Antropologia da saúde
Identidade feminina e nervoso: crises e trajetórias
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
embora... Eu não sei onde eu estava que eu não bati nela.
(Tiane)
"Aí, foi prá onde Neguinho?" (perguntava ao marido). "Ah, fui
dar uma saidinha e tal e tal". Aí, foi daí que foi começando,
começando, aí relaxou que ele fazia tudo que ele queria, e
ainda dizia: "Ah, eu faço tudo que eu quero, eu, eu acho que
eu, que eu tenho direito de fazer da minha vida o que eu quero,
curtir o que eu não curti". Ai eu dizia: "Mas, se você quer curtir o
que você não curtiu, você tinha que procurar ver primeiro se
você queria família ou se não, procurar família para depois você
querer curtir o que você não curtiu, fica chato ". Aí ficou, ficou,
ficou. Do meio pro fim num deu mais certo, a gente se separou,
ele foi pro lado dele e eu fiquei no meu. Agora no último sábado
ele foi lá em casa, tava perguntando: "Você ainda aceita, Zinha,
voltar? Heim? ". Eu disse: "Eu? Num sei não, Neguinho. Isso aí
é história prá se pensar muito bem ". (...) Eu sentia muita raiva.
No inicio eu até achava que num fosse, porque eu confiava
muito nele, né? Eu achava que ele não era capaz de fazer isso.
(...) Mas, logo depois, eu fui, as sumidas, as dormidas, as
mentiras, dizia que ia trabalhar, aí quando eu ligava pro trabalho
dele, ele num estava, as viagens. Aí foi que foi revelano as
coisas, né? Eu fui ajuntando os pedacinhos, digo, é se ele num
tivesse com essa mulher, ele num tova com essa agonia toda
com ela, fazeno casa, dizeno ele que ele num tava ajudano, aí
faltava as coisas dentro de casa, dizia ele com num tinha
dinheiro. Pedia a ele prá dar cheque, aí ele dizia que num podia
dar cheque: "Não, não posso dar cheque não, que o meu
cheque eu já gastei todo, que eu precisei prá pagar isso,
precisei prá pagar aquilo ". Isso tudo mentira, se ele num tava
comprano nada pra dentro de casa? Como é que ele ia gastar
talão de cheque assim, rapidinho? "Ai, eu num tenho". Ai eu fui
me aborreceno com aquilo, chatiano, me contrariano, ficava
doente, ficava nervosa, tinha muita dor de cabeça mermo. E ai
eu digo: "Oi, Deus tem que dar, Deus tem que ver um plano na
minha vida, ou de um jeito ou de outro ". Eu achava que eu tava
ficano nervosa e às vezes, como Doutora Aida falou que
nervoso demais, às vezes as pessoa perde até o controle e fica
até meio variado, né? Disse que num fica doido de tudo, mas
fica meio descontrolado, como ela disse. Eu num conseguia
nem olhar pra cara dele, ficava com uma raiva tão grande, que
eu só tinha vontade de, de fazer qualquer arneira mermo, Deus
me perdoe, mas com ele, eu tinha muita raiva dele. (...) Num
conseguia nem ensinar o dever deles direito (dos filhos), era
uma agonia danada. Ai, ele falava, ficava dizeno que eu era
uma grossa com os meninos. Mas num era grossa, é porque eu
mermo ficava nervosa, agoniada, quando ficava sabeno das
coisas. Então, tinha dia que quando eu ia chegano na ponta da
rua, o pessoal fazia: "Eu vi Neguinho lá no Shopping com a
mulé " Ah! eu ia bem, bem, bem, só você veno, mas me subia
aquele fogo assim, aquele ódio, pronto, aí eu já chegava em
casa toda transformada, eu digo, hoje num dá nem prá eu ficar
na casa de mainha, porque, às vez a gente sem querer, às vez
faz até uma estupidez, né, uma coisa, aí eu passava na casa de
mainha, tomava banho e ia me embora prá lá, ficava lá sozinha
dentro de minha casa, ligava a televisão, a televisão ficava lá
falano sozinha e eu cá. Passava, passava, daqui a pouco ele
chegava. "Tava aonde?" "Eu tava no trabalho". Eu digo: "O, eu
liguei pro seu trabalho, você num tava lá, você já tinha saído
desde cedo ". "Ah! eu dei uma saidinha, fui na rua resolver
umas coisas minha ". Tinha dia que eu tava com vontade de
falar, eu falava, descarregava também, mas tinha dia que eu
num tava, aí eu ficava ali calada, me cumeno por dentro. Mas
num é,...graças a Deus que eu já consegui até perdoar ele, mas
eu num sei nem se eu quero volta, eu sei lá. (Zinha)
A separação em si mesma não parece ser tão fragilizadora como o processo imediatamente anterior à sua definição, a infidelidade, violência ou desgaste da relação que podem ter conduzido a ela. Apenas três das mulheres identificaram a separação como momento crítico em relação a outros tipos de eventos vividos; entretanto, mesmo nestes casos, ênfase foi dada mais ao processo anterior do que a sua definição ou desfeixe. Dessas três mulheres, duas haviam se separado recentemente e a outra nunca mais voltou a se unir, após o que ela designou como uma "gravidez ilegítima", fruto de um caso amoroso que teve lugar após sua separação e pelo qual nunca se perdoou. É entre as mulheres que voltaram a se unir após a primeira separação que o peso deste evento enquanto momento fragilizador é menos pronunciado. Ainda que vivenciada com dor e dificuldades, a separação não aparece nos relatos dessas como evento particularmente fragilizador ou associado a momentos de maior nervoso. Como mencionado, estas mulheres apontaram para outros tipos de eventos na descrição dos momentos mais críticos e estressantes em suas vidas. Duas hipóteses complementares podem ser levantadas para elucidar estes dados.
