As Herdeiras de Duna
Folha de Rosto
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
Frank Herbert
AS HERDEIRAS DE DUNA
Série Duna — Livro 6
AS HERDEIRAS DE DUNA
Milhares de anos à nossa frente, uma irmandade de mulheres
— a Bene Gesserit — propõe-se servir à humanidade, utilizando-se de um conhecimento de alto nível alcançado, principalmente, pela ingestão da melange, uma especiaria que prolonga a vida e acentua os poderes psíquicos. Através de um ritual de iniciação — A Agonia da Especiaria — as participantes da Irmandade tornam-se Reverendas Madres, desenvolvendo seu psiquismo e adquirindo, entre outras capacidades, o acesso à Outra Memória, repositório de lembranças de todas as eras. Poderosas e manipuladoras, elas desenvolvem uma disciplina fantástica sobre o corpo e as emoções, transformando-se em autênticas “bruxas”. Mas a fonte de melange, que se tornou imprescindível à sobrevivência das Bene Gesserit, são vermes da areia, animais gigantescos, cujo hábitat é o deserto.
Contando com um único exemplar da espécie, trazido às escondidas da destruição de Rakis, as Reverendas Madres tentam reproduzi-lo com tenacidade e paciência. E para isso, numa aventura ecológica às avessas, transformam, palmo a palmo, um mundo verdejante em tórrido deserto. Paralelamente, sofrem uma perseguição acirrada de outra irmandade feminina — as Honradas Madres —, mulheres cruéis e selvagens cuja ira teriam provocado no passado.
O horror da guerra manifesta-se em toda a sua plenitude. Um plano tático, de alto risco, é levado a efeito pelas Bene Gesserit, o que conduz a um surpreendente questionamento sobre a vitória. E
aí Frank Herbert ultrapassa um maniqueísmo aparente para atingir uma maior profundidade: procura investigar as raízes psicológicas da tirania e da violência. A manipulação das massas, já abordada em O imperador-deus de Duna, ganha maior dimensão e sutileza.
Valendo-se de situações fictícias, o autor acusa os jogos políticos
existentes em nosso tempo, em episódios que tanto podem estar inseridos numa época futura, como ser trazidos à tona pela Outra Memória.
Toda a obra é permeada, em traços leves mas constantes, por uma nostalgia das emoções descartadas em nome da evolução e do aperfeiçoamento. A vaga sensação de se ter perdido algo valioso: os pomares, as lembranças da infância, a mãe, o abandono ao êxtase sexual — aquilo que o ser humano tem de delicado, mágico e imponderável. Uma nostalgia do amor.
Em toda a série Duna, Frank Herbert lança mão de seus conhecimentos de psicologia, religião, filosofia oriental, ecologia, ioga e meditação, assim como de eletrônica, geologia e navegação, oferecendo-nos um retrato da luta do homem consigo mesmo e com seu meio físico, social, político e religioso. Além da literatura, Frank Herbert (1920-1986) exerceu inúmeras atividades profissionais, algumas bem pouco ortodoxas, como as de pescador de ostras, instrutor de sobrevivência na selva e analista leigo. Em 1952
começou a escrever ficção científica para revistas do gênero. Seu romance The Dragon in the Sea foi muito bem recebido, mas Herbert revelou-se verdadeiramente como escritor de porte com a publicação de Duna, em 1965.
AS HERDEIRAS DE DUNA é o clímax desta série; é a última e inestimável contribuição ao legado épico do autor.
Aqueles que se propõem a repetir o passado devem controlar o ensino da História.
— O Coda Bene Gesserit
Quando veio à luz o bebê-ghola do primeiro tanque axlotl Bene Gesserit, a Madre Superiora Darwi Odrade promoveu uma discreta comemoração em sua sala particular de refeições, no alto da Central. Mal amanhecia, e as duas outras integrantes do Conselho-Tamalane e Bellonda — mostraram impaciência ante a convocação, muito embora Odrade tivesse mandado servir o café da manhã por sua cozinheira pessoal.
— Não é toda mulher que pode estar presente ao nascimento de seu próprio pai — gracejou Odrade, quando as outras se queixaram de que eram ocupadas demais para se permitirem
“desperdícios tolos de tempo”.
Apenas a velha Tamalane demonstrou um certo divertimento disfarço. Bellonda manteve suas feições excessivamente carnudas impassíveis, o que, no seu caso, equivalia habitualmente a uma carranca.
Seria possível, pensou Odrade, que Bell ainda não tivesse superado o ressentimento causado pela relativa opulência das
instalações da Madre Superiora? Os alojamentos de Odrade eram um sinal distinto de sua posição, mas a honraria representava antes suas obrigações que uma possível superioridade em relação às Irmãs. A pequena sala de jantar permitia-lhe consultar as assessoras durante as refeições.
Bellonda olhava de um lado para o outro, numa impaciência evidente para ir embora. Muito esforço tinha sido gasto inutilmente em tentativas para penetrar a concha fria e remota em que Bellonda se fechava.
— Foi um sentimento muito estranho segurar aquele bebê em meus braços e pensar: “Este é meu pai” — Odrade disse.
— Eu ouvi da primeira vez! — A voz de Bellonda saía do estômago, num retumbante barítono, como se cada palavra lhe causasse uma vaga indigestão.
Compreendeu, entretanto, o gracejo distorcido de Odrade. O
velho Bashar Miles Teg tinha, na verdade, sido o pai da Madre Superiora. E a própria Odrade reunira células (como fragmentos de unhas) para criar esse novo ghola, parte de um antigo “plano de possibilidade”, caso viessem a ter sucesso em duplicar os tanques Tleilaxu. Mas Bellonda teria preferido ser expulsa da Bene Gesserit a concordar com o comentário de Odrade sobre o equipamento vital da Irmandade.
— Acho isso frívolo neste momento — Bellonda disse. —
Essas mulheres loucas em nosso encalço para nos destruir, e você querendo comemorar!
Odrade fez um certo esforço para conservar o tom suave.
— Se as Honradas Madres nos encontrarem antes de estarmos preparadas, talvez seja porque falhamos em manter o moral elevado.
Os olhos de Bellonda, fitos nos de Odrade, estavam cheios de acusação frustradora: “Essas mulheres terríveis já exterminaram dezesseis dos nossos planetas!”
Odrade sabia que era errado pensar em todos esses planetas como posses das Bene Gesserit. A mal organizada confederação de governos planetários, reunida depois da Dispersão e dos Tempos da Fome, dependia muito da Irmandade para serviços vitais e
comunicações confiáveis, mas as antigas facções persistiam — CHOAM, Corporação Espacial, Tleilaxu, remanescentes do sacerdócio do Deus Dividido, até mesmo auxiliares das Oradoras Peixes e assembléias dissidentes. O Deus Dividido tinha legado à humanidade um império dividido — cujas facções, em sua totalidade, reuniram-se subitamente, em função dos violentos assaltos das Honradas Madres da Dispersão. As Bene Gesserit —
fiéis à maioria de suas antigas formas — eram o alvo primordial de ataque.Os pensamentos de Bellonda nunca se afastavam muito dessa ameaça das Honradas Madres. Era uma fraqueza que Odrade reconhecia. Às vezes, ela chegava a pensar em substituir Bellonda, mas até mesmo na Bene Gesserit havia facções, nesses tempos, e ninguém podia negar que Bell era uma excelente organizadora. Os Arquivos nunca tinham sido mais eficientes do que sob sua orientação.
