Antropologia da saúde

Paulo César Alves · Capítulo 11 de 12 · parte 2/2

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Antropologia da saúde

Identidade feminina e nervoso: crises e trajetórias

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

embora... Eu não sei onde eu estava que eu não bati nela.

(Tiane)

"Aí, foi prá onde Neguinho?" (perguntava ao marido). "Ah, fui

dar uma saidinha e tal e tal". Aí, foi daí que foi começando,

começando, aí relaxou que ele fazia tudo que ele queria, e

ainda dizia: "Ah, eu faço tudo que eu quero, eu, eu acho que

eu, que eu tenho direito de fazer da minha vida o que eu quero,

curtir o que eu não curti". Ai eu dizia: "Mas, se você quer curtir o

que você não curtiu, você tinha que procurar ver primeiro se

você queria família ou se não, procurar família para depois você

querer curtir o que você não curtiu, fica chato ". Aí ficou, ficou,

ficou. Do meio pro fim num deu mais certo, a gente se separou,

ele foi pro lado dele e eu fiquei no meu. Agora no último sábado

ele foi lá em casa, tava perguntando: "Você ainda aceita, Zinha,

voltar? Heim? ". Eu disse: "Eu? Num sei não, Neguinho. Isso aí

é história prá se pensar muito bem ". (...) Eu sentia muita raiva.

No inicio eu até achava que num fosse, porque eu confiava

muito nele, né? Eu achava que ele não era capaz de fazer isso.

(...) Mas, logo depois, eu fui, as sumidas, as dormidas, as

mentiras, dizia que ia trabalhar, aí quando eu ligava pro trabalho

dele, ele num estava, as viagens. Aí foi que foi revelano as

coisas, né? Eu fui ajuntando os pedacinhos, digo, é se ele num

tivesse com essa mulher, ele num tova com essa agonia toda

com ela, fazeno casa, dizeno ele que ele num tava ajudano, aí

faltava as coisas dentro de casa, dizia ele com num tinha

dinheiro. Pedia a ele prá dar cheque, aí ele dizia que num podia

dar cheque: "Não, não posso dar cheque não, que o meu

cheque eu já gastei todo, que eu precisei prá pagar isso,

precisei prá pagar aquilo ". Isso tudo mentira, se ele num tava

comprano nada pra dentro de casa? Como é que ele ia gastar

talão de cheque assim, rapidinho? "Ai, eu num tenho". Ai eu fui

me aborreceno com aquilo, chatiano, me contrariano, ficava

doente, ficava nervosa, tinha muita dor de cabeça mermo. E ai

eu digo: "Oi, Deus tem que dar, Deus tem que ver um plano na

minha vida, ou de um jeito ou de outro ". Eu achava que eu tava

ficano nervosa e às vezes, como Doutora Aida falou que

nervoso demais, às vezes as pessoa perde até o controle e fica

até meio variado, né? Disse que num fica doido de tudo, mas

fica meio descontrolado, como ela disse. Eu num conseguia

nem olhar pra cara dele, ficava com uma raiva tão grande, que

eu só tinha vontade de, de fazer qualquer arneira mermo, Deus

me perdoe, mas com ele, eu tinha muita raiva dele. (...) Num

conseguia nem ensinar o dever deles direito (dos filhos), era

uma agonia danada. Ai, ele falava, ficava dizeno que eu era

uma grossa com os meninos. Mas num era grossa, é porque eu

mermo ficava nervosa, agoniada, quando ficava sabeno das

coisas. Então, tinha dia que quando eu ia chegano na ponta da

rua, o pessoal fazia: "Eu vi Neguinho lá no Shopping com a

mulé " Ah! eu ia bem, bem, bem, só você veno, mas me subia

aquele fogo assim, aquele ódio, pronto, aí eu já chegava em

casa toda transformada, eu digo, hoje num dá nem prá eu ficar

na casa de mainha, porque, às vez a gente sem querer, às vez

faz até uma estupidez, né, uma coisa, aí eu passava na casa de

mainha, tomava banho e ia me embora prá lá, ficava lá sozinha

dentro de minha casa, ligava a televisão, a televisão ficava lá

falano sozinha e eu cá. Passava, passava, daqui a pouco ele

chegava. "Tava aonde?" "Eu tava no trabalho". Eu digo: "O, eu

liguei pro seu trabalho, você num tava lá, você já tinha saído

desde cedo ". "Ah! eu dei uma saidinha, fui na rua resolver

umas coisas minha ". Tinha dia que eu tava com vontade de

falar, eu falava, descarregava também, mas tinha dia que eu

num tava, aí eu ficava ali calada, me cumeno por dentro. Mas

num é,...graças a Deus que eu já consegui até perdoar ele, mas

eu num sei nem se eu quero volta, eu sei lá. (Zinha)

A separação em si mesma não parece ser tão fragilizadora como o processo imediatamente anterior à sua definição, a infidelidade, violência ou desgaste da relação que podem ter conduzido a ela. Apenas três das mulheres identificaram a separação como momento crítico em relação a outros tipos de eventos vividos; entretanto, mesmo nestes casos, ênfase foi dada mais ao processo anterior do que a sua definição ou desfeixe. Dessas três mulheres, duas haviam se separado recentemente e a outra nunca mais voltou a se unir, após o que ela designou como uma "gravidez ilegítima", fruto de um caso amoroso que teve lugar após sua separação e pelo qual nunca se perdoou. É entre as mulheres que voltaram a se unir após a primeira separação que o peso deste evento enquanto momento fragilizador é menos pronunciado. Ainda que vivenciada com dor e dificuldades, a separação não aparece nos relatos dessas como evento particularmente fragilizador ou associado a momentos de maior nervoso. Como mencionado, estas mulheres apontaram para outros tipos de eventos na descrição dos momentos mais críticos e estressantes em suas vidas. Duas hipóteses complementares podem ser levantadas para elucidar estes dados.

