Boneco de Pano

Daniel Cole · Capítulo 33 de 43

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Boneco de Pano

Capítulo 30

Sábado, 12 de julho de 2014

2h40

 

Sentado na mesma cadeira desconfortável de sempre, na mesma sala inóspita de sempre, o tenente Dean Harris lia seu livro à luz do abajur de aparência elegante que ele havia tirado de uma mesa lateral para colocar no parapeito da janela. Deixara a televisão ligada, mas no mudo, apenas para ter um pouco de companhia enquanto enfrentava mais uma noite solitária naquela casa que não era sua.

Os outros tenentes da sua unidade haviam ficado verdes de inveja ao saber do envolvimento dele no caso Boneco de Pano. Ainda estavam naquele ponto da carreira em que contavam o número de cadáveres que tinham visto, e o “Galês” era o herói maior, o único deles que já havia disparado uma arma de eletrochoque contra alguém.

Dean agia como se aquele destacamento não fosse nada demais, embora estivesse inchado de orgulho. Contara tudo à família, claro, sabendo que a notícia se espalharia feito uma gripe, exagerando um pouco na importância do seu papel e inventando um título que até já havia esquecido. O que não havia previsto era que teria de passar duas semanas de absoluta solidão enquanto vigiava uma menina de 9 anos que por azar tinha o mesmo nome do alvo real de um assassino em série.

Os Lochlans mal o cumprimentavam, apenas toleravam a presença dele na casa enquanto tocavam a vida adiante. Estavam naturalmente nervosos, não deixavam a menina nem ir ao banheiro sozinha, mesmo sabendo que nenhum deles tinha qualquer envolvimento com o tal psicopata. Mas pelo menos ele, Dean, não era o único naquela situação. Provavelmente haveria mais uma dezena de Ashley Danielle Lochlans espalhadas pelo país, tão contrariadas quanto os policiais destacados para vigiá-las.

Ele bocejou feito um leão e conferiu as horas no relógio. Os turnos da noite eram sempre os mais difíceis. Embora tivesse reajustado seu relógio biológico e conseguisse dormir sete horas seguidas durante o dia, ele começava a sofrer com o cansaço. O dia demorava uma eternidade para amanhecer.

Ele tirou os óculos e esfregou os olhos doloridos. Ao reabri-los teve a impressão de que a sala parecia muito mais clara, sombras sinistras dançando nas paredes ao sabor das imagens da televisão. Demorou um instante para perceber que o holofote de segurança do jardim estava aceso. Então ficou de pé e espiou melhor através da janela alta. Claro, os aspersores de irrigação haviam sido automaticamente acionados pelo timer, fazendo com que os sensores de movimento acionassem a luz. Fora isso não havia mais nada no jardim, que, aliás, era muito bonito. Mais tranquilo, ele se sentou novamente, pegou seu livro e retomou a leitura.

Dali a vinte minutos os aspersores desligaram junto com o holofote, e a sala

pareceu mais escura do que nunca. Dean se recostou na cadeira dura para repousar um pouco os olhos, que doeram ao serem fechados. Pouco depois, achando que as pálpebras incandesciam, ele os reabriu e foi ofuscado pela luz branca que vinha de fora para inundar a sala inteira. Correu para a janela vizinha e viu que o holofote de segurança estava aceso de novo, mas apontando diretamente para a casa, deixando o jardim na mais completa escuridão.

Segundos depois alguém bateu violentamente à porta dos fundos. Com o coração

retumbando no peito, Dean rapidamente vestiu o colete tático que havia deixado no encosto da cadeira e foi para o corredor, os retratos da parede ainda mais tristes sob o excesso de luz. De repente lembrou que havia esquecido no chão da sala a arma que retirara do cinto para se acomodar melhor na cadeira. Tarde demais. Então abriu seu porrete retrátil e o ergueu acima da cabeça, pronto para atacar.

O holofote apagou.

Dean mal conseguia respirar. Submerso na escuridão e tendo a impressão de que

alguém vinha a seu encontro no corredor, ele golpeou cegamente o espaço à sua frente, mas acertou apenas o lambri da parede. Antes que pudesse desferir uma segunda porretada, foi golpeado na testa e caiu no chão.

