Capitães de Areia
mostrava um laço preto no braço, laço…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Nas casas pobres as mulheres choravam. De medo do alastrim, de medo do lazareto.
Almiro foi o primeiro dos Capitães da Areia que caiu com alastrim. Uma noite, quando o negrinho Barandão o procurou no seu canto para fazer o amor aquele amor que Pedro Bala proibira no trapiche, Almiro lhe disse:
– Tou com uma coceira danada.
Mostrou os braços já cheios de bolhas a Barandão:
– Parece que também tou queimando de febre.
Barandão era um negrinho corajoso, todo o grupo sabia disto. Mas da bexiga, da moléstia de Omolu, Barandão tinha um medo doido, um medo que muitas raças africanas tinham acumulado dentro dele. E sem se preocupar que descobrissem suas relações sexuais com Almiro saiu gritando entre os grupos:
– Almiro tá com bexiga... Gentes, Almiro tá com bexiga.
Os meninos foram se levantando aos poucos e se afastando receosos do lugar onde estava Almiro. Este começou a soluçar. Pedro Bala não tinha chegado ainda.
Professor, o Gato e João Grande também andavam por fora. Daí ter sido o Sem-Pernas quem domino a situação. O Sem-Pernas nestes últimos tempos andava cada vez mais arredio, quase não falava com ninguém. Fazia espantosas burlas de todo mundo, por tudo puxava uma briga, só respeitava mesmo Pedro Bala. Pirulito rezava por ele mais que por nenhum, e por vezes pensava que Satanás tinha se metido no corpo do Sem-Pernas. O padre José Pedro era paciente com ele, mas também do padre o Sem-Pernas se afastara. Não queria saber de ninguém, conversa em que ele se metia era conversa que terminava em briga.
Quando o Sem-Pernas passou entre os grupos, todos se afastaram. Quase o temiam tanto quanto à bexiga. O Sem-Pernas tinha arranjado por aqueles dias um cachorro ao qual se dedicava inteiramente. A princípio, quando o cão aparecera no trapiche, esfomeado, Sem-Pernas o maltratou quanto pôde. Mas terminou por acarinhá-lo e tomar para si. Agora como que vivia inteiramente para o cachorro. E por isso voltou só para levar o cão, que o acompanhara, para longe de Almiro. Depois andou
novamente para onde estavam os menino. Estes cercavam Almiro de longe.
Apontavam as bolhas que apareciam no peito do menino. Antes de tudo, Sem-Pernas falou com sua voz fanhosa para Barandão:
– Agora tu vai ter bexiga na piroca, negro burro.
Barandão o olhou assustado. Depois, Sem-Pernas falou para todos, apontando Almiro com o dedo:
– Ninguém aqui vai ficar bexiguento só por causa deste freso.
Todos o olhavam, esperando o que ele diria. Almiro soluçava, as mãos no rosto, encolhido na parede. Sem-Pernas falava:
– Ele vai sair daqui agorinha mesmo. Vai se meter em qualquer canto da rua até que os mata-cachorro da saúde pegue ele e leve pro lazareto.
– Não. Não rugiu Almiro.
– Vai, sim fez Sem-Pernas. – A gente não vai chamar os mata-cachorro aqui pra toda policia saber onde a gente se acoita. Tu vai por bem ou por mal e leva teus trapos.
Vai pro inferno, que a gente não vai ficar com bexiga por você. Por amor de você, xibungo...
Almiro fazia que não, que não, e seus soluços enchiam o trapiche. 0 negrinho Barandão tremia, Pirulito clamava que era castigo de Deus por causa dos pecados deles, os outros não sabiam que fazer. Sem-Pernas se preparava para forçar sua idéia. Pirulito se abraçou com um quadro de Nossa Senhora e disse:
– Vamos rezar todo mundo, que isto é um castigo de Deus pros pecados da gente. A gente peca muito, Deus tá castigando. Vamos pedir perdão... e sua voz era como um clamor, soava anunciando vinganças.
Alguns juntaram as mãos e Pirulito chegou a iniciar um padre-nosso. Mas Sem-Pernas o afastou com uma das mãos:
– Sai, sacrista...
Pirulito ficou rezando em voz baixa ainda atracado com o santo. Parecia um quadro estranho. Ao fundo, Almiro soluçava e dizia que não. Pirulito rezava, os outros estavam indecisos, não sabiam o que fazer. Barandão tremia de medo, pensando que estava contagiado. Sem-Pernas voltou a falar:
– Gente, se ele não quiser sair, a gente bota ele pra fora debaixo de porrada. Senão, tudo vai morrer de bexiga, tudo... Vocês não vê, desgraçados? A gente bota ele pra fora até uma rua onde levem ele pro lazareto.
– Não. Não fazia Almiro. – Pelo amor de Deus.
– Isso é castigo... – fez Pirulito.
– Cala a boca, filho de padre o Sem-Pernas continuava. – Vamos levar ele, gente, já que ele não quer ir por bem.
Como via que os outros ainda estavam irresolutos, marchou para o lado de Almiro e estendeu o pé para lhe dar uma pancada:
– Assim tu vai embora, bexiguento.
Almiro se encolheu mais:
– Não. Tu não pode fazer isso. Eu sou um do grupo. Espera Bala chegar.
– É castigo... É castigo... – a voz de Pirulito ainda irritou mais o Sem-Pernas, que descarregou um pontapé em Almiro.
– Dá o fora, bexiguento. Dá o fora, fresco.
Mas neste instante uma mão o pegou e o sacudiu longe. Volta Seca se plantou entre Almiro e o Sem-Pernas. O mulato levava um revólver na mão e os seus olhos fuzilavam:
– Juro que tem bala e que como um que toque em Almiro – olhou para todos com sua cara sombria.
– Que é que tu tem que fazer aqui, cangaceiro? – Sem-Pernas queria recuperar o domínio da situação.
