremer todo(a), dar risada demais. Por fim o terceiro nódulo aponta para signos de tristeza e isolamento: são pessoas que choram demais e por qualquer razão, se trancam em suas casas e evitam contato com outros. Ligando estes três eixos está o tema do descontrole, associado à ideia de fraqueza dos nervos" (Rabelo,
1997: 34) 11.
Perfil das nervosas
Das 14 mulheres "nervosas", 11 delas tinham mais de 30 anos (a maioria acima de 40) conformando uma amostra de mulheres predominantemente em fase madura de suas vidas, com filhos adultos ou ao menos adolescentes e criados. Somente 2 tinham menos de 30 e apenas 2 estavam com filhos pequenos. A grande maioria, como o própria corte geracional sugere, tem mais de 4 filhos, chegando algumas a ter 8, 9 e 10 filhos. Quando foi realizada a entrevista, 9 delas estavam unidas (das quais 5 já estavam em segundas e terceiras relações de conjugalidade). As outras 5 estavam separadas, das quais 2 tinham passado por mais de uma união. Em outros termos, estes dados apontam a marcada presença da instabilidade conjugal pois 10 das 14 mulheres vivenciaram a experiência da separação. Destas mulheres separadas, 3 tiveram somente 1 união (2 separadas recentemente e 1 que nunca mais voltou a juntar-se a outro homem). As outras 7 que experimentaram separação, passaram por mais de uma união, superando em alguma medida, a fase crítica anterior.
Uma característica marcante encontrada na trajetória das mulheres
"nervosas" em relação as "não nervosas" 12 é um maior número de separações e formação de novas uniões. Outro elemento específico a este grupo de mulheres são as constantes queixas de sofrerem algum tipo de doença. Também as diferencia a vivência da "adoção" na infância de uma forma traumática e negativa (6 das 14). Entre as não nervosas que passaram pela adoção, esta não foi interpretada como um processo fragilizador.
Nem tudo é diferente entre as mulheres que se consideram "nervosas" e as que não. Há uma série de situações adversas (cuidado de doenças crônicas e mortes de entes queridos, fatalidades, etc), problemas de convivência conjugal, infidelidade do companheiro e separações, entre outras, que são avaliadas como problemáticas em ambos contingentes. O que as distingue nestas situações é o grau de gravidade atribuído à situação, sempre mais acentuado entre as "nervosas", isso é, maior proporção delas, em relação às "não nervosas" vivenciou o momento como problemático.
Eventos adversos
Nos relatos da nossa amostra de mulheres "nervosas", a maioria (9 de 14) referiu sofrer do problema desde a infância, mas a descrição das crises que elas identificaram como sendo as primeiras em suas
vidas, via de regra, não coincidem com este período referenciado13. Todas as entrevistadas declararam de forma mais ou menos acentuada terem sofrido uma forte restrição econômica e carências de ordem afetivo na primeira infância, experiências de miséria extrema sem ter o que comer, uma precoce inserção no mundo do trabalho (a maioria antes dos 8 anos de idade) sendo responsáveis pelo sustento de suas famílias de origem. O desconforto frente a insatisfação de necessidades emocionais é igualmente marcante. Sentimentos de rejeição, solidão e abandono são reincidentes em distintos relatos sobre o padecimento de situações dolorosas como casos de violência psíquica, física e até sexual e pelas marcas deixadas por uma adoção mal sucedida.
A maioria das mulheres (9) explicitou ter sido vítima de violência física na infância, pancadarias que, predominantemente partiam dos pais e eram dirigidas também as suas próprias mães e irmãos, principalmente após bebedeiras. Curioso é observar que 8 destas mesmas 9 vítimas, na vida adulta tiveram um contato muito próximo com a violência via o envolvimento de marido/filho/neto com crimes associados a drogas, assaltos e pequenos furtos. Algumas tiveram familiares assassinados pela polícia ou outros inimigos no bairro.
