Boneco de Pano

Daniel Cole · Capítulo 32 de 43

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Boneco de Pano

Capítulo 29

Sexta-feira, 11 de julho de 2014

12h52

 

Olhando pelo espelho retrovisor, Emily Baxter achou que Ashley parecia nervosa no banco de trás. Ela havia cedido a direção a Finlay, uma novidade chocante naquele dia repleto de novidades chocantes, e ele escolhera o mais absurdo de todos os itinerários possíveis. O carro avançava a passos de tartaruga no trânsito congestionado. Lá pelas tantas ela precisou contar até dez para não explodir quando o sinal, abriu e apenas dois carros conseguiram passar para o outro lado do cruzamento.

Ela não havia trocado uma única palavra com Edmunds após a reunião, muito

menos permitido que ele a acompanhasse nas duas horas daquela viagem de ida e volta. Podia muito bem imaginá-lo agora com um sorrisinho estúpido enquanto vasculhava as coisas de Wolf em busca de mais provas para incriminá-lo.

Enquanto eles aguardavam o sinal abrir, o que não acontecia nunca, uma equipe

de policiais armados revirava pelo avesso os poucos e minúsculos cômodos do apartamento de Wolf, finalmente abrindo as caixas que vinham juntando poeira desde a mudança. Não o encontraram em casa ao arrombar a porta do imóvel.

A situação havia sido explicada apenas em linhas gerais para Ashley, que

afirmava não saber de nada: nem do paradeiro, nem da suspensão de Wolf. Como foi a última pessoa que o viu, Emily não tivera outra escolha senão mudar um pouco a verdade dos fatos ao relatar sua conversa com ele, deixando de lado o murro no rosto para evitar perguntas que ela não estava nem um pouco a fim de responder. Além do mais, aquilo não passava de um detalhe irrelevante.

Eles haviam buscado Ashley pouco depois do meio-dia com a intenção de

entregá-la a Simmons à uma e meia no estacionamento do estádio de Wembley. Emily tinha ligado para avisá-lo de que eles estavam atrasados. Até então ela e Ashley não haviam trocado uma só palavra. Nem mesmo Finlay, com sua habitual afabilidade, conseguira evitar que aquele longo e incômodo silêncio se instalasse dentro do carro.

A detetive Baxter se sentia vulnerável ali. Fazia quase dez minutos que eles

estavam presos na mesma rua, os pedestres costurando os carros ao atravessá-la, alguns passando a poucos centímetros de Ashley, que se tornava um alvo fácil naquelas circunstâncias. Quando outros três carros conseguiram atravessar o cruzamento (dois no sinal verde e uma BMW no amarelo), ela enfim se deu conta de onde eles estavam exatamente.

– Porra, Finlay, o que é que a gente está fazendo no Soho?

– Você pediu que eu dirigisse, não pediu?

– Sim, mas achei que “na direção certa” estivesse subentendido.

– Que caminho você teria feito no meu lugar?

– Shoreditch, Pentonville, Regent’s Park.

– Tem obra pra todo lado na região de King’s Cross.

– Ah, que bom então que a gente não ficou engarrafado por lá.

Era nisso que eles estavam pensando quando Ashley tirou o celular do bolso com discrição para ler a mensagem de texto que acabara de receber. Ouvindo o apito, Emily virou-se para ver o que era.

– O quê? Você ainda está com o seu telefone? Eles deviam ter confiscado isso há muito tempo. Vai, passa pra cá – disse ela, estendendo a mão com impaciência enquanto Ashley digitava sua resposta apressada. – Agora!

Ashley enfim desligou e entregou o aparelho. A detetive imediatamente tirou a bateria e o chip para depois jogar tudo no porta-luvas do carro.

– Porra, garota, a gente aqui, colocando nosso pescoço em risco pra te ajudar e você aí, papeando no telefone! Ah, tenha dó.

– Ela já entendeu – disse Finlay, colocando panos quentes.

– Quem sabe você não posta uma selfie no Facebook depois que chegar lá no seu esconderijo?

– Ela já entendeu, Emily! – gritou Finlay.

