Cartografias do envelhecimento: velhice e terceira idade
Prólogo
Registros da memória: um inventário
de experiências
Nossa herança nos foi deixada sem nenhum testamento.
Hannah Arendt
Com essa epígrafe, Hannah Arendt inicia seu texto Entre o passado e o futuro (1972) sobre os legados que uma geração deixa a outra e que são guias imprescindíveis para que cada uma seja capaz de posicionar-se no presente como sujeito da História. Para tanto, segundo ela, é necessário que as gerações sejam capazes de nomear suas realizações, seus feitos, dar sentido a eles e, assim, poder ofertálos àqueles que chegam ao mundo.
Colocamo-nos nessa tarefa de nomear alguns feitos e apresentar seus sentidos e direções, no entanto, sem pretender ser intérprete de uma geração ou de um tempo, mas tão somente como portadora de uma razoável experiência de trabalho com a terceira idade que julgamos oportuna comunicar a outros.
Uma tarefa aparentemente simples, quando encarada como uma descrição do se fez, se disse e se ouviu, mas deveras complexa, quando se coloca o desafio de expressar seus sentidos e não o feito em si. São muitas as incertezas e dilemas quando se pretende fazer um inventário que não apenas indique o que se quer deixar como efeito de um trabalho, mas que o se selecionou e que valores se atribuíram, a fim de apreciar e analisar criticamente o que foi construído.
Primeiro, o ato de apresentar e inventariar todo um percurso de realizações quase nunca permite resgatar tudo que se fez, afinal, nem tudo possui um registro e, nesse sentido, tratam-se de realizações sem testamento, eventualmente perdidas na memória. Segundo, daquilo que está presente na memória, é difícil escolher aquilo que pode ser inventariado como um cristal de tempo e que valha a pena ser passado adiante. Tal escolha exige um exame crítico e uma refluexão cuja principal dificuldade é, exatamente, vislumbrar ou atribuir sentidos às diversas realizações, sentidos esses que não se refiram apenas às idiossincrasias de quem os realizou, mas que sejam capazes de conectar-se com aspirações e desejos coletivos.
Nesses quase cinco anos de convívio com o grupo de idosos, são muitas as histórias que vivenciamos e permaneceram, suscitando pensamentos e inquietações que nos levaram a analisar a relação do homem com a finitude e o envelhecimento, esse rosto perdido no espelho do narcisismo contemporâneo que preza por um ideal de beleza baseado na juventude. Foi uma experiência profunda e enriquecedora, não somente para as questões curriculares e profissionais.
As refluexões realizadas neste livro advêm do contato com a terceira idade propiciado pelas oficinas de psicologia oferecidas dentro da programação da Universidade Aberta à Terceira Idade da Unesp, campus de Assis. No início, a participação em tais oficinas foi como estagiária da graduação e, posteriormente, como coordenadora do grupo.
Quando passamos a atuar nessas oficinas, elas já existiam há um bom tempo, pelo menos outros cinco anos antes de nossa chegada. Portanto, herdamos um legado construído por gerações anteriores de estagiários e por muitos participantes que ali passaram. Prosseguimos uma tradição já criada, um grupo formado, com algumas pessoas que foram seus fundadores e tantas outras que estavam nele havia bastante tempo. Um grupo que já constituíra certas práticas, com raízes firmes na instituição que lhe dava guarida, com marcas identitárias referenciadas na sua história, na sua continuidade no tempo e nas formações discursivas sobre a terceira idade, especialmente aquelas do campo psi no qual estava inscrito.
Certamente acolhemos de nossos antecessores, acerca dessa oficina, heranças testadas e outras sem qualquer testamento. Daquelas testadas, ou seja, devidamente nomeadas e zelosamente transmitidas pelo docente responsável pelo projeto das oficinas e seu mentor, recebemos a indicação do referencial teórico e de princípios e objetivos norteadores deste livro.
No referencial teórico, havia uma ênfase especial na concepção de Pichón-Rivière de grupo operativo, sobretudo no que dizia respeito à importância da constituição dos vínculos afetivos, da articulação entre o implícito e as exteriorizações grupais, dos papéis emergentes na interação e da tarefa como ponto de convergência e de articulação das ações individuais.