Não sabia dizer quanto tempo ficara inconsciente quando pegou seu rádio

Airwave e apertou o botão de emergência: dali em diante tudo que ele dissesse seria transmitido a um plantonista por meio de um canal específico. A luzinha verde do aparelho refletia na madeira dos lambris, ajudando-o a se orientar quando ele se levantou para procurar o interruptor.

– Controle... preciso de reforços – engrolou ele antes de perder o equilíbrio e

deixar o rádio escorregar.

Dean praticamente caiu sobre o interruptor. Quando o lustre de cristal acendeu,

ele viu no chão um rastro de pegadas lamacentas indo na direção da escada que dava acesso ao quarto de Ashley. Então recolheu seu porrete e, como pôde, correu escada acima. No alto as pegadas estavam quase apagadas, mas apontavam claramente para a porta do quarto da menina.

Com o porrete em riste, ele irrompeu no cômodo. Não encontrou ninguém,

somente as pegadas que no carpete claro seguiam para a porta aberta da varanda, onde também não havia ninguém. Correu os olhos pelo jardim. Nada. De repente precisou se recostar no guarda-corpo de ferro, acometido pela tonteira até então represada pela adrenalina. Enquanto esperava por reforços, pegou seu celular e enviou uma mensagem de texto para o número que lhe haviam passado mais cedo.

Edmunds dormia profundamente sob o paletó. Nas últimas duas semanas ele dormira mais vezes no sofá da sala que na própria cama. Emily Baxter, por sua vez, estava acordadíssima à mesa da cozinha, lendo a mensagem que acabara de receber. Isso feito, ela foi para o andar de cima e, procurando fazer o mínimo possível de barulho, entreabriu a porta para ver como estavam os Lochlans, que haviam acampado na suíte de Edmunds e Tia. Os três pareciam dormir tão profundamente quanto ele.

Wolf estava certo. Ele havia advertido que o assassino iria atrás da menina se não conseguisse pegar a garçonete. O homem já dera provas da sua disposição para matar fora da lista: Khalid não fora a única pessoa a comer o peixe venenoso, outras duas haviam morrido também. Para preservar o próprio ego ele não pensaria duas vezes antes de matar uma criança.

A comandante Vanita relutara muito antes de permitir que Emily transferisse a família, acreditando que aquilo seria uma grande perda de tempo para todos os envolvidos. A detetive oferecera para alojá-los no seu próprio apartamento, ou pelo menos era isso que pretendia contar a todos no trabalho. Ela ainda não havia excluído a possibilidade de que Wolf estivesse sendo vítima de uma cilada. Afinal de contas a menina era a segunda Ashley Lochlan que ele havia tentado salvar no mesmo dia. Então decidira ligar para a única pessoa na qual confiava cem por cento, embora ainda estivesse furiosa com seu atrevido estagiário.

Com Tia na casa da mãe, Edmunds gentilmente concordara em alojar a antiga supervisora e seus aristocráticos refugiados. Após recebê-los, ignorara o cansaço e correra até uma loja de conveniência para comprar tudo o que faltava em casa, que não era pouco, sobretudo em vista do estado lamentável do seu saldo bancário. Ela achara bom que ele tivesse saído; pelo menos assim ele não tinha visto o horror estampado no rosto dos hóspedes quando eles depararam com a indigência do seu lar temporário.

– Ele devia demitir a empregada dele – cochichara a Sra. Lochlan ao emproado Sr. Lochlan, escandalizada ao ver a ração de gato espalhada pelo chão da cozinha.

Edmunds apagara no sofá antes mesmo de comer seu feijão com torrada e de ter a oportunidade de ficar sozinho com Emily. Melhor assim, ela pensou. Nada havia mudado. O garoto ainda acreditava na culpa de Wolf e não havia nada que o convencesse do contrário. Ele não conhecia Wolf como ela conhecia.

Ao mesmo tempo que amealhava argumentos em defesa de Wolf para usar com Edmunds na manhã seguinte, ela retomou o telefone e digitou uma rápida mensagem: “Menina OK. Precisamos conversar. Me liga.” Sabia que àquela altura Will já teria descartado o celular para evitar ser rastreado, mas ainda assim enviou sua mensagem: precisava sentir-se conectada de algum modo com a pessoa mais importante da sua vida; sequer conseguia pensar na real possibilidade de nunca mais tornar a vê-lo.

