Capitães de Areia

Jorge Amado · Capítulo 3 de 5 · parte 2/4

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Capitães de Areia

Da Tarde

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

– Tá com outra, não é? Mas meu Senhor do Bonfim há de fazer com que os dois fique entrevado. Senhor do Bonfim é meu santo.

Foi até onde estava o quadro do santo. Fez a promessa e voltou.

– Guarda teu dinheiro. Tu ganhou direito.

O Gato repetiu:

– Senta aqui.

Desta vez ela sentou, ele a pegou e a derrubou na cama. Depois que ela gemeu com o amor e com os tabefes que ele lhe deu, murmurou:

– O frangote parece um homem...

Ele se levantou, endireitou as calças, foi até onde estava o retrato do flautista Gastão e o rasgou.

– Vou tirar um retrato pra tu botar ai.

A mulher riu e disse:

– Vem, bichinho bom. Que malandro não vai sair dai! Vou te ensinar tanta coisa, meu cachorrinho.

Fechou a porta do quarto. O Gato tirou a roupa.

Por isso o Gato sai toda meia-noite e não dorme no trapiche. Só volta pela manhã para ir com os outros para as aventuras do dia.

O Sem-Pernas se aproximou e pilheriou:

– Agora tu vai mostrar o anel, não é?

– Tu não tem nada com isso – o Gato fumava um cigarro. – Tu quer vir pra ver se topa alguma mulher que te queira assim coxo?

– Não vou em casa de couros. Sei onde tem coisas que valha a pena.

Mas o Gato não estava disposto a conversar e o Sem-Pernas continuou a sua peregrinação através do trapiche.

O Sem-Pernas encostou-se junto a uma parede e deixou que o tempo passasse. Viu o Gato sair por volta das onze e meia. Sorriu porque ele havia lavado a cara, posto brilhantina no cabelo e ia marchando com aquele passo gingado que caracteriza os malandros e os marítimos. Depois o Sem-Pernas ficou muito tempo olhando as crianças que dormiam. Ali estavam mais ou menos cinqüenta crianças, sem pai, sem mãe, sem mestre. Tinham de si apenas a liberdade de correr as ruas. Levavam vida nem sempre fácil, arranjando o que comer e o que vestir, ora carregando uma mala, ora furtando carteiras e chapéus, ora ameaçando homens, por vezes pedindo esmola.

E o grupo era de mais de cem crianças, pois muitas outras não dormiam no trapiche.

Se espalhavam nas portas dos arranha-céus, nas pontes, nos barcos virados na areia do Porto da Lenha. Nenhuma delas reclamava. Por vezes morria um de moléstia que ninguém sabia tratar, Quando calhava vir o padre José Pedro, ou a mãe-de-santo Don ’ Aninha ou também o Querido-de-Deus, o doente tinha algum remédio. Nunca, porém, era como um menino que tem sua casa. O Sem-Pernas ficava pensando.

E achava que a alegria daquela liberdade era pouca para a desgraça daquela vida.

Voltou-se porque ouviu movimento. Alguém se levantava no meio do casarão. O

Sem-Pernas reconheceu o negrinho Barandão, que se dirigia de manso para o areal de fora do trapiche. O Sem-Pernas pensou que ele ia esconder qualquer coisa que furtara e não quem mostrar aos companheiros. E aquilo era um crime conta as Leis dobando. O Sem-Pernas seguiu Barandão, atravessando ente os que dormiam. O

negrinho já tinha transposto a porta do trapiche e dava a volta no prédio para o lado esquerdo. Em cima era o céu de estrelas.

Barandão agora caminhava apressadamente. O Sem-Pernas notou que ele se dirigia para o outro extremo do trapiche, onde a areia era mais fina ainda. Foi então pelo outro lado e chegou a tempo de ver Barandão que se encontrava com um vulto. Logo

o reconheceu: era Almiro, um do grupo, de doze anos, gordo e preguiçoso.

Deitaram-se juntos, o negro acariciando Admiro. O Sem-Pernas chegou a ouvir palavras. Um dizia: meu filhinho, meu filhinho. O Sem-Pernas recuou e a sua angústia cresceu. Todos procuravam um carinho, qualquer coisa fora daquela vida: o Professor naqueles livros que lia a noite toda, o Gato na cama de uma mulher da vida que lhe dava dinheiro, Pirulito na oração que o transfigurava, Barandão e Almiro no amor na areia do cais. O Sem-Pernas sentia que uma angústia o tomava e que era impassível dormir. Se dormisse viriam os maus sonhos da cadeia. Queria que aparecesse alguém a quem ele pudesse torturar com dichotes. Queria uma briga.

Pensou em ir acender um fósforo na perna de um que dormisse. Mas quando olhou da porta do trapiche, sentiu somente pena e uma doida vontade de fugir. E saiu correndo pelo areal, correndo sem fito, fugindo da sua angústia.

Pedro Bala acordou com um ruído perto de si. Dormia de bruços e olhou por baixo dos braços. Viu que um menino se levantava e se aproximava cautelosamente do canto de Pirulito. Pedro Bala, no meio do sana em que estava, pensou, a princípio, que se tratasse de um caso de pederastia. E ficou atento para expulsar o passivo do grupo, pois uma das leis do grupo era que não admitiriam pederastas passivos. Mas acordou completamente e logo recordou que era impossível, pois Pirulito não era destas coisas. Devia se tratar de furto. Realmente o garoto já abria o baú de Pirulito.

Pedro Bala se atirou em cima dele.

A luta foi rápida. Pirulito acordou, mas os demais dormiam.

– Tu tá roubando um companheiro?

O outro ficou calado, coçando o queixo ferido. Pedro Bala continuou:

– Amanhã tu vai embora... Não quero mais tu com a gente. Vai ficar com a gente de Ezequiel, que vive roubando uns dos outros.

– Eu só queria era ver...

– Que era que tu vinha ver com as mãos?

– Juro que era só para ver aquela medalha que ele tem.

– Desembucha esta história direito senão leva porrada.

Pirulito se meteu:

– Deixa ele, Pedro.

Era bem capaz de querer ver mesmo a medalha. É uma medalha que o padre José Pedro me deu.

– E isso mesmo – disse o menino –, eu só queria ver. Juro – mas tremia de medo.

Sabia que a vida de um expulso dos Capitães da Areia ficava difícil.

Ou entrava para o grupo de Ezequiel, que vivi todo dia na cadeia, ou acabava no reformatório.

Pirulito intercedeu de novo e Pedro Bala voltou para perto do Professor. Então o menino disse com a voz ainda temendo:

– Vou contar pra você saber. Foi uma menina que eu vi hoje. Tava na Cidade de Palha. Eu tinha entrado na casa com idéia ti abafar um paletó, quando ela veio e ficou perguntando o que eu queria. Aí topamos a conversar. Eu disse que amanhã ia levar um presente pra ela. Porque foi boa, boa assim comigo, sabe? – e agora gritava parecia que tinha raiva.

Pirulito tomou a medalha que o padre lhe dera, ficou mirando. De repente estendeu para o menino:

– Tome. Dê a ela. Mas não conte a Pedro Bala.

Volta Seca entrou no trapiche quando a madrugada já ia alta. O cabelo de mulato sertanejo estava revolto. Calçava alpercatas como quando viera da caatinga. O seu rosto sombrio se projetou dentro do casarão. Passou por cima do corpo do negro

João Grande. Cuspiu adiante, passou o pé em cima. Apertado no braço trazia um jornal.Olhou todo o salão procurando alguém. Segurou o jornal com as mãos grandes e calosas logo que distinguiu onde estava Professor. E sem se importar da hora tardias e dirigiu para lá e começou a chamá-lo:

– Professor... Professor...

– O que é? – Professor estava semi-adormecido.

– Eu quero uma coisa.

Professor sentou-se. O rosto sombrio de Volta Seca estava meio invisível na escuridão.

– É tu, Volta Seca? Que é que tu quer?

– Quero que tu leia pra eu ouvir essa notícia de Lampião que o Diário traz. Tem um retrato.

– Deixa pra amanhã que eu leio.

– Lê hoje, que eu amanhã te ensino a imitar direitinho um canário.

O Professor buscou uma vela, acendeu, começou a ler a notícia do jornal. Lampião tinha entrado numa vila da Bahia, matara oito soldados, deflorara moças, saqueara os cofres da Prefeitura. O rosto sombrio de Volta Seca se iluminou. Sua boca apertada se abriu num sorriso. E ainda feliz deixou o Professor, que apagava a vela, e foi para o seu canto. Levava o jornal para cortar o retrato do grupo de Lampião.

Dentro dele ia uma alegria de primavera.

Ponto das Pitangueiras

Esperavam que o guarda andasse. Este demorou olhando o céu, mirando a rua deserta. O bonde desapareceu na curva. Era o último dos bondes da linha de Brotas naquela noite. O guarda acendeu um cigarro. Com o vento que fazia, gastou três fósforos. Depois suspendeu a gola da capa, pois havia um frio úmido que o vento trazia das chácaras onde balouçavam mangueiras e sapotizeiros. Os três meninos esperavam que o guarda andasse para poder atravessar de um lado para o outro da rua e entrar na travessa sem calçamento. O Querido-de-Deus não tinha podido vir.

Toda a tarde tinha passado na Porta do Mar esperando o homem que não veio. Se ele tivesse vindo seria mais fácil, pois com o Querido-de-Deus ele não ia discutir, mesmo porque devia muita coisa ao capoeirista. Mas não tinha vindo, a informação fora errada, e o Querido-de-Deus já tinha uma viagem acertada para essa noite. Ia a Itaparica. Durante a tarde, num terreninho que havia no findo da Porta do Mar, fizeram treinos do jogo capoeira. O Gato prometia ser, com algum tempo, um lutador capaz de se pegar com o próprio Querido-de-Deus. Pedro Bala também tinha muito jeito. Dos três o menos ágil era o negro João Grande muito bom numa luta onde pudesse empregar sua enorme força física Assim mesmo aprendia o bastante para se livrar de um mais forte ele. Quando se cansaram passaram para a sala.

Pediram quatro pi e o Gato sacou um baralho do bolso das calças. Um velho bar sebento, de canas muito grossas.O Querido-de-Deus afirmava o homem viria, o camarada que lhe dera a informação era um sujeito seguro. Era negócio para render muito e o Querido-de-Deus preferia chamar os Capitães da Areia, seus amigos, a um dos malandros do cais. Sabia que os Capitães da Areia valiam mais que muitos homens e tinham a boca calada. A Portado Mar estava quase deserto àquela hora.

Somente dois marinheiros de um baiano bebiam cerveja ao fundo, conversando, O

Gato pôs o baralho em cima da mesa e propôs:

– Quem topa uma ronda?

O Querido-de-Deus pegou no baralho:

– Tá mais que marcado, seu Gato. Um baralhinho bem velho...

– Se tu tem outro eu não me importa.

– Não. Vamos com esse mesmo.

Começaram o jogo. O Gato descobria duas cartas na mesa, os outros apostavam numa, a banca ficava com a outra. A princípio Pedro Bala e o Querido-de-Deus ganharam.

João Grande não estava jogando conhecia demais o baralho do Gato, só fazia espiar, rindo com seus dentes alvos, quando o Querido-de-Deus dizia que estava com sorte neste dia porque era o dia de Xangô, seu santo. Sabia que a sorte seria só no princípio e que quando o Gato começasse a ganhar não pararia mais. Certo momento o Gato começou a ganhar. Quando ganhou a primeira vez, disse com uma voz meio triste:

– Também já era tempo. Tava com um peso da mãe!

João Grande abriu mais seu sorriso, O Gato ganhou de novo.

Pedro Bala se levantou, recolheu os níqueis que havia ganho. O Gato olhou desconfiado: Tu não vai botar nada agora?

– Agora não que vou mijar... – e foi para os fundos do bar.

O Querido-de-Deus ficou perdendo. João Grande ria e o capoeirista se afundava.

Pedro Bala tinha voltado, mas não jogava. Ria com João Grande, O

Querido-de-Deus passou tudo quanto tinha ganho. João Grande disse entre dentes:

– Vai entrar no capital...

– Ainda tou perdendo – falou o Gato.

Reparou que Pedro tinha voltado:

– Tu não arrisca mais nada? Não vai na dama?

– Tou cansado de jogar... – e Pedro Bala piscou para o Gato como que dizendo que ele se contentasse com o Querido-de-Deus.

O Querido-de-Deus passou cinco mil-réis do capital. Só ganhara duas vezes durante as últimas jogadas e estava meio desconfiado. O Gato abriu o baralho na mesa.Puxou um rei e um sete.

– Quem vai? – perguntou.

Ninguém foi. Nem mesmo o Querido-de-Deus, que olhava o ar baralho muito desconfiado. O Gato perguntou:

– Tá pensando que tem treita? Pode espiar. Eu faço jogo limpo...

João Grande soltou uma daquelas suas gargalhadas escandalosas. Pedro Bala e o Querido-de-Deus riram também. O Gato olhou para João Grande com raiva:

– Esse negro é burra como uma porta. Tu não tá vendo...Mas não completou a frase, porque os dois marinheiros baiano, que já miravam o jogo há bastante tempo, se aproximaram. Um deles, o mais baixo, que estava bêbado, falou para o Querido-de-Deus:

– Pode-se entrar nesta brincadeira?

– A banca é deste moço.

Os marinheiros olharam desconfiados para o menino. Mas baixo cutucou o outro com o cotovelo e murmurou qualquer coisa ao ouvido. O Gato riu para dentro porque sabia que ele estava dizendo que seria fácil arrancar o dinheiro daquela criança. Se abancaram os dois e o Querido-de-Deus achou estranho que Pedro Bala se abancasse também. João Grande, no entanto, não só não achou estranho se abancou também. Ele sabia que era preciso tapear os marinheiros e então era necessário que a gente do grupo perdesse também. Os marinheiros, do mesmo modo que tinha acontecido com o Querido-de-Deus, começaram ganhando. Mas durou

pouca a aragem da sorte e em breve só o Gato ganhava dos quatro. Pedro Bala soltava aclamações:

– Esse Gato quando tem sorte é um caso sério...

– Também, quando dá de perder, perde a noite toda – replicou João Grande e esta sua réplica deu grande confiança aos marinheiros sobre a honestidade do jogo e a possibilidade da sorte virar. E continuaram a jogar e a perder. O baixo só dizia:

– A sorte tem de virar...

O outro, que tinha um bigodinho, jogava calado e cada vez apostava mais alto.

Também Pedro Bala subia o valor das suas apostas. Certa hora o de bigodinho virou pro Gato:

– A banca topa cinco mil?

O Gato coçou o cabelo cheio de brilhantina barata, aparentando uma indecisão que os companheiros sabiam que não possuía.

Vá lá. Topo. Só pra dar meio de você livrar teu prejuízo.

O de bigodinho apostou cinco mil. O baixo foi com três mil-réis. Foram ambos num ás contra um valete da banca. Pedro Bala e João Grande foram no ás também. O

Gato começou a virar as cartas. A primeira era um nove. O baixo batia com os dedos, o outro puxava o bigodinho. Veio em seguida um dois e o baixo disse:

– Agora é o ás. Dois, depois um... – e batia com os dedos.

Mas veio um sete e depois um dez e então veio um valete. O Gato arrastou a mesa, enquanto Pedro Bala fazia uma cara de grande aborrecimento e dizia:

– Amanhã, quando o peso te pegar, tu vai ver que te arraso.

O baixo confessou que estava limpo. O de bigodinho meteu as mãos nos bolsos:

– Tou só com os níqueis pra pagar a cerveja. O garoto é um braço.

Se levantaram, cumprimentaram o grupo, pagaram a cerveja que tinham bebido na outra mesa. O Gato os convidou a voltarem no outro dia. O baixo respondeu que o navio deles saía aquela noite para Caravelas. Só quando voltasse. E se foram, de braço dado, comentando a pouca sorte.

O Gato contou o lucro. Sem juntar o dinheiro que Pedro Bala e João Grande haviam perdido, existia um lucro de trinta e oito mil-réis. O Gato devolveu o dinheiro de Pedro Bala, depois o de João Grande, ficou um minuto pensando. Meteu a mão no bolso, tirou os cinco mil réis que o Querido-de-Deus havia perdido anteriormente:

– Toma, batuta. Tinha trapaça, eu não quero embolsar teu cobre...

O Querido-de-Deus beijou a nota com satisfação, bateu a mão nas costas do Gato:

– Tu vai longe, menino. Tu pode enricar com essas treitas.

Mas já o sol se punha e o homem não vinha. Eles pediram outra pinga. Com o cair da tarde o vento que vinha do mar aumentou. O Querido-de-Deus começava a ficar impaciente. Fumava cigarro sobre cigarro. Pedro Bala espiava para a porta. O Gato dividiu os trinta e oito mil-réis pelos três. João Grande perguntou:

– Como teria ido o Sem-Pernas com o abafa de chapéus?

Ninguém respondeu. Esperavam o homem e agora tinham a impressão que ele não viria. A informação tinha sido errada. Não ouviam sequer a canção que vinha do mar.A Porta do Mar estava deserta e seu Felipe quase dormia no balcão. Não tardaria, no entanto, a estar cheia, e então todo acerto seria impossível com o homem. Ele não haveria de querer conversar ali com o salão cheio. Poderiam conhecê-lo, e ele não queria isto. Tampouco o queriam os Capitães da Areia. Em verdade, o Gato não sabia de que se tratava. E pouco má sabiam Pedro Bala e João Grande. Sabiam quanto sabia o Querido-de-Deus, a quem o negócio tinha sido proposto e que o tinha aceito para Pedro Bala e os Capitães da Areia. No entanto, ele mesmo tinha apenas vagas informações e iam saber de tudo pelo homem que marcara uma entrevista à tarde na Porta do Mar. Mas até as seis horas não chegou.

Em lugar dele chegou o tal que tinha falado ao Querido-de-Deus. Chegou na hora em que o grupo ia sair. Explicou que homem não tinha podido vir. Mas que esperava o Querido-de-Deus à noite, na rua em que morava. Viria por volta de uma da madrugada O Querido-de-Deus declarou que não podia ir, mas que entregava o assunto aos Capitães da Areia. O intermediário mirou os meninos, desconfiado. O

Querido-de-Deus perguntou:

– Nunca ouviu falar nos Capitães da Areia?

– Já, sim. Mas...

– De qualquer jeito quem ia tratar do negócio era eles. Daí...

O intermediário pareceu se conformar. Combinaram pan um da manha e se separaram. O Querido-de-Deus foi para seu barco, os Capitães da Areia para o trapiche, o intermediário desapareceu no cais.

O Sem-Pernas não havia ainda voltado. Não havia ninguém no trapiche. Deviam estar todos espalhados pelas ruas da cidade, cavando o jantar. Os três saíram novamente e foram comer num restaurante barato que havia no mercado. Na saída do trapiche, o Gato, que estava muito alegre com o resultado do jogo, quis passar uma rasteira em Pedro Bala. Mas este livrou o corpo e derrubou o Gato:

– Tou treinado nisso, bestão.

Entraram no restaurante fazendo barulho. Um velho, que era o garçom, se aproximou com desconfiança. Sabia que os Capitães da Areia não gostavam de pagar e que aquele de talho na cara era o mais temível de todos. Apesar de haver bastante gente no restaurante, o velho disse:

– Acabou tudo. Não tem mais bóia.

Pedro Bala replicou:

– Deixa de conversa fiada, meu tio. Nós quer comer.

João Grande bateu a mão na mesa:

– Senão a gente vira esse frege-mosca de cabeça pra baixo.

O velho ficava indeciso. Então o Gato bateu o dinheiro em cima da mesa:

– Hoje nós vai fazer gasto.

Foi um argumento suficiente. O garçom começou a trazer os pratos: um prato de sarapatel e depois uma feijoada. Quem pagou foi o Gato. Depois Pedro Bala propôs que fossem andando até Brotas, pois já que iam a pé tinham muito que caminhar.

– Não vale a pena tomar a taioba – disse Pedro Bala. – É melhor que ninguém saiba que a gente foi pra lá.

O Gato então disse que chegaria depois e os encontraria lá. Tinha uma coisa que fazer antes. Ia avisar a Dalva para que não o esperasse essa noite.

E agora estavam ali, no Ponto das Pitangueiras, esperando que o guarda se alistasse.

Escondidos no vão de um portal, não falavam. Ouviam o vôo dos morcegos que atacavam os sapotis maduros nos pés. Finalmente, o guarda andou, eles ficaram espiando até que a sua figura desapareceu na curva que a rua fazia. Então atravessaram e entraram na alameda das chácaras e novamente se esconderam num portal. O homem não tardou muito. Saltou de um automóvel na esquina, pagou a corrida e veio subindo a alameda. Tudo o que se ouvia eram os seus passos e o rumor das folhas que o vento balançava nas árvores. Quando o homem vinha próximo, Pedro Bala saiu do portal.Os outros vieram logo depois e como que o guardavam, pareciam dois guarda-costas. O homem se aproximou mais do muro junto ao qual vinha andando. Pedro caminhava para ele. Quando estava defronte, parou:

– Pode me dar o fogo, senhor? – levava na mão um cigarro apagado.

O homem não disse nada. Sacou a caixa de fósforos, estendeu ao menino. Pedro riscou um e, enquanto acendia o cigarro, olhou para o homem. Depois, ao entregara caixa de fósforos, perguntou:

– É o senhor que se chama Joel?

– Porquê? – quis saber o homem. – Foi o Querido-de-Deus que nos mandou.

João Grande e o Gato se aproximavam. O homem mirou os três com espanto:

– Porém são uns meninos! Isso não é negócio para – Diga o que é, a gente sabe fazer o trabalho direito – retrucou Pedro Bala, quando os outros dois tinham se aproximado.

– Mas se um negócio que talvez nem homens... – e o homem pôs a mão na boca, como quem teme ter dito mais do que convinha.

– Nós sabe guardar um segredo tão bem como um cofre. E Capitães da Areia sempre faz os serviços bem feito...

– Os Capitães da Areia? Esse grupo de que falam os jornais? meninos abandonados?

São vocês?

– É a gente, sim. E dos que manda.

O homem parecia refletir. Enfim se decidiu:

– Eu preferia entregar esse negócio a homens. Mas como tem que ser esta noite mesmo... O jeito...

– Vai ver como a gente sabe trabalhar. Não fique assustado.

– Venham comigo. Mas deixem que eu vá na frente. Vocês irão uns passos atrás de mim.

Os meninos obedeceram. Num portão o homem parou, abriu, ficou esperando. Veio de dentro um grande cão que lhe lambia as mãos. O homem fez os três entrarem, atravessaram uma rua de árvores, o homem abriu a porta da casa. Entraram para uma saleta, o homem pôs a capa e o chapéu numa cadeira e sentou-se. Os três estavam de pé. O homem fez sinal para que sentassem e primeiro eles miraram desconfiados as largas e cômodas poltronas. Isso Pedro Bala e João Grande, porque o Gato já estava se sentando muito a gosto, numa atitude displicente. A outro sinal do homem, Pedro

e o Grande se sentaram, sendo que João Grande ficou sentado apenas na ponta da cadeira, como se temesse sujá-la. O homem tinha um ar de riso. De repente levantou-se e falou, mirando a Pedro, em quem reconhecera o chefe:

– O que vocês vão fazer é difícil e ao mesmo tempo é fácil. Agora o que tem é que é uma coisa que necessita que ninguém saiba.

– Não passa daqui – disse Pedro Bala.

O homem puxou o relógio do bolso: São uma e um quarto. Ele só volta às duas e meia... – olhava os Capitães da Areia ainda com indecisão.

– Então não é muito tempo – falou Pedro. – Se quer que a gente vá, é bom desembuchar logo...

O homem se decidiu:

– Duas ruas adiante desta. É a penúltima chácara à direita. Tem que evitar um cachorro que já deve estar solto. E bravo.

João Grande interrompeu:

– O senhor tem ai um pedaço de carne?

– Pra quê?

– Pro cachorro. Um pedaço chega.

Verei já. – Olhava os meninos. Parecia perguntar a si mesmo se devia confiar neles.

– Vocês entram pelos fundos. Junto da cozinha, na parte de fora da casa, tem um quarto por cima da garagem. É o do empregado, que agora deve estar dentro de casa esperando o patrão. É no quarto dele que vocês vão entrar. Devem procurar um embrulho igual a este, igualzinho... Foi ao bolso da capa, trouxe um pequeno pacote amarrado com uma fita cor-de-rosa. – É igualzinho. Não sei se ainda estará no quarto.Também pode ser que o empregado o tenha no bolso. Se assim for, nada mais se pode fazer – e um desespero repentino pareceu tomá-lo. – Se eu tivesse podido ir

esta tarde... Então, com certeza, ainda estaria no quarto.Mas agora quem sabe? – e cobriu o rosto com as mãos.

– Mesmo que esteja com o empregado se pode trazer... – disse Pedro.

– Não. É essencial que ninguém saiba que houve furto deste embrulho. O que vocês vão fazer é trocar os embrulhos, se o outro estiver no quarto.

– E se estiver com o empregado?

– Então... – e a fisionomia do homem novamente se alterou. João Grande pensou ouvir um nome que soava como Elisa. Mas talvez fosse ilusão de João Grande, que por vezes ouvia e via coisas que ninguém percebia. O negro era muito mentiroso.

– Então a gente troca os embrulhos do mesmo jeito. Pode ficar descansado. O senhor não conhece os Capitães da Areia.

Apesar do seu desespero, o homem sorriu da bravata de Pedro Bala:

– Então podem ir. Depois, tem que ser antes de duas horas, voltem aqui. Mas só quando a rua estiver deserta. Eu os esperarei. Acertaremos nossas contas então.Mas quero dizer outra coisa lealmente. Se vocês forem percebidos e presos, não me envolvam no caso Nada farei por vocês, porque meu nome não pode aparecer nisso tudo. Tratem de dar fim a este embrulho e não me chamem para nada. É ganhar ou perder...

– Neste caso – replicou Pedro Bala – é preciso marcar o preço. Quanto o senhor paga à gente?

– Dou 100$. Trinta para cada e mais 10$ para você – apontou para Pedro.

O Gato se mexeu na cadeira. Pedro fez sinal para que ele se calasse.

– O senhor dá cinqüenta a cada e parece que ainda vai fazer negócio. São 150 bicos pros três. Senão, não tem embrulho.

O homem não vacilou muito. Olhava o relógio, onde os ponteiros corriam:

– Está bem.

Aí o Gato falou:

– Não é que a gente desconfie do senhor. Mas a coisa pode sair pelo avesso e o senhor mesmo disse que não se importaria com o que acontecesse à gente.

– E daí?

– É justo que o senhor nos passe logo algum.

João Grande apoiava o Gato com um gesto de cabeça. Pedro Bala repetiu as últimas palavras do outro:

– É justo, – repetiu também o homem. Tirou uma carteira do ou uma nota de cem mil-réis. Entregou a Pedro:

– Agora toca a andar. Se faz tarde.

Saíram. Pedro Bala disse:

– Pode ficar descansado. Daqui a uma hora a gente volta com o embrulho.

Em frente da casa a rua estava completamente deserta, numa janela da casa havia luz e eles viam a sombra de uma mulher que andava de um lado para outro o Grande bateu na testa:

– Me esqueci da carne pro cachorro.

Pedro Bala estava olhando a janela com luz, se voltou: Não tem nada. Isso me cheira a coisa de amigamento. O sujeito aquele derrubava a zinha daqui e agora o empregado tem as cartas que os dois se escrevia e quer dar o alarme. Esse pacote tá com perfume. É que o outro há de ter.

Fez sinal para os dois esperarem do outro lado da rua, chegou para perto do portão da casa. Logo que se encostou, um grande cão se aproximou latindo. Pedro Bala amarrou um cordel no ferrolho do portão, enquanto o cão andava de um lado para outro, latindo baixo. Depois chamou os outros dois:

– Tu – apontou pro Gato – fica aqui na rua pra dar o alarma se vem alguém. Tu, Grande, entra comigo.

Treparam na gradezinha do muro. Pedro Bala puxou com o cordão o ferrolho e o portão abriu. O Gato tinha ido para a esquina O cão ao ver o portão aberto se precipitou para a rua, ficou remexendo uma lata de lixo. Pedro Bala e João Grande pularam o muro, cerraram o portão para que o cachorro não pudesse entrar, se adiantaram entre as árvores. Na janela iluminada da casa o vulto de mulher continuava a andar. João Grande disse baixinho:

– Tenho pena dela.

– Quem manda deitar com outros... Perto da casa o negro ficou para transmitir o aviso do Gato se viesse alguém. Tinham assovios especiais para estes casos. Pedro Bala rodeou a casa, chegou à cozinha.A porta estava aberta, como também a do quarto sobre a garagem. Porém, antes de subir a escada que dava para o quarto, Pedro espiou pela porta da cozinha. Na copa havia luz e um homem jogava paciência. “Deve ser o tal empregado”, pensou Pedro e rápido se afastou para a escada da garagem. Subiu de quatro, entrou no quarto do homem.Não havia luz.

Pedro fechou a porta, acendeu um fósforo. Havia apenas uma cama, um baú e um cabide na parede. O fósforo se apagou, mas Pedro já estava em cima da cama, que co toda com as mãos. Depois viu embaixo do colchão. Tampouco nada. Desceu então da cama, se aproximou, sem fazer ruído, do baú. Suspendeu a tampa, acendeu um fósforo que prendeu nos dentes. Remexeu a roupa com cuidado, não havia nada.

Cuspiu o fósforo depois se lembrou que o homem podia não fumar e então o recolheu ao bolso e foi até o cabide. Nada nos bolsos da roupa ali dependurada Pedro Bala acendeu outro fósforo, mirou todo o quarto:

– Com certeza está com o homem. Agora é que vão ser elas.

Abriu a porta do quarto, desceu as escadas. Chegou na porta da cozinha, o homem ainda estava sentado. Então Pedro Bala reparou que ele estava sentado em cima do embrulho. Aparecia uma ponta sob a perna do homem. Pedro pensou que tudo

estava perdido. Como iria ele tirar o embrulho de baixo da perna do homem? Saiu da porta da cozinha, foi andando para onde estava o Grande. Só se ele e o Grande atacassem o homem. Mas aí haveria gritaria, todo mundo saberia do roubo. E o senhor que os tinha empregado não queria saber disso. De repente teve uma idéia.

Chegou perto de onde tinha deixado o Grande, assoviou baixinho. João Grande apareceu logo. Pedro falou em voz muito baixa:

– Olha, Grande, o tal empregado tá sentado em riba do embrulho. Tu vai chegar na porta da rua, apertar a campainha e sumir depois. É pro homem se levantar e eu abafar o embrulho. Mas dá o suíte logo pro homem não te ver, pensar que foi sonho.

Deixa passar o tempo de eu chegar na cozinha.

Voltou rápido para a porta da cozinha. Dai a um minuto a campainha soou. O

empregado levantou-se às pressas, abotoou o paletó e se dirigiu para a frente da casa pelo corredor, onde acendeu uma luz. Pedro Bala penetrou na copa, trocou os pacotes e abriu para os lados da chácara. Saltou o muro, assoviou para o Gato e João Grande. O Gato veio logo. Mas João Grande não apareceu. Andaram de um lado para outro e o negro não chegava. Pedro começava a ficar impaciente pensando que o empregado podia ter surpreendido João Grande e agora estar atracado com ele.

Mas quando ele passara por aqueles lados não havia escutado nenhum ruído... Disse:

– Se ele demorar, a gente entra.

Assoviaram novamente, não tiveram resposta. Pedro Bala resolveu:

– Vamos entrar de novo...

Mas ouviram o assovio de João Grande, que não tardou a estar ao lado deles. Pedro perguntou:

– Onde tu te meteu?

O Gato tinha pegado o cachorro pela coleira e o punha para dentro do portão.

Tiraram o cordel do ferrolho e desapareceram pelo outro lado da rua. Aí o Grande aplicou:

– Na hora que meti o dedão na campainha entonce a dama lá em cima ficou muito assustada. Pegou, abriu a janela, parecia que ia se atirar mesmo.Espiava que fazia medo. Tava mesmo chorando. Entonces eu tava com pena e trepei pela bica pra dizer a ela que não chorasse mais, que não tinha mais de quê. Que agente tinha abafado os papéis. E como tive que aplicar tudo a ela, tive que demorar...

O Gato perguntou muito curioso:

– Era boa, era?

– Era boa, sim. Passou a mão na minha cabeça, depois me disse que muito obrigado, que Deus ia me ajudar.

– Deixa de ser burro, negro. Eu tava perguntando se era boa mas pra cama. Se tu viu o coxame...

O negro não respondeu. Um automóvel entrava pela rua. Pedro Bala bateu no ombro do negro e João Grande sabia que o chefe estava aprovando o que ele fizera. Então seu rosto se abriu de satisfação e murmurou:

– Eu só queria ver acara do galego quando o patrão abrir o pacote não encontrar o que esperavam.

E, já em outra rua, os três soltaram a larga, livre e ruidosa. gargalhada dos Capitães da Areia, que era como um hino do povo da Bahia.

As luzes do carrossel

O Grande Japonês não era senão um pequeno carrossel nacional, que vinha de uma triste peregrinação pelas paradas cidades do interior naqueles meses de inverno, quando as chuvas são longas e o Natal está muito distante ainda. De tão desbotada que estava a tinta, tinta que antigamente fora azul e vermelha e agora o azul era um branco sujo e o vermelho um quase cor-de-rosa, e de tantos pedaços que faltavam em certos cavalos e em certos bancos, Nhozinho França resolveu não armá-lo numa das praças centrais da cidade e sim em Itapagipe. Ali as famílias não são tão ricas, há muitas ruas só de operários e as crianças pobres saberiam gostar do velho carrossel desbotado. O pano tinha muitos buracos também, além de um rasgão enorme que fazia o carrossel depender da chuva. Já fora belo, fora mesmo o orgulho da meninada de Maceió noutros tempos. Ficava então ao lado de uma roda-gigante e de uma sombrinha, sempre na mesma praça, e nos domingos e feriados as crianças ricas, vestidas de marinheiro ou de pequeno lorde inglês, as meninas de holandesa ou de finos vestidos de seda, vinham se aboletar nos cavalos preferidos, indo os menores nos bancos com as aias. Os pais iam para a roda-gigante, outros preferiam a sombrinha onde podiam empurrar as mulheres, tocando muitas vezes nas coxas e nas nádegas.O parque de Nhozinho França era naquele tempo a alegria da cidade. E, mais que tudo, o carrossel dava dinheiro, rodando incansavelmente com as suas luzes de todas as cores. Nhozinho achava a vida boa, as mulheres belas, os homens amáveis para com ele, mas achava que a bebida era boa também, fazia os homens mais amáveis e as mulheres mais belas. E bebeu assim primeiro a sombrinha, depois a roda-gigante. Depois, como não queria se separar do carrossel, ao qual tinha um pegadio especial, o desarmou uma noite com o auxílio de amigos e começou a peregrinar nas cidades de Alagoas e Sergipe. Enquanto isto, os credores o xingavam de quanto nome feio conheciam.Andou muito Nhozinho França com o seu carrossel.

Depois de percorrer todas as cidadezinhas dos dois estados, de se embriagar em

todos os seus bares, penetrou no estado da Bahia e até para o bando de Lampião e lê deu uma função. Estava numa pobre vila do sertão e não lhe faltava o dinheiro apenas para o transporte do seu carrossel. Faltava para o miserável hotel onde se hospedara e que era o único da vila, e também o trago de pinga, para a cerveja, que não era gelada ali, assim mesmo ele gostava. O carrossel armado no capim da praça da Matriz estava parado fazia uma semana. Nhozinho França esperava a noite de sábado e a tarde de domingo para ver se fazia algum cobre para arribar para um lugar melhor. Mas na sexta-feira Lampião entrou na vila com vinte e dois homens e então o carrossel teve muito que trabalhar. Como as crianças, os grandes cangaceiros, homens que tinham vinte e trinta mortes, acharam belo o carrossel, acharam que mirar suas luzes rodando, ouvir a música velhíssima da sua pianola e montar naqueles estropiados cavalos de pau era a maior felicidade. E o carrossel de Nhozinho França salvou a pequena vila de ser saqueada, as moças de serem defloradas, os homens de serem mortos. Só mesmo os dois soldados da polícia baiana que lustravam as botas na frente do posto policial foram fuzilados pelos cangaceiros, assim mesmo antes que eles vissem o carrossel armado na praça da Matriz. Porque talvez ai aos soldados da polícia baiana Lampião perdoasse nessa noite de suprema felicidade para o bando de cangaceiros. Então eles foram como crianças, gozaram daquela felicidade que nunca haviam gozado na sua meninice de filhos de camponeses: montar e rodar num cavalo de madeira de um carrossel, onde havia música de uma pianola e onde as luzes eram de todas as cores: azuis, verdes, amarelas, roxas vermelhas como o sangue que sai do corpo dos assassinados.

Isso mesmo contou Nhozinho a Volta Seca que ficou excitadíssimo e ao Sem-Pernas naquela tarde em que os encontrou na Porta do Mar e os convidou para que o ajudassem no serviço de carrossel durante os dias que estivesse armado na Bahia, em Itapagipe. Não podia marcar ordenado, mas talvez desse para tirar cada um uns cinco mil-réis por noite. E quando Volta Seca mostrou suas habilidades em imitar animais os mais vários, Nhozinho França se entusiasmou por completo, mandou baixar mais uma garrafa de cerveja declarou que Volta Seca ficaria na porta

chamando o público, enquanto o Sem-Pernas o ajudaria com as máquinas e tomaria conta pianola. Ele mesmo venderia as entradas enquanto o carrossel estivesse parado. Quando estivesse rodando, Volta Seca o faria. E de quando em vez, disse piscando o olho, um sai pra tomar uma pinga enquanto o outro faz o serviço de dois.

Volta Seca e o Sem-Pernas nunca haviam acolhido uma com tanto entusiasmo. Eles muitas vezes já tinham visto um carrossel mas quase sempre ouviam de longe, cercado de mistério, cavalgadas seus rápidos ginetes por meninos ricos e choraminguentos. O Se Pernas já tinha mesmo certo dia em que penetrou num Parque de Diversões armado no Passeio Público chegado a comprar entrada para um, mas o guarda o expulsou do recinto porque ele estava vestido de farrapos.

Depois o bilheteiro não quis lhe devolver o bilhete da entrada, o que fez com que o Sem-Pernas metesse as mãos na gaveta da bilheteria, que estava aberta, abafasse o troco, e tivesse que desaparecer do Passeio Público de uma maneira muito rápida, enquanto em todo o Parque se ouviam os gritos de: Ladrão!, ladrão! Houve uma tremenda confusão, enquanto o Sem-Pernas descia muito calmamente a Gamboa de Cima, levando nos bolsos pelo menos cinco vezes o que tinha pago pela entrada.

Mas o Sem-Pernas preferiria, sem dúvida, ter rodado no carrossel, montado naquele fantástico cavalo de cabeça de dragão, que era sem dúvida a coisa mais estranha e tentadora na maravilha que era o carrossel para os seus olhos. Criou ainda mais ódio aos guardas e maior amor aos carrosséis distantes. E agora, de repente, vinha um homem que pagava cerveja e fazia o milagre de o chamar para viver uns dias junto a um verdadeiro carrossel, movendo com ele, montando nos seus cavalos, vendo de perto rodarem as luzes de todas as cores. E para o Sem-Pernas, Nhozinho França não era o bêbado que estava em sua frente na pobre mesa da Porta do Mar. Para seus olhos era um ser extraordinário, algo como Deus, para quem rezava Pirulito, algo como Xangô, que era o santo de João Grande e do Querido-de-Deus. Porque nem o padre José Pedro e nem mesmo a mãe-de-santo Don ’ Aninha seriam capazes de realizar aquele milagre. Nas noites da Bahia, numa praça de Itapagipe, as luzes do carrossel girariam loucamente movimentadas pelo Sem-Pernas.Era como num

sonho, sonho muito diverso dos que o Sem-Pernas costumava ter nas suas noites angustiosas. E pela primeira vez seus olhos sentiram-se úmidos de lágrimas que não eram causadas pela dor ou pela raiva. E seus olhos úmidos miravam Nhozinho França como a um ídolo. Por ele até a garganta de um homem o Sem-Pernas abriria com a navalha que traz entre a calça e o velho colete preto que lhe serve de paletó.

– É uma beleza – disse Pedro Bala olhando o velho carrossel armado. E João Grande abria os olhos para ver melhor. Penduradas estavam as lâmpadas azuis, verdes, amarelas, roxas, vermelhas.

É velho e desbotado o carrossel de Nhozinho França. Mas tem a sua beleza. Talvez esteja nas lâmpadas, ou na música da pianola velhas valsas de perdido tempo, ou talvez nos ginetes de pau. Entre eles tem um pato que é para sentar dentro os mais pequenos.. Tem a sua beleza, sim, porque a opinião unânime dos Capitães da Areia é que ele é maravilhoso. Que importa que seja velho, roto e de cores apagadas se agrada às crianças?

Foi uma surpresa quase incrível quando naquela noite o Sem-Pernas chegou ao trapiche dizendo que ele e Volta Seca iam trabalhar uns dias num carrossel. Muitos não acreditaram, pensaram que fosse mais uma pilhéria do Sem-Pernas. Então iam perguntar a Volta Seca que, como sempre, estava metido no seu canto sem falar, examinando um revólver que furtara numa casa de armas. Volta Seca fazia que sim com a cabeça e por vezes dizia:– Lampião já rodou nele, Lampião é meu padrim... O

Sem-Pernas convidou a todos para irem ver o carrossel na outra noite, quando o acabariam de armar. E saiu para encontrar Nhozinho – França. Naquele momento todos os pequenos corações que pulsavam no trapiche invejaram a suprema felicidade do Sem-Pernas, piano mesmo Pirulito, que tinha quadros de santos na sua parede, Volta mesmo João Grande, que nessa noite iria com o Querido-de-Deus ao candomblé de Procópio, no Matatu, até mesmo o Professor, que lia livros, e quem sabe se também Pedro Bala, que nunca tivera inveja de nenhum porque era o chefe de todos? Todos o invejaram, sim. Como invejaram Volta Seca, que no seu canto, o

cabelo mestiço e despenteado, os olhos apertados e a boca rasgada naquele rictus raiva, apontava o revólver ora para um dos meninos, ora para um todos que passava, ora para as estrelas, que eram muitas no céu.

Na outra noite foram todos com o Sem-Pernas e Volta Seca e tinham passado o dia fora, ajudando Nhozinho a armar o carrossel ver o carrossel armado. E estavam parados diante dele, extasiados beleza, as bocas abertas de admiração. O Sem-Pernas mostrava tu Volta Seca levava um por um para mostrar o cavalo que tinha s cavalgado por seu padrinho Virgulino Ferreira Lampião. Eram quase cem crianças olhando o velho carrossel de Nhozinho França, estas horas estava encornado num pifão tremendo na Porta do Mar.

O Sem-Pernas mostrou a máquina um pequeno motor que falhava muito com um orgulho de proprietário. Volta Seca não se desprendia do cavalo onde rodara Lampião.O Sem-Pernas estava muito cuidadoso do carrossel e não deixava que eles o tocassem, que bulissem em nada.

Foi quando o Professor perguntou:

– Tu já sabe mover com as máquinas?

– Amanhã é que vou saber... – disse o Sem-Pernas com um certo desgosto. –

Amanhã seu Nhozinho vai me ensinar.

– Então amanhã, quando acabar a função, tu pode botar ele pra rodar só com a gente.

Tu bota as coisas pra andar, a gente se aboleta.

Pedro Bala apoiou a idéia com entusiasmo. Os outros esperavam a resposta do Sem-Pernas ansiosos. O Sem-Pernas disse que sim, e então muitos bateram palmas, outros gritaram. Foi quando Volta Seca deixou o cavalo onde montara Lampião e veio para eles:

– Quer ver uma coisa bonita?

Todos queriam. O sertanejo trepou no carrossel, deu corda na pianola e começou a música de uma valsa antiga. O rosto sombrio de Volta Seca se abria num sorriso.Espiava a pianola, espiava os meninos envoltos em alegria. Escutavam religiosamente aquela música que saía do bojo do carrossel na magia da noite da cidade da Bahia só para ai ouvidos aventureiros e pobres dos Capitães da Areia.

Todos estavam silenciosos. Um operário que vinha pela rua, vendo a aglomeração de meninos na praça, veio para o lado deles. E ficou também parado, escutando a velha música. Então a luz da lua se estendeu sobre todos, as estrelas brilharam ainda mais no céu, o mar ficou de todo manso talvez que Yemanjá tivesse vindo também ouvir a música e a cidade era como que um grande carrossel onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia. Neste momento de música eles sentiram-se donos da cidade. E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música. Volta Seca não pensava com certeza em Lampião neste momento. Pedro Bala não pensava em ser um dia o chefe de todos os malandros da cidade. O Sem-Pernas em se jogar no mar, onde os sonhos são todos belos. Porque a música saía do bojo do velho carrossel só para eles e para o operário que parara. E era uma unidade valsa velha e triste, já esquecida por todos os homens da cidade.

Desemboca gente de todas asmas. E noite de sábado, amanhã os homens não irão para o trabalho. Podem demorar na rua essa noite. Muitos preferiram ir para os bares, a Porta do Mar está cheia, mas co que tinham filhos vieram com eles para a praça, que é mal iluminada. Em compensação aí estão as luzes do carrossel que rodam. As crianças olham para elas e batem palmas. Em frente à bilheteria Volta Seca imita vozes de animais e chama o público. Leva uma cartucheira como se estivesse no sertão. Nhozinho França achou que isto chamaria a atenção do povo e Volta Seca parece mesmo um cangaceiro com o chapéu de couro e a cartucheira atravessada. E imita animais até que se reúnam homens, mulheres e crianças na sua

frente. Então oferece entradas, que as crianças compram. Vai uma alegria por toda a praça. As luzes do carrossel alegram a todos. No centro, agachado, o Sem-Pernas ajuda Nhozinho França a botar o motor para trabalhar. E carrossel gira, carregado de meninos, a pianola toca suas velhas valsas, Volta Seca vende entradas.

Na praça, casais de namorados passeiam. Mães de família compram picolés e sorvetes, um poeta sentado perto do mar faz um poema sobre as luzes do carrossel e a alegria das crianças. O carrossel ilumina toda a praça e todos os corações. A cada momento desemboca das ruas e dos becos. Volta Seca imita os animais, vestido de cangaceiro. Quando o carrossel pára de girar, os meninos o invadem, exibindo o bilhete de ingresso, e é difícil conte-los. Quando um encontra mais lugar, fica comum rosto magoado de desilusão e impaciente a sua vez. E quando o carrossel pára, os que vão nele querem saltar, é preciso que o Sem-Pernas venha e diga:

– Pula fora! Pula fora! Ou então compra outra entrada.

Só assim deixam os velhos cavalos, que nunca se cansam da corrida. Outros cavalgam os ginetes e a corrida recomeça, as girando, todas as cores fazendo uma cor única e estranha, a pi tocando sua antiga música. Também vão casais de namorados bancos e enquanto gira o carrossel murmuram palavras de amor. Há mesmo quem troque um beijo na corrida, quando o motor falha e as luzes se apagam. Então Nhozinho França e o Sem-Pernas se debruçam sobre o motor e examinam o defeito até a corrida recomeçar, abafando os protestos dos meninos. O

Sem-Pernas já aprendeu todos os mistérios do motor.

Certa hora Nhozinho França manda que o Sem-Pernas vá substituir Volta Seca na venda de bilhetes. E manda que Volta Seca vá andar no carrossel. E o menino toma o cavalo que serviu a Lampião. E enquanto dura a corrida, vai pulando como se cavalgasse um verdadeiro cavalo. E faz movimentos com o dedo, como se atirasse nos que vão na sua frente, e na sua imaginação os vê cair banhados em sangue, sob os tiros da sua repetição. E o cavalo corre e cada vez com mais, e ele mata a todos, porque são todos soldados ou fazendeiros ricos. Depois possui nos bancos a todas as

mulheres, saqueia vilas, cidades, tens de ferro, montado no seu cavalo, armado com seu rifle.

Depois vai o Sem-Pernas. Vai calado, uma estranha comoção o possui. Vai como um crente para uma missa, um amante para o seio da mulher amada, um suicida para a morte. Vai pálido e coxeia. Monta um cavalo azul que tem estrelas pintadas no lombo de madeira. Os lábios estão apertados, seus ouvidos não ouvem a música da pianola só vê as luzes que giram com ele e prende em si a certeza de que está num carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e uma casa e quem os beije e quem os ame. Pensa que é um deles e fecha os olhos para guardar melhor esta certeza. Já Se vê os soldados que o surraram, o homem de colete queria. Volta Seca os matou na sua corrida. O Sem-Pernas vai teso no seu cavalo. É como se corresse sobre o mar para as estrelas, na mais maravilhosa viagem do mundo.Uma viagem como o Professor nunca leu nem inventou. Seu coração bate tanto, tanto, que ele o aperta com a mão.

Continuar: parte 3 de 4