Cai o Pano: o último caso de Poirot

Agatha Christie · Capítulo 3 de 4 · parte 1/2

Páginas do PDF

Cai o Pano: o último caso de Poirot

Capitulo XIII

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

I

Sempre que escrevemos um anticlimax a sangue-frio, há algo que nos contende com o amor-próprio.

Para falar verdade, confesso que me sentara à espera de Allerton e deixei-me dormir.

Suponho que o facto não seria de surpreender, já que dormira pessimamente na noite anterior. Depois, estivera ao ar livre todo o dia, o que igualmente quebra bastante as energias, sobretudo quando o tempo está carregado, na iminência de uma tempestade.

Aconteceu. Adormecera, junto da entrada, com a porta entreaberta e, quando os pássaros começaram a trinar lá fora, acordei com o Sol já alto, enterrado no sofá, ainda vestido com o traje de jantar, com um desagradável gosto na boca e uma terrível dor de cabeça.

Senti-me primeiro incrédulo, depois desiludido e finalmente desesperado.

Os meus olhos pousaram-se sobre a garrafa de uísque, na minha frente, depois nos copos, um deles já preparado e o outro vazio, e levantei-me, de salto. Peguei naquele que continha parte da bebida destinada a Allerton, dirigi-me à janela, corri as cortinas e despejei-a no jardim.

Devia ter estado doido, na noite anterior.

Barbeei-me, banhei-me e vesti-me. Sentindo-me então muito melhor, fui ter com Poirot. Sabia que ele acordava sempre muito cedo. Sentei-me e narrei-lhe tudo quanto se passara na véspera e na minha mente.

Abanou a cabeça e comentou gentilmente:

- Ah! Que loucuras, que tentações arrebataram o meu querido amigo! Apraz-me muito que tenha vindo confessar-me os seus pecados. Mas, meu bom Hastings, por que razão não veio ontem ter comigo e expor-me o seu problema?

Algo envergonhado, justifiquei:

- Suponho ter receado que você quisesse travar as minhas intenções.

- Certamente que teria impedido uma loucura dessa natureza. Julga que gostaria de vê-lo suspenso pelo pescoço, por causa de um tipo detestável como o major Allerton?

- Não deveria ser apanhado. Tomara todas as precauções. - Os assassinos pensam sempre isso mas, deixe-me que lhe diga, man ami, que você não é tão esperto como pensa.

- Ora, Poirot! Limpei as minhas impressões digitais dos frascos...

- ... mas não reparou que, dessa maneira, também eliminava as de Allerton. Se o encontrassem morto, que aconteceria? Fariam a autópsia e descobririam que morrera em virtude de uma dose excessiva de Slumberyl. Tê-la-ia ingerido por acidente, ou intencionalmente? Tiens! As suas impressões digitais não estão no frasco de cápsulas! Como se explica isso? No caso de acidente ou de suicídio, não se justificaria essa precaução. Notariam então que algumas dessas cápsulas tinham sido substituídas por aspirina.

- Praticamente toda a gente tem aspirina consigo - murmurei.

- Sim, mas nem toda a gente, aqui em Styles, tem uma filha que anda a ser desencaminhada pelo patife do Allerton. Duas pessoas, pelo menos, Boyd Carrington e Norton poderiam testemunhar que você estava furioso com o tipo. Depois, franco e honesto como você é, não conseguiria sustentar uma negativa convicente, sob a pressão de um interrogatório da Polícia. Qualquer bom inspector arrancar-lhe-ia a verdade. De resto, quem lhe diz a si que não o viram manipular os comprimidos?

- Seria impossível. Só eu estava no quarto.

- Ora, ora, meu caro Hastings. Há uma varanda corrida em frente das janelas e a luz interior estava acesa. Podiam ter estado a espiá-lo. Além disso, não se esqueça, há quem espreite às fechaduras.

- Você passa a vida a sonhar com fechaduras, Poirot. Na vida real, as pessoas não passam o tempo a espreitar o que os outros fazem, pelos buracos das fechaduras.

Poirot fechou os olhos, com um sorriso folgazão.

- Sempre lhe digo que se passam coisas muito estranhas, nesta casa, com chaves, meu amigo. Pessoalmente, tenho sempre o cuidado de fechar a porta à chave, pelo lado de dentro, quando Curtiss vai para o quarto contíguo. Pois, pouco tempo depois de cá ter chegado, a minha chave desapareceu. Tive de mandar fazer uma outra.

- Bem, de qualquer maneira - observei com um suspiro de alívio -, a coisa não aconteceu. É horrível pensar que um homem pode desesperar-se a esse ponto.

Depois fitei Poirot intensamente e sondei:

- Não acha possível que aquele assassínio que ocorreu aqui, há anos, tenha contaminado o ar?

- Um vírus de homicídio, quer você dizer? É uma sugestão interessante.

- As casas têm uma atmosfera própria, particular - declarei, pensativo. - Esta mansão tem uma história sinistra!

Poirot concordou, com um gesto solene.

- Sim, na verdade, tem estado aqui muita gente a desejar intensamente que alguém morra. Lá isso é verdade.

- Creio que, mais tarde ou mais cedo, um crime será inevitável. Mas agora, diga-me, que vou fazer acerca deste caso... refiro-me a Judith e a Allerton? Tenho de travá-los de qualquer modo. Que me aconselha que faça? Que método melhor poderei utilizar?

- Nenhum.

- Oh! Mas...

- Acredite-me. Atingirá melhor os seus fins se não interferir.

- Mas, se atacar Allerton...

- Não lhe serve de nada. Judith tem vinte e um anos e é senhora dos seus direitos.

- Mas acho que devo...

Poirot interrompeu-me energicamente:

- Não, Hastings. Não imagine que é suficientemente esperto e convincente para persuadir essas duas pessoas e impor-lhes a sua personalidade. Allerton está habituado a lidar com papás impotentes e, provavelmente, até goza um bom pedaço com isso. E Jutith não é o género de rapariga que você possa conduzir aos empurrões. Aconselho-o... e faço-o plenamente convicto de que tenho razão... a ter confiança nela.

Olhei-o pasmado. Poirot prosseguiu:

- Judith tem muito bom estofo. Admiro-a muito, sabe?

Com voz insegura, declarei:

- Também a admiro, mas receio pelo que lhe possa suceder.

Com súbita energia, Poirot sacudiu a cabeça.

- Pode crer que estou igualmente muito preocupado a seu respeito, mas não da maneira que o apoquenta, nem pelo mesmo motivo. Tenho um medo terrível do que lhe possa acontecer e sinto-me impotente para evitá-lo. Meu caro Hastings, o perigo que ela corre é de outra natureza. E terrível e assusta-me pensar que pode estar muito próximo.

II

Sabia tão bem como Poirot que o perigo estava próximo.

Tinha mais razões para sabê-lo do que ele, porquanto eu estivera quase a matar na noite anterior.

Apesar de tudo, ponderei naquela sua frase, quando me aconselhou «a ter confiança» em Judith, e desci para almoçar.

Momentos depois, a verdade acerca daquele conselho estava plenamente justificada. Obviamente Judith mudara de intenções, quanto a ir a Londres nesse dia.