Como fazia freqüentemente, mesmo sem palavras, Bellonda conseguiu concentrar a atenção da Madre Superiora nas caçadoras que as espreitavam com selvagem persistência. Isso estragou a disposição de tranqüilo sucesso que Odrade tinha esperado conseguir esta manhã. Forçou-se a pensar no novo ghola. Teg! Se suas memórias originais pudessem ser recuperadas, a Irmandade contaria, mais uma vez, com o melhor Bashar que já tivera a seu serviço. Um Bashar Mentat! Um gênio militar, cuja bravura já era matéria de mitos do Antigo Império.
Mas será que o próprio Teg teria condições de ajudá-las contra essas mulheres vindas da Dispersão?
“Pelos deuses, quem quer que sejam eles, as Honradas Madres não devem nos encontrar. Ainda não!”
Teg representava um excesso de possibilidades e imprevistos inquietantes. O mistério cercava o período anterior à sua morte, na destruição de Duna. “Ele fez alguma coisa em Gammu para acender a fúria desenfreada das Honradas Madres. Sua persistência suicida em Duna não podia ter sido suficiente para provocar essa resposta frenética.” Havia rumores, fragmentos de seus dias em Gammu antes do desastre de Duna. “Podia mover-se mais rápido que o
olhar humano!” Teria ele feito isso? Outro afloramento das capacidades selvagens nos genes Atreides? Mutação? Ou apenas o mito de Teg novamente? A Irmandade tinha de aprender o mais depressa possível.
Uma acólita trouxe o café da manhã para três, e as irmãs comeram rapidamente, como se fosse necessário deixar para trás, sem demora, essa interrupção, pois perder tempo era perigoso.
Mesmo depois que as outras tinham saído, Odrade ficou sob o efeito do medo sem palavras de Bellonda.
“E de meus medos.”
Levantou-se e foi para a vasta janela que dava para os tetos mais baixos e alcançava parte do círculo de pomares e pastagens ao redor da Central. Fim de primavera, e os frutos já começando a se formar. “Renascimento. Um novo Teg nasceu hoje!” Nenhum sentimento de exaltação acompanhou o pensamento. Geralmente ela achava a vista restauradora, mas não essa manhã.
Quais são minhas forças verdadeiras? Qual é minha realidade?
Os recursos sob o comando da Madre Superiora eram formidáveis: lealdade profunda por parte daqueles que a serviam, uma força militar sujeita a um Bashar treinado por Teg (no momento, distante, com uma grande parte de suas tropas protegendo o planeta escola, Lâmpadas), artesãos e técnicos, espiões e agentes por todo o Antigo Império, inumeráveis trabalhadores que esperavam ser protegidos pela Irmandade contra as Honradas Madres, e todas as Reverendas Madres com Outras Memórias penetrando nas origens da vida.
Odrade sabia, sem falso orgulho, que representava o auge do que era mais forte numa Reverenda Madre. Se suas memórias pessoais não fornecessem a informação necessária, ela teria outras à sua volta para preencher a lacuna. Dados informatizados também, embora ela admitisse uma desconfiança natural a seu respeito.
Odrade achou-se tentada a se aprofundar em outras vidas que levava consigo como memória secundária — essas camadas subterrâneas de consciência. Talvez pudesse encontrar, nas experiências de Outros, soluções brilhantes para a difícil condição
que viviam. Perigoso! Havia a possibilidade de perder-se durante horas, fascinada pela multiplicidade das variações humanas. Melhor deixar Outras Memórias equilibradas em seu lugar, disponíveis para uso ou interferindo de acordo com a necessidade. Consciência, era esse o sustentáculo, bem como sua garra sobre a identidade.
A estranha metáfora Mentat de Duncan Idaho vinha em seu auxílio.“Autoconsciência: o defrontar-se com espelhos que passam através do universo, reunindo novas imagens no caminho —
infinitamente reflexivo. O infinito visto como finito, a semelhança da consciência transportando fragmentos percebidos do infinito.”
Ela nunca tinha ouvido nada mais próximo de sua consciência sem palavras. “Complexidade especializada”, era como Idaho o chamava. — Nós reunimos, montamos e refletimos nossos sistemas de ordem.
Realmente era a visão da Bene Gesserit que os humanos representavam a vida projetada pela evolução para criar ordem.
“E como isso pode nos ajudar contra essas turbulentas mulheres que nos perseguem? De que ramo de evolução elas vêm?
Será evolução um outro nome para Deus?”
Suas Irmãs olhariam com desprezo essas “especulações sem proveito”.
Ainda assim poderia haver respostas na Outra Memória.
“Ahhh! Que idéia sedutora!”
Com que desespero ela desejava projetar seu self confinado nas identidades passadas, e sentir o que teria sido viver nessa época. O perigo imediato dessa tentação a gelou. Sentiu a Outra Memória multiplicando-se nas bordas da consciência. — “Era assim!
Não, era assim!” Como eram vorazes! Tinha-se de escolher, dando vida ao passado com prudência. E não era esse o propósito da consciência, a própria essência de estar vivo?
“Escolha uma lembrança do passado e compare-a com o presente: Aprenda as conseqüências.”
Esse era o ponto de vista das Bene Gesserit a respeito da História, as antigas palavras de Santayana ressoando em suas
vidas: “Aqueles que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo.”
Os edifícios da própria Central, o mais poderoso de todos os estabelecimentos da Bene Gesserit, refletiam essa atitude em qualquer lugar para onde Odrade se voltasse. Usiforme, esse era o conceito predominante. Em qualquer centro de trabalho Bene Gesserit, muito pouco podia dar-se ao luxo de não ser funcional, conservado por nostalgia. A Irmandade não precisava de arqueólogos. As Reverendas Madres personificavam a História.
Vagarosamente (muito mais devagar que de costume) a vista de sua alta janela produziu seu efeito calmante. A ordem Bene Gesserit era essa que seus olhos relatavam.
Mas as Honradas Madres podiam acabar com essa ordem no minuto seguinte. A situação da Irmandade era muito pior do que a que tinham sofrido sob o Tirano. Muitas das decisões que ela era forçada a tomar agora eram odiosas. Sua sala de trabalho tornava-se menos agradável por causa das ações que aconteciam ali.
“Eliminar nossa fortaleza Bene Gesserit em Palma?”
Essa sugestão estava no relatório matinal de Bellonda, esperando em sua mesa. Odrade afixou-lhe uma nota afirmativa.
“Sim.” “Eliminar, porque o ataque das Honradas Madres é iminente, e não podemos defendê-los ou evacuá-los.”
Somente o Destino e mil e cem Reverendas Madres sabiam quantas pessoas, entre acólitas postulantes e outras, seriam mortas ou teriam pior destino, em função dessa única palavra. Sem mencionar todas as “Vidas Comuns” que existiam à sombra das Bene Gesserit.
A pressão de tais decisões produzia em Odrade uma nova espécie de exaustão. Seria uma fadiga da alma? Existiria essa coisa chamada alma? Ela sentia um cansaço profundo em algum lugar inacessível à consciência. Estava cansada, muito cansada.
Até mesmo Bellonda dava sinais de tensão, e Bell deleitava-se com a violência. Somente Tamalane parecia estar acima dessa pressão, mas isso não enganava Odrade. Tam tinha chegado à idade da observação superior, uma possibilidade no caminho de
todas as Irmãs, se vivessem o bastante para alcançá-la. Nada importava, então, exceto observações e julgamentos, nunca mencionados, na maioria das vezes, a não ser em certas expressões fugidias de suas feições enrugadas. Tamalane falava pouco hoje em dia, em comentários tão raros, que chegavam a ser quase ridículos:
— Comprem mais não-naves.
— Informem Sheeana.
— Revejam os registros de Idaho.