– Ele não é um soldado de policia pra gente tratar ele assim. É um do grupo, ele falou direito. Vamos esperar Pedro Bala chegar. Ele resolve. E se alguém tocar nele eu queimo igual que fosse um macaco da polícia – e segurava o revólver.Os outros se afastaram aos poucos. Sem-Pernas cuspiu:
– Tudo é uns covarde... – e seguiu para onde o cachorro o esperava. Se deitou ao seu lado e os que ficaram mais perto dele a ouviam murmurar: covardes, covardes.
Volta Seca ficou diante de Almiro com o revólver na mão. Almiro soluçava, e mais alto gritava quando olhava as bolhas que se estendiam pelo seu corpo. Pirulito rezava, pedia a Deus que voltasse a ser suprema bondade, não fosse suprema justiça.
Depois Pirulito se lembrou de chamar o padre José Pedro. Escapuliu pela porta do trapiche, se dirigiu à casa do padre. Mas pelo caminho ainda ia rezando, os olhos dilatados cheios do temor de Deus.
Pedro Bala chegou acompanhado do Professor e de João Grande. Voltavam de um negócio que tinham resolvido bem e comentavam o sucesso entre gargalhadas. O
Gato tinha ido com eles, mas não voltara. Ficara em casa de Dalva. Os três entraram no trapiche e a primeira coisa que enxergaram foi Volta Seca com o revólver na mão.
– Que é isso? – perguntou Pedro Bala.
Sem-Pernas se levantou do seu canto, o cachorro o acompanhou:
– Este besta metido a cangaceiro não quer deixar que a gente faça o que resolveu e apontava Almiro. – Aquele fresco tá com a bexiga...
João Grande se encolheu. Pedro Bala olhou Almiro, o Professor andou para onde esta Volta Seca. O mulato não largava o revólver. Pedro perguntou então:
– Como foi, Volta Seca?
– Este tá com a maldita... – mostrou o menino que soluçava. – E aquele macaco mesmo que um soldado quis botar ele no meio da rua pra assistência levar ele lazareto. Eu não tava me metendo. Mas ele não quis ir. Aí eles todos juntos – cuspiu
– quis dar nele pra obrigar ele ir. Foi quando ele falou que era do grupo, que eles esperasse que tu chegasse. Eu achei que ele falou direito, fiquei do lado dele... Ele não é um soldado de polícia pra tratar ele assim...
– Tu fez direito, Volta Seca – Pedro Bala bateu no ombro do mulato. Depois olhou Almiro:
– Tu tá mesmo com ela?
O menino inclinou a cabeça e rebentou em soluços. Sem-Pernas gritou:
– Só tem mesmo que fazer o que eu disse. Não pode chamar a assistência aqui que todo mundo fica sabendo onde a gente se acoita. Só tem mesmo que deixar ele numa rua onde passe gente. Vamos fazer, tu queira ou não...
Pedro Bala gritou:
– Quem é o chefe daqui, é tu ou eu? Tu quer que eu te rebente?
Sem-Pernas saiu murmurando. O cachorro veio lamber seus pés, mas ele deu-lhe um pontapé. Logo depois se arrependeu, porém, e começou a acarinhar o cão, enquanto espiava os outros.
Pedro Bala andou até Almiro. João Grande queria vencer o medo e ir para junto de Almiro também. Mas o medo da bexiga era uma coisa enorme nele, era quase maior que sua bondade. Só Professor estava junto de Pedro Bala. Este disse a Almiro: Almiro mostrou os braços cheios de bolhas. Professor disse:
– Deixa eu ver...
Almiro mostrou os braços cheios de bolhas. Professor disse:
– É alastrim. Bexiga negra fica logo preta...
Pedro Bala ficou pensando. Ia um silêncio pelo trapiche. João Grande conseguiu vencer o medo e se aproximou. Mas ia com passo arrastados. Parecia violentar sua própria vontade para chegar até junto de Almiro. Foi quando entrou Pirulito acompanhado do padre José Pedro. O padre deu boas noites e perguntou quem era o doente Pirulito apontou Almiro, o padre se dirigiu para ele, chegou perto, pegou no braço, examinou. Depois disse a Pedro Bala:
– É preciso levar para a assistência...
– Pro lazareto?
– Sim.
– Não, não vai, não fez Pedro Bala.
O Sem-Pernas se levantou outra vez, veio para junto deles:
– Tou dizendo isso há muito tempo. Tem que ir pro lazareto – Não vai repetiu Pedro Bala.
– Por que, meu filho? perguntou o padre José Pedro.
– Tu sabe, padre, que ninguém volta do lazareto. Ninguém volta. E ele é um da gente. um do grupo. A gente não pode fazer isso...
– Mas é a lei, filho.
– Morrer?
O padre mirou Pedro Bala com os olhos abertos. Aquele meninos viviam a lhe dar surpresas, sempre mais adiantados em inteligência do que ele pensava. E, no fundo, o padre sabia que eles tinham razão.
– Não vai, não, padre... – afirmou Pedro Bala.
– Então que é que você vai fazer, meu filho?
– Tratar dele aqui...
– Mas como?
– Chamo Don ’ Aninha...
– Mas ela não sabe tratar de ninguém.
Pedro Bala ficou confuso. Passado um momento, disse:
– É melhor que morra aqui que no lazareto.
Sem-Pernas se meteu de novo:
– Vai pegar bexiga em todo mundo... – se dirigia aos outros.
– Vai pegar em todo mundo. A gente não pode deixar.
– Cala a boca, desgraçado, senão eu te arrombo disse Pedro.
Mas o padre interveio:
– Ele tem razão, Bala.
– Não vai pro lazareto, padre. O senhor é bom, bem sabe que ele não pode ir. Lá é uma miséria, tudo morre.
O padre bem sabia que era verdade, calou. Foi quando João Grande falou:
– Mas ele não tem casa?
– Quem?
– Almiro. Tem sim.
– Não quero ir para lá... – soluçou Almiro. – Eu tinha fugido.