O evento da separação pode ter sido grave e fragilizador em seu momento e na atualidade, à distância, a entrevistada passa a descrevê-lo e interpretá-lo à luz de outros acontecimentos, diminuindo seu peso e gravidade. Por outro lado, é igualmente possível, conforme também apontam alguns dos achados do estudo de Miles (1988), que a separação tenha sido em alguns casos o desfeixe final, a solução e reencontro da paz perdida pelos conflitos, desconfianças e sofrimentos resultantes de uma convivência conjugai deteriorada. Neste sentido, a angústia e crise, desde uma perspectiva subjetiva, estariam situadas mais claramente no processo anterior de agravação dos problemas e tomada de decisão de separar do que no evento da separação em si mesmo. Estas são conjecturas difíceis de se comprovar a partir dos dados aqui apresentados. É provável que as duas hipóteses não sejam totalmente excludentes e que tenham pesos diferentes a depender da história de vida em questão. Mas há aspectos de outra ordem no que concerne à vivência da separação. Ao descrever sua experiência deste evento, as mulheres relatam uma série de dificuldades de tipo econômico e relativas ao cuidado com os filhos, assim como sentimentos de falta de proteção e abandono, que em alguns casos vão diminuindo à medida que a autoestima é recuperada e que se retoma o curso de vida.

Eu pensava em me separar, sabe? Mas eu não. Eu queria que

partisse dele por dois motivo. Um, porque eu num, o pessoal

me falou, um adevogado me falou que se eu me separasse

dele, ele podia me acusar dizeno que fui eu que larguei ele, e aí

eu podia perder a metade dos meus direito. Quer dizer, o direito

dos menino, por exemplo, né? Ele podia, que ele podia

questionar que fui eu que quis largar ele por causa de outro

homem e como a vida acontece muito disso, que eu num ia ter

como provar, num é? Aí ele disse que só se eu tivesse muita

sorte prá provar diante de um juiz, uma coisa, pra poder ele não

ficar com os meninos. Aí eu num queria, como eu num quero.