O evento da separação pode ter sido grave e fragilizador em seu momento e na atualidade, à distância, a entrevistada passa a descrevê-lo e interpretá-lo à luz de outros acontecimentos, diminuindo seu peso e gravidade. Por outro lado, é igualmente possível, conforme também apontam alguns dos achados do estudo de Miles (1988), que a separação tenha sido em alguns casos o desfeixe final, a solução e reencontro da paz perdida pelos conflitos, desconfianças e sofrimentos resultantes de uma convivência conjugai deteriorada. Neste sentido, a angústia e crise, desde uma perspectiva subjetiva, estariam situadas mais claramente no processo anterior de agravação dos problemas e tomada de decisão de separar do que no evento da separação em si mesmo. Estas são conjecturas difíceis de se comprovar a partir dos dados aqui apresentados. É provável que as duas hipóteses não sejam totalmente excludentes e que tenham pesos diferentes a depender da história de vida em questão. Mas há aspectos de outra ordem no que concerne à vivência da separação. Ao descrever sua experiência deste evento, as mulheres relatam uma série de dificuldades de tipo econômico e relativas ao cuidado com os filhos, assim como sentimentos de falta de proteção e abandono, que em alguns casos vão diminuindo à medida que a autoestima é recuperada e que se retoma o curso de vida.
Eu pensava em me separar, sabe? Mas eu não. Eu queria que
partisse dele por dois motivo. Um, porque eu num, o pessoal
me falou, um adevogado me falou que se eu me separasse
dele, ele podia me acusar dizeno que fui eu que larguei ele, e aí
eu podia perder a metade dos meus direito. Quer dizer, o direito
dos menino, por exemplo, né? Ele podia, que ele podia
questionar que fui eu que quis largar ele por causa de outro
homem e como a vida acontece muito disso, que eu num ia ter
como provar, num é? Aí ele disse que só se eu tivesse muita
sorte prá provar diante de um juiz, uma coisa, pra poder ele não
ficar com os meninos. Aí eu num queria, como eu num quero.
(...) Aí eu num, num tenho vontade de entregar a ele nenhum
dos dois (filhos)... Preveno essas coisas, que o pessoal sempre
me falava isso, você pode perder seus direitos diante dos
meninos e o direito que você tem diante das coisas. Ai eu dizia,
pelo os meu direito eu num faço nem questão, porque ele diz
que eu sou muito soberba. Mas num é soberba, se eu trabalho,
eu tenho a minha vida, tenho o meu dinheiro, faço o que eu
quero, então prá que eu vou ficar atrás dele mendigando pra
que ele me dê pensão, me dê isso, me dê aquilo, não, eu não
peço. Unicamente o que ele me dá é cartão particular que eu
graças a Deus eu não adoeço assim, eu nem uso, ele leva e
traz, leva e traz e o cartão eu nem uso... É, eu queria que
partisse dele, então eu nunca botei pra fora, nunca disse que
num podia mais ficar, agora do meio pro fim, relação a gente
num tinha, já tinha muitos meses que ele me procurava e eu
num queria, por medo de muitas coisa, das doenças, que
ninguém se previne, e do jeito que ele, que ele fez comigo que
eu num merecia, né? Quer dizer, eu acho que se a gente num
merece a pessoa num tem fazer certo tipo de coisa, como ele
fazia de ficar passeano (com a amante) pelo Shopping pra todo
mundo ver. Se ele queria ter uma amante, ele se recusasse
mais, né? Arranjasse casa, botasse ela, fosse pra casa dela,
que fosse um negócio mais oculto e não um negócio pra que
Deus e o mundo visse, né?... Cada um diz uma piadinha, essas
coisas me revoltava. (...) Comecei a trabalha, num disse a ele
que tava trabalhano, ele só veio descobrir quase uma semana
que eu tava trabalhano... (Ele): "E nem me falou? " "Não que eu
não tive tempo, e às vez você chega e eu num me lembro". Aí
ele chegou e disse assim: "E, tá bom...você tá se desligano de
mim mesmo, hein?... E, então tá certo". Aí passano uns dois
dias, eu acho que ele conversou lá com a outra o que tava
aconteceno, aí ele fez, começou a fazer as mala. Aí um dia saiu
com a sacola cheia de roupa. Aí quando eu acordei, no lugar
que ficava a roupa dele, já num tinha quase roupa nenhuma. Aí
eu disse: "Oi eu acho que ele já ta ino embora". Aí passei,
também num perguntei. (...) Aí quando foi no outro dia, ele veio
carregou o resto tudo e foi embora. Saiu no outro dia, na hora
de sair de manhã, ele disse assim: "Zinha? " Eu disse: "Oi!" Eu
tava na cozinha fazeno café dos menino. Eu disse: "Oi!". Ai eu
disse: "O que é? Diga aí? " Aí ele chegou e disse: "Tô ino
embora". Eu digo: "Boa sorte, faça da sua vida o que você
achar melhor. Já que você quer ir, você vai, se você num
pretende mudar ". Antes disso a gente teve uma conversa, uma
semana antes de eu começar a trabalhar, a gente teve uma
conversa e aí, que eu pedi a ele que ele mudasse, ou ele
mudasse ou ele resolvesse a vida dele. Aí, quando foi no dia
que ele foi embora, aí ele disse: "Eu já vô". Eu digo: "Você
conversou com os menino, que você num voltava mais pra
dentro de casa? " "Não, que eu num tive corage, deixei a seu
critério ". Eu disse: "Tá, deixe aí que eu converso com eles ". Ai
vim trabalhar, quando eu cheguei em casa, ai eu falei com os
menino: "A partir de hoje seu pai num vem mais pra casa, a
gente se separou ". Ai, eles começaro a chorar, naquela agonia,
eu: "Não, tenha calma, tudo se resolve". Ai foi ino, foi ino, ele
passou a aparece lá de vez em quando, de vez em quando, que
agora aparece lá sempre. Tem dia que vai passar o dia lá... Na
hora que eu vi ele ino embora, eu senti muita raiva, mas, depois
eu disse: "Oi, se eu mesmo queria isso, se eu achava que num