Andrea levantou-se silenciosamente para não acordar Geoffrey. Embrulhou-se no penhoar e desceu para a cozinha. Podia ver o sol despontando no céu azul através do teto de vidro, aquele mesmo teto que ela responsabilizava diretamente pela flutuação absurda das temperaturas no cômodo. Mesmo num dia de inverno, quando o sol estava a pino, a cozinha “capa de revista” ficava insuportavelmente quente, mas naquele amanhecer de verão seus pés estavam dormentes só de pisarem descalços na cerâmica gelada do piso.

Ela fechou a porta em busca de privacidade, sentou-se junto à bancada com um

copo de suco de laranja e levou o celular ao ouvido. Era estranho que mesmo após tantos anos de separação ela ainda se sentisse tão à vontade para chamar Wolf às cinco da manhã: apenas a ele e a mais ninguém, nem mesmo Geoffrey. Acostumara-se de tal modo à irregularidade de horários do ex-marido que achava possível encontrá-lo acordado tanto no meio da madrugada quanto no meio da tarde. Na realidade a coisa era mais profunda que isso. Ela sabia que podia contar com Wolf em qualquer circunstância, que sempre seria atendida quando precisasse conversar, estivesse ele acordado ou não. Era algo que ela sempre dera por certo.

Pelo menos até aquele momento.

Aquela era a sexta vez em doze horas que a ligação caía na caixa postal.

Tentaria de novo mais tarde no trabalho: melhor desligar que deixar um recado truncado. Tinha até o fim do dia para dar uma resposta a Elijah quanto à promoção e havia alcançado um estágio em que desistira de pensar no assunto, rezando para que uma luz descesse milagrosamente sobre sua cabeça no momento certo.

Geoffrey levantou às seis como sempre e ela fez um esforço consciente para não

mortificá-lo mais uma vez com suas dúvidas durante o café. Ele devia estar cansado daquela história, tanto quanto ela própria, e na realidade não havia muito que ele pudesse dizer ou fazer para ajudá-la. No entanto, antes de subir para o banho ele se despediu com votos de boa sorte para deixar claro que não havia esquecido de nada e que torcia por ela.

Andrea saiu de casa às 6h20 para adiantar as coisas naquele que prometia ser

mais um interminável dia de “Relógio da Morte” no jornal. Chegando à redação, logo viu por que Wolf não havia atendido suas chamadas. Seu e-mail atulhava-se de mensagens de pessoas que pediam algum tipo de recompensa financeira por fotos tiradas de Wolf e Ashley Lochlan nos lugares mais absurdos: no estacionamento de dois postos de gasolina, num carrinho de golfe no aeroporto de Glasgow e até em Dubai, numa foto bem desfocada, recebida minutos antes. O disparate das informações era o mesmo de uma reportagem que ela havia feito anos antes sobre a fuga de um leopardo do zoológico.

Sem saber o que fazer com aquilo, ela enviou à detetive Baxter uma mensagem

para ter notícias mais confiáveis de Wolf. Depois desceu antecipadamente para a maquiagem com o único intuito de evitar Elijah quando ele chegasse. Não precisava de ninguém para lembrá-la da decisão importantíssima que tinha de tomar até o fim do expediente, muito menos para pressioná-la. Ainda tinha dez horas pela frente.

A detetive-sargento Baxter ainda estava à mesa da cozinha quando ouviu Edmunds despertar no sofá da sala. Rapidamente guardou na bolsa a Glock .22 que havia surrupiado do depósito de provas. Não tinha a menor intenção de passar a noite desprotegida com a família Lochlan sob sua custódia. Alegando uma das suas próprias investigações, não tivera nenhuma dificuldade para entrar no tal depósito, depois bastara vasculhar algumas gavetas e outras caixas de provas para encontrar as balas Smith & Weston de que precisava para carregar o pente da arma.

Edmunds entrou cambaleando na cozinha e apesar dos olhos embaçados grunhiu alto quando viu a quantidade de louça que esperava por ele na pia. Ao que tudo indicava, os Lochlans simplesmente desconheciam o conceito de limpar a própria sujeira e haviam desperdiçado uma bela oportunidade de aprendê-lo.