Outra vertente do referencial teórico destacava a importância da linguagem na constituição do sujeito e do grupo, linguagem entendida não como mera representação ou conjunto de signos arranjados sob normas gramaticais e utilizados para comunicação, mas como ferramenta de produção de subjetividade, de produção de relações e de realidade social, mediante a atividade simbólica e a intervenção do discurso na materialidade do mundo. Roland Barthes, Eni Orlandi, Isidoro Blikstein, dentre outros, eram autores sempre citados e lembrados no campo da semiótica, da análise do discurso e da linguística.
Também se enfatizava o papel da sensopercepção no processo de subjetivação, porém, sensações e percepções compreendidas no campo da fenomenologia, tomadas como funções psicológicas embrenhadas de intencionalidade, articuladoras das relações do sujeito com seu mundo, compreendidas como produtoras de sentido e inteligibilidade, e não estabelecidas mecanicamente ou mediante atuações cegas. Merleau-Ponty e Ana Verônica Mautner foram autores bastante mencionados nesse sentido.
Em menor grau, porém também citado, comparecia o psicodrama e, por meio dele, as preocupações com os papéis constituídos ou potencializados nos grupos, os relacionamentos e ações defluagradas na atividade grupal e as condições geradas para o acolhimento dos participantes e para a promoção da empatia e da espontaneidade.
As oficinas possuíam uma estrutura bem definida. Subdividiam-se em três momentos assim delimitados: o do aquecimento, o da tarefa e o da refluexão. O aquecimento, como tal, continha atividades preparatórias e preliminares, com o intuito de criar um clima favorável para a realização da oficina programada para o dia. Eram utilizados recursos como brainstorming ou relaxamento, por exemplo, e tantos outros que se prestavam à entronização do trabalho principal ou do tema norteador do encontro.
O momento da tarefa abrangia a realização da atividade central do dia, programada em torno de uma questão sugerida pelo próprio grupo ou trazida pela equipe. As oficinas eram temáticas, ou seja, cada encontro organizava-se em torno de um tema orientador da tarefa. Evidentemente, sempre que ocorressem emergentes grupais destoantes do tema, esses eram objetos de consideração até que fossem superados e permitissem o retorno à tarefa programada, se fosse o caso.
Por último, o momento da refluexão tomava como objeto a própria oficina, a experiência ocorrida, em todos os seus aspectos, o conteúdo da tarefa, os acontecimentos defluagrados em torno dela, os relacionamentos entre os participantes, deles com a equipe e tantos outros que pudessem emergir. Tratava-se da ocasião da passagem da experiência para o plano intelectual, quando o pensamento e a linguagem predominavam e procurava-se, na interlocução, construir coletivamente um conhecimento daquilo que havia ocorrido no encontro. Era o momento privilegiado para transmitir ao coletivo o que havia sido vivido no plano individual, para simbolizar, dar sentido e inteligibilidade para aquilo que fora experimentado pelas sensações, de realizar um debate que envolvesse as dimensões de passado, de presente e de futuro e as contingências do envelhecimento.
A composição do grupo era basicamente de 15 a 25 pessoas, com idades entre 45 e 82 anos, predominantemente mulheres. Os homens eram bem menos numerosos, de dois a três. O nível de escolaridade também era diversificado, desde a primeira série do Ensino Fundamental até a formação universitária. Alguns eram casados, outros, solteiros, separados ou viúvos. Além dessas características básicas, havia outras diferenças entre os participantes que não impediam a convivência entre si nem criavam obstáculos para o funcionamento do grupo.
Fomos herdeiros do nome Oficina de Psicologia da Terceira Idade e, embora essa designação, como todo nome próprio, não contivesse indicações precisas de seu sentido, alguns foram bem assinalados no nosso testamento. Oficina é lugar de produção, de trabalho, de atividade. É lugar de criação, de realizações artesanais, ainda que se opere com algumas tecnologias mais sofisticadas. É lugar de encontro, reunião, de trabalho coletivo, compartilhado; de trabalho não alienado no qual o sujeito participa decisivamente do processo e da destinação final do seu resultado, do produto.
