Capitães de Areia
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Dora declarou à nossa reportagem que era noiva de Pedro Bala e que iam se casar. É
uma menina ainda ingênua, mais digna de piedade que de castigo. Fala no seu noivado com maior das ingenuidades. Não tem mais de quatorze anos, enquanto Pedro Bala anda pelos seus dezesseis. Dora foi leva da ao Orfanato Nossa Senhora
da Piedade.Neste santo ambiente não tardará a esquecer Pedro Bala, o romântico noivo-bandido, e a sua vida criminosa entre os “Capitães da Areia”.
Quanto a Pedro Bala, será recolhido ao Reformatório de Menores logo que a polícia consiga que ele declare qual o local onde se esconde o grupo. A polícia tem grandes esperanças de consegui-lo ainda hoje.
OUVINDO O DIRETOR NO REFORMATÓRIO
O diretor do Reformatório Baiano de Menores Abandonados e Delinqüentes é um velho amigo do “Jornal da Tarde”. Certa vez uma reportagem nossa desfez um círculo de calúnias jogada contra aquele estabelecimento de educação e seu diretor.Hoje ele se achava na polícia esperando poder levar consigo o menor Pedro Bala. A uma pergunta nossa, respondeu.
– Ele se regenerará. Veja o título da casa que dirijo: “Reformatório”. Ele se reformará.
E a outra pergunta nossa, sorriu:
– Fugir? Não é fácil fugir do Reformatório. Posso lhe garantir que não o fará.
Professor, à noite, leu a notícia para todos. Sem-Pernas disse.
– Ele já tá no reformatório. Eu vi quando saiu da polícia.
– E ela no orfanato... – completou João Grande.
– A gente livra eles – afirmou Professor. Depois virou-se para o Sem-Pernas. – Até Pedro Bala chegar tu fica como chefe, Sem-Pernas.
João Grande estendeu os braços para os outros, falou:
– Gentes, até Bala voltar Sem-Pernas é o chefe...
Sem-Pernas disse:
– Ele ficou pra livrar a gente. É preciso que a gente livre ele. Não direito?
Todos estavam decididos.
Quando o levaram para aquela sala Pedro Bala calculava o que o esperava. Não veio nenhum guarda. Vieram dois soldados de polícia, um investigador, o diretor do reformatório. Fecharam a sala. O investigador disse numa voz risonha:
– Agora os jornalistas já foram, moleque. Tu agora vai dizer que sabe queira ou não queira.
O diretor do reformatório riu:
– Ora, se diz...
O investigador perguntou:
– Onde é que vocês dormem?
Pedro Bala o olhou com ódio:
– Se tá pensando que eu vou dizer...
– Se vai...
– Pode esperar deitado.
Virou as costas. O investigador fez um sinal para os soldados. Pedro Bala sentiu duas chicotadas de uma vez. E o pé do investigador na sua cara. Rolou no chão, xingando.
– Ainda não vai dizer? – perguntou o diretor do reformatório. – Isso é só o começo.
– Não foi tudo o que Pedro Bala disse.
Agora davam-lhe de todos os lados. Chibatadas, socos pontapés. O diretor do reformatório levantou-se, sentou-lhe o pé Pedro Bala caiu do outro lado da sala.
Nem se levantou. Os soldados vibraram os chicotes. Ele via João Grande, Professor, Volta Seca, Sem-Pernas, o Gato. Todos dependiam dele. A segurança de todos
dependia da coragem dele. Ele era o chefe, não podia trair. Lembrou-se da cena da tarde. Conseguira dar fuga aos outros, apesar de estar preso também. O orgulho encheu seu peito. Não falaria, fugiria do reformatório, libertaria Dora. E se vingaria... Se vingaria...
Grita de dor. Mas não sai uma palavra dos seus lábios. Vai te fazendo noite para ele.
Agora já não sente dores, já não sente nada. No entanto, os soldados ainda o surram, o investigador o soqueia. Mas e não sente mais nada.
– Desmaiou – diz o investigador.
– Deixe ele por minha conta – explica o diretor do reformatório. – Eu levo ele pro reformatório, lá ele abre a boca. Garanto. E eu dou o aviso a vocês.
O investigador assentiu. Com a promessa de no dia seguinte mandar buscar Pedro Bala, o diretor retirou-se.
Na madrugada, quando Pedro acordou, os presos cantavam. Era uma moda triste.
Falava do sol que havia nas ruas, em quanto é grande e bela a liberdade.
O bedel Ranulfo, que o tinha ido buscar na polícia, o levou à presença do diretor.
Pedro Bala sentia o corpo todo doer das pancadas do dia anterior. Mas ia satisfeito, porque nada tinha dito, porque não revelara o lugar onde os Capitães da Areia viviam. Lembram-se da canção que os presos cantavam na madrugada que nascia.
Dizia que a liberdade é o bem maior do mundo. Que nas ruas havia sol e luz e nas células havia uma eterna escuridão porque ali a liberdade era desconhecida.
Liberdade.João de Adão, que estava nas ruas, sob o sol, falava nela também. Dizia que não era só por salários que fizera aquelas greves nas docas e faria outras. Era pela liberdade que os doqueiros tinham pouca. Pela liberdade o pai de Pedro Bala morrera.n Pela liberdade – pensava Pedro – dos seus amigos, ele apanhara uma surra na polícia. Agora seu corpo estava mole e dolorido, seus ouvidos cheios da moda que os presos cantavam. Lá fora, dizia a velha canção, é o sol, a liberdade e a vida.Pela janela Pedro Bala vt o sol. A estrada passa adiante dó grande portão do
reformatório. Aqui dentro é como se fosse uma eterna escuridão. Lá fora é a liberdade e a vida. E a vingança, pensa Pedro Bala.
O diretor entra. O bedel Ranulfo o cumprimenta e mostra Bala. O diretor sorri, esfrega as mãos uma na outra, senta ante uma alta secretária. Olha Pedro Bala uns minutos:
– Afinal... Faz bastante tempo que espero este pássaro, Ranulfo.
O bedel sorri aprovando as palavras do diretor.
– É o chefe dos tais de Capitães da Areia. Veja... O tipo do criminoso nato. É
verdade que você não leu Lombroso... Mas se lesse, conheceria. Traz todos os estigmas do crime na face. Com esta idade já tem uma cicatriz. Espie os olhos... Não pode ser tratado como um qualquer. Vamos lhe dar honras especiais...
Pedro Bala o espia com os olhos injetados. Sente cansaço, uma vontade doida de dormir. Bedel Ranulfo aventura uma pergunta:
– Levo pra junto dos outros?
– O quê? Não. Para começar, meta-o na cafua. Vamos ver se ele sai um pouco mais regenerado de lá...
O bedel cumprimenta e vai saindo com Pedro Bala. O diretor ainda recomenda:
– Regime número 3.
– Água e feijão... – murmura Ranulfo. Dá uma espiada em Pedro Bala, balança a cabeça. – Vai sair bem mais magro.
Lá fora é a liberdade e o sol. A cadeia, os presos na cadeia, a surra ensinaram a Pedro Bala que a liberdade é o bem maior do mundo.
Agora sabe que não foi apenas para que sua história fosse contada no cais, no Mercado, na Porta do Mar, que seu pai morrera pela liberdade. A liberdade é como o sol. É o bem maior do mundo.
Ouviu o bedel Ranulfo fechar o cadeado por fora. Fora atirado dentro da cafua. Era um pequeno quarto, por baixo da escada, onde não se podia estar em pé, porque não havia altura, nem tampouco estar deitado ao comprido, porque não havia comprimento. Ou ficava sentado, ou deitado com as pernas voltadas para o corpo numa posição mais que incômoda. Assim mesmo Pedro Bala se deitou. Seu corpo dava uma volta e seu primeiro pensamento era que a cafua só servia para o homem-cobra que vira, certa vez, no circo. Era totalmente cerrado o quarto, a escuridão era completa. O ar entrava pelas frestas finas e raras dos degraus da escada. Pedro Bala, deitado como estava, não podia fazer o menor movimento. Por todos os lados as paredes o impediam. Seus membros doíam, ele tinha uma vontade doida de esticar as pernas. Seu rosto estava cheio de equimoses das pancadas na polícia, e desta vez Dora não estava ali para trazer um pano frio e cuidar do seu rosto ferido. A liberdade era Dora também.Não era só o sol, andar livre nas ruas, rir no cais a grande gargalhada dos Capitães da Areia. Era também sentir junto a si o cabelo loiro de Dora, ouvir ela contar coisas do morro, sentir os lábios dela sobre os seus lábios feridos. Noiva. Também ela estava sem liberdade. Os membros de Pedro Bala doem e agora dói sua cabeça também. Dora está como ele, sem sol, sem liberdade. Foi levada para um orfanato. Noiva. Antes que ela aparecesse ele nunca pensara nesta palavra: noiva. Gostava de derrubar negrinhas no areal. De encostar peito com peito, cabeça com cabeça, pernas com pernas, sexo com sexo. Mas nunca pensara em deitar na areia ao lado de uma menina, menina como ele, e conversar de coisas tolas e correr picula como os outros meninos, sem a derrubar para fazer o amor. Era outra maneira do amor, pensava numa confusão. Ele nunca tivera uma idéia perfeita do amor. Que era ele, senão uma criança abandonada nas ruas, que pela força e agilidade e coragem conseguira chefiar o grupo mais valente de meninos abandonados, os Capitães da Areia? Que podia saber de amor? Sempre
pensara que o amor fosse o momento gostoso em que uma negrinha ou uma mulata gemia sob seu corpo no areal do cais. Isto cedo aprendeu, quando não tinha ainda 13 anos. Isto sabiam todos os Capitães da Areia, mesmo os mais pequenos, aqueles que ainda não tinham forças para derrubar uma cabrocha. Mas já o sabiam, e pensavam com alegria no dia em que o fariam. Os membros e a cabeça de Pedro Bala doem.
Tem sede, ainda não bebeu nem comeu neste dia. Com Dora foi diferente. Logo que ela chegou, tanto ele como todos os que estavam no trapiche pensaram em a derrubar, em a possuir, em praticar com ela, que era bonita, o único amor de que tinham notícia. Mas como era apenas uma menina, eles a tinham respeitado. Depois ela foi como uma mãe para todos. E como uma irmã também, João Grande dizia certo. Mas para ele desde o primeiro momento fora diferente. Fora também uma companheira de brinquedos como para os demais, irmã querida. Mas fora também uma alegria diversa da que dá uma irmã. Noiva. Gostaria, sim. Mesmo quando quer negar a si próprio não pode. É verdade que nada faz para isso, que se contenta de conversar com ela, de ouvir a sua voz, pegar timidamente na sua mão. Mas gostaria de possuí-la também, de vê-la gemer de amor. Não, porém, por uma noite. Por todas as noites de toda uma vida. Como outros têm esposa, esposa que é mãe, irmã e amiga. Ela era mãe, irmã e amigados Capitães da Areia. Para Pedro Bala é noiva, um dia será esposa. Não a podem ter num orfanato como uma menina sem ninguém. Ela tem um noivo, uma legião de irmãos e de filhos de quem cuidar. O cansaço desaparece dos membros de Pedro Bala. Ele precisa de movimento, de andar, de correr, para poder conceber um plano para livrar Dora. Ali naquela escuridão é que não pode. Fica inútil pensando que ela está talvez numa cafua também. Senta-se como pode. Ratos correm na cafua. Mas ele está por demais acostumado com os ratos, não liga. Mas Dora terá medo deste ruído contínuo. É de enlouquecer um que não seja o chefe dos Capitães Areia. Quanto mais uma menina... É verdade que Dora é a menina valente de quantas mulheres já nasceram na Bahia, que é a terra das mulheres valentes. Mais valente mesmo que Rosa Palmeirão, que deu em seis soldados, que Maria Cabaçu, que não respeitava cara, que a companheira de Lampião, que maneja um fuzil igual a um cangaceiro. Mais valente porque é apenas uma menina, apenas está começando a viver. Pedro Bala sorri com orgulho, apesar das dores, do cansaço, sede que aos poucos o aperta. Como seria bom um copo d ’ água! Diante do areal do trapiche é o mar, um nunca acabar de água. Mar que o Querido-de-Deus, o grande capoeirista, corta com seu saveiro para as pescarias nos mares do Sul. O Querido-de-Deus é um bom sujeito. Se Pedro Bala não houvesse aprendido com ele o jogo capoeira de Angola, a luta mais bonita do mundo, porque é também uma dança, não teria podido dar fuga a João Grande, Gato e Sem-Pernas.
Agora ali, na cafua, sem poder se mexer, a capoeira não vai lhe servir de nada.
Gostaria era de beber água. Será que Dora também tem sede a estas horas?Deve estar também numa cafua, Pedro Bala imagina o orfanato igualzinho ao reformatório. A sede é pior que uma cobra cascavel. Faz mais medo que a bexiga.
Porque vai apertando a garganta de um, vai fazendo os pensamentos confusos. Um pouco de água. Um pouco de luz também. Porque se houver um pouco de luz talvez ele veja o rosto de Dora risonho. Assim na escuridão ele o vê cheio de sofrimento, cheio de dor. Uma raiva surda, impotente, cresce dentro dele. Levanta-se um pouco, a cabeça encosta nos degraus escada que lhe serve de teto. Esmurra a porta da cafua.
Mas parece que lá fora não tem ninguém que o ouça. Vê a cara malvada do diretor.
Enterrará seu punhal até o mais fundo do coração do diretor. Sem que sua mão trema, sem remorsos, gozando. Seu punhal ficou na polícia. Mas Volta Seca lhe dará o seu, ele tem uma pistola.Volta Seca quer ir para o bando de Lampião, que é seu padrinho. Lampião mata soldado, mata homem ruim. Pedro Bala neste momento ama Lampião como a um seu herói, a um seu vingador. É o braço armado dos pobres no sertão. Um dia ele poderá ser do grupo de Lampião também. E quem sabe se não poderiam invadir a cidade da Bahia, abrir a cabeça do diretor do reformatório?Que cara ele não faria quando visse Pedro Bala entrar no reformatório na frente de uns cangaceiros... Soltaria a garrafa de pinga, presente de um amigo de Santo Amaro, e Pedro Bala lhe abriria a cabeça. Não. Antes o deixaria naquela mesma cafua, sem ter o que comer, sem ter o que beber. Sede... A sede o maltrata. Faz com que ele veja na
escuridão da parede o rosto triste e doloroso de Dora. Aquela certeza de que ela está sofrendo... Fecha os olhos. Procura pensar em Professor, Volta Seca, João Grande, Gato, Sem-Pernas, Boa-Vida, todos os do trapiche salvando Dora. Mas não pode.
Mesmo de olhos fechados vê o rosto dela, amargurado pela sede. Esmurra a porta novamente.
Grita, xinga nomes. Ninguém o atende, ninguém o vê, ninguém o ouve. Assim deve ser o inferno. Pirulito tem razão de ter medo do inferno. É por demais terrível.Sofrer sede e escuridão. A canção dos presos dizia que lá fora é a liberdade e o sol. E
também a água, os rios correndo muito alvos sobre pedras, as cascatas caindo, o grande mar misterioso. Professor, que sabe muitas coisas, porque à noite lê livros furtados, à luz de uma vela (está comendo os olhos...) lhe disse certa vez que tem mais água no mundo que terra. Tinha lido num livro. Mas nem um pingo de água na sua cafua. Na de Dora não deve ter também. Para que esmurrar a porta como o faz neste momento? Ninguém o atende, suas mãos já doem. Na véspera o surraram na polícia. Suas costas estão negras, seu peito ferido, o rosto inchado. Por isso o diretor disse que ele tinha cara de criminoso. Não tem, não. Ele quer é liberdade. Um dia um velho disse que não se mudava o destino de ninguém. João de Adão disseque se mudava, sim, ele acreditara em João de Adão. Seu pai morrera para mudar o destino dos doqueiros. Quando ele sair, irá ser doqueiro também, lutar pela liberdade, pelo sol, por água e de comer para todos. Cospe um cuspe grosso. A sede aperta sua garganta. Pirulito quer ser padre para fugir daquele inferno. Padre José Pedro sabia que o reformatório era assim, falava contra meterem os meninos lá. Mas que podia um pobre padre sem paróquia contra todos? Porque todos odeiam os meninos pobres, pensa Pedro Bala. Quando sair, pedirá à mãe-de-santo Don ’ Aninha que faça um feitiço forte para matar o diretor. Ela tem força com Ogum, e ele uma vez tirara Ogum da polícia. Fizera muita coisa para a sua idade. Dora também fizera muita coisa naqueles meses entre eles. Agora passavam sede, Pedro Bala esmurra inutilmente uma porta. A sede o rói por dentro como uma legião de ratos.Cai
enrodilhado no chão e o cansaço o vence. Apesar da sede, dorme. Mas tem sonhos terríveis, ratos roem o rosto belo de Dora.
Acorda porque alguém bate pancadas leves num dos degraus da escada. Levanta-se curvado, não pode ficar de pé direito, que a escada não consente. Pergunta em voz baixa:
– Tem alguém aí?
Uma alegria doida o invade quando respondem:
– Quem é que tá aí?
– Pedro Bala.
– Tu é o chefe dos Capitães da Areia?
– Sou.
Ouve um assovio. A voz continua, agora rápida:
– Tenho um recado pra você, um trouxe hoje..
– Solta logo...
– Agora vem gente. Depois volto.
Pedro Bala ouve os passos que se afastam. Mas está mais alegre. Pensa em seguida que o recado é de Dora, mas vê que é uma tolice pensar isso.
Como Dora havia de lhe enviar um recado? Deve ser um do grupo. Devem estar tratando de tirá-lo dali. Mas primeiro é preciso que ele saia da cafua. Enquanto ele estiver ali, os Capitães da Areia não poderão fazer nada. Depois que ele estiver andando no reformatório todo, aí a fuga será fácil. Pedro Bala senta-se para pensar.
Que hora serão, que dia será? Ali é sempre noite, nunca brilha a luz do sol. Espera impaciente que o seu informante volte. Porém este demora, ele se agita. Que estarão fazendo os outros sem ele? Professor conceberá algum plano para o tirarem dali.Mas enquanto ele estive na cafua é inútil. E enquanto não o tirarem, ele não poderá tirar
Dora do orfanato. Abrem a porta. Pedro Bala se atira para a frente, pensando que o vão soltar. Uma mão o empurra:
– Ei, calma...
Vê o bedel Ranulfo na porta. Traz um caneco com água, que Pedro Bala arranca das suas mãos e bebe em grandes goles. Mas é tão pouca... Não chega para matar a sede.O bedel lhe entrega um prato de barro com uma água onde bóiam alguns caroços de feijão. Pedro Bala pede:
– Pode me dar um pouco mais de água?
– Amanhã... – ri o bedel.
– Só um pouco mais.
– Amanhã tem mais. E se você continuar a bater na porta e gritar em vez de 8 passa 15 dias – empurra a porta na cara de Pedro Bala.
Ouve a chave que o tranca. Tateia na escuridão até encontrar o prato. Bebe a água escura do feijão. Nem repara que é salgadíssima. Depois come os grãos duros.Mas a sede o ataca novamente. O feijão muito salgado ativa a sede. O que é um caneco de água para aquela sede que exigia uma moringa? Deita. Já não pensa em nada.Passam-se horas. Ele apenas vê na escuridão o rosto triste de Dora. E sente dores no corpo todo.
Muito mais tarde ouve novamente baterem na escada. Pergunta:
– Tá aí?
– Um capenga mandou dizer que vão te tirar daqui. Logo que tu saia da cafua...
– Já é de noite? – pergunta Pedro.
– Tá começando...
– Tou morto de sede.
A voz não responde. Pedro pensa com desespero que é capaz do menino ter ido embora. No entanto, ele não ouviu passos na escada...
Mas volta a voz:
– Água não posso. Não tem como passar. Mas quer um cigarro?
– Quero, sim.
– Então espera.
Minutos depois as pancadas soam muito de leve na porta. A vi por debaixo da porta:
– Vou passar o cigarro por aqui. Ponha as mãos embaixo, bem no meio da greta da porta.
Pedro Bala faz o que lhe mandam. Um cigarro amassado chega às suas mãos. Ele acaba de o retirar de sob a porta. Logo depois é um fósforo que vem sobre um pedaço de caixa, o pedaço onde se risca.
– Obrigado diz Pedro Bala.
Mas neste momento ouve um barulho lá fora. O som de uma bofetada, um corpo que rola. E uma voz que ele não conhece fala:
– Se tentar se comunicar com os de fora, seu castigo será aumentado.
Pedro se encolhe. Agora um vai sofrer castigo por causa dele. Quando fugir, levará aquele para os Capitães da Areia. Para o sol e liberdade. Acende o cigarro.Com muito cuidado para não perder fósforo que é o único. Esconde a brasa do cigarro sob a mão para que ninguém o possa ver pelas frestas da escada. O silêncio o envolve de novo, e com o silêncio os pensamentos, as visões.
Quando termina de fumar, se enrodilha no chão. Se pudesse dormir... Pelo menos não veria o rosto cheio de sofrimento de Dora.
Quantas horas? Quantos dias? A escuridão é sempre a mesma, a sede é sempre igual.
Já lhe trouxeram água e feijão três vezes. Aprendeu a não beber caldo de feijão, que aumenta a sede. Agora está muito mais fraco, um desânimo no corpo todo. O barril onde defeca exala um cheiro horrível. Não o retiraram ainda. E sua barriga dói, sofre horrores para defecar. É como se as tripas fossem sair. As pernas não o ajudam. O
que o mantém em pé é o ódio que enche seu coração.
– Filhos da mãe... Desgraçados...
É tudo quanto consegue dizer. Assim mesmo, em voz baixa. Já não tem forças para gritar, para esmurrar a porta. Agora está certo de que morrerá ali. Cada vez sofre maiores dores para defecar. Vê Dora estendida no chão, morrendo de sede, chamando por ele. João Grande está do lado dela, mas separado por grades.
Professore Pirulito choram.
Trouxeram-lhe água e feijão pela quarta vez. Ele bebe a água, mas demora a comer o feijão. Só sabe dizer em voz baixa:
– Filhos da mãe... Filhos da mãe...
Antes que a comida se poderia chamar aquilo de comida? chegasse naquele dia para Pedro era sempre noite, a voz voltou a chamá-lo na escada. Ele perguntou, sem se levantar sequer:
– Quantos dias já tem que tou aqui?
– Cinco.
– Me dá outro cigarro.
O cigarro o reanima um pouco. Pode pensar que com mais cinco dias morrerá.
Aquilo é castigo para um homem, não para um menino. O ódio não cresce mais em seu coração.Já atingiu o máximo.
É sempre noite. Dora morre lentamente ante suas vistas. João Grande ao seu lado, as grades separando. Professor e Pirulito choram. Ele dorme ou está acordado?A barriga dói violentamente.
Quanto tempo durará ainda a escuridão? E a agonia de Dora? O cheiro do barril é insuportável. Dora agoniza ante seus olhos. Será que ele agoniza também?
A cara do diretor aparece ao lado do rosto de Dora. Vem torturar sua agonia ainda mais? Quanto tempo ela leva para morrer... Pedro Bala pede que ela morra logo, logo... Será melhor. Agora o direto veio, veio para aumentar a tortura. Ouve a voz dele:
– Levanta... – e um pé o toca.
Abre mais os olhos. Agora não vê mais Dora. Só a cara do diretor que sorri:
– Vamos ver se agora fica mais manso.
Não pode fitar a claridade que entra pelas janelas. Mal se agüenta nas pernas. Cai no meio do corredor. Dora teria morrido ou não? – pensa ao cair.
Está novamente na sala do diretor. Este o olha sorridente:
– Gostou do apartamento? Continua com muita vontade de roubar? Eu sei ensinar, quebrar moleque aqui.
Pedro Bala está irreconhecível de tão magro. Os ossos aparecem junto à pele. O
rosto, verdoso da complicação intestinal. O bedel Fausto, dono daquela voz que ele ouvira certa vez na porta da cafua, está ao seu lado. E um tipo forte, tem fama de ser tão malvado quanto o diretor. Pergunta:
– Na oficina de ferreiro?
– Acho que é melhor na plantação de cana. Lavrar terra... – ri. Fausto diz que está bem, o diretor recomenda:
– Olho nele. Este é um pássaro ruim. Mas eu te ensino...
Pedro Bala sustenta seu olhar. O bedel o empurra.
Agora vê detidamente o casarão. No meio do pátio o cabeleireiro raspa a sua cabeça a zero. Vê a cabeleira loira rolar no chão. Dão-lhe umas calças e paletó de mescla azul. Veste-se ali mesmo. O bedel leva o a uma oficina de ferreiro:
– Tem um facão? E uma foice?
Entrega os objetos a Pedro Bala. Marcham para o canavial, onde outros meninos trabalham. Neste dia, de tão fraco, Pedro Bala mal sustém o facão. Por isso os bedéis o soqueiam. Ele nada diz.
À noite, na fila, olha para todos, querendo descobrir aquele que lhe falava e dava cigarros. Sobem as escadas, andam para o dormitório, que fica no terceiro andar para impedir qualquer idéia de fuga. A porta é fechada. O bedel Fausto diz:
– Graça, puxe a reza.
Um menino avermelhado faz o pelo-sinal. Todos repetem as palavras e os gestos.
Depois é um padre-nosso e uma ave-maria, ditas com voz forte apesar do cansaço.
Pedro se joga na cama. Uma coberta suja o espera. Mudam a roupa de cama de 15
em 15 dias. E a roupa de cama é apenas uma coberta e uma fronha para um travesseiro de pedra.
Já está dormindo quando alguém toca no seu ombro.
– Tu que é Pedro Bala, não é?
– Sim.
– Fui eu que trouxe o recado.
Pedro olha o mulato que está a seu lado. Pode ter dez anos:
– Eles têm voltado?
– Todo santo dia. Só quer saber quando tu sai da cafua.
– Diz que eu tou no canavial...
– Tu não quer comer um sacana hoje? Tem uns aqui, a gente de noite...
Tou morto de sono... Quanto tempo levei?
– Oito dias. Já morreu um ali.
O menino vai embora. Pedro nem perguntou seu nome. Tudo o que quer é dormir.
Mas os que andam para as camas dos pederastas fazem ruído. O bedel Fausto sai do seu quarto de tabiques:
– Que barulho é esse?
Silêncio. Ele bate as mãos:
– Todos de pé.
Fita a todos:
– Ninguém sabe?
Silêncio. O bedel esfrega os olhos, anda entre as camas. Um enorme relógio dá dez horas na parede.
– Ninguém diz?
Silêncio. O bedel range os dentes:
– Então ficarão todos uma hora de pé... Até as onze. E o primeiro que tentar deitar vai pra cafua. Agora está desocupada...
Uma voz de menino corta o silêncio:
– Seu bedel...
É um pequeno, meio amarelento.
– Fale, Henrique.
– Eu sei...
Os olhos todos estão fitos nele. Fausto anima a delação:
– Diga o que sabe.
– Foi Jeremias, que ia pra cama de Berto fazer coisa feia.
– Seu Jeremias, seu Berto!
Os dois saem das suas camas.
– De pé na porta. Até meia-noite. Os outros podem deitar – olha mais uma vez a todos. Os castigados estão de pé na porta.
Quando o bedel se recolhe, Jeremias ameaça Henrique. Os outros comentam. Pedro Bala dorme.
No refeitório, enquanto bebiam o café aguado e mastigavam o bolachão duro, seu vizinho de mesa fala:
– Tu é o chefe dos Capitães da Areia? – sua voz é baixíssima.
– Sou, sim.
– Vi teu retrato no jornal... Tu é um macho! Mas te acabaram – olha o rosto magro de Bala.
Mastiga o bolachão. Continua:
– Tu vai ficar aqui?
– Vou arribar...
– Eu também. Tenho um plano... Quando eu bater asa, posso ir pra teu grupo?
– Pode.
– Onde fica o buraco?
Pedro Bala olha com desconfiança:
– Tu encontra a gente no Campo Grande toda tarde – Pensa que vou dizer?
O bedel Campos bate as mãos Todos se levantam. Dirigem-se para as diversas oficinas ou para os terrenos cultivados.
Pelo meio da tarde Pedro Bala vê o Sem-Pernas que passa na estrada. Vê também um bedel que o tange.
Castigos... Castigos... É a palavra que Pedro Bala mais ouve no reformatório. Por qualquer coisa são espancados, por um nada são castigados. O ódio se acumula dentro de todos eles.
No extremo do canavial passa um bilhete a Sem-Pernas. No outro dia encontra a corda entre as moitas de cana. Com certeza a puseram durante a noite. É um rolo de corda fina e resistente. Está novinha. No meio dela o punhal que Pedro mete nas calças. A dificuldade é levar o rolo para o dormitório. Fugir durante o dia é impossível, com a vigilância dos bedéis. Não pode levar o rolo entre a roupa, que notariam.
De repente surge uma briga. Jeremias se joga sobre o bedel Fausto com o facão na mão. Outros meninos se atiram também, mas vem um grupo de bedéis armados de chicotes.Estão sujeitando Jeremias.
Pedro mete o rolo de corda debaixo do paletó, abre para o dormitório. Um bedel vem descendo a escada com um revólver na mão. Pedro se esconde atrás de uma porta.O bedel vem rápido, passa.
Empurra a corda para baixo do colchão, volta para o canavial. Jeremias foi levado para a cafua. Os bedéis agora juntam os meninos. Ranulfo e Campos foram em perseguição de Agostinho, que pulou a cerca na confusão da briga. O bedel Fausto, com um talho no ombro, foi para a enfermaria. O diretor está entre eles, os olhos fuzilando de raiva. Um bedel conta os meninos. Pergunta a Pedro Bala:
– Onde estava metido?
– Saí pra não me meter no barulho.
O bedel o olha desconfiado, mas passa.
Voltam Ranulfo e Campos com Agostinho. O fujão é surrado na vista de todos.
Depois o diretor diz:
– Metam-no na cafua.
– Já está Jeremias – fala Ranulfo.
– Ficam os dois. Assim podem conversar...
Pedro Bala se arrepia. Como irão ficar dois na pequenez da cafua?
Nesta noite a vigilância é grande, ele não tenta nada. Os meninos rangem os dentes de raiva.
Duas noites depois, quando o bedel Fausto já tinha se recolhido há muito ao seu quarto de tabiques e quando todos dormiam, Pedro Bala se levantou, tirou a corda de sob o colchão. Sua cama ficava junto a uma janela. Abriu. Amarrou a corda num dos armadores de rede que existiam na parede. Deixou que a corda caísse pela janela.Era curta. Faltava ainda muito. Recolheu. Procurava fazer o menor barulho possível, mas assim mesmo um dos seus vizinhos de cama acordou:
– Tu vai bater asa?
Aquele não tinha boa fama. Costumava delatar. Por isso mesmo fora colocado ao lado de Pedro Bala. Bala puxou o punhal, mostrou a ele.
– Olha, xereta, trata de dormir. Se tu piar, eu te abro a garganta, palavra de Pedro Bala. E se tu disser alguma coisa depois que eu sair... Tu já viu falar nos Capitães da Areia?
– Já.
– Pois eles me vinga.
Põe o punhal ao alcance da mão. Recolhe completamente a corda, amarra o lençol na ponta com um daqueles nós que o Querido-de-Deus lhe ensinou. Ameaça mais uma vez o menino, joga a corda, passa o corpo pela janela, começa a descida. Ainda no meio ouve os gritos denunciadores do delator. Se deixa escorregar pela corda, salta ao chão. O pulo é grande, mas ele já salta correndo. Pula a cerca, após evitar os cachorros policiais que estão soltos. Desaba pela estrada. Tem alguns minutos de vantagem. O tempo dos bedéis se vestirem e saírem em sua perseguição e soltarem os cachorros também. Pedro Bala prende o punhal nos dentes, tira a roupa. Assim os cachorros não o conhecerão pelo faro. E nu, na madrugada fria, inicia a carreira para o sol, para a liberdade.
Professor lê a manchete do Jornal da Tarde:
“O CHEFE DOS « CAPITÃES DA AREIA » CONSEGUE FUGIR DO
REFORMATÓRIO”
Trazia uma longa entrevista com o diretor furioso. Todo o trapiche ri. Até o padre José Pedro, que está com eles, ri em gargalhadas, como se fosse um dos Capitães da Areia.
Orfanato Um mês de orfanato bastou para matar a alegria e a saúde de Dora. Nascera no morro, infância em correrias no morro. Depois a liberdade das ruas da cidade, a vida aventurosa dos Capitães da Areia. Não era uma flor de estufa. Amava o sol, a rua, a liberdade.
Fizeram duas tranças do seu cabelo, amarraram com fitas. Fitas cor-de-rosa.
Deram-lhe um vestido de pano azul, um avental de um azul mais escuro. Faziam com que ela ouvisse aulas junto com meninas de cinco e seis anos. A comida era má, havia castigo também.
Ficar em jejum, perder os recreios. Veio uma febre, ela esteve na enfermaria.
Quando voltou estava macilenta. Tinha sempre febre, mas não dizia nada, porque odiava o silêncio da enfermaria, onde o sol não entrava e das as horas pareciam a hora agonizante do crepúsculo. Quando podia, chegava perto das grades, porque por vezes divisava Professor ou João Grande que rondavam por ali. Um dia lhe passaram um bilhete. Pedro Bala fugira do reformatório. Viria tirá-la dali. Nem sentiu a febre em que estava.
A visaram por intermédio de outro bilhete, que Professor escreveu e lhe jogou, que ela arranjasse um meio de ir para a enfermaria. Mas nem foi preciso, porque uma irmã notou o avermelhado das suas faces. Pôs a mão no seu rosto:
– Estás queimando de febre.
Era sempre crepúsculo na enfermaria. Era como uma ante-sala do túmulo, com as pesadas cortinas que impediam a luz de entrar. O médico que a vira balançara a cabeça com tristeza.
Mas a luz entrou com eles. Como Pedro Bala estava magro, pensou Dora ao se pôr ao seu lado. João Grande, Gato, Professor, estavam com ele. Professor mostrou anavalha à Irmã, que abafou um grito. A menina que estava com catapora na outra cama tremia sob os lençóis. Dora queimava de febre, mal podia estar de pé. A Irmã murmurou:
– Ela está muito doente...
Dora respondeu:
– Eu vou, Pedro.
Saíram pela porta. Volta Seca tinha o grande cachorro preso pela coleira. Tinham trazido um pedaço de carne. Gato abriu o portão. Na rua disse:
– Foi canja...
Professor avisou:
– Vamos embora antes que alarmem.
Se atiraram por uma ladeira. Dora nem sentia a febre porque ia junto com Pedro Bala, ele pegando na sua mão.
Volta Seca fechava a marcha, a mão no punhal, um sorriso no rosto sombrio.
Noite de Grande Paz
Os Capitães da Areia olham mãezinha Dora, a irmãzinha Dora, Dora noiva, Professor vê Dora, sua amada. Os Capitães da Areia olham em silêncio. A mãe-de-santo Don ’ Aninha reza oração forte para a febre que consome Dora desaparecer. Com um galho de sabugueiro manda que a febre se vá. Os olhos febris de Dora sorriem. Parece que a grande paz da noite da Bahia está também nos seus olhos.
Os Capitães da Areia olham em silêncio sua mãe, irmã e noiva.
Mal a recuperaram, a febre a derrubou. Onde está a alegria dela, por que ela não corre picula com seus filhinhos menores, não vai para a aventura das ruas com seus irmãos negros, brancos e mulatos? Onde está a alegria dos olhos dela? Só uma grande paz, a grande paz da noite. Porque Pedro Bala aperta sua mão com calor.
A paz da noite da Bahia não está no coração dos Capitães da Areia. Tremem com receio de perder Dora. Mas a grande paz da noite está nos olhos dela. Olhos que se fecham docemente, enquanto a mãe-de-santo Aninha enxota a febre que a devora.
A paz da noite envolve o trapiche.
Dora, Esposa
O cachorro late a lua na areia. Sem-Pernas sai do trapiche, acompanha Don ’ Aninha através do areal. Ela disse que a febre não tardaria a ir embora. Pirulito sai também, vai chamar o padre José Pedro. Tem confiança no padre, ele pode saber um remédio.
Dentro do trapiche os Capitães da Areia estão silenciosos. Dora pediu que eles fossem dormir. Se deitaram pelo chão, mas são raros os que dormem. Na paz imensa da noite pensam na febre que consome Dora. Ela beijou Zé Fuinha, mandou que ele fosse dormir. Ele não compreende bem. Sabe que ela está doente, mas não pensa um momento que ela o poderá abandonar.Mas os Capitães da Areia temem que isso aconteça. Então ficarão novamente sem mãe, sem irmã, sem noiva.
Agora só João Grande e Pedro Bala estão a seu lado. O negro sorri, mas Dora sabe que o sorriso dele é forçado, é um sorriso para a animar, um sorriso arrancado à força da tristeza que o negro sente.
Pedro Bala segura sua mão. Mais retirado, Professor está dobrado sobre si mesmo, a cabeça enterrada nas mãos.
Dora diz:
– Pedro?
– Que é?
– Chegue aqui.
Ele se aproxima. A voz dela é um fio de voz. Pedro fala com carinho:
– Tu quer alguma coisa?
– Tu gosta de mim?
– Tu bem sabe...
– Deita aqui.
Pedro deita ao seu lado. João Grande se afasta, chega para perto de Professor. Mas não conversam, ficam entregues à sua tristeza. No entanto é uma noite de paz que envolve o trapiche. E a paz da noite está também nos olhos doentes de Dora.
– Mais perto...
Ele se chega mais, os corpos estão juntos. Ela toma a mão dele, leva ao seu peito.
Arde de febre. A mão de Pedro está sobre seu seio de menina. Ela faz com que ele a acaricie, diz:
– Tu sabe que já sou moça?
A mão dele pousada nos seus seios, os corpos juntos. Uma grande paz nos olhos dela:
– Foi no orfanato... Agora posso ser tua mulher.
Ele a olha espantado:
– Não, que tu tá doente...
– Antes de eu morrer. Vem...
– Tu não vai morrer.
– Se tu vier, não.
Se abraçam. O desejo é abrupto e terrível. Pedro não a quer magoar, mas ela não mostra sinais de dor. Uma grande paz em todo seu ser.
– Tu é minha agora fala ele com voz agitada.
Ela parecia não sentir a dor da posse. Seu rosto acendido pela febre se enche de alegria. Agora a paz é só da noite, com Dora está a alegria. Os corpos se desunem.
Dora murmura:
– É bom... Sou tua mulher.
Ele a beija. A paz voltou ao rosto dela. Fita Pedro Bala com amor.
– Agora vou dormir – diz.
Deita ao lado dela, segura sua mão ardente. Esposa.
A paz da noite envolve os esposos. O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima. Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor. Mas nos corações dos dois meninos não há mais nenhum medo. Somente paz, a paz da noite da Bahia.
Na madrugada, Pedro põe a mão na testa de Dora. Fria. Não tem mais pulso, o coração não bate mais. O seu grito atravessa o trapiche, desperta os meninos. João Grande a olha de olhos abertos. Diz a Pedro Bala:
– Tu não devia ter feito...
– Foi ela que quis – explica e sai para não rebentar em soluços. Professor se chega, fica olhando. Não tem coragem de tocar no corpo dela. Mas sente que para ele a vida do trapiche acabou, não lhe resta mais nada que fazer ali.