Preferira ir com Franklin para o laboratório onde se mantiveram a trabalhar todo o dia.

Dei graças a Deus por esta mudança de decisão, por parte de Judith.

Allerton almoçara mais cedo e partira para Ipswich. Provavelmente pensou que Judith cumpriria o plano como fora combinado. Congratulei-me com a ideia de que ficaria extremamente desapontado.

Boyd Carrington veio ao meu encontro com expressão pouco jovial e anunciou:

- Tive hoje notícias desmoralizantes.

Explicou que o arquitecto que trabalhava em Knatton deparara com dificuldades na construção em curso; recebera cartas preocupantes e parecia-lhe que o passeio da véspera fora demasiado exaustivo para Mrs. Franklin.

A verdade é que, desde manhã, Bárbara Franklin fazia a vida negra à enfermeira Craven. Esta não parava, de um lado para o outro. Era o seu dia de folga e tinha-lhe sido prometido poder visitar alguns amigos fora de Styles, mas não fez outra coisa senão transportar sais, botijas de água quente e atender todas as queixas da paciente: nevralgia, dor em volta do coração, cãibras nos pés e nas pernas, arrepios de frio, etc.

Todos demos o devido desconto, pois sabíamos das tendências hipocondríacas de Mrs. Franklin, de resto confirmadas pelo marido e pela enfermeira.

Aquele ouvira as queixas da mulher e decidira mandar chamar o médico local, mas ela opusera-se terminantemente, pelo que se limitou a ministrar-lhe um sedativo e a providenciar para que ficasse bem precavida contra o frio, após o que regressou ao seu laboratório.

A enfermeira Craven, falando comigo, comentou:

- Ele sabe perfeitamente que tudo aquilo não passa de comédia. O pulso e a temperatura estão absolutamente normais. É a fita do costume. Gosta de interferir com a vida de toda a gente. Está danada porque o marido resolveu ir trabalhar em vez de ficar, de roda dela, feito parvo. Vinga-se em mim, impedindo-me de gozar a minha folga e multiplicando os pequenos serviços que nunca a satisfazem, pois muda constantemente de opinião. Finalmente queixa-se agora de que Sir William é um bruto, porque a obrigou a um passeio estafante. Está a ver o género de senhora que ela é!

Compreendi que Mrs. Franklin era uma doente difícil de aturar, não só pela quantidade de tarefas que inventava, para que a enfermeira estivesse continuamente a ocupar-se dela, mas também pela maneira rude e desconsiderante como às vezes se lhe dirigia.

Portanto, ninguém considerou a indisposição de Mrs. Franklin coisa de remonta e só Boyd Carrington parecia arrependido de tê-la fatigado, na véspera, demasiadamente. Subiu a perguntar por ela duas vezes e não conseguindo vê-la, dirigiu-se à aldeia onde comprou uma vistosa caixa de bombons. Quando regressou ficou desolado, por a enfermeira lhe explicar que Mrs. Franklin não podia comer chocolate.

Desceu com o presente, abriu-o solenemente para que nos servíssemos e Norton e eu não nos fizemos rogados.

Norton devia estar preocupado com qualquer coisa, nessa manhã, pois mostrava-se mais abstracto do que de costume e foi com um ar distraído e vago que começou a comer bombons, uns atrás dos outros. Devia ser louco por chocolates.

O tempo piorara e desde as dez horas que começara a chover.

Poirot fora trazido para baixo, por Curtiss, e instalara-se na sala de estar. Elizabeth Cole juntou-se-lhe e sentou-se ao piano, tocando algumas árias para ele ouvir, como apreciador que era, especialmente de Bach e de Chopin. Miss Cole era, na verdade, uma boa intérprete e eu próprio me deliciei a escutá-la.

Faltava um quarto para a uma, quando Franklin e Judith regressaram do laboratório. Minha filha vinha muito séria e calada. Ele sentou-se junto de nós, cansado e absorto, parecendo muito mais velho do que efectivamente era, pois podia ser meu filho.

A certa altura referiu-se ao tempo e disse qualquer coisa sobre a tempestade que já prenunciara para esse dia. O mais estranho é que nos pareceu aludir a qualquer coisa mais do que às condições atmosféricas, tal era o estado de espírito em que nos achávamos.

O Dr. Franklin levantou-se de súbito, embateu contra a mesa e entornou no chão a caixa de chocolates.

- Oh! Perdão! - desculpou-se, procurando desajeitadamente apanhá-los da carpeta, onde esmagou um, com o pé.

Com um ar pueril, Norton perguntou-lhe se tivera uma manhã muito atarefada, no laboratório. - Não, não... nem por isso - respondeu Franklin distraidamente. - O costume. Estamos agora a utilizar um processo para acelerar... Para cortar caminho, na investigação.

Dirigiu-se para a janela, olhou por momentos a chuva a cair sobre os canteiros e repetiu, num murmúrio:

- Sim. Temos de atalhar caminho.

III

Tínhamos estado nervosos e incomodados toda a manhã, mas a tarde surgiu inesperadamente agradável. O Sol despontou por entre as nuvens, até então compactas, e parou de chover.

Trouxeram Mrs. Luttrell para o andar de baixo e sentaram-na na varanda. Parecia achar-se em excelente forma. Fez uma ou duas censuras ao marido, mas em termos abolutamente suportáveis.

Poirot permitiu-se emitir alguns gracejos e mostrava-se feliz por ver os modos afectuosos do casal. Até o coronel parecia mais novo. Estava incontestavelmente menos vacilante, puxava menos pelas guias do bigode e foi dele que partiu a sugestão para uma jogatana de brídege, nessa noite.

Norton insinuou que isso seria cansativo para a convalescente.

- Um joguinho de cartas faz-me falta - afirmou Mrs. Luttrell, acrescentando, de seguida. - Prometo não «castigar» muito o meu pobre George.

- Sei que sou mau jogador, querida - disse o coronel.

- E isso o que tem? - retorquiu ela. - E da maneira que me dás pretexto para criticar-te. Não me queiram privar desse prazer.

Rimo-nos bem humorados.

Pensei em quantos homens e mulheres que se divorciam movidos por um período temporário de irritação, quando poderiam reconciliar-se e acabar por dar-se bem, se deixassem correr algum tempo.

Sabia, contudo, que nem todos os casos são idênticos, já que não há duas pessoas iguais neste mundo. Por exemplo, eu, cujo casamento foi o mais feliz possível, sempre defendi a prática do divórcio; Boyd Carrington, que tivera tanto azar com o seu, considerava-o uma instituição do Estado e pugnava pela sua indissolubilidade.

Norton, que se mantivera solteiro, apoiava a minha maneira de pensar e, estranhamente, o Dr. Franklin, opunha-se tenazmente ao divórcio como solução para incompatibilidade matrimonial. Isto formava paradoxo com a frase matinal: «Temos de atalhar caminho.» Parecia pois que, para ele, o casamento não se processava segundo um método científico.

Recostando-se na cadeira, estendeu as pernas e declarou:

- Um homem escolhe a sua mulher. Toma portanto a responsabilidade do seu acto, até que ela morra... ou ele morra primeiro.

Comicamente, Norton observou:

- E, quantas vezes, qualquer deles dirá: «Que morte abençoada!...»