Pedro Bala se aproximou dele e falou com voz muito mansa:
– Deixa estar, Almiro. Primeiro eu vou lá, falo com tua mãe. Depois a gente leva você. Tu lá fica bem, não tem que ir pro lazareto. E o padre arranja um médico pra cuidar de tu, não arranja, padre?
– Levo, sim prometeu o padre José Pedro.
Havia uma lei que obrigava os cidadãos a denunciarem à Saúde Pública os casos de varíola que conhecessem, para o imediato recolhimento dos variolosos aos lazaretos.
O padre José Pedro conhecia a lei, mas, mais uma vez, ficou com os Capitães da Areia contra a lei. Pedro Bala foi à casa de Almiro, a mãe do menino ficou feito louca, era uma lavadeira amigada com um pequeno lavrador além da Cidade de Palha. Foram buscar Almiro e o padre o visitou e depois levou um médico. Mas acontece que o médico estava cavando um lugar na Saúde Pública e denunciou o caso de varíola. Almiro foi mesmo levado para o lazareto e o padre ficou em maus lençóis, pois o médico que se dizia livre-pensador, mas em verdade era espírita denunciou o padre também como encobridor do caso. As autoridades não agiram contra o padre, mas se queixaram ao arcebispado. E o padre José Pedro foi chamado à presença do Cônego Secretário do Arcebispado.Ficou amedrontado.
Pesadas cortinas, cadeiras de alto espaldar, um retrato de Santo Inácio numa parede.
Na outra, um crucifixo. Uma grande mesa, custosos tapetes. O padre José Pedro entrou na sala com o coração batendo muito. Não tinha absoluta certeza do motivo por que recebera aquela comunicação do Cônego Secretário do Arcebispado para comparecer ao Palácio Episcopal. No primeiro momento lembrou-se da paróquia que esperava inutilmente havia dois anos. Seria sua paróquia? Sorriu com alegria.
Então, sim, iria ser um verdadeiro sacerdote, iria ter almas entregues a si, à sua guia.
Serviria a Deus. Mas certa tristeza o invadiu: e suas crianças, as crianças abandonadas das ruas da Bahia, principalmente os Capitães da Areia, como ficariam? Ele era um dos seus poucos amigos. Nunca um outro padre se voltara para aqueles meninos. Se contentavam em ir celebrar de quando em vez uma missa no reformatório, o que os tornava mais antipáticos ao meninos porque atrasava o magro café. O padre José Pedro, enquanto esperava sua paróquia, se dedicara aos meninos abandonados.Não podia dizer que os resultados tivessem sido grandes. Mas era preciso compreender que ele estava fazendo uma experiência, que muita vezes tinha
que voltar atrás.Fazia pouco tempo que o padre captar de todo a confiança dos meninos. Estes já o tratavam como amigo, mesmo quando não o levavam a sério como sacerdote. O padre tiver de passar por cima de muita coisa para conseguir a confiança de Capitães da Areia. Mas José Pedro pensava que só Pirulito e a sua vocação pagavam a pena. O padre tivera que fazer muita coisa contra o que lhe haviam ensinado. Pactuara mesmo com coisa que a Igreja condenaria. Mas era o único jeito... Aí o padre lembrou-seque bem podia ser por causa daquilo que o haviam chamado. Devia ter sido por aquilo. Muitas beatas já murmuravam por causa das suas relações com as crianças que viviam do furto. E havia aquele caso de Almiro. Devia ser por aquilo. O primeiro sentimento do padre José Pedro quando descobriu o motivo da comunicação foi um grande temor. Ia ser castigado com certeza, perderia toda esperança de uma paróquia. E o padre José Pedro necessitava de uma paróquia. Sustentava uma mãe velha, uma irmã na Escola Normal. Logo depois pensou que muito possivelmente tudo o que fizera fora errado, seus superiores não aprovariam. E, no Seminário, lhe tinham ensinado a obedecer. Mas pensou nos meninos. Na sua memória passaram as figuras de Pirulito, Pedro Bala, Professor, Sem-Pernas, Boa-Vida, o Gato. Era preciso salvar aqueles pequeninos...
As crianças eram a maior ambição de Cristo. Devia se fazer tudo para salvar aquelas crianças. Não era culpa deles se estavam perdidos...
O Cônego entrou. Nos seus pensamentos o padre nem vira que muitos minutos de espera tinham se passado. Não viu tampouco quando o Cônego entrou com um passo manso.Era alto e muito magro, anguloso, com a batina muito limpa, os raros cabelos que lhe restavam muito bem penteados. Os lábios tinham uma linha dura.
Um rosário descia-lhe em torno ao pescoço. Se bem sua figura desse uma impressão de pureza, essa impressão não fazia seus traços mais doces. Não havia nenhuma simpatia humana na sua figura, nos seus traços duros. Como que a pureza era uma couraça que o afastava do mundo. Diziam que era inteligentíssimo, grande orador sacro, célebre pela rigidez dos seus costumes. Ali estava parado diante do padre José Pedro, olhando com olhos observadores a figura baixa do padre, a sua batina suja e
remendada em dois lugares, o seu ar de medo, a falta de inteligência que de mistura com a bondade se refletia na cara do padre. Estudou o padre uns poucos minutos. O
bastante para penetrar a fundo na alma sem complicações de José Pedro. Tossiu. O
padre o viu, levantou-se, beijou humildemente sua mão:
– Cônego...
– Sente-se, padre. Temos que conversar.
Olhava com os olhos sem expressão o padre. Sentou-se, cruzou as mãos com grande cuidado, afastou sua reluzente batina da batina suja do padre José Pedro. Sua voz contrastava com sua pessoa.
Podia-se dizer que era uma voz doce, quase feminina, se não fosse um acento de decisão que a cada passo surgia nela. O padre José Pedro baixou a cabeça e esperou que o Cônego falasse. Este começou:
– Este arcebispado tem graves queixas contra o senhor, padre.
Padre José Pedro quis figurar uma cara de quem não entendia. Mas a malícia era superior à sua inteligência e naquele momento ele pensava nos Capitães da Areia.O
Cônego sorriu ligeiramente.