O estupro, nem sempre situado no período de infância, é outro evento fortemente fragilizador presente em 4 dos relatos. Duas mulheres foram abusadas sexualmente por seus patrões: em um dos casos o ato sexual não se consumou; o outro conduziu a uma gravidez adolescente. Outra foi vítima de abuso por parte do seu futuro marido quando pretendia romper o namoro e com certa cumplicidade materna. A quarta sofreu muito com a experiência de 2 estupros na família, o de uma neta de 2 anos e posteriormente, o de uma filha de 14. Estes momentos foram identificados como de eclosão de crise nervosa em alguns dos casos.
Nas entrelinhas destas narrativas predominam sentimentos de abandono e rejeição vivenciados predominantemente na infância. Para 6 das entrevistadas a adoção configurou uma situação em que, enviadas para casa de parentes ou outras famílias, via de regra, foram integradas para trabalhar como domésticas. As queixas de maltrato infantil são mais agudas nestes casos. Se à vivência da adoção for adicionada a de separação ou morte de um dos pais durante a infância, encontramos que 10 das 14 entrevistadas sentiram algum tipo de sensação de abandono e rejeição.
Nesta seção descreveu-se de forma suscinta e estrutural algumas experiências comuns no período infantil e de juventude destas mulheres "nervosas" que parecem estar influindo de alguma maneira no processo de eclosão do problema, posteriormente identificado como de "nervoso". Ao presente artigo entretanto, interessa especialmente destacar e analisar em maior detalhe aspectos da vida afetiva, sexual e familiar adulta, o convívio com parceiros e filhos, que são momentos vitais mais explicitamente atrelados à manifestação do nervoso.
Parceiros, afetos e sexo
Um traço marcante nos relatos destas mulheres, a maioria entre 40 e 60 anos de idade, refere-se à falta de uma adequada educação sexual na infância (a descoberta atônita do aparecimento da regra menstrual totalmente desconhecida por muitas, a falta de informação sobre relações sexuais, o tabu de partilhar tais temas com os pais, etc.) e é significativo o número daquelas que engravidaram entre os 12 e 13 anos de idade e tiveram o primeiro filho antes dos 14. A gravidez adolescente associada à reação dos parentes, geralmente de rejeição, maltrato e até expulsão no primeiro momento foi associado em alguns casos ao inicio do problema de nervoso. Vejamos alguns exemplos nas narrativas sobre o início da vida sexual:
Foi (a menstruação)... num foi um momento difícil que eu já
sabia que, não por minha mãe, né, mas, minha amiga, tinha
falado prá mim mas, eu já sabia mais ou menos aí... fiquei,
quando chegou fiquei calada, não disse prá minha mãe, quando
ela veio descobrir já tinha umas ... uns três ou quatro mês... eu
tinha vergonha de falar porque era uma coisa que minha mãe
nunca comentou com a gente, ninguém nunca falou então pá
gente chegar assim ver uma coisa assim chegar comentar, uma
pessoa, que não tinha experiência nenhuma eu tenho vergonha
de falar . Não falei. (...) Com três semanas que minha mãe
morreu pai saiu de den 'de casa e deixou os nove filhos. Aí os
maió, minha irmã mais velha, meu irmão, eu, tivemo que
trabalhá pá dá comida aos menó. Aí foi quando, eu já tinha um
namorado também, né, minha irmã mais velha tinha namorado,
aí eu fiquei no meu interior, aí eu me perdi com meu namorado,
aí pareci grávida, com treze anos (...). Foi dentro de casa
mesmo que aconteceu...Inda combinei com minha irmã, foi
combinado com minha irmã, minha irmã mais velha que
combinou comigo [risadas]. Ah, ela combinava comigo: "Mas
Môzinho -que o namorado de minha irmã era Francisco, mas o
apelido era Môzinho, né -Amôzinho aí disse que hoje vai fazê e
acontecer comigo", aí ela di... falava, né, como era que ele ia
fazer, eu dizia: "Tu é doida menina... pai vai batê na gente. Ela
dizia: "Não, menina, vamo fazê pa vê se é bom... " Ai nós se
combinou, ai quando foi de tarde que no dia que aconteceu com
ela, aconteceu comigo. Foi...Os menino (irmãos menores) tudo
dormindo [risadas], ó, no escuro, todo mundo lá no escuro,
quem vai sair de den 'de casa? Cê sabe, interior, num sei se cê
já foi no interior, né, pai não lava mais den 'de casa, só a gente
só, ela com o namorado dela e eu com o meu, eu com ... doze
