Cai o Pano: o último caso de Poirot
Capítulo I · Quem não sentiu um súbito baque no…
Quem não sentiu um súbito baque no coração ao reviver uma antiga experiência, ou ao sentir uma velha emoção?
«Já passei por isto, antes...»
Por que razão estas palavras nos emocionam tão profundamente ?
Foi a pergunta que fiz a mim próprio, quando me sentei no comboio, olhando para a paisagem plana de Essex.
Há quanto tempo tinha eu já feito esta viagem? E pensava então (ridiculamente) que o melhor da minha vida já tinha passado. Ferido nessa guerra que, para mim, fora sempre a guerra... a guerra que estava agora a ser fustigada por uma segunda e ainda mais desesperada guerra.
Ao então jovem Arthur Hastings parecera, em 1916, já ter atingido a maturidade. Nessa altura não podia aperceber-me de que a vida apenas estava no início.
Conquanto não o adivinhasse, nessa primeira viagem, ia ao encontro do homem cuja influência viria a modificar e moldar a minha vida futura. Concretamente ia apenas passar uns dias com o meu velho amigo John Cavendish, cuja mãe, recentemente casada em segundas núpcias, tinha uma casa de campo com o nome de Styles. Esperava encontrar aí pessoas minhas conhecidas, numa estada agradável e nunca mergulhar, como então aconteceu, nas malhas tenebrosas de um misterioso assassínio.
Era novamente em Styles que ia encontrar agora o estranho homenzinho, Hercule Poirot, que tivera ocasião de conhecer, pela primeira vez, na Bélgica.
Que bem recordava a estupefacção que senti ao ver o seu rosto bojudo, ornado por um grande bigode, vir ao meu encontro na rua da aldeia.
Hercule Poirot! Desde esses dias em que se tornou o meu mais querido amigo, a sua influência alterara-me a maneira de ser. Foi na sua companhia, na caça de um e, depois de muitos criminosos, que conheci minha mulher, a mais verdadeira e doce companheira que um homem poderia encontrar.
Jaz agora em solo argentino, tendo morrido como sempre desejara, sem sofrer a pena de uma longa doença, nem o depauperamento da velhice. Mas deixara, neste mundo, um homem muito solitário e infeliz.
Ah! Se eu pudesse voltar atrás, viver toda a minha vida, novamente... Se a tivesse conhecido logo nesse dia de 1916, quando, pela primeira vez, viajei até Styles... Que mudanças se teriam operado em toda a minha existência!
E quantas faltas notaria, agora, entre os rostos familiares com que iria deparar de novo! A própria casa Styles fora vendida pelos Cavendish. John Cavendish morrera e sua mulher, essa fascinante e enigmática criatura, conquanto estivesse ainda viva, morava agora em Devonshire, Laurence tinha-se fixado, com a sua mulher e os miúdos, na África do Sul. Mudanças... mudanças por toda a parte!
Mas pelo menos uma coisa era estranhamente certa. Ia agora até Styles ao encontro de Hercule Poirot.
E como fiquei estupefacto ao receber a sua carta, vendo no topo timbrado o indicativo: Casa Styles, Styles, Essex.
Já não via o meu querido amigo há mais de um ano. Da última vez que o encontrara, fiquei chocado e triste. Era agora um velho, quase impossibilitado de andar, por causa do artritismo. Estivera no Egipto, na esperança de melhorar, com o clima quente e seco, mas regressara desalentado e a sua carta noticiava que se achava pior.
Apesar disso escrevera carinhosamente:
«Não o intriga, meu amigo, ler a direcção de onde lhe escrevo? Recorda-nos velhas memórias, não é verdade? Sim, estou aqui em Styles. Imagine que isto é agora o que eles chamam uma casa de hóspedes. É dirigida por um dos vossos velhos coronéis britânicos, muita ”gravata distintiva da Academia Militar” e referências ao serviço na índia... ”Poona”. Bien entendu, é a mulher dele quem faz andar tudo isto. Tem tanto de boa administradora e dona de casa, como de língua viperina e envenena toda a vida do pobre coronel. Se fosse comigo já lhe tinha ferrado uma sobradai
Li o anúncio no jornal e a fantasia impeliu-me a ver uma vez mais o local que foi o meu primeiro lar, neste país. Na minha idade, temos prazer em reviver o passado.
E agora, imagine. Encontrei um cavalheiro, um baronete, que é amigo do patrão da sua filha. (Esta frase soa um pouco como um exercício de Francês-Inglês, não acha?)
Concebi imediatamente um plano. Ele desejava convencer o amigo e a esposa, os Franklin, como sabe, a virem até cá, no Verão. Franklin, que nunca interrompe o seu trabalho, traria Judith consigo, para auxiliá-lo. Isso induziu-me, pelo meu lado, a convencê-lo a si a juntar-se-nos. Estaríamos todos juntos, en famille, o que seria muito mais agradável. Portanto, meu caro Hastings, dépêchez-vous, e apareça-nos aqui com a maior brevidade possível. Arranjei-lhe um quarto com banho (a nossa querida Styles está agora modernizada) e discuti o preço com a ”coronela” Mrs. Luttrell, até conseguir chegar a um acordo três bon marche.
Os Franklin e a sua encantadora Judith já cá estão a alguns dias. Está já tudo arranjado e, portanto, não se ponha com fitas.
A bientôt
O seu, sempre, Hercule Poirot.»
A perspectiva de voltar a estar com o meu amigo era aliciante e decidi não demorar o encontro. Já nada me ligava a casa. Dos meus filhos, um estava na Marinha e o outro, casado e dirigindo um rancho, na Argentina. Minha filha Grace casara com um militar e achava-se presentemente na índia. A única garota que me restava na Inglaterra, Judith, era aquela a quem secretamente mais estimava, aquela a quem devotava mais amor, talvez por ser a última, embora nunca a tivesse compreendido. Uma moça reservada, metida consigo e com os seus segredos, com a paixão da independência pessoal e rejeitando quaisquer conselhos, a ponto de discutir comigo e, às vezes, magoar-me intimamente. Minha mulher entendia-a melhor do que eu, afirmando-me que não se tratava de falta de confiança de Judith na minha pessoa, mas de uma espécie de impulso orgulhoso. Mas também ela, como eu, se mostrou várias vezes preocupada com a nossa filha. Um dia considerou que os sentimentos de Judith eram demasiado intensos e concentrados e que a sua reserva instintiva a privava de qualquer válvula de segurança. Os seus miolos eram os melhores da família e foi com agrado que a vimos desejar seguir a Universidade. Formou-se, há um ano, em Ciências Biológicas, e aceitou o cargo de secretária de um médico que se ocupava de pesquisas relacionadas com doenças tropicais. A mulher deste era, mais ou menos, uma inválida.
Ocasionalmente, cheguei a apoquentar-me com a ideia... se a sua absorção pelo trabalho e devoção ao patrão, não significariam que se apaixonara por ele, mas tranquilizei-me ao verificar que se tratava, puramente, de amor à ciência experimental.
Sempre acreditei que Judith gostava de mim, mas era naturalmente incapaz de demonstrá-lo, tornando-se impaciente e até hostil àquilo que ela considerava ideias sentimentais e ultrapassadas.
Para ser franco, sentia-me um pouco preocupado com a minha filha.
Neste ponto das minhas meditações, fui interrompido pela chegada do comboio à estação de St. Mary de Styles. Esta não tinha mudado, ao fim de tantos anos. Erguia-se ainda no meio dos campos, sem razão aparente para aí permanecer, afastada da aldeia. Contudo, quando o táxi me levou até esta, notei as alterações causadas pelos novos tempos. St. Mary de Styles estava quase irreconhecível, com garagens, bombas de gasolina, um cinema, dois grandes hotéis, novos edifícios e um grande bairro de casas camarárias.
Finalmente, entrámos em Styles. Aqui parecia retrocedermos aos tempos antigos. O parque estava como eu o conhecera, embora se visse bastante erva por aparar, dando um triste aspecto de abandono ao relvado. Virámos uma esquina e ficámos à vista da casa. Do lado exterior mostrava-se inalterada, conquanto carecesse de uma boa camada de tinta.