(...) Aí eu num, num tenho vontade de entregar a ele nenhum

dos dois (filhos)... Preveno essas coisas, que o pessoal sempre

me falava isso, você pode perder seus direitos diante dos

meninos e o direito que você tem diante das coisas. Ai eu dizia,

pelo os meu direito eu num faço nem questão, porque ele diz

que eu sou muito soberba. Mas num é soberba, se eu trabalho,

eu tenho a minha vida, tenho o meu dinheiro, faço o que eu

quero, então prá que eu vou ficar atrás dele mendigando pra

que ele me dê pensão, me dê isso, me dê aquilo, não, eu não

peço. Unicamente o que ele me dá é cartão particular que eu

graças a Deus eu não adoeço assim, eu nem uso, ele leva e

traz, leva e traz e o cartão eu nem uso... É, eu queria que

partisse dele, então eu nunca botei pra fora, nunca disse que

num podia mais ficar, agora do meio pro fim, relação a gente

num tinha, já tinha muitos meses que ele me procurava e eu

num queria, por medo de muitas coisa, das doenças, que

ninguém se previne, e do jeito que ele, que ele fez comigo que

eu num merecia, né? Quer dizer, eu acho que se a gente num

merece a pessoa num tem fazer certo tipo de coisa, como ele

fazia de ficar passeano (com a amante) pelo Shopping pra todo

mundo ver. Se ele queria ter uma amante, ele se recusasse

mais, né? Arranjasse casa, botasse ela, fosse pra casa dela,

que fosse um negócio mais oculto e não um negócio pra que

Deus e o mundo visse, né?... Cada um diz uma piadinha, essas

coisas me revoltava. (...) Comecei a trabalha, num disse a ele

que tava trabalhano, ele só veio descobrir quase uma semana

que eu tava trabalhano... (Ele): "E nem me falou? " "Não que eu

não tive tempo, e às vez você chega e eu num me lembro". Aí

ele chegou e disse assim: "E, tá bom...você tá se desligano de

mim mesmo, hein?... E, então tá certo". Aí passano uns dois

dias, eu acho que ele conversou lá com a outra o que tava

aconteceno, aí ele fez, começou a fazer as mala. Aí um dia saiu

com a sacola cheia de roupa. Aí quando eu acordei, no lugar

que ficava a roupa dele, já num tinha quase roupa nenhuma. Aí

eu disse: "Oi eu acho que ele já ta ino embora". Aí passei,

também num perguntei. (...) Aí quando foi no outro dia, ele veio

carregou o resto tudo e foi embora. Saiu no outro dia, na hora

de sair de manhã, ele disse assim: "Zinha? " Eu disse: "Oi!" Eu

tava na cozinha fazeno café dos menino. Eu disse: "Oi!". Ai eu

disse: "O que é? Diga aí? " Aí ele chegou e disse: "Tô ino

embora". Eu digo: "Boa sorte, faça da sua vida o que você

achar melhor. Já que você quer ir, você vai, se você num

pretende mudar ". Antes disso a gente teve uma conversa, uma

semana antes de eu começar a trabalhar, a gente teve uma

conversa e aí, que eu pedi a ele que ele mudasse, ou ele

mudasse ou ele resolvesse a vida dele. Aí, quando foi no dia

que ele foi embora, aí ele disse: "Eu já vô". Eu digo: "Você

conversou com os menino, que você num voltava mais pra

dentro de casa? " "Não, que eu num tive corage, deixei a seu

critério ". Eu disse: "Tá, deixe aí que eu converso com eles ". Ai

vim trabalhar, quando eu cheguei em casa, ai eu falei com os

menino: "A partir de hoje seu pai num vem mais pra casa, a

gente se separou ". Ai, eles começaro a chorar, naquela agonia,

eu: "Não, tenha calma, tudo se resolve". Ai foi ino, foi ino, ele

passou a aparece lá de vez em quando, de vez em quando, que

agora aparece lá sempre. Tem dia que vai passar o dia lá... Na

hora que eu vi ele ino embora, eu senti muita raiva, mas, depois

eu disse: "Oi, se eu mesmo queria isso, se eu achava que num

tava dano certo, que era melhor ele ir, eu tenho mais que

aceitar... " Nos primeiros dias, eu fiquei ruim, porque eu num

tava acostumada a dormir só, né? A semana toda, como eu ia

ficar com os menino? E também eu sentia medo porque a casa

tava aberta, tava sem laje, eu tinha medo que alguém entrasse

e encontrasse só eu e os menino dentro de casa. Mas depois

eu fui me acostumano e hoje em dia, eu já fechei a laje, graças

a Deus. Aí, eu num tenho mais medo... Fiquei bem melhor. Meu

visual mermo mudou. Eu tava ficano muito velha. Vige menina,

eu tava ficano muito cansada, e ficava traumatizada com as

coisas que acontecia, sentia ódio. Hoje em dia, eu num sinto

ódio de nada, Vige Jesus! Vivo bem...Hoje mermo no ponto, a

menina disse que achava que eu tinha vinte e cinco ano, eu

digo: "Ai meu Deus!!!" (Zinha)

Eu sofri muito, mas passou!... (Logo após a separação)

passava fome. Eu botava a água de gás, porque quando eu

casei ele me tirou de trabalhar, ainda estraçalhou meu

documento todo, eu fiquei sem nada. Lá no interior, e eu assim Como visto até aqui, os momentos críticos relatados pelas mulheres estão fortemente associados a conflitos conjugais em algum momento das suas vidas. É interessante observar, entretanto, que entre as mais jovens, em fase inicial do ciclo vital, a quase totalidade dos problemas são concentrados neste tipo de conflitos de

tapada, lá tem essa mania de que mulher casada tem que fazer

o que o marido quer, lá minha família cheia de tradição, cheia

de protocolo. Ele trabalhava lá no Coqueiro com a amante,

sabia que eu não trabalhava, não tinha nada, sem nada, não

me procurava assim pra me ajudar em alguma coisa, pra dá

nada. Só Clodoaldo o marido da minha tia, que eu chamava de

Clô, me dava leite. Marcos não gostava de leite só queria

mamar. (...) Comecei sozinha lá no Coqueiro, município de

Maragujipe, Paraguaçu. (...) Eu não queria que filha minha....

podia tá sem nada no estômago, se alguém perguntasse na

rua, e dissesse, caísse na infelicidade de dizer, apanhava,

pequenininha, não dizia não (que tinha fome). Tinha dias que

olhava pros quatro canto, assim, com parente, com condições,

você acha, é orgulho? Não é. Uma terra que não é grande,

parente tudo morando ali, muito barulho, minha família é

grande, muitos de condição, sabendo que eu tava nessa

situação, sem marido, sem ter trabalho, precisava eu chegar na

porta e pedir? Não precisava, não. Quisesse ajudar, de feito

nenhum, então, eu não pedia. (...) Foi aí que perdi corpo, mas

assim mesmo eu pesava 60 e pouco, 64 ou 66... Não, primeiro

me internei, aí me internei quando eu vim pra aqui (Salvador),

levei 3 meses...(estava) fraca, múmia, tudo. Vim prá cuidar de

Márcia (filhinha com problema de foco), aí comecei a passar

mal, não podia andar. Márcia tava pequena, tava todos

pequenos... Aí vim prá me internar, internei, aí quando saí do

hospital não voltei mais, porque no hospital mesmo eu arranjei

esse trabalho, ia substituir uma que tinha se internado. (...) Aí

eu pegava 9 horas e largava as 5 horas... (...) Claro que (a

separação) foi ruim, mas nem tanto que eu já tava a fim de

separar! (...) Não via mais, vim ver no Forúm, ainda foi com 2

advogados, eu recebi um convite, pra eu ir no Fórum, eu fui e

levei Marcos e Iracema, cheguei lá e vi ele entrar com o

advogado. Eu disse: "Marcos e Iracema, ói o seu pai". Marcos:

"Ele não é meu pai, não, porque ele não me dá comida, ele

deixou a gente morrendo de fome ". Ah, minha filha! Então ele

ficou com a cara... (Dalva)

conjugalidade15, enquanto que entre as mais maduras, geralmente integrantes de grandes famílias extensas (com filhos casados e/ou outros parentes), as preocupações atuais se deslocam para problemas com os filhos e netos. Neste sentido, referem-se a problemas de relacionamento conjugai de seus filhos ou ao envolvimento destes ou netos em atividades ilícitas. Nesta fase da vida as mais velhas parecem ter logrado um convívio mais pacífico com seus parceiros (resultante de um acomodamento mútuo) ou com sua atual solidão.

Ele (o genro) num tem jeito. Já deixei de mão. Dexa prá lá, num

vô na casa deles. Dexei, abandonei, que ele dizia que num vivia

cum ela pur causa de mim...que s 'eu num dexasse de ir na

casa deles... Continua da merma forma... Eu dexeil Num vô

mair, não!...Por mim, elas (as filhas) num casariam com ninhum

desses home (do Nordeste). Por mim, num casava cum

ninhum. Eu nun, eu nunca quis, não... Só Deus, só Deus do céu

é quem sabe o sofrimento qu 'eu tenho sufrido. Só ele sabe

porque ninguém num sabe. Só Deus sabe. O que me

chateia...é que eles judeia mutcho delas..., num faz por elas o

que tem obrigação de fazê..., num dão nada pra elas... O de Jô,

não! O de Jô é ruim, mas ele dá tudo. Ela num passa farta de

nada, nem as fia, mas as otra! Jane... Janete...Deus é quem

sabe! (...) No qu 'eu posso eu ajudo. Agora mesmo Jane já tá

aqui dentro de casa cum três fio. Ele boto pra fora. ..Já

veio...acho que já veio quatro vez e volto, e agora ninguém

sabe...agora...se ela vai vortá de novo. Eu acredito que não,

né? que num é possíver, né? Jane...tá disimpregada, doida

atrás de um imprego... e num acha imprego. Hoje mermo ela

vai lá pro Itaigara, pra vê se dá certo... Amanhã vai ver se dá

certo otro... Quem tem num pode perde, purque pra achá... num

acha, não. Mas jamais eu num vô fecha minhas porta pra elas,

não. Eu adoro! Eu num gosto não..., eu adoro, minhas fia e

meus fio, eu mato e morro por quarqué um. Eu mato e morro

por quarqué um deles. Eles, eles pode até num gosta de mim,

agora eu mato e morro..., por meus fio, eu mato e morro. (D.