ano, pa, pa treze, ela tomém, moderna. Eu tinha doze, ele tava
com quinze. Ai pronto, aconteceu, ai foi indo, foi indo, eu pareci
gravida disso, quando pai descobriu, pai... (Zezé)
Quando eu completei 10 anos... eu era presa, não saia prá
canto nenhum, me prendia demais, demais mesmo; ai comecei
a estudar, peguei amizade e ai começaram me dar conselho
"você é besta menina, você tem mais é que se soltar, fica presa
dentro de casa ", não sei o que... Ai pronto, foi o primeiro
namorado que eu tive... tive uns paquerinhas, né? Mas,
primeiro namorado. Me iludi, foi ilusão mesmo, eu pensei que
era uma coisa e foi outra... namoro assim... acho que não durou
nem [risos] um mês. Não demorou, né? (de ficar grávida).
Mainha me batia prá caramba e eu não queria nem saber, tava
cega, tava obcecada por ele, né? Não queria saber de nada.
Gostava, não era nem gostar. (Ele) gosta nada, dizia que
gostava, mas... Me perdi cedo também. Fui atrás de marido
também [risos]... E namorava, deixava de estudar prá ir atrás
dele, até que eu consegui: me perdi. Me perdi com ele eu tinha
12 anos, mainha dava conselho, mas eu não queria ouvir, me
mandava, me escondia, até que eu consegui engravidar.
Engravidei, aí é que foi o sofrimento pior da minha vida. (...) é aí
que foi o sofrimento pior, quando eu engravidei, ele passava
com mulher na minha cara, era! (...) A gente mesmo é que se
despreza por si próprio. Eu tomava remédio prá ver se eu
conseguia perder, mas eu acho que às vezes acontece, né? Ai
["expressão de angústia] nasceu... Ah, mas eu escondi, porque
tinha vergonha. Quando eu engravidei eu apertava a barriga de
um jeito! Com fio, com corda de nylon, vestia uma roupa bem
folgada, prá ninguém descobrir. Ah, eu tava com 7 meses
quando descobriram. Minha mãe, depois de muito tempo, foi
que deu apoio a mim. (...) E hoje eu vendo minha filha com 13
anos, eu digo assim ói, ai se eu pudesse recomeçar o tempo
que ficou atrás, e hoje eu não quero deixar minha filha sair
daqui prá li nem a pau, não deixo mesmo; não é porque eu fiz
isso que eu vou querer que ela faça, né? ...Mas hoje eu
converso com ela e mainha não conversava comigo, né? Eu
não sabia nem o que era menstruação. Pela primeira vez que
veio eu tava com 11 anos..., que enquanto você não tem
menstruação voce não tem perigo nenhum de engravidar, mas
desde quando você tem, pronto...aí foi escândalo, prá mim, sei
lá, pensei que tinha sido um bicho que tinha me mordido, uma
coisa assim sei lá. Fiquei agoniada, vim do colégio gritando,
gritando... hoje em dia, não, ela (a filha) sabe, tá com 13 anos e
ela jura prá mim que não tem menstruação, mas sei lá se ela
não tem, pode esconder como eu escondi de mainha. (Dina)
A primeira gravidez, via de regra, aparece como um momento de desfecho na negociação entre homem e mulher no que concerne à relação de casal. Após este acontecimento culminante, normalmente antes de se efetivar a união, restam aos implicados 2 opções basicamente: ou proceder para a união de forma mais definitiva e responsável ou desamarrar os laços até então desenvolvidos. Se trata de um momento de tensão, onde são tecidas as mais diversas estratégias de um e outro lado no sentido de defender os próprios interesses. Geralmente, mas nem sempre, a mulher pressionando para a união e o homem, para fugir dela. Em 9 narrativas detectou-se este processo de tensão e negociação, culminando ora na união, ora no abandono do parceiro, e por vezes em algum acerto intermediário, indicando que, via de regra, a gravidez antecedeu às uniões, e que foi esta tensão inicial um processo conflitivo desde o inicio da relação. Alguns dos relatos deixam bem clara essa dinâmica de tensão e negociação:
Eu era esperta, né? Que eu não era tão boba assim, eu me
perdi com vinte e dois ano com o pai desses meninos, nem sei
porque. Porque ele (o namorado anterior) veio me fazer um
disfeita, tava namorando comigo e nisso queria ultrapassar do
limite, eu disse não. Eu disse: "Nem vem!". Aí ele me prometeu
o mundo e ofundo. Prometeu que me dava os documentos todo
dele prá minha mão, que não sei o quê... Eu disse: "Não, largue
de ser bobo, que você me dá os seus documentos, você me faz
o bem, tá entendendo, e depois você vai tirar segunda via como
seus documentos foi perdido, e eu que fico prá aí, nada!"