— Perguntem a Murbella.
Às vezes, emitia apenas grunhidos, como se as palavras pudessem traí-la.
E as caçadoras sempre lá fora, varrendo o espaço em busca de qualquer pista sobre a localização da Sede.
Em seus mais íntimos pensamentos, Odrade via as não-naves das Honradas Madres como corsários nesses mares infinitos entre as estrelas. Não hasteavam a bandeira negra dos piratas, mas ela estava lá, de qualquer modo. Nada de romântico a seu respeito.
“Matar e pilhar! Construa sua riqueza sobre o sangue dos outros.
Esgote essa energia e construa suas não-naves assassinas em locais lubrificados com sangue.”
E elas não viam que seriam afogadas em lubrificante rubro se continuassem nesse rumo.
“Deve haver pessoas furiosas lá fora, nessa Dispersão humana onde se originaram as Honradas Madres, pessoas que passam a vida com uma única idéia fixa: Peguem-nas!”
Perigoso universo esse, onde se permitia que tais idéias circulassem livremente. As boas civilizações tinham cuidado para que esses conceitos não ganhassem energia, não tivessem nem mesmo a oportunidade de nascer. Quando ocorriam, por acaso ou acidente, tinham de ser afastados rapidamente, porque tendiam a reunir as massas.
Odrade estava perplexa pelo fato de que as Honradas Madres não viam isso, ou se viam, ignoravam a idéia.
— Histeria plena — era a denominação de Tamalane.
— Xenofobia — discordava Bellonda, sempre corrigindo, como se o controle dos Arquivos lhe desse uma percepção melhor da realidade.
Ambas estavam certas, Odrade pensava. As Honradas Madres comportavam-se histericamente. Todos os estranhos eram o inimigo. As únicas pessoas em quem pareciam confiar eram os homens sexualmente escravizados, e mesmo esses, apenas até certo ponto. Testando-os constantemente, segundo Murbella (nossa única Honrada Madre cativa), para ver se seu domínio era firme.
— Às vezes, só para provocar, elas podem eliminar alguém, simplesmente como um exemplo para os outros. — Palavras de Murbella, que forçavam uma pergunta: “Estarão elas fazendo de nós um exemplo?” — “Vejam! Isso é o que acontece àqueles que se opõem a nós!”
Murbella tinha dito: — Vocês as provocaram. Uma vez desafiadas, elas não desistirão, até que as tenham destruído.
“Peguem os estranhos!”
Singularmente diretas. “Um ponto fraco, se fizermos o jogo certo”, pensou.
“Xenofobia levava ao extremo ridículo?”
Bem possível.
Odrade bateu pesadamente o punho na mesa de trabalho, consciente de que o ato seria visto e registrado pelas Irmãs que vigiavam constantemente o comportamento da Madre Superiora.
Falou, então, em voz alta, para os onipresentes televigias e as Irmãs vigilantes por trás deles.
— Não ficaremos sentadas, esperando na defensiva! Nós nos tornamos tão gordas como Bellonda (ela que se irrite com isso) pensando ter criado uma sociedade intocável e estruturas resistentes.
Odrade passou rapidamente os olhos pela sala familiar.
— Este lugar é um de nossos pontos fracos!
Sentou-se atrás da escrivaninha pensando (entre todas as coisas!) em arquitetura e planejamento comunitário. Bem, esse era um direito da Madre Superiora!
As comunidades da Irmandade raramente se desenvolviam ao acaso. Mesmo quando se apoderavam de estruturas já existentes (como tinham feito com a velha fortaleza Harkonnen, em Gammu), faziam-no com planos de reconstrução. Queriam tubos pneumáticos para conduzir pequenos pacotes e mensagens. Linhas de luz e projetores de raios duros para transmitir palavras em código. Consideravam-se mestras em comunicação de segurança.
As mensageiras das acólitas e das Reverendas Madres (que preferiam a autodestruição a traírem suas superioras) transportavam as mensagens mais importantes.
Ela podia visualizar lá fora, além de sua janela e além deste planeta, sua teia, magnificamente organizada e equipada, cada Bene Gesserit como uma extensão das outras. No que dizia respeito à sobrevivência da Irmandade, havia um núcleo intocável de lealdade. Podia haver desertores (alguns espetaculares como Lady Jessica, avó do Tirano), mas eles chegavam só até aí. A maioria das perturbações era transitória.
E tudo isso era um padrão Bene Gesserit. Uma fraqueza.
Odrade reconheceu, dentro de si, uma concordância com os temores de Bellonda. “Que eu me dane se deixar que isso me tire a alegria de viver!” Seria o mesmo que render-se ao que essas loucas Honradas Madres querem.
São nossas forças que elas querem, disse Odrade, olhando para os televigias do teto. “Como antigos selvagens, comendo os corações dos inimigos. Bem...nós lhes daremos mesmo o que comer! E elas só descobrirão que não podem digeri-lo quando for tarde demais!”
A não ser por alguns ensinamentos preliminares programados especialmente para acólitas e postulantes, a Irmandade não se interessava muito por conselhos e provérbios, mas Odrade tinha seu próprio lema: “Alguém tem de lavrar a terra.”
Sorriu para si mesma, enquanto se debruçava sobre o trabalho, sentindo-se mais confortada. Esta sala, esta Irmandade, este era o seu jardim, e havia ervas daninhas a serem arrancadas e sementes a serem plantadas. “E fertilizante. Não se pode esquecer o fertilizante.”
Quando me dispus a conduzir a humanidade pelo meu Caminho Dourado, prometi-lhes uma lição que seus ossos não esqueceriam. Conheço um padrão profundo, que os humanos negam em palavras, mesmo quando suas ações o afirmam. Eles dizem que buscam segurança e tranqüilidade, condições que
chamam de paz. Mesmo quando falam, criam sementes de tumulto e violência.
— Leto II, o Imperador-Deus
“Então ela me chama de Rainha Aranha!”
A Grande Honrada Madre recostou-se numa pesada cadeira colocada num estrado alto. Seu peito seco sacudia-se com risinhos silenciosos. “Ela sabe o que vai acontecer quando eu agarrá-la em minha teia! Vou sugá-la até que fique seca, isso é o que vou fazer.”
Uma mulher pequena, de feições medíocres e músculos que se crispavam nervosamente, ela dirigia seu olhar para o chão de ladrilhos amarelos iluminados pela claridade do dia, na sala de audiências. Uma Reverenda Madre Bene Gesserit jazia estendida no local, amarrada com shigafio. Não fazia esforço algum para lutar. O shigafio era excelente para esse propósito. “Bem que poderia cortar-lhe os braços fora!”
A câmara onde estavam sentadas combinava com a Grande Honrada Madre, tanto pelas dimensões como pelo fato de que tinha sido tomada de outros. Com trezentos metros quadrados, tinha sido destinada a convocações dos Navegantes da Corporação aqui na Junção, cada Navegador com seu tanque monstruoso. A prisioneira nesse chão amarelo era um grão de poeira na imensidão.
“A pobre coitada sentiu muito prazer em dizer a forma como sua dita Superiora me chama!”
Mas ainda assim, era uma linda manhã, pensou a Grande Honrada Madre. A não ser pelo fato de que nenhuma tortura ou sonda mental funcionava com essas bruxas. Como torturar alguém que pode optar pela morte a qualquer momento? E o fazia! Elas tinham, além disso, meios de suprimir a dor. Muito ardilosos, esses primitivos.
E está carregada de shere, também. Um corpo impregnado dessa detestável droga deteriorava além do alcance das sondas, antes que pudesse ser examinado adequadamente.
