Cartas de Inglaterra

Eça de Queirós · Capítulo 12 de 19

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Cartas de Inglaterra

Capítulo II

A desforra de Arabi.—Reformadores e coroneis.—O programma

fellah.—A conferencia de Constantinopla.—A confusão do

Grão-Turco.—As esquadras.

O Khediva teve em seguida, alguns tranquillos dias de triumpho.

Ao abrir o seu Times ou o seu Journal des Débats (porque este principe é illustrado) elle podia regosijar-se, vendo que esses dous ponderosos orgãos da opinião européa o consideravam um potentado energico e cheio de nervo, como cabe a um descendente do grande Mehemet-Ali, vivamente zeloso dos seus direitos, sabendo manter a ordem nos seus estados com duas mãos de ferro, digno emfim da sympathia das potencias.

Uma manhã porém, o palacio appareceu cercado de tropas— doze mil homens com dezoito peças d'artilharia—supplicando que Sua Alteza soltasse Arabi e lhe confiasse o ministerio da guerra. E davam esta razão, honrosa para a logica árabe: que, approvando o exercito as reformas de Arabi-Bey, entendia que elle as executaria muito mais confortavelmente sentado na poltrona de ministro da guerra do que estirado nas palhas do carcere.

O Khediva, que acabava talvez de saborear no Times mais uma glorificação da sua energia, concordou e declarou até que sempre respeitara Arabi. Alli mesmo, sobre o joelho, o nomeou Pachá:—e Arabi-Pachá passou da enxovia para o poder, ao som das bandas marciaes...

Em taes circumstancias um caudilho europeu lança o seu programma tão ruidoso, tão brilhante, subindo tão alto no céo do progresso, como os foguetes que estalam n'esse dia—e de que ordinariamente, como dos foguetes, fica apenas um tição apagado. E estamos tão acostumados a isto, aqui n'estas regiões privilegiadas, onde a locomotiva silva, que as gazetas sisudas começaram a desconfiar de Arabi, desde que o não viram adeantar-se com o seu programma nas mãos. Não o tinha.

Em paiz mussulmano, sob a lei do Alcorão, não os ha: nem era de resto natural que um soldado egypcio (como disse, com uma gôche e desnecessaria ironia, o snr. Gambetta) tivesse encontrado por acaso principios de oitenta e nove ineditos nos sarcophagos dos Pharaós. Não, de certo. Mas Arabi trazia tres ou quatro ideias que, se houvesse uma Europa decente, que lhe permittisse a realisação, podiam ser o começo de um novo Egypto, um Egypto possuindo-se a si mesmo, um Egypto governando-se a si mesmo, um Egypto para os Egypcios—não uma raça escrava enfeudada á familia de Mehemet-Ali, muito menos um refeitorio franco para os esfomeados europeus.

A meu vêr, o que impediu sempre que Arabi fosse um reformador —era o ser elle um coronel fellah, filho de fellah, nascido n'uma d'essas tristes aldéas, montões de choças feitas de lama secca, que negrejam ao comprido do Nilo. Tendo vivido na abjecta miseria dos fellahs—a peior que existe sobre a terra—elle, mais que ninguem, tinha direito a erguer-se em nome dos longos aggravos do fellah. Mas, ao mesmo tempo, Arabi era um soldado que ganhara os seus postos nas prolongadas guarnições do Alto Egypto e nas campanhas do Soudan, que voltára de lá com todo o orgulho da farda, e todo o pedantismo do sabre, não só repassado de militarismo, mas enfrascado em militança—e, portanto, prompto, desde que a sua voz resoava tão alto, a pôl-a ao serviço das pretenções do exercito... Elle representava, por origem e por profissão, as duas grandes classes do povo egypcio—o soldado e o fellah;—e desde o momento em que entre os egoistas, os voluptuosos, os escravos e os interesseiros, elle pareceu ser o unico homem no Egypto que se arriscava, de bom grado, pelas suas ideias, ao exilio e á enxovia,—tornou-se bem depressa, e naturalmente, chefe do partido popular que queria as grandes reformas nacionaes, e pela mesma occasião caudilho do partido militar, que só appetecia vantagens de classe. Assim, em Arabi, o patriotismo confundia-se infelizmente com a insubordinação.

Nas suas reformas encontravam-se, n'uma triste mistura, ao lado de idéas largas, liberaes, contendo a revindicação dos direitos do trabalhador, as mais especiosas exigencias do quartel, revelando o official revoltado. Era com o mesmo enthusiasmo, e como se as duas cousas tivessem egual valor na obra da regeneração do Egypto—que elle pedia uma constituição parlamentar, e augmento de soldo e subida de posto para os coroneis seus camaradas. Que aconteceu? Que na Europa, aquelles que desejavam a continuação do regimen khedival (empreza financeira d'onde sahiam grossos dividendos) fizeram tanto ruido em torno das escandalosas pretenções da tropa, que não deixaram escutar os justos pedidos do povo, e desacreditaram facilmente Arabi, escondendo o seu bom lado de patriota, pondo em relevo o seu mau lado de coronel turbulento.