O testamento sublinhava, ainda, que nessa oficina a preocupação principal era com o processo e não com o produto, ou seja, interessava mais a maneira de fazer, os relacionamentos estabelecidos em torno da tarefa, do que o produto final. Aliás, o produto visado era o processo grupal, as realizações do coletivo, a constituição do grupo.
Assim, o grande e principal objetivo de tais oficinas era, segundo nos foi legado, a construção de um grupo, definido nos seus moldes mais tradicionais. Compreendemos essa noção como a conjunção de pessoas em um tempo e lugar determinados, mediante o compartilhamento de objetivos racionais, vinculações afetivo-emocionais e fantasias inconscientes capazes de impulsionar e articular ações e papéis individuais na direção de realizações e gratificações comuns.
Em outras palavras, tratava-se de criar um espaço dentro da universidade de existência para um grupo de velhice e de terceira idade, um espaço de encontro entre eles e deles com a comunidade universitária. Um espaço diferente daqueles habituais, no qual pudessem, diante do grande espelho da universidade e, em particular, sob o espelhamento da psicologia, projetar e recolher imagens de si mesmos até então impossíveis de serem forjadas.
Diante da empreitada de abrir caminhos possíveis para o trabalho com a velhice, cada semana era um grande exercício de refluexão e criação na tentativa de elaborar oficinas que pudessem oportunizar experiências grupais capazes de expandir o universo do idoso, a partir do questionamento dos seus papéis e de seus lugares possíveis na atualidade.
A Oficina de Psicologia constituiu um espaço de referência, de agrupamento e de relações sociais entre os idosos e a Universidade. Além disso, as atividades ofereceram-nos um lugar de análise das possibilidades de envelhecimento na atualidade, isto é, tomamos a oficina como um analisador (Lourau, 1975) da condição da velhice e da terceira idade e do homem com a finitude, refluexões estas emergentes em nosso livro.
Incitando grupos e socialidades nas oficinas
Soa extemporâneo falar em grupo em um tempo no qual se visualiza o neotribalismo como paradigma de socialidade (Maffessoli, 1998). Contudo, se insistimos em promover a associatividade grupal e não tribal em nossas oficinas com a terceira idade, não foi por desconhecimento, por aquiescência cega às nossas heranças ou por algum lapso, mas sim por uma clara determinação.
Nosso objetivo de situar o envelhecimento na contemporaneidade a partir das oficinas era uma preocupação constante nas práticas que exercíamos com os idosos. Vários autores (Bauman, 1998; Harvey, 1998) têm destacado que uma das características do mundo atual é a tendência ao isolamento, ao individualismo, à solidão e à privatização da vida humana. Portanto, falar em grupo ou coletividade pode parecer um arcaísmo frente a uma sociedade produtora de contatos interpessoais mínimos e até efêmeros.
É na velhice que recai, de forma mais intensa, o isolacionismo da sociedade contemporânea. A condição de solidão a que muitos idosos estão submetidos é avassaladora. O afastamento do mundo do trabalho, única condição de expressão e valor humanos, da vida social, do lazer e isolados no próprio espaço doméstico, suas possibilidades de contato e apropriação do mundo encontram-se bastante reduzidas.
Dessa forma, o trabalho centrado na formação de grupos com a velhice e a terceira idade permite uma experiência de enfrentamento dessa tendência de individualização e sujeição na atualidade que também afeta a velhice. Além disso, é possível romper com a experiência de segregação a que essa população está submetida.
É certo que o ímpeto grupalista pode resultar em guetificação, abafamentos das singularidades e padronização de condutas. É igualmente seguro que a retroação a modelos anteriores nem sempre é a melhor estratégia de enfrentamento de modelos de associatividade emergentes, considerados dissipadores da vida coletiva. Entretanto, para o caso específico da terceira idade, o grupo pode ser uma arma, ainda que ultrapassada, de fácil manuseio. Além disso, no contexto do projeto da Universidade Aberta à Terceira Idade, o grupo pode ser beneficiado pelo respaldo da instituição, por mais paradoxal que possa parecer.