[risos]. Aí ele disse: "Tá, você não tem jeito mesmo não, viu,
você é esperta ". E aí digo: "Oi, tchau". Me mandei. (...) Eu
passei a conhecer (a familia do marido) depois que ele já tinha,
xô vê, pra falar a verdade, foi depois que já pas... [risos] já tinha
conseguido o que era bom primeiro... Depois que engravidei eu
tive que ir pra companhia dele, né? Ai fui prá casa da mãe dele,
aliás minto, não foi nem prá casa da mãe, foi prá dos irmão(..)
depois que eu apareci grávida de Shirleifoi que ele veio me
dizer que tava com uma criatura prá ganhar um filho dele. Aí, a
minha, minha dor, já comecei com ele foi disso, aí que eu
pro...eu fui honesta com ele e ele não foi comigo, que eu
procurei a saber a vida dele, se ele não tinha alguém, se ele
não tinha filho, se não tinha mulher, ele só negava, dizia que
não, mas depois que ele...me fez o, me fez o bem, quando diz
que o mal é quando mata, né, e aí passei, fiquei grávida da
menina, acho que ele queria tirar o corpo fora de assumir, aí
veio com essa história que tinha um filho prá nascer... Eu fiquei
injuri, eu fiquei injuriada com ele porque ele não foi honesto
comigo, porque se ele fosse honesto comigo, se ele dissesse:
"Oi, eu namoro, tô namorando com você mais eu tenho uma
mulher, uma mulher tá grávida de mim ", ai eu ia pensar, eu ia
escolher o que eu queria, né, se eu ia aceitar namorar com ele,
ou se eu não ia aceitar nada com ele. Ele ficou quieto, depois
que ele alcançou o que queria, aí queria tirar o time. Aí eu
disse, não, ói é tarde demais, quem come a carne rói os ossos.
(Noinha)
Aí depois disso que minha mãe morreu ... que meu pai... deixou
a casa entregue aos namorados da gente... que aconteceu!...
ele aí queria tirar o corpo de baixo quando ele saiu. (...)
Demorou muito, demorou assim base de uns, uns seis meses
ou um ano, pa poder parecer gravida, ai pai, chamou ele que
queria que ele casasse. Aí ele disse que, que ele casava, que
eu era de menor, ele também era, que ele gostava muito de
mim mas que o filho não era dele, sendo, mas ele disse que A principal queixa destas mulheres na fase de vida adulta está associada à vida afetiva a dois, aos desentendimentos e desajustes com os parceiros, o desgaste da relação, que com o correr dos anos parece tornar certas rotinas infernais, pesadas e sufocantes, marcadas pela violência doméstica (hão apenas do homem à mulher e filhos, ainda que esta seja a direção predominante e a mais aceita pelo olhar estranho de vizinhos e parentes). Dez das entrevistadas relataram deprimentes experiências de desgaste conjugai. Entre as mais velhas é comum o desfecho destes conflitos relacionais com separações e a posterior formação de novas uniões.