A Grande Honrada Madre fez sinal a uma auxiliar, que cutucou com o pé a Reverenda Madre estendida e, a um outro sinal,
afrouxou as amarras de shigafio a fim de permitir um movimento mínimo.— Qual é o seu nome, criança? — perguntou a Grande Honrada Madre. Sua voz era áspera e rouca, tanto pela idade como por uma falsa bonomia.
— Sou chamada de Sabanda. — Voz jovem e clara, ainda intocada pela dor das sondas.
— Você gostaria de nos ver capturar um macho covarde e escravizá-lo? Sabanda sabia a resposta adequada. Elas a tinham prevenido. — Prefiro morrer. — Disse isso calmamente, olhando firme para a velha face cor de raiz ressecada. As estranhas pintas laranja nos olhos da velha. Um sinal de raiva. As Instrutoras a tinham avisado.
Sobre a malha vermelha, um frouxo robe cor de ouro avermelhado, com figuras de dragões negros de boca aberta, apenas enfatizava a esquelética figura que cobria.
A Grande Honrada Madre não modificou a expressão nem mesmo com um pensamento recorrente sobre essas feiticeiras:
“Malditas sejam!” — Qual era sua função nesse planetazinho sujo de onde nós a trouxemos?
— Professora dos jovens.
— Temo dizer que não deixamos nenhum de seus jovens vivo. — ”Agora, por que ela sorri? Para me ofender, isso sim!”
— Você ensinou os jovens a adorar a bruxa, Sheeana?
— Por que eu lhes ensinaria a adorar uma Irmã? Sheeana não gostaria disso.
— Não gostaria... Está dizendo que ela voltou à vida e que você a conhece?
— São somente os vivos que conhecemos?
Como era clara e corajosa a voz dessa jovem feiticeira. Elas tinham um notável autocontrole, mas nem isso poderia salvá-las.
Estranho, entretanto, que esse culto de Sheeana persistisse. Teria de ser arrancado, naturalmente, destruído, da mesma forma que as bruxas estavam sendo eliminadas.
A Grande Honrada Madre ergueu o dedo mínimo da mão direita. Uma auxiliar, já à espera, acercou-se da prisioneira com uma injeção. Talvez essa nova droga soltasse a língua da bruxa, talvez não. Não importa.
Sabanda fez uma careta quando a injeção tocou seu pescoço. Estava morta em segundos. As criadas levaram o corpo que deveria alimentar os Futares prisioneiros. Não que eles tivessem grande utilidade. Não se reproduziam no cativeiro, não obedeciam às ordens mais comuns. Mal-humorados, à espera.
— Onde Treinadores? — um deles poderia perguntar. Ou cuspiriam outras palavras inúteis de suas bocas humanóides.
Mesmo assim, proporcionavam alguns prazeres. O cativeiro também demonstrou que eram vulneráveis. Tanto quanto essas bruxas primitivas. “Nós encontraremos o esconderijo delas. É somente uma questão de tempo.”
Aquele que lança uma luz nova sobre o banal e o ordinário,pode aterrorizar. Não queremos ver nossas idéias
modificadas. Ficamos ameaçados por esse tipo de exigência. “Já conheço as coisas importantes”, é o que dizemos. Então vem o Transformador e joga fora nossas velhas idéias. . — O Mestre Zensufi Miles Teg gostava de brincar nos pomares em volta da Central. Odrade o tinha levado lá pela primeira vez quando ele mal andava. Uma de suas mais antigas memórias: pouco mais de dois anos de idade e já consciente de que era um ghola, embora não entendesse o sentido integral da palavra.
— Você é uma criança especial — Odrade disse. — Nós o fizemos com as células de um homem muito idoso.
Embora fosse uma criança precoce, e as palavras ouvidas tivessem um som vagamente perturbador, ele estava mais interessado, na ocasião, em correr através do mato alto de verão, embaixo das árvores.
Mais tarde, outros dias de pomar juntaram-se a esse, acumulando também impressões sobre Odrade e as outras pessoas que o ensinavam. Bem cedo percebeu que Odrade gostava tanto dessas excursões como ele próprio.
Uma tarde, quando tinha quatro anos, ela lhe disse: — A primavera é a minha estação favorita.
— A minha também.
Quando tinha sete anos, e já demonstrava uma inteligência brilhante aliada à memória holográfica que lhe tinha rendido, por parte da Irmandade, pesadas responsabilidades em sua encarnação anterior, ele, de repente, viu os pomares como um local que tocava algo muito profundo dentro de si.
Esta foi a primeira vez que realmente teve consciência de carregar lembranças impossíveis de trazer à tona. Profundamente perturbado, voltou-se para Odrade, que estava de pé, delineada contra o sol da tarde:
— Há coisas de que não consigo lembrar.
— Um dia você se lembrará — ela disse.
Ele não podia ver sua face contra a luz brilhante, e suas palavras vinham tanto da enorme sombra como de Odrade.
Nesse ano começou a estudar a vida do Bashar Miles Teg, de cujas células tinha se originado. Odrade explicara algo a respeito disso, mostrando-lhe as unhas: — Tirei pequenos fragmentos de seu pescoço — células da pele, e elas tinham tudo o que precisávamos para dar-lhe a vida.
Havia algo de intenso a respeito dos pomares nesse ano, as frutas maiores e mais pesadas, as abelhas quase frenéticas.
— E por causa do deserto, que está aumentando lá embaixo, no sul — disse Odrade. Ela segurou sua mão enquanto caminhavam pela manhã fresca e orvalhada sob as macieiras em flor.
Teg olhou fixamente através das árvores, momentaneamente hipnotizado pelo efeito da luz do sol entre as folhas. Tinha estudado a respeito do deserto e achava que podia sentir seu peso nesse lugar. — As árvores percebem a aproximação do fim — Odrade disse. — A vida se desenvolve mais intensamente quando ameaçada.
— O ar está muito seco — ele salientou. — Deve ser o deserto.— Vê como algumas folhas ficaram pardas e curvadas nas extremidades? Tivemos que irrigar muito este ano.
Teg apreciava o fato de que ela nunca falava com ele de cima para baixo. Era principalmente de uma pessoa para outra. Observou o castanho retorcido das folhas. Era o deserto que fazia isso.
No fundo do pomar ouviram em silêncio os pássaros e os insetos. As abelhas que trabalhavam nos trevos de uma pastagem próxima vieram investigar, mas ele era imunizado por feromônio, como todos os que caminhavam livremente pela Sede. Elas passaram zumbindo por ele, sentiram os identificadores e foram embora para suas atividades na floração.
“Maçãs.” Odrade apontou para o oeste. “Pêssegos.” Sua atenção dirigiu-se para onde ela indicava. Ah, sim, havia cerejas a
leste, além das pastagens. Ele percebeu a resina desenhando nervuras nos galhos.
— As sementes e as mudas tinham sido trazidas para cá na não-nave original, há uns mil e quinhentos anos atrás — disse ela —
e tinham sido plantadas com um amoroso cuidado.
Teg visualizou mãos cavando a terra, batendo-a gentilmente ao redor das pequenas mudas, a irrigação cuidadosa, a cerca para manter o gado nos pastos selvagens que circundavam as primeiras plantações e os edifícios da Sede.
Por essa época ele já tinha começado a aprender a respeito do gigantesco verme da areia que a Irmandade tinha trazido secretamente de Rakis. A morte do verme tinha produzido criaturas chamadas trutas da areia. Era em função delas que o deserto se desenvolvia. Um pouco desta história estava ligada a relatos de sua encarnação anterior — um homem que elas chamavam de “O
Bashar”. Um grande soldado morto quando as terríveis mulheres denominadas Honradas Madres destruíram Rakis.
