Cai o Pano: o último caso de Poirot

Agatha Christie · Capítulo 2 de 4 · parte 1/3

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Cai o Pano: o último caso de Poirot

Capitulo V

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Só tivera ocasião de estar com Mrs. Franklin uma vez. Era uma mulher de cerca de trinta e cinco anos e poderia descrevê-la como pertencendo ao tipo de madona. Grandes olhos castanhos, cabelo apartado ao meio e um rosto oblongo e gentil. Era muito esbelta, de constituição delicada e a sua pele parecia de uma fragilidade transparente.

Estava recostada num canapé, rodeada de almofadas e envergava um fino penteador azul-pálido.

Franklin e Boyd Carrington também lá estavam, bebendo café. Mrs. Franklin recebeu-me estendendo a mão, com um sorriso de boas-vindas.

- Que prazer tenho em vê-lo, capitão Hastings. Foi tão bom para Judith, poder ter o pai perto dela. A pequena tem trabalhado realmente demasiado.

- Parece dar-se bem com o seu trabalho - observei, enquanto mantive a sua mão na minha.

Bárbara Franklin pestanejou afirmativamente.

- Sim, creio que se sente feliz. Não sabe o que é uma pessoa sentir-se doente. Que pensa, enfermeira? Oh! Deixe-me apresentá-la. É a enfermeira Craven, que tem sido terrivelmente boa para mim. Nem sei o que poderia fazer, se não fosse ela! Trata de mim como de um bebé.

A enfermeira Craven era alta, jovem, com uma muito bela aparência e uma maravilhosa cabeça emoldurada por cabelo castanho. Observei-lhe, de relance, as mãos, longas e brancas, tão diferentes da maioria das enfermeiras dos hospitais. Pareceu-me uma garota paciturna.

Não respondeu, limitando-se a inclinar a cabeça.

- Mas, realmente - prosseguiu Mrs. Franklin - John tem forçado a sua pequena a trabalhar demasiado. Ele é o que se pode chamar um condutor de escravos. És um negreiro, não é verdade, John?

O marido estava de pé junto da janela perscrutando a noite. Assobiava baixinho e chocalhava qualquer coisa dentro de uma algibeira. Parou subitamente ao ouvir a mulher mencionar o seu nome e inquiriu:

- Que foi, Bárbara?

- Estava a dizer que exiges trabalho de mais à pobre Judith. Agora que o capitão Hastings está cá, vamos juntar os nossos esforços e impedir que abuses da pequena tão vergonhosamente.

A dissimulação não era a qualidade forte do Dr. Franklin. Olhou em torno de si, vagamente, e virou-se para Judith, numa interrogação muda. Depois quase que murmurou:

- Deve avisar-me quando se sente sobrecarregada. Judith respondeu:

- Estão apenas a tentar fazer-se engraçados. Já que falamos de trabalho, desejo perguntar-lhe o que pensa daquela segunda preparação, sabe a qual me refiro... àquela que...

John Franklin virou-se para ela, bruscamente, e aproveitou a deixa:

- Tem razão, já me esquecia... Vamos ao laboratório. Receio que... Tenho de assegurar-me...

Sempre falando, retiraram-se do quarto.

Bárbara Franklin recostou-se nas almofadas e fechou os olhos.

Algo desagradavelmente, a enfermeira Craven comentou:

- Parece-me que a condutora de escravos é Miss Hastings!

Depois sorriu para amenizar a observação. Mrs. Franklin abriu os olhos, pestanejou infantilmente, e murmurou:

- Sinto-me tão inadequada! Sei que devia mostrar-me mais interessada no trabalho de John, mas sou incapaz de fingir. Compreendo que há qualquer coisa errada da minha parte... mas...

Foi interrompida por um pigarrear de Boyd Carrington que se achava junto da lareira. Afastou-se ligeiramente do fogão de sala e sorriu:

- Patetice, Babs. Você está perfeitamente, no seu papel. Não se apoquente.

- Mas, Bill querido, a verdade é que me preocupo. Sinto-me tão desencorajada. Sou incapaz de mostrar-me interessada, de simular... é horrível! Os porquinhos-da-índia e os ratos e toda aquela porcaria... Uhh!

Estremeceu, como que arrepiada. Em seguida, com novo pestanejar muito doce para Boyd, prosseguiu:

- Sei que é estúpido, mas que quer? Sou uma tola! Não nasci para certas coisas. Confesso que tudo aquilo me mete nojo. Gostaria apenas de pensar em coisas belas, como flores e pássaros e crianças brincando ao sol. Você sabe isso bem, Bill.

Boyd aproximou-se e pegou na mão que ela lhe estendeu, queixosamente. Bárbara envolveu-o com um olhar muito terno, como que agradecida pela protecção que ele lhe dispensava... como que considerando-o o homem que efectivamente a compreendia e lhe servia.

- Não mudou muito desde os seus dezassete anos, Babs - disse ele, realmente com ar protector. Lembra-se do jardim de sua casa, com o tanquezinho para o banho dos pássaros, com os coqueiros em volta?

Virou-se para mim e esclareceu:

- Bárbara e eu somos velhos parceiros.

- Velhos! - protestou ela.

- Oh! Não nego que você tem menos quinze anos do que eu, mas brincámos juntos, quando você era uma garota de dez anos, ou pouco mais, e eu era um rapaz de barba feita. Quando regressei, muito depois de si, vim encontrá-la transformada numa linda jovem, mesmo na altura de fazer a sua entrada na sociedade. Tive ainda a sorte de acompanhá-la aos campos de golfe e de ensiná-la a empunhar um club. Lembra-se?

- Oh, Bill! Como poderia esquecer-me desses tão agradáveis momentos!

Dirigindo-se-me, Bárbara explicou:

- Os meus viviam já nesta parte do mundo, tendo-se fixado em Knatton. E Bill, sempre que vinha de licença passava uns dias com seu tio, Sir Everard, que igualmente vivia em Knatton.

- E que mausoléu era aquela casa! - motejou Boyd. - Muitas vezes desesperei, receando não poder tornar o ambiente vivível !

- Oh Bill! Podia ter sido maravilhoso... verdadeiramente maravilhoso.

- Sim, Babs, mas o problema foi eu não ter tido ideias nessa altura a seu respeito. Considerava-a ainda uma criança, sabe? Banhos e algumas cadeiras realmente confortáveis... era tudo o que então podia pensar de Knatton. Aquilo precisava de uma mulher.

- Eu tive ocasião de dizer-lhe. Podia ajudá-lo. A sério.

Sir William Boyd consultou duvidosamente a enfermeira Craven com o olhar.

- Se você se sentisse suficientemente forte, podíamos tentar... Que acha, enfermeira?

- Certamente, Sir William. Penso realmente que um passeio só faria bem a Mistress Franklin. É necessário que ela não se ache imaginativamente inválida.

- Nesse caso, está combinado - entusiasmou-se Boyd. - E agora vai dormir tranquila, para estar em boas condições de rever, amanhã, o local da sua meninice.