não era. Aí pai foi em Sta Terezinha deu uma queixa dele, ai
chegou lá a juiza obrigou, disse que era p 'ele casar, que se ele
não casasse ele ia ser processado, aí pai fez os papel tudo pa
eu me casar na igreja dia de Domingo, foi no dia de sexta feira
ele fugiu. Ai quando foi o dia de sábado que meu irmão chegou
em casa, fez assim, "Oi ai Nilde, vocês num disse que
Mundinho ia casar, Mundinho fugiu onte, e nisso quando falou,
eu desmaiei, aí foi que me trouxeram pa Salvador, eu
desmaiada, eu passei oito dias desmaiada. Foi o susto... foi, ai
eu tav com oito meses de grávida ,ne?... Perdi,com oito mês.
Nasceu no carro, nem vi. Foi....E eu gostava muito dele, eu
nunca imaginava que ele ia fugir pa me deixar, né... (Zezé)
Mas ele se mando, levei nove meses com o menino no braço,
não via ele. Tanto que quando eu engravidei, me perdi, não foi
através do rompimento da virgindade, foi através da "coxinha ",
né? Aí depois de oito meses depois, já grávida, eu tive que
procurar ele prá dilatar, foi sofrimento, muito sofrimento, muito,
muito, muito e até hoje ainda sofro... Quando eu engravidei, que
eu descobri que eu tava grávida, eu era virgem ainda, então foi
um momento que eu mais precisei dele, falar com ele, mas ele
me dava as costas... morei com ele dois dias, mainha construiu
a casa ali em baixo na invasão, a primeira casa branca dali,
grandona, só vivi com ele dois dias contados, e meus partos
dos 3 filhos meus foi mainha quem fez, a última é que foi na
maternidade, eu morando aqui direto e ele na casa da mãe
dele. Eu tô morando com ele direto aqui é de um ano prá cá,
direto... pode perguntar ai em baixo a minha mãe, minha irmã,
ele ficava um mês sem vim aqui, sem me dar nada e eu
aceitava só prá satisfazer a vontade dele, porque desde que um
homem tem uma mulher, dizem, né, que a mulher não pode
fechar a perna prá ele... Agora ele tá vindo constantemente em
casa, antigamente, não, né? Há quatro anos atrás ele ficava
dois, três dias, 15 dias... A a mãe dele... eu ia lá e ela dizia que
não tinha nenhuma mulher com ele, não, né? Mas, tinha, tinha,
tinha umas paquerazinhas, tanto que eu fazia até acabamento
lá [risadas]. (Dina)
Sete dessa mulheres voltaram a unir-se uma outra vez14.
Os trechos abaixo descrevem experiências de maltrato e desgaste conjugai:
Foi o meu primeiro, e prá voce vê que foi tão duro que eu tô
com ele até hoje. Forçado. Tô com ele porque jeito não tem,
acho que eu vou ficar com ele de cacetinho na mão segurando
e eu com a bengala. Ele me força... E medo também, muito
medo que eu sentia...Ah, porque antes... hoje ele é um homem
regenerado, né? Não é esse ladrão, né, nada disso, não? Ele
tinha muito mal amizade, muito mal companhia, e eu tinha
medo, ele me ameaçava demais. O que aconteceu? Eu fui
tendo o primeiro filho, o segundo, o terceiro e aí do quarto em
diante, que tá com nove anos, hoje é que ele veio melhorar,
arranjar um emprego, mesmo assim, eu tenho medo, fico
insegura. (...) Eu passei muitos momentos na vida, muitas
marcas no corpo, eu tenho... já sofri muito, só eu sei mais
ninguém. Meu medo de largar ele não é nada, é medo de tá
passando assim na rua e aí, de repente, ói ele, eu tenho medo
dele, que quem já fez um, duas, três vez faz... Teve uma vez
mesmo, tem uns cinco meses, só porque eu saí, tava
conversando aí embaixo, com uma vizinha minha, ele chegou
aqui acabando com tudo, fiquei mortinha, eu prá ele estou
fazendo 6 meses de morta, me agrediu, me bateu, me xingou...