Em nossa experiência, pudemos observar que a terceira idade é bem recebida pela Universidade na qual realizamos nossas atividades, a Unesp, campus de Assis. Verificamos que o contato dos estudantes com os idosos ocorria sempre de forma amistosa e nem sempre a partir de alguma atividade diretamente relacionada às oficinas. Logo nos corredores, quando o grupo caminhava em direção à sua sala, havia a aproximação de universitários que cumprimentavam e entabulavam conversas com os idosos. Eram diálogos prosaicos, como aqueles relatados por algumas senhoras que diziam sentir-se como avós daqueles alunos, pois eles sempre lamentavam com elas a saudade que sentiam da casa materna. Isso demonstrava o quanto eram assimiladas nesse espaço da socialidade, construído no interior da instituição, socialidade, que significa relacionamentos não submetidos ao controle e à esfera do funcionamento formal da instituição, mas sim emergentes no plano da informalidade, a partir de encontros fortuitos e das iniciativas dos próprios atores.
Além desse contato informal com os estudantes, havia outros encontros decorrentes das atividades das oficinas. Muitas oficinas tinham exatamente o propósito de defluagrar interações do grupo da terceira idade com a comunidade universitária. Os idosos, em subgrupos, entrevistavam os alunos e também professores e funcionários sobre diversos temas com filmadoras, gravadores ou anotando as respostas. Esse material era discutido no contexto da atividade, analisando-se os pontos principais de discórdia ou concordância das opiniões e as impressões geradas no grupo a partir daquela intervenção.
Realizamos, ainda, outras intervenções no espaço da Universidade, como festas, bingos, exposições de objetos e cartazes, idas à biblioteca e laboratórios, comemorações e bailes. A presença da velhice e da terceira idade em diversos lugares, algumas vezes, provocou quebras da rotina institucional, chegando a gerar descontentamentos e protestos de professores e funcionários em determinadas ocasiões. Reações desse tipo foram tão importantes quanto as de tolerância e aceitação incondicional para firmar o grupo perante os demais grupos da instituição sem protecionismos ou tutelas.
O corpo nas oficinas
As possibilidades de experimentação na velhice encontram uma série de barreiras e interditos. Uma das mais severas diz respeito ao próprio corpo. Em nossas oficinas, procuramos problematizar essa questão utilizando como disparador de imagens e sensações primárias um espelho no qual todos deveriam mirar-se. As reações foram variadas, porém, carregadas de sentimentos e expressões imediatas. Alguns manifestaram espanto, dizendo: "O espelho está mentindo! Deixe eu me arrumar... Oh, Deus, podia ser mais nova... Que coisa terrível!"(sic).
De fato, encarar a face da velhice passando pelo corpo em uma sociedade como a nossa é vivenciar o estranhamento desse outro que habita em nós. Simone de Beauvoir (1990) diz que a velhice é sempre o outro, pois o sujeito não a imagina em si mesmo. Para ela, o velho dificilmente se vê como tal, e o jovem ignora a velhice que já reside em seu corpo.
A associação entre fealdade e velhice também é algo recorrente no imaginário social. A beleza da juventude cede lugar para o seu oposto no percurso da vida: "Eu vejo uma mulher feia, velha e magra. Olha o estado a que você chegou...". Muitas vezes, busca-se o rosto perdido no espelho do tempo: "O que vejo é uma mulher que, no passado, era bonita, e hoje é só barriga", ou ainda, "Olho a foto de um homem de 72 anos que ele parece não ter".
Outras frases nos chamaram a atenção, como "Você não pode ficar pensando que está velho. É só manter o cabelo arrumado que está bom". Parafraseando Clarice Lispector, a experiência do envelhecimento é a harmonia secreta da desarmonia: "Você vai ficando feio, mas harmonioso", como disse uma senhora do grupo.