O carro de trás buzinou e só então ele viu que os dois da frente haviam seguido adiante. Arrancou para o cruzamento e parou no sinal vermelho; do outro lado se via o majestoso prédio do Palace Theatre.

– Esta avenida aí é a Shaftesbury? – perguntou Emily, estupefata. – Finlay, onde você estava com a cabeça quando achou que esse caminho pudesse ser o...

A porta traseira bateu, e ambos se viraram para trás. Ashley havia descido do carro.

A detetive Baxter saltou também e partiu em disparada quando avistou a garçonete abrindo caminho através de um grupo de turistas com mochilas idênticas para depois dobrar e esquina na avenida Shaftesbury. Finlay avançou o sinal para entrar na avenida também, mas numa questão de segundos precisou enterrar o pé no freio para evitar uma colisão no cruzamento. Cuspiu seu primeiro palavrão após um longo período de abstinência, depois deu ré.

Ashley entrou na primeira rua à esquerda e Emily, chegando à esquina, viu que ela acabara de atravessar o portal Paifang que dava entrada ao distrito de Chinatown. Então correu no encalço dela, mas novamente a perdeu de vista quando alcançou os pilares dourados do portal. A garota devia ter parado de correr para se misturar à multidão de pedestres que zanzava de um lado a outro no estreito corredor de lojas e restaurantes.

– Polícia! – ela foi gritando enquanto brandia seu distintivo no alto, ‐ acotovelando-se com os turistas que olhavam distraidamente para as lanternas vermelhas penduradas no alto.

Os lojistas riam e gritavam coisas incompreensíveis uns para os outros. Vários

restaurantes lançavam na rua a sua música alta e dissonante. Ambulantes preparavam suas comidas perfumadas, a fumaça misturando-se à poluição da metrópole. A policial sabia que perderia Ashley definitivamente se não a localizasse nos minutos seguintes.

Ao lado de um poste de luz havia uma lixeira, ambos no mesmo tom de

vermelho dos arcos que decoravam a rua. Indiferente aos curiosos, Emily empoleirou-se na lixeira e esquadrinhou o mar de cabeças à sua volta. Não demorou para avistar Ashley a uns 20 metros de distância, margeando as vitrines rumo a um segundo portal Paifang, do outro lado do qual ficava o pub O’Neill’s que ela conhecia tão bem.

Então saltou da lixeira e saiu empurrando ou atropelando as pessoas até

localizar Ashley outra vez. Já estava a uns 5 metros da garota quando a viu atravessar o portal e um carro desconhecido frear bruscamente mais adiante na rua. Ashley correu para o carro e entrou no banco de trás. O motorista, vendo que Emily se aproximava, arrancou às pressas e disparou avenida afora.

– Wolf! – gritou ela, desesperada.

Ele a tinha fitado diretamente nos olhos.

Ela repetiu o número da placa até que o memorizasse. Estava ofegante quando

pegou telefone e discou o número de Finlay.

Edmunds vinha trabalhando nas caixas de arquivo, uma de cada vez, enquanto Simmons analisava o histórico telefônico de Wolf dos últimos dois anos. De onde estavam, ambos ouviram o escândalo que Vanita fez ao telefone quando recebeu a notícia de que Ashley Lochlan se deixara sequestrar por Wolf. Não demoraram para vê-la sair para o salão e serem arrastados de volta para a sala de reuniões.

Vanita colocou-os a par dos acontecimentos, depois Edmunds perguntou: – Ela tem certeza de que era o Wolf?

– Sim – disse a comandante. – Já pedi que divulgassem a placa do carro,

prioridade máxima.

– Isso não pode sair daqui – falou Simmons.

– Concordo – disse Vanita.

– Mas a população pode nos ajudar a encontrá-los – argumentou Edmunds. –

Não temos a menor ideia do destino deles. Ashley está em perigo.

– Ainda é cedo pra afirmarmos isso – disse Vanita. – Sei que não temos provas irrefutáveis de nada, mas sabemos que ele está por

trás da coisa toda...