(Os meninos, os filhos) viram, mas eu tava aqui sozinha com
ele, tava morando nesse quartinho pequeno ai, né? Gritei tanto
com ele que mainha subiu, ele não achou em que se vingar,
achou que era duro minha mãe com a cabeça cheia de cabelo
branco então não podia revidar ela, quebrou o espelho todo, um
murro, quebrou, me xingou e eu passei três dias com a cara
feia pro lado dele, aí ele veio e pediu desculpas a mim, eu
peguei e aceitei, né? (...) Eu já falei prá ele, já disse a ele (que
quer separar) e um homem sente quando a mulher tá
recusando, né? Ele sente, então eu não sei mais o que fazer...
uma vez, há um ano atrás, ele disse a mim que se eu não sou
dele, não vou ser de ninguém mais e se ele me ver com alguém
que ele me matava e eu tenho medo, porque ele faz. Hoje em
dia, eu não sei porque agora, ele tá bom, tá vindo todos os dias
prá casa... Vai fazer 10 meses que eu não tenho nada com ele.
Tomei pavor. Não sei... Como é um homem violento com uma
mulher quando quer fazer sexo? Ele é grosso, ele não quer
saber, ah sei lá! Poxa, deixa prá lá! (Dina)
O povo tem aquele dizer que tá...quando a pessoa vai pegar
passarinho nunca diz xô, né? Logo, quando eles tão a fim logo
de uma pessoa, eles não vão botar os defeitos deles, né Não
vai dizer eu sou isso, sou aquilo, pra puder a gente não ficar
amedrontada. Logo no inicio, né, no início sentia aquela atração
forte, né, mas depois...depois de muita, muito maltrato eu
acabei odiando ele. No inicio minha avó mesmo que mandou
me chamar, que minha irmã Das Dores... Eu tive lá uma época
que ele começou a ficar assim com grosseria pra meu lado,
dizia que não ia, que não ia comprar nada prá criança que ia
nascer, que ele não ia registrar. Aí eu cheguei e disse a ele que
ele não se preocupasse não, que a criança ia nascer nú, mas
nu também não ia continuar, e que eu tinha meus, meus avós,
tinha minha mãe adotiva, que inda podia me ajudar, né. Aí eu
fui (para Ituberá), minha avó escreveu uma carta,.essa minha
irmã escreveu uma carta prá minha avó. Minha avó já mandou
outra carta respondendo dizendo que não era prá eu me
preocupar não, que tinha a casa dela, e na casa dela cabia. (...)
Um dia que ele me bateu, eu tentei correr pra casa do meu
irmão adotivo, aí ele esticou pelo cabelo e vei me dano murro,
dano soqueta pela minha, na minha cara até quando chegou no
buraco. Aí fiquei, fiquei, quando aí, daí a pouco chegou uma
irmã adotiva minha, umas menina, aí perguntando o que era
que eu tinha, né? Aí eu disse que eu não ta... eu virei prá elas,
fiquei com vergonha de dizer e disse que não foi nada... Aí
começou a me maltrata, tudo que eu falava ele me chamava de
ingrata, de peste, fazia um sucesso, vinha em cima de mim pra
me bater... Aí ele vinha me bater, só que eu enfrentava ele, que
eu não corria assim, né... enfrentava a fera. (...) Uma vez, uma
vez me pegou contra a vontade (para fazer sexo) eu não
aceitei, aí deu briga. Bater ele não me bateu não, mas sei
lá...ele me usou assim com uma violência, que eu acabei
ficando assim até doente. (Noinha)
Ai, minha irmã vei me trazer no Nordeste, minha amiga me
levou na maternidade, ai da maternidade eu já vim p'uma casa
de uma amiga, fiquei três mês na casa de minha amiga, e aí
que eu passei morar com ele. Aí ele deu pa mim... me pertubar,
mim pirr... o pai de Marquinho, Everaldo. Aí ele deu pa me
pirraçar, não me levava pa lugar nenhum, todos passeio queria
ir, num me batia, num me xingava mas me, me pirraçando.