Tal como sucedera, anos atrás, quando da minha primeira chegada àquele local, achava-se um vulto feminino parado junto aos canteiros do jardim. Senti o coração bater um pouco mais vivamente. Então, o vulto endireitou-se e dirigiu-se na minha direcção. Ri interiormente, pois não poderia haver maior contraste entre a robusta Evelyn Howard de outros tempos e a frágil senhora, muito mais velha, com que agora deparava. Esta tinha cabelos brancos, levemente amarelados, maçãs do rosto rosadas, um par de olhos azuis, muito pálidos e um à-vontade de maneiras que estava longe de me agradar.
- E com certeza o capitão Hastings, não é verdade? - perguntou ela. - E eu com as mãos mais que sujas, sem poder cumprimentá-lo! Ficamos encantados Por tê-lo cá, por tudo quanto temos ouvido a seu respeiito. Ainda não me apresentei. Sou Mistress Luttrell. Meu marido e eu comprámos este lugar, num rasgo de loucura, e temos tentado tirar dele algum rendimento. Nunca pensara vir, um dia, a tornar-me hoteleira. Mas vou já tratar de si, capitão Hastings. Sou uma mulher de negócios, sabe? Arranjo sempre maneira de aumentar-vos as contas com uma série de extras.
Rimo-nos ambos, como se ela dissesse uma piada excelente, mas ocorreu-me que, provavelmente, Mrs. Luttrell estava a gracejar com o que seria pura verdade. E para além das maneiras encantadoras de senhora idosa, pude vislumbrar uma certa dureza no brilho dos olhos.
Embora lhe notasse na fala um certo sotaque, rolando as palavras, não me pareceu que tivesse sangue irlandês. Devia tratar-se de mera afectação.
Perguntei-lhe pelo meu amigo.
- Ah, coitadinho de Mister Poirot. Como ele tem estado ansioso à sua espera! Até despedaçaria um coração de pedra! Tenho uma enorme pena dele, a sofrer como sofre.
Enquanto caminhávamos para casa, a minha hospedeira ia descalçando as luvas.
- E a sua filha, capitão - prosseguiu ela -, que linda rapariga que ela é! Todos a admiramos tremendamente. Mas sou o que se costuma chamar uma mulher fora de moda e parece-me uma vergonha e até um pecado uma moça tão bonita como é, em vez de ir a reuniões e a bailes com rapazes, da sua idade, enterrar-se constantemente no laboratório, todo o dia debruçada sobre o microscópio. Aquilo é trabalho para estafermos, penso eu.
- Onde está Judith? - inquiri. - Está perto daqui?
Mrs. Luttrell fez uma careta e lamentou:
- Pobrezinha dela! Está encafuada numa espécie de estúdio, ao fundo do jardim. O doutor Franklin alugou-mo e transformou-o num laboratório improvisado, é claro. Encheu aquilo de porquinhos-da-índia... coitadinha das pobres cobaias... de ratos e de coelhos.
- Não me parece que pudesse vir a gostar dessas experiências, não acha, capitão Hastings? Ah, aqui está meu marido.
O coronel Luttrell acabava de contornar a esquina da casa. Era um homem muito alto, de certa idade, um rosto cadavérico, olhos azuis e o hábito de cofiar irresolutamente o seu bigodinho branco.
Tinha uma expressão um pouco vaga e gestos nervosos.
- Olá, George, o capitão Hastings acaba de chegar - anunciou ela.
O coronel apertou-me a mão.
- Veio no das cinco e quarenta, hem? perguntou.
- Em que outro poderia ter vindo? - criticou Mrs. Luttrell, azedamente. - E que interesse tem isso? Leva-o para cima e mostra-lhe o quarto, George. E talvez queira ir ver imediatamente Mister Poirot... ou prefere tomar chá, primeiro?
Assegurei-lhe que não desejava tomar chá e que desejava ver o meu amigo, quanto antes.
O coronel Luttrell estendeu o braço em direcção à porta e convidou:
- Certo. Venha daí. Espero que... a... já tenham levado as suas coisas lá para cima... hem, Dasy?
Mrs. Luttrell retorquiu asperamente:
- Isso é da tua lavra, George. Tenho estado a jardinar e não posso tratar de todas as coisas ao mesmo tempo.
- Não, não certamente! A... vou ver isso, minha querida.
Subi com ele as escadas de acesso à porta da frente e cruzámo-nos à entrada com um sujeito de cabelo grisalho, de constituição débil, que saía apressadamente, empunhando um binóculo de campo. Exteriorizava uma animação de certo modo infantil e exclamou:
- Vi-as agora mesmo: um par de toutinegras, a armarem ninho, lá em baixo, na figueira-do-egipto.
Quando entrámos no átrio, Luttrell esclareceu:
- É Norton. Tipo catita. Maluco por pássaros.
Estava ali mesmo outra pessoa, de pé junto da mesa do telefone. Era um homem de boa aparência, que estivera obviamente fazendo uma ligação.
Fitou-nos e protestou:
- Parece impossível! Gostaria de poder enforcar, esquartejar e queimar todos os empreiteiros e mestres-de-obras. Nunca fazem nada de jeito, o Diabo que os carregue!
Já devia ter passado dos cinquenta anos e tinha um rosto muito bronzeado e uma expressão atraente. Dava a impressão de ter vivido sempre ao ar livre, lembrando esse tipo de indivíduos, cada vez mais raros em Inglaterra, da velha escola, lançados para diante, adoradores do movimento e capazes de comandar.
Fiquei deveras surpreendido quando o coronel Luttrell mo apresentou como sendo Sir William Boyd Carrington. Eu sabia perfeitamente que fora governador de uma província na índia onde obtivera verdadeiro êxito. Também se tornara famoso como atirador de primeira classe e caçador de caça-grossa. O género de homem, reflecti com tristeza, que parece estar a extinguir-se nestes nossos degenerados dias.
- Ah! - exclamou ele. - Tenho gosto em conhecer, em carne e osso, essa famosa personagem: mom ami Hastings.
Riu-se e acrescentou:
- O querido velho belga farta-se de falar em si, sabe? E temos aqui, como sabe, sua filha, entre nós. É uma moça muito gentil.
- Não creio que Judith se «farte» de falar de mim - observei, sorrindo.
- Oh, não. E moderna de mais para isso. Hoje em dia, as raparigas parecem embaraçadas quando são levadas a admitir que tiveram um pai e uma mãe.
- Os pais - comentei -, são praticamente uma desgraça.
Sir William riu-se francamente.
- Bem, não leve o caso para esse lado - animou. - Não tenho filhos, o que é uma sorte muito pior. A sua Judith é um rebento muito formoso, mas sempre de sobrolho franzido. Acho isso um pouco alarmante.
Tornou a pegar no auscultador e justificou-se:
- Espero que não leve a mal, Luttrell, se eu mandar a sua central telefónica para o Inferno, hem?
- Que os leve o Diabo! Nunca fazem uma ligação em termos! - apoiou o coronel.
Começou a subir as escadas e segui-o. Conduziu-me ao longo da ala esquerda da casa, até a uma porta do extremo e depreendi que fora esse o quarto que Poirot me destinara. Era o mesmo que eu ocupara, em tempos idos.
Tinham operado mudanças na casa. Conforme tínhamos percorrido o corredor, notei, através de algumas portas abertas, que os espaçosos quartos antigos tinham sido seccionados de maneira a constituírem vários, mais pequenos.
O meu quarto, que nunca fora dos maiores, tinha sido poupado a essa compartimentação, não sofrendo qualquer alteração, salvo a instalação de água quente e fria, e de uma parede a um canto, que abrigava um pequeno quarto de banho. Mas fiquei desapontado quando notei que o tinham mobilado com móveis modernos, naturalmente muito mais baratos, em substituição dos que se adequavam à arquitectura da casa.