Toda a revolução dirigida por coroneis é justamente suspeita ao nosso moderno espirito europeu; mas Arabi é um egypcio; e no Egypto, onde o povo fellah, apesar de tão intelligente como qualquer das nossas plebes, é pouco mais que uma irresponsavel horda de escravos, e onde o exercito constitue a classe culta—a obra de progresso tem necessariamente de ser feita pelo soldado. Na Europa, porém, não se sabe isto—ou, antes, finge-se que não se sabe. As exigencias da tarimba puzeram na sombra as reclamações da cabana—e Arabi perdeu na Europa a auctoridade que podia ter como chefe dos fellahs por fallar de espada na mão, d'entre um quadrado de soldados...

De certo, Arabi não é um Mazzini, nem um Luiz Blanc. É um arabe do antigo typo, que apenas leu um livro—o Alcorão. Mas, como homem, possue qualidades de intelligencia, de coração, de caracter, que não ousam negar aquelles mesmos que o estão combatendo tão brutalmente. E como patriota, está á altura dos grandes patriotas: havia certamente muito egypcio no Egypto que abominava o sordido regimen khedival e soffria de vêr o rico valle do Nilo devorado pelo estrangeiro, como outr'ora pelos gafanhotos;— mas esses limitavam-se a curvar tristemente os hombros, invocando o nome de Allah.

Este é o primeiro que entendeu que Allah, apesar de grande e forte, não póde attender a tudo, e que, portanto, se resolveu a tirar a espada em nome do fellah, contra a oppressão colligada dos pachás turcos e dos agiotas christãos.

Quaes eram, por fim, as reformas de Arabi, esse monstro de sedição?

Arabi queria, em primeiro logar, o fim da auctoridade absoluta do Khediva, e o Egypto governado por uma Assembléa eleita; e, como consequencia d'esse novo regimen, uma reforma radical no uso dos dinheiros publicos, que até ahi iam parte para a côrte do Khediva, parte para o harem do Sultão, senhor suzerano do Egypto, parte para as cohortes cerradas de funccionarios estrangeiros, parte, uma grande parte, para pagar os coupons de divida em Pariz e Londres, ficando tão pouco para as necessidades do paiz, que havia dois annos que quasi se não dava soldo ao exercito!

Arabi não negava a divida externa, contrahida por esse esplendido perdulario Ismail-Pachá, mas reconhecida pela nação e garantida pela sua honra:—sómente não admittia que a França e a Inglaterra estivessem installadas no Cairo, á bocca dos cofres, esperando a chegada do imposto, para empolgar uma parte leonina; de tal sorte, que, para satisfazer a voracidade do credor europeu, esmagava-se com tributos o fellah, que, por mais que se esfalfasse dia e noite, tinha por fim de recorrer ao usurario europeu. Cousa estupenda! A Europa apresentava-se officialmente como credora, e, para se fazer embolsar, fornecia secretamente o agiota!...

Mas o ponto delicado das reformas de Arabi era quando tocavam com a situação dos estrangeiros no Egypto. Havia ahi pretenções monstruosas. Arabi exigia que se abolisse o privilegio pelo qual os estrangeiros estabelecidos no Egypto e enriquecendo no Egypto não pagam imposto. O desalmado queria que não houvesse esses tribunaes de excepção para os estrangeiros, que, sob o nome de tribunaes mixtos, distribuem duas justiças—uma de mel para o europeu, outra de fel para o arabe. Emfim, esse homem fatal pretendia que os empregos publicos não fossem dados exclusivamente a estrangeiros—e que se não pagassem annualmente, como se pagavam, mais de trez mil contos de bom dinheiro egypcio, a francezes, inglezes e italianos repoltreados em sinecuras em todas as repartições do valle do Nilo, e quasi todos tão uteis ao estado como aquelle inglez que, com uma carta de recommendação de Lord Palmerston, foi nomeado coronel do exercito egypcio e ao fim de nove annos, depois de ter recebido perto de oitenta contos de soldos, ainda não tinha visto o seu regimento e ainda mesmo não tinha uniforme!

Taes eram, em resumo, as abominaveis idéas de Arabi, e não se imagina facilmente a apopletica indignação que ellas causaram á França republicana e á livre Inglaterra. Arabi foi considerado uma féra. Na Bolsa de Pariz, no Stock-exchange de Londres, onde os fundos egypcios tinham descido, pedia-se com energia a suppressão immediata d'esse iniquo aventureiro.