Neném)

Mas eu vim mesmo peder corpo (de 64 a 40 quilos,), foi quando

Márcia se perdeu (a filha que engravidou adolescente), pra mim

foi o fim de tudo. foi o desgosto maior que eu tive em minha

vida.(...) Depois ela se meteu, sabe como? Com bandido. Ela

(agora) mora em Dias D'Avila. Ela tá acomodada. Já teve uns

dois filhos (recentes)... Já tá uma de 15 anos aí... [E sobre os

netos adolescentes que ela cria, um marginal e o outro

homossexual e rejeitado por toda a familia que o espanca] ...a

perseguição dos filhos, dos outros netos como aquele entendeu

(o homossexual)? Ó, fico com dor fogo, sinto dor fogo, rapaz,

coisa de doido... (Perseguem ele) porque ele era assim,

diferente, todo mundo diz... querem me matar, querem me...ó

pra aqui ó, sabe o que foi isso? [mostra uma cicatriz] O gato

que o irmão rumou prá ele, ele rumou aqui ó, eu me levantei

daqui... foi sangue, nunca tinha visto tanto sangrar... E uma

coisa de louco, tem dia que eu tô louca, e dominando... a gente

quer acalmar um, acalmar, tirar o outro, e ninguém obedece,

não aprendeu, outros voam em cima da gente... tem dias que

eles tão mais atentados... e eu tenho que tá atras, ali, claro.

Atrás, atrás, cercando... Ah! Isso é depressão. Não sei. Porque

começo a pensar, sabe? Pensar... que penso muito em morrer e

Ricardo e Carlos Fernando ficar. Eles não tem ninguém a não

ser eu; a mãe deles é uma louca, o marido dela não é gente

que preste, não querem meus netos nem eles vão, então, vão

ficar aí, só, e eles são meus netos e são meus filhos, porque eu

registrei, né? E eu tenho um medo de um momento prá outro eu

morrer... (Dalva)

São igualmente frequentes os relatos de nervoso associados a conflitos diversos com a vizinhança - disputa de terrenos compartilhados, fofoca e intromissão em assuntos privados, problemas com crianças, barulho, etc. - resultando em brigas, ameaças de vida e até agressões físicas que culminam com a intervenção policial.

Só que a gente não... as possibilidade de... não deu pra cercar

tudo (...) Aí chamou ele, falou que ele não, não invadisse, que

era nosso e ele queria porque queria que nós mostrasse os

papéis do terreno... Aí ele: "Se não vai mostrar, a gente vai

invadir". Minha filha, eu sei que de noite esses home fizeram

desordem aí do lado e derrubaram a cerca toda e não deixaram

um pau só aí... Vieram mais de 20, tudo maconheiro e ladrão...

começaram a trazer facão, enxada, essa picareta, começaram

a cavar, tirar tudo minhas plantação toda que tinha aí, eles

quebraram tudo, era pé de mamão, era pé de aimpim,

derrubaram tudo... Fui lá na justiça, dei queixa e os policial

vieram tudo...ele já tá, minha filha, com bloco, com areia,

cimento tudo aí já...já tavam construindo aí o quartinho já... A

policia veio e acabou com tudo, levaram os dois presos...

Depois....ficaram aí fazendo ameaça... (Lena)

A sexualidadade é outro tema relacionado as suas angústias e dificuldades. Em 8 das narrativas detectou-se problemas desta ordem, ainda que de formas diversas. Segundo algumas a ausência de homem e do contato sexual prolongado é o que provocaria ou acirraria nelas estados de nervoso. É comum médicos, parentes e amigos aconselharem estas mulheres sobre a necessidade de buscarem e incentivarem novas relações afetivas, conselhos que revelam uma relação de causalidade entre nervoso e solidão e, mais especificamente, ausência de sexo.

Também existem as que se queixam de dificuldades no desempenho e gozo de uma sexualidade prazerosa. Uma das entrevistadas consente nunca ter sentido orgasmo e que nenhum médico pode ajudá-la a resolver este problema. Outras contam que tiveram dificuldades com certos tipos de posturas sexuais solicitados pelos seus companheiros. Uma delas, por exemplo, se nega a realizar sexo anal mas pensa obsessivamente em realizar uma cirurgia plástica vaginal para reconquistar o desejo do parceiro que parece perder o interesse por ela. Outra foi desvirginada uma semana após o casamento, aos 19 anos, com a ameaça marital de devolução se continuasse a negar seus serviços sexuais.