Afinal de contas, a minha bagagem já estava no quarto e o coronel explicou que o do Poirot ficava exactamente em frente do meu. Ia começar a dizer-me qualquer coisa, quando ecoou um grito, proveniente do átrio.
- George!
Luttrell estacou como um cavalo nervoso. Levou as costas da mão à boca e titubeou:
- Eu... a... acha isto bem?... Se precisar de alguma coisa, é só tocar...
- Georgel
- Vou já, querida. Vou já!
Correu para a porta e lançou-se a trote, pelo corredor. Por momentos, fiquei a vê-lo afastar-se, e, em seguida, senti o coração palpitar acelerado. Dei alguns passos e bati à porta do quarto de Poirot.
CAPITULO II
Nada é mais triste, na minha opinião, do que a devastação causada pela idade.
Meu pobre amigo! Já tive ocasião de descrevê-lo várias vezes. Faço-o agora novamente para que possam aperceber-se da diferença sofrida.
Coxo, em virtude do artritismo, via-se obrigado a impelir-se, a braços, numa cadeira de rodas. A sua cara gorducha mostrava-se agora flácida e pendurada. Tornara-se num homenzinho magro. Na verdade, o bigode e o cabelo mostravam-se, perfeitamente, negros de azeviche, contrastando com a palidez do rosto macilento e enrugado. Por nada deste mundo seria capaz de magoá-lo, exprimindo o que candidamente senti nesse momento. Aquele contraste era um triste erro. Há uma altura na vida em que a cor do cabelo morre, causando certo desgosto a quem vê, nessa despigmentação natural, um falso indício de senilidade. Se alguns anos antes me tivessem dito que a cor negra do cabelo e do bigode de Poirot saíam de um frasco de tinta, deixar-me-iam deveras surpreendido. Mas agora essa característica era por demais teatral, criando a impressão de que usava chino e adornava o lábio superior na intenção de divertir as crianças.
Só os seus olhos eram os mesmos de sempre, penetrantes e cintilantes, e agora, indubitavelmente, ternos de emoção.
- Ah, mon ami Hastings!... mon ami Hastings!
Avancei a cabeça e, como de costume, beijou-me nas faces. Depois, recostou-se ligeiramente, para ver-me melhor no conjunto, e repetiu:
- Mon ami Hastings!
Inclinou um pouco a cabeça para um dos lados e apreciou:
- Sim, está na mesma, as costas direitas, os ombros recuados, o cabelo grisalho... três distingue. Sabe, meu amigo, que resistiu bem ao tempo? Lês femmes, ainda manifestam interesse por si? Sim?
- Francamente, Poirot - protestei -, acha próprio?...
- Mas é um teste, meu amigo. E o único teste positivo. Quando garotas muito novas se aproximam de si, para falarem-lhe ternamente, muito ternamente... é o fim! «Pobre velhote», pensam elas, «devemos ser agradáveis para com ele. Deve ser horrível, chegar-se a este estado...» Mas você, Hastings, vous êtes encore jeune. Ainda tem possibilidade. É como lhe digo, cofie esse bigode, indireite os ombros e avance. O que é de estranhar é que você não se aperceba disso.
Forçou-me a rir.
- Você é o cúmulo, Poirot! Diga-me como é que se sente.
Com uma careta, confessou:
- Eu, meu caro, estou numa ruína. Não posso andar. Estou coxo e trémulo. Misericordiosamente, ainda posso alimentar-me sozinho, mas, no resto, tenho de ser tratado como um bebé. Posto na cama, lavado e vestido. Enfin, não é nada divertido. Mas se o exterior decai, o miolo ainda vibra como dantes.
- Sim, na realidade, você tem o melhor coração do mundo.
- O coração? Talvez, mas não me referia a isso. O cérebro, mon cher, é o que interessa, aquilo a que chamo o miolo. Estas circunvoluções cerebrais ainda funcionam magnificamente.
Pelo menos pude verificar claramente que não sofrera deterioração do cérebro, no que se referia à modéstia.
- E gosta de estar aqui? - interessei-me. Poirot encolheu os ombros.
- Para mim, basta-me. Não é o Ritz, como vê facilmente. Nada que se lhe compare. Quando vim para cá, o quarto que me deram não só era pequeno, mas também mal mobilado. Mudei-me para este, sem aumento de preço. Depois a cozinha é inglesa e péssima. Os grelos, de que os Ingleses gostam tanto, são enormes e rijos; as batatas, sempre cozidas, esboroam-se-nos na boca e todos os vegetais sabem a água e só a água. Ainda por cima, a completa ausência de sal e de pimenta em todos os pratos...
Fez uma pausa expressiva.
- Parece horrível - comentei.
- Não estou a queixar-me - precisou Poirot. Mas há-de concordar que esta chamada modernização... As casas de banho enfiadas dentro dos quartos de dormir, os ralos por todo o lado e as emanações que se exalam por eles e nos invadem o ambiente. Canos de água quente a gargarejarem durante todo o dia, mon ami, e ainda se fosse quente, mas só cá chega morna. É as toalhas, tão estreitinhas e tão finas!
- Há muito que dizer acerca dos tempos antigos - observei, pensativamente.
Lembrei-me da enorme casa de banho que existia em cada andar de Styles, com uma enorme banheira de mármore, forrada exteriormente a mogno, e as nuvens de vapor que se evolavam dela; os grandes vasos metálicos cheios de água fervente e as imensas toalhas de banho, felpudas e macias, que nos envolviam inteiramente e enxugavam a sério.
- Mas não estou a queixar-me - repetiu Poirot.
- Sinto-me feliz por sofrer por uma boa causa. Subitamente assaltou-me uma ideia.
- Você não está... quero dizer... Bem sei que a guerra prejudicou grandemente os investimentos e...
Poirot apressou-se a tranquilizar-me:
- Não, não, mon ami. Encontro-me nas melhores circunstâncias financeiras, se é nisso que pensa. Na verdade, sou um homem rico. Não foi uma questão de economia que me trouxe até cá.
- Ainda bem - murmurei. - Penso que compreendo o que sente. Conforme os dias vão passando, maior necessidade temos de recordar o passado. Cada qual procura recapturar, nas antigas imagens, emoções de tempos idos. No que me diz respeito, acho penoso reviver milhares de momentos emotivos, considerando preferível mante-los no esquecimento em que se envolveram. Gostaria que fizesse o mesmo. Temos que esquecer o passado e apenas viver o presente, se ainda nos resta algum futuro. De outra maneira, é como se abdicássemos...
- Não, de maneira nenhuma. Não me sinto nada inclinado a abdicações de espécie alguma.
- Passámos realmente uns dias maravilhosos - concedi tristemente.
- Está a falar por si próprio, Hastings. Quanto a mim, a minha chegada a Styles, quando aqui entrei pela primeira vez, nada teve de alegre. Era um refugiado, ferido, exilado da pátria; sobrevivendo por caridade numa nação estrangeira. Esses dias, para mim, em St. Mary de Styles não foram de forma alguma alegres. Nessa altura ainda não sabia que a Inglaterra viria a tornar-se-me numa segunda pátria; que acabaria por sentir-me aqui completamente feliz.
- Esqueci-me disso - admiti.
- Precisamente. Você atribui sempre aos outros os sentimentos que o possuem e as ideias que resultam da sua própria experiência. Se Hastings se sentia feliz, toda a gente deveria sentir-se igualmente feliz.
- Não, não - protestei, rindo.
- E mesmo que assim não seja - prosseguiu Poirot - quando você olha para trás, no tempo, afloram-lhe lágrimas aos olhos e exclama: «Oh! Aqueles dias felizes! Era então jovem!» Mas, na realidade, Hastings, você não era tão feliz como agora pensa. Foi duramente ferido, sofreu o inevitável afastamento do serviço activo, andou envolvido num complicado problema sentimental por apaixonar-se por duas mulheres ao mesmo tempo...
Ri-me e observei:
- Que memória maravilhosa você tem, Poirot!
- Ta, ta, ta. Recordo-me perfeitamente das fatuidades melancólicas que você murmurava, acerca de duas mulheres encantadoras.