– Cai na real, garoto – disse Simmons. – Pensa bem na confusão que vai ser quando o mundo souber que foi o nosso principal detetive que arquitetou a porra toda. Como se isso não bastasse, deixamos o cara fugir com a próxima vítima dele!

Vanita assentiu pensativamente.

– Mas... – disse Edmunds.

– Um pouco de diplomacia não faz mal a ninguém numa situação dessas. Quanto a mim, não tenho a menor intenção de perder meu emprego antes de ter certeza absoluta de que Fawkes é culpado. Mesmo depois vamos ter de esperar o momento certo pra tornar a coisa pública.

Enojado com o que acabara de ouvir, Edmunds saiu da sala e bateu a porta, com força suficiente para aumentar a rachadura na divisória que ele próprio havia feito com a nuca na manhã anterior.

– Parabéns – disse Vanita a Simmons. – Gostei do jeito como você lidou com o garoto. Fico muito feliz em saber que ainda existe um administrador em algum lugar escondido aí dentro. Quem sabe agora as coisas não podem voltar a ser como eram antes, assim que passar essa sua fase “polícia e ladrão”?

Edmunds se refugiou no banheiro masculino e chutou a lixeira metálica num gesto incontrolável de raiva. Sua vontade era rir e chorar ao mesmo tempo diante daquela grande ironia: Wolf estava sendo protegido pela mesma burocracia que havia colocado todos naquela situação, por conta daquela rede de pessoas que colocava os próprios interesses acima de tudo, que vivia com a bunda virada para a parede, que se escondia atrás de normas, procedimentos e diplomacias. Se quisesse fazê-las agir, teria de encontrar provas concretas e cabais contra Wolf.

Também deveria ser rápido. Precisava entrar na cabeça de Wolf antes que ele percebesse o que estava acontecendo e começasse a apagar os próprios rastros. Precisava pegá-lo no seu momento de maior vulnerabilidade.

Remontando o celular de Ashley, os detetives Baxter e Finlay descobriram que ela vinha mandando mensagens para Wolf desde o início, informando sua localização. Wolf enviara apenas uma mensagem: “Rua Wardour. Corra.” Eles haviam retornado ao apartamento dela na esperança de encontrar por lá alguma pista sobre o paradeiro dos dois, mas a busca foi infrutífera. Já iam voltando para a New Scotland Yard quando receberam um telefonema, mandando que seguissem para a loja de conveniência de um posto de gasolina nos subúrbios da cidade.

Os fiscais de estacionamento haviam contatado a polícia após multar um carro e verificar a placa dele com uma câmera de rastreamento. O Ford Escort havia sido abandonado no lugar com as portas destrancadas e praticamente sem gasolina no tanque, sinal de que Wolf não tinha a menor intenção de voltar para buscá-lo. Imagens de uma câmera de vigilância mostravam a dupla saindo do Escort e sumindo de vista, provavelmente para pegar outro carro no mesmo estacionamento. Wolf agora estava com uma dianteira de quatro horas sobre eles.

– Como é que tudo isso se encaixa na tese ridícula do Edmunds? – perguntou

Emily a Finlay, voltando com ele para o Audi.

– Sei lá.

– Porque não encaixa! Ashley fugiu com ele porque quis. Não foi coagida a

nada. Ele está tentando salvar a garota, não matá-la!

– Vamos descobrir depois que o encontrarmos – disse Finlay. Ela riu como se ele estivesse sendo ingênuo.

– O problema é que nunca vamos encontrá-lo.

Edmunds lia sem atenção os panfletos espetados no quadro de avisos enquanto esperava para ser atendido na recepção do hospital St. Ann’s, olhando esperançoso toda vez que algum funcionário saía das portas de vidro que davam acesso às entranhas do prédio. A essa altura nem sabia direito o que estava fazendo ali; cogitava se realmente teria valido a pena despencar para aquele fim de mundo numa visita que custaria cinco horas do seu precioso tempo.