Conheci desde menina, nunca fiz amizade com ele, a gente não

se unia, mas ele me perseguia muito e mamãe, Ave Maria, se

eu não namorasse com Carlos, vou fazer vontade de mamãe

depois eu termino, mas foi que aconteceu uma coisa sabe. Foi

uma coisa assim, preste atenção, nunca contei prá ninguém, foi

uma coisa ruim. De tarde eu disse a ela que ia acabar com

Carlos. Aí ela disse a ele...Estava só em casa, aí bateram na

porta, aí eu: "Quem é? " Aí saí assim desprevinida, quando abri

a porta aí ele se apresentou assim: "Eu vim trazer uma

merenda". Aí quando ele disse assim "vim trazer uma

merenda", ele me deu um tombo, aí eu caí. Assim houve um

estupro. Eu dei um grito. Tava com 19 anos, aí perdi minha

honra. Ah meu Deus, perder a minha honra. Nunca contei isso

a ninguém... aí tive uma hemorragia, eu não contei nada, aí me

deram uma injeção. De manhã todo mundo sabia que eu tinha

me perdido, mas não sabia como, aí eu fiquei mucado de tempo

sem sair na rua, morta de vergonha! Aí eu fiquei mal com ele,

fiquei mal não queria de jeito nenhum, ele só queria casar,

casar, marcar data de casamento. Aí eu casei até tava de mal

com ele. (...) E aí eu fui sofrendo, sofrendo, chegou a um

extremo de eu não aguentar, ele sumiu, arranjou uma mulher

aqui... que tem 25 anos, já vai fazer 26 anos que eu encontrei

com ele, que ele me botou no Fórum, prá tomar meus filho,

porque soube que eu dei um passo em falso, dei. Foi dar o

passo em falso, e aí na mesma hora a vergonha bateu, não

quis mais, fiquei grávida, e agora pra essa barriga aparecer? Aí

é que é a coisa. (...) Marcou muito (o estupro), por isso mesmo

que eu não quis mais ninguém até aos 26 anos. O pai de

Marluce, porque Marluce não é filha do casal, o pai de Marluce

eu só tive uma relação com ele. Eu não quis, tomei pavor e

gostei até dele assim... É eu desisti, mas eu não pensei em ficar

grávida, mas fiquei, tomava veneno pra perder Marluce de

vergonha, só um irmão que me deu o maior apoio José. (...) Aí

eu desisti, não quis mais saber, Ave Maria... foi quando doutor

Gilberto tava novo ainda... E ele me dizia sempre assim, um dia

mesmo ele disse na vista da mulher dele, a mulher dele é uma

bela pessoa, disse: -"Ói criatura, sabe qual é seu problema?

Arranje um homem. Arranje um homem". Eu digo: "Deus me

livre, doutor Gilberto, eu fico morta de vergonha, só em pensar

nisso, nos meu filho, que eu já tenho ". (...) Meu filho, que tem

trinta anos que mora aí, ele pequeno fazia assim: "Mainha tudo

quanto é mulher tem um namorado, só mainha que não arranja

um namorado ", ele achava que divia arranja um namorado, eu

dizia: "O meu filho, mainha não quer namorado, não. Meu

namorado são vocês, viu? " Ele achava, que ele via tudo quanto

era vizinha tudo tinha marido e eu não tinha um namorado. (E

recentemente, quando Marluce conheceu seu pai, já adulta), aí

ela disse: "Não é nada demais tentar se reconciliar". Nem

morta, meu filho. Pra mim a vida tá boa. Não vou procurar esse

negócio e vida de homem, pra mim acabou há muitos anos".

(Dalva)

Eu levei uns... seis anos ou mais sozinha. Eu e meu filho, só,

entendeu? ...ia pro médico, o médico perguntava se eu tinha

marido, eu dizia que tinha. Porque eu tinha vergonha de dizer

que eu não tinha marido, eu dizia que tinha... Aí o médico

perguntava se eu tinha marido, eu dizia que não, aí ele dizia

assim: "Dona Joselita, a senhora tá tão jovem pra senhora, tá

sozinha!" Eu dizia: "Não, eu não quero mais não, eu já fui muito

sofrida de homem, não quero " "Mas todos não são igual", todo

mundo me dizia isso, eu fiquei com trauma, né?. Eu acharia que

se eu acertasse alguém, eu ia passar pelo mesmo sofrimento

de novo. (...) Aí quando chegou um dia, aí as menina aqui...

essa vizinha aqui me dava a maior força, ói, essa vizinha aí...

Quando ela via a casa fechada, ela ficava doidinha, ela vinha,

batia aqui pra ver se eu tava morta aqui dentro de casa. Eu só

vivia trancada. Só vivia trancada... por vida. Eu não saía pra

conversar com ninguém, me chamavam pra sair, passear, eu

não saía. Aí, quando chegou um dia, aí Lucia só: "Ô Jose, você

tá tão jovem Jose, vamos sair, vambora sair num barzinho.

Amanhã eu vou sair -que era dia de sábado -tem um barzinho

jóia pra gente curtir". Eu dizia: "Tá, a gente vai". Quando

chegava na hora... tinha hora que me dava um nervoso brabo

mesmo, que eu, eu digo: "Não, Lúcia, não quero ninguém ". (...)

Aí eu fui pra médica. Aí Dra. Carla, disse: "Pode arranjar um

namorado... tem que arranjar um namorado, não pode ficar

assim não ". (...) [Sobre o companheiro que acaba arranjando]

Aí, quando chegou um dia que a gente marcou um encontro...

Aí, ele veio pr 'aqui, o primeiro dia que ele chegou aqui e tal, eu

fui... encontrei ele lá no ponto... aí trouxe pr 'aqui e tal... a gente

conversando... ele só contava problema de/de hotel, de

restaurante. Não saiu um beijo, não saía um abraço, não saía

nada. Eu dizia assim: "Pronto, já que dizem que o meu nervoso

é esse, agora eu vou [risos], meu nervoso vai acabar tudo de

vez" [risos] e nada, nada dele querer... nada [risos]. Levou cinco

dia, a gente dormindo junto e nada. Nada [risos]. Ai que o

nervoso começou... aí foi que piorou o meu nervoso [risos].