tava dano certo, que era melhor ele ir, eu tenho mais que
aceitar... " Nos primeiros dias, eu fiquei ruim, porque eu num
tava acostumada a dormir só, né? A semana toda, como eu ia
ficar com os menino? E também eu sentia medo porque a casa
tava aberta, tava sem laje, eu tinha medo que alguém entrasse
e encontrasse só eu e os menino dentro de casa. Mas depois
eu fui me acostumano e hoje em dia, eu já fechei a laje, graças
a Deus. Aí, eu num tenho mais medo... Fiquei bem melhor. Meu
visual mermo mudou. Eu tava ficano muito velha. Vige menina,
eu tava ficano muito cansada, e ficava traumatizada com as
coisas que acontecia, sentia ódio. Hoje em dia, eu num sinto
ódio de nada, Vige Jesus! Vivo bem...Hoje mermo no ponto, a
menina disse que achava que eu tinha vinte e cinco ano, eu
digo: "Ai meu Deus!!!" (Zinha)
Eu sofri muito, mas passou!... (Logo após a separação)
passava fome. Eu botava a água de gás, porque quando eu
casei ele me tirou de trabalhar, ainda estraçalhou meu
documento todo, eu fiquei sem nada. Lá no interior, e eu assim Como visto até aqui, os momentos críticos relatados pelas mulheres estão fortemente associados a conflitos conjugais em algum momento das suas vidas. É interessante observar, entretanto, que entre as mais jovens, em fase inicial do ciclo vital, a quase totalidade dos problemas são concentrados neste tipo de conflitos de
tapada, lá tem essa mania de que mulher casada tem que fazer
o que o marido quer, lá minha família cheia de tradição, cheia
de protocolo. Ele trabalhava lá no Coqueiro com a amante,
sabia que eu não trabalhava, não tinha nada, sem nada, não
me procurava assim pra me ajudar em alguma coisa, pra dá
nada. Só Clodoaldo o marido da minha tia, que eu chamava de
Clô, me dava leite. Marcos não gostava de leite só queria
mamar. (...) Comecei sozinha lá no Coqueiro, município de
Maragujipe, Paraguaçu. (...) Eu não queria que filha minha....
podia tá sem nada no estômago, se alguém perguntasse na
rua, e dissesse, caísse na infelicidade de dizer, apanhava,
pequenininha, não dizia não (que tinha fome). Tinha dias que
olhava pros quatro canto, assim, com parente, com condições,
você acha, é orgulho? Não é. Uma terra que não é grande,
parente tudo morando ali, muito barulho, minha família é
grande, muitos de condição, sabendo que eu tava nessa
situação, sem marido, sem ter trabalho, precisava eu chegar na
porta e pedir? Não precisava, não. Quisesse ajudar, de feito
nenhum, então, eu não pedia. (...) Foi aí que perdi corpo, mas
assim mesmo eu pesava 60 e pouco, 64 ou 66... Não, primeiro
me internei, aí me internei quando eu vim pra aqui (Salvador),
levei 3 meses...(estava) fraca, múmia, tudo. Vim prá cuidar de
Márcia (filhinha com problema de foco), aí comecei a passar
mal, não podia andar. Márcia tava pequena, tava todos
pequenos... Aí vim prá me internar, internei, aí quando saí do
hospital não voltei mais, porque no hospital mesmo eu arranjei
esse trabalho, ia substituir uma que tinha se internado. (...) Aí
eu pegava 9 horas e largava as 5 horas... (...) Claro que (a
separação) foi ruim, mas nem tanto que eu já tava a fim de
separar! (...) Não via mais, vim ver no Forúm, ainda foi com 2
advogados, eu recebi um convite, pra eu ir no Fórum, eu fui e
levei Marcos e Iracema, cheguei lá e vi ele entrar com o
advogado. Eu disse: "Marcos e Iracema, ói o seu pai". Marcos:
"Ele não é meu pai, não, porque ele não me dá comida, ele
deixou a gente morrendo de fome ". Ah, minha filha! Então ele
ficou com a cara... (Dalva)
conjugalidade15, enquanto que entre as mais maduras, geralmente integrantes de grandes famílias extensas (com filhos casados e/ou outros parentes), as preocupações atuais se deslocam para problemas com os filhos e netos. Neste sentido, referem-se a problemas de relacionamento conjugai de seus filhos ou ao envolvimento destes ou netos em atividades ilícitas. Nesta fase da vida as mais velhas parecem ter logrado um convívio mais pacífico com seus parceiros (resultante de um acomodamento mútuo) ou com sua atual solidão.
Ele (o genro) num tem jeito. Já deixei de mão. Dexa prá lá, num
vô na casa deles. Dexei, abandonei, que ele dizia que num vivia
cum ela pur causa de mim...que s 'eu num dexasse de ir na
casa deles... Continua da merma forma... Eu dexeil Num vô
mair, não!...Por mim, elas (as filhas) num casariam com ninhum
desses home (do Nordeste). Por mim, num casava cum
ninhum. Eu nun, eu nunca quis, não... Só Deus, só Deus do céu
é quem sabe o sofrimento qu 'eu tenho sufrido. Só ele sabe
porque ninguém num sabe. Só Deus sabe. O que me
chateia...é que eles judeia mutcho delas..., num faz por elas o
que tem obrigação de fazê..., num dão nada pra elas... O de Jô,
não! O de Jô é ruim, mas ele dá tudo. Ela num passa farta de
nada, nem as fia, mas as otra! Jane... Janete...Deus é quem
sabe! (...) No qu 'eu posso eu ajudo. Agora mesmo Jane já tá
aqui dentro de casa cum três fio. Ele boto pra fora. ..Já
veio...acho que já veio quatro vez e volto, e agora ninguém
sabe...agora...se ela vai vortá de novo. Eu acredito que não,
né? que num é possíver, né? Jane...tá disimpregada, doida
atrás de um imprego... e num acha imprego. Hoje mermo ela
vai lá pro Itaigara, pra vê se dá certo... Amanhã vai ver se dá
certo otro... Quem tem num pode perde, purque pra achá... num
acha, não. Mas jamais eu num vô fecha minhas porta pra elas,
não. Eu adoro! Eu num gosto não..., eu adoro, minhas fia e
meus fio, eu mato e morro por quarqué um. Eu mato e morro
por quarqué um deles. Eles, eles pode até num gosta de mim,
agora eu mato e morro..., por meus fio, eu mato e morro. (D.