Teg achou esses estudos ao mesmo tempo fascinantes e perturbadores. Sentia lacunas em si, lugares onde as lembranças deveriam estar. Essas lacunas desafiavam-no em sonhos. E, às vezes, em devaneio, surgiam rostos diante de si. Quase podia ouvir-lhes as palavras. E então, havia ocasiões em que sabia os nomes das coisas antes que lhe dissessem. Especialmente nomes de armas.Coisas significativas cresciam em sua consciência. O planeta inteiro ia tornar-se um deserto, uma mudança foi iniciada porque as Honradas Madres queriam matar essas Bene Gesserit que o criavam.
As Reverendas Madres que controlavam sua vida muitas vezes se intimidavam com ele — vestidas de preto, austeras, olhos absolutamente sem nenhum branco, o azul dentro do azul. Era a especiaria que fazia isso, diziam.
Apenas Odrade lhe demonstrava algo que ele tomava por real afeição, e Odrade era alguém muito importante. Todos a chamavam de Madre Superiora, e assim ela lhe disse para chamá-
la, a não ser quando estivessem sozinhos nos pomares. Então ele podia chamá-la de Mãe.
Durante um passeio matinal, num período próximo da colheita, em seu nono ano de vida, bem na terceira elevação do pomar de macieiras ao norte da Central, eles chegaram a uma depressão pouco profunda, sem árvores e com uma profusão de plantas diferentes. Odrade pôs a mão em seu ombro e segurou-o onde eles podiam admirar as alpondras negras numa trilha sinuosa, através de pequenas flores e densa folhagem. Estava numa estranha disposição de espírito. Ele sentiu isso em sua voz.
— A propriedade é uma questão interessante — ela disse. —
Nós possuímos este planeta ou é ele que nos possui?
— Gosto dos cheiros daqui — ele disse.
Ela o soltou e impeliu-o gentilmente para adiante. — Aqui nós plantamos para o olfato, Miles. Ervas aromáticas. Estude-as cuidadosamente e procure-as nos livros quando voltar à biblioteca.
Oh! Pise mesmo nelas — encorajou-o, quando ele começou a evitar uma trepadeira em seu caminho.
Ele comprimiu o pé direito firmemente nas gavinhas verdes e aspirou seu aroma penetrante.
— Elas foram feitas para serem pisadas e nos darem seu aroma. As Instrutoras têm ensinado a você como lidar com a nostalgia. Disseram-lhe que ela é dirigida pelo sentido do olfato?
— Sim, Mãe. — Voltando-se para olhar o lugar onde tinha pisado, disse: — Isto é alecrim.
— Como sabe? — ela perguntou com intensidade. Ele encolheu os ombros. — Eu sei, simplesmente.
— Pode ser uma lembrança original. — Ela parecia contente.
Enquanto continuavam sua caminhada no vale aromático, Odrade ficou pensativa. — Cada planeta tem seu próprio caráter, onde desenhamos modelos da Velha Terra. Às vezes é apenas um pálido esboço, mas aqui tivemos sucesso.
Ajoelhou-se e puxou um galho fino de uma planta verde-ácido. Esmagou-o nos dedos e chegou-o até o nariz. “Salva.”
Era isso mesmo, mas ele não podia dizer como sabia.
— Senti esse cheiro na comida. E como a melange?
— Melhora o sabor, mas não muda a consciência. —
Levantou-se e olhou para ele do alto de sua estatura. — Marque bem este lugar, Miles. Nossos mundos ancestrais se foram, mas aqui recapturamos parte de nossas origens.
Ele sentiu que ela estava lhe ensinando algo importante.
— Por que você se perguntou se este planeta nos possuía?
— Minha Irmandade acredita que sejamos administradoras da terra. Sabe o que são administradores?
— Como Roitiro, o pai do meu amigo Yorgi. Ele diz que sua irmã mais velha será a administradora da plantação deles um dia.
— Isso mesmo. Temos uma residência mais longa em alguns planetas do que qualquer outro povo conhecido, mas somos apenas administradoras.
— Se vocês não possuem á Sede, quem a possui?
— Talvez ninguém. Minha pergunta é: como nos marcamos mutuamente, minha Irmandade e este planeta?
Ele olhou para o rosto dela e depois para suas próprias mãos. Estaria a Sede marcando-o exatamente agora?
— A maioria das marcas são profundas dentro de nós. — Ela tomou sua mão. — Venha. — Saíram do vale aromático e subiram ao domínio de Roitiro, Odrade falando enquanto caminhavam.
— A Irmandade raramente cria jardins botânicos. Os jardins devem dar suporte a muito mais do que olhos e olfato.
— Alimento?
— Sim, apoio a nossas vidas em primeiro lugar. Os jardins produzem alimento. A plantação desse vale aí atrás destina-se a nossas cozinhas.
Miles sentiu sua voz fluir para dentro dele, alojando-se entre as lacunas. Teve a percepção do planejamento para séculos adiante: árvores para substituir vigas e reter bacias hidrográficas, plantas para impedir a queda das margens de rios e lagos, para proteger o solo contra a chuva e o vento, para manter praias, e mesmo nas águas, propiciando locais para a reprodução de peixes.
A Bene Gesserit também pensou em árvores para sombra e abrigo, ou para lançar formas sombreadas interessantes nos gramados.
— Arvores e plantas para todas as nossas relações simbióticas — disse ela.
— Simbióticas? — Era uma palavra nova.
Ela usou um exemplo conhecido dele — sair com os outros para colher cogumelos.
— Os cogumelos não crescem a não ser em companhia de raízes amigas. Cada um tem uma relação simbiótica com uma planta especial. Tudo o que cresce tira de outro algo de que necessita.
Como a explicação se alongasse, ele, aborrecido, chutou uma moita de capim. Viu-a, então, olhar para ele com aquele jeito inquietante. Tinha feito uma coisa ofensiva. Por que era certo pisar numa planta e não em outra?
— Miles! O mato impede que o solo seja levado pelo vento para lugares difíceis como o fundo dos rios.
Conhecia esse tom. Reprimenda. Abaixou os olhos para a planta que tinha maltratado.
— Este capim alimenta nosso gado. Alguns têm sementes que comemos no pão e em outros alimentos. Certos tipos de taquara quebram o vento.
Ele sabia disso! Tentando distraí-la, soletrou: — Que-brar o ven-to? Odrade não sorriu, e ele viu seu erro em pensar que podia enganá-la. Resignado, dispôs-se a ouvir a lição.
— Quando o deserto viesse — continuou ela — as uvas, com suas raízes principais enterradas a centenas de metros no chão, seriam provavelmente as últimas a desaparecer. Os pomares morreriam em primeiro lugar.
— Por que eles têm de morrer?
— Para dar lugar a uma forma mais importante de vida.
— Vermes da areia e melange.
Percebeu seu agrado por ele ter demonstrado conhecer a relação entre os vermes da areia e a especiaria de que as Bene Gesserit precisavam para sua existência. Não sabia ao certo como essa necessidade funcionava, mas imaginou um círculo: “vermes da areia, trutas da areia e melange, repetindo-se nessa ordem”. E a Bene Gesserit tomava desse círculo o que precisava.
Eleja estava cansado com todo esse ensinamento.
— Se todas essas coisas vão morrer de qualquer forma, porque tenho de voltar à biblioteca e aprender seus nomes?
— Porque você é humano, e os humanos têm esse desejo profundo de classificar, de dar rótulos a tudo.
— Por que temos de dar nome a coisas como essa?