– Creio que o senhor já sabe do que se trata...
O padre olhou com uns olhos abertos, mas logo baixou cabeça:
– Só se é as crianças...
– O pecador não pode esconder seu pecado, ele está visível na sua consciência... – e a voz do Cônego tinha perdido aquela nota de doçura.
O padre José Pedro ouviu com pavor. Era o que ele temia. Os seus superiores, aqueles que tinham inteligência para compreender os desejos de Deus, não estavam de acordo com os métodos que ele empregara junto aos Capitães da Areia. Vinha um temor de dentro dele, não propriamente um temor do Cônego, do arcebispo mas um temor de ter ofendido a Deus. E até suas mãos tremiam ligeiramente.
A voz do Cônego retomou sua doçura. Era como uma voz de mulher, doce e suave, mas que negava a um homem suas carícias:
– Têm-nos chegado bastantes queixas, padre José Pedro. O arcebispado tem fechado os olhos na esperança de que o senhor conhecesse seu erro e se emendasse...
Olhou o padre com olhos duros. José Pedro baixou a cabeça.
– Não faz muito tempo a viúva Santos queixou-se. O senhor ajudou uma corja de moleques, numa praça, a vaiá-la. Melhor, incitou os moleques a que a vaiassem...Que tem a dizer, padre?
– Não é verdade, Cônego.
– O senhor quer dizer que a viúva mentiu?
Fuzilou o padre com os olhos. Mas desta vez José Pedro não baixou a cabeça, apenas repetiu:
– O que ela disse não é verdade...
– O senhor sabe que a viúva Santos é uma das melhores protetoras da religião na Bahia? Não sabe dos donativos...
– Eu posso lhe narrar o fato...
– Não me interrompa... No Seminário não lhe ensinaram a ser humilde e respeitoso com seus superiores? Se bem o senhor não tivesse sido um aluno dos mais brilhantes...
O padre José Pedro sabia daquilo. Não era preciso que lhe repetissem que fora um dos piores alunos do Seminário em matéria de estudos. Por isso mesmo tinha tanto medo de ter errado, de ter ofendido a Deus. O Cônego devia ter razão, era muito mais inteligente, estava muito mais próximo de Deus, que é a suprema inteligência.
O Cônego fez um gesto com a mão, como quem relegava para longe aquele incidente da viúva, e a sua voz se fez doce novamente:
– Porém agora há coisa muito mais grave. Por sua causa, padre, este arcebispado foi procurado pelas autoridades. O senhor sabe o que fez? Sabe?
O padre não tentou negar:
– Foi o caso do menino com alastrim?
– Um menino com varíola, sim senhor. E o senhor escondeu o caso das autoridades sanitárias...
O padre José Pedro tinha confiança na bondade de Deus. Muitas vezes pensara que Deus aprovava o que ele estava fazendo. Agora pensava isto também. Aquele pensamento tinha enchido seu coração de repente. Levantou o busto, fixou a vista no Cônego:
– O senhor sabe o que é o leprosário?
O Cônego não respondeu.
– Pois é raro o homem que volta de lá. Quanto mais uma criança... Mandar uma criança para lá é cometer um assassinato...
– Isso não é conosco – respondeu o Cônego com voz inexpressiva mas cheia de decisão. – Isto é com a Saúde Pública. Mas o nosso papel é respeitar as leis.
– Mesmo quando atentam contra a lei da bondade de Deus?
– Que sabe o senhor da bondade de Deus? Que grande inteligência tem para saber dos desígnios de Deus? O demônio da vaidade o dominou?
O padre José Pedro tentou explicar:
– Eu sei que sou um padre ignorante e indigno de servir ao Senhor. Mas estas crianças nunca tinham tido ninguém que olhasse por elas. Eu tive a intenção...
– A boa intenção não desculpa os maus atos... – cortou o Cônego com voz muito doce ao enunciar a sentença.
O padre José Pedro se sentiu novamente em dúvida. Mas elevou o pensamento a Deus, voltou parte da sua confiança:
– Teriam sido maus? Eram uns meninos que nunca tinham ouvido falar seriamente de Deus. Misturam Deus com os santos dos negros, não têm nenhuma idéia de religião.Eu quis ver se salvava aquelas almas...
– Já lhe disse que suas intenções foram boas, mas suas ações não corresponderam às intenções...
– É que o senhor não conhece estes meninos... – o Cônego lhe deitou um olhar duro.
– São meninos iguais a homens. Vivem como homens, conhecem a vida toda, –
tudo...E preciso tratar com jeito, fazer concessões.
– Por isso o senhor faz o que eles querem...
– Às vezes tenho que fazer para conseguir um bom resultado...
– Compactua com os roubos, com os crimes destes perversos...
– Que culpa eles têm? – o padre se lembrava de João de Adão. – Quem cuida deles?
Quem os ensina? Quem os ajuda? Que carinho eles têm? – estava exaltado e o Cônego se afastou mais dele, enquanto o fitava com os olhinhos duros. – Roubam para comer porque todos estes ricos que têm para botar fora, para dar para as igrejas, não se lembram que existem crianças com fome... Que culpa...
– Cale-se – a voz do Cônego era cheia de autoridade. – Que, o visse falar diria que é um comunista que está falando. E não é difícil. No meio dessa gentalha o senhor deve ter aprendido as teorias deles...
O senhor é um comunista, um inimigo da Igreja...
O padre o olhou horrorizado. O Cônego levantou-se, estendeu a mão para o padre:
– Que Deus seja suficientemente bom para perdoar seus atos e suas palavras. O
senhor tem ofendido a Deus e à Igreja. Tem desonrado as vestes sacerdotais que leva.Violou as leis da Igreja e do Estado. Tem agido como um comunista. Por isso
nos vemos obrigados a não lhe dar tão cedo a paróquia que o senhor pediu. Vá agora sua voz voltava a ser doce, mas de uma doçura cheia de resolução, uma doçura que não admitia réplicas, penitencie-se dos seus pecados, dedique-se aos fiéis da igreja em que trabalha e esqueça essas idéias comunistas, senão, teremos que tomar medidas mais sérias. O senhor pensa que Deus aprova o que está fazendo?