– Detetive Edmunds? – disse a mulher que finalmente veio a seu encontro, uma

senhora de aspecto triste ou cansado. – Sou a Dra. Sym, uma das diretoras – apresentou-se ela, e o conduziu para o labirinto de corredores, usando seu cartão magnético para abrir todas as portas que encontrava pelo caminho. A certa altura ela examinou rapidamente a papelada que levava consigo, separou uma das folhas e as deixou na colmeia de caixas postais. – O senhor queria fazer perguntas sobre um dos nossos... – Nesse mesmo instante ela avistou alguém com quem precisava falar com urgência. – Só um minuto – disse e saiu correndo ao encontro da pessoa, abandonando Edmunds nas imediações da sala de recreação.

Cavalheiro que era, Edmunds abriu a porta para uma senhora que vinha saindo

da sala, e ela passou por ele como se não houvesse ninguém à sua frente. Aproveitando a porta aberta, ele espiou o que havia dentro. A maioria das pessoas cercava a televisão, que berrava num volume ensurdecedor. Um homem, num acesso de raiva, arremessou para longe uma raquete de pingue-pongue. Outro lia junto da janela.

– Detetive! – chamou a diretora.

Edmunds fechou a porta da sala de recreação e foi ao encontro dela. – Vamos dar uma passada pela ala residencial antes de irmos para a minha

sala – disse a mulher. – É lá que está a pasta do Joel.

Edmunds parou onde estava.

– Joel?

– Joel Shepard – disse ela com uma pontada de impaciência. Só então se deu

conta de que o visitante ainda não havia dito o nome do interno sobre o qual queria falar.

– Joel Shepard? – repetiu ele, mais para si mesmo do que para a médica. Lembrava-se de ter visto o nome num dos casos consultados por Wolf no Arquivo Central. Dera-o como irrelevante na investigação que vinha fazendo.

– Desculpe – disse ela, esfregando os olhos fatigados. – Deduzi que você estava aqui pra falar da morte dele.

– Não, não – retrucou Edmunds rapidamente. – Não fui muito claro, não é? Mas... o que foi que houve com esse Joel?

A Dra. Sym estava cansada demais para estranhar o súbito interesse dele.

– Joel era um rapaz essencialmente doce, mas muito perturbado – explicou ela. – Sofria de um caso agudo de paranoia, com episódios de esquizofrenia e delírio. No entanto... em vista do histórico dele, nada disso chega a ser surpresa.

– Qual é exatamente o histórico dele?

A médica suspirou e disse:

– A irmã morreu. Isto é, foi morta. De uma maneira muito brutal. E ele, por sua vez, assassinou os responsáveis. O mal que gera o mal.

O quarto de Joel Shepard permanecia desocupado. As paredes já haviam sido caiadas, mas ainda se viam nelas as sombras de cruzes escuras. No piso se liam trechos bíblicos talhados na madeira. Arranhões estriavam o lado interno da porta.

– Às vezes não é possível apagar os rastros que os nossos pacientes mais perturbados deixam pra trás – lamentou a médica. – Estamos operando na nossa capacidade máxima, mas, claro, não há como alojar outro paciente neste quarto.

Edmunds não queria passar nem mais um segundo além do necessário naquele quarto frio e pestilento.

– Como foi que ele morreu? – perguntou.

– Suicídio. Uma overdose que não deveria ter acontecido. Como você pode imaginar, temos um controle bastante rígido sobre toda a medicação administrada. Ainda não sabemos como foi que ele conseguiu estocar um número suficiente de cápsulas pra... – Ela se calou de repente, percebendo que estava pensando em voz alta.

– Como ele justificava os assassinatos que cometeu? – perguntou Edmunds, correndo a mão sobre a maior e mais visível das cruzes.

– Não justificava. Dizia que um demônio qualquer, ou o Diabo em pessoa, havia “ceifado” aquelas almas por ele.

– Um demônio?

– Você perguntou, não perguntou? Pois é. Ele acreditava piamente nos próprios delírios. Dizia que tinha feito um pacto com o Diabo e que era apenas uma questão de tempo até que o Diabo aparecesse para reivindicar o que Joel tinha prometido.

– O quê?

– A alma dele, detetive – disse a médica, conferindo as horas no relógio. – Mais faustiano, impossível.

