As Herdeiras de Duna
Dedicatória
— Para não falar dos Mentats — ele disse. — Havia dois deles naquela nave — ambos gholas. Você queria brincar com eles?
Os Mestres sempre tentam controlá-los — ela disse.
— Aquele Mestre vai procurar encrenca se tentar se intrometer com o grandão — Daniel disse, cortando fora o broto de um rizoma. — Opa, esta é uma beleza.
— Mentats também! — Marty disse. — Eu lhes teria dito:
“Um centavo a dúzia, é o que valem.”
— Centavo? Não acho que eles teriam entendido, Marty. As Reverendas Madres, sim, mas não o Mentat grandão. Ele não se distendeu tão longe no passado.
— Você sabe o que deixou escapar, Daniel? — ela interpelou, aproximando-se dele. — Aquele Mestre tinha um tubo de nulentropia no peito. Cheio de células de ghola, também!
— Eu vi.
— É por isso que os deixou escapar!
— Não os deixei. — Suas tesouras continuaram a cortar. —
Gholas. Eles o acolherão.
Fim.
Aqui está outro livro dedicado a Bev, amiga, esposa, ajudante de confiança e a pessoa que lhe deu o título. A dedicatória é póstuma, e as palavras que se seguem, escritas na manhã após a sua morte, devem lhes dizer algo sobre a sua inspiração.
Uma das melhores coisas que posso dizer sobre Bev é que não há nada em nossa vida comum que eu precise esquecer, nem mesmo o movimento cheio de graça de sua morte. Ela me deu então o supremo presente de seu amor, uma passagem pacífica, a que ela se referia sem medo ou lágrimas, minorando assim meus próprios medos. Que presente maior pode haver do que demonstrar que você não precisa temer a morte?
O obituário formal dizia: Beverly Ann Stuart Forbes Herbert, nascida a 20 de outubro de 1926 em Seattle, Washington; morta às 5:05 da tarde do dia 7 de fevereiro de 1984 em Kawaloa, Maui. Sei que isso é o máximo de formalidade que ela poderia tolerar. Fez-me prometer-lhe que não haveria um funeral convencional “com o sermão de um pregador e meu corpo em exibição”. Como disse: —
Não estarei naquele corpo, então, mas ele merece mais dignidade do que uma exibição assim poderia oferecer.
Insistiu que eu não deveria fazer mais do que mandar cremá-la e dispersar suas cinzas por sua querida Kawaloa “onde eu senti tanta paz e tanto amor”. A única cerimônia — amigos e pessoas queridas assistindo à dispersão de suas cinzas durante um coro de Bridge over troubled water.
Ela sabia que haveria lágrimas nessa ocasião, como há lágrimas enquanto escrevo estas palavras, mas, em seus últimos dias, ela freqüentemente falava em lágrimas como coisa fútil.
Reconhecia-as como parte de nossa origem animal. O cão uiva com a perda de seu dono.
Uma outra parte da consciência humana dominava sua vida: o Espírito. Não numa religiosidade piegas ou em alguma coisa que á maioria dos Espiritualistas associaria com a palavra. Para Bev, era a luz brilhando da consciência refletida em tudo que ela encontrava.
Em função disso, posso dizer que a despeito do meu pesar, e mesmo dentro dele, essa alegria enche meu espírito através do amor que ela me deu e continua a dar-me. Nada, na tristeza de sua morte, representou um preço demasiado alto para o amor que compartilhamos.
Sua escolha da canção para ser cantada na dispersão de suas cinzas refletia o que dizíamos freqüentemente entre nós — que ela era a minha ponte e eu a dela. Isso é a síntese da nossa vida de casados.
Começamos essa vida compartilhada com uma cerimônia diante de um ministro em Seattle, em 20 de junho de 1946. Nossa lua-de-mel foi passada num posto de vigilância de incêndio no topo de Kelley Butte na Snoqualmic National Forest. Nossos alojamentos tinham quatro metros quadrados com uma cúpula acima de apenas dois metros quadrados, na maior parte ocupada pelo detector de incêndio com o qual localizávamos toda fumaça que víamos.