Ambos desejámos boa-noite a Mrs. Franklin e saímos juntos.

Enquanto descíamos as escadas, Boyd Carrington disse, bruscamente: - Você não faz ideia que adorável criatura ela era, quando tinha dezassete anos. Eu voltara a casa, quando regressei da Birmânia... minha mulher morrera lá, não sei se sabe?... Não importa que lhe diga que fiquei com o coração despedaçado. Com o tempo, comecei a pensar em Bárbara, a prender-me um pouco à ideia... mas sabe como as coisas são! Casou com Franklin três anos mais tarde. Não creio que tenham feito um casamento feliz. Estou convencido que é isso que a faz sentir-se doente. O rapaz não a entende nem a aprecia. E ela é do género sensitivo, extremamente nervosa, creio eu. Tirem-na daqui, divirtam-na, demonstrem interesse pela sua pessoa e verão como se transforma numa mulher completamente diferente e sã. Mas aquela criatura apenas se interessa por microrganismos, tubos de ensaio e culturas nativas da África Ocidental... sabe como é!

E Sir William Boyd Carrington pigarreou censurador.

Pensei que pudesse haver algo de muito interessante em tudo quanto me dissera.

Primeiramente, fiquei surpreendido com a possibilidade de ele interessar-se por aquela mulher, doente e aparentemente tolinha, instalada numa autêntica caixa de bombons. Boyd era um homem de tal vitalidade e amante de acção e de vida ao ar livre, que, provavelmente, se sentira impressionado e impaciente perante aquele tipo neurótico de inválida.

Contudo, Bárbara Franklin devia ter sido, realmente, uma rapariga encantadora na sua juventude e muitos homens, especialmente os do tipo idealístico, como eu catalogava Sir William, ficam profundamente impressionados com recordações e a presença desse tipo feminino.

No piso inferior, Mrs. Luttrell carregou na nossa direcção e sugeriu um jogo de brídege. Descartei-me com o pretexto de que desejava fazer companhia ao meu amigo Poirot.

Fui dar com o meu amigo deitado na cama. Curtiss andava por ali, às voltas, fazendo ligeiras arrumações, mas foi-se logo embora, mal entrei, e fechou a porta atrás de si.

- Diabos o levem, Poirot, a si e à sua mania de tirar mistérios da manga. Gastei toda a noite a tentar descobrir quem é X.

- Belo! Isso deve tê-lo distraído um pouco. Ninguém comentou a sua abstracção, perguntando-lhe que se passava consigo?

Não consegui ocultar um certo embaraço, ao recordar a abordagem que Judith me fizera. Notei nos lábios de Poirot um sorriso discreto, aparentemente trocista, mas limitou-se a inquirir:

- E a que conclusões chegou?

- Diz-me, depois, se acertei?

- De maneira nenhuma.

Sondei-lhe o rosto, agora inexpressivo.

- Estive a considerar o caso de Norton - comecei. O rosto de Poirot não denunciou a menor alteração.

- Não encontrei nada de suspeito nele, a não ser achá-lo diferente das demais pessoas. Não me pareceu um criminoso normal.

- Há muitas maneiras de classificar os criminosos típicos, mas temos de admitir que um criminoso normal pode simular astutamente uma certa anormalidade.

- Que quer dizer com isso?

- Suponhamos que um estranho aparece algumas semanas antes de ser praticado um crime, num dado local, sem qualquer razão aparente. Tornar-se-ia imediatamente notado, após o crime. Contudo, se fosse uma pessoa de aspecto e carácter desapercebidos, absorvido por um desporto qualquer, como por exemplo a pesca, atrairia muito menos suspeitas sobre as suas intenções e sobre o seu posterior acto.

- Como observar pássaros, por exemplo. Era o que eu estava a sugerir.

- Por outro lado - prosseguiu Poirot -, ainda seria melhor se o criminoso fosse uma pessoa de situação social proeminente. Mais dificilmente seria alvo de suspeitas.

Fitei-o atentamente para ver se, efectivamente, essa hipótese teria algum fundamento, quanto ao hipotético X, mas o meu amigo não se descoseu. Como nada apontava de definitivo no caso Norton, citado, e no caso Boyd, apenas sugerido, mencionei a hipótese do coronel Luttrell. Teria aberto aquela pensão, unicamente com o fito de nela poder praticar o «seu» crime?

Gentilmente, Poirot sacudiu a cabeça, mas a sua negativa não se referia à sugestão.

- Não é no meu rosto que você vai ler a resposta - disse.

- Sabe que é um homem irritante, meu amigo? desabafei. - Apesar de tudo, Norton não é o meu único suspeito. Que me diz a esse tipo, Allerton?

Mantendo o seu rosto impassível, indagou:

- Não gosta dele?

- Nem um pedacinho.

- Aposto como é o género de pessoa que você considera repelente, hem?

- Exacto! - confirmei. - Que pensa dele? - Dir-lhe-ei apenas que é um homem muito atractivo... para as mulheres.

Satisfez-me verificar que mantínhamos uma identidade de opiniões.

- Como as mulheres podem ser idiotas! - exclamei. - Que diabo podem elas ver num tipo como aquele?

- Sabe-se lá? Mas é sempre assim. O mauvais sujet... as mulheres são sempre atraídas por essa espécie de energúmenos.

- Mas porquê? - insisti. Poirot encolheu os ombros.

- Talvez vejam neles qualquer coisa que nós somos incapazes de discernir.

- Mas o quê?

Após uma breve pausa, declarou:

- Perigo, possivelmente... Todas as pessoas buscam um pouco de perigo, como se fosse uma especiaria para excitar a vida. Algumas procuram-no em espectáculos, como as touradas. Outras lêem livros acerca de situações emotivas; outras, ainda, procuram a excitação do perigo nos cinemas. As mulheres têm mais razão do que os homens em procurarem esses derivativos indirectos, porque, enquanto eles correm perigos sob vários aspectos, elas só podem encontrá-los, na generalidade, em enredos de sexo. Talvez seja por isso que sentem atracção pelo bafo do tigre; que ousam roçar-se pelos espinhos na Primavera. O parceiro sadio que daria um excelente e afeiçoado marido, passam por ele desinteressadamente.

Durante alguns minutos, permaneci calado a pensar nestas considerações. Depois, voltei ao tema prévio:

- Sabe uma coisa, Poirot? Ser-me-ia muito mais fácil descobrir quem é X, se pudesse interrogar todas as pessoas acerca das suas relações com alguns dos indivíduos implicados naqueles cinco crimes.

Disse isto triunfalmente, considerando a possibilidade aceitável, mas Poirot fitou-me com um olhar trocista e retorquiu.