Porque sozinha, eu sei que eu tava... você sabe que cê tá

sozinha, né. (...) ...também não me faltava nada aqui dentro

dessa casa, mas o melhor eu não tinha [risos]. Oito ano ele

levou aqui em casa... e foi aí que o meu nervoso piorou. Oxe,

porque se você tá sozinha, você não liga, mas cê já pensou,

você tá dormindo... recebe uma quentura de, de outro assim

[risos]. Meu problema agravou aí [risos]. Foi aí que meu

problema veio a agravar. Eu sentia mais nervoso.... um beijo,

você não tinha, ele não gostava... se você... Teve um dia que -

eu disse: "mas não é possível!"-eu tomei banho, me perfumei

toda, né? Aí vim pra dá um beijo nele, ele meteu a cabeça entre

a perna... ele metia a cabeça assim... ele não dava um beijo. Eu

digo: mas não é possível, escuta, o senhor não gosta de...

[risos] rapaz, ele levou aqui 8 ano, aqui ó... desse jeito que tá

eu e você aqui... Aí, ele foi embora... (D. Joselita)

Eu conheci ele... ele é meu primo! (...) É, namoro oito mês,

depois ele falô cum minha mãe, minha mãe cunsintiu, e quando

foi cum dois ano nós casemo. (...) Cum um ano..., cum um ano

não, cum nove mese eu tive o premero fio, que foi Zé, o mais

véio. E aí, de dois em dois, era um, de dois em dois, era um...

até que interô dez.. Ele foi o premero. O premero e o único.

Não, não. Eu nun... nunca tive namorado não. Nunca fui pra

festa, pra festa ninhuma, nenhuma. Eu num dexava minha mãe

pra nada desta vida. Porque num dexava. Eu num dexava. Não,

ela era sã, mas eu num dexava. Era da minha natureza mermo

que num dava pra mim sair. Minhas irmã saia... mas eu nunca

minti, nunca fui pra festa ninhuma..., nunca fui pra festa... Eu tô

cum cinqüenta e seis ano num conheço um cinema! Nunca fui,

num sei o que é... um cinema. Nunca fui. Era. Namorava na

porta, mas era um de lá e otro de cá, qu 'ela num dexava não,

minha mãe num dexava não. Não, num dexava nada. Era ela

sentada junto. Eu como aqui, ele como aí, ela aí sentada... Aí,

quando era dez hora, ela mandava ele imbora, mandava ele

imbora! Ele ia imbora, era orde dela, num passava da orde.

[Sobre sua primeira relação sexual] Foi o mermo que tê me

matado! Porque eu num sabia que existia isso, não... Eu pensei

que casava só por casa, mas num tinha nada disso, não... Ele

disse que quiria m'intregá prá minha mãe, porque eu num quiria

me sujeita a ele..., cum três dia...de casada! Ele ia m 'íntregá

pra minha mãe... Aí eu cumbinei pra mode a fim de ele num m

'íntregá pra minha mãe de novo. Oxe, mas foi o mermo qu 'eu

tê ido no..., no... no inferno. Deus me perdoe! Depois meorô.

Mas eu também num sei, eu num devia tê casado. Casa

inocente! Sem sabe de nada! (D. Nenem)

 

Conclusão

O presente artigo descreveu eventos, encontros e relações na trajetória de vida de mulheres autoreferidas como nervosas, que são avaliados por elas enquanto períodos marcantes em suas vidas, associados quer a origem do nervoso, quer a eclosão de uma nova crise, ou simplesmente característicos do contexto mais amplo sobre o qual se desenrolam suas experiências de aflição. Além de apontar para elementos estruturais das trajetórias, procuramos explorar os significados de que estes se revestiam para as mulheres.

Durante a discussão ficou claro que conflitos relacionais com os parceiros e familiares que as rodeiam são característicos estressores na suas vidas. Isso não significa que alternativas e soluções para tais situações difíceis não sejam encontradas e exploradas criativamente ao longo da vida. Em estudo realizado junto a mulheres na Inglaterra, por exemplo, Miles (1988) apontou para algumas das formas encontradas por suas informantes para enfrentar problemas semelhantes aqueles tratados aqui: mudanças como o divórcio, separação, mudança de casa, alívio dos papéis difíceis de cuidado, obtenção de um trabalho satisfatório, novas relações etc. Assim, existia para as mulheres a possibilidade de atuar afirmativamente pela construção de uma identidade baseada em sentimentos de autonomia, autodeterminação e aumento da autoestima. Sentimentos como estes estão presentes também em estratégias de separação e estabelecimento de novas uniões adotadas pelas mulheres estudadas aqui. Vejam-se, por exemplo, algumas narrativas que apontam nesta direção:

Meu nome todo é Dalva Silva. Porque eu tinha Matos do

marido, mas eu tirei esse Matos, porque olha, eu era casada,

logo que a gente se separa...pra quê esse Matos? Eu não gosto

de Matos, meu nome é Dalva Silva, é o nome de solteiro, e

acabou (...) [Quando separou se mudou para Salvador] Aí foi

que eu nem voltei mais. O que é que eu ia fazer lá fno interior)?

Lá não tinha trabalho não, não tinha dinheiro pra se viver, não

dava. Eu gostava, mas não dava mais pra eu viver... Eu sempre

gostei muito daqui, desde quando eu vinha, às vezes, com

minha prima pra dar um passeio, Gostava, sabe?... Eu nunca

me senti sozinha. Hoje em dia, eu me sinto só, mas antes eu

nunca me senti sozinha, eu era cheia de amigas, todo mundo

me procurava, sei lá, não faziam nada sem minha presença.