— Porque desse modo temos o direito de reivindicar o que denominamos. Pretendemos uma posse que pode ser enganadora e perigosa.
Então ela estava de volta à “propriedade”.
— Minha rua, meu lago, meu planeta — ela disse. — Meu rótulo para sempre. O rótulo que se dá a um lugar ou a uma coisa pode nem mesmo durar o tempo de uma vida, a não ser como um apaziguante dado pelos conquistadores... ou como um som para ser lembrado com medo.
— Duna — ele disse.
— Você é rápido!
— As Honradas Madres queimaram Duna.
— Elas farão o mesmo conosco, quando nos encontrarem.
— Não se eu for o seu Bashar! — As palavras saíram sem pensar, mas uma vez pronunciadas, sentiu que poderiam conter uma certa verdade. Relatos na biblioteca diziam que o Bashar tinha feito os inimigos tremerem simplesmente pelo seu aparecimento no campo de batalha.
Como se soubesse o que ele estava pensando, Odrade disse: — O Bashar Teg era igualmente famoso por criar situações onde as batalhas não eram necessárias.
— Mas ele combateu seus inimigos.
— Nunca se esqueça de Duna, Miles. Ele morreu lá.
— Eu sei.
— As Instrutoras já o fizeram estudar Caladan?
— Sim. É chamada de Dan em minhas histórias.
— Rótulos, Miles. Os nomes são interessantes como lembretes, mas a maioria das pessoas não faz outras conexões.
História cansativa, não? Nomes — sugestões convenientes, úteis, principalmente em sua própria espécie.
— Você é da minha espécie? — Essa era uma pergunta que o perseguia, embora não tivesse sido formulada até esse instante. “
— Somos Atreides, você e eu. Lembre-se disso, quando retornar a seu estudo de Caladan.
Quando voltaram pelos pomares e pastagens até a colina que lhes dava um excelente ponto de observação, com a vista da Central através dos galhos, Teg viu o complexo administrativo rodeado de plantações com uma nova sensibilidade. Manteve-a consigo enquanto desciam a alameda cercada que conduzia ao arco de entrada da Primeira Rua.
— Uma jóia viva. — Era como Odrade chamava a Central.
Quando passaram sob o arco, ele olhou para o nome da rua gravado a fogo. O Galach, em elegantes linhas fluidas, no estilo decorativo das Bene Gesserit. Todas as ruas e todos os edifícios eram rotulados na mesma letra cursiva.
Olhando em volta de si na Central, as águas oscilantes na praça à frente deles, os detalhes graciosos, ele sentiu a profundidade da experiência humana. As Bene Gesserit tinham cuidado deste lugar de um modo que ele não compreendia bem.
Coisas reunidas em estudos e em excursões ao pomar, coisas simples e complexas, apareceram sob nova luz. Era uma resposta Mentat latente, mas ele não sabia disso, sentindo apenas que sua memória infatigável tinha modificado e reorganizado algumas relações. Parou de repente e olhou para trás, para o caminho que tinham percorrido — o pomar lá fora, enquadrado pelo arco da rua coberta. Tudo estava relacionado. O escoadouro da Central produzia metano e fertilizante. (Ele tinha acompanhado a planta com uma Instrutora.) O metano fazia funcionar as bombas e fornecia energia para uma parte da refrigeração.
— Para onde está olhando, Miles?
Ele não sabia como responder. Mas lembrava-se de uma tarde de outono, quando Odrade o tinha levado num vôo sobre a Central num tóptero, para falar-lhe a respeito dessas relações e dar-lhe uma “visão panorâmica”. Apenas palavras, na ocasião, mas que agora faziam sentido.
— Tão próximo de um círculo ecológico fechado quanto podemos criar — Odrade tinha dito no tóptero. — As pessoas nas órbitas da Meteorologia o controlam e comandam suas linhas de fluxo. — Por que você está aí, olhando para os pomares, Miles? —
Sua voz estava cheia de imperativos contra os quais ele não tinha defesa.— No ornitóptero você disse que era bonito, mas perigoso.
Tinham viajado apenas uma vez juntos no ornitóptero. Ela entendeu a referência imediatamente. “O círculo ecológico.” Virou-se para ela, esperando.
— Fechado — disse ela. — Como é tentador levantar altas paredes e deixar de fora a mudança. Apodrecer aqui, na auto-satisfação do nosso próprio conforto.
Suas palavras o encheram de inquietação. Sentiu que já as tinha ouvido antes... em algum outro lugar, com uma outra mulher segurando sua mão.
— Qualquer tipo de fechamento é um terreno fértil para o ódio dos estranhos. Isso produz uma colheita amarga.
Não exatamente as mesmas palavras, mas a mesma lição.
Ele caminhava devagar ao lado de Odrade, sua mão suada na dela. — Por que está tão quieto, Miles?
— Vocês são fazendeiras — disse ele. — É realmente isso que vocês, Bene Gesserit, fazem.
Ela viu imediatamente o que tinha acontecido. O treinamento Mentat irrompendo sem que ele soubesse. Melhor não explorar isso ainda. — Estamos ligadas a tudo que cresce, Miles. Foi uma boa percepção sua, ter visto isso.
Quando se separaram, ela para retornar a sua torre, ele para os alojamentos na escola, Odrade disse: — Vou falar com suas Instrutoras para que coloquem mais ênfase nos usos sutis do poder.
Ele entendeu mal. — Eu já estou treinando com armas laser.
Dizem que sou bom.
— Foi o que ouvi. Mas há armas que não se podem segurar com as mãos. Apenas com a mente.
As regras constroem fortificações atrás das quais as mentes pequenas criam satrapias. Um perigoso estado de coisas nos melhores tempos, desastroso durante as crises.
— O Coda Bene Gesserit
Escuridão infernal no quarto de dormir da grande Honrada Madre. Logno, uma Grande Dama e a ajudante mais antiga de Sua Alteza, entrou através do vestíbulo sem iluminação, como tinha sido convocada, e, vendo a escuridão, estremeceu. Essas conferências no escuro a aterrorizavam, e ela sabia que a Grande Honrada Madre tinha prazer com isso. Entretanto, não poderia ser o único motivo para a escuridão. A Grande Honrada Madre teria medo de um ataque? Muitas Altezas tinham sido depostas na cama. Não...
não era simplesmente esse fato, embora isso pudesse pesar na escolha do ambiente.
Grunhidos e gemidos na escuridão.
Algumas Honradas Madres diziam, escondendo o riso, que a Grande Honrada Madre tinha a ousadia de acolher um Futar em seu leito. Logno achou possível. Essa Grande Honrada Madre ousava muitas coisas. Não tinha ela salvo algumas das Armas do desastre da Dispersão? Entretanto, Futares? As Irmãs sabiam que os Futares não podiam ser aprisionados pelo sexo. Pelo menos, não sexo com os humanos. No entanto, esse podia ser o modo como os Inimigos das Mil Faces o faziam. Quem podia saber?
Havia um cheiro de pêlo no quarto. Logno fechou a porta atrás de si e esperou. A Grande Honrada Madre não gostava de ser interrompida em nada que estivesse fazendo aí nessa escuridão protetora. “Mas ela permite que eu a chame de Dama.”
Um outro gemido, e então: — Sente-se no chão, Logno. Sim, aí perto da porta.
“Será que ela realmente me vê ou apenas adivinha?”
Logno não tinha a coragem de testá-lo. “Veneno. Eu a pegarei com isso algum dia. Ela é cautelosa, mas pode se distrair.”
Embora suas Irmãs pudessem olhar a idéia com desprezo, veneno era um instrumento de sucessão aceito... desde que o sucessor tivesse outros meios de ascendência.