– Bom dia – bocejou ele e se serviu de café.

– Obrigada pela guarida – disse Emily.

Ainda meio zonzo, Edmunds ficou sem saber se ela havia falado com sinceridade ou não.

– O assassino foi atrás da menina – prosseguiu ela. – Exatamente como o Wolf disse.

Edmunds abandonou seu café e sentou-se à mesa também, interessado nas novidades, esperançoso.

– O cara fugiu – disse ela, frustrando por completo as expectativas dele. – O policial que estava de plantão na casa levou uma porrada na testa, mas foi hospitalizado, vai ficar bem. – Ela fez uma pausa, preparando-se para o discurso que havia ensaiado na madrugada. – Olha, não culpo você pelo que aconteceu ontem, nem por ter suspeitado do Wolf. Diante das evidências que encontrou, não estaria fazendo seu trabalho direito se não tivesse suspeitado.

– Os peritos disseram que ele andou pesquisando Madeline Ayers no Google um dia antes de encontrarmos o Boneco – começou Edmunds.

Mas Emily não deixou que ele terminasse.

– Você não conhece o Wolf como eu. – Wolf tem um código de honra. Talvez seja a pessoa mais correta que eu conheço, mesmo que às vezes isso o leve a fazer coisas horríveis e ilegais.

– Como é que uma pessoa pode ser correta e ao mesmo tempo fazer coisas horríveis e ilegais? – retrucou ele, meio pisando em ovos.

– Todos nós sabemos que às vezes a lei e a coisa certa não andam juntas do jeito que a gente gostaria. Wolf jamais faria nada disso que você... – Ela interrompeu o que ia dizendo quando Edmunds se levantou para tirar da mochila uma pasta de arquivo e deixá-la sobre a mesa. – O que é isto? – perguntou ela, aflita, sem nenhuma vontade de abri-la.

– Ontem à tarde dei um pulo no hospital psiquiátrico em que o Wolf foi internado. O St. Ann’s.

A detetive franziu o cenho, deixando claro que não aprovava o que acabara de ouvir. O garoto havia passado dos limites.

– O que faz você pensar que tem o direito de...

– Encontrei uma coisa – disse Edmunds, falando mais alto que ela. – No quarto

dele.

Furiosa, Emily enfim puxou a pasta para si e abriu. A primeira fotografia

mostrava um quarto de paredes caiadas com os móveis fora do lugar. Ela olhou novamente para Edmunds, impaciente.

– Vai, continua – disse ele.

A segunda mostrava o que parecia ser uma mancha de sujeira na parede dos

fundos.

– Impressionante – ironizou ela, jogando a foto na mesa para pegar a terceira e

última delas. Sem dizer palavra, examinou-a por mais de um minuto. E precisou morder o lábio para não chorar diante do novato.

Porque a tal mancha de sujeira era na verdade uma espécie de decalque a lápis

que deixava à mostra uma série de nomes talhados na parede: os nomes de todos os desafetos de Wolf, incrustados na centenária alvenaria.

– Sinto muito – falou Edmunds baixinho.

Emily balançou a cabeça e empurrou a pasta para longe. – Você está enganado. Naquela época ele estava doente! Wolf nunca... Ele

jamais...

Ela sabia que estava mentindo para si mesma. De repente ficou achando que sua

vida inteira era um equívoco: afinal, se ela havia sido ingênua o bastante para acreditar em Wolf, nada impedia que o resto também fosse uma grande ilusão. O homem que ela tanto admirava, a que tentava agradar, que queria para si... esse homem realmente era o monstro hediondo que Edmunds vinha pintando.

Ela ainda podia ouvir os berros do jornalista Jarred Garland, podia sentir o

cheiro das entranhas queimadas do prefeito, lembrava-se de ter abraçado Chambers quando ninguém estava olhando, desejando a ele boas férias.

– É ele, Emily – revelou Edmunds. – Não há mais nenhuma dúvida. Sinto

muito.

Aos poucos ela foi erguendo os olhos para o novato, depois assentiu com a

cabeça. Realmente não havia mais dúvida.