Neném)
Mas eu vim mesmo peder corpo (de 64 a 40 quilos,), foi quando
Márcia se perdeu (a filha que engravidou adolescente), pra mim
foi o fim de tudo. foi o desgosto maior que eu tive em minha
vida.(...) Depois ela se meteu, sabe como? Com bandido. Ela
(agora) mora em Dias D'Avila. Ela tá acomodada. Já teve uns
dois filhos (recentes)... Já tá uma de 15 anos aí... [E sobre os
netos adolescentes que ela cria, um marginal e o outro
homossexual e rejeitado por toda a familia que o espanca] ...a
perseguição dos filhos, dos outros netos como aquele entendeu
(o homossexual)? Ó, fico com dor fogo, sinto dor fogo, rapaz,
coisa de doido... (Perseguem ele) porque ele era assim,
diferente, todo mundo diz... querem me matar, querem me...ó
pra aqui ó, sabe o que foi isso? [mostra uma cicatriz] O gato
que o irmão rumou prá ele, ele rumou aqui ó, eu me levantei
daqui... foi sangue, nunca tinha visto tanto sangrar... E uma
coisa de louco, tem dia que eu tô louca, e dominando... a gente
quer acalmar um, acalmar, tirar o outro, e ninguém obedece,
não aprendeu, outros voam em cima da gente... tem dias que
eles tão mais atentados... e eu tenho que tá atras, ali, claro.
Atrás, atrás, cercando... Ah! Isso é depressão. Não sei. Porque
começo a pensar, sabe? Pensar... que penso muito em morrer e
Ricardo e Carlos Fernando ficar. Eles não tem ninguém a não
ser eu; a mãe deles é uma louca, o marido dela não é gente
que preste, não querem meus netos nem eles vão, então, vão
ficar aí, só, e eles são meus netos e são meus filhos, porque eu
registrei, né? E eu tenho um medo de um momento prá outro eu
morrer... (Dalva)
São igualmente frequentes os relatos de nervoso associados a conflitos diversos com a vizinhança - disputa de terrenos compartilhados, fofoca e intromissão em assuntos privados, problemas com crianças, barulho, etc. - resultando em brigas, ameaças de vida e até agressões físicas que culminam com a intervenção policial.
Só que a gente não... as possibilidade de... não deu pra cercar
tudo (...) Aí chamou ele, falou que ele não, não invadisse, que
era nosso e ele queria porque queria que nós mostrasse os
papéis do terreno... Aí ele: "Se não vai mostrar, a gente vai
invadir". Minha filha, eu sei que de noite esses home fizeram
desordem aí do lado e derrubaram a cerca toda e não deixaram
um pau só aí... Vieram mais de 20, tudo maconheiro e ladrão...
começaram a trazer facão, enxada, essa picareta, começaram
a cavar, tirar tudo minhas plantação toda que tinha aí, eles
quebraram tudo, era pé de mamão, era pé de aimpim,
derrubaram tudo... Fui lá na justiça, dei queixa e os policial
vieram tudo...ele já tá, minha filha, com bloco, com areia,
cimento tudo aí já...já tavam construindo aí o quartinho já... A
policia veio e acabou com tudo, levaram os dois presos...
Depois....ficaram aí fazendo ameaça... (Lena)
A sexualidadade é outro tema relacionado as suas angústias e dificuldades. Em 8 das narrativas detectou-se problemas desta ordem, ainda que de formas diversas. Segundo algumas a ausência de homem e do contato sexual prolongado é o que provocaria ou acirraria nelas estados de nervoso. É comum médicos, parentes e amigos aconselharem estas mulheres sobre a necessidade de buscarem e incentivarem novas relações afetivas, conselhos que revelam uma relação de causalidade entre nervoso e solidão e, mais especificamente, ausência de sexo.
Também existem as que se queixam de dificuldades no desempenho e gozo de uma sexualidade prazerosa. Uma das entrevistadas consente nunca ter sentido orgasmo e que nenhum médico pode ajudá-la a resolver este problema. Outras contam que tiveram dificuldades com certos tipos de posturas sexuais solicitados pelos seus companheiros. Uma delas, por exemplo, se nega a realizar sexo anal mas pensa obsessivamente em realizar uma cirurgia plástica vaginal para reconquistar o desejo do parceiro que parece perder o interesse por ela. Outra foi desvirginada uma semana após o casamento, aos 19 anos, com a ameaça marital de devolução se continuasse a negar seus serviços sexuais.