Os gritos estridentes dos estrangeiros no Egypto, ameaçados nas suas pessoas e nos seus privilegios, enterneciam a Europa.

As potencias occidentaes trocaram as suas vistas, segundo a hedionda phrase diplomatica, e concordou-se que o Egypto estava em anarchia. O Khediva, esse já se declarara coacto, e urgia descoactar rapidamente esse amavel principe, tão doce ao estrangeiro. A Inglaterra e a França, pois, (paizes que dizem ter interesses superiores no Egypto) mandaram as suas esquadras ás aguas de Alexandria, para aterrar Arabi. Póde-se perguntar até que ponto seis couraçados, sem tropas de desembarque e ancorados n'uma bahia, conseguiriam atarantar um ministro da guerra, seguro no Cairo, a dez horas de caminho de ferro, cercado de vinte mil homens de tropas regulares, apoiado por quatro milhões de população fellah, alliado aos grandes chefes beduinos, e sanctificado pela approvação religiosa dos Ulemas...

Hoje, aquelles mesmos que aconselharam essa manifestação, como o Times, confessam com o rubor nas columnas, que foi uma insensatez. Em todo o caso fez-se—e acompanhada de um documento, um papelucho diplomatico que, pelo comico intenso do seu conteúdo, parecia arrancado a alguma farça descabellada de Labiche. Esse escripto, apresentado gravemente pelos consules de França e Inglaterra, intimava o Khediva a que demitisse Arabi, o exilasse para o Alto-Egypto, para além das cataractas, conservando-lhe, para o não descontentar de todo, as suas honras de pachá e os seus soldos de coronel! Não sentis aqui, amigos, toda a folia de um vaudeville? De um lado o Khediva abandonado, em palacio, envolvido por uma revolução victoriosa, refugiado na equivoca fidelidade de alguns ajudantes de campo e de alguns eunucos; do outro lado Arabi tendo por si o exercito, a nação, o deserto e as mesquitas. E a Europa suggere áquelle Khediva que desterre para a Nubia este Arabi! Conheceis cousa alguma que mais reclame a verve do chorado Offenbach? Os jornaes inglezes hoje confessam tambem entre dentes que o papelucho era estupido. Se o era! E estão d'ahi a vêr o resultado: Arabi encolheu os hombros, adjudicou-se mais o ministerio da marinha, e substituiu alguns dos outros ministros, antigos familiares do Khediva, por homens seus, gente de nervo e de arranque.

Perante esta resposta dada ao seu ultimatum, a Europa ficou, se me é licito este dizer irreverente—de orelha murcha. E então tomou a decisão das grandes crises; delegou diplomatas que se sentaram em torno de uma mesa de panno verde, e enterraram pensativamente a cabeça entre os punhos. Chamou-se a isto a Conferencia de Constantinopla. O seu fim, todo louvavel, era resolver a questão do Egypto.

E ainda lá está, fina e subtil, a resolver! Alexandria ardeu, deixou de existir; o canal de Suez é patrulhado por canhoneiras inglezas; o general Sir Garnet Wolseley marcha sobre o Cairo; a terra do Egypto é terra britannica—e ella ainda lá está, a resolver!

Quanta habilidade n'aquella assembléa! N'aquella assembléa quanta auctoridade! Ainda lá está...

Ainda lá está, á margem das aguas doces do Bosphoro, em torno da mesa de panno verde, com a cabeça enterrada entre os punhos!...

Depois de reunida a Conferencia, a Europa, naturalmente, lembrou-se que o Egypto é ainda uma dependencia dos estados do Sultão, paga tributo ao Sultão, e que portanto ao Sultão competia ir restabelecer a ordem nos seus agitados dominios.

Questão obscura e embrulhada, esta das relações do Egypto com a Turquia.

É o Khediva um principe vassallo? A diplomacia hesita. Por um lado, os Khedivas succedem-se por hereditariedade, têm exercito, armam marinha, cunham moeda, declaram guerras, fazem tratados; por outro lado, pagam tributo. Mas constitue elle uma affirmação de vassalagem de pachá a sultão? É uma simples offerta de principe mussulmano ao chefe do Islam, como o presente que o rei catholico de Hespanha manda todos os annos ao papa? É uma prestação annual da tremenda somma, porque Mehemet-Ali e depois Ismail-Pachá compraram aos Osmanlis a sua independencia? É simplesmente um pourboire?... Seja como fôr, o tributo existe—e, fundado n'elle, a Europa appellou para o Sultão. Arabi, bom crente, devia venerar o Sultão; o Sultão, bom pae, podia exterminar Arabi. E aqui começa a famosa comedia das vacillações do Sultão.