Em acomodações restritas, com uma vitrola de corda e duas máquinas de escrever portáteis ocupando um bom pedaço da mesa, estabelecemos muito bem o padrão de nossa vida em comum: trabalho para manter a música, a atividade de escrever e outras alegrias que a vida oferece.
Nada disso é para dizer que vivemos em constante euforia.
Longe disso. Tivemos momentos de tédio, medos e dores. Mas sempre havia tempo para o riso. Mesmo no fim, Bev ainda podia sorrir para dizer-me que eu a tinha colocado bem nos travesseiros, que eu tinha aliviado a dor de suas costas com uma massagem delicada, e outras coisas necessárias, porque ela não podia mais fazê-las sozinha.
Em seus últimos dias, Bev não queria que ninguém a tocasse, a não ser eu. Mas nossa vida de casados tinha criado um tal vínculo de amor e confiança, que muitas vezes dizia que as coisas que eu lhe fazia eram como se ela mesma as fizesse.
Embora eu tivesse que prover-lhe os cuidados mais íntimos, os cuidados que se dispensam a uma criança pequena, ela não se sentia ofendida nem achava que sua dignidade estava sendo invadida. Quando eu a tomava em meus braços para torná-la mais confortável ou banhá-la, Bev sempre colocava os braços em meu ombro e seu rosto se aninhava na cava do meu pescoço, como sempre o tinha feito.
É difícil transmitir a alegria desses momentos, mas asseguro que ela existia. Alegria do espírito. Sua mão estava na minha quando morreu, e o médico que a atendia, com lágrimas nos olhos, disse aquilo que eu e muitos outros tínhamos dito a seu respeito.
— Ela tem graça.
Muitos dos que viram essa graça não a compreenderam.
Lembro-me da madrugada em que entramos no hospital, para o nascimento de nosso primeiro filho. Estávamos rindo. Os atendentes nos olharam com censura.
Nascimento é coisa dolorosa e perigosa. As mulheres podem morrer dando à luz. Por que eles estão rindo?
Estávamos rindo porque a perspectiva de vida que era parte de ambos nos enchia de alegria. Estávamos rindo porque o nascimento estava para acontecer num hospital construído no local do mesmo hospital onde Bev tinha nascido. Que continuidade maravilhosa!
Nosso riso era contagioso, e logo outros que encontramos a caminho da sala de parto estavam sorrindo. A desaprovação tornou-se aprovação. O riso era sua nota de graça em momentos de estresse.
Era seu, também, o riso do constantemente novo. Tudo que ela encontrava tinha algo novo em si para entusiasmá-la. Havia uma ingenuidade em Bev que era, a seu modo, uma forma de sofisticação. Queria encontrar o que havia de bom em cada coisa e cada criatura. Como resultado, despertava essa resposta nas pessoas.
— Vingança é para as crianças — dizia ela. — Somente pessoas que são basicamente imaturas a desejam.
Ela era conhecida por chamar as pessoas que a tinham ofendido e suplicar-lhes que pusessem de lado os sentimentos destrutivos. — Sejamos amigos. Nenhuma das fontes de condolências que nos inundaram depois de sua morte surpreendeu-me.
Era típico de Bev querer que eu chamasse o radiologista cujo tratamento em 1974 foi a causa aproximada de sua morte, e agradecer-lhe “por ter-me dado estes dez anos maravilhosos. Não deixe de fazê-lo entender que eu sei que ele fez o máximo por mim quando eu estava morrendo de câncer. Ele fez o que havia de melhor, e eu quero que ele saiba do meu reconhecimento”.
É de surpreender que eu olhe para todos esses anos juntos com uma felicidade que transcende qualquer coisa que as palavras possam descrever? É de admirar que eu não queira nem precise esquecer um momento sequer? Muitos outros meramente tocaram sua vida na periferia. Eu a compartilhei nas formas mais íntimas, e tudo que ela fez me fortaleceu. Não teria sido possível, para mim, fazer o que a necessidade exigia que eu fizesse durante os dez anos finais de sua vida, fortalecendo-a, em retorno, se ela não tivesse se dado nos anos precedentes, não retendo nada.
Considero isso como minha enorme sorte e o privilégio mais miraculoso.
Frank Herbert
Port Townsend, WA
6 de abril de 1984
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