Chegava dizendo que pegou mulé, que a mulé era bonita, que a
mulé era isso e aquilo outro, aí eu cheguei fui m'imbora deixei o
menino com ele, deixei o menino com ele e fui embora.
Quando... aí ele levou pa casa da mãe dele (o filho), quando
tava com dois mês na casa da mãe dele, a mãe de... de
Everaldo foi me entregar Marquinho lá no meu emprego, aí eu
fiquei com ele, paguei uma dona pa'tomar conta aqui na Sta
Cruz, depois disso meus pai soube que eu tava sofrendo aqui
com o menino, mandou buscar o menino po interior, aí foi
quando ele foi po 'interior, aí passou quatro ano lá no Castro
Alves. (...) Aí depois disso, eu conheci o pai desses dai, e que
eu tô com ele ate hoje, aí mandei buscar Marquinho. Marquinho
veio ficou com a gente. (...) Eu pensava (em separar), quase
uma vez mesmo eu... mais minha irmã, quase que nós bota ele
na, na delegacia das mulé, pa poder ele saí de den'de casa,
porque (...) porque todo dia ele dormia com, com uma faca pa
'me matar e eu com uma pa 'matar ele, aí nem ele tinha
coragem de furar nem eu, eu digo, ói um dia o cão pode atentar,
aí eu fui na delegacia da mulhé, dei queixa pr 'ele sair de den
'de casa, só que ele não foi, que ele tem medo de chegar lá, ele
apanhar, ele não foi. Ai ele chegou arrumou a roupa toda pa 'ir
embora, passou um mês... pa arrumar... sacola pa'ir embora
(...) Quando foi de um mês em diante ele desarrumou a sacola.
(Eu)disse: "Ói, no dia que tu ficar com faca dizendo que vai me
matar, eu vou lá na policia te prender". (...) Porque (ele) tinha
mulé na rua e eu, falava prá ele que eu não queria que ele
ficasse com a mulé na rua, que eu ia mata ele, e aí eu brigava,
aí ele: "Ah você merece morrer, vou lhe botar essa faca aqui
p'eu lhe matar ". Foi, ele dormia com uma e eu com outa. E eu
pa furar ele, ele pá me furar, no fim da conta nem ele me matou
nem eu matei ele. Aí depois disso tomem eu deixei de mão.
(Zezé)
Ele também nunca me tocou, não era doido! Mas era tanta
mulher, mulher e jogo também... começou a desbanda, mulher
em tudo que é lugar. Aquela vida que ele tinha de solteiro, até
chegou o extremo de eu não aguenta mais, dá uma louca.
Quebrar até a costela dele. Mas no inicio ainda, ele saía sumia,
ia voltava. Eu tava na minha, só alegre e tudo. Teve muitos
momentos difíceis, muito! Muitos mesmo, não dá pra contar,
não gosto de lembrar... Aí um dia disse: "Vou dá um tapa em
sua cara!" Ah, antes ele tivesse dado esse tapa, me deu um
negócio, que me subiu, tem hora que sinto alguma coisa, por
isso que digo que eu tenho uma coisa no cérebro. Eu peguei
ele pelas orelhas, dei uma dentada aqui, o pedaço ficou
dançando. Ele chegou e disse: "Precisa disso? " Eu disse:
"Precisa! Porque quem disse que vai dar já deu, você alisou a
minha cara, não faça mais isso, porque na próxima vez vou dá
na orelha e arranco o pedaço ". (...) Começou a acabar, já era
pra terminar desde da gravidez de Iracema. Iracema nasceu na
inauguração de Brasília, Carlos sumiu e eu grávida. Sumiu...
Quando ele chegou, não levou 8 dia Iracema nasceu, 6 meses
sumido... Depois começou de novo. Ele começou a arranjar
outra Edite, aí tava trabalhando, ele ía em 8 em 8 dias, ia
sábado e voltava na segunda-feira. Essa namorada, sei lá, aí
passou aí 15 dias, um mês, dois meses, tanto que quando
Marcos nasceu, foi aí que ele saiu de vez de dentro de casa.
