As Portas da Percepção & Céu e Inferno
Apêndices
Apenas uma minoria infinitesimal dos que morrem consegue ligar-se imediatamente ao divino Princípio; uns poucos são capazes de suportar a bem-aventurança visionária do Céu, e outros tantos vêem-se envoltos pelos horrores das visões do Inferno, ao qual não mais conseguirão escapar. A grande maioria acabará no tipo de mundo descrito por Swedenborg e pelos médiuns, e dele, é fora de dúvida, conseguirá passar, após preencher as condições necessárias, para outros mundos de visionária bem-aventurança ou para o da Suprema Luz.
Na minha opinião, tanto o espiritualismo moderno como a tradição antiga estão certos. Há um estado póstumo, do tipo descrito por sir Oliver Lodge em seu livro Raymond; mas há também um Céu de experiência visionária venturosa, da mesma forma que um Inferno de natureza semelhante à da aterradora experiência visionária a que estão submetidos os esquizofrênicos e alguns dentre os que fazem uso da mescalina. Mas há ainda outra experiência — esta, ímpar —, a da união com o Sublime Princípio.
APÊNDICES
APÊNDICE I
DOIS OUTROS MEIOS DE ATINGIR a experiência visionária, ainda que menos eficientes, merecem ser mencionados — o dióxido de carbono e a lâmpada estroboscópica. Uma mistura (completamente atóxica) de sete volumes de oxigênio e três de dióxido de carbono produz, nos que a inalam, certas modificações fisiológicas e psicológicas, já exaustivamente descritas por Meduna. Entre essas alterações, a mais importante (do ponto de vista de nosso estudo) é uma acentuada ampliação da capacidade de "ver coisas" quando os olhos se fecham. Em alguns casos, surgem apenas remoinhos de formas coloridas e, em outros, podem produzir-se recordações vividas de passadas experiências. (Daí o valor do CO2 como agente terapêutico.) No entanto, outros pacientes poderão ser transportados, pelo dióxido de carbono, para o Outro Mundo dos antípodas de suas consciências normais, onde gozarão brevíssimas experiências visionárias, inteiramente desligadas de suas histórias pessoais ou dos problemas da raça humana em geral.
À luz desses fatos, torna-se fácil compreender o porquê dos exercícios respiratórios da ioga: praticados sistematicamente, esses exercícios conduzem, após um certo tempo, a prolongadas suspensões da respiração. Essas paralisações produzem uma elevada concentração de CO2 nos pulmões e no sangue, a qual, por sua vez, diminui a eficiência do cérebro como válvula redutora e permite o acesso, à consciência, de experiências, visionárias ou místicas, lá de fora.
Os brados e o canto, contínuos e prolongados, podem produzir resultados semelhantes, ainda que menos acentuados. A menos que grandemente exercitados, os cantores tendem a expirar mais ar do que inspiram e, em conseqüência, a concentração de CO2 nos alvéolos pulmonares e no sangue fica aumentada, o que produzirá, como já vimos, uma redução da eficiência do cérebro, tornando possível a experiência visionária.
Essa a razão das intermináveis repetições vãs da magia e da religião. No canto do curandeiro, do feiticeiro, do conjurador de espíritos; no infindável entoar de salmos e de sutras dos monges cristãos e budistas; nos gritos e gemidos, horas a fio, dos pregadores itinerantes — em toda essa diversidade de crenças teológicas e convenções estéticas, o propósito psicoquímico-fisiológico permanece constante: aumentar a concentração de dióxido de carbono no organismo a fim de diminuir a eficiência da válvula redutora — o cérebro — até que esta dê passagem a percepções, biologicamente inúteis, oriundas da Onisciência. Eis o que, embora os pregadores, cantores e murmuradores não o saibam, tem sido sempre a verdadeira finalidade de palavras mágicas, ladainhas, salmos e sutras. "O coração" — disse Pascal — "tem suas razões". Mas ainda mais positivas e muito mais difíceis de decifrar são as razões dos pulmões, do sangue e das enzimas, dos neurônios e das sinapses*. O caminho para o superconsciente passa através do subconsciente, e o caminho — ou, no mínimo, um dos caminhos — para o subconsciente está na dependência do metabolismo celular.