Os anos parecem acrescentar um fardo em alguns casos: "Eu olho para uma pessoa de 45 anos que parece ter 70"; "Vejo uma mulher com muita vontade de tirar o peso das costas". Mas as possibilidades de vivência do envelhecimento podem guardar outros sentidos, como bem-estar, felicidade: "Estou me vendo velha, gorda e saudável!"; "Estou vendo eu mesma. Não poderia estar melhor"; "Sou uma mulher de 59 anos e feliz"; "Os anos passaram! Tenho paz e tranquilidade".
Ao discutirmos as sensações atualizadas por essa atividade, outras falas remeteram à chegada do envelhecimento espraiando a existência humana: "Achei que a velhice ia ser gostosa. Depois que apareceu, a dor piorou... O novo é disposto. Mas a velhice vai calando na gente. A idade chega, e a gente se submete". O silêncio é ensurdecedor na experimentação do envelhecimento no corpo. Ele é o destino irremediável do homem: "Deus perdoa. A natureza, não. Vem a idade, e a gente sente no corpo o tempo e as desgraças. As perdas físicas e emocionais aparecem, mas o tempo ajuda a perceber o que você tem pela frente".
Experimentar a finitude humana no corpo é algo único frente ao interdito do contemporâneo que prega a impossibilidade da vivência do envelhecimento com a cultura de valores relativos à juventude. Tais valores correspondem não à rebeldia que consideramos típica em adolescentes, mas aos padrões de beleza impostos pelo mercado.
No mundo atual, a velhice é colocada como algo indesejável. As mudanças que ela impõe aos corpos são objetos de intervenções várias visando suas reversões, como cirurgias plásticas, cosméticos, exercícios, dietas etc. Não deixa de ser interessante a contradição de nosso tempo: com tanto arsenal tecnológico produzido na atualidade, a expectativa de vida aumentou substancialmente. No entanto, ao mesmo tempo em que o mundo moderno promete a eternidade e alonga o chronos da vida, ele não lhe reserva um campo de possibilidades. Assim, a velhice fica confinada e interditada no plano das experiências possíveis do homem. Todo esse caráter da dimensão temporal na relação do homem com a finitude incitou-nos a analisar as vicissitudes do tempo na sociedade contemporânea e sua interface com o envelhecimento em nosso livro.
Frente a um cenário de abolição do tempo, no qual a velhice é negada e se exalta a figura perene da juventude, não deixa de ser um grande desafio pensar no papel do profissional psi na atuação com idosos. É preciso romper as barreiras que impedem a vida de avançar no tempo e no espaço e diversificar as formas de subjetivação.
A sensopercepção nas oficinas
O trabalho com a sensopercepção em grupo com idosos é uma ferramenta importante para conhecer e ampliar o universo de sentidos e formas de aparecer do corpo humano. Conforme destaca Isidoro Blikstein (1983) em sua obra Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade, as sensações e as percepções funcionam como momento inaugural da produção de sentido e da subjetividade. Constituídas na práxis, as sensações básicas e as percepções elementares fornecem as impressões e figurações ou imagens primeiras mediante as quais o pensamento e a linguagem passam a operar (Rouanet, 1990).
Nas atividades de sensopercepção, procuramos potencializar e aguçar os sentidos básicos do corpo humano, muitas vezes enrijecidos e esquecidos. Trabalhar com essa temática foi muito interessante, pois buscamos dar novos significados à experiência corporal de ver, tocar, ouvir, sentir...
Nas oficinas sobre a visão, por exemplo, exercitamos a presença e a ausência desse sentido em uma atividade na qual havia uma troca de papéis entre o participante com os olhos vendados e o outro que o guiava. Houve uma situação muito interessante nesse contexto, pois havia um casal cujo homem sofria de uma deficiência visual grave, e sua companheira o ajudava no dia a dia. Quando fizemos a inversão das duplas, ou seja, quando ele foi o guia e ela passou a ser guiada, percebemos sua ansiedade ao se deixar conduzir.
Ainda sobre essa temática da visão, realizamos outras atividades que procuraram questionar o aspecto seletivo do olho humