Capitães de Areia
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O sertão comove os olhos de Volta Seca. O trem não corre, este vai devagar, cortando as terras do sertão. Aqui tudo é lírico, pobre e belo. Só a miséria dos homens é terrível. Mas estes homens são tão fortes que conseguem criar beleza dentro desta miséria. Que não farão quando Lampião libertar toda a caatinga, implantar a justiça e a liberdade?
Passam violeiros, improvisadores de poesia. Passam vaqueiros que tangem o gado, homens plantam mandioca e milho. Nas estações os coronéis descem para estirar as pernas. Levam grandes revólveres. Os violeiros cegos cantam pedindo uma esmola.
Um negro de camisa e rosário atravessa essa a estação dizendo estranhas coisas em língua desconhecida. Foi escravo, hoje é um doido na estação. Todos temem, temem suas pragas. Porque ele sofreu muito, o chicote de feitor rasgou suas costas. Também
o chicote da polícia, feitor dos ricos, rasgou as costas de Volta Seca. Todos o temerão um dia também.
Caatingas do sertão, olor das flores sertanejas, o manso andar do trem sertanejo.
Homens de alpercatas e chapéu de couro. Criança que estudam para cangaceiro na escola da miséria e da exploração do homem.
O trem pára no meio da caatinga. Volta Seca pula fora do vagão. Os cangaceiros apontam os fuzis, o caminhão que os trouxe está parado no outro lado da estrada, os fios do telégrafo cortados. Na caatinga agreste não se vê ninguém. Uma moça desmaia num dos carros, um caixeiro-viajante esconde a carteira com dinheiro.Um coronel gordo sai do vagão, fala:
– Capitão Virgulino...
O cangaceiro de óculos aponta o fuzil:
– Para dentro.
Volta Seca pensa que seu coração vai estalar de alegria. Encontrou seu padrinho, Virgulino Ferreira Lampião, herói das crianças sertanejas. Chega para junto dele, um outro cangaceiro o quer afastar, mas ele diz:
– Meu padrim...
– Quem é tu?
– Sou Volta Seca, filho de tua comadre...
Lampião o reconhece, sorri. Os cangaceiros estão entrando nos vagões de primeira, não são muitos, uns doze. Volta Seca pede:
– Meu padrim, deixe eu ficar com você... Me dê um fuzil.
– Tu ainda é um menino... – Lampião olha com seus óculos escuros.
– Não sou mais não, já briguei com soldado...
Lampião grita:
– Zé Baiano, dá um fuzil a Volta Seca...
Olha o afilhado:
– Tu guarda esta saída. Se um quiser arribar, mete fogo.
Entra para a coleta. Desmaios e gritos lá dentro, o soar de um disparo. Depois o grupo volta para a estrada. Traz dois soldados de polícia que viajavam no trem.Lampião divide dinheiro com os cangaceiros. Volta Seca também recebe. De um vagão sai um fio de sangue. O cheiro bom do sertão penetra as narinas de volta Seca.Os soldados são encostados numas árvores. Zé Baiano prepara o fuzil, mas a voz de Volta Seca faz um pedido:
– Deixe pra mim, padrim. Eles me bateram na polícia, bateram em muito menino.
Levanta o fuzil, qual é o sertanejo que não tem boa pontaria?
Seu rosto sombrio tem um riso que o enche todo. Cai o primeiro, o segundo tenta fugir, mas a bala o alcança nas costas Depois Volta Seca corre para cima dele com o punhal, sacia sua vingança. Zé Baiano diz:
– Este menino é dos bons...
– A mãe dele era um bicho, minha comadre... – lembra Lampião orgulhoso.
– Uma verdadeira fera... – pensa o viajante enquanto o trem se move lentamente após os empregados afastarem os toros de madeira de sobre os trilhos. O grupo de cangaceiros se perde na caatinga. O ar do sertão enche o peito de Volta Seca, que pára e com o punhal faz dois traços na madeira do fuzil. Os dois primeiros...Ao longe o trem apita angustiosamente.
Como um trapezista de circo
Fora demasiada audácia atacar aquela casa da rua rui Barbosa. Perto dali, na praça do Palácio, andavam muitos guardas, investigadores, soldados. Mas eles tinham sede de aventura, estavam cada vez maiores, cada vez mais atrevidos. Porém havia muita gente na casa, deram o alarme, os guardas chegaram. Pedro Bala e João Grande abalaram pela ladeira da Praça. Barandão abriu no mundo também. Mas o Sem-Pernas ficou encurralado na rua. Jogava picula com os guardas. Estes tinham se despreocupado dos outros, pensavam que já era alguma coisa pegar aquele coxo.