Com a lâmpada estroboscópica, descemos da química para o reino ainda mais elementar dos fenômenos físicos. Sua luz de lampejos ritmados parece agir diretamente, através do nervo ótico, sobre as manifestações elétricas da atividade cerebral. (Por essa razão, há sempre um certo perigo no uso da lâmpada estroboscópica. Algumas pessoas sofrem de pequenas perturbações, sem que disso se dêem conta por sintomas claros e inconfundíveis. Expostas a uma lâmpada estroboscópica, tais pessoas podem sofrer um ataque epileptiforme. O risco não é muito grande, mas precisa ser levado em conta, pois a probabilidade de sua ocorrência é de um caso em oitenta.)
* Ponto onde o impulso nervoso passa do axônio de um neurônio para o dendrito de outro neurônio. Do estado momentâneo de uma sinapse depende a passagem ou não do impulso nervoso para o neurônio seguinte.
Sentar-se, de olhos cerrados, diante de uma lâmpada estroboscópica é uma experiência muito curiosa e fascinante. Tão logo a mesma é ligada, começam a surgir desenhos das mais vivas cores. Essas formas, longe de serem estáticas, modificam-se incessantemente; a cor dominante é uma função da freqüência de descarga do aparelho. Quando a lâmpada está cintilando a uma freqüência compreendida entre dez a catorze ou quinze vezes por segundo, predominam o laranja e o vermelho. O verde e o azul surgem quando a freqüência excede os quinze ciclos. Depois dos dezoito ou dezenove, os desenhos tornam-se brancos e cinzentos. Não se sabe, precisamente, a razão pela qual aparecem essas formas por efeito do estroboscópio. A explicação mais viável seria em termos de interferência de duas ou mais ondulações — as vibrações da lâmpada e as várias vibrações da atividade elétrica do cérebro. Essas interferências podem ser traduzidas pelo centro visual e por nervos ópticos em algo que a mente transforma em impressão consciente, sob a forma de desenhos coloridos e animados. Muito mais difícil de explicar é o fato, constatado isoladamente por vários experimentadores, de o estroboscópio tender a enriquecer e intensificar as visões provocadas pela mescalina e pelo ácido lisérgico. Eis, por exemplo, um caso que me foi comunicado por um amigo médico: ele tomara ácido lisérgico e estava percebendo, de olhos fechados, apenas formas móveis e coloridas. Em seguida, sentou-se diante de um estroboscópio. Ligada a lâmpada, essas formas geométricas transformaram-se, imediatamente, no que meu amigo descreveu como "uma paisagem japonesa" de incomparável beleza. Mas como explicar que essa interferência de duas ondulações possa produzir uma resultante de impulsos elétricos que venha a ser interpretada como uma paisagem japonesa viva, automodulada, diferente de tudo o que o paciente já vira, irradiada por luzes e cores preternaturais e impregnada de preternatural significado?
Esse mistério é, tão-somente, um caso particular de um mistério maior e mais amplo — a natureza das relações entre a experiência visionária e o que se passa no domínio das células e dos fenômenos químicos e elétricos do organismo. Tocando certas áreas do cérebro com um eletrodo finíssimo, Penfield conseguiu provocar a reavivação de uma longa série de recordações presas a determinada experiência passada. Essa reavivação, além de precisa em todos os seus pormenores de percepções, foi também acompanhada por todas as emoções que foram provocadas, a seu tempo, pelos fatos. O paciente, que se encontrava sob anestesia local, achou-se simultaneamente em duas épocas e lugares — na sala de operações, no presente, e no lar de sua infância, a milhares de quilômetros de distância e milhares de dias no tempo. Haverá — perguntaremos — alguma região do cérebro da qual o eletrodo de pesquisas possa retirar o Querubim de Blake, a mutável torre gótica de Weir Mitchell, incrustada de brilhantes jóias, ou a paisagem japonesa, indizivelmente bela, vista por meu amigo? E se, como creio, as experiências visionárias penetrarem em nosso consciente, vindas de algum lugar lá de fora, do infinito da Onisciência, que espécie de padrão neurológico ad hoc será por elas criado para o cérebro receptor e transmissor? E que acontecerá a tal padrão ad hoc quando a visão se esvair? Por que insistem todos os visionários na impossibilidade de repetir, ainda que de modo vagamente semelhante, em forma e intensidade, suas experiências transfiguradoras? Quantas perguntas e, no entanto, quão poucas respostas!