Foi quando eu dei a ter um mucado de coisa, comecei a
desmaiar, ficar entre a vida e a morte, quase corto a cabeça e
tudo. Ele chegou, eu tava lá dentro, aí fui acender o candeeiro,
quando venho (...) dentro do quarto e disse: "Quem é? " Ele
disse: "Sou eu!" Mas é lindo! Aí eu baixei o nível, mas eu disse:
"Mas não é teu (o órgão sexual)/ Ele disse: "Não é meu?" (Ela):
"E tem outra que vou lhe dizer agora, é a última vez que você
venha aqui, porque na próxima vez - claro que eu não ia fazer,
mas eu disse - se aparecer novamente, você vai encontrar um
homem nesta cama, porque é minha, foi minha avó que me
deu... " E ai ele com o cinismo: "Eu entro e me deito, porque
quem foi rei, sempre é majestade ". Aí eu dei a louca, foi aí que
eu comecei a jogar tudo nele, sabe? Arrumei... e por fim, ele me
deu as costas que arrumei o tamborete e acertei na costela. E
caí, não vi mais nada. Eu fiquei mal. Que tava, eu tinha tido tido
nenê! Mas depois disso nunca mais soube dele, quando ele
soube que eu tinha tido Marluce (filha de outro), não sabia se
era homem ou se era mulher, ele me botou pra fora, passou a
não querer dá pensão. Não voltei pro fórum... aí prá quando ele
morrer eu fazer o enterro e mijar na cova dele [risadas]. (Dalva)
Mas o desgaste conjugai está fortemente atrelado, ou em boa medida é resultado para muitas das entrevistadas da experiência da infidelidade conjugal. A infidelidade, depois das doenças crônicas e mortes de parentes, é o tipo de circunstância na vida das mulheres estudadas que mais as fragiliza. O sentimento predominante é o de profunda dor, humilhação, raiva e desilusão. Encontram-se queixas de abandono e são poucas as que interpretam a infidelidade como algo relativamente natural. Para oito das entrevistadas este foi um momento fragilizador nas suas vidas, associado a tensões, angústias, ansiedade, baixa autoestima e crises de nervoso:
Sei lá, eu me sinto doente. Da vez mesmo que ele arrumou
uma mulher, eu me senti assim, sei lá, que eu pensava até em
morrer no dia que ele me disse... que eu não esperava... aí ele
ainda foi comprar remédio prá me dar, ele ficou com medo de
eu morrer, porque sei lá, eu fiquei assim numa tremedeira, num
frio, aquele negócio assim... que eu não esperava dele fazer
isso... No dia que ele me disse aquilo -quando ele falou: "Eu tô
com ela, há muito tempo eu quero te falar, antes dos vizinhos te
comentar " - aí quando ele falou, eu não tive mais voz. Aí ele
pegou água com açúcar e me deu, no outro dia eu botava as
coisas num lugar e esquecia, eu fiquei com a mente assim
fraca, que eu não esperava, quando a gente não espera uma
coisa assim. (...) Ele era porteiro (no prédio onde a outra
trabalhava), aí ele tirou ela de lá e trouxe ela prá casa da prima,
prá ficar mais perto, isso é mulher vagabunda. (...) Essa raiva
dele trazer ela pr 'aqui, ele disse que... ele já pediu mil perdão,
mas eu não perdôo. Eu não comentei nada com ele...eu disse:
"Oi, tudo bem que voce já pegou ela, botou dentro de casa, já
pediu desculpas, eu não vou perdoar, que eu te dava mil
confiança, ia prá casa de mãe, te deixava aqui, mas... " (...) Foi
uma amiga da prima dele que me disse que ele dormia com ela
aqui (em casa), ela também justificou que ele dormia com ela
aqui, porque ele disse prá ela que não gostava de mim e foi por
isso que ela veio pr 'aqui me pirraçar, pr 'eu me aborrecer e ir