Sem-Pernas corria de um lado para outro da rua, os guardas avançavam. Ele fez que ia escapuli por outro lado, driblou um dos guardas, saiu pela ladeira. Mas em vez de descer e tomar pela Baixa dos Sapateiros, se dirigiu para a praça do Palácio. Porque Sem-Pernas sabia que se corresse na rua o pegariam com certeza. Eram homens, de pernas maiores que as suas, e além do mais ele era coxo, pouco podia correr. E
acima de tudo não queria que o pegassem. Lembrava-se da vez que fora à polícia.
Dos sonhos das suas noites más. Não o pegariam e enquanto corre este é o único pensamento que vai com ele. Os guardas vêm nos seus calcanhares. Sem-Pernas sabe que eles gostarão de o pegar, que a captura de um dos Capitães da Areia é uma bela façanha para um guarda. Essa será a sua vingança. Não deixará que o peguem, não tocarão a mão no seu corpo. Sem-Pernas os odeia como odeia a todo mundo, porque nunca pôde ter um carinho. E no dia que o teve foi obrigado ao abandonar porque a vida já o tinha marcado demais. Nunca tivera uma alegria de criança.
Se fizera homem antes dos dez anos para lutar pela mais miserável das vidas: a vida de criança abandonada. Nunca conseguira amar ninguém, a não ser a este cachorro que o segue. Quando os corações das demais crianças ainda estão puros de sentimentos, o do Sem-Pernas já estava cheio de ódio. Odiava a cidade, a vida, os homens.Amava unicamente o seu ódio, sentimento que o fazia forte e corajoso apesar do defeito físico. Uma vez uma mulher foi boa para ele. Mas em verdade não
o fora para ele e sim para o filho que perdera e que pensara que tinha voltado. De outra feita outra mulher se deitara com ele numa cama, acariciara seu sexo, se aproveitara dele para colher migalhas do amor que nunca tivera. Nunca, porém, o tinham amado pelo que ele era, menino abandonado, aleijado e triste. Muita gente tinha odiado.E ele odiara a todos. Apanhara na polícia, um homem ria quando o surravam. Para ele é este homem que corre em sua perseguição na figura dos guardas. Se o levarem, o homem rirá novo. Não o levarão. Vêm em seus calcanhares, mas não o levarão. Pensam que elevai parar junto ao grande elevador.
Mas Sem-Pernas não pára. Sobe para o pequeno muro, volve o rosto para os guardas que ainda correm, ri com toda a força do seu ódio, cospe na cara de um que se aproxima estendendo os braços, se atira de costas no espaço como se fosse um trapezista de circo.
A praça toda fica em suspenso por um momento. Se jogou, diz uma mulher, e desmaia. Sem-Pernas se rebenta na montanha como um trapezista de circo que não tivesse alcançado o outro trapézio. O cachorro late entre as grades do muro.
Notícias de jornal
O Jornal da Tarde publica um telegrama do rio dando conta do sucesso da exposição de um jovem pintor até então desconhecido. Dias depois transcreve uma crítica de arte publicada também num jornal do Rio de Janeiro. Porque o pintor é baiano, e o Jornal da Tarde é muito cioso das glórias baianas. Um trecho da crítica de arte, após falar das qualidades e defeitos do novo pintor social, de usar e abusar de expressões como clima, luz, cor, ângulos, força e outras mais, diz:... um detalhe notaram todos que foram estranha exposição de cenas e retratos de meninos pobres. É que todos os sentimentos bons estão sempre representados na figura de uma menina magra de cabelos loiros e faces febris. E que todos os sentimentos maus estão representados por um homem de sobretudo negro e um ar de viajante. Que representará para um psicanalista a repetição quase inconsciente destas figuras em todos os quadros?
Sabe-se que o pintor João José tem uma história...
E continuava o abuso das palavras cor, força, clima, luz, ângulos e outras mais complicadas.
Meses depois uma notícia informava aos leitores do Jornal da Tarde, sob o título de PRESENTE DE GREGO
A POLÍCIA DE BELMONTE DEVOLVE O VIGARISTA GATO
que a polícia de Belmonte, havia recebido da policia de Ilhéus um verdadeiro presente de grego. Um conhecido e jovem vigarista que atuava em Ilhéus com o nome de °Gato ”, após ter abiscoitado bons cobres de muitos fazendeiros e comerciantes, fora remetido para Belmonte. Lá continuava a passar contos do vigário, em que era mestre. Conseguira vender uma imensidade de terras, ótimas para o cultivo do cacau, a muitos fazendeiros. Quando estes foram ver as terras, não eram mais que o leito sobre o qual corre o rio Cachoeira. A polícia de Belmonte tinha conseguido deitar mão no temível vigarista e o remetia de volta para Ilhéus. Os
ilheenses são mais ricos que nós, terminava com certa ironia o correspondente que assinava a notícia, podem sustentar com mais conforto o elegante Gato que os filhos da bela Belmonte, a Princesa do Sul. Porque se Belmonte é a Princesa, Ilhéus é muito justamente chamada a Rainha do Sul.
Entre fatos policiais sem importância o Jornal da Tarde noticiou um dia que um malandro conhecido pelo nome de Boa-Vida armara um fuzuê tremendo numa festa na Cidade de Palha, abrira a cabeça do dono da casa com uma garrafa de cerveja e estava sendo procurado pela polícia.
Perto de um Natal o Jornal da Tarde apareceu com manchetes em tipos enormes.
Uma notícia de tanta sensação como aquela que fizera conhecida a história da mulher que acompanhava o bando de Lampião, a amante do cangaceiro. Porque a população dos cinco estados, de Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba e Pernambuco, vive com os olhos fitos em Lampião. Com ódio ou com amor, nunca com indiferença. A manchete dizia em letras garrafais:
UMA CRIANÇA DE 16 ANOS NO GRUPO DE LAMPIÃO
Os tipos das letras dos títulos que encabeçavam a reportagem eram também enormes:
É UM DOS MAIS TEMÍVEIS CANGACEIROS – TRINTA E CINCO
TRAÇOS NO SEU FUZIL – PERTENCEU AOS “CAPITÃES DA AREIA”
– A MORTE DE MACHADÃO DEVIDA A VOLTA SECA
A reportagem era extensa. Contava como as vilas saqueadas há algum tempo vinham notando entre o bando de Lampião uma criança de uns dezesseis anos, que levava o nome de Volta Seca. Apesar da sua idade, o jovem cangaceiro se fizera temido em todo o sertão como um dos mais cruéis do grupo. Constava que seu fuzil tinha trinta e cinco marcas. E cada marca num fuzil de cangaceiro representa um homem morto.
Depois vinha a história da morte de Machadão, um dos mais antigos do grupo de Lampião.
Aconteceu que o grupo tinha pegado na estrada um velho sargento de polícia. E
Lampião o entregara a Volta Seca para que o despachasse. Volta Seca o despachara devagarinho, à ponta de punhal, cortando os pedacinhos com visível satisfação. Fora tanta a crueldade, que Machadão, horrorizado, levantou o fuzil para acabar com Volta Seca. Mas antes que disparasse, Lampião, que tinha um grande orgulho de Volta Seca, atirou em Machadão. Volta Seca continuara sua tarefa.
A notícia se estendia, narrando diversos outros crimes do cangaceiro de 16 anos.
Depois lembrava que entre os Capitães da Areia vivera um menino com o nome de Volta Seca e que era possível que fosse o mesmo. Vinham então várias considerações de ordem moral.
A edição se esgotou.
Meses depois a edição se esgotou novamente porque trazia a notícia da prisão de Volta Seca, enquanto dormia, executada pela coluna volante que percorria o sertão dando caça a Lampião. Anunciava que o cangaceiro chegaria no outro dia à Bahia.
Vinham vários clichês onde Volta Seca aparecia com seu rosto sombrio. O Jornal da Tarde dizia que era rosto de criminoso nato.
O que não era verdade, como o próprio Jornal da Tarde noticiou tempos depois, ao relatar em edições extraordinárias e sucessivas o júri que condenou Volta Seca a 30
anos de prisão por 15 mortes conhecidas e provadas. No entanto, seu fuzil tinha 60
marcas. E o jornal lembrava esse fato, repetindo que cada marca era um homem morto. Mas publicava também parte do relatório do médico-legista, cavalheiro de honestidade e cultura reconhecidas, já então um dos grandes sociólogos e etnógrafos do país, relatório que provava que Volta Seca era um tipo absolutamente normal e que se virara cangaceiro e matara tantos homens e com tamanha crueldade não fora por vocação de nascença. Fora o ambiente... e vinham as devidas considerações científicas.
O que aliás não despertou tanta curiosidade entre o público como a descrição de belíssimo, vibrantíssimo e apaixonadíssimo discurso de doutor Promotor Público, que fizera os jurados chorar, e até o próprio juiz tinha limpado as lágrimas, ao descrever o doutor Promotor, com sublime força oratória, o sofrimento das vítimas do feroz cangaceiro-menino.
O público ficou indignado porque Volta Seca não chorou durante o júri. Seu rosto sombrio estava cheio de estranha calma.
Companheiros
Há um movimento novo na cidade. Pedro Bala sai do trapiche com João Grande e Barandão. O cais está deserto, parece que todos o abandonaram. Somente soldados de policia guardam os grandes armazéns. Não há descarga de navios neste dia.
Porque os estivadores, com João de Adão à frente, foram prestar solidariedade aos condutores de bonde que estão em greve. Parece que há uma festa na cidade, mas uma festa diferente de todas. Passam grupos de homens que conversam, os automóveis cortam as ruas conduzindo gente para o trabalho, empregados no comércio riem, a ladeira da Montanha está cheia de gente que sobe e desce, pois os elevadores também estão parados.As marinetes vão entupidas, gente sobrando pelas portas. Os grupos de grevistas passam silenciosos para a sede do sindicato, onde vão ouvir a leitura do manifesto dos estivadores, que João de Adão conduz nas suas mãos grandes. Na porta do sindicato grupos conversam, soldados montam guarda.
Pedro Bala anda com João Grande e Barandão pelas ruas. Diz:
– Tá bonito...
João Grande também sorri, o negrinho Barandão fala:
– Hoje vai ter fuzuê.
– Eu é que não queria ser condutor de bonde, nem motorneiro.
Ganha uma porcaria. Eles faz bem... – fala João Grande.
– Vamos espiar? – propõe Pedro Bala.
Vão para a porta do sindicato. Entram homens negros, mulatos, espanhóis e portugueses. Vêem quando João de Adão e os outros estivadores saem entre vivas dos operários das linhas de bonde. Eles vivam também. João Grande e Barandão porque gostam do doqueiro João de Adão. Pedro Bala não só por isso como porque
acha bonito o espetáculo da greve, é como uma das mais belas aventuras dos Capitães da Areia.
Um grupo de homens bem vestidos entra no sindicato. Da porta eles ouvem uma voz que discursa, uma que interrompe: Vendido, amarelo.
– Tá bonito... – repete Pedro Bala.
Tem vontade de entrar, de se misturar com os grevistas, de gritar e lutar ao lado deles.
A cidade dormiu cedo. A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em frente. Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi. No trapiche as crianças já dormem. Até o negro João Grande ronca estirado na porta, o punhal ao alcance da mão. Somente Pedro Bala vela, estirado na areia, olhando a lua, ouvindo o negro que canta as saudades da sua mulata que partiu. O vento traz trechos soltos da canção e ela faz com que Pedro Bala procure Dora no meio das estrelas do céu.
Ela também virou uma estrela, uma estranha estrela de longa cabeleira loira. Os homens valentes têm uma estrela em lugar do coração. Mas nunca se ouviu falar de uma mulher que tivesse no peito, como uma flor, uma estrela. As mulheres mais valentes da terra e do mar da Bahia, quando morriam, viravam santas para os negros, como os malandros que foram também muito valentes. Rosa Palmeirão virou santa num candomblé de caboclo, rezam para ela orações em nagô, Maria Cabaçu é santa nos candomblés de Itabuna, pois foi naquela cidade que ela mostrou sua coragem primeiro. Eram duas mulheres grandes e fortes. De braços musculosos como homens, como grevistas. Rosa Palmeirão era bonita, tinha o andar gingado de marítima, era uma mulher do mar, certa vez teve um saveiro, cortou as ondas da entrada da barra. Os homens do cais a amavam não só pela sua coragem, como pelo seu corpo também. Maria Cabaçu era feia, mulata escura, filha de negro e índia, grossa e zangada. Dava nos homens que a achavam feia. Mas se entregou toda a um cearense amarelo e fraco que a amou como se ela fosse uma mulher bonita, de corpo
belo e olhos sensuais. Tinham sido valentes, viraram santas nos candomblés de caboclo, que são candomblés que de quando em vez inventam novos santos, não têm aquela pureza de rito dos candomblés nagôs dos negros. São candomblés dos mulatos. Mas Dora fora mais valente que elas. Era apenas uma menina, vivera igual a um dos Capitães da Areia, e todos sabem que um capitão da areia é igual a um homem valente. Dora vivera com eles, fora mãe para todos eles. Mas fora irmã também, correra com eles pelas ruas, invadira casas, batera carteiras, brigara com o grupo de Ezequiel.Depois, para Pedro Bala, fora noiva e esposa, esposa quando a febre a devorava, quando a morte já a rondava naquela noite de tanta paz. Paz que ia dos olhos dela para a noite em torno. Estivera no orfanato, fugira dele, igual a Pedro Bala fugindo do reformatório. Tivera coragem para morrer, consolando seus filhos, irmãos, noivos e esposo que eram os Capitães da Areia. A mãe-de-santo Don ’ Aninha a enrolara numa toalha branca, bordada como se fora para um santo. O
Querido-de-Deus a levara no seu saveiro para junto de Yemanjá. Padre José Pedro rezava. Todos a queriam. Mas só Pedro Bala quis ir com ela. Professor fugiu do trapiche porque não pôde mais suportar o casarão depois que ela partiu. Mas só Pedro Bala se jogou n ’ água para seguir o destino de Dora, ir fazer com ela aquela maravilhosa viagem que os valentes fazem com Yemanjá no fundo verde do mar.
Por isso só ele viu quando ela virou estrela e cruzou os céus. Ela veio só para ele, com sua longa cabeleira loira. Brilhou sobre sua cabeça de quase afogado e suicida.
Deu-lhe novas forças, o saveiro do Querido-de-Deus que voltava o pôde recolher.
Agora olha o céu procurando a estrela de Dora. É uma estrela de longa cabeleira loira, uma estrela como não existe nenhuma outra. Porque nunca existiu nenhuma mulher como Dora, que era uma menina. A noite está cheia de estrelas que se refletem no mar calmo. A voz do negro parece se dirigir às estrelas, como que há pranto na sua voz cheia. Ele também procura a amada que fugiu na noite da Bahia.
Pedro Bala pensa que a estrela que é Dora talvez ande agora correndo sobre as ruas, becos e ladeiras da cidade a procurá-lo.Talvez o pense numa aventura nas ladeiras.
Mas hoje não são os Capitães da Areia que estão metidos numa bela aventura. São
os condutores de bonde, negros fortes, mulatos risonhos, espanhóis e portugueses, que vieram de terras distantes. São eles, que levantam os braços e gritam iguais aos Capitães da Areia. A greve se soltou na cidade. É uma coisa bonita a greve, é a mais bela das aventuras. Pedro Bala tem vontade de entrar na greve, de gritar com toda a força do seu peito, de apartear os discursos. Seu pai fazia discursos numa greve, uma bala o derrubou. Ele tem sangue de grevista. Demais a vida da rua o ensinou a amar a liberdade.A canção daqueles presos dizia que a liberdade é como o sol: o bem maior do mundo. Sabe que os grevistas lutam pela liberdade, por um pouco mais de pão, por um pouco mais de liberdade. É como uma festa aquela luta.
Os vultos que se aproximam o fazem levantar desconfiado. Mas logo reconhece a figura enorme do estivador João de Adão. Junto a ele vem um rapaz bem vestido, mas com os cabelos despenteados. Pedro Bala tira o boné, fala para João de Adão:
– Tu hoje ganhou viva, hein?
João de Adão ri. Distende seus músculos, seu rosto está aberto num sorriso para o chefe dos Capitães da Areia:
– Capitão Pedro, eu quero apresentar a tu o companheiro Alberto.
O rapaz estende a mão para Pedro Bala. O chefe dos Capitães da Areia limpa primeiro sua mão no paletó rasgado, depois aperta a do estudante. João de Adão está explicando:
– É um estudante da Faculdade, mas é um companheiro da gente.
Pedro Bala olha sem desconfiança. O estudante sorri:
– Já ouvi falar muito em você e em seu grupo. Você é um batuta...
– A gente é macho, sim responde Pedro Bala.
João de Adão se aproxima mais:
– Capitão, a gente tem que conversar com tu. Tem um assunto com tu. Um troço sério. Aqui o companheiro Alberto...
– Vamos para dentro? – fala Pedro Bala.
Acordam João Grande ao passar. O negro olha com desconfiança o estudante, pensa que é um polícia, levanta um pouco o punhal por detrás do braço. Só Pedro Bala vê e fala:
– É um amigo de João de Adão. Vem com a gente, Grande.
Vão os quatro. Sentam num canto. Alguns dos Capitães da Areia acordam e espiam o grupo. O estudante olha o trapiche, as crianças que dormem. Treme como se um vento frio tivesse passado pelo seu corpo:
– Que horror!
Mas Pedro Bala está dizendo a João de Adão:
– Que coisa porreta a greve! Nunca vi coisa tão bonita. É como uma festa...
– A greve é a festa dos pobres... – diz o estudante.
A voz de Alberto é mansa e boa. Pedro Bala o escuta enlevado, como se fosse a voz de um negro cantando uma canção no mar.
– Meu pai morreu numa greve, tu sabe? Pergunte a João de Adão, se está duvidando...
– Foi uma morte bonita fala o estudante. – Ele foi um campeão da sua classe. Não foi o Loiro?
O estudante sabe o nome de seu pai. Seu pai foi um campeão... Todos o conhecem.
Teve uma morte bonita, morreu numa greve, a greve é a festa dos pobres... Escuta a voz do estudante:
– Você acha a greve bonita, Pedro?
– Companheiro, esse é um porreta diz João de Adão. – Tu não conhece os Capitães da Areia nem Capitão Pedro... É um companheiro...
Companheiro... Companheiro... Pedro Bala acha a palavra mais bonita do mundo. O
estudante diz como Dora dizia a palavra irmão.
– Pois companheiro Pedro, a gente precisa de você e do seu grupo.
– Pra quê? – pergunta João Grande curioso.
Pedro Bala apresenta:– Este negro é João Grande, um negro bom. Quem for bom é igual a João Grande, melhor não é...
Alberto estende a mão ao negro. João Grande fica um momento indeciso, não está acostumado a apertos de mão. Mas logo aperta aquela mão, meio encabulado. O
estudante novamente diz:
– Vocês são uns batutas...
De repente, interessado, pergunta:
– É verdade que Volta Seca foi um de vocês?
– Um dia a gente tira ele da cadeia... – é a resposta de Bala. O estudante olha meio espantado. Dá uma espiada pelo trapiche, João de Adão faz um sinal como que lembrando: Eu não lhe dizia?
Pedro Bala quer conversar sobre a greve, saber o que querem dele:
– É pra greve que precisa da gente?
– Se for? – perguntou o estudante.
– Se for pra ajudar os grevistas, tou decidido. Pode contar com a gente... –
levanta-se, está um rapazola, o rosto disposto para a luta.
– Tu não vê... – começa a explicar João de Adão.
Mas cala, porque o estudante está falando:
– A greve está indo muito em ordem. Nós queremos fazer coisas com muita ordem, porque assim venceremos e os operários conseguirão o aumento. Nós não queremos armar barulho, queremos mostrar que os operários são capazes de disciplina. Uma
pena, pensa Pedro Bala, que ama os barulhos. Mas acontece que os diretores da Companhia andam contratando fura-greves para trabalhar amanhã. Se os operários dissolverem os grupos de furadores de greve, darão margem a que a polícia intervenha e está todo o trabalho perdido.
Então o companheiro João de Adão lembrou de vocês...
– Pra debandar os fura-greve? Tá certo – diz Bala alegríssimo O estudante pensa na discussão daquela noite na organização. Quando João de Adão fizera a proposta de chamar os Capitães da Areia, muitos companheiros tinham se declarado contra.
Sorriam da idéia. João de Adão só dizia:
– Vocês não conhece os Capitães da Areia.
Aquilo, aquela confiança, impressionara Alberto e alguns outros. Por fim a idéia venceu, não perderiam nada em tentar. Agora está satisfeito de ter vindo. E na sua cabeça já fazia planos para aproveitar na luta os Capitães da Areia. Para quanta coisa não serviriam aqueles meninos esfomeados e mal vestidos? Lembrava-se de outros exemplos, da luta antifascista na Itália, os meninos de Lusso. Sorria para Pedro Bala.
Explicou o plano: os furadores de greve viriam pela madrugada para os três grandes depósitos de bondes para tomar conta dos carros. Os Capitães da Areia deviam se dividir em três grupos, guardar as entradas dos três depósitos.E impedir, fosse como fosse, que os furadores de greve conseguissem botar os bondes em marcha. Pedro Bala assentia com a cabeça. Virou para João de Adão:
– Se Sem-Pernas tivesse vivo e Gato tivesse aqui...
Depois se lembra de Professor:
– Professor inventava um plano bom num minuto... Depois fazia um desenho da briga. Agora tá no Rio.
– Quem é? – pergunta o estudante.
– Um chamado João José, que a gente tratava de Professor. Agora tá pintando quadro no Rio.
– É o pintor João José?
Esse mesmo – fez Bala.
– Eu sempre pensei que fosse lenda essa história. Sabe que ele é um companheiro bom?
– Sempre foi um companheiro bom disse Pedro Bala com força.
O estudante fazia planos sobre os Capitães da Areia. Agora Pedro Bala acordava todos e explicava o que tinham que fazer. O estudante estava entusiasmado com as palavras do moleque. Quando terminou de explicar, Bala resumiu tudo nestas palavras:
– A greve é a festa dos pobres. Os pobres é tudo companheiro, companheiro da gente.
– Você é um batuta disse o estudante.
– Vai ver como a gente acaba com os traidor.
Explicava a Alberto:
– Eu vou com um grupo pro depósito maior. João Grande vai com outro. Barandão com o terceiro para o menor. Não entra ninguém. A gente sabe fazer. Tu vai ver...
– Eu estarei lá para ver fez o estudante. – Então, às quatro horas da madrugada?
– Tá certo.
O estudante faz um gesto.
– Até logo, companheiros...
Companheiros. Palavra bonita, pensa Pedro Bala. Ninguém dorme mais no trapiche nesta noite. Preparam as mais diversas armas.
Na madrugada que nasce, as estrelas começam a desaparecer do céu. Mas Pedro Bala parece ver numa estrela que corre a estrela de Dora que o alegra.
Companheira...Também ela tinha sido uma companheira boa. A palavra brinca na sua boca, é a palavra mais bonita que ele já viu. Pedirá a Boa-Vida que faça um samba dela, um samba para um negro cantar à noite no mar. Vão como se fossem para uma festa. Armados com as mais diversas armas: navalhas, punhais pedaços de pau. Vão para uma festa, porque a greve é a festa dos pobres, repete Pedro Bala para si mesmo.
No pé da ladeira da Montanha se dividem em três grupos. João Grande chefia um, Barandão vai com outro, o maior vai com Pedro Bala. Vão para uma festa. A primeira festa verdadeira que têm aquelas crianças. Ainda assim é uma festa de homens. Mas é uma festa dos pobres, dos pobres como eles.
A madrugada é fria. Na esquina do depósito, quando Pedro Bala está colocando os meninos, Alberto se aproxima dele. Pedro se volta o rosto sorridente. O estudante fala:
– Eles já vêm, companheiro.
– Espera pra ver.
Agora é o estudante quem sorri. Evidentemente está entusiasma do com os meninos.
Pedirá à organização para trabalhar com eles. Irão fazer muitas coisas juntos.
Os fura-greves vêm num grupo cerrado. Um americano o chefia com a cara fechada.
Se dirigem todos para a entrada. Da sombra, dos becos, ninguém sabe de onde, como demônios fugidos do inferno, surgem meninos esfarrapados e de armas na mão. Punhais, navalhas, paus. Tomam a porta, o grupo dos fura-greves pára. Logo os demônios se atiram, é um bolo só. São em número maior que o grupo de fura-greves. Estes rolam com os golpes de capoeira, recebem pauladas, alguns já fogem. Pedro Bala derruba o americano, com a ajuda de outro o soqueia.Os fura-greves pensam que são demônios fugidos do inferno.
A gargalhada livre e grande dos Capitães da Areia ressoa na madrugada. A greve não é furada.
Também João Grande e Barandão são vitoriosos. O estudante ri com eles a gargalhada dos Capitães da Areia.
No trapiche diz para alegria dos meninos:
– Vocês são os mais batutas que eu já vi...
– Companheiros, companheiros diz João de Adão.
Diz o vento que passa, diz a voz do coração de Pedro Bala. É como a música de uma canção cantada por um negro:
– Companheiros.
Os atabaques ressoam como clarins de guerra Depois de terminada a greve o estudante continua a vir ao trapiche.Mantém longas conversas com Pedro Bala, transforma os Capitães da Areia numa brigada de choque.
Uma tarde Pedro Bala vai pela rua Chile, o boné desabado sobre os olhos, assoviando, enquanto arrasta os pés no chão. Uma voz exclama:
– Bala!
Se volta. O Gato está elegantíssimo na sua frente. Uma pérola na gravata, um anel no dedo mínimo, roupa azul, chapéu de feltro quebrado num jeito malandro:
– É tu, Gato?
– Vamos sair daqui.
Entram numa rua sem movimento. Gato explica que chegou de lá. Ilhéus há poucos dias. Que arrancou um bocado de dinheiro de lá. Está um homem e todo perfumado e elegante:
– Quase não te conheço... – diz Pedro Bala. – E Dalva?
– Ficou amigada com um coronel. Mas eu já tinha deixado ela. Agora tenho uma moreninha do balacobaco...
– E aquele anelão que Sem-Pernas fazia troça?...
Gato ri:
– Empurrei por quinhentão num coronel cheio da nota... O bicho engoliu sem gritar...
Conversam e riem. Gato pergunta notícia dos outros. Diz que no dia seguinte embarcará para Aracaju com a morena, pois açúcar está dando dinheiro. Pedro Bala o vê ir embora todo elegante. Pensa que se ele tivesse demorado mais algum tempo
no trapiche, talvez não fosse um ladrão. Aprenderia com Alberto, estudante, o que ninguém soubera lhe ensinar. Aquilo que Professor como que adivinhara.
A revolução chama Pedro Bala como Deus chamava Pirulito nas noites do trapiche.
É uma voz poderosa dentro dele, poderosa como a voz do mar, como a voz do vento, tão poderosa como uma voz sem comparação. Como a voz de um negro que canta num saveiro o samba que Boa-Vida fez:
“Companheiros, chegou a hora...”
A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a cidade, que parece vir dos atabaques que ressoam nas macumbas da religião ilegal dos negros. Uma voz que vem com o ruído dos bondes onde vão os condutores e motorneiros grevistas. Uma voz que vem do cais, do peito dos estivadores, de João de Adão, de seu pai morrendo num comício, dos marinheiros dos navios, dos saveiristas e dos canoeiros.
Uma voz que vem do grupo que joga a luta da capoeira, que vem dos golpes que o Querido-de-Deus aplica. Uma voz que vem mesmo do padre José Pedro, padre pobre de olhos espantados diante do destino terrível dos Capitães da Areia. Uma voz que vem das filhas-de-santo do candomblé de Don ’ Aninha, na noite que a polícia levou Ogum. Voz que vem do trapiche dos Capitães da Areia. Que vem do reformatório e do orfanato. Que vem do ódio do Sem-Pernas se atirando do elevador para não se entregar. Que vem no trem da Leste Brasileira, através do sertão, do grupo de Lampião pedindo justiça para os sertanejos. Que vem de Alberto, o estudante pedindo escolas e liberdade para a cultura. Que vem dos quadros de Professor, onde meninos esfarrapados lutam naquela exposição da rua Chile. Que vem de Boa-Vida e dos malandros da cidade, do bojo dos seus violões, dos sambas tristes que eles cantam. Uma voz que vem de todos os pobres, do peito de todos os pobres. Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade, de amizade: companheiros. Uma voz que convida para a festa da luta. Que é como um samba
alegre de negro, como ressoar dos atabaques nas macumbas. Voz que vem da lembrança de Dora, valente lutadora. Voz que chama Pedro Bala. Como a voz de Deus chamava Pirulito, a voz do ódio o Sem-Pernas, como a voz dos sertanejos chamava Volta Seca para o grupo de Lampião. Voz poderosa como nenhuma outra.