Conheci desde menina, nunca fiz amizade com ele, a gente não
se unia, mas ele me perseguia muito e mamãe, Ave Maria, se
eu não namorasse com Carlos, vou fazer vontade de mamãe
depois eu termino, mas foi que aconteceu uma coisa sabe. Foi
uma coisa assim, preste atenção, nunca contei prá ninguém, foi
uma coisa ruim. De tarde eu disse a ela que ia acabar com
Carlos. Aí ela disse a ele...Estava só em casa, aí bateram na
porta, aí eu: "Quem é? " Aí saí assim desprevinida, quando abri
a porta aí ele se apresentou assim: "Eu vim trazer uma
merenda". Aí quando ele disse assim "vim trazer uma
merenda", ele me deu um tombo, aí eu caí. Assim houve um
estupro. Eu dei um grito. Tava com 19 anos, aí perdi minha
honra. Ah meu Deus, perder a minha honra. Nunca contei isso
a ninguém... aí tive uma hemorragia, eu não contei nada, aí me
deram uma injeção. De manhã todo mundo sabia que eu tinha
me perdido, mas não sabia como, aí eu fiquei mucado de tempo
sem sair na rua, morta de vergonha! Aí eu fiquei mal com ele,
fiquei mal não queria de jeito nenhum, ele só queria casar,
casar, marcar data de casamento. Aí eu casei até tava de mal
com ele. (...) E aí eu fui sofrendo, sofrendo, chegou a um
extremo de eu não aguentar, ele sumiu, arranjou uma mulher
aqui... que tem 25 anos, já vai fazer 26 anos que eu encontrei
com ele, que ele me botou no Fórum, prá tomar meus filho,
porque soube que eu dei um passo em falso, dei. Foi dar o
passo em falso, e aí na mesma hora a vergonha bateu, não
quis mais, fiquei grávida, e agora pra essa barriga aparecer? Aí
é que é a coisa. (...) Marcou muito (o estupro), por isso mesmo
que eu não quis mais ninguém até aos 26 anos. O pai de
Marluce, porque Marluce não é filha do casal, o pai de Marluce
eu só tive uma relação com ele. Eu não quis, tomei pavor e
gostei até dele assim... É eu desisti, mas eu não pensei em ficar
grávida, mas fiquei, tomava veneno pra perder Marluce de
vergonha, só um irmão que me deu o maior apoio José. (...) Aí
eu desisti, não quis mais saber, Ave Maria... foi quando doutor
Gilberto tava novo ainda... E ele me dizia sempre assim, um dia
mesmo ele disse na vista da mulher dele, a mulher dele é uma
bela pessoa, disse: -"Ói criatura, sabe qual é seu problema?
Arranje um homem. Arranje um homem". Eu digo: "Deus me
livre, doutor Gilberto, eu fico morta de vergonha, só em pensar
nisso, nos meu filho, que eu já tenho ". (...) Meu filho, que tem
trinta anos que mora aí, ele pequeno fazia assim: "Mainha tudo
quanto é mulher tem um namorado, só mainha que não arranja
um namorado ", ele achava que divia arranja um namorado, eu
dizia: "O meu filho, mainha não quer namorado, não. Meu
namorado são vocês, viu? " Ele achava, que ele via tudo quanto
era vizinha tudo tinha marido e eu não tinha um namorado. (E
recentemente, quando Marluce conheceu seu pai, já adulta), aí
ela disse: "Não é nada demais tentar se reconciliar". Nem
morta, meu filho. Pra mim a vida tá boa. Não vou procurar esse
negócio e vida de homem, pra mim acabou há muitos anos".
(Dalva)
Eu levei uns... seis anos ou mais sozinha. Eu e meu filho, só,
entendeu? ...ia pro médico, o médico perguntava se eu tinha
marido, eu dizia que tinha. Porque eu tinha vergonha de dizer
que eu não tinha marido, eu dizia que tinha... Aí o médico
perguntava se eu tinha marido, eu dizia que não, aí ele dizia
assim: "Dona Joselita, a senhora tá tão jovem pra senhora, tá
sozinha!" Eu dizia: "Não, eu não quero mais não, eu já fui muito
sofrida de homem, não quero " "Mas todos não são igual", todo
mundo me dizia isso, eu fiquei com trauma, né?. Eu acharia que
se eu acertasse alguém, eu ia passar pelo mesmo sofrimento
de novo. (...) Aí quando chegou um dia, aí as menina aqui...
essa vizinha aqui me dava a maior força, ói, essa vizinha aí...
Quando ela via a casa fechada, ela ficava doidinha, ela vinha,
batia aqui pra ver se eu tava morta aqui dentro de casa. Eu só
vivia trancada. Só vivia trancada... por vida. Eu não saía pra
conversar com ninguém, me chamavam pra sair, passear, eu
não saía. Aí, quando chegou um dia, aí Lucia só: "Ô Jose, você
tá tão jovem Jose, vamos sair, vambora sair num barzinho.
Amanhã eu vou sair -que era dia de sábado -tem um barzinho
jóia pra gente curtir". Eu dizia: "Tá, a gente vai". Quando
chegava na hora... tinha hora que me dava um nervoso brabo
mesmo, que eu, eu digo: "Não, Lúcia, não quero ninguém ". (...)
Aí eu fui pra médica. Aí Dra. Carla, disse: "Pode arranjar um
namorado... tem que arranjar um namorado, não pode ficar
assim não ". (...) [Sobre o companheiro que acaba arranjando]
Aí, quando chegou um dia que a gente marcou um encontro...
Aí, ele veio pr 'aqui, o primeiro dia que ele chegou aqui e tal, eu
fui... encontrei ele lá no ponto... aí trouxe pr 'aqui e tal... a gente
conversando... ele só contava problema de/de hotel, de
restaurante. Não saiu um beijo, não saía um abraço, não saía
nada. Eu dizia assim: "Pronto, já que dizem que o meu nervoso
é esse, agora eu vou [risos], meu nervoso vai acabar tudo de
vez" [risos] e nada, nada dele querer... nada [risos]. Levou cinco
dia, a gente dormindo junto e nada. Nada [risos]. Ai que o
nervoso começou... aí foi que piorou o meu nervoso [risos].