Todos rimos e Boyd Carrington comentou:

- Bem prega quem nunca casou! Norton abanou a cabeça e disse:

- E agora, já é tarde de mais.

- Está certo disso? - motejou Boyd Carrington. Foi neste momento que Elizabeth Cole se nos juntou. Estivera no andar de cima, com Mrs. Franklin.

Não sei se Boyd a vira aproximar-se, quando dissera aquela graça a Norton, e se o fizera intencionalmente, mas o certo é que Norton corou até às orelhas. Examinei Miss Cole atentamente e pareceu-me uma mulher bastante nova ainda e muito formosa. Além disso, tinha imensos outros encantos que poderiam permitir-lhe fazer qualquer homem feliz. Não havia dúvida que se dava bem com Norton, na sua caça à poesia das flores e dos pássaros. Lembrei-me que ela se referira a ele, classificando-o como uma pessoa de bom carácter.

Se assim era, talvez pudesse apagar do seu espírito a tragédia que a assombrara na adolescência. Na realidade, Miss Cole parecia-me agora muito mais feliz do que quando eu chegara a Styles e tivera ocasião de vê-la pela primeira vez.

Elizabeth Cole e Norton! Sim, talvez pudessem ligar um com o outro.

Subitamente, tornei a pensar que havia algo de sinistro na atmosfera de Styles e senti-me cansado e... receoso.

Creio que só Boyd Carrington deu por essa mudança na minha expressão, pois inquiriu:

- Que se passa, Hastings?

- Nada. Apenas uma estúpida e incompreensível apreensão.

- Um pressentimento de que o Diabo anda por aí?

- Sim. Sinto que está para acontecer qualquer coisa... desagradável.

- Tem piada! Também já hoje pressenti isso, mais do que uma vez, mas não consigo descobrir porquêl Faz alguma ideia do que seja?

Abanei a cabeça numa negativa.

Neste momento, Judith entrou em casa. Encaminhou-se para nós lentamente, com a cabeça erguida, os lábios cerrados e uma expressão grave no olhar que a tornava ainda mais linda.

Pensei como era diferente, tanto de mim como de Cinders. Lembrava-me uma sacerdotisa das imagens antigas, ou uma freira, austera e bela.

Norton deve ter sentido impressão semelhante e gracejou:

- A nossa Judith lembra a jovem Salomé, antes de ter decapitado Holofernes.

Minha filha ergueu as sobrancelhas e respondeu:

- Espero não vos desiludir, mas, francamente, não me lembro do que ela pretendia, ao cortar-lhe a cabeça.

- Oh! Qualquer objectivo altamente moral, para bem da comunidade - retorquiu Norton, com velado sarcasmo.

Mas Judith não replicou, indo sentar-se ao lado de Franklin. Momentos depois anunciava:

- Mrs. Franklin sente-se muito melhor e pediu-me que vos comunicasse que teria muito gosto se quisessem, esta noite, ir tomar café, na sua companhia.

IV

Não havia dúvida de que Mrs. Franklin era uma senhora de marés. Mostrara-se insuportável com toda a gente, durante o dia inteiro e, à noite, quando nos deslocámos, em bando, escada acima, para lhe prestar as nossas homenagens, surgiu-nos extremamente afável, recostada no seu canapé e envergando um negligé transparente, de um verde-água-do-nilo.

A enfermeira Craven começou a servir-nos o café. Estávamos todos reunidos, excepto Poirot que se retirara para o seu quarto, como de costume, após o jantar.

A bebida expandia um aroma delicioso. Devo esclarecer que o café, em Styles, era uma infusão insípida e inodora, de cor escura que, de café, só tinha o nome, pelo que Mrs. Franklin comprava o seu, directamente, noutro local.

Franklin sentara-se junto da mulher e ia passando as chávenas à enfermeira Craven, que, por sua vez, no-las estendia.

Boyd Carrington sentara-se junto ao extremo do canapé; Elizabeth Cole e Norton tinham-se colocado do lado da janela e a enfermeira Craven acabou por sentar-se ao fundo do quarto, junto à cabeceira da cama. Eu pegara no Times e entretinha-me com um problema de palavras cruzadas. A certa altura, li alto: - «Personagem shakespeariana, que, pela palavra, transformou o ciúme em morte...» Quatro letras.

- Otelo - sugeriu Mrs. Franklin.

- Não, Babs - discordou Boyd Carrington. Deve ser lago... Há uma parte em que se refere ao «monstro-de-olhos-verdes», na qual...

Judith, que se achava à varanda olhando para o exterior, gritou subitamente:

- Olhem, uma estrela-cadente!... Olhem, outra!

Boyd Carrington propôs:

- Vamos formular um desejo.

Todos se dirigiram para a varanda. Boyd Carrington colocou-se por detrás de Elizabeth, Judith e Norton. A enfermeira Craven também quis observar as estrelas-cadentes e o último foi Franklin, notoriamente pouco interessado. Colocou a sua chávena de café sobre a mesa estante, mesmo ao lado da da mulher.

Ouviram-se exclamações desencontradas, enquanto contemplavam o céu, agora desanuviado.

Deixei-me ficar onde estava, mergulhando nas minhas palavras cruzadas. Pensei que não tinha nenhum desejo especial a formular... às estrelas.

Alguns momentos depois, Boyd Carrington virou-se para dentro do quarto e convidou:

- Oh, Babs, acho que deve ir à varanda. Levantei os olhos do Times e notei que Mrs. Franklin ficara muito perturbada. Secamente, retorquiu:

- Não posso. Estou cansada.

- Não seja tolinha, Babs. Venha fazer um voto insistiu Boyd, com uma ligeira gargalhada.

Subitamente, pegou-a nos braços como se fosse uma pena.

Ela riu e murmurou, ainda nervosa:

- Ponha-me no chão, Bill! Não seja pateta. Mas ele levou-a até à varanda.

Recordei-me de ter feito o mesmo, certa vez, a Cinders, para que contemplasse um lindo pôr do Sol.

Judith voltou para dentro do quarto e, para que não me visse com os olhos húmidos, rodei a mesa-estante procurando um livro. Ao virá-la notei uma colecção brochada e barata das obras de Shakespeare. Lá estava Otelo. Folheei-o e achei:

- Que está a ver, meu pai? - interessou-se. Murmurei-lhe qualquer coisa acerca das palavras cruzadas e confirmei: - É realmente lago:

«Oh! Guarde-se, meu senhor, do ciúme do qual se nutre o monstro-de-olhos-verdes»...

Encostando a cabeça ao meu ombro, Judith leu mais .algumas linhas:

«Nem papoila, ou mandrágora, ou outro entorpecente deste mundo : terá, na medicina, que possa conceder-lhe um sono mais profundo e suave.»

A sua voz soava grave e bela. Neste momento, os outros regressavam da varanda, falando e rindo.

Mrs. Franklin retomou o seu lugar no canapé. Franklin voltou para a cadeira, junto da mesa-estante. Bebeu o seu café e serviu-se de outro.

Norton e Elizabeth desculparam-se por terem de retirar-se, a fim de jogarem brídege, com os Luttrell, que os aguardavam no andar inferior.

Então, Bárbara acabou de beber a sua chávena e pediu os comprimidos.

