Cartas de Inglaterra
Capítulo V
Depois do bombardeamento.—Os incendios.—As
responsabilidades.—Uma Alexandria ingleza.—A invasão.—A
attitude da Europa.
O almirante Seymour, dias antes, tinha declarado que em duas breves horas desmantelaria os fortes de Alexandria. Ao cabo, porém, de nove compridas horas ainda não fizera calar as baterias egypcias; e ainda justamente uma bomba vinha escavacar a camara do commandante do Inflexivel.
Sir Beauchamp Seymour reconheceu, nos seus despachos para o almirantado, «que os melhores artilheiros da Europa se poderiam orgulhar de uma tão bella resistencia». Mas nem coragem, nem reductos, nem muralhas de granito prevalecem contra esses negros monstros que desfeiam os mares—o Monarcha, o Alexandra, o Soberbo, o Sultão, o Invencivel, o Minotauro, e tantos outros que lá estavam, movediços castellos de ferro, servidos pelas forças combinadas do vapor, da hydraulica, da electricidade, devastadores como um cataclysmo e exactos como uma sciencia.
Pobres fortalezas de Mehemet-Ali! Foi a velha fabula da panella de barro contra que tombou a panella de bronze. Ao anoitecer, eram apenas montões de ruinas fumegando em silencio...
Estava consummada a façanha! Na bahia, agora, tudo cahira n'uma grande paz; a noite descera calma e escura; os enormes couraçados repousavam; da cidade vencida não vinha o menor ruido; só n'um ponto de terra o palacio de Rasel-tin ardia ao abandono. Foi então que o eloquente correspondente do Standard telegrahou para o seu jornal esta phrase que merece fama:—A situação não póde ser mais satisfactoria!
Pelo meio da noite, porém, da parte de Alexandria, onde ficava a Praça dos Consules, começou a erguer-se um vasto clarão. Alli, evidentemente, havia um incendio. Mas como? Porque?
O almirante Seymour lavaria d'ahi as suas mãos—se tivesse a bordo a bacia de Poncio Pilatos. Elle concentrára escrupulosamente o seu fogo sobre os fortes: uma ou outra bomba poderia ter cahido nos bairros arabes—e nada mais legitimo, nem de mais salutar terror; mas a parte européa de Alexandria fôra poupada... E todavia, era lá que o incendio se estendia avermelhando, aquecendo o ceu; e de outros pontos visinhos iam subindo na noite altas labaredas. Diabo! A situação já não era tão satisfactoria...
Ao outro dia houve um tempo muito nublado, com um mar muito forte. Os couraçados, por precaução, fizeram-se ao largo. Quando, horas depois, vieram retomar as suas posições de combate, Alexandria, deante d'elles, ardia toda como uma monstruosa fogueira. Positivammente, não era nada satisfactoria a situação!
Não era. Arabi-pachá abandonára Alexandria, levando o grosso do exercito. E a população mussulmana, enfurecida por nove horas de bombardeamento, sem policia para a conter, com os ulemas a excital-a, tomada da cobiça da pilhagem, e inflammada pela furia das represalias, correra aos bairros europeus,—e incendiou, saqueou, matou, destruiu; matou pela raiva de matar, porque até pobres cavallos de carruagem appareceram esquartejados; destruiu pela raiva de destruir, porque se acharam nas ruas, aos pedaços, vestidos de senhoras, relogios de sala e oculos de theatro...
Ferocidades de fanatismo, que se arremessa n'uma vingança indiscriminada sobre tudo o que lhe represente a raça, os costumes, as idéas que elle odeia—sobre os homens e sobre os espelhos. Isto não se dá só em paiz mussulmano. Sempre que os parizienses invadiam as Tulherias, rasgavam á ponta de sabre o setim das poltronas...
Collocou-se a população de Alexandria, por taes excessos, fóra da humanidade? Os inglezes dizem que sim; eu digo que nós teriamos feito o mesmo, nós europeus, christãos e podres de civilisação. Se, quando os allemães estavam bombardeando Pariz— os parizienses vissem no centro da sua cidade um bairro exclusivamente allemão, compacto, monumental, luxuoso, erguido pelo dinheiro que o allemão ganhára a explorar a França,— resistiriam os parizienses, os mais civilisados dos mortaes, a besuntal-o de petroleo e fazel-o flammejar por uma bella noite de inverno?
A resposta é facil, lembrando-nos que, quando por seu turno o snr. Thiers, esse homunculo de estado, bombardeou Pariz, os parizienses apressaram-se a destruir o palacete do snr. Thiers.
Foi Arabi que ordenou o incendio de Alexandria? Não, evidentemente. Arabi não é um patriota selvagem, do typo d'esse Rostopchin que queimou Moscou: é um fellah fino e sagaz, que sabe que na Europa, na Inglaterra sobretudo, onde affectamos todos uma sensibilidade humanitaria, nada desacredita mais que uma fria crueldade. Basta observar a attitude polida, quasi paternal que elle toma com os prisioneiros inglezes—o guarda-marinha Chair, por exemplo.