– Faustiano? – repetiu Edmunds, tentando lembrar-se onde mais tinha ouvido a mesma palavra.

– Sim. Como na lenda de Robert Johnson, aquele músico americano que vendeu

a própria alma ao Diabo numa encruzilhada pra obter seu sucesso...

Edmunds conhecia a história. De repente teve a impressão de que muitas das

cruzes caiadas tinham ficado mais escuras, mas sabia que isso era fruto da sua própria exaustão mental.

– Já que estou aqui... será que posso dar uma olhada no quarto ocupado por

William Fawkes? – disse ele casualmente, já se aproximando da porta para sair.

A médica ficou surpresa com o pedido.

– Não vejo o que...

– Não vou demorar – insistiu Edmunds.

– Tudo bem – bufou ela. Em seguida o conduziu para outro quarto também

recém-pintado, com objetos pessoais espalhados pelos poucos móveis. – Como eu disse, estamos lotados.

Edmunds foi perambulando pelo cômodo enquanto corria os olhos sobre o piso.

De repente deitou-se nele e espiou debaixo da cama metálica. Levantando-se, começou a tatear as paredes brancas.

A médica ficou intrigada.

– Posso saber o que você está procurando?

– Aquelas coisas que o tempo não apaga – resmungou ele. Em seguida subiu na

cama para examinar melhor a parede dos fundos.

– Fazemos um relatório bastante minucioso sempre que um quarto fica vago. Se

o interno deixou algo pra trás, está registrado.

Edmunds afastou a cama e se ajoelhou para procurar atrás dela algum vestígio

de Wolf. Novamente tateando a parede, sentiu alguns sulcos na alvenaria, onde antes se encostava a cabeceira da cama.

– Uma caneta, por favor? – pediu ele à diretora, mas sem ao menos olhar para

trás, receando perder seu achado de vista.

Ela tirou do bolso da camisa o que sobrava de um lápis, entregou-o, e Edmunds

imediatamente começou a rabiscar aquele pedaço da parede em que estavam os sulcos.

– Detetive, por favor!

Aos poucos foram surgindo letras e palavras. Terminado o trabalho, Edmunds

sentou-se na beirada da cama e sacou seu celular.

– Que foi? – perguntou a médica, preocupada.

– Sinto muito, doutora, mas vocês vão ter de encontrar outro quarto para este

paciente.

– Mas eu já disse que...

Edmunds não deixou que ela terminasse.

– Então preciso que a senhora tranque esta porta e não abra pra ninguém antes

que cheguem os peritos da nossa equipe. Fui claro?

Wolf e Ashley estavam na reta final da sua viagem de 650 quilômetros. Haviam feito uma única parada desde a troca do Ford Escort pela van bem mais discreta que Wolf havia deixado no estacionamento da loja de conveniência. O veículo era barulhento e desconfortável, mas havia cumprido perfeitamente o seu papel, e custara apenas 300 libras. Com vinte minutos de antecedência, eles o deixaram na área de desembarque do aeroporto de Glasgow e entraram juntos no saguão.

O rádio havia tagarelado o tempo todo durante as sete horas da viagem. O suicídio de Andrew Ford era recente o bastante para que volta e meia eles repetissem o mesmo trecho de som do corpo se estatelando no chão, para arrepio de Wolf. Muito se falava também sobre a morte próxima de Ashley: uma das estações entrevistara “a melhor amiga dela”, para grande espanto da própria Ashley, que nunca havia ouvido falar da mulher; o proprietário de uma casa lotérica fora obrigado a se desculpar publicamente após descobrirem que ele vinha fazendo um bolo de apostas para o horário exato do crime.

– Filho da puta – dissera ela ao ouvir a notícia, rindo e mais uma vez surpreendendo Wolf com seu senso de humor.

Dez minutos antes de chegar a Glasgow ele havia falado com o chefe da segurança do aeroporto, rezando para que os colegas ainda não tivessem emitido um alerta sobre sua fuga. O homem, como solicitado, esperava por eles no saguão, um negro boa-pinta que aparentava uns 40 e tantos anos de idade e vestia um terno impecável com o distintivo espetado ao bolso do paletó como um acessório. Wolf logo notou os dois policiais armados que ele, sensato, havia chamado para escoltá-lo após o estranho telefonema. Eram 20h20.