Porque sozinha, eu sei que eu tava... você sabe que cê tá
sozinha, né. (...) ...também não me faltava nada aqui dentro
dessa casa, mas o melhor eu não tinha [risos]. Oito ano ele
levou aqui em casa... e foi aí que o meu nervoso piorou. Oxe,
porque se você tá sozinha, você não liga, mas cê já pensou,
você tá dormindo... recebe uma quentura de, de outro assim
[risos]. Meu problema agravou aí [risos]. Foi aí que meu
problema veio a agravar. Eu sentia mais nervoso.... um beijo,
você não tinha, ele não gostava... se você... Teve um dia que -
eu disse: "mas não é possível!"-eu tomei banho, me perfumei
toda, né? Aí vim pra dá um beijo nele, ele meteu a cabeça entre
a perna... ele metia a cabeça assim... ele não dava um beijo. Eu
digo: mas não é possível, escuta, o senhor não gosta de...
[risos] rapaz, ele levou aqui 8 ano, aqui ó... desse jeito que tá
eu e você aqui... Aí, ele foi embora... (D. Joselita)
Eu conheci ele... ele é meu primo! (...) É, namoro oito mês,
depois ele falô cum minha mãe, minha mãe cunsintiu, e quando
foi cum dois ano nós casemo. (...) Cum um ano..., cum um ano
não, cum nove mese eu tive o premero fio, que foi Zé, o mais
véio. E aí, de dois em dois, era um, de dois em dois, era um...
até que interô dez.. Ele foi o premero. O premero e o único.
Não, não. Eu nun... nunca tive namorado não. Nunca fui pra
festa, pra festa ninhuma, nenhuma. Eu num dexava minha mãe
pra nada desta vida. Porque num dexava. Eu num dexava. Não,
ela era sã, mas eu num dexava. Era da minha natureza mermo
que num dava pra mim sair. Minhas irmã saia... mas eu nunca
minti, nunca fui pra festa ninhuma..., nunca fui pra festa... Eu tô
cum cinqüenta e seis ano num conheço um cinema! Nunca fui,
num sei o que é... um cinema. Nunca fui. Era. Namorava na
porta, mas era um de lá e otro de cá, qu 'ela num dexava não,
minha mãe num dexava não. Não, num dexava nada. Era ela
sentada junto. Eu como aqui, ele como aí, ela aí sentada... Aí,
quando era dez hora, ela mandava ele imbora, mandava ele
imbora! Ele ia imbora, era orde dela, num passava da orde.
[Sobre sua primeira relação sexual] Foi o mermo que tê me
matado! Porque eu num sabia que existia isso, não... Eu pensei
que casava só por casa, mas num tinha nada disso, não... Ele
disse que quiria m'intregá prá minha mãe, porque eu num quiria
me sujeita a ele..., cum três dia...de casada! Ele ia m 'íntregá
pra minha mãe... Aí eu cumbinei pra mode a fim de ele num m
'íntregá pra minha mãe de novo. Oxe, mas foi o mermo qu 'eu
tê ido no..., no... no inferno. Deus me perdoe! Depois meorô.
Mas eu também num sei, eu num devia tê casado. Casa
inocente! Sem sabe de nada! (D. Nenem)
Conclusão
O presente artigo descreveu eventos, encontros e relações na trajetória de vida de mulheres autoreferidas como nervosas, que são avaliados por elas enquanto períodos marcantes em suas vidas, associados quer a origem do nervoso, quer a eclosão de uma nova crise, ou simplesmente característicos do contexto mais amplo sobre o qual se desenrolam suas experiências de aflição. Além de apontar para elementos estruturais das trajetórias, procuramos explorar os significados de que estes se revestiam para as mulheres.
Durante a discussão ficou claro que conflitos relacionais com os parceiros e familiares que as rodeiam são característicos estressores na suas vidas. Isso não significa que alternativas e soluções para tais situações difíceis não sejam encontradas e exploradas criativamente ao longo da vida. Em estudo realizado junto a mulheres na Inglaterra, por exemplo, Miles (1988) apontou para algumas das formas encontradas por suas informantes para enfrentar problemas semelhantes aqueles tratados aqui: mudanças como o divórcio, separação, mudança de casa, alívio dos papéis difíceis de cuidado, obtenção de um trabalho satisfatório, novas relações etc. Assim, existia para as mulheres a possibilidade de atuar afirmativamente pela construção de uma identidade baseada em sentimentos de autonomia, autodeterminação e aumento da autoestima. Sentimentos como estes estão presentes também em estratégias de separação e estabelecimento de novas uniões adotadas pelas mulheres estudadas aqui. Vejam-se, por exemplo, algumas narrativas que apontam nesta direção:
Meu nome todo é Dalva Silva. Porque eu tinha Matos do
marido, mas eu tirei esse Matos, porque olha, eu era casada,
logo que a gente se separa...pra quê esse Matos? Eu não gosto
de Matos, meu nome é Dalva Silva, é o nome de solteiro, e
acabou (...) [Quando separou se mudou para Salvador] Aí foi
que eu nem voltei mais. O que é que eu ia fazer lá fno interior)?
Lá não tinha trabalho não, não tinha dinheiro pra se viver, não
dava. Eu gostava, mas não dava mais pra eu viver... Eu sempre
gostei muito daqui, desde quando eu vinha, às vezes, com
minha prima pra dar um passeio, Gostava, sabe?... Eu nunca
me senti sozinha. Hoje em dia, eu me sinto só, mas antes eu
nunca me senti sozinha, eu era cheia de amigas, todo mundo
me procurava, sei lá, não faziam nada sem minha presença.
(...) Foi melhor (a mudança), porque eu aprendi mais a viver, a
enfrentar. Eu era muito submissa, uns pessoal parado,
esmurecido. Não tinha ânimo pra nada, ficava com os filhos no
couro, sentada, ficava com aqueles filhos tudo perto de mim:
chorava, cantava, tudo que me pediam pra cantar eu ficava
cantando, a situação tava naquela... Aqui eu aprendi mais a
viver. Se naquele tempo que marido, que eu me casei (...) eu
não saía, não tinha nada de ninguém dizer. 'Ah, porque que
você tem que seguir seu marido, porque que seu marido... " Ah,
não é por aí, agora não, há muitos anos atrás que eu venho
dizendo isso: como eu aprendi com o homem! Naquele tempo
eu tava abestalhada. (Dalva)
Ele me deu uma casa, eu disse a ele que não queria, nem para
a filha dele, eu nunca quis... A ajuda era minha cabeça, minha
cabeça decidiu era isso mesmo (separar), minhas amigas me
davam muito conselho, que eu não me separasse, que era
gente que tinha recursos. Mas só que eu não gostava, não tinha
conselho... Nunca senti falta, graças a Deus. (O tempo
separada]... foi um período bom, maravilhoso, trabalhava pra
me manter, trabalhava pra minha mãe, que minha mãe tomou
minha filha, que não queria que eu trouxesse minha filha...