(...) Foi melhor (a mudança), porque eu aprendi mais a viver, a

enfrentar. Eu era muito submissa, uns pessoal parado,

esmurecido. Não tinha ânimo pra nada, ficava com os filhos no

couro, sentada, ficava com aqueles filhos tudo perto de mim:

chorava, cantava, tudo que me pediam pra cantar eu ficava

cantando, a situação tava naquela... Aqui eu aprendi mais a

viver. Se naquele tempo que marido, que eu me casei (...) eu

não saía, não tinha nada de ninguém dizer. 'Ah, porque que

você tem que seguir seu marido, porque que seu marido... " Ah,

não é por aí, agora não, há muitos anos atrás que eu venho

dizendo isso: como eu aprendi com o homem! Naquele tempo

eu tava abestalhada. (Dalva)

Ele me deu uma casa, eu disse a ele que não queria, nem para

a filha dele, eu nunca quis... A ajuda era minha cabeça, minha

cabeça decidiu era isso mesmo (separar), minhas amigas me

davam muito conselho, que eu não me separasse, que era

gente que tinha recursos. Mas só que eu não gostava, não tinha

conselho... Nunca senti falta, graças a Deus. (O tempo

separada]... foi um período bom, maravilhoso, trabalhava pra

me manter, trabalhava pra minha mãe, que minha mãe tomou

minha filha, que não queria que eu trouxesse minha filha...

(Guiomar)

Duas observações devem ser feitas no que toca a extensão das conclusões de Miles para o presente estudo. Em primeiro lugar é preciso não esquecer o contexto sócio-cultural próprio em que se desenrolam e ganham sentido as trajetórias. Assim a análise deve caminhar rumo a identificação das situações que efetivamente contam como crise e conflito para as mulheres de classe popular aqui estudadas e dos projetos e práticas desenvolvidos para solucionar tais situações. Em segundo lugar é preciso levar em conta que na trajetória das mulheres que participaram deste estudo existe outro tipo de situação fragilizadora (que não foi analisada aqui), frente a qual o sentimento característico é o de impotência acompanhado por atitudes de revolta ou conformação e adaptação mediante um distanciamento paulatino. É o caso das experiências relativas ao cuidado de doentes crônicos e/ou de morte de pessoas próximas. Estes sentimentos são mais dolorosos e acentuados quando associados a fatalidades inesperadas como são os inúmeros relatos das mortes violentas presenciadas nas portas das próprias casas. Estas mortes não são de desconhecidos, geralmente trata-se de um filho, marido, parente ou amigo próximo e parecem acontecer frequentemente, no dia a dia destas mulheres, imersas em um mundo onde a miséria e a violência parecem ter um caráter mais institucionalizado e rotineiro.

A intenção deste trabalho foi dar voz às mulheres de modo a não apenas identificar fatos mas compreender as perspectivas e nuances a partir dos quais estes fatos são vividos. Partir das falas, dos relatos das mulheres acerca de suas vidas, além do mais, nos permite vislumbrar aspectos relativos a construção mesma de sua identidade, de um senso de si mesmo que emerge a partir dos própria história contada. A linguagem, sistema de signos mais importante da sociedade, faz mais real minha subjetividade para mim e para o meu interlocutor. Ela tem a capacidade de cristalizar e estabilizar minha subjetividade e esta capacidade persiste, ainda que de forma modificada quando a linguagem se separa da situação cara a cara (os homens precisam falar de si mesmos até conhecerem-se a si mesmos). Este ponto precisa ser levado mais a sério nos estudos sobre a subjetividade feminina.

Também se intencionou demonstrar com este texto, algumas pistas rumo a construção de caminhos de análise distintos tanto daqueles tradicionalmente trilhados pelas abordagens epidemiológicas de "fatores sociais de risco", que ao preocupar-se com eventos (fatores) perdem de vista a dimensão dos processos de construção de sentido, quanto daqueles empreendidos a partir de um enfoque psicanalítico, usualmente presos a categorias interpretativas próprias a experiência do gênero feminino em classes mais abastadas. Ambas abordagens, embora importantes para a análise do problema mental, tendem, por razões diferentes, a negligenciar a compreensão do contexto sócio-cultural no estudo dos problemas e situações fragilizadoras na experiência de mulheres de classe trabalhadora.

Se bem que neste artigo ainda não se explicitou suficientemente as maneiras específicas como as mulheres nervosas de classe trabalhadora da nossa realidade interpretam e resolvem seus conflitos, as suas narrativas oferecem um sem número de elementos e pistas nessa direção. Um primeiro aspecto a se ressaltar na análise aqui proposta é a importância conferida a dimensão temporal, incorporada no conceitos de experiência e trajetória. Não são eventos ou fatores isolados que afetam a vida desta mulheres, mas processos, conjuntos deles, e o sentidos que emergem da sua vivência. As narrativas das mulheres apresentadas apontam para o surgimento de uma serie de questões e formas de interpretar o curso da doença, que parece ser bastante especifico a sua condição social e de experiência e que não podem ser reduzidos às questões do gênero feminino em geral.

 

Agradecimentos

Agradeço a Míriam Rabelo a sua sempre criteriosa leitura, seus valiosos comentários e uma pincelada no estilo desse artigo.

 

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Notas

1 Ver análise do conceito de experiência em Alves (1993) e Alves e Rabelo (1995).

2 Segundo Berger e Luckmann (1983), a sociedade, a identidade e a realidade se cristalizam subjetivamente no mesmo processo de internalização, que corresponde à internalização da linguagem. A socialização primária (na infância) se implanta na consciência com muito mais firmeza do que a secundária, porque aparece para o infante como o único mundo existente e não um possível entre outros (impossibilidade de escolha). Na socialização secundária se dá a internalização de submundos institucionais, o que envolve identificação subjetiva com papéis e suas normas apropriadas. São precisos fortes impactos biográficos para desintegrar a realidade massiva internalizada na primeira infância, mas tais impactos podem ser bem menores para destruir as realidades internalizadas mais tarde. Isto possibilita separar uma parte do eu e sua realidade concomitante como algo que seja pertinente somente à situação específica do papel em questão (a denominada "distância de papel" de E. Goffman, correspondente a internalizações secundárias).