- E lembra-se do que então me dizia? «Nenhuma delas será para si, mas coragem, man ami. Vamos caçar juntos e talvez...»
Calei-me. No consenso de Poirot, eu fora caçar para França e conhecera aí uma mulher...
Gentilmente, o meu amigo deu-me umas palmadinhas no braço.
- Eu sei, Hastings, eu sei. A ferida ainda está fresca. Mas não lhe serve de nada olhar para trás. Para a frente é que é o caminho.
Esbocei um gesto de desgosto.
- Olhar para a frente - objectei. - Para a frente, para onde e para quê?
- Eh bien, meu caro, temos trabalho para fazer.
- Trabalho? Onde?
- Aqui. Fitei-o espantado.
- Agora mesmo - insistiu ele - você acabou de perguntar-me porque decidi vir enterrar-me aqui. Talvez não notasse que não respondi a essa pergunta. Vou fazê-lo agora. Ando à caça de um assassino.
O meu espanto recrudesceu e confesso que, por um momento, pensei que ele não estivesse no seu juízo perfeito.
- Está a falar a sério?
- Certamente que estou. Por que outra razão se tornaria tão urgente pedir-lhe que viesse ter comigo?
Se as minhas pernas já não prestam para nada, o meu cérebro, como lhe disse, está melhor do que nunca. Lembre-se de que o meu sistema foi sempre o mesmo. Sentar-me e pensar. Pois isso é a única coisa que me resta, ou seja, o essencial. Para a parte activa desta campanha preciso do meu insubstituível e incomparável Hastings.
- Realmente pretende...?
- Pois está visto que pretendo. Você e eu, Hastings vamos voltar novamente a caçar, juntos... mais uma vez.
Precisei de alguns minutos para convencer-me de que Poirot não estava a caçoar comigo. Aquela proposta parecia-me tão fantasiosa que me custava a aceitá-la como sendo real, mas, na verdade, não tinha a menor razão para duvidar do seu estado de espírito e raciocínio.
Com um ligeiro sorriso, Poirot inquiriu:
- Então? Já está convencido? Confesse que, a princípio, pensou que esta minha cabeça não estava a funcionar muito bem.
- Não, não - apressei-me a refutar a ideia. Apenas me pareceu este lugar inapropriado para cena de um crime.
- Ah, pensou isso?
- Sim... bem, ainda não vi toda a gente que nos rodeia... mas...
- Quem foi que já viu?
- Apenas os Luttrell, um homem chamado Norton que me pareceu um tipo inofensivo, e Boyd Carrington... Confesso que este me agradou bastante.
Poirot acenou com a cabeça aprovativamente.
- Bem, Hastings, dir-lhe-ei que, quando conhecer o resto das pessoas desta casa, a minha declaração parecer-lhe-á tão improvável como agora.
- Quem mais vive cá?
- Os Franklin: o médico e a esposa; a enfermeira que cuida desta inválida e a sua filha Judith. Há tambem um homem chamado Allerton, que tem qualquer coisa de barba-azul, conquistador de senhoras, e uma tal Miss Cole, que anda à volta dos trinta e picos.
- E um deles é um assassino?
- Mas porquê... como... que foi que lhe deu motivo para pensar numa coisa dessas? Tive dificuldade em travar as perguntas e, por isso, saíram umas atrás das outras, atropelando-se.
- Calma, Hastings - aconselhou Poirot, sorrindo. - Vamos começar pelo princípio. Peço-lhe o favor de alcançar-me essa caixinha que está sobre a secretária. Obrigado. E agora a chave. Bien.
Abrindo o fecho, retirou da caixa um pequeno maço de papéis dactilografados e alguns recortes de jornais.
- Pode estudar isso à sua vontade, Hastings. Por agora não o aborrecerei com os artigos jornalísticos. São meras narrativas da Imprensa de várias tragédias, algumas vezes inexplicáveis, outras, sugestivas. Para ficar com uma ideia mais precisa dos casos, sugiro-lhe que dê uma vista de olhos por esse apanhado que redigi.
Profundamente interessado, comecei a lê-lo.
CASO A) ETHERINGTON
Leonard Etherington. Hábitos desagradáveis. Bebia demasiado e tomava drogas. Possuía um carácter peculiarmente sádico. Esposa jovem e atraente. Desesperadamente infeliz, com ele.
Aparentemente, Etherington morreu por envenenamento alimentar. O médico não ficou satisfeito com o próprio diagnóstico. Exigiu uma autópsia onde se detectou ter a morte sido causada por envenenamento arsenical.
Foi encontrado, em casa, veneno para ervas daninhas, em larga quantidade, contudo adquirido, muito tempo antes, para utilização no jardim.
Mrs. Etherington foi presa e acusada de assassínio.
Recentemente, estabelecera relações de amizade com um homem do Serviço Civil que regressara da índia. Não foi sugerida infidelidade carnal, mas comprovou-se a profunda simpatia que se estabelecera entre ambos.
Esse homem ficara noivo de uma rapariga que conhecera durante a viagem de regresso a Inglaterra. Prevaleceu certa dúvida sobre a data do recebimento, por parte de Mrs. Etherington, da carta em que o seu autor lhe anunciava o noivado. Ela afirmou que a recebera antes da morte do marido, o que poderia alienar o motivo.
Como as provas eram simplesmente circunstanciais, não havia forte razão para uma condenação, embora não existisse qualquer outro suspeito de crime, ou motivo.
O temperamento do marido conduziu a um movimento geral de simpatia pela viúva. O juiz decidiu proferir uma sentença de absolvição por benefício de dúvida.
Mrs. Etherington foi posta em liberdade. Todavia, a opinião pública julgou-a culpada. A sua vida tornou-se deveras difícil, tendo perdido amigos e demais relações. Morreu em resultado de ter ingerido uma dose excessiva de comprimidos soporíferos, dois anos depois do julgamento.
O resultado do inquérito foi: morte acidental.
CASO B) MISS SHARPLES
Solteirona idosa. Uma inválida. Doença causadora de grande sofrimento. Era tratada por uma sobrinha, Freda C/oy, que sempre cuidara dela. Miss Sharpies morreu em resultado de uma dose excessiva de morfina. Freda Clay admitiu a possibilidade de um erro na administração da dose desse medicamento. Declarou que a tia estava a sofrer horrivelmente, pelo que lhe deu uma dose superior de morfina, sem pensar que isso poderia matá-la. À Polícia considerou o acto deliberado e não um mero erro, mas as provas eram insuficientes e não pôde processá-la sob acusação de homicídio voluntário.
CASO C) EDWARD RIGGS
Trabalhador agrícola. Suspeitou de que a sua mulher o atraiçoava com o senhorio, Ben Craig.
Craig e Mrs. Riggs foram encontrados mortos a tiro pela caçadeira de Edward. Riggs entregou-se à Polícia, declarando que devia ler cometido o crime, mas não conseguia recordar-se nem de quando, nem como. Afirmou que a sua memória se recusava a explicar-lhe o fenómeno. Fizera um vácuo amnésico em relação ao seu acto.
Foi sentenciado à morte mas, posteriormente, a pena foi-lhe comutada em prisão perpétua.
CASO D) DEREK BRADLEY
Envolvera-se numa aventura amorosa com uma rapariga. Sua mulher descobriu a traição matrimonial e decidiu envenená-lo.
Bradley morreu em virtude de ter ingerido cianeto de potássio ministrado numa cerveja.
Mrs. Bradley foi presa e acusada de homicídio premeditado. Fraquejou durante o contra-intenogatório. Foi condenada e enforcada.
CASO E) MATTHEW LITCHFIELD
Déspota idoso. Vivia com quatro filhas, não lhes permitindo qualquer diversão ou dispêndio de dinheiro.
Certa tarde, ao regressar a casa, foi atacado pelas costas e assassinado com uma pancada desfechada no crânio.
Mais tarde, depois da investigação policial, a filha mais velha, Margaret, apresentou-se na esquadra e confessou-se autora do crime.