Quando este official foi levado ao acampamento arabe, Arabi disse-lhe logo, depois d'um shake-hands.
—Escreva a sua mãe, conte-lhe que está entre mãos leaes, e tire-a d'inquietações...
Isto era de certo sincero—mas sobre tudo habil: e uma tal palavra voou direita ao coração de todas as mães inglezas. Desde os conflictos d'Alexandria, o empenho d'Arabi tem sido proteger os europeus que ainda restam nas villas do interior. Os cadis que não evitaram o massacre dos empregados do caminho de ferro do Delta, foram decapitados. A elle se deve a tranquillidade do Cairo, onde existe uma enorme massa de propriedades e riquezas européas. Que ganharia Arabi em destruir esta prospera cidade egypcia, no começo da campanha e com o seu exercito intacto? Apenas a fama d'um monstro boçal.
Á Inglaterra cabe a responsabilidade da catastrophe. As bombas do almirante talvez, com effeito, não tivessem arrasado mais que alguns casebres arabes; mas á imprevidencia do governo se deve a ruina d'Alexandria.
Desde o meiado de junho, o mais experiente, mais auctorisado dos seus agentes diplomaticos, o snr. E. Malet, consul geral do Egypto, não cessou de bradar—que se o bombardeamento era inevitavel, Sir Beauchamp Seymour devia ter tropas de desembarque, para occupar a cidade, apenas os fortes fossem destruidos, e impedir assim que, no caso provavel de Arabi se retirar para o interior, ella ficasse á mercê d'uma plebe semi-barbara...
Nada d'isto se fez.
Sir Beauchamp Seymour bombardeou, arrasou, repelliu virtualmente d'Alexandria a Arabi, a unica força que continha uma populaça de cem mil fanaticos—e, depois, ficou a bordo do seu couraçado, vendo tranquillamente arder, deante de si, uma das mais ricas cidades do Mediterraneo.
Por outro lado, a quem aproveitava o incendio? Á Inglaterra. O pretexto de que os fortes punham em perigo os couraçados britannicos, só a auctorisava, perante os escrupulos da Europa, a destruir os fortes, não a occupar a cidade. Agora, porém, que ella estava em chammas, abandonada á anarchia, á pilhagem, ao ataque das hordas beduinas que corriam do deserto—agora ella tinha o direito—mais, ella tinha o dever!—de desembarcar e ir salvar de uma total aniquilação tanta riqueza, tão esplendido centro de commercio!...
Generosa Inglaterra! E desembarcou logo, aquartelou tropa, plantou bandeira. Tinha deante de si um monte de ruinas, e em poucos dias foi dando fórma a uma Alexandria nova, já com feição ingleza e administrada á ingleza.
Os incendios foram dominados; as ruas desentulhadas; estabeleceu-se uma policia terrivel, que executava summariamente os ladrões e os incendiarios; abasteceu-se a cidade: a alfandega reabriu as portas; em substituição das lojas destruidas, armaram-se barracões de venda; o machinismo judicial foi posto em movimento; reparou-se a fabrica do gaz, a cidade foi reilluminada; os bancos voltaram a funccionar.
E, como era necessaria uma auctoridade, em nome de quem se reorganisasse a vida municipal, os inglezes, que apenas estão alli (diziam elles) como um corpo de policia, foram buscar o Khediva a uma casa dos arredores, onde elle se refugiara durante o bombardeamento, e installaram-n'o solemnemente no palacio de Ras-el-tin, palacio meio ardido, onde elle é uma auctoridade meio morta!...
Desde este momento, a situação tornou-se muito definida, muito simples. Os inglezes possuiam, governavam Alexandria, tão naturalmente como se ella estivesse situada no condado de Yorkshire; e de fronte d'Alexandria, n'essa especie de isthmo arenoso que a liga á terra do Delta, estava Arabi n'um acampamento entrincheirado, governando d'ahi todo o valle do Nilo e o deserto até o mar. Os inglezes recebiam incessantes reforços de casa e da India. Arabi chamava á guerra contra os inglezes todo o povo fellah. A Inglaterra preparava uma invasão. Arabi organisava uma grande defesa nacional. Nada mais claro. A questão é entre a Inglaterra, procurando estabelecer um protectorado sobre o Egypto, arrancar-lhe as cidades estrategicas que dominam o canal, e Arabi-pachá, um patriota, que quer o Egypto para os egypcios, que receia a protecção do estrangeiro como a peior desgraça de um paiz fraco, e que entende que, pelo facto de que Alexandria, Port-Saïd e Suez se acham desgraçadamente no caminho da India, não é motivo para que se tornem guarnições inglezas. E dos dous lados, grande enthusiasmo.