— Logno, esses Ixianos com quem você falou hoje. O que eles dizem da Arma?
— Eles não entendem sua função, Dama. Eu não lhes disse o que era.
— É lógico que não.
— Sugere novamente que a Arma e a Carga sejam unidas?
— Está caçoando de mim, Logno?
— Dama! Eu nunca faria tal coisa.
— Espero que não.
Silêncio. Logno entendeu que ambas consideravam o mesmo problema. Somente trezentas unidades da Arma sobreviveram ao desastre. Cada uma podia ser usada apenas uma vez, desde que o Conselho (que detinha a Carga) concordasse em armá-los. A Grande Honrada Madre, que tinha o controle da Arma propriamente dita, possuía apenas a metade desse poder terrível. A Arma sem a Carga era apenas um tubo preto a ser manejado manualmente.
Com sua Carga, podia cortar o espaço de seu alcance limitado num golpe rápido de morte sem sangue.
— Os das Muitas Faces — murmurou a Grande Honrada Madre. Logno fez um sinal com a cabeça na direção de onde o murmúrio tinha se originado, no escuro.
‘Talvez ela possa me ver. Não sei o que mais ela salvou ou o que os Ixianos possam ter-lhe dado.”
E Os das Muitas Faces, amaldiçoados sejam pela eternidade, tinham causado o desastre. Eles e seus Futares. A facilidade com que quase todas as Armas tinham sido confiscadas! Terríveis poderes! “Precisamos nos armar bem, antes de retornarmos a essa batalha. Dama está certa.”
— Esse planeta, Buzzel — disse a Grande Honrada Madre.
— Tem certeza de que não é defendido?
— Não detectamos nenhuma defesa. Os Contrabandistas dizem que não.
— Mas é tão rico em Pedras suaves!
— Aqui, no Antigo Império, as pessoas raramente ousam atacar as bruxas.
— Não acredito que haja apenas um punhado delas nesse planeta! É uma armadilha de algum tipo.
— Isso sempre é possível, Dama.
— Não confio em contrabandistas, Logno. Aprisione mais alguns deles e teste novamente essa coisa de Buzzel. As bruxas podem ser fracas, mas não acredito que sejam burras.
— Sim, Dama.
— Diga aos Ixianos que eles nos desagradarão, se não puderem duplicar a Arma.
— Mas sem a Carga, Dama...
— Lidaremos com isso quando for necessário. Agora, saia.
Logno ouviu um Ssssiim sibilante quando saiu. Mesmo a obscuridade do vestíbulo era bem-vinda depois daquele quarto, e ela correu em direção à luz.
Tendemos a nos tornar o que há de pior em nossos oponentes.
— O Coda Bene Gesserit
“As imagens da água novamente!”
“Estamos transformando todo este maldito planeta em deserto, e eu tenho imagens de água!”
Odrade estava sentada em seu gabinete, tendo à sua volta o costumeiro tumulto matinal, e sentiu a Filha do Mar boiando nas ondas que a banhavam. As ondas tinham a cor do sangue. Sua Filha do Mar antecipava tempos sangrentos.
Ela conhecia o origem de tais imagens: o tempo anterior àquele em que as Reverendas Madres dominavam sua vida; sua infância na bela casa no litoral de Gammu. A despeito de suas preocupações imediatas, não pôde evitar um sorriso. Ostras preparadas por Papai. Seu prato preferido ainda hoje.
O que ela mais lembrava da infância eram as excursões marítimas. Algo relacionado com estar flutuando falava à sua parte mais íntima. O subir e descer das ondas, o sentido de horizontes sem limites com lugares novos e desconhecidos para além da curva do mundo aquático, a emocionante extremidade do perigo implícito na própria substância que lhe dava suporte. Tudo isso combinado para dar-lhe certeza de que ela era Filha do Mar.
Papai era mais calmo lá também. E Mamãe Sibia mais feliz, com a face voltada para o vento, o cabelo escuro esvoaçando. Um senso de equilíbrio irradiava-se desses tempos, uma mensagem tranqüilizadora falada em uma linguagem mais antiga que a mais antiga de suas Outras Memórias. “Este é o meu lugar, meu meio. Eu sou Filha do Mar.” .
Seu conceito pessoal de sanidade vinha daqueles tempos. “A capacidade de equilibrar-se em mares estranhos. A capacidade de manter seu eu mais profundo, apesar das ondas inesperadas.”
Mamãe Sibia tinha dado a Odrade essa capacidade muito antes que as Reverendas Madres viessem e levassem sua
“descendente Atreides oculta”. Mamãe Sibia, apenas uma mãe adotiva, tinha ensinado a Odrade o amor a si mesma.
Numa sociedade Bene Gesserit, onde qualquer forma de amor era suspeita, isto permaneceu como seu segredo supremo.
“No íntimo, sou feliz comigo mesma. Não me importo de estar só.” Não que alguma Reverenda Madre estivesse alguma vez só, verdadeiramente, depois que a agonia da especiaria a tivesse inundado com Outras Memórias.
Porém Mamãe Sibia e, sim, Papai também, agindo como pais pelas Bene Gesserit, tinham impresso à sua custódia uma força profunda durante aqueles anos ocultos. As Reverendas Madres limitaram-se a ampliar essa força.
As Instrutoras tinham tentado extirpar de Odrade seu “desejo profundo de afinidades pessoais”, mas acabaram por fracassar, sem saber inteiramente que o tinham feito, mas sempre com uma certa suspeita. Elas a tinham enviado finalmente a Al Dhanab (um local deliberadamente mantido como uma imitação do que havia de pior em Salusa Secundus) para que fosse condicionada num planeta de testagem constante. Um lugar pior que Duna sob certos aspectos: altos penhascos e desfiladeiros secos, ventos quentes e frígidos, umidade demais e de menos. A Irmandade tinha pensado nele como um adequado campo de provas para aqueles destinados a sobreviver em Duna. Mas nada disso tinha tocado aquele núcleo secreto dentro de Odrade. A Filha do Mar permaneceu intacta.
“E é a Filha do Mar que está me prevenindo agora.”
Foi um aviso presciente?
Ela sempre tinha tido esse “pequeno talento”, essa pequena contração que a prevenia sobre o perigo imediato para a Irmandade.
Os genes Atreides lembravam-na de sua presença. Era uma ameaça à Sede? Não... a dor que ela não podia tocar dizia que eram outros em perigo. No entanto, importante.
“Lâmpadas?” Seu pequeno talento não podia dizer.
As Mestras Procriadoras tinham tentado apagar esta perigosa presciência de sua linhagem Atreides, mas com sucesso limitado.
“Não podemos nos arriscar a um outro Kwisatz Haderach!” Elas sabiam desta peculiaridade em sua Madre Superiora, mas a última predecessora de Odrade, Taraza, tinha aconselhado “um cauteloso uso de seu talento”. Sua idéia era que a presciência de Odrade só funcionava para alertá-la sobre os perigos que ameaçavam a Bene Gesserit.
Odrade concordava. Experimentava momentos indesejados em que tinha lampejos de ameaças. Lampejos. E ultimamente ela sonhava.
Era um sonho vividamente recorrente, cada sentido sintonizado com a iminência dessa coisa que ocorria em sua mente.
Ela caminhava sobre um abismo numa corda bamba e alguém (não tinha coragem de voltar-se para ver quem era) vinha por trás com um machado para cortar a corda. Podia sentir o trançado áspero da
fibra sob os pés descalços. Sentia um vento frio soprando, um cheiro de queimado nesse vento. E sabia que a pessoa com o machado se aproximava!