(Guiomar)
Duas observações devem ser feitas no que toca a extensão das conclusões de Miles para o presente estudo. Em primeiro lugar é preciso não esquecer o contexto sócio-cultural próprio em que se desenrolam e ganham sentido as trajetórias. Assim a análise deve caminhar rumo a identificação das situações que efetivamente contam como crise e conflito para as mulheres de classe popular aqui estudadas e dos projetos e práticas desenvolvidos para solucionar tais situações. Em segundo lugar é preciso levar em conta que na trajetória das mulheres que participaram deste estudo existe outro tipo de situação fragilizadora (que não foi analisada aqui), frente a qual o sentimento característico é o de impotência acompanhado por atitudes de revolta ou conformação e adaptação mediante um distanciamento paulatino. É o caso das experiências relativas ao cuidado de doentes crônicos e/ou de morte de pessoas próximas. Estes sentimentos são mais dolorosos e acentuados quando associados a fatalidades inesperadas como são os inúmeros relatos das mortes violentas presenciadas nas portas das próprias casas. Estas mortes não são de desconhecidos, geralmente trata-se de um filho, marido, parente ou amigo próximo e parecem acontecer frequentemente, no dia a dia destas mulheres, imersas em um mundo onde a miséria e a violência parecem ter um caráter mais institucionalizado e rotineiro.
A intenção deste trabalho foi dar voz às mulheres de modo a não apenas identificar fatos mas compreender as perspectivas e nuances a partir dos quais estes fatos são vividos. Partir das falas, dos relatos das mulheres acerca de suas vidas, além do mais, nos permite vislumbrar aspectos relativos a construção mesma de sua identidade, de um senso de si mesmo que emerge a partir dos própria história contada. A linguagem, sistema de signos mais importante da sociedade, faz mais real minha subjetividade para mim e para o meu interlocutor. Ela tem a capacidade de cristalizar e estabilizar minha subjetividade e esta capacidade persiste, ainda que de forma modificada quando a linguagem se separa da situação cara a cara (os homens precisam falar de si mesmos até conhecerem-se a si mesmos). Este ponto precisa ser levado mais a sério nos estudos sobre a subjetividade feminina.
Também se intencionou demonstrar com este texto, algumas pistas rumo a construção de caminhos de análise distintos tanto daqueles tradicionalmente trilhados pelas abordagens epidemiológicas de "fatores sociais de risco", que ao preocupar-se com eventos (fatores) perdem de vista a dimensão dos processos de construção de sentido, quanto daqueles empreendidos a partir de um enfoque psicanalítico, usualmente presos a categorias interpretativas próprias a experiência do gênero feminino em classes mais abastadas. Ambas abordagens, embora importantes para a análise do problema mental, tendem, por razões diferentes, a negligenciar a compreensão do contexto sócio-cultural no estudo dos problemas e situações fragilizadoras na experiência de mulheres de classe trabalhadora.
Se bem que neste artigo ainda não se explicitou suficientemente as maneiras específicas como as mulheres nervosas de classe trabalhadora da nossa realidade interpretam e resolvem seus conflitos, as suas narrativas oferecem um sem número de elementos e pistas nessa direção. Um primeiro aspecto a se ressaltar na análise aqui proposta é a importância conferida a dimensão temporal, incorporada no conceitos de experiência e trajetória. Não são eventos ou fatores isolados que afetam a vida desta mulheres, mas processos, conjuntos deles, e o sentidos que emergem da sua vivência. As narrativas das mulheres apresentadas apontam para o surgimento de uma serie de questões e formas de interpretar o curso da doença, que parece ser bastante especifico a sua condição social e de experiência e que não podem ser reduzidos às questões do gênero feminino em geral.
Agradecimentos
Agradeço a Míriam Rabelo a sua sempre criteriosa leitura, seus valiosos comentários e uma pincelada no estilo desse artigo.
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Notas
1 Ver análise do conceito de experiência em Alves (1993) e Alves e Rabelo (1995).
2 Segundo Berger e Luckmann (1983), a sociedade, a identidade e a realidade se cristalizam subjetivamente no mesmo processo de internalização, que corresponde à internalização da linguagem. A socialização primária (na infância) se implanta na consciência com muito mais firmeza do que a secundária, porque aparece para o infante como o único mundo existente e não um possível entre outros (impossibilidade de escolha). Na socialização secundária se dá a internalização de submundos institucionais, o que envolve identificação subjetiva com papéis e suas normas apropriadas. São precisos fortes impactos biográficos para desintegrar a realidade massiva internalizada na primeira infância, mas tais impactos podem ser bem menores para destruir as realidades internalizadas mais tarde. Isto possibilita separar uma parte do eu e sua realidade concomitante como algo que seja pertinente somente à situação específica do papel em questão (a denominada "distância de papel" de E. Goffman, correspondente a internalizações secundárias).