- Não solicitei a sua presença, aqui, Hastings, para que você fosse repisar o trilho da investigação que já laboriosamente tracei. E desde já lhe digo que não seria tão simples como você pensa. Quatro daqueles casos ocorreram neste mesmo condado. As pessoas reunidas sob este tecto não são uma colecção de estranhos, vindos independentemente, por decisão esporádica. Não é verdadeiramente um hotel, no sentido lato da palavra. É mais um ponto de reunião do que um centro ocasional de convívio. Os Luttrell fazem parte deste mundo restrito; vieram para aqui, como que à aventura. Mas os outros...

Os olhos do meu amigo cintilaram expressivamente.

- Os outros - continuou - são amigos, ou amigos recomendados por outros amigos. Sir William persuadiu os Franklin a virem até cá. Estes, por seu turno, desafiaram Norton e creio que também sugeriram a vinda de Miss Cole... e assim por diante. O mesmo é dizer que todos os presentes se conheciam já directa ou indirectamente. Esta tese aplica-se igualmente a X, para quem os factos gerais não ocultam surpresas. Ele sabe entre quem vai operar, como sempre o soube nos casos precedentes. Analise, por exemplo, o crime Riggs. A aldeia onde ocorreu não fica longe de casa do tio de Boyd Carrington. Também Mistress Franklin vivia aqui perto. O hotel da aldeia é agora muito frequentado por turistas. Alguns dos amigos de Mistress Franklin costumavam vir até cá. O próprio doutor Franklin já cá viveu. É muito possível que Norton e Miss Cole tenham estado nesta área e, provavelmente, estiveram mesmo.

Como eu esboçasse um gesto impaciente, Poirot travou-mo:

- Não, não, meu amigo. Peco-lhe que não insista em que eu lhe revele um segredo que considero perigoso para a sua própria segurança. Recuso-me, desde sempre, a fazê-lo.

- Acho isso absolutamente tolo - declarei, contrariado. - Confesso-lhe que me apetece mandar passear tudo isto. Estou farto de ouvi-lo referir-se à minha impossibilidade de disfarçar um pensamento. Não tem piada nenhuma.

Calmamente, Poirot inquiriu:

- Está certo de que é a única razão que me impede de dizer-lhe quem é X? Não compreende, meu amigo, que esse conhecimento é verdadeiramente perigoso? Não percebe que estou profundamente preocupado com a sua própria segurança?

Olhei-o de boca aberta. Até àquele minuto, não dera a devida atenção a esse ângulo da questão. Quando antes mo sugerira, não lhe ligara a menor importância. Reconhecia agora que ele tinha razão. Se um criminoso praticara, com efectivo sucesso, cinco crimes, conseguindo manter-se insuspeito, não hesitaria em eliminar alguém que lhe seguisse a pista.

- Mas, nesse caso, você... você também corre perigo, Poirot!

Com um gesto de supremo desdém, respondeu:

- Bem sabe que estou acostumado a isso. Posso e sei proteger-me. E não tenho aqui comigo o meu fiel mastim, para proteger-me ainda mais eficientemente? O meu excelente e leal Hastings?

CAPITULO VI

Constava que Poirot gostava de viver diurnamente: deitar cedo e cedo erguer. Portanto, deixei-o para que dormisse e desci as escadas, parando alguns momentos para trocar impressões com o criado de quarto, Curtiss, com quem me cruzei no caminho.

Achei que era um indivíduo sólido, lento de percepção mas sincero e competente. Estava ao serviço de Poirot, desde que regressara do Egipto. Informou-me de que a saúde do seu patrão parecia ter melhorado grandemente, mas que sofrera, depois disso, alguns ataques do coração, segundo ele mesmo lhe confessara, desconfiando tratar-se de angina de peito. Nos últimos meses, talvez dois, começara a manifestar um certo agravamento, quanto ao artritismo, amarrando-o à cadeira de rodas ou ao leito.

Pensei que, na verdade, tínhamos passado juntos uns belos dias, na aventurosa senda anticrime, em que o meu galante amigo se tornara famoso. Mesmo agora, fraco e coxo, quase totalmente paralítico, mantinha o mesmo espírito indomável, pronto a investir nessa matéria em que era o mais hábil perito de todos os tempos.

Acabei de descer as escadas, com um indelével sentimento de tristeza. Dificilmente podia conceber sentir-me feliz na vida, sem o meu querido amigo Poirot.

Tinham acabado uma partida de brídege na sala de estar e convidaram-me a comparticipar na que se lhe seguia. Pensei que isso serviria para distrair-me um pouco e aceitei. Boyd Carrington largou a mesa e tomei-lhe o lugar, em frente de Norton, tendo os Luttrell por adversários.

Mrs. Luttrell mostrou-se ostensivamente desagradada com esta disposição de jogo. Mordeu o lábio superior e, subitamente, não só se lhe extinguiu o aparente encanto, mas também o seu sotaque irlandês... contudo, só por momentos.

Em breve percebi porquê. Ulteriormente tive ocasião de jogar várias vezes com o coronel e, na verdade, não se poderia dizer que fosse bom jogador. Era o que poderia chamar-se um bridegista mediano e imensamente distraído. De quando em quando, cometia o seu erro, por falta de atenção, mas quando jogava de parceria com Mrs. Luttrell, os disparates sucediam-se com uma frequência desencorajante. Não havia dúvida de que ela o enervava, tornando-o muito pior jogador do que ele realmente era, na ausência da esposa. Pelo seu lado, Mrs. Luttrell jogava muito conscienciosamente, com extrema atenção às vozes, observando até os movimentos dos dedos e perscrutando atentamente as expressões do rosto não só do seu parceiro, mas também dos adversários. Poder-se-ia dizer que jogava para ganhar.

Depressa compreendi o que Poirot pretendera exprimir com o termo «envinagrar». Não perdoava ao marido o mais pequeno deslize e a maneira como expressava a sua crítica justificava a imagem de «língua viperina». O ambiente tornava-se verdadeiramente desagradável e tanto Norton como eu sentimo-nos aliviados, quando a partida acabou.

Com o pretexto da hora tardia, ambos recusámos encetar nova partida e, quando nos retirámos, Norton exprimiu-me descuidadamente os seus sentimentos.

- Pode crer que não aprecio jogar nestas circunstâncias, Hastings. Dá-me cabo do fígado ver o pobre coronel ser tratado daquela maneira. Pobre tipo! Não sei como aguenta aquilo, sem usar os termos apropriados de um coronel que serviu na India. Pois ela merecia-o... ouvir uma ou duas das boas! - Pschiu! - avisei Norton, receoso de que a sua voz fosse ouvida pelo «pobre» coronel que estava atrás de nós, não muito distante, e que provavelmente ouvira mesmo.

- É realmente revoltante - insistiu ele. - Mas tem o ferro cravado na alma. Nem se revolta. Vai atrás dela: «Sim, minha querida; não minha querida; perdão minha querida», cofiando o bigode e curvando-se para que ela lhe ponha a albarda. Nem poderia endireitar a espinha, mesmo que o tentasse.

Baixei a cabeça, desconsoladamente, pois parecia-me que Norton tinha razão.