Lembre-seque a sua inteligência é muito pequena, o senhor não pode penetrar nos desígnios de Deus...
Virou as costas ao padre e foi saindo. O padre José Pedro deu dois passos até ele, falou com voz estrangulada:
– Se tem um até que quer ser padre...
O Cônego voltou-se:
– A entrevista está terminada, padre José Pedro. Pode se retirar e que Deus o ajude a pensar melhor...
Mas o padre ainda ficou parado uns minutos, querendo dizer alguma coisa. Mas não dizia nada, estava como que apatetado, olhando a porta por onde o Cônego tinha saído. Naquele momento não podia pensar em nada. Estava cômico com a mão ainda estendida, o corpo meio caído para um lado, a batina suja e remendada, os olhos abertos, apavorados, os lábios tremendo como que querendo falar. As pesadas cortinas impediam que a luz entrasse na sala. O padre ainda se demorou na obscuridade.
Um comunista... Uma orquestra vagabunda, porém afinada, tocava uma velha valsa na rua:
“Fiquei sem alegria, senhor meu Deus...”
O padre José Pedro ia encostado à parede. O Cônego dissera que ele não podia compreender os desígnios de Deus. Não tinha inteligência, estava falando igual a um
comunista. Era aquela palavra que mais perseguia o padre. De todos os púlpitos todos os padres tinham falado contra aquela palavra. E agora ele... O Cônego era muito inteligente, estava próximo de Deus pela inteligência, era-lhe fácil ouvir a voz de Deus. Ele estava errado, perdera aqueles dois anos de tanto trabalho.Pensara levar tantas crianças a Deus... Crianças extraviadas... Será que elas tinham culpa? Deixai vir a mim as criancinhas... Cristo... Era uma figura radiosa e moça. Os sacerdotes também disseram que ele era um revolucionário. Ele queria as crianças... Ai de quem faça mal a uma criança... A viúva Santos era uma protetora da Igreja... Será que ela também ouvia a voz de Deus? Dois anos perdidos...Fazia concessões, sim, fazia. Senão, como tratar com os Capitães da Areia? Não eram crianças iguais às outras... Sabiam tudo, até os segredos do sexo. Eram como homens, se bem fossem crianças... Não era possível tratá-los como aos meninos que vão ao colégio dos jesuítas fazer a primeira comunhão. Aqueles têm mãe, pai, irmãs, padre s confessores e roupas e comida, têm tudo... Mas não seria ele quem podia dar lições ao Cônego... O Cônego sabia de tudo, era muito inteligente. Podia ouvira voz de Deus... Estava próximo de Deus... Não foi dos alunos mais brilhantes... Tinha sido dos piores... Deus não ia falar a um padre ignorante... Ouvia João de Adão. Um comunista como João de Adão... Mas os comunistas são maus, querem acabar tudo...
João de Adão era um homem bom... Um comunista... E Cristo? Não, não podia pensar que Cristo fosse um comunista... O Cônego devia entender melhor que um pobre padre de batina suja... O Cônego era inteligente e Deus é a suprema inteligência... Pirulito queria ser padre. Queria ser padre, sim, a sua vocação era verdadeira. Mas pecava todos os dias, roubava, assaltava. Não era culpa deles... Está falando como um comunista... Por que este vai num automóvel, fuma um charuto?
Falando como um comunista... O Cônego disse, será que Deus o perdoa?
O padre José Pedro vai encostado à parede. As últimas notas da orquestra distante chegam aos seus ouvidos. Os olhos do padre estão esbugalhados.
Sim, padre José Pedro, Deus às vezes fala aos mais ignorantes... Aos mais ignorantes... Ele era ignorante... Mas, Deus, ouvi... São uns pobres meninos... Que sabem eles do bem e do mal? Se ninguém nunca lhes ensinou nada? Nunca u ’ a mão de mãe nas suas cabeças. Uma palavra boa de um pai. Senhor, eles não sabem o que fazem...Por isso estive com eles, fiz como eles queriam muitas vezes...
O padre aperta as mãos, as eleva para o céu.
Será que um comunista age assim? Dar um pouco de conforto àquelas pequenas almas. Salvá-las, melhorar seus destinos... Antes dali só saíam ladrões, batedores de carteira, vigaristas, os melhores eram os malandros... A profissão mais digna...
Queria que agora saíssem homens para o trabalho, honestos, dignos... Tinha que ir aos poucos... Do reformatório saíam piores... Não é com castigo brutal, Deus, ouvi...
Lá o castigo é brutal... Só com paciência, com bondade... Cristo também pensava assim... Por que como um comunista?... Deus pode falar a um ignorante...
Abandonar as crianças? A paróquia está perdida... Mãe velha que soluçará... E a carreira da irmã na Escola Normal? Também ela quer ensinar a crianças... Mas serão outras crianças, crianças com livros, com pai, com mãe... Não serão iguais a estas abandonadas na rua, dormindo sob a lua, nas pontes, nos trapiches... Não pode abandoná-las. Com quem estará Deus? Com o Cônego ou com o pobre padre? A viúva... Não, Deus está com o padre... Está com o padre... Sou muito ignorante para ouvir a voz de Deus... Se esconde na porta de uma igreja. Mas por vezes Deus fala aos ignorantes... Sai da porta da igreja, continua a caminhada encostado na parede.
Continuará, sim. Se estiver errado, Deus o perdoará... As boas intenções não desculpam os maus atos. Mas Deus é a suprema bondade... Continuará... Os Capitães da Areia talvez não dêem só ladrões... E não seria uma grande alegria para Cristo?... Sim, Cristo sorri. É uma figura radiosa. Sorri o padre José Pedro.
Obrigado, meu Deus, obrigado.
O padre ajoelha na rua, levanta as mãos para o céu. Mas olha a gente que sorri. Se põe de pé espantado, salta num bonde cheio de vergonha.
Um homem comenta:
– Olha um padre bêbado. Que descarado...
Todos riem no ponto de bondes.
Boa-Vida meteu a unha negra, rasgou a bolha. Depois espiou o braço: estava cheio.
Por isso sentia tanto calor, um amolecimento no corpo. Era a febre da bexiga.A cidade pobre estava assolada de bexiga.
Os médicos diziam que a epidemia já estava declinando, mas ainda assim eram muitos os casos, todos os dias ia gente para o lazareto. Gente que não voltava, pensou Boa-Vida. Até Almiro, por cuja causa se armara tão grande barulho no trapiche, fora para o lazareto. E não voltara... Era um menino bonito. Havia quem dissesse que ele e Barandão... Mas não era ruim, não aborrecia ninguém. Sem-Perna armara um escândalo. Depois que soubera que ele morrera ficara ainda mais retraído, parecia o culpado da morte de Almiro. Não conversava com ninguém. Só com o cachorro que arranjara.
– Acaba doido... – pensou Boa-Vida.
Acendeu um cigarro. Andou para o trapiche. Só o Professor estava. Àquelas horas da tarde era difícil que estivesse alguém no trapiche. Professor viu quando ele entrou:
– Passa um cigarro, Boa-Vida.
Boa-Vida jogou um. Chegou no seu canto, fez uma trouxa com seus trapos.
Professor ficou espiando aquele movimento:
– Tu vai embora?
Boa-Vida andou até ele com a trouxa debaixo do braço:
– Tu não diz a ninguém... Só a Bala...
– Pra onde tu vai?
O mulato riu:
– Pro lazareto...
Professor olhou os braços cheios de bolhas, o peito.
– Tu não vai, Boa-Vida...
– Por que, mano?
– Tu sabe... É buraco na certa...
– Tu pensa que eu vou ficar aqui pra pegar nos outros?
– A gente trata de tu...
– Morria tudo. Almiro tinha casa, tá certo. Eu não tenho ninguém.
Professor calou-se. Queria dizer muita coisa. O mulato estava na sua frente, a trouxa debaixo do braço cheio de bolha de bexiga. Boa Vida falou:
– Tu diz a Pedro Bala. Os outros não precisa.
Professor só soube dizer:
– Tu vai mesmo?
Boa-Vida fez que sim, saíram do trapiche. Boa-Vida olhou a cidade, fez um gesto com a mão. Era como um adeus. Boa-Vida era malandro e ninguém ama sua cidade como os malandros. Olhou o Professor:
– Quando tu fizer meu retrato... Tu ainda vai fazer?
– Vou, Boa-Vida... Vontade de dizer palavras carinhosas como a um irmão. – Não me faz cheio de bexiga, não...
Seu vulto desapareceu no areal. Professor ficou com as palavras presas, um nó na garganta. Mas também achava bonito Boa-Vida andar assim para a morte para não contaminar os outros. Os homens assim são os que têm uma estrela no lugar do coração. E quando morrem o coração fica no céu, diz o Querido-de-Deus. Boa-Vida era um menino, não era um homem. Mas já tinha uma estrela no lugar do coração. Já
desapareceu o seu vulto. E então a certeza de que não mais verá seu amigo encheu o coração do Professor. A certeza de que o outro ia para a morte.
Nas macumbas em honra de Omolu, o povo negro, castigado com a bexiga, cantava:
“Cabono, aziela engoma!
Quero vê couro zoa!
Omolu vai pro sertão Bexiga vai espalha.”
Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vingança contra a cidade dos ricos.
Mas os ricos tinham a vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus das florestas d ’ África. Um deus dos negros pobres. Que podia saber de vacinas? Então a bexiga desceu e assolou o povo de Omolu. Tudo que Omolu pôde fazer foi transformar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e tola. Assim mesmo morrera negro, morrera pobre. Mas Omolu dizia que não fora o alastrim que matara.
Fora o lazareto. Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O
lazareto é que os matava. Mas as macumbas pediam que ele levasse a bexiga da cidade, levasse para os ricos latifundiários do sertão. Eles tinham dinheiro, léguas e léguas de terra, mas não sabiam tampouco da vacina. O Omolu diz que vai pro sertão. E os negros, os ogãs, as filhas e pais-de-santo cantam:
“Ele é mesmo nosso pai
e é quem pode nos ajudar...”
Omolu promete ir. Mas para que seus filhos negros não esqueçam avisa no seu cântico de despedida:
“Ora, adeus, ó meus filhinhos,
Qu ’ eu vou e torno a vortá...”
E numa noite que os atabaques batiam nas macumbas, numa noite de mistério da Bahia, Omolu pulou na máquina da Leste Brasileira e foi para o sertão de Juazeiro.A bexiga foi com ele.
Boa-Vida voltou magro, a roupa dançando no seu corpo. A cara agora estava toda picada. Os outros o olharam ainda com receio quando naquela noite ele entrou no trapiche. Mas Professor andou logo para ele:
– Ficou bom, mulato?
Boa-Vida sorriu. Vinham apertar a mão dele, Pedro Bala lhe deu um abraço:
– Mulato bom. Mulato batuta.
Até Sem-Pernas veio, João Grande ficou junto de Boa-Vida. 0 mulato olhou os amigos. Pediu um cigarro. Sua mão estava descarnada, o rosto ossudo. Ficou calado, olhando com amor o velho trapiche, os meninos, o cachorro que estava deitado no colo do Sem-Pernas.
Então João Grande perguntou:
– Como era o lazareto?
Boa-Vida se voltou rápido. Seu rosto tomou uma expressão amarga de desgosto.
Demorou um pouco a responder. Depois as palavras saíram com dificuldade:
– Ninguém sabe dizer, não. É uma coisa por demais... Uma nojeira. A gente quando entra é igual um que entra no caixão... Olhou os outros, que estavam suspensos das suas palavras. Sua voz era amarga – Igual que entrasse pro caixão pra ir pro cemitério... Igual...