Porque é uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem exceção. Voz poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera. A primavera da luta. Voz que chama Pedro Bala, que o leva para a luta.
Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade. A cidade no dia de primavera é deslumbradoramente bela. Uma voz de mulher canta a canção da Bahia. Canção da beleza da Bahia.
Cidade negra e velha, sinos de igreja, ruas calçadas de pedra. Canção da Bahia que uma mulher canta. Dentro de Pedro Bala uma voz o chama: voz que traz para a canção da Bahia, a canção da liberdade. Voz poderosa que o chama. Voz de toda a cidade pobre da Bahia, voz da liberdade. A revolução chama Pedro Bala.
Pedro Bata foi aceito na organização no mesmo dia em que João Grande embarcou como marinheiro num navio cargueiro do Lóide. No cais dá adeus ao negro, que parte para a sua primeira viagem. Mas não é um adeus como aqueles que dera aos outros que partiram antes.
Não é mais um gesto de despedida. É um gesto de saudação ao companheiro que parte:
– Adeus, companheiro.
Agora comanda uma brigada de choque formada pelos Capitães da Areia. O destino deles mudou, tudo agora é diverso. Intervêm em comícios, em greves, em lutas obreiras.O destino deles é outro. A luta mudou seus destinos.
Ordens vieram para a organização dos mais altos dirigentes. Que Alberto ficasse com os Capitães da Areia e Pedro Bala fosse organizar os índios Maloqueiros de Aracaju em brigada de choque também. E que depois continuasse a mudar o destino das outras crianças abandonadas do país.
Pedro Bala entra no trapiche. A noite cobriu a cidade. A voz do negro canta no mar.
A estrela de Dora brilha quase tanto quanto a lua no céu mais lindo do mundo. Pedro Bala entra, olha as crianças. Barandão vem para junto dele, agora tem 15 anos o negrinho.
Pedro Bala olha. Estão deitados, alguns já dormem, outros conversam, fumam cigarros, riem a grande gargalhada dos Capitães da Areia. Bala reúne a todos, bota Barandão junto de si:
– Gentes, agora eu vou embora, vou deixar vocês. Vou embora, Barandão agora fica o chefe. Alberto vem sempre ver vocês, vocês devem fazer o que ele diz. E todo mundo ouça: Barandão agora é o chefe.
O negrinho Barandão fala:
– Gentes, Pedro Bala vai embora. Viva Pedro Bala!...
Os punhos dos Capitães da Areia se levantam fechados.
– Bala! Bala! – gritam numa despedida.
Os gritos enchem a noite, calam a voz do negro que canta no mar, estremecem o céu de estrelas e o coração de Pedro. Punhos fechados de crianças que se levantam.Bocas que gritam se despedindo do chefe: Ba1a! Bala!
Barandão está na frente de todos. Ele agora é o chefe. Pedro Bala parece ver Volta Seca, Sem-Pernas, Gato, Professor, Pirulito, Boa-Vida, João Grande e Dora, todos
ao mesmo tempo entre eles. Agora o destino deles mudou. A voz do negro no mar canta o samba de Boa-Vida:
“Companheiros, vamos pra luta...”
De punhos levantados, as crianças saúdam Pedro Bala, que parte para mudar o destino de outras crianças. Barandão grita na frente de todos, ele agora é o novo chefe.
De longe, Pedro Bala ainda vê os Capitães da Areia. Sob a lua, num velho trapiche abandonado, eles levantam os braços. Estão em pé, o destino mudou.
Na noite misteriosa das macumbas os atabaques ressoam como clarins de guerra.
Uma Pátria e uma família
Anos depois os jornais de classe, pequenos jornais, dos quais vários não tinham existência legal e se imprimiam em tipografias clandestinas, jornais que circulavam nas fábricas, passados de mão em mão, e que eram lidos à luz de fifós, publicavam sempre notícias sobre um militante proletário, o camarada Pedro Bala, que estava perseguido pela policia de cinco estados como organizador de greves, como dirigente de partidos ilegais, como perigoso inimigo da ordem estabelecida.
No ano em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais únicas bocas que ainda falavam clamavam pela liberdade de Pedro Bala, líder da sua classe, que se encontrava preso numa colônia.
E, no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. E, apesar de que fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.
Na casa mal-assombrada de Doninha Quaresma (existiam botijas enterradas e a alma de Doninha), hoje do Capitão, na paz de Estância.
Sergipe, março de 937.
A bordo do Rakuyo Maru, subindo a costa da América do pelo Pacífico, em caminho do México, junho de 937.
FIM
Você terminou Capitães de Areia
Jorge Amado