Declarou tê-lo perpetrado, para que suas irmãs mais novas pudessem viver a vida, antes que fosse tarde de mais.
Litchfield, que era muito avarento, deixou uma grande fortuna.
Margaret Litchfield foi considerada demente e internada em Broadmoor, mas morreu pouco tempo depois.
Li atentamente, porém com crescente desconfiança. Finalmente, pus o papel de lado e olhei para Poirot inquiridoramente.
- Então, mon ami, que me diz?
- Lembro-me do caso Bradley - respondi com lentidão. - Li as notícias dessa altura. Era uma mulher muito fina, mesmo bela.
Poirot confirmou com um aceno de cabeça.
- Mas tem de esclarecer-me - observei. - De que se trata?
- Diga-me primeiro o que é que tudo isso lhe parece?
Fiquei deveras embaraçado.
- O que me deu foi uma compilação de cinco casos de homicídio, completamente diferentes uns dos outros. Ocorreram em lugares distintos e foram cometidos no seio de classes sociais também diferentes. Além disso, não ressaltam quaisquer semelhanças particulares entre cada um desses crimes. Poderemos discernir um caso de ciúme; um caso de uma mulher infeliz, procurando desembaraçar-se do marido, para refazer a sua vida; outro, tendo o dinheiro por motivo; um outro ainda, provocado por aquilo a que você chamaria motivação egoística, embora o criminoso não tivesse tentado escapar ao castigo, e o quinto, francamente brutal, poderia ter sido cometido sob influência do álcool.
Fiz uma pausa e manifestei a minha dúvida:
- Existe algo de comum, entre estes crimes, que me tenha escapado?
- Não, não há. Você foi muito exacto no resumo que expôs. O único ponto que devia ter mencionado e que, na realidade, não mencionou foi o facto de, em todos esses casos, não ter existido uma dúvida absolutamente positiva, nem uma certeza, igualmente inabalável.
-- Receio não estar a perceber aonde quer chegar.
- Por exemplo, Mistress Etherington foi absolvida mas, apesar disso, toda a gente se convenceu de que assassinara o marido. Freda Clay não foi abertamente acusada, mas ninguém pensou noutra alternativa para solução do crime que não fosse homicídio voluntário. Riggs declarou não poder recordar-se de ter morto a esposa e o amante, mas deu-se o caso de não haver qualquer outro suspeito que pudesse ter interesse no crime. Margaret Litchfield confessou, mas foi considerada demente. Em todos os casos, contudo, Hastings, só surgiu um suspeito: um único, em todos eles.
Franzi as sobrancelhas.
- Sim, é evidente, mas não alcanço que inferências particulares podem ressair dos factos apresentados.
- Tem razão, mas repare que estou a caminho de um ângulo que você ainda não considerou. Suponha, Hastings, que em cada um destes casos que desenterrei houve um facto desconhecido, comum a todos eles?
- Que quer dizer com isso?
Lentamente, Poirot proferiu:
- Pretendo ser muito cuidadoso no que agora lhe digo. Deixe-me apresentar-lhe o assunto desta maneira. Há uma certa pessoa, X, aparentemente alheia aos cinco casos, sem nenhum motivo conhecido para atentar contra a vida da vítima. Num dos casos, conforme tive ocasião de verificar, X encontrava-se a centenas de quilómetros do local onde o crime foi cometido. Apesar disso, posso declarar-lhe o seguinte: X tinha relações íntimas com Etherington; X viveu durante certo período na mesma aldeia de Riggs; estava relacionado com Mistress Bradley; tenho uma informação testemunhal de que X costumava passear, na rua, com Freda Clay e, finalmente, estava perto da casa onde o velho Matthew Litchfield foi assassinado. Que me diz a isto?
Fitei-o boquiaberto.
- Sim, são demasiadas coincidências - considerei lentamente. - Em dois ou três casos, ainda se admitem, mas em cinco, parecem-me suspeitas. Isso significa que deve existir qualquer outra ligação entre os diferentes crimes.
- Presume exactamente o que presumi?
- Que X é o assassino? Sim.
- Nesse caso, Hastings, já está habilitado a dar mais um passo em frente, comigo. Deixe-me só dizer-Ihe isto: X está nesta casa.
- Aqui, em Styles?
- Aqui, em Styles. E que inferência pode agora extrair deste facto?
Já sabia o que ele ia dizer e desafiei-o:
- Vá lá, diga-o lá!
Gravemente, Hercule Poirot proferiu: - Em breve será cometido um assassínio... aqui nesta casa.
CAPÍTULO III
Por alguns momentos fiquei a olhar para ele, perturbado, mas logo reagi.
- Não, não haverá crime algum. Poderá evitá-lo.
Poirot olhou-me com expressão afectiva.
- Meu muito leal amigo. Como aprecio a sua fé nas minhas possibilidades. Tout de même, não estou certo se essa sua confiança se justifica no presente caso.
- Disparate. Certamente que pode prevenir... Anular a acção criminosa.
A voz de Poirot tinha uma entonação grave, quanto solicitou:
- Reflita um minuto, Hastings. Qualquer pessoa pode prender um assassino. Mas como poderá evitar um assassínio?
- Bem, você pode... bem, quero dizer... se já souber com antecedência...
Parei desmoralizado, por avaliar a dificuldade.
- Está a ver? - evidenciou Poirot. - Não é tão simples como isso. Na realidade, há três métodos para tentar evitar-se um crime. O primeiro é avisar-se a vítima, colocando-a em guarda. Ora isto raramente tem êxito, porque é inacreditavelmente difícil convencer alguém, no seu estado normal, de que o querem matar e toda a gente se recusa a acreditar no perigo, se este parte de pessoas que estão próximas e são queridas. Aquele, sobre quem paira a ameaça, acaba por mostrar-se indignado com a nossa «calúnia».
«O segundo método baseia-se em advertir o assassino potencial; dizer-lhe numa linguagem que apenas é levemente velada: ”Conheço as suas intenções; se Fulano de Tal morrer, pode estar certo de que você será enforcado.” Este método tem-se mostrado mais eficiente do que o anterior, mas é igualmente falível na maioria dos casos. Um assassino, meu caro amigo, é mais obcecado do que qualquer outra pessoa, neste mundo. E considera-se sempre muito mais esperto do que todos os outros que o rodeiam; mesmo que alguém suspeite dele ou dela, pensará que poderá ludibriar a Polícia. E ele (ou ela) irá para diante e será enforcado, o que nos dá uma satisfação discutível.
Após uma pausa, disse pensativo:
- Por duas vezes, ao longo da minha vida, tive ocasião de avisar um assassino. Uma vez no Egipto e outra, num outro local. Pois em ambos os casos o assassino estava determinado a matar... e o mesmo pode acontecer aqui.
- Disse há pouco que havia um terceiro método - lembrei com certo interesse pois, esse, desconhecia-o.
- É verdade. Para esse, exige-se-nos demonstrar a maior ingenuidade. Temos primeiro de calcular exactamente quando e como o crime vai realizar-se e estarmos prontos a intervir no preciso momento psicológico. Torna-se necessário deter o assassino, antes que tinja as mãos de sangue, mas já culpado de intenção criminosa, sem a menor dúvida. E isso, meu amigo, posso assegurar-lho, é empresa da maior dificuldade e delicadeza, cujo êxito nunca podemos determinar, com antecedência.
- Desses três métodos, qual preconiza para o presente caso?
- Possivelmente, todos três, sendo o primeiro o mais difícil de pôr em prática.
- Porquê? Pensei que fosse o mais simples.
- Seria, se conhecêssemos, de antemão, a identidade da vítima. Mas não se apercebe, Hastings, que presentemente não sabemos quem ela venha a ser?
- Porquê?
Mal me saíra dos lábios esta pergunta, compreendi que resultara de irreflectida precipitação. Deveria haver um elo de ligação entre os cinco crimes conhecidos, mas ignorávamos qual era. Faltava-nos o motivo vital de todo o enredo. E desconhecendo-o não poderíamos descobrir sobre quem incidia a ameaça.