Por um lado, o Sultão desejaria mandar tropas ao Egypto, occupal-o sob o pretexto de o tranquillisar e refazer d'elle uma provincia turca, um pachalato dependente do serralho, tal qual era antes de Mehemet-Ali, quando na riqueza do valle do Nilo estava o verdadeiro thesouro dos califas; por outro lado, porém, o Sultão não queria desembarcar no Egypto como cabo de policia da Europa, pela razão de que, prevendo este caso, os ulemas da mesquita d'El-Azhar, o grande centro religioso e o grande centro lettrado do Islam, o Vaticano e a Sorbona do Oriente, possuindo no mundo mussulmano uma auctoridade igual á de um Concilio no mundo catholico,—tinham declarado que se o Sultão, em nome da Europa christã, pegasse em armas contra gente mahometana, tornava-se ipso facto apostata, e ipso facto perdia o califado. Por um lado tambem o Sultão, tendo, ao que se diz, recebido de Arabi promessas de depor o Khediva e proclamar em seu logar Helim-Pachá, que é em Constantinopla o conselheiro e o favorito do serralho—conspirava com Arabi contra o Khediva; mas por outro lado, tinha noticia das intelligencias de Arabi com o scherif de Meca, que, sendo o descendente directo de Mahomet, possue mais que o Sultão direitos ao califado, e é n'esta santa pretensão apoiado por todas as tribus da Arabia; e, receiando assim que Arabi se tornasse o auctor de um scisma no islamismo, o Sultão procurava minar-lhe a influencia crescente—e conspirava com o Khediva contra Arabi. Por um lado ainda, uma vaga revolução constitucional em paiz mussulmano era odiosa ao Sultão; mas, por outro, a maneira como Arabi, alma d'esse movimento, estava tratando d'alto parte da Europa colligada, lisongeava profundamente o seu coração turco. Emfim, este miserando chefe dos crentes não sabia onde havia de dar com a sua cabeça imperial... Não se pense, por este dizer ligeiro, que eu não respeito o Sultão: Abdul-Hamid não é um califa do antigo typo, embrutecido pelo uso de tres mil mulheres,—mas, segundo a expressão do principe de Bismarck, «um dos espiritos mais finos da Europa». Ora, o principe de Bismarck é um entendedor; ainda que, a meu vêr, duas cousas estragam esta famosa finura: primeira o ser excessiva, de modo que Abdul-Hamid, a maior parte das vezes, tropeça e fica enredado na engenhosa complicação dos seus proprios fios; depois o estar ao serviço, não de idéas praticas, mas de fantasias mysticas, como a que se lhe attribue de renovar, na ordem espiritual e em seu proveito, o imperio prophetico de Mahomet.

Emfim, instado pela Europa a intervir no Egypto, e não querendo que a Europa interviesse, porque isso seria a perda do seu pingue tributo annual, o Sultão decidiu-se a enviar Dervich-Pachá, uma velha raposa podre de manhas, com a missão de fazer reentrar Arabi no aprisco dos humildes. Mas apenas Dervich-Pachá começava esta operação, eis que o Sultão inquieto, vendo Arabi e o scherif de Meca de mãos dadas sobre o tumulo do Propheta, remette a Arabi a grande ordem do Medjidieh, a mais nobre condecoração turca, o favor supremo que póde cahir das mãos do califa, acompanhada de uma florida carta de amizade e d'uma esplendida placa de diamantes.

Isto tudo dá a medida da confusão do Grão-Turco.

Arabi, assim glorificado pelo califa, resplandeceu aos olhos do mundo mussulmano com um prestigio maior; Dervich-Pachá, um instante aturdido, redobrou de duplicidade:—e foi então entre Dervich, e Arabi, e o Khediva, e o Sultão, e as potencias, e os consules, e os pachás, e os coroneis, uma intriga tão emaranhada que eu prefiriria fazer-lhes um resumo lucido dos vinte e cinco volumes das Façanhas de Rocambole, do que penetrar na espessura inextricavel d'este embroglio turco-europeu—uma d'essas intrigas fastidiosas que devem enervar, fazer chorar de séca e de fadiga a Providencia, se ella, como affirmam philosophos que estão na sua intimidade, é obrigada a observar minuciosamente todos os successos humanos! Quanto o homem com a sua tolice deve, por vezes, fazer bocejar Deus!

Durante estes successos, emquanto a Europa chafurdava no atoleiro diplomatico, as duas esquadras de França e de Inglaterra, lá continuavam deante de Alexandria manifestando. Do romper do sol ao occaso, immoveis nas aguas calmas, com as camisolas da marujada seccando nas vergas, alli estavam manifestando...

Os officiaes repousavam de vez em quando d'esta rigida attitude de manifestação arranjando um pic-nic em terra, indo fazer um robber de whist ao club inglez, ou organisando, sob as sombras dos jardins de Ramleh, honestas partidas de cricket.