– Ah, detetive Fawkes, é você mesmo afinal – disse ele, apertando a mão de Wolf com firmeza. – Karlus DeCosta, chefe de segurança. E você só pode ser a Srta. Lochlan, claro. – Apertou a mão dela também, mas com um leve esgar de comiseração pelo apuro em que ela se encontrava. – Em que posso ajudá-los?

– Tem um avião saindo pra Dubai daqui a dezessete minutos – disse Wolf, direto ao ponto. – Preciso que ela embarque nele.

Se DeCosta ficou surpreso com a solicitação, não demonstrou.

– A senhorita está com seu passaporte?

Ashley tirou o passaporte da bolsa, entregou-o, e ele o examinou sem nenhuma pressa, apesar dos limites de tempo.

– Venham comigo – disse por fim.

Eles passaram pelo esquema de segurança e tomaram um carrinho elétrico para agilizar a viagem até o portão de embarque. Uma voz robótica anunciou a última chamada para o voo com destino a Dubai, e DeCosta, aparentemente habituado a situações de urgência, entrou com carrinho e tudo numa das esteiras rolantes vazias. Wolf achou isso um tanto desnecessário, sobretudo porque o homem havia falado por rádio com os comissários e instruído que o embarque não fosse finalizado antes da sua chegada. Mas via claramente que ele estava se divertindo.

Eles saltaram nas imediações do portão e DeCosta, com a agilidade de um herói

de cinema, correu para o balcão da companhia aérea. Assim que se viu sozinho com ela, Wolf falou baixinho para Ashley:

– Tem um avião saindo pra Melbourne duas horas depois que você aterrissar em

Dubai.

– Melbourne? – disse ela assustada. – É esse o plano? Uma viagem de férias?

Não posso, Wolf. E o meu filho? E a mamãe? Você não deixou nem que eu ligasse pra avisá-los! Cedo ou tarde eles vão ficar sabendo de tudo pelos noticiários e...

– Você precisa ficar em trânsito.

Ashley suspirou com desânimo, mas acabou cedendo. – Não é melhor a gente falar com ele primeiro? – perguntou ela, apontando

discretamente para o chefe de segurança.

– Não. Eu mesmo providencio tudo antes de você chegar a Dubai. Não quero

que ninguém fique sabendo do seu destino final. Quando você descer em Melbourne, já serão cinco e meia da manhã de domingo. Você estará segura.

– Obrigada. Por tudo.

– Quando chegar lá, vá direto pro consulado inglês e se identifique. – Wolf tomou

a mão dela e escreveu seu número de celular no dorso. – Me liga pra avisar que chegou bem.

– Vem comigo – disse ela.

– Não dá... – recusou Wolf, balançando a cabeça. Ashley já havia imaginado a resposta dele. Então deu um passo à frente e ficou

na ponta dos pés para se despedir com um beijo. Mas DeCosta não deixou. Do balcão mesmo ele gritou:

– Srta. Lochlan, a senhorita precisa embarcar imediatamente! Ela trocou o beijo por um sorriso acanhado, e foi saindo para o portão. – Até breve, Fawkes.

– Até breve, Lochlan.

DeCosta fechou pessoalmente o portão de embarque e solicitou à torre de controle

que o avião tivesse prioridade na decolagem. Wolf agradeceu-lhe a ajuda e pediu que ele continuasse onde estava. Depois passaria sozinho pela imigração, estava com seu passaporte no bolso. Nem sabia exatamente por que havia trazido o documento consigo, mas a presença dele havia tornado ainda mais difícil a decisão de recusar o convite de Ashley e permanecer em Londres para enfrentar toda a confusão que o aguardava. Era muito tentadora a ideia de fugir daquela situação toda enquanto havia tempo.

Ele ainda observava da janela quando o avião de Ashley taxiou na pista e alçou

voo no céu colorido do anoitecer, levando-a para bem longe do perigo, para bem longe dele, Wolf.