Parámos no átrio e notei que a porta do jardim estava aberta, entrando o vento por ela.

- É melhor fechar aquilo, hem? - propus. Norton hesitou um momento, antes de decidir:

- Bem... é possível que nem todos tenham entrado. Uma súbita suspeita atacou-me o espírito.

- Quem está ainda lá fora? - indaguei.

- A sua filha, creio... e... bem, creio que Allerton.

Tentou falar com uma intonação casual, mas a informação vinha na sequência da minha conversa com Poirot e senti-me subitamente preocupado.

Judith e Allerton! Certamente que a minha Judith, esperta e fria, não se deixaria levar por um tipo como AÍlerton. Decerto que seria capaz de ler através dele, nas entrelinhas.

Repeti, para mim mesmo esta opinião que, infelizmente, não se tornava convicção. Enquanto me despia, a dúvida desagradável não se desvaneceu e persistiu quando procurei conciliar o sono, virando-me na cama de um lado para outro, sem encontrar posição para o corpo, nem paz para o espírito.

Tal como sempre nos acontece quando nos deitamos com uma preocupação, os problemas ressurgem-nos exagerados. Uma vaga de desespero invadiu-me. Se ao menos minha mulher fosse viva! Neste capítulo, como em alguns outros, era muito mais avisada do que eu e sabia não só compreender as crianças, mas também falar com elas e convencê-las. Sem ela, sentia-me miseravelmente incapaz, como que desarmado. Se Judith ia agora arruinar as suas possibilidades de felicidade, se ia enveredar por um trilho de sofrimento...

Desesperado, acendi a luz e levantei-me. Aquilo não podia continuar. Precisava de dormir um pouco. Dirigi-me ao lavatório e olhei duvidosamente para um frasco de aspirina que estava sobre a prateleira.

Não. Precisava de qualquer coisa mais forte do que isso. Pensei que talvez Poirot tivesse algo mais forte, do género calmante ou soporífero. Atravessei o corredor em direcção ao seu quarto, mas parei, à porta, envergonhado, com a ideia de ir acordar o meu pobre amigo.

Enquanto hesitava, ouvi passos no corredor, na minha direcção. Era Allerton. Como a luz era fraca só me apercebi de que se tratava dele, quando já estava junto a mim. Sorria para si próprio e não gostei do sorriso. Encarou comigo e ergueu as sobrancelhas:

- Olá, Hastings! Ainda a pé?

- Não conseguia dormir - respondi secamente.

- E só isso? Venha comigo que já lhe resolvo o problema.

Segui-o até ao quarto que era imediato ao meu. Uma estanha fascinação impelia-me a estudar esse homem, mais de perto, na sua intimidade.

- Você deita-se muito tarde, pelo que vejo - comentei.

- Nunca fui do género de ir cedo para a cama. Nem mesmo quando praticava desporto. As belas noites foram feitas para serem aproveitadas.

Riu-se e também não gostei do riso. Segui-o até ao quarto de cama. Abriu um pequeno armário e retirou lá de dentro um frasco de cápsulas.

- Aqui tem - ofereceu. - Isto põe-no a dormir, não tarda nada, e lindos sonhos. Slumberyl, é o nome dessa droga.

O entusiasmo que manifestava na voz pareceu-me denunciar o apreciador de drogas.

Desconfiado, sondei:

- E perigoso?

- Se tomar demasiadas cápsulas ao mesmo tempo, certamente. É um barbitúrico muito forte e, portanto, em dose excessiva torna-se terrivelmente tóxico.

Sorriu apenas com os cantos dos lábios dando ao rosto uma expressão desagradável.

- Não sabia que podia comprar-se uma droga destas, sem receita médica - admirei-me, com intencional ingenuidade.

- E não pode, meu velho. Mas é como se pudesse. Tenho facilidade em consegui-la. Sirva-se à vontade.

Suponho que foi loucura de minha parte, mas não pude resistir ao impulso de perguntar-lhe: - Conheceu Etherington, segundo creio, não? Compreendi, imediatamente, que lhe tocara em qualquer ponto sensível. Os seus olhos mostraram-se cautelosos e duros.

- Sim... pobre tipo! Conheci-o, sim.

Como eu não fizesse qualquer comentário, acrescentou:

- Na realidade, Etherington tomava drogas, mas abusou delas. As pessoas têm de saber quando devem parar. Ele não soube e deu mau resultado. Quem teve sorte foi a mulher. Se a simpatia do júri não estivesse do seu lado, teria sido enforcada.

Entregou-me um par de cápsulas e sondou casualmente:

- E você, conheceu Etherington? Respondi-lhe francamente:

- Não.

Por um instante, pareceu perder os estribos, sem saber como reagir. Depois disfarçou com uma ruidosa gargalhada. Ainda menos gostei dela.

- Era um tipo giro. Não se poderia considerar um alegre compincha da escola, mas, às vezes, não era mau companheiro.

Agradeci-lhe as cápsulas e voltei para o meu quarto.

Quando me estirei ao comprido nos colchões e apaguei a luz, perguntei-me se não teria cometido uma asneira.

Cada vez se materializava mais no meu espírito a hipótese de Allerton ser X... E tinha-lhe permitido pensar que suspeitava desse facto.

CAPITULO VII

I

Esta narrativa dos dias que passei em Styles deverá parecer, de certo modo, baralhada. Ao pretender reproduzi-la, verifico que me limitei a compilar uma série de conversas dispersas, palavras sugestivas e frases que se me gravaram na consciência.

A ideia que mais me apoquentou foi verificar que a enfermidade de Poirot não apresentava grandes possibilidades de cura. Se o seu cérebro permanecia são, a trabalhar perfeitamente, todo o invólucro físico estava tão fraco que compreendi competir-me ser mais activo nas minhas diligências. Teria de agir como se fosse os olhos e os ouvidos do meu amigo Poirot.

Todos os dias Curtiss tinha de retirar o seu patrão da cama e carregá-lo para a cadeira de rodas. Depois de tratar dele, convenientemente, empurrava-o até ao jardim, a menos que o tempo não fosse propício a esse limitado banho de liberdade. Nesse caso, conduzia-o simplesmente para a sala de estar.

Certamente que, aí, as pessoas passavam por ele e dirigiam-lhe algumas palavras, mas não era a mesma coisa do que poder procurá-las como e onde quisesse, para interrogá-las sub-repticiamente, como só ele sabia fazer. Ali, não podia escolhê-las. Era também uma espécie de caça, mas não como apreciava, à maneira de mastim, mas de aranha, na sua teia.

No dia seguinte à minha chegada fui levado por Franklin até a um velho estúdio, ao fundo do jardim, agora improvisado em laboratório científico.

Diga-se desde já que não tenho inclinações especiais para a ciência e creio que, perante o que animadamente me mostrou, usei dos comentários e expressões inadequadas. Não serei pois a pessoa indicada para explicar, precisamente, no que consistia o seu trabalho.