Não achou mais que dizer. Sem-Pernas perguntou entre dentes:
– Que mais?
– Nada. Nada. Não sei, não... Por Deus, não pergunte... – baixou a cabeça, que balançava para todos os lados. Sua voz saiu muito baixa, como que ainda amedrontada:– É mesmo que ir pro cemitério. Tudo já está morto.
Olhou como se pedisse que não lhe perguntassem mais nada. João Grande disse para os outros:
– A gente não devia perguntar nada...
Boa-Vida apoiou com um gesto da mão. Disse baixinho:
– Nada... É ruim demais...
Professor olhou o peito de Boa-Vida. Estava todo picado da varíola. Mas no lugar do coração Professor viu uma estrela.
Uma estrela no lugar do coração.
Destino
Ocuparam a mesa do canto. O gato puxou o barulho. Mas nem Pedro Bala, nem João Grande, nem Professor, tampouco Boa-Vida se interessaram. Esperavam o Querido-de-Deus na Porta do Mar. As mesas estavam cheias. Muito tempo a Porta do Mar andara sem fregueses. A varíola não deixava. Agora que ela tinha ido embora, os homens comentavam as mortes. Alguém falou no lazareto. É uma desgraça ser pobre, disse um marítimo.
Numa mesa pediram cachaça. Houve um movimento de copo no balcão. Um velho então disse:
– Ninguém pode mudar o destino. É coisa feita lá em cima – apontava o céu.
Mas João de Adão falou de outra mesa:
– Um dia a gente muda o destino dos pobres...
Pedro Bala levantou a cabeça, Professor ouviu sorridente. Mas João Grande e Boa-Vida pareciam apoiar as palavras do velho, que repetiu:
– Ninguém pode mudar, não. Está escrito lá em cima.
– Um dia a gente muda... – disse Pedro Bala, e todos olharam para o menino.
– Que é que tu sabe, frangote? – perguntou o velho.
– É filho do Loiro, fala a voz do pai respondeu João Adão olhando com respeito. – O
pai morreu pra mudar o destino da gente.
Olhou para todos. O velho calou e também olhava com respeito.
A confiança foi de novo chegando para todos. Lá fora um violão começou a tocar.
Noite da grande paz, da grande paz
dos teus olhos
Filha de Bexiguento A música já recomeçara no morro. Os malandros voltavam a tocar violão, a cantar modinhas, a inventar sambas que depois vendiam aos sambistas célebres da cidade.Na venda de Deoclécio novamente ficava um grupo todas as tardes. Durante algum tempo tudo cessara no morro para dar lugar ao choro e lamentações das mulheres e crianças.Os homens passavam de cabeça baixa para as suas casas ou para o trabalho. E os caixões negros de adultos, os caixões brancos de virgens, os pequenos caixões de crianças desciam as ásperas ladeiras do morro para o cemitério distante. Isso quando não eram sacos que desciam com os variolosos ainda vivos que eram levados para o lazareto.A família chorava como choraria a um morto, pela certeza de que eles não voltariam jamais. Nem a música de um violão. Nem a voz cheia de um negro cortava então a tristeza do morro. Só a reza das sentinelas, o choro convulsivo das mulheres.
Assim estava o morro quando Estêvão foi levado para o lazareto. Não voltou, certa tarde Margarida soube que ele morrera por lá. Nesta tarde ela já estava com febre.Mas o alastrim parecia ser dos mais mansos no corpo da lavadeira e ela escondeu de todos a notícia, conseguiu não ser metida num saco. Aos poucos foi melhorando. Os dois filhos andavam pela casa, fazendo o que ela mandava. Zé Fuinha era um bocado inútil, ainda não sabia fazer nada, com seus seis anos.
Mas Dora tinha treze para quatorze anos, os seios já haviam começado a surgir sob o vestido, parecia uma mulherzinha, muito séria, a buscar os remédios para a mãe, a tratar dela. Margarida melhorou quando já os violões recomeçavam a tocar no morro, porque a epidemia de varíola tinha se acabado. A música voltou a dominar as noites do morro e Margarida, se bem ainda não estivesse completamente boa, foi ã casa de algumas de suas freguesas em busca de roupa. Voltou com a trouxa nas costas, se atirou para a fonte. Trabalhou o dia todo, sob o sol e a chuva que caiu pela tarde. No outro dia não voltou ao trabalho porque recaiu do alastrime a recaída é
sempre terrível. Dois dias depois descia do morro o último caixão feito pela varíola.
Dora não soluçava. Corriam as lágrimas pelo seu rosto, mas enquanto o caixão descia ela pensava era em Zé Fuinha, que pedia o que comer. O irmãozinho chorava de dor e de fome. Era muito menino para compreender que tinha ficado sem ninguém na imensidão da cidade.
Os vizinhos deram jantar aos órfãos nesta tarde. No outro dia pela manhã o árabe que era dono dos barracões do morro mandou derramar álcool no de Margarida para desinfetar. E logo o alugou, pois era um barracão bem situado, bem no alto da ladeira. E enquanto os vizinhos discutiam o problema dos órfãos, Dora tomou o irmão pela mão e desceu para a cidade. Não se despediu de ninguém, era como uma fuga. Zé Fuinha ia sem saber para onde, arrastado pela irmã. Dora marchava tranqüila. Na cidade havia de encontrar quem lhes desse de comer, quem pelo menos tomasse conta de seu irmão. Ela arranjaria um emprego de copeira numa casa. Ainda era uma menina, mas havia muitas casas que preferiam mesmo uma menina porque o ordenado era menor. Sua mãe certa vez falara em a empregar de copeira na casa de uma freguesa. Dora sabia onde era e se dirigiu para lá. O morro, a música dos violões, o samba que um negro cantava ficaram para trás. Os pés descalços de Dora se queimam no asfalto ardente. Zé Fuinha vai alegre, vendo a cidade para ele desconhecida, os bondes que passam repleto, as marinetes que buzinam, a multidão que corta as ruas. Dora fora com Margarida certa vez à casa desta freguesa. É na Barra, elas tinham ido num bonde bagageiro, levando a trouxa de roupa lavada. A dona da casa fizera festa a Dora, perguntara se ela queria vir trabalhar ali. Margarida ficara de trazê-la quando ela estivesse mais crescida. Era para lá que Dora pensava ir. E perguntando a ume a outro tomou o caminho da Barra. A caminhada era grande, o sol no asfalto queimava seus pés sem sapato. Zé Fuinha começou a pedir de comer e a se queixar do cansaço. Dora o acalentou com promessas e seguiram. Mas no Campo Grande Zé Fuinha não pôde mais. A caminhada era demasiada para ele, para os seus seis anos. Então Dora entrou numa padaria, trocou os únicos quinhentos réis
que possuía, comprou dois pães dormidos, deixou Zé Fuinha sentado num banco com os pães:
– Tu come e me espera, tá ouvindo? Eu vou ali, volto já. Mas não vá sair daqui, senão você se perde...