Cada passo perigoso exigia toda a sua energia. Um passo!
Outro! A corda oscilava e ela esticava os braços para os lados, lutando pelo equilíbrio.
“Se eu cair, a Irmandade cairá.”
A Bene Gesserit acabaria no abismo abaixo da corda. Como tudo que vive, a Irmandade deve terminar algum dia. Uma Reverenda Madre não ousava negá-lo.
“Mas não aqui. Não caindo com a corda rompida. Não devemos permitir que a corda seja cortada. Preciso atravessar o abismo antes que venha á pessoa do machado.Preciso! Preciso!”
O sonho sempre terminava aí, sua própria voz soando no ouvido, quando acordava no quarto de dormir. Gelada. Nenhuma transpiração. Mesmo nos espasmos do pesadelo, as restrições das Bene Gesserit não permitiam excessos desnecessários.
“O corpo não precisa de transpiração? O corpo não a produz.”Sentada em seu gabinete, lembrando-se do sonho, Odrade sentiu a profundeza da realidade por trás dessa metáfora da leve corda: “o fio delicado sobre o qual carrego o destino de minha Irmandade”. A Filha do Mar sentiu o pesadelo próximo e interferiu com imagens de águas sangrentas. Esse não era um aviso banal.
Agourento. Ela desejava levantar-se e gritar: — Dispersem-se no mato, crianças. Corram. Corram.
E como isso chocaria as vigilantes!
As obrigações de uma Madre Superiora exigiam que mostrasse um semblante adequado, encobrindo seus medos, e agisse como se nada importasse, a não ser as decisões formais diante de si. Deve-se evitar o pânico! Não que alguma de suas decisões imediatas fosse verdadeiramente trivial nesses tempos.
Mas exigia-se um comportamento calmo.
Algumas de suas crianças já estavam correndo, saindo para o desconhecido. Vidas compartilhadas em Outras Memórias. O
resto delas aqui na Sede saberia quando correr. “Quando formos
descobertas.” Seu comportamento seria então governado pelas necessidades do momento. Tudo o que realmente importava era seu magnífico treinamento. Essa era sua preparação mais confiável.
Cada nova célula Bene Gesserit, onde quer que fosse no fim, estava preparada, assim como a Sede: destruição total, de preferência à submissão. O fogo clamoroso iria empanturrar-se de registros e carne preciosa. Tudo que um captor poderia achar seriam escombros inúteis: cacos retorcidos salpicados de cinzas.
Algumas Irmãs da Sede poderiam escapar. Mas a fuga no momento do ataque — como era fútil!
Pessoas importantes compartilhavam a Outra Memória, de qualquer forma. Preparação. A Madre Superiora evitava isso. Uma questão de estado de espírito.
“Para onde correr? Quem poderia escapar? Quem poderia ser capturado?” Essas eram as perguntas reais. E se eles capturassem Sheeana lá embaixo, à beira do deserto, esperando por vermes da areia que poderão nunca aparecer? Sheeana e os vermes da areia: uma potente força religiosa que as Honradas Madres talvez soubessem como explorar. E se as Honradas Madres capturassem o ghola-Idaho ou o ghola-Teg? Poderia nunca mais haver refúgio, se uma dessas possibilidades ocorresse.
“E se? E se?”
Deu expressão a sua frustração irada: — Quisera que tivéssemos matado Idaho no momento em que o tivemos! Não deveríamos nunca ter criado o ghola-Teg.
Somente as integrantes do Conselho, consultoras imediatas e algumas vigilantes participavam de sua suspeita. Reprimiam-na com reservas. Nenhuma delas sentia-se realmente segura a respeito dos dois gholas, mesmo depois de terem minado a não-nave, tornando-a vulnerável ao fogo clamoroso.
Naquelas últimas horas antes de seu sacrifício heróico, teria Teg sido capaz de ver o invisível (inclusive as não-naves?) “Como ele sabia onde nos encontrar no deserto de Duna?”
E se Teg podia fazê-lo, o perigoso talento de Idaho, com suas incontáveis gerações de genes Atreides (e outros, desconhecidos) poderia também desenvolver essa capacidade. “Eu mesma poderia!”
Com um repentino e surpreendente insight, Odrade compreendeu, pela primeira vez, que Tamalane e Bellonda espreitavam sua Madre Superiora com os mesmos temores que Odrade sentia ao observar os dois gholas.
O simples fato de saber que podia ser feito — que um humano poderia ser sensibilizado para detectar não-naves e outras formas de proteção — teria um efeito desequilibrador em seu universo. Isso poria certamente as Honradas Madres em fuga. Havia incontáveis descendentes de Idaho soltos no universo. Ele queixava-se de que não era nenhum maldito garanhão da Irmandade, mas tinha atuado em seu favor muitas vezes.
“Sempre pensando que estava agindo em seu próprio interesse. E talvez estivesse.”
Qualquer descendente desta linha principal dos Atreides poderia ser dono desse talento, que o Conselho suspeitava ter vindo a florescer em Teg.
Para onde iam os meses e anos? E os dias? Uma nova estação de colheita, e a Irmandade permanecia em seu terrível limbo. A manhã já ia quase a meio, compreendeu Odrade. Os sons e cheiros da Central fizeram-se sentir. Pessoas lá fora, no corredor.
Frango e repolho sendo preparados na cozinha comum. Tudo normal.O que era normal para alguém que se demorava em imagens de água durante o trabalho? A Filha do Mar não podia esquecer Gammu, os cheiros, a substância das algas marinhas sopradas pela brisa, o ozônio que propiciava a respiração rica em oxigênio, e a esplêndida liberdade daqueles que a rodeavam, tão visível no modo como caminhavam e falavam. A conversação no mar era mais profunda, de um modo que ela nunca tinha explorado. Mesmo o bate-papo inconseqüente tinha seus elementos subterrâneos, uma elocução oceânica que fluía com as correntes submersas.
Odrade sentiu-se compelida a lembrar-se de seu próprio corpo flutuante naquele mar da infância. Precisava recapturar as
forças que tinha conhecido nessa ocasião, assumir as qualidades fortalecedoras aprendidas em tempos inocentes.
Com a face voltada para a água salgada, prendendo a respiração tanto quanto podia, ela flutuava num “agora” banhado pelo mar que purgava seus desgostos. Era o gerenciamento do estresse reduzido à sua essência. Uma grande calma a inundou.
“Flutuo, logo sou.”
A Filha do Mar avisou, e a Filha do Mar restaurou. Sem nunca admiti-lo, ela precisava desesperadamente dessa restauração.
Odrade tinha olhado para seu próprio rosto espelhado numa janela do escritório na noite anterior, chocada pelo modo como a idade e as responsabilidades se combinaram com a fadiga para sugar-lhe as faces e curvar para baixo os cantos da boca: os lábios sensuais mais finos, as curvas suaves do rosto alongadas. Somente os olhos de azul dentro do azul chamejavam com sua costumeira intensidade, e ela era ainda alta e musculosa.
Obedecendo a um impulso, pressionou as teclas de projeção e fixou o olhar nas imagens acima da mesa: a não-nave pousada no espaçoporto da Sede, uma saliência de misteriosa maquinaria à parte do Tempo. Pelos anos de sua semidormência tinha causado uma depressão numa grande área na planície de aterrissagem, tornando-se quase cunhada no local. Era uma grande protuberância, seus motores funcionando num tique-taque apenas suficiente para escondê-la de pesquisadores prescientes, especialmente dos Navegadores da Corporação, que teriam um prazer singular em trair as Bene Gesserit.