Poirot anteviu, pela minha expressão, que eu já divisara a dificuldade da situação.
- Como vê, meu amigo, não é coisa fácil.
- Não. Já dei por isso. Portanto, não conseguiu descobrir o respectivo elo de ligação?
- Nada!
Tornei a reflectir, durante alguns instantes. No cado dos crimes do ABC deparáramos com uma questão de séries alfabéticas, mas no presente, tratava-se de coisa muito diferente.
- Está certo de que não se tratará de um motivo puramente financeiro, como já detectou no caso de Evelyn Carlisle?
- Não, meu caro Hastings. Pode estar certo disso, foi o primeiro elo que explorei mentalmente. Não se coaduna com os restantes crimes.
Aquilo também era verdade. Poirot debruçava-se sempre, cinicamente, sobre a motivação «dinheiro».
Meditei novamente. Uma vingança de qualquer espécie? Parecia mais de acordo com a generalidade dos factos. Mas embora fosse admissível, como se interligariam os crimes? Lembrei-me de um outro caso, em que todas as vítimas tinham participado num júri, durante um julgamento, e em que o criminoso se vingara eliminando-as metodicamente. Tive o palpite de que estaríamos perante uma série de similar motivação, mas confesso que me envergonhei de arriscar essa hipótese em voz alta. Se fosse essa a solução e eu pudesse mais tarde apresentá-la, melhor cimentada, a Poirot, faria um brilharete.
Então decidi-me a perguntar:
- Chegou a algura de dizer-me quem é X. Quem é ele?
Perante o meu intenso interesse, Poirot respondeu:
- Ora aí está, meu amigo, o que não vou de maneira alguma dizer-lhe.
- Patetice! Porque não?
Os olhos de Poirot fulgiram.
- Porque, mon cher, você continua a ser o mesmo velho Hastings. Porque você torna-se reservado, retendo a fala, e aquilo que os seus lábios não dizem, enquanto se senta em frente do suspeito, de boca cerrada, declara-o a sua expressão. Praticamente, os seus olhos gritam: «Estou a olhar para um criminoso.»
- Devia ao menos dar-me o crédito de um certo jeito para a dissimulação - protestei.
- Quando dissimula, ainda é pior - criticou Poirot. - Não, não, mon ami, temos que presidir aos acontecimentos, absolutamente incógnitos, tanto você como eu. Quando chegar o momento preciso, deitamos-lhe as garras.
- Seu diabo obstinado! - apostrofei-o. - Também tenho bons miolos.
Calei-me subitamente, mal ouvi baterem à porta. Poirot convidou:
- Entre.
Era minha filha Judith. Gostaria de descrevê-la, mas fui sempre fraco nesse género de exposição. Mesmo assim direi que é alta, tem sobrancelhas arqueadas e naturalmente finas e castanhas, com um perfil muito correcto e uma linha clássica de queixo e malares. No seu conjunto, a expressão que daí resulta, transpira austeridade. Tem um ar grave e concentrado, como se pendesse sobre ela a ameaça de uma tragédia.
Depois de entrar, parou e fitou-me, sem correr a beijar-me.
- Olá, pai - disse, sorrindo.
O seu sorriso exprimia, de certo modo, algum embaraço, mas senti, apesar da ausência de exteriorização, que lhe causava prazer ver-me. - Bem - disse eu, sentindo-me ridículo, como sempre me acontecia, ao encarar a nova geração. Aqui estou eu. Decidi vir até cá.
- Foi muito inteligente da sua parte - retorquiu ela, acrescentando: - querido.
- Estive a falar a seu pai da cozinha cá da casa disse Poirot.
- É má? - perguntou Judith.
- Não devia ter feito essa pergunta, minha querida. Significa que você não pensa noutra coisa que não sejam tubos de ensaio e microscópios. O seu dedo médio está sujo de azul-de-metileno. E não é de bom presságio, para um marido, verificar que a esposa não dedica o menor interesse pelas coisas relacionadas com o seu estômago.
- Para que deveria preocupar-me se não tenciono ter marido - observou ela.
- Certamente que vai ter um marido. Para que outra coisa criou Deus uma mulher?
- Espero que para muitas outras coisas úteis disse Judith.
- Lê manage antes de tudo o mais! - sentenciou Poirot.
- Muito bem - anuiu ela. - Vai procurar-me um belo marido e, então, procurarei olhar cuidadosamente pelo seu estômago.
- Está a rir-se de mim - criticou Poirot. - Mas chegará o dia em que se convencerá como os velhos são ajuizados, nas suas predições.
Ouviu-se nova pancadinha na porta e o Dr. Franklin entrou. Era um homem alto, um pouco anguloso, de cerca de trinta e cinco anos, queixo voluntarioso, cabelo ruivo e olhos de um azul brilhante. Pareceu-me, logo à primeira vista, o tipo mais desajeitado que tinha encontrado até então. Andava sempre aos encontrões a qualquer coisa. Bateu numa mesinha e, ao afastar-se chocou com a cadeira de rodas de Poirot. Automaticamente virou a cabeça e disse:
- Peço perdão.
Senti vontade de rir mas notei que Judith permanecera inalterada, como se estivesse já habituada àquele género de coisas.
- Lembra-se do meu pai? - perguntou ela, à laia de apresentação.
O Dr. Franklin estacou, abanou a cabeça nervosamente.
- Certamente, certamente que sim! - confirmou, sorrindo apologeticamente, com uma expressão um pouco infantil. - Desculpe-me. Sou tão distraído. Bati numa coisa qualquer e não reparei. Perdoe-me, sim?
O relógio deu horas e Franklin olhou para ele, alarmado. - Meu Deus! Já é tão tarde!? Vou meter-me em sarilhos! Prometi a Bárbara ler-lhe um pedaço, antes do jantar.
Dirigiu-nos uma careta de jovem apoquentado e saiu apressadamente, não sem ter colidido com a umbreira da porta.
- Como está Mistress Franklin? - inquiri depois de ele ter desaparecido, corredor fora.
- Na mesma, ou ainda pior - informou Judith
- É muito triste o seu estado de invalidez - comentei.
- E terrível para a vida de um médico - observou Judith. - Precisam de pessoas saudáveis à sua volta, quando não estão imersos nos problemas dos seus doentes.
- Como a gente nova é cruel - censurei.
Friamente, Judith ripostou:
- Limitei-me a expor um facto.
- Apesar de tudo - interveio Poirot -, o doutor Franklin foi a correr, para poder satisfazê-la com a sua leitura.
- Só prova que é estúpido. A enfermeira sabe ler e pode perfeitamente fazê-lo. E ela também o sabe, mas nunca o faz. Pessoalmente detestaria forçar, fosse quem fosse, a ler-me fosse o que fosse.
- Bem, os gostos diferem de pessoa para pessoa - disse, tentando amenizar a conversa.
- Mistress Franklin é uma mulher supinamente estúpida - afirmou ela.
- Então, mom enfant! Não concordo consigo contrariou Poirot.
- Nunca se interessa por ler seja o que for, a não ser uma ou outra novela barata. Não tem, nem sequer simula dedicar, o menor interesse pelo trabalho dele. Está-se nas tintas para os acontecimentos que a rodeiam e só lhe interessa tagarelar acerca da sua saúde, para aqueles que têm paciência para aturá-la.
- Mantenho a minha opinião - insistiu Poirot -, de que ela é capaz de utilizar as suas células cinzentas Com sentidos e campos que você, minha amiguinha, ignora completamente.
- E uma mulher do género demasiado feminino - classificou Judith. - Toda ela, cucurus e ronrons. Não sei se aprecia as mimalhas desse tipo, tio Hercule.
- De maneira nenhuma - esclareci. - Ele gosta delas grandes, flamejantes e eslavas, se possível.
- É assim que você me afasta da concorrência, Hastings? - protestou Poirot. - O seu pai, Judith, teve sempre uma queda para os cabelos castanhos. Meteram-no em sarilhos, por mais de uma vez. Judith sorriu-nos indulgentemente e motejou:
- Vocês os dois são uma boa parelha, deixem estar!