Em Londres, onde acabou a season e começa a monotonia das praias de banhos, o partir para conquistar o Egypto passou a considerar-se uma feliz aventura. Se o ministerio da guerra o consentisse—toda a mocidade de ouro, ou apenas de latão dourado, se alistaria, porque é do mais requintado chic ir dar cabo de Arabi!
O duque de Connaugth, um dos filhos de S. M. a Rainha, faz parte da expedição, e o duque de Teck, seu cunhado, não sendo militar, partiu, diz-se, como simples empregado do correio. Os officiaes dos regimentos de guardas, essa pura nata da aristocracia e flôr da finança, tiveram a ventura de vêr os seus luxuosos regimentos, de ornamentação monarchica, expedidos para o Egypto; sómente este natural prazer foi em parte estragado pela severidade do ministerio da guerra, que, como se tratava de uma campanha e não de um torneio, não consentiu que esses gentis-homens fôssem seguidos por equipagens, creados de librés, tendas de luxo e caixas de vinho de Champagne.
Um d'estes officiaes exprimiu alto a sua indignação, porque o estado-maior só lhe consente tres cavallos de sella, dous creados de quarto e cinco malas de bagagem!
Por outro lado, ao comprido do Nilo toda a população fellah se declarou por Arabi; como por elle se declararam as classes lettradas, as mesquitas, os ulemas, os coptas, os proprios principes parentes do Khediva. Os mudirs, governadores de provincias, pagam-lhe a elle os impostos. Os scheiks do deserto mandam-lhe a sua cavallaria.
E este ardor é tanto maior, quanto Arabi-pachá foi de ha muito prophetisado; já a sua inesperada entrada no governo se considerou um advento divino; e este rebelde (como outros rebeldes que tão gloriosamente fizeram o seu caminho na terra e no ceu) é Messias!
Uma antiga prophecia mussulmana annuncia que no seculo decimo terceiro da Hegira nascerá á beira de um grande rio um homem de raça vil, por nome Ahmet, que se revoltará, e restaurará o esplendor do Islam; ora, os arabes estão no século XIII da Hegira, e Arabi, cujo nome é Ahmet, cuja origem é fellahina, tendo nascido n'uma aldêa á margem do Nilo, revoltou-se contra o seu califa. Assim, elle reune o duplo prestigio de um Spartacus e de um Christo.
Concentrada a questão entre uma poderosa nação invasora e um patriota que defende o seu solo—a Europa tomou logo a sua tradicional attitude: isto é, murmurou algumas palavras de branda admoestação, e depois recuou para longe, a observar como um braço forte sabe usar da sua força, a estudar como se consuma a espoliação de um fraco.
Nos ultimos quinze annos a Prussia roubou a Dinamarca, e depois foi pela Allemanha saqueando reinos e grãos ducados; em seguida, desmembrou a França; mais tarde a Russia espatifou a Turquia; ha dous annos, subitamente, a Republica Franceza cahiu sobre Tunis, e empolgou esse desventurado estado barbaresco. Em cada um d'estes casos a Europa comportou-se como um coro das operas d'antiga escola, quando membrudo barytono, ahi pelo quarto acto, erguia o ferro sobre o tenor gentil e magrizela: o côro adeanta-se, modula uma larga phrase, agita os braços em cadencia, faz o commentario amargo da acção, brada talvez: suspendei! Depois, afastando-se em grande compostura, deixa á bocca da scena o tyranno barbudo sondando tranquillamente com a ponta da lamina o interior do galã...
Não fallemos mais na Europa. Não ha, nunca houve Europa, no sentido que esta palavra tem em diplomacia. Ha hoje apenas um grande pinhal de Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro, que se odeiam uns aos outros, tremem uns dos outros, e, por um accordo tacito, permittem que cada um por seu turno se adeante —e assalte algum pobre diabo que vegeta ou trabalha ao canto de seu cerrado. Nas largas e bem traçadas estradas do Direito Internacional, allumiadas por Ortolan e outros lumes, rouba-se de carabina alta, e rompem a cada momento brados de povos assassinados. A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia estar coberta d'estes avisos em lettras gordas: Beware of pick-pockets! Cautela com os salteadores.
A pequena propriedade politica tende a acabar. Toda a terra vae em breve reunir-se nas mãos de quatro ou cinco grandes proprietarios... Hontem, era Tunis—porque a França necessita proteger a fronteira da Argelia. Hoje, é o Egypto—porque a Inglaterra precisa assegurar o caminho da India. Amanhã, será a Hollanda—porque a Allemanha não póde viver sem colonias. Depois, a Servia—por motivos que a seu tempo a Austria dirá. Mais tarde, a Rumania—porque a Russia é forte. Depois a Belgica— porque sim. Depois...
Este assumpto é lugubre. Voltemos ao valle do Nilo!