3 Schutz entende o mundo da vida cotidiana como o âmbito da realidade onde se pressupõem as atitudes de sentido comum de forma inquestionável, válida e a-problemática até novo aviso. Este pressuposto pertence ao campo do familiar, e é isto que permite aos indivíduos lidar com os conflitos da vida cotidiana que questionam a rotina, mediante a ativação do acervo de conhecimentos anteriores dos sujeitos (o processo de generalizações, classificações e tipificações das condutas pelo senso comum). Neste sentido, nem tudo que é questionável da rotina é intrinsecamente problemático para Schutz. O problema propriamente dito, algo mais que um mero questionamento, surge como uma interrupção da sucessão rotineira de experiências não problemáticas. Isto acontece quando a experiência atual não é simplesmente classificável em um esquema de referência típico, dentro do acervo de conhecimento do sujeito; ou quando uma nova motivação situacional induz o sujeito a questionar o tipo estabelecido, exigindo-lhe explicitações que o contradizem. É assim que a incongruência com a experiência anterior pode levar o sujeito a uma ruptura do caráter pressuposto tipificado que passa a ser questionado. A exigência de uma re-explicitação da experiência interrompe a cadeia de evidências, tornando problemático o núcleo da experiência que tinha sido admitida até então como evidente (Schutz e Luckmann, 1973).

4 Neste sentido, podemos dizer que a identificação dos recursos disponíveis em um determinado grupo ou comunidade para a contenção de tais estados é particularmente importante.

5 Caetano (1982) mostrou que as mulheres urbanas têm uma maior incidência de psicoses afetivas e neuroses que os homens. Vários outros estudos em áreas urbanas de baixa renda têm comprovado maior prevalência de morbidade psiquiátrica entre as mulheres (Coutinho, 1974; Almeida-Filho, 1982, 1987; Scott. 1990; Mari, 1987; Reichenheim and Harpham, 1991). Estes estudos também sugerem associações entre problemas mentais das mulheres e fatores tais como migração, ocupação e status marital. Nesta última direção se aponta que mulheres de classe trabalhadora que desempenham o papel de chefe de família (mães solteiras ou familias monoparentais) com menor acesso a recursos - fenômeno crescente no terceiro mundo - têm conseqüências sérias na saúde mental das mulheres (v. Tinker & Bramsen, 1977; Barroso, 1978; Bolles, 1985; Neupert, 1988; Castro, 1990; Oliveira, 1992; Goldani, 1994; Jelin, 1994).

6 Citados em Burin, 1987.

7 Nesta direção tem-se apontado para certas diferenciações sobre seu caráter endógeno em alguns casos (tendendo a maiores explicações biológicas de causação) ou reativo para outros casos (tendendo a explicá-la por estressantes sociais). Outra distinção importante no campo psiquiátrico refere a casos mais "graves" de depressão, maníaco-depressivas, ou mais "suaves", as chamadas distemias. Equivocado seria tentar fazer uma correlação direta e perfeita entre o primeiro tipo de divisão e a segunda, o fenômeno se complexifica e dificulta uma adequada medição e classificação. Então, seria a depressão uma doença? Ela é provocada por fatores externos ou resultado de um misterioso processo interno? A tentativa de operar distinções com base em sua dual natureza apresenta em si mesma uma contradição. Para alguns autores somente a catalogada como grave deveria ser entendida como depressão ("doença") e não deveria ser confundida com a suave. A questão que surge neste sentido consiste em como distinguir o tipo suave do grave se os sintomas utilizados no DSM-III-R (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 1987) são tão próximos. Para outros especialistas a depressão seria um distúrbio de ordem afetivo e seu principal sintoma a alteração do humor (incluindo as duas variações). De uma forma ou outra há uma certa relutância em deixar de considerar a depressão uma doença por parte da medicina que vê este campo, tradicionalmente do seu dominio, ameaçado pela "invasão" do olhar antropológico e sociológico, que tendem a tomá-la como um problema de ordem social mais do que médico (Russel, 1995).

8 Trabalhos citados em Russel, 1995.

9 Estes dois últimos trabalhos citados em Miles (1988).

10 Os dados foram produzidos a partir da pesquisa "Processos de Fragilização e Proteção à Saúde Mental de Mulheres de Classe Trabalhadora ", que se propôs investigar o significado de algumas experiências fragilizadoras e /ou protetoras à saúde mental de mulheres de camadas populares urbanas na cidade de Salvador, ao longo do curso de suas vidas. A pesquisa foi realizada sob a coordenação do Dr. Paulo César Alves (principal investigador) e Maria Gabriela Hita, com financiamento de CNPq e Fundação Carlos Chagas. A análise que se segue, entretanto, é fruto de uma reflexão própria que venho desenvolvendo sobre os dados produzidos pela equipe integrante da pesquisa.

11 Para descrição do "nervoso" ver também Rabelo et al. (1995).

12 Foi realizada análise comparativa destes contingentes a partir de informações sobre a história de vida sintetizada de 120 mulheres de um bairro popular em Salvador, das quais 19 foram identificadas pela pesquisa como sofrendo nervoso. Uma primeira versão desta análise encontra-se em Hita (1996) e uma final e corrigida em Hita (1997).

13 Cinco mulheres não localizaram a causa dos seus problemas na infância, descrevendo suas principais crises de nervoso após o casamento. Entretanto, ao se fazer uma análise estrutural deste período de suas vidas observa-se que passaram por eventos adversos muito similares àqueles vividos pelas demais como adoção, separação dos pais e maltrato infantil.

14 Seis das que voltam a se unir (e não 7) explicitaram queixas de desgaste conjugal. A sétima passou por mais de 4 uniões mas não explicitou na sua narrativa o desgaste conjugal como elemento fragilizador ou marcante do seu nervoso. É importante lembrar que não falar do problema não significa necessariamente que ele não tenha existido, mas para fins analíticos foram excluídos os relatos onde certas situações não foram selecionadas pela entrevistada.

15 Provavelmente motivados ou aumentados pelos desencontros de expectativas e dificuldades de comunicação entre homem e mulher e pela sobrecarga de trabalho e falta de recursos característicos de casais em formação, onde o cuidado de crianças pequenas, como aponta a literatura, pode propiciar sentimentos de depressão e baixa autoestima.