Virou-nos as costas e saiu.
- Tenho de desfazer as malas e ainda quero tomar um banho, antes de ir para a mesa - anunciei.
Poirot tocou uma campainha, suspensa ao alcance da mão e, um ou dois minutos depois, acorreu um criado de quarto... o seu criado privativo.
Fiquei surpreendido ao reparar que este homem era um estranho para mim.
- Onde está o seu velho George? - inquiri.
O velho George era bastante mais novo do que Poirot, mas acompanhara-o durante muitos anos.
- Quis voltar para junto da família - respondeu Poirot. - Tinha o pai doente. Mas espero que regresse qualquer dia destes. Entretanto...
Sorriu para o criado.
- ... Curtiss vai tratando de mim.
Curtiss sorriu respeitosamente. Era um tipo enorme, de expressão bovina e a estupidez claramente estampada nela.
Enquanto me dirigia para a porta, notei que Poirot arrumava os seus papéis, cuidadosamente, na caixa.
Foi com as ideias francamente perturbadas que atravessei o corredor para enfiar no meu quarto.
CAPITULO IV
Nessa noite, desci para jantar com a sensação de que a vida se tornara subitamente irreal.
Enquanto me vestia, surpreendi-me, mais do que uma vez, a perguntar-me se Poirot teria inventado todo aquele enredo.
Afinal de contas, o meu querido parceiro era, agora, um velho, tristemente alquebrado pela doença. Podia, na verdade, afirmar que o seu cérebro se achava tão brilhante como sempre, mas, estaria, realmente?
Toda a sua vida decorrera no trilho de crimes. Seria de surpreender que, no seu termo, imaginasse crimes onde não existissem? A sua imobilidade forçada não o teria afectado seriamente? A inacção pode desenvolver doentiamente o espírito de uma pessoa temperamental e profissionalmente activa. Era natural que tivesse inventado mais um criminoso para uma das suas brilhantes caçadas, desta vez fictícia.
Pensando maduramente, podia achar-me perante um raciocínio perfeito, mas proveniente de um cérebro afectado pela neurose.
Coleccionara uma série de recortes de artigos jornalísticos sobre crimes e entrelera algo que não estava, certamente, escrito nem sequer em parte alguma a não ser na sua conturbada imaginação.
Provavelmente, Mrs. Etherington envenenara mesmo o marido; o lavrador, a mulher e o amante; a rapariga enchera a tia de morfina, muito para além da conta; a jovem esposa ciumenta eliminara o esposo infiel, e a mana solteira vingara-se no pai. Na verdade, todos estes crimes pareciam exactamente o que eram, tal como tinham sido descritos.
Contra este lúcido ponto de vista, só podia (e repudiando o bom senso) basear-me na proverbial perspicácia do meu velho amigo Poirot.
Ele afirmava que se preparava um assassínio. Pela segunda vez Styles seria o teatro de um crime.
Só o tempo viria a provar ou a desmistificar essa asserção mas, se fosse realidade, impunha-se-nos tentar evitar a tragédia.
Poirot conhecia a identidade do criminoso. Eu, não.
Quanto mais pensava no assunto, mais aborrecido se tornava a meus olhos. Na realidade, francamente, Poirot colocava-me numa terrível desvantagem. Queria a minha cooperação, mas recusava-se a confiar-me o elemento mais essencial do problema.
Porquê? A razão que me dera parecia-me a mais inadequada! Estava farto de ouvi-lo referir-se à minha «reserva em falar». Toda a gente se cala, quando pretende guardar um segredo. Ora, Poirot persistia sempre em afirmar que o meu mutismo se tornava denunciador das minhas intenções, prevalecendo uma transparência no meu silêncio preventivo. De tal maneira insistia que essa transparência se devia à pureza do meu carácter, que acabava por entediar-me ouvi-lo.
Certamente, concluí que, se todo o enredo apenas se limitara às fronteiras da sua imaginação, razão tinha para apresentar aquelas reticências.
Não cheguei a qualquer conclusão específica, e, quando o gongo me convocou para jantar, avancei sem ideias preconcebidas, de olho alerta, pronto a detectar o mítico ou real X de Poirot.
Para já, ia aceitar como verdadeiro tudo quanto ele me expusera. Estava alguém, sob o nosso tecto, que já cometera cinco crimes e se preparava para reincidir, voltando a matar. Quem seria?
Na sala de estar, antes do jantar, fui apresentado a Miss Cole e ao major Allerton. Ela era uma mulher alta, ainda formosa, de trinta e três ou trinta e quatro anos. Instintivamente, o major desagradou-me. Era um tipo bem-parecido, de cerca de quarenta anos, de ombros largos, tez queimada do sol, com uma maneira desenvolta de falar, imprimindo a quase tudo quanto dizia um duplo sentido. Apresentava papos sob os olhos, como a maioria das pessoas que se entregam a uma vida dissipada. Suspeitei que fosse do género jogador, ou bebedor e, particularmente, femeeiro.
Pelo que vi, também o coronel Luttrell não devia gostar muito dele e Boyd Carrington mostrava-se bastante seco na maneira como se lhe dirigia.
O sucesso de Allerton manifestava-se no partido das mulheres. Mrs. Luttrell pairava com ele, deliciada, enquanto ele a elogiava preguiçosamente, com urna certa impertinência descabida.
Com desgosto notei que também Judith parecia apreciar-lhe a conversa e a companhia, mostrando-se menos introvertida do que habitualmente. Não que eu apreciasse a sua natural reserva, antes pelo contrário, mas incomodava-me a direcção da sua expansão emotiva.
As razões que levam as mulheres mais encantadoras a entusiasmar-se pelos homens mais execrandos foi um mistério que nunca consegui resolver.
Sabia, instintivamente, que Allerton era um patife, e nove em dez homens experientes seriam da minha opinião. Em contrapartida, nove em dez mulheres enamorar-se-iam dele imediatamente.
Quando nos sentámos à mesa, com os pratos em nossa frente servidos com um líquido gelatinoso, olhei em redor e estudei as possibilidades.
Se Poirot tinha razão, e mantinha ainda o seu cérebro ímpar e lúcido, um dos convivas seria um perigoso assassino, provavelmente, um lunático.
Poirot não o dissera, mas presumi que X fosse provavelmente um homem. Qual desses homens poderia ser?
Decerto não seria o coronel, com as suas indecisões e aspecto de fraqueza geral. Norton, o homem que eu vira sair de casa com o binóculo, para ver os pássaros fazer ninho? Parecia um tipo agradável e falto de vitalidade. Contudo, disse para os meus botões, há assassinos que não são mais do que homenzinhos insignificantes, impelidos ao crime por essa mesma circunstância. Sofrem ressentimentos por passarem desapercebidos e ignorados e Norton poderia ser um homicida desse tipo. Mas tinha a seu favor essa loucura por pássaros, e eu sempre considerara que o amor à Natureza constituía um atestado de saúde mental.
Boyd Carrington? Fora de questão. Um homem cujo nome era conhecido em todo o mundo; um fino desportista; um hábil administrador; uma figura apreciada universalmente e aplaudida pelo seu carácter, não podia encaixar-se no papel de um paranóico.
Quanto a Franklin, pu-lo logo de parte, pois sabia como Judith o respeitava e admirava.
Restava-me pois o major Allerton. Atirei-me a essa ideia com aprazimento. O parceiro mais sórdido psiquicamente que eu jamais vira. O género de tipo que é capaz de esfolar a própria avó. E toda a sua imundície moral embrulhada em maneiras de superficial encanto.
Estava agora a contar uma história acerca de um insucesso que ele próprio sofrera e fazia toda a gente rir pela rude apreciação de si mesmo, numa verdadeira troça à sua pessoa.
Se Allerton fosse X, certamente que os seus crimes teriam sido cometidos por interesse monetário. Pelo menos era esse o meu pressentimento.