3 Schutz entende o mundo da vida cotidiana como o âmbito da realidade onde se pressupõem as atitudes de sentido comum de forma inquestionável, válida e a-problemática até novo aviso. Este pressuposto pertence ao campo do familiar, e é isto que permite aos indivíduos lidar com os conflitos da vida cotidiana que questionam a rotina, mediante a ativação do acervo de conhecimentos anteriores dos sujeitos (o processo de generalizações, classificações e tipificações das condutas pelo senso comum). Neste sentido, nem tudo que é questionável da rotina é intrinsecamente problemático para Schutz. O problema propriamente dito, algo mais que um mero questionamento, surge como uma interrupção da sucessão rotineira de experiências não problemáticas. Isto acontece quando a experiência atual não é simplesmente classificável em um esquema de referência típico, dentro do acervo de conhecimento do sujeito; ou quando uma nova motivação situacional induz o sujeito a questionar o tipo estabelecido, exigindo-lhe explicitações que o contradizem. É assim que a incongruência com a experiência anterior pode levar o sujeito a uma ruptura do caráter pressuposto tipificado que passa a ser questionado. A exigência de uma re-explicitação da experiência interrompe a cadeia de evidências, tornando problemático o núcleo da experiência que tinha sido admitida até então como evidente (Schutz e Luckmann, 1973).
4 Neste sentido, podemos dizer que a identificação dos recursos disponíveis em um determinado grupo ou comunidade para a contenção de tais estados é particularmente importante.
5 Caetano (1982) mostrou que as mulheres urbanas têm uma maior incidência de psicoses afetivas e neuroses que os homens. Vários outros estudos em áreas urbanas de baixa renda têm comprovado maior prevalência de morbidade psiquiátrica entre as mulheres (Coutinho, 1974; Almeida-Filho, 1982, 1987; Scott. 1990; Mari, 1987; Reichenheim and Harpham, 1991). Estes estudos também sugerem associações entre problemas mentais das mulheres e fatores tais como migração, ocupação e status marital. Nesta última direção se aponta que mulheres de classe trabalhadora que desempenham o papel de chefe de família (mães solteiras ou familias monoparentais) com menor acesso a recursos - fenômeno crescente no terceiro mundo - têm conseqüências sérias na saúde mental das mulheres (v. Tinker & Bramsen, 1977; Barroso, 1978; Bolles, 1985; Neupert, 1988; Castro, 1990; Oliveira, 1992; Goldani, 1994; Jelin, 1994).
6 Citados em Burin, 1987.
7 Nesta direção tem-se apontado para certas diferenciações sobre seu caráter endógeno em alguns casos (tendendo a maiores explicações biológicas de causação) ou reativo para outros casos (tendendo a explicá-la por estressantes sociais). Outra distinção importante no campo psiquiátrico refere a casos mais "graves" de depressão, maníaco-depressivas, ou mais "suaves", as chamadas distemias. Equivocado seria tentar fazer uma correlação direta e perfeita entre o primeiro tipo de divisão e a segunda, o fenômeno se complexifica e dificulta uma adequada medição e classificação. Então, seria a depressão uma doença? Ela é provocada por fatores externos ou resultado de um misterioso processo interno? A tentativa de operar distinções com base em sua dual natureza apresenta em si mesma uma contradição. Para alguns autores somente a catalogada como grave deveria ser entendida como depressão ("doença") e não deveria ser confundida com a suave. A questão que surge neste sentido consiste em como distinguir o tipo suave do grave se os sintomas utilizados no DSM-III-R (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 1987) são tão próximos. Para outros especialistas a depressão seria um distúrbio de ordem afetivo e seu principal sintoma a alteração do humor (incluindo as duas variações). De uma forma ou outra há uma certa relutância em deixar de considerar a depressão uma doença por parte da medicina que vê este campo, tradicionalmente do seu dominio, ameaçado pela "invasão" do olhar antropológico e sociológico, que tendem a tomá-la como um problema de ordem social mais do que médico (Russel, 1995).
8 Trabalhos citados em Russel, 1995.
9 Estes dois últimos trabalhos citados em Miles (1988).
10 Os dados foram produzidos a partir da pesquisa "Processos de Fragilização e Proteção à Saúde Mental de Mulheres de Classe Trabalhadora ", que se propôs investigar o significado de algumas experiências fragilizadoras e /ou protetoras à saúde mental de mulheres de camadas populares urbanas na cidade de Salvador, ao longo do curso de suas vidas. A pesquisa foi realizada sob a coordenação do Dr. Paulo César Alves (principal investigador) e Maria Gabriela Hita, com financiamento de CNPq e Fundação Carlos Chagas. A análise que se segue, entretanto, é fruto de uma reflexão própria que venho desenvolvendo sobre os dados produzidos pela equipe integrante da pesquisa.
11 Para descrição do "nervoso" ver também Rabelo et al. (1995).
12 Foi realizada análise comparativa destes contingentes a partir de informações sobre a história de vida sintetizada de 120 mulheres de um bairro popular em Salvador, das quais 19 foram identificadas pela pesquisa como sofrendo nervoso. Uma primeira versão desta análise encontra-se em Hita (1996) e uma final e corrigida em Hita (1997).
13 Cinco mulheres não localizaram a causa dos seus problemas na infância, descrevendo suas principais crises de nervoso após o casamento. Entretanto, ao se fazer uma análise estrutural deste período de suas vidas observa-se que passaram por eventos adversos muito similares àqueles vividos pelas demais como adoção, separação dos pais e maltrato infantil.
14 Seis das que voltam a se unir (e não 7) explicitaram queixas de desgaste conjugal. A sétima passou por mais de 4 uniões mas não explicitou na sua narrativa o desgaste conjugal como elemento fragilizador ou marcante do seu nervoso. É importante lembrar que não falar do problema não significa necessariamente que ele não tenha existido, mas para fins analíticos foram excluídos os relatos onde certas situações não foram selecionadas pela entrevistada.
15 Provavelmente motivados ou aumentados pelos desencontros de expectativas e dificuldades de comunicação entre homem e mulher e pela sobrecarga de trabalho e falta de recursos característicos de casais em formação, onde o cuidado de crianças pequenas, como aponta a literatura, pode propiciar sentimentos de depressão e baixa autoestima.