Zé Fuinha prometeu com uma cara muito séria, dando dentadas nos pães duros. Ela o beijou e seguiu.
O guarda que a informou olhou para os seus seios que nasciam. 0 cabelo loiro dela, maltratado, voava com o vento. Sentia queimaduras nas solas dos pés e um cansaço no corpo todo. Mas seguiu. O número era 611. Quando chegou ao 53 parou um pouco para descansar e pensar o que diria à dona da casa. Depois retomou a caminhada. Agora a fome ajudava a magoar seu corpo, a fome terrível das crianças de 13 anos, uma fome que exige comida imediatamente. Dora tinha vontade de chorar, de se deixar cair na rua, sob o sol, e não fazer movimentos. Uma saudade dos pais mortos a invadiu. Mas reagiu contra tudo e continuou.
O 611 era uma casa grande, quase um palacete, com árvores na frente. Numa mangueira, um balanço onde uma menina da idade de Dora se divertia. Um rapazote dos seus 17 anos a balançava e riam os dois. Eram os filhos do dono da casa. Dora ficou a olhá-los com inveja uns minutos. Depois tocou a campainha. O rapaz olhou, mas continuou a balançar a irmã. Dora tocou novamente, a empregada veio. Ela explicou que queria falar com dona Laura, a patroa. A empregada a olhou com desconfiança. Mas o rapazola deixou de balançar a irmã e andou até o portão.
Espiava os seios mal nascidos de Dora, os pedaços de coxas que apareciam sob o vestido. Perguntou:
– O que é que você quer?
– Eu queria falar com dona Laura. Sou filha de Margarida, que foi lavadeira dela...
Não vê que ela morreu...O rapaz não despregava os olhos dos seios de Dora. Era bonita a menina, de olhos grandes, cabelo muito loiro, neta de italiano com mulata.
Margarida dizia que ela puxara ao avô, que também tinha cabelos muito loiros e um bigodão bem tratado. Dora baixou os olhos porque o rapaz não tirava os dele dos seus peitos.Ele também se desconcertou, falou para a empregada:
– Vá chamar mamãe...
– Sim, senhor.
O rapaz puxou um cigarro, acendeu. Jogou a fumaça para cima estendendo o beiço, deu mais uma espiada para os peitos de Dora:
– Você está procurando emprego?
– Tou, sim senhor.
O vento levantou um pouco o vestido dela. Ele teve pensamento canalhas ao ver o pedaço de coxa. Já se sonhava na cama, Dora trazendo o café pela manhã, a safadeza que se seguiria.
– Vou ver se mamãe arranja um lugar pra você...
Ela agradeceu. Mas estava um pouco assustada, se bem lhe escapasse muito da malícia dos olhares dele. Dona Laura chegou, os cabelos grisalhos, a filha atrás dela, espiando Dora com olhos compridos. Era sardenta, mas tinha certa graça.
Dora contou que a mãe tinha morrido:
– A senhora tinha me prometido um emprego...
– De que foi que Margarida morreu?
– De bexiga, sim senhora.
Dora não sabia que dizendo aquilo tinha perdido a possibilidade do emprego.
– De varíola?
A mocinha se afastou receosa. Até o rapaz se desviou um pouco, pensou nos seios pequenos de Dora marcados de varíola. Cuspiu com nojo. Dona Laura tomou um tom triste:
– É que já tomei outra empregada. Agora não tenho necessidade...
Dora pensou em Zé Fuinha:
– A senhora não tem precisão de um menino pequeno pra faz compra, recados, estas coisas? É meu irmão...
– Não, minha filha, não tenho. – Não sabe de ninguém?
– Não. Se soubesse recomendaria você...
Queria acabar a conversa. Voltou-se para o filho:
– Você tem dois mil-réis aí, Emanuel?
– Pra que, mamãe?
– Me dê.
O rapaz deu, ela pôs em cima da grade. Tinha medo de tocar em Dora, queria que fosse dali, antes de contagiar a casa.
– Leve isso para você. Que Deus lhe ajude...
Dora voltou a descer a rua. O rapaz ainda espiou as nádegas que apareciam redondas sob o vestido apertado. Mas a voz de dona Laura o interrompeu. Ela falava para a empregada:
– Dos Reis, passe um pano com álcool no portão, onde esta menina pegou. Não é bom brincar com varíola...
O rapaz voltou a balançar a irmã sob as mangueiras. Mas de vez em quando suspirava para si mesmo: tinha uns peitos muito bons...
Zé Fuinha não estava no banco. Dora levou um susto. Era capaz que o irmão tivesse saído andando pela cidade e se perdesse. E como ela o iria encontrar, ela que tão pouco conhecia a cidade? Demais um grande cansaço a invadia, um desânimo, saudade da mãe morta, vontade de chorar. Os pés doíam e ela tinha fome. Pensou em comprar pão agora possuía dois mil e quatrocentos, mas em vez disto saiu em busca
do irmão. Foi encontrá-lo embaixo das árvores do jardim comendo ameixas verdes.