A verdade é que Poirot não precisara definitivamente que X seria um homem. Considerei Miss Cole como uma possibilidade a observar. Todos os seus gestos eram impacientes e nervosos. Por vezes, dava-me a impressão de uma mulher angustiada. Era bonita, atraente e de certa maneira talvez até espiritualmente encantadora, se a pudesse conhecer melhor. Exteriormente parecia absolutamente normal, mas sabe-se lá o que se passa dentro do cérebro de uma pessoa, se apenas a contactamos, pela primeira vez, durante uma refeição?
Mrs. Luttrell, Miss Cole e Judith eram as únicas três mulheres presentes à mesa. Mrs. Franklin jantava no seu quarto, no piso superior, e a enfermeira que cuidava dela tomava as suas refeições depois de todos nós.
Findo o jantar permaneci, por momentos, na sala de estar, junto à janela, olhando para o jardim e recordando o tempo em que vira Cynthia Murdock, uma jovem de cabelo castanho, correr através daquela mesma álea entre os canteiros. Como me parecera encantadora, na sua bata branca...
Perdido nesses pensamentos do passado, surpreendi-me quando senti Judith dar-me o braço e levar-me consigo, da janela para o terraço.
Perguntou-me de chofre:
- Que se passa?
Fiquei admirado.
- Que se passa?... Que queres dizer com isso?
- O pai esteve sempre tão sério e perscrutador durante todo o jantar. Porque examinou tão atentamente todos os presentes?
Fiquei aborrecido. Não me passara pela cabeça que pudessem ler tão facilmente no meu espírito as preocupações que o dominavam.
- Pareceu-te isso? Suponho que me embrenhei no passado. Talvez visse fantasmas.
- É verdade. O pai já cá tinha estado quando era rapaz, não foi? E ocorreu um crime... uma senhora de idade foi assassinada, ou qualquer coisa desse género?
- Envenenada com estricnina.
- Como era ela? Simpática ou repelente?
Considerei a pergunta com certa hesitação.
- Era uma pessoa agradável, ou pelo menos boa - respondi lentamente. - Generosa... muito caridosa para com instituições de pobres, de doentes...
- Ah! Esse género de caridade!
A voz de Judith soou áspera, criticante:
- E as pessoas que a rodeavam? Sentiam-se felizes por conviverem com ela?
Realmente ninguém se sentira feliz junto dela. Finalmente, reconhecia esse facto. Lentamente tornei a responder:
- Não, não pareciam.
- Porque não?
- Creio que se sentiam prisioneiros da sua influência. Mistress Inglethorpe, sabes, possuía tudo isto; era quem manipulava o dinheiro e dominava a família. Os seus enteados não podiam viver a sua própria vida...
Ouvi Judith soltar um ligeiro suspiro e a sua mão contraiu-se no meu braço.
- E a isso que o pai chama «generosa»? Uma mulher que abusava do poder! Não devia ser autorizada uma coisa dessas. Pessoas velhas, pessoas doentes não deviam ter poder para dominar as vidas dos mais jovens e mais fortes, no início da vida. Amarrar-lhes as aspirações e as iniciativas, frear-lhes os sonhos e as energias é um verdadeiro crime. Um egoísmo que deveria ser, se não evitado, pelo menos punido.
- Não são só os velhos que têm o monopólio desse tipo de crime - objectei.
- Pois, o pai sempre pensou que os jovens são egoístas! Talvez realmente o sejamos, mas o nosso egoísmo é limpo. Apenas desejamos fazer aquilo que efectivamente queremos, por nós próprios, e não pretendemos que os outros sejam forçados a fazer o que entendemos, prepotentemente. Não queremos tornar os outros escravos, eis a diferença.
- Não. Vocês, os jovens, apenas se contentam em derrubar quantos deparam no vosso caminho.
Judith sacudiu-me o braço.
- Não seja tão azedo, pai. Nunca tentei derrubar fosse o que fosse e o pai nunca tentou, pelo seu lado, ditar-nos a nossa vida, a nenhum de nós. Estou-lhe grata por isso.
Honestamente observei:
- Lamento dizer-te, querida, que teria gostado de fazê-lo. Foi tua mãe quem insistiu comigo, nesse ponto. Achava que vocês deviam ser livres para cometerem todas as asneiras que entendessem e sofressem os resultados à vossa própria custa.
De novo senti os dedos de Judith apertarem-me o braço, nervosamente.
- Bem sei. O pai teria gostado de poder preocupar-se connosco, como uma galinha a empurrar os pintos. Detesto que me empurrem, que se preocupem comigo, por ninharias. Não o teria suportado. Mas o pai concorda comigo, não é verdade, que é uma enorme injustiça ser a vida de algumas pessoas sacrificadas pelo egoísmo de outras?
- Sim. Às vezes isso também acontece. Mas não é razão para se tomarem medidas drásticas... Qualquer pessoa é livre de ir-se embora, se tiver coragem para fazê-lo.
- Será apenas uma questão de coragem? Terá realmente essa liberdade?
O seu tom de réplica era tão veemente que parei e fitei-a espantado. Estava escuro de mais para que pudesse ver-lhe a expressão do rosto, Judith prosseguiu, na sua voz grave e perturbada:
- Há tanta coisa a considerar, antes de poder-se tomar qualquer atitude de libertação... É tão difícil... Ambiente social, censura pública, razões de natureza financeira, sentido de responsabilidade, relutância em magoar-se alguém de quem gostamos... tudo isso e, do outro lado, há por vezes pessoas sem escrúpulos que acabam por dominar-nos, porque sabem que nos invadem todos esses sentimentos... Pessoas que são como sanguessugas.
- Minha querida Judith! - exclamei, verdadeiramente abismado com a fúria com que exprimia o seu raciocínio.
Apercebeu-se da sua própria excitação, riu-se e desprendeu o braço do meu.
- Acha que falei com demasiada intensidade? inquiriu. - E um assunto que me faz exaltar, revoltar mesmo. Saiba que conheço um caso... de um velho bruto. Alguém teve a coragem de eliminá-lo, para libertar aqueles que amava. Quem o fez foi uma mulher e sabe o que lhe chamaram? Louca! Era a única coisa justa a fazer e fê-la; por isso foi condenada.
Um horrível pressentimento invadiu-me o espírito. Ainda há bem pouco tempo ouvira uma história semelhante.
- Judith - exclamei, alarmado. - De que caso estás tu a falar?
- De ninguém que conheça... De uns amigos dos Franklin. Um velho chamado Litchfield. Era muito rico e quase fazia as filhas passar fome. Nunca as deixava sair de casa, nem receber visitas. No fundo era demente, mas não no sentido que a medicina define.
- E foi a filha mais velha quem o matou - concluí.
- Oh! Vejo que leu o caso nos jornais. Suponho que o pai considera isso assassínio, embora não tenha sido praticado por motivos pessoais. Margaret Litchfield entregou-se à Polícia. Penso que foi uma mulher muito corajosa. Não creio que eu tivesse essa coragem.
- A coragem de te entregares à Justiça, ou a coragem para matar?
- Ambas.
- Satisfaz-me ouvir isso, Judith. Não gosto de te ouvir falar de um crime e de procurares justificá-lo... seja qual for o caso - disse severamente. - Que pensa o doutor Franklin desse acto?
- Pensa que foi justo e eu penso que lhe servia perfeitamente - retorquiu Judith. - Sabe, pai, algumas pessoas estão, realmente, a pedir que as matem!
- Não gosto de ouvir-te falar nesses termos, Judith - censurei. - Quem andou a meter-te essas ideias na cabeça?
- Ninguém.
- Bem, apenas te digo que considero tudo isso um disparate pernicioso.
- Está bem. Fiquemos assim. Após uma pausa, informou:
- Na verdade, vim ter com o pai para transmitir-Ihe uma mensagem de Mistress Franklin: gostaria de vê-lo, se não se importa de subir até ao quarto dela.
- Terei muito gosto. Lamento que se tenha sentido tão doente ao ponto de não poder estar à mesa, connosco.
- Ora - ripostou Judith. - Ela está perfeitamente. Tudo aquilo é fita.
Por vezes, os jovens mostram-se deveras antipáticos.