Como a enfermeira Craven se tivesse ausentado, Judith foi buscar-lhos ao quarto de banho.

Franklin deambulava pelo aposento, de um lado para o outro, e embateu na mesa-estante.

- Não sejas desastrado, John - censurou Bárbara.

- Desculpa, querida. Estava a pensar numa coisa... Com afectação quase trocista, Mrs. Franklin disse-lhe:

- És um verdadeiro urso, não és, querido? Ele olhou-a abstractamente e despediu-se:

- Boa noite a todos. Vou dar uma volta lá por fora. Saiu.

- É um génio, sabem? - comentou Bárbara Franklin. - Têm de desculpar-lhe as maneiras desajeitadas, pois está sempre a pensar noutra coisa. Admiro-o terrivelmente. Vive apaixonado exclusivamente pelo seu trabalho.

- Sim, sim - apoiou Boyd Carrington, para não ficar calado -, é um rapaz esperto.

Judith, abruptamente, abandonou o quarto e quase chocou com a enfermeira, que vinha, nesse momento, a entrar.

- Que tal um joguinho de cartas, Babs? - propôs Boyd Carrington. - Oh, sim, magnífica ideia - aplaudiu Mrs. Franklin.

Virando-se para a enfermeira Craven, ordenou:

- Veja se descobre onde param as cartas, sim?

Enquanto a enfermeira Craven lhas entregava, desejei-lhes boa-noite e retirei-me. Fui encontrar Judith e Franklin, de pé, junto de uma janela aberta, contemplando a noite.

O médico quebrou o silêncio para perguntar-lhe:

- Quer vir dar uma volta?

- Não - recusou Judith. - Não esta noite. Quero ir deitar-me. Até amanhã.

Desci com Franklin as escadas. Ouviou-o assobiar baixinho, sorridente.

Notei o facto por sentir-me pessoalmente deprimido.

- Parece muito satisfeito consigo, esta noite observei.

Ele admitiu-o sacudindo a cabeça.

- Sim, efectivamente. Consegui levar a cabo uma coisa que tencionava realizar há muito tempo. Creio tê-lo feito satisfatoriamente.

Separei-me dele ao fundo das escadas e, durante alguns minutos, entretive-me a acompanhar as jogadas dos parceiros de brídege. Numa altura em que os Luttrell não estavam a olhar, Norton piscou-me o olho. A jogatana, como ele dissera, parecia decorrer com uma harmonia extraordinária.

Allerton não tinha regressado ainda e tive a noção de que a sua ausência transmitia à casa uma atmosfera menos opressiva.

Finalmente dirigi-me ao quarto de Poirot, onde fui encontrar Judith sentada ao seu lado. Quando entrei sorriu-me, mas não me falou.

- Ela perdoou-lhe, man ami - disse Poirot. Soou-me aos ouvidos como se fosse uma observação ultrajante.

- Realmente? Pois pensei que fosse eu... Judith levantou-se, passou os braços em torno do meu pescoço e beijou-me.

- Pobre pai! - exclamou ela. - O tio Poirot, não devia atacar a sua dignidade. Eu é que peço para ser perdoada. Portanto, venha daí o seu perdão e... boa noite.

Ainda não sei porquê, mas disse-lhe: - Desculpa-me, Judith. Lamento imenso. Não quis, de maneira nenhuma...

Ela interrompeu-me:

- Está tudo bem. Esqueçamos o que se passou, sim?... A sério, está tudo bem, agora.

E, tranquilamente, saiu do quarto.

Logo a seguir, Poirot, perguntou-me:

- Que tem acontecido, por aí, esta noite?

Afastei as mãos abertas e encolhi os ombros. - Nada aconteceu e parece que nada sucederá.

Mal sabia nesse momento como estava longe da verdade. Porque algo acontecera, de muito grave. Mrs. Franklin adoecera, realmente, achando-se num estado muito crítico. Em vão chamaram mais dois médicos da cidade.

Morreu na manhã seguinte.

Só vinte e quatro horas mais tarde tomámos conhecimento de que a sua morte fora causada por envenenamento com fisostigmina.

CAPÍTULO XIV

I

O inquérito verificou-se dois dias mais tarde. Era a segunda vez que assistia a um inquérito daquela natureza, no mesmo ponto do mundo.

O coroner (1) era um homem de meia-idade, evidenciando capacidade profissional, com um olhar penetrante e uma maneira de expressar-se deveras seca.

Primeiro, foram consideradas as provas médico-legais. A autópsia provara, de facto, que a morte fora causada por envenenamento com fisostigmina, embora também se tivessem detectado outros alcalóides extraídos da semente calabar.

O veneno devia ter sido ingerido naquela noite, entre as sete horas da tarde e a meia-noite. O cirurgião da Polícia que procedera à autópsia e o seu colega médico-legista recusaram-se a ser mais precisos, quanto ao factor tempo.

A testemunha ouvida em segundo lugar foi o Dr. John Franklin. Deixou a todos uma boa impressão. O seu depoimento foi claro e simples. Depois da morte da mulher, fora ao laboratório verificar as suas soluções e descobrira que certo frasco, que deveria conter um forte soluto de alcalóides de semente de calabar, fora cheio com água da torneira, na qual ainda se notavam vestígios do anterior conteúdo. Não podia informar quando é que tal podia ter sido operado, visto não proceder a experiências com aquele produto, já havia alguns dias.

A questão de acesso ao laboratório foi trazida à baila. O Dr. Franklin confirmou que, usualmente, fechava a porta do laboratório à chave e que costumava trazê-la consigo na algibeira. A sua assistente, Miss Judith Hastings, tinha um duplicado dessa chave. Quem quer que desejasse entrar no laboratório, na ausência de ambos, teria de pedir a chave a qualquer um deles, e, geralmente, a ele, Dr. Franklin.

Acontecera, uma ou duas vezes, ter-lhe sua mulher pedido a chave para ir ao laboratório buscar coisas de que ocasionalmente se esquecera. Pessoalmente, nunca trouxera qualquer solução de fisostigmina para o quarto e considerava improvável que ela o tivesse feito.

(1) Magistrado distrital encarregado de investigar casos de morte súbita ou violenta. (N. do T.)

Posteriormente interrogado pelo coroner sobre a saúde de Mrs. Franklin, declarou que ela sofria de uma certa fraqueza geral e particularmente dos nervos. Não havia qualquer enfermidade de outra natureza; mais depressão psíquica do que outra coisa.

Negou ter travado com ela a mais pequena discussão e afirmou que viviam em boas relações de amizade. Mencionou contudo que, no dia da morte, a tinha achado demasiado melancólica.

Confirmou ter Mrs. Franklin, ocasionalmente, falado em pôr termo à vida, mais do que uma vez, mas que nunca a tomara a sério, pois esse tipo de manifestações é típico entre as pessoas neurasténicas. Finalmente, depois de instado, repudiou a hipótese do suicídio, pois, na sua opinião, a esposa não seria capaz de fazê-lo, nem teria razão para tal.

Seguiu-se-lhe a enfermeira Craven, que, sendo interrogada, respondeu com concisão e clareza. Envergando a sua farda profissional, declarou que estivera ao serviço de Mrs. Franklin durante mais de dois meses; que a enferma sofria de depressão nervosa; testemunhara ouvi-la dizer, frequentemente, desejar «acabar com tudo isto» e queixar-se de que se considerava uma «mó amarrada ao pescoço» do marido.

- Porque teria dito isso? Ocorrera alguma discussão entre ela e o Dr. Franklin?

- Oh, não! De maneira nenhuma, mas dizia que tinham oferecido ao marido uma nova colocação que ele sempre ambicionara e fora forçado a recusar por não querer separar-se dela.

- Acha que a sua paciente nutria sentimentos mórbidos por esse facto?

- Sim. Passava dias inteiros a lamentar-se da sua doença e inutilidade...

- Sabe se o doutor Franklin tinha conhecimento desse estado de espírito?

- Não creio que ela o tenha repetido, muitas vezes, ao marido. Queixava-se habitualmente às outras pessoas, dizendo-se inapta para ajudá-lo e incapaz de interessar-se pelo seu trabalho, que lhe repugnava.

- Mas sofria, portanto, de ataques de abatimento e depressão?

- Oh, sim. Absolutamente.

- Alguma vez mencionou, especificamente, desejar cometer suicídio?

- Nunca empregou esse termo. Apenas dizia: «Quero acabar com tudo isto.»

- Referiu-se porventura ao método que empregaria para pôr termo à vida?

- Não. Era sempre muito vaga e eu... ninguém, segundo julgo, lhe dava crédito.

- Concorda com o doutor Franklin... ou melhor, confirma a declaração do marido, de que no dia da morte se achava muito melancólica?

A enfermeira Craven hesitou neste ponto.

- Bem... não lhe chamaria melancolia. Achei-a mais nervosa do que habitualmente. Estava muito excitada, pois passara mal todo o dia, queixando-se de dores e de cansaço. Melhorou para a noite, mas parecia febril e artificial.

- Viu qualquer frasco que pudesse conter o veneno?

- Não.

- Que foi que ela comeu e bebeu?

- Sopa, costeletas, ervilhas e puré de batata... e torta de cerejas. Acompanhou a refeição com um copo de borgonha.

- De onde veio esse borgonha?

- Tínhamos a garrafa no quarto. Ficou um resto, no fundo, mas creio que já foi analisado e nada continha de especial.

- Teria tido oportunidade de deitar o veneno no copo, sem que a enfermeira tivesse visto?

- Oh, sim. Facilmente. Eu andava de um lado para o outro a arranjar-lhe coisas, enquanto ela comia. Não estava a vigiá-la, pois não podia desconfiar de coisa alguma. Tinha junto de si uma pequena caixa, onde guardava a correspondência, e a sua bolsa de mão de que nunca se separava. Podia, portanto, ter deitado qualquer droga no copo, tanto do borgonha, como no do leite que tomou mais tarde, antes de adormecer... ou antes disso... com o café.

- Faz alguma ideia de como poderia ela ter-se desfeito do frasco do veneno?

A enfermeira Craven considerou a pergunta e sugeriu:

- Talvez pudesse lançá-lo pela janela, ou colocado no cesto dos papéis... ou talvez o tivesse lavado no quarto de banho e arrumado entre os outros frascos que lá se encontram em profusão. Estão lá outros vazios. Tenho-os conservado porque, às vezes, são úteis.

- Quando viu Mistress Franklin pela última vez?

- Às dez e meia da noite. Recostei-a na cama, para dormir. Bebeu um copo de leite quente e disse-me ter também tomado uma aspirina.

- Como a achou, nessa altura?

- Bem, como habitualmente... Isto é... talvez um pouco sobreexcitada.

- Não muito deprimida?

- Não mais do que de costume. Mas, se estão a pensar em suicídio, terei de discordar dessa hipótese. Se pensasse em matar-se, ter-se-ia mostrado nobre, ou exaltada, não sei se me exprimo bem?

- Considerava-a uma pessoa capaz de atentar contra a própria vida?

Fez-se uma pausa. A enfermeira Craven meditou na pergunta, cuidadosamente.

- Considero-a capaz disso e ao mesmo tempo... custa-me a crer. Talvez, sim. De uma maneira geral, era uma senhora um tanto ou quanto desequilibrada.

Sir William Boyd Carrington veio a seguir. Parecia genuinamente alarmado, mas prestou as suas declarações com a máxima clareza.

Estivera a jogar às cartas com a doente, na noite da morte. Não notara quaisquer sinais de depressão nessa altura. Contudo, alguns dias antes, Mrs. Franklin confidenciara-lhe a sua intenção de acabar com a vida. Era uma mulher generosa e de maneira alguma egoísta. Convencera-se ter-se tornado um empecilho para a carreira do marido. Era-lhe muito devotada e ambiciosa a respeito do seu futuro, como médico e cientista. Por vezes, mostrava-se, efectivamente, bastante deprimida com a sua própria saúde.

Judith também foi chamada, mas pouco tinha a dizer. Nada sabia acerca da utilização da fisostigmina nem da sua remoção para fora do laboratório. Na noite da tragédia, Mrs. Franklin parecera-lhe um pouco mais excitada do que habitualmente. Nunca a ouvira falar em suicídio.

A última testemunha foi Hercule Poirot.

As suas declarações foram prestadas com muita ênfase e causaram viva impressão. Relatou a conversa que entabulara com Mrs. Franklin na véspera do seu falecimento. Mostrara-se então muito deprimida e falara, efectivamente, em pôr termo à vida. Declarara-Ihe que seria maravilhoso e bem desejaria «adormecer e nunca mais acordar».

As respostas às perguntas imediatas causaram a maior sensação.

O coroner inquiriu:

- No dia dez de Julho, pela manhã, esteve sentado à porta do laboratório?

- Sim.

- Viu Mistress Franklin sair desse laboratório?

- Vi.

- Notou que trouxesse qualquer coisa na mão?

- Sim. Vi, distintamente, que segurava um frasco na mão direita, embora parecesse tentar escondê-lo.

- Está certo disso?

- Absolutamente.

- Mostrou-se confusa, quando se viu observada por si?

- Fitou-me assustada... para ser conciso.

O coroner sumariou o conjunto das declarações das testemunhas, referiu-se a Poirot considerando-o um elemento muito válido no inquérito e afirmando que o facto de ter visto Mrs. Franklin sair com um frasco do laboratório, dera um sentido positivo à investigação. Finalmente, observou que não era muito usual, em casos semelhantes, verificar-se o desaparecimento do frasco continente do veneno, mas admitia-se a possibilidade, sugerida pela enfermeira Craven, de a doente tê-lo recolocado na prateleira de onde o retirara, depois de lavá-lo. Cumpria agora ao júri tirar as suas conclusões e tomar uma decisão definitiva.

A sentença chegou ao cabo de um curto prazo: Mrs. Bárbara Franklin cometera suicídio, em virtude de um estado de demência temporário.

II

Meia hora depois, entrei no quarto de Poirot. Mostrava-se deveras exausto. Curtiss metera-o na cama e ministrara-lhe um estimulante.

Estava ansioso por que o criado nos deixasse a sós.

Quando finalmente este saiu, inquiri:

- Foi realmente verdade, Poirot... o que disse? Você viu, de facto, Mistress Franklin sair do laboratório com um frasco na mão?

Mal entreabrindo os lábios, murmurou:

- Você não viu isso, meu amigo?

- Não, não vi.

- Talvez não tivesse reparado, hem?

- Não, talvez não. Certamente que não posso jurar que ela não o trazia.

Fitei-o bem nos olhos e insisti:

- Você falou, realmente, verdade?

- Está a sugerir que menti?

- Bem... não acredito que você fosse capaz de cometer perjúrio...

Surdamente, Poirot retorquiu:

- Não seria perjúrio, porque não se tratou de um depoimento ajuramentado. Não prestei qualquer juramento.

- Nesse caso, foi uma mentira? Automaticamente o meu amigo replicou:

- O que disse, mon ami, está dito. Agora é desnecessário discuti-lo.

- Não consigo percebê-lo - quase gritei.

- O quê que não percebe?

- O seu testemunho... toda essa história do terrível estado de depressão de Mistress Franklin, quando lhe relatou pretender suicidar-se.

- Enfin, você ouviu-a dizer coisas semelhantes, não é verdade?

- Sim, mas nunca tão peremptoriamente. Você pretendeu mesmo que a sentença fosse suicídio?

Antes de responder, Poirot fez uma pausa. Depois, disse:

- Penso que você, Hastings, ainda não se apercebeu da gravidade da situação. Sim, se você prefere, confesso que quis provocar uma decisão de suicídio.

- Mas não pensa que ela o tenha cometido, não é verdade?

Lentamente, Poirot abanou a cabeça. - Pensa, portanto, que foi assassinada?

- Sim, Hastings. Foi assassinada.

- Nesse caso porque os forçou a pararem a investigação?

Ergueu as sobrancelhas, desalentado, e declarou:

- E admissível que você não possa discernir o motivo. Não interessa. Ponhamos isso de lado. Terá que aceitar a minha conclusão de que foi homicídio premeditado, por um criminoso, não só astuto, mas também determinado a matar.

- E que vai fazer a seguir, para o caçar?

- Este caso está arrumado e rotulado: suicídio. Mas você e eu, Hastings, vamos prosseguir no nosso trabalho de sapa, como toupeiras. Mais tarde ou mais cedo, apanharemos X.

- Mas suponha que, entretanto, ele assassina mais alguém?

Poirot abanou a cabeça.

- Não penso nisso. A menos que alguém tenha visto qualquer coisa ou saiba qualquer coisa. Mas se assim fosse, já o teria declarado... não?

CAPÍTULO XV

I

A minha memória é bastante vaga acerca dos acontecimentos que se sucederam imediatamente ao inquérito sobre a morte de Mrs. Franklin.

Houve um funeral a que compareceram inúmeras pessoas de St. Mary de Styles. A opinião geral entre os circunstantes era de que essa história de suicídio soava ligeiramente falso.

Como disse, recordo com pouca precisão esses dias que se seguiram ao arquivo do processo. A saúde de Poirot começava a preocupar-me muito e, certo dia, Curtiss, com a sua cara de pau, anunciou-me que o meu amigo sofrera novo ataque de coração.

Aconselhei-o a consultar um médico, mas Poirot insurgiu-se violentamente contra a minha sugestão. Depois de discutirmos o assunto, decidiu:

- Quando me sentir verdadeiramente mal, então chamarei um médico. De resto já consultei dois, no Egipto e... fiquei muito pior. Depois fui ver um especialista...

- Que disse ele? - interrompi ansioso. Poirot riu da minha preocupação e respondeu:

- Fez o que tinha a fazer e receitou-me o que tinha a receitar. - Não quer, realmente, consultar esse especialista, uma outra vez?

Gentilmente, mas com real determinação, declarou:

- Este, meu caro Hastings, é o meu último caso... E o mais interessante, sob o aspecto criminal, X utiliza uma técnica soberba que o torna merecedor da minha admiração. Quase diria que operou tão habilmente que me derrotou, mon cher. Conseguiu desfechar um ataque para o qual não achei defesa.

- Se você estivesse com saúde... - condicionei, voltando à carga.

- Quantas vezes terei de repetir-lhe que, nesta luta, não necessito de fazer o menor esforço físico? protestou, quase irado. - Afirmo-lhe, Hastings, que o meu cérebro funciona perfeitamente. Continua, como dantes, de primeira classe.

- Isso é esplêndido - respondi, mas receio ter-me mostrado pouco crédulo.

Desci as escadas lentamente, duvidando das famosas faculdades do meu amigo. Pareciam debilitadas, em relação aos tempos antigos. Afinal de contas, verificara-se o homicídio frustrado... bem... se fora acidental, nem se poderia considerar homicídio; porém, do tiro do coronel Luttrell teria resultado uma morte, se não fosse a sorte circunstancial; verificara-se a morte de Mrs. Franklin que, graças à intervenção de Poirot, fora julgada suicídio, em vez de assassínio, como ele, de resto, afirmava. Quem mais se seguiria? Poderia estar assim tão certo da inacção do criminoso? E que faria... que poderes teria o meu amigo, para deter aquele, se se decidisse prosseguir na sua senda destruidora?

Praticamente, nada!

II

Foi no dia seguinte que Poirot me disse:

- Você, Hastings, ficaria muito mais feliz se eu consultasse um médico?

- Certamente que sim - assegurei-lhe.

- Eh bien, far-lhe-ei a vontade. Quero que Franklin me veja.

- Franklin? - estranhei.

- E médico, não é verdade?

- Indubitavelmente, mas não tem praticado, ultimamente. Tem-se dedicado quase exclusivamente às pesquisas científicas...

Fui chamá-lo e ficaram ambos muito tempo no quarto, a sós. Eu fora, discretamente, para o meu e aguardei o fim da consulta. Quando Franklin saiu, trouxe-o para o meu quarto e fechei a porta.

- Então? - sondei ansiosamente.

- É um homem notável - respondeu ele.

-Mas... e a saúde? Como é que o achou?

- A saúde? - Franklin pareceu surpreendido, como se eu mencionasse qualquer coisa de menor importância. - Ah! Um pouco gasto, evidentemente.

- E o coração?

- Sabe como é, naquela idade? Pode falhar de um momento para o outro.

- Portanto... ele sabe?

- Certamente que sim. Mas nunca se pode dizer quando. Naquela idade...

Mas que idade? Poirot não era tão velho como isso. Comecei a duvidar da competência de Franklin. Parecia que nem o tinha visto a sério.

- Que foi que lhe receitou? - interessei-me.

- Nada. Já tem consigo ampolas de nitrito de amilo, para o caso de sofrer novo ataque cardíaco. Segundo me disse, já teve alguns.

- E não se sente deprimido, nesse estado de morte iminente, isto é... podendo morrer de um momento para o outro, sem saber quando?

- Não vejo razão para tal. Todos temos de morrer, mais cedo ou mais tarde. Viver só interessa enquanto estamos sãos. Por isso lutamos por descobrir os meios de perservar a saúde. Quando começamos a estar cansados da vida e já a vivemos intensamente... um dia a mais ou a menos, pouco interessa.

Achei estranhíssima aquela maneira de pensar, da parte de um médico. Notei também que não apresentava o menor sinal de luto.

Enquanto pensava nisso, Franklin perguntou de chofre:

- Judith não se parece muito consigo, pois não?... Refiro-me à maneira de agir e sentir?

- Não. Suponho que não.

- Parece-se com a mãe?

- Também não - respondi, depois de pensar um pouco. - Cinders era uma mulher alegre, risonha. Não gostava de tomar nada muito a sério e tentava transformar-me... levar-me a ser como ela. - Judith não ri muito. É uma jovem muito séria. Creio que trabalha de mais... e a culpa é minha...

Convencionalmente, comentei:

- O seu trabalho é muito interessante.

- Hem?

- Disse que o seu trabalho deve ser interessantíssimo - repeti.

- Só para uma meia dúzia de pessoas. Mas vou agora ter a minha grande oportunidade: o Ministério comunicou-me, hoje, que poderia partir quando quiser.

- Para África?

- Sim. É magnífico!

- Tão cedo?

- Como tão cedo? - admirou-se. - Ah, refere-se à morte de Bárbara? Porque não? Não seria sincero, se não confessasse que a sua morte constituiu um grande alívio para mim.

- Mas recusou-se a ir para África, por causa dela, não foi verdade?

- Sim... na verdade, mais por razões financeiras. Não podia suportar a despesa de dois lares, compreende? Mas agora, a sorte bafejou-me.

Sorria-me como um rapazinho satisfeito com um programa de excursão.

Senti-me revoltado. Pensava que um homem a quem morresse a mulher dever-se-ia achar de coração despedaçado.

- E não o perturba o facto de sua mulher se ter suicidado? - sondei.

Olhou-me vagamente surpreendido e respondeu:

- Para falar francamente, não creio que se tenha suicidado. Não me parecia mulher para isso. Acho o facto muito estranho.

- Nesse caso, que pensa que se tenha passado?

- Não sei. Nem creio que queira saber, realmente, o que se passou.

Fiquei a olhar para ele, pasmado. Fitou-me com uma expressão dura e repetiu:

- Não quero saber. Não estou interessado nesse problema. Compreende?

Não compreendi... e não gostei.

III

Não sei quando notei que Norton tinha qualquer problema em mente.

Andava perplexo e mostrava uma estranha ausência, quando se falava com ele. Perguntei-lhe que diabo o preocupava e respondeu-me friamente.

- Nada.

Como insistisse, abriu-se comigo.

- Sabe, Hastings, devia ser simples uma pessoa considerar as coisas certas ou erradas. Mas, às vezes, somos envolvidos em problemas que não nos permitem actuar, por ignorarmos se fazemos bem ou mal. Está a compreender?

- Não muito bem - confessei.

- É difícil explicar. Suponha que abriu uma carta, por engano, e leu qualquer coisa privada, confidencial... Suponha que começou a ler, porque inicialmente pensou que a carta lhe era dirigida e só depois, pelo seu teor, compreendeu o erro... Pode acontecer, sabe?

- Sim, certamente.

- Suponha agora que vamos ter com essa pessoa e lhe dizemos: «Desculpe, mas abri a sua carta por engano...» Mas suponha que o conteúdo da mensagem é terrivelmente embaraçoso...

- Embaraçoso para essa outra pessoa?

- Sim. Gostaria de saber o que poderia fazer, nesse caso.

- Tente explicar-me isso em termos mais concretos - propus.

Lentamente, Norton disse:

- Suponha, por exemplo, que viu qualquer coisa por um buraco de fechadura...

Aquilo fez-me logo pensar em Poirot.

- ... e nunca poderia esperar ver o que viu prosseguiu ele.

Por momentos, analisei a sua expressão embaraçada e pressenti que se referia a qualquer coisa que me dizia respeito. Depois pensei que estivesse relacionada com Judith e Allerton.

Abruptamente, inquiri:

- Foi qualquer coisa que viu através do seu binóculo?

Olhou-me estupefacto e perguntou:

- Oh, Hastings. Como é que adivinhou?

- Isso passou-se naquele dia em que estávamos os dois na companhia de Miss Cole?

- Exactamente.

- Que foi que viu?

- Bem, foi qualquer coisa que não tencionava ver. Estava realmente a admirar um belo pica-pau e, subitamente, descobri outra coisa.

Calou-se, como que abafado por renascidos escrúpulos.

- Foi algo de muito importante?

- Receio que sim...

- Alguma coisa relacionada com a morte de Mistress Franklin? - inquiri, repentinamente inspirado.

- Como adivinhou? - indagou admirado. Depois, confusamente, titubeou:

- Não sei o que fazer.

Também me achava agora num dilema, entre a minha natural curiosidade e o desejo de não parecer curioso, nem pressionar a sua relutante reserva.

Tive então uma ideia brilhante.

- Porque não consulta a opinião de Poirot? - sugeri.

- Poirot?

Norton mostrava-se duvidoso.

- Sim. Peca-lhe um conselho.

- Bem - anuiu com dificuldade. - É uma ideia.

- Verá como ele respeitará a sua confidência. É muitíssimo discreto e você fica livre para seguir, ou não, o seu conselho.

- Isso é verdade - declarou Norton, aparentemente aliviado. - Sabe, Hastings? Creio que é exactamente isso que vou fazer.

IV

Poirot ficou pasmado quando lhe contei.

- Que está a dizer-me, Hastings?

Repeti-lhe a história.

- Norton disse-lhe que tinha visto qualquer coisa, no outro dia, através do binóculo e não quis contar-Ihe, a si, o que era? - precisou Poirot.

- Exactamente.

O meu amigo agarrou-me o braço, com força e inquiriu:

- E não contou o que viu a mais ninguém?

- Creio que não. Direi mesmo que... estou certo de que não contou.

- Tenha cuidado, Hastings. É urgente... impedir que ele o diga a quem quer que seja. Se o fizer... é muito perigoso.

- Perigoso? - admirei-me.

- Terrivelmente perigoso.

O rosto de Poirot evidenciava grave preocupação.

- Veja se o convence a vir falar-me, esta noite. Como se tratasse de uma simples e amigável visita, compreende? Não permita que ninguém suspeite de que se trata de um encontro com fins especiais. E tenha cuidado, Hastings, muito cuidado. Quem foi que você disse que estava consigo, nesse momento?

- Elizabeth Cole.

- Teria ela notado qualquer coisa na sua atitude?

- É muito provável. Decerto que notou.

- Não diga nada desse assunto a ninguém, Hastings, ouviu? Absolutamente nada.

CAPITULO XVI

I

Transmiti a Norton a mensagem de Poirot.

- Está bem - anuiu. - Irei vê-lo, mas sabe, Hastings? Lamento imenso ter falado nisto, mesmo a si, compreende?

- A propósito, falou nisso a mais alguém? sondei. - Não, meu Deus! De maneira nenhuma.

- Está absolutamente certo?

- Nem uma palavra.

- Bem, não o faça, antes de falar com Poirot...

Notei-lhe uma ligeira hesitação na primeira negativa, mas na segunda, fora absolutamente firme. Apesar de tudo, não esqueceria aquela primeira hesitação.

II

Dirigi-me ao local onde ocorrera o incidente com o binóculo de Norton. Já lá estava outra pessoa: Elizabeth Cole. Ao pressentir-me virou a cabeça e, momentos depois dizia-me:

- Parece muito excitado, capitão Hastings. Sucedeu alguma coisa?

Tentei acalmar-me.

- Não. Nada aconteceu de especial. Falta-me um pouco o fôlego por ter vindo a andar depressa.

Depois, para mostrar-me natural, servi-me de um lugar-comum:

- Creio que vai chover.

Ela olhou para o céu e confirmou:

- Sim, parece que não tarda.

Durante um minuto permanecemos silenciosos. Achava essa mulher extremamente simpática, para além de ser formosa. Desde que me relatara a tragédia da sua vida, senti despertar, em mim, um grande interesse por ela. Duas pessoas que já sofreram a infelicidade têm sempre qualquer coisa em comum, só que para ela, ainda podia haver Primavera. Impulsivamente, declarei:

- Bem longe de estar excitado, pelo contrário, sinto-me até bastante deprimido. Tive hoje más notícias acerca do meu querido amigo Poirot.

O interesse que manifestou convidou-me a contar-Ihe a situação.

Quando terminei, admitiu:

- Se ele pode finar-se, de um momento para o outro, é natural a sua preocupação!

- Quando Poirot morrer, sentir-me-ei, realmente só, neste mundo. - Oh, não - contrariou ela. - Tem ainda a sua filha Judith... e os seus outros filhos.

- Os mais velhos - respondi -, estão espalhados pelo mundo... e Judith tem o seu trabalho e não precisa de mim.

- Sinto-me muito mais só, capitão Hastings. Tenho, na verdade, duas irmãs, mas uma está na América e a outra na Itália.

- Minha querida amiga - exortei. - A sua vida está ainda no princípio!

- Aos trinta e cinco anos?

- Que são trinta e cinco anos, Miss Cole? Quem me dera tê-los - acrescentei maliciosamente. - Não sou cego, sabe?

Ela olhou-me de relance e corou:

- Não sei a que se... Oh! Stephen Norton e eu somos apenas amigos. Nada mais.

- E nunca pensou em casar?

Elizabeth Cole tornou-se subitamente pálida e disse, gravemente:

- Como quer que tenha pensado nisso, com a minha história?... Com uma irmã assassina, se não louca?

- Não esteja obcecada com essa ideia. Pode não ser verdade.

- Como não?

- Lembre-se de que uma vez me disse: «Maggie não faria uma coisa daquelas.»

- Isso é o que senti...

- O que uma pessoa sente é muitas vezes verdade.

- Que quer dizer com isso? - interrogou, expectante.

- A sua irmã não matou seu pai - afirmei.

- Deve estar louco. Quem lhe contou isso?

- Não interessa. E a verdade. Um dia poderei provar-lhe.

III

Perto de casa, corri para Boyd Carrington.

- É o meu último dia em Styles - anunciou. Parto amanhã. - Para Knatton?

- Sim. Espero vir a gostar de viver ali. Sinto, nesta casa... pairar sobre nós uma influência maligna. Primeiro deu-se o acidente com Mistress Luttrell. Depois... o que sucedeu à pobre Bárbara. Nunca me convencerei de que cometeu suicídio. Ela era sã de espírito e apenas se preocupava com o excessivo trabalho do marido. Não tinha a menor razão para fazer uma coisa daquelas... sem uma carta... sem mais nem menos... Sabe o que penso, Hastings?

- Não.

- Franklin foi o responsável pela sua morte. Se não a matou directamente, foi ele quem a levou a um acto desesperado... Mas nem nisso acredito... Digo-Ihe uma coisa que nunca referi a ninguém... Sinto que foi ele quem a assassinou.

- Não diga uma coisa dessas! - censurei.

- Não o afirmo. Disse-lhe unicamente que o «sentia». Mas não sou o único que pensa isso.

- Quem mais? - interessei-me.

- A enfermeira Craven. Nunca gostou dele. Pensei que, na realidade, ela devia saber, mais do que nós, o que se passava na vida íntima dos Franklin.

- Ela dorme cá esta noite - informou Boyd. Partiu depois do funeral, mas regressou, novamente.

Estranhei a razão desse regresso. Se não gostava de John Franklin...

- A enfermeira não tem o direito de caluniar o doutor Franklin - protestei. - Poirot foi absolutamente positivo quando testemunhou acerca do frasco que viu na mão de Mistress Bárbara...

Boyd Carrington interrompeu:

- Que significa um frasco, Hastings? As mulheres andam sempre com coisas dessas nas mãos. Perfumes, cremes, cosméticos, vernizes. O facto de ter sido vista com um frasco na mão não significa suicídio. Que disparate!

Calou-se à aproximação de Allerton.

Pensei como teria gostado que ele fosse o vilão da peça, mas achava-se afastado, na noite da morte de Bárbara. E que motivo poderia ter para agir dessa maneira?

Lembrei-me, depois, que X nunca tinha um motivo. Nisso residia a sua intangibilidade.

IV

Chegado a este ponto, devo sublinhar que nunca julgara possível que Poirot pudesse falhar. No conflito entre o meu amigo e X, nunca esperara que este levasse a melhor. A despeito da doença e fraqueza de Poirot, estava certo de que o meu amigo acabaria por triunfar. Contudo, subitamente, alarmei-me. Fora Poirot quem me inculcara a dúvida na mente, ao admitir: «Se algo me acontecer...» Recordei textualmente as suas palavras:

- Posso morrer de um momento para o outro. Sim, Hastings, não me interrompa, por favor. Quando o comandante morre, man ami, o seu subalterno deve substitui-lo.

- Como? - desesperei. - Se me acho completamente nas trevas?

- Tratei disso - assegurou ele, batendo na caixa onde estavam os recortes dos jornais. - Deixar-lhe-ei uma mensagem.

- Vai escrever-me todos os elementos? - perguntei ansioso.

- Não, meu amigo. O facto de você não saber o que sei, é o meio mais válido para a sua própria segurança. Indicar-lhe-ei o caminho, mas de maneira que, se X encontrar a mensagem, não poderá entendê-la. Só você será capaz de decifrá-la.

- Porque terá sempre uma mente tão tortuosa, Poirot? - critiquei.

- É a minha paixão, não é o que você pensa? Talvez! Mas esteja descansado que fornecerei todas as indicações que o conduzam à verdade.

Para Poirot, a vida desenrolava-se como uma peça de teatro: após a trágica apoteose, cairia o pano.

Tentei afastar aquela ideia do meu cérebro e fui jantar.

CAPÍTULO XVII

I

A refeição foi bastante satisfatória, Mrs. Luttrell exteriorizava, novamente, a sua alegria artificial irlandesa; Franklin mostrava-se mais animado do que nunca e, pela primeira vez, vi a enfermeira Craven sem o seu austero uniforme. Era, decerto, uma mulher muito atraente, especialmente agora que se despojara da sua reserva profissional.

Depois do jantar, Mrs. Luttrell sugeriu, como habitualmente, uma partida de brídege, mas acabámos por jogar uma partida de cartas vulgar. Ao cabo de meia hora, Norton anunciou tencionar fazer uma pequena visita a Poirot.

Continuar: parte 2 de 2