Como simples homem de leis, depreendi que efectuava experiências com vários alcalóides derivados de uma semente da Calábria, conhecida por Psysostigmina venenosum. Só fiquei a saber mais alguma coisa daquela história, depois de ter falado acerca dela, ou melhor, depois de ter ouvido Franklin explicá-la a Poirot, na minha presença.

Quando Judith tentou elucidar-me acerca dos seus trabalhos, fê-lo como é costume da gente nova, que se especializou em qualquer matéria, e utilizou tal terminologia que fiquei na mesma, por demasiado técnica. Referiu-se sabiamente aos alcalóides de fisostigmina, eserina, fisoveína e generesina, e então embrenhou-se na nomenclatura de uma série de substâncias que até nos custa pronunciar, como prostigmina dimetilcarbinol, hidroxiprolina, trimetilomelanina, etc. etc., que pareciam ser os seus encantos e me levaram a perguntar-lhe que raio de utilidade tinha aquilo tudo para a espécie humana. Não há nada que mais aborreça um cientista do que ouvir tal pergunta. Ainda foi mais extensa e complexa nas suas explicações. Compreendi que existia uma certa etnia de indígenas na África Ocidental que possuíam uma notável imunidade em relação a uma doença chamada jordanitite, por ter sido detectada pela primeira vez por um cientista de nome Jordan e que fora contraída por alguns europeus com resultados fatais.

Não quis desencadear a fúria de Judith, observando-lhe que seria preferível procurarem uma droga que curasse as pessoas de qualquer etnia da tão propagada falta de nutrição.

Como que adivinhando a minha dúvida quanto à urgente utilidade de tal estudo, adiantou que não interessava apenas a ciência com o objectivo do benefício da Humanidade, mas também pelo puro alargamento de horizontes no campo do conhecimento.

Observei algumas lamelas com preparações microscópicas, algumas fotografias de negros de aspecto doentio, custando-me diferençá-los dos saudáveis, olhei de relance para uma gaiola com ratos e senti-me deveras aliviado quando fruí da primeira oportunidade de sair para o ar livre.

Mas, como disse, a conversa que presenciei, entre Poirot e o Dr. Franklin, já me despertou bastante interesse.

Disse-lhe este último:

- Você sabe, Poirot, que os efeitos desta semente se enquadram mais na sua especialidade do que na minha? Algumas tribos acreditam que tem o dom de provar a culpabilidade ou a inocência de uma pessoa. Afirmam com absoluta convicção que a ingestão da semente provoca a morte do culpado e poupa o inocente.

- Provavelmente, concluem que todos são culpados de alguma coisa, porque, se é venenosa, morrem todos depois de ingeri-la - observou Poirot.

- Não, nem todos morrem. O facto foi cientificamente verificado, mas nada tem de sobrenatural. Na realidade há duas espécies de sementes, extraordinariamente semelhantes mas, efectivamente, diferentes. Ambas contêm fisostigmina e generesina e as restantes matérias componentes, mas uma delas possui também um outro alcalóide que podemos isolar, ou pelo menos tentamos isolar, que neutraliza o efeito mortífero dos outros. E o mais notável é que aqueles que ingerem essa segunda espécie, neutralizante da acção fatal das primeiras... o que fazem num ritual especial, ficam também imunizados em relação à jordanitite. Esta substância produz um efeito interessantíssimo sobre o sistema muscular, sem consequências deletérias. Está a ver como se torna empolgante o seu estudo. Infelizmente, o alcalóide, no seu estado puro, é muito instável. Só há muito pouco tempo comecei a obter resultados apreciáveis, mas quero isolá-lo definitivamente. Compreende, é um trabalho que tem de ser levado a cabo. Quanto mais próximos nos sentimos de alcançar o nosso objectivo, maior é o estímulo e a ânsia de atingi-lo.

Calou-se bruscamente, para depois desfechar:

- Perdoem toda esta desarrumação, mas... se não levam a mal... tenho de continuar a ocupar-me disto.

- Tal como disse - comentou Poirot -, a minha profissão seria altamente simplificada se eu pudesse utilizar essa semente, na detecção dos culpados, separando-os dos inocentes, como o trigo do joio. Quem me dera possuir uma substância, aqui à mão, com as mesmas propriedades dessa semente.

Franklin fez uma careta e respondeu:

- O problema não ficaria por aí. A questão resume-se a: quem é efectivamente culpado e quem é inocente?

- Devo depreender - intervim -, que há dúvida acerca desse assunto?

Franklin virou-se para mim e interrogou:

- O que é realmente mau, neste mundo? E o que é realmente bom? As opiniões dos homens sobre essa matéria tem variado através dos séculos. O que podemos discernir no espírito humano resume-se, provavelmente, a um sentimento de culpa ou a um sentimento de inocência. Mas isso, como teste experimental, não vale de nada.

- Não vejo como chega a essa conclusão - disse, levemente confuso.

- Meu caro amigo - retorquiu-me -, suponha que um homem pensa ter o direito divino de matar; por exemplo, o poder discriminativo sobre a vida e a morte que alguns ditadores se atribuíram. Poderá cometer uma acção que você considera criminosa, mas que ele considera justa e inocente. Onde está definido o mal e o bem?

- É natural que ele sinta um sentimento de culpa - objectei.

- Se considera a sua acção boa e justa, não terá esse sentimento a atormentá-lo. Há imensa gente que eu gostaria de matar - afirmou o Dr. Franklin com veemência. - Não acredito que a minha consciência me impedisse o sono, depois de eliminar aqueles que julguei perniciosos à existência, ou à felicidade dos seus semelhantes. Estou convencido, sabe?, que oitenta por cento da Humanidade pensa que deveria exterminar alguém. Todos nós já o desejámos ou ainda o desejamos.

Afastou-se, com expressão pensativa e assobiando baixinho.

Fiquei a olhá-lo pasmado, mas uma cotovelada ligeira de Poirot fez-me voltar à realidade.

- Você, meu amigo - motejou ele -, parece que caiu num poço de víboras! Esperemos que o doutor Franklin não ponha em prática as suas prédicas.

Ainda abismado, observei:

- Mas, suponha que põe?

II

Depois de algumas hesitações, decidi sondar Judith acerca de Allerton. Achei dever perscrutar quais eram as suas reacções a seu respeito.

Sabia que ela era uma moça com a cabeça no seu lugar, muito capaz de tomar conta de si própria, e não podia acreditar que pudesse, de qualquer maneira, interessar-se por um tipo do género de Allerton. Suponho agora que resolvi, então, abordar o assunto unicamente para reassegurar-me dessa minha convicção.

Infelizmente não consegui obter os resultados esperados. Confesso que entrei no assunto pouco diplomaticamente. Nada há que os jovens mais detestem do que os conselhos dos mais velhos. Tentei dar às minhas palavras um tom carinhoso e, aparentemente, desinteressado.

Judith reagiu imediatamente, com sarcástica hostilidade:

- Que é isso? Um aviso paterno contra o lobo mau? - Não, Judith, de maneira nenhuma.

- Aposto que não gosta do major Allerton.

- Francamente, não me agrada mesmo nada e suponho que também sentes o mesmo, não?

- Porque não?

- Bem... creio que não é o teu tipo... pois não?

- Que é que considera ser o meu tipo? Fitava-me directamente nos olhos, com os cantos dos lábios subidos, num ar trocista.

- Certamente que não gosta dele - motejou. Não deve ser o tipo do pai, mas eu gosto. Acho-o muito divertido.

- Divertido, talvez - retorqui -, mas não passa disso... espero.

Deliberadamente, Judith ripostou:

- É um homem muito atraente. Todas as mulheres o acham deveras interessante. Como é natural, os homens não.

- Evidentemente que não! - afirmei e, descontrolando-me um pouco, acrescentei: - Estiveste com ele, lá fora, ontem à noite...

Ainda não tinha acabado a frase, já a tempestade se desencadeara:

- Francamente, pai, isso parece demasiado idiota de sua parte. Não compreende que, na minha idade, uma rapariga já está apta a tratar dos seus próprios assuntos? Ou não me considera capaz de olhar por mim? Serei anormal a seus olhos? Creio que não tem o direito de andar a vigiar-me e a verificar o que faço, ou quem é que escolho para as minhas amizades. É essa interferência na vida dos filhos que tem causado o seu afastamento dos pais e das mães. Gosto imenso de si, pai, mas já sou uma mulher adulta e a minha vida só a mim me diz respeito. Não venha armar comigo em Mister Barrett.

Senti-me tão magoado com aquela observação indelicada que fiquei incapaz de replicar, e Judith afastou-se rapidamente.

Tive a sensação de que a minha intervenção fora contraproducente.

Permanecera ali, parado, entregue às minhas preocupadas cogitações, quando fui sacudido pela voz da enfermeira de Mrs. Franklin:

- Está hoje muito pensativo, capitão Hastings! Virei-me, satisfeito pela interrupção.

- Estou sempre pensativo - respondi. - O cérebro não me serve para outra coisa, Miss Craven.

A jovem enfermeira era uma mulher realmente bonita, de formas esbeltas e bem delineadas, embora as suas maneiras me parecessem ficticiamente animadas, pois notava-se-lhe no olhar, mesmo quando sorria, algo de melancólico. Porém, não tive dúvida de que era uma mulher inteligente e indubitavelmente agradável.

Acabara de instalar a sua paciente num solário improvisado, não muito longe do laboratório.

Depois de trocadas as palavras rituais, que o abuso social torna pouco significativas, perguntei:

- Acha que Mistress Franklin se interessa pelos trabalhos do marido?

A enfermeira Craven ergueu a cabeça, como se precisasse de ponderar bem a questão antes de dar uma resposta, mas formulou-a imediatamente:

- Oh, é uma actividade demasiado técnica para ela. Não é o que se possa chamar uma mulher inteligente, sabe, capitão Hastings?

- Sim, creio que não!

- Como é natural, o trabalho do doutor Franklin só poderá agradar a uma pessoa que saiba ou se interesse por medicina. É, na verdade, um homem inteligente, brilhante, mesmo, sabe? Pobre homem! Tenho pena dele.

- Pena dele?

- Sim. Já tenho visto isso acontecer frequentemente... Casar com o tipo de mulher errado, quero eu dizer.

- Acha portanto que ela é o tipo errado para ele?

- E o senhor não acha? Nada têm de comum um com o outro.

- Ele dá-me a impressão de gostar muito dela arrisquei. - Muito atento a todos os seus desejos... sempre pronto...

A enfermeira Craven riu-se e comentou:

- Ela faz por isso, realmente.

- Pensa que ela o ilude... com a sua doença - inquiri, manifestando certa dúvida.

Desta vez a enfermeira Craven soltou uma pequena gargalhada.

- Há muito pouca coisa que se possa ensinar-lhe sobre a maneira de levar a água ao seu moinho. Tudo quanto sua senhoria pretende, consegue-o habilidosamente. Há pessoas assim: o que desejam, acontece. Algumas, se alguém se lhes opõe, fazem uma cena dos diabos e atingem o seu objectivo; outras, deitam-se revirando os olhos, num trejeito patético, simulam-se doentes e vencem da mesma maneira, jogando com a nossa piedade. Mistress Franklin é do tipo patético. Arranja-se de maneira a não dormir durante toda a noite, de forma a mostrar-se pálida e exausta no dia seguinte.

- Mas então - surpreendi-me -, ela não está verdadeiramente doente?

A enfermeira olhou-me de relance e tornou-se subitamente séria.

- Certamente - confirmou, mudando rapidamente de assunto.

Perguntou-me se era verdade eu ter estado na guerra... na Primeira Guerra Mundial.

- Sim, é verdade - satisfiz. Baixou a voz e indagou:

- Deu-se aqui um crime, não foi? Uma das criadas falou-me nisso. Assassinaram uma senhora de idade, segundo me constou.

- Sim.

- E o capitão estava aqui, nessa altura?

- Estava.

Fez-me uma pequena careta e comentou:

- Isso explica tudo, não acha?

- Explica o quê?

- Esta... esta atmosfera que respiramos, o ambiente que nos rodeia, não sente isso? Parece que há qualquer coisa no ar, que está errada, sem que saibamos o que é.

Fiquei momentaneamente calado, considerando a questão. Seria possível que houvesse uma certa razão de ser naquilo que ela acabava de dizer-me? Que um facto produzido há muitos anos possa ser pressentido pelas pessoas que se encontrem no mesmo local em que ele ocorreu? Os psíquicos pensam que sim. Poderia Styles conservar ainda entre as suas paredes, sob os seus tectos, nos jardins e no ar que respirávamos indícios imateriais desse acontecimento trágico que tanto nos preocupara o espírito?

A enfermeira Craven interrompeu os meus pensamentos declarando:

- Estive, uma vez, numa casa em que também se deu um caso de homicídio. Nunca poderei esquecê-lo. Sinto-me sempre angustiada, quando penso nisso. É uma experiência demasiado dura para uma rapariga.

- Deve ser realmente. Sei isso por experiência própria, mesmo sendo homem.

Interrompi-me porque Boyd Carrington acabava de dobrar a esquina da casa.

Como de costume, a sua destacada personalidade parecia afastar as sombras de intangíveis temores. Tal como na índia. Era tão grande, tão são, tão ar livre, que forçosamente irradiava segurança e senso comum.

- ’dia, Hastings; ’dia enfermeira. Como está Mistress Franklin?

- Bom dia, Sir William. Mistress Franklin está ao fundo do jardim, a bronzear-se ao sol, junto da faia, perto do laboratório.

- E Franklin? Aposto em como está dentro do laboratório.

- Sim, Sir William, com Miss Hastings.

- Pobre moça. É criminoso mante-la a trabalhar, num dia como este. Devia protestar, Hastings.

A enfermeira Craven interveio rapidamente:

- Oh, Miss Hastings deve sentir-se absolutamente feliz. Gosta daquilo e o doutor não pode fazer nada sem ela.

- Tipo miserável! - disse Boyd Carrington. Se eu tivesse uma secretária tão bonita, como o é a sua filha Judith, preferiria olhar para ela, do que para porcos-da-índia, hem, que diz?

Eis o género de piada que Judith não gostaria de ouvir, mas que agradou claramente à enfermeira Craven. Soltou uma gargalhada e exclamou:

- Oh, Sir William! Não deve dizer coisas dessas. Estou certa de que todos sabem que o senhor é mesmo assim! Mas, coitado do doutor Franklin, é um homem tão sério que só tem olhos para seu próprio trabalho.

Boyd Carrington disse jocosamente:

- Bem, de qualquer maneira, a mulher tomou posições estratégicas que lhe permitem vigiar o marido de perto. Parece-me que é ciumenta.

- Sabe coisas de mais, Sir William! - respondeu a enfermeira Craven mostrando-se deliciada com toda esta tagarelice. - Infelizmente tenho de deixar-vos para cuidar do leite maltado de Mistress Franklin.

Afastou-se, enquanto Boyd Carrington a seguiu com o olhar.

- Miúda atraente - apreciou. - Tem um belo cabelo e dentes magníficos. É um fino espécimen de dona de casa. É uma pena desperdiçar a vida de volta com doentes. Uma garota como ela merecia um melhor destino.

- Também acho. Suponho que, mais cedo ou mais tarde, acabará por casar. - Também o espero.

Ficou pensativo, por momentos, e admiti que estivesse a recordar-se da sua falecida esposa. Depois, desafiou:

- Quer vir daí comigo, até Knatton, e visitar aqueles sítios?

- Com muito prazer. Deixe-me, contudo, ver se Poirot precisa de mim.

Fui encontrar o meu amigo sentado na varanda, muito bem instalado. Encorajou-me a acompanhar Sir William.

- Vá, meu caro Hastings, não se prenda. Creio que é uma propriedade magnífica. Deve ir vê-la.

- Gostaria, realmente, mas custa-me deixá-lo aqui. É como se desertasse.

- Meu fiel amigo! Vá com esse homem encantador. Até convém que fale com ele.

- Primeira classe - classifiquei-o, com entusiasmo.

Poirot sorriu e declarou:

- Está a extinguir-se essa espécie de homens... como os rinocerontes. Já sabia que era o seu tipo.

Ill

Apreciei enormemente a expedição.

Não só o dia estava maravilhoso, um verdadeiro dia de Verão, de ar ligeiro, mas também a companhia do meu guia.

Boyd Carrington possuía o magnetismo pessoal que a experiência da vida em diversos lugares transmite, transformando-o num excelente parceiro.

Contou-me várias histórias do seu tempo de administração na Índia, alguns intrigantes pormenores de uma tribo da África Oriental, junto da qual também vivera, e entusiasmei-me de tal maneira que cheguei a esquecer as minhas preocupações acerca de Judith e a profunda ansiedade que me causaram as revelações de Poirot.

Também gostei da maneira como Boyd Carrington se referiu ao meu amigo, não só focando o seu trabalho, mas também o seu carácter.

Apesar da tristeza que, naturalmente, sentíamos por vê-lo naquele estado de saúde, Boyd não utilizou quaisquer expressões de piedade. Parecia considerar que a sua vida fora tão cheia de emoções, que poderia sentir-se feliz só com rememorá-las.

- Além disso - observou -, estou certo de que o seu cérebro se mantém tão esclarecido como dantes, sem sofrer da menor amnésia e arguto como sempre. - Lá isso é verdade incontestável! - apressei-me a confirmar.

- Não há maior erro do que pensar-se que um homem, pelo facto de ficar paralítico, pode perder as suas faculdades mentais. Nem um pedacinho. Anno Domini afecta muito menos o trabalho dos miolos do que vulgarmente se julga. Por isso, em todas as tribos primitivas, em todos os reinos civilizados, os conselheiros são sempre pessoas de idade. De nada lhes serviria a experiência, se estivessem cerebralmente cansados, mas a verdade é que a espécie humana se cansa mais depressa dos órgãos vegetativos do que dos de raciocínio.

Após uma ligeira pausa, sorriu e comentou:

- Cos diabos! Ninguém pense em cometer um assassínio nas barbas de Poirot, nem mesmo nos dias correntes.

- Hei-de ajudá-lo a caçá-lo, a si, se você se atrever a isso - motejei.

- Estou certo de que me apanhavam, mas não seria grande glória para Poirot coleccionar-me como trofeu. Não devo ter o menor jeito para isso. E daí, nunca se sabe. Não! Seria incapaz de sair-me bem. Não sei alterar provas, confundir situações. Depois, sofro de uma terrível impaciência. Se cometesse um crime só poderia executá-lo, se esporeado momentaneamente por um forte estímulo. Lamento imenso desapontar o seu amigo Poirot, mas não creio possuir as condições mínimas que se exigem a um bom criminoso.

- Uma das condições fundamentais é a paciência - sentenciei.

- Também o penso. Estou certo de que deixaria pistas e indícios por todos os lados. Bem, posso considerar-me ser um tipo de sorte, por não possuir tendências criminais, com a falta de aptidão para esse género de coisas que me caracteriza. O único tipo de indivíduo de que me imagino capaz de matar seria um chantagista. Detesto isso, sabe? Sempre pensei que um chantagista deveria ser abatido a tiro. Que acha?

Tive de confessar que concordava com o seu ponto de vista.

Em seguida passámos a apreciar as reparações e modificações operadas na casa, quando o jovem arquitecto se acercou de nós.

A construção de Knatton datava do período Tudor, com uma ala posteriormente anexa. Não sofrera ainda qualquer modernização desde a instalação de dois quartos de banho, por volta dos anos oitocentos e quarenta.

Boyd Carrington explicou-me que seu tio fora, mais ou menos, um eremita, evitando o convívio das pessoas e instalando-se num canto da vasta mansão. Boyd e o seu irmão tinham sido tolerados durante os períodos de férias escolares, antes de Sir Edward se tornar num recluso voluntário.

O velho nunca decidira tornar a casar-se e apenas gastara um décimo dos seus rendimentos, de forma que, após a sua morte, o presente baronete podia considerar-se um homem muito rico.

- Mas, muito solitário - confessou, meditabundo.

Permaneci calado. A minha simpatia por este homem era demasiado forte para poder exprimi-la por meio de palavras. Também eu me sentia um solitário. Desde que Cinders morrera, sentia-me transformado apenas em meio homem... Um ser humano incompleto.

Dei-lhe a entender o que sentia, pessoalmente.

- Ah, sim, Hastings, mas você teve uma coisa que nunca alcancei.

Fez uma pausa, após a qual, quase soturnamente, me descreveu, por alto, a sua própria tragédia.

Sua mulher fora uma jovem muito bela, cheia de encantos e virtudes, mas arrastada pela hereditariedade. Quase toda a sua família morrera por efeitos de alcoolismo e ela própria fora vitimada por essa causa. Praticamente, apenas um ano depois do casamento, perdera-a... morte por dipsomania.

Não podia censurá-la. A tendência hereditária fora mais forte do que ela.

Depois da sua morte, resolvera manter uma vida solitária. Magoado pela sua triste experiência determinara não tornar a casar-se.

- Essa tragédia transformou-me por completo. Confesso que me senti envelhecer prematuramente, como se o espírito pudesse repudiar a alegria - confidenciou. - É verdade que estive, uma vez, tentado a refazer a minha vida. Mas ela era tão nova... que não achei gentil ligá-la a um homem tão desiludido. Considerei-me velho de mais para ela... que não era senão uma criança... muito bela... ainda por desabrochar.

Interrompeu-se, abanando a cabeça.

- Não lhe competiria a ela julgar? - equacionei.

- Não sei, Hastings. Pensei que não. Creio que ela... gostava de mim. Mas, como lhe disse, era nova de mais. Lembrá-la-ei sempre como a vi no último dia da nossa separação. A sua cabeça ligeiramente inclinada para um dos lados, os olhos levemente orvalhados de lágrimas... a sua pequenina mão...

Calou-se. A imagem pareceu-me vagamente familiar mas, de momento, não percebi porquê.

Subitamente, a voz de Boyd Carrington tornou-se áspera, arrancando-me às minhas reflexões.

- Fui um tolo! - reconheceu. - Todo o homem é um tolo quando deixa fugir a sua oportunidade. De qualquer modo, aqui estou eu, numa grande mansão, vasta de mais para mim, sem uma presença graciosa para sentar na minha frente, à cabeceira da mesa.

Encantava-me a maneira antiquada como ele expunha os seus sentimentos e imagens. Dava-me a ideia, de que vivia num mundo já passado de requinte e encanto.

- Por outro lado, sinto-me mais seguro sozinho.

- Sim, compreendo o que sente. Está preservado de tornar a passar por semelhante desgosto.

Sacudiu a cabeça, confirmativamente.

- Onde esta ela agora? - inquiri.

- Oh! Casada...

Mudou repentinamente de assunto.

- O facto é, Hastings, que já estou adaptado à vida de solteiro. Arranjei outras vias de diversão. Venha daí ver os jardins. Têm sido muito negligenciados, mas... não estão mal de todo, mesmo assim.

Demos uma volta pelo local e fiquei muito impressionado com o que vi.

Knatton era indubitavelmente uma magnífica propriedade e não era de admirar que Boyd Carrington se sentisse orgulhoso por possuí-la. Conhecia bem a vizinhança e as pessoas dos arredores, sem falar, naturalmente, dos amigos que o visitavam amiúde.

Conhecera o coronel Luttrell, nos velhos tempos, e exprimia a sua esperança de que a exploração de Styles resultasse rendosa.

- Velhote fixe, Toby Lutrell, cheio de coragem, sabe? Tipo catita. Um bom militar e esplêndido atirador. Uma vez, acompanhei-o num safari, em África. Ah! Isso é que eram tempos! Já era casado, nessa altura, mas a senhora não vinha atrás dele, graças a Deus! Era uma linda mulher, sabe? Mas nunca deixou de ser uma tártara! É estranho como um homem... o que um homem é capaz... de sujeitar-se a uma mulher!

Sorriu, esboçando um gesto vago e acrescentou:

- O velho Toby Luttrell fazia os seus subalternos tremerem dentro dos sapatos, sempre muito recto, estritamente cumpridor dos seus deveres e levando os outros a imitá-lo. E aí o tem, com a cauda entre as pernas, como um cão de fila atrás dela. Não há dúvida que todas as mulheres sabem fazer uso da língua, mas aquela... é autêntico ácido sulfúrico! Leva-o pela trela e de roldão. Se alguém é capaz de fazer aquele lugar dar lucro, é ela. Luttrell nunca teve muito jeito para negócios... mas Mistress Luttrell era capaz de sangrar uma pedra... com aquele seu arzinho!

- Parece tão amável, tão atenciosa - comentei.

- Pois, pois - riu Carrington. - Toda ela é doçuras, mas já teve ocasião de jogar brídege com eles?

Foi a minha vez de sorrir. Disse-lhe que já tinha sofrido essa experiência.

- Evito sempre jogar brídege com mulheres que sejam jogadoras de brídege, não sei se me entende? E se quer o meu conselho, não se meta nisso.

Contei-lhe como Norton e eu nos tínhamos sentido desconfortáveis, durante a partida, logo na primeira noite que passara em Styles.

- Exactamente. Nem sabemos para onde olhar. Apetece-nos enfiarmo-nos pelo chão abaixo.

Depois de uma pequena hesitação comentou:

- Tipo simpático, esse Norton. Muito quieto... sossegado, não acha? Sempre à caça de pássaros e de coisinhas insignificantes! Não lhe interessa caçá-los declarou-me. Extraordinário, hem? Não tem a menor inclinação para o desporto! Disse-lhe que não sabia o que perdia. Pois o homem não percebe... não consegue entender o meu desinteresse em espiar a intimidade de um par de melros por um binóculo! Ele há cada um!

Mal sabia Boyd Carrington que esse entretenimento de Norton poderia vir a desempenhar um importante papel nos acontecimentos que se sucederiam.

CAPITULO VIII

I

Os dias passaram. Foi um período irritante, com a desagradável sensação de que se aguardava qualquer coisa indefinida.

Nada, afinal de contas, se tomarmos em devida consideração o que na verdade acontecia. Ligeiros incidentes, fragmentos de conversas aparentemente

desconexas, discreto exame das pessoas e atitudes, observações elucidativas, quanto ao temperamento dos vários convivas instalados em Styles, mas nada mais.

Foi Poirot quem, com algumas palavras intencionais, soube mostrar-me algo que me passara criminosamente desapercebido.

Estava eu a queixar-me do tempo, estupidamente desaproveitado por recusar-se a confiar-me a identidade de X; a censurá-lo pela falta de confiança que parecia depositar nas minhas faculdades; a recriminá-lo por não se mostrar desportivo, quando levantou a mão, impaciente, e declarou: - Calma, meu amigo. Admito que não é, como você diz, desportivo, mas isto não é propriamente um jogo. Não foi para que você descobrisse a identidade de X, que lhe pedi que viesse cooperar comigo. Seria desnecessário ocupá-lo com uma coisa que já sei há muito tempo. O que não sei e tenho de descobrir é: «Quem vai ser morto... muito em breve?» Essa é a questão, mon vieux; não um jogo de apostas, mas evitar que um ser humano seja morto. Embasbaquei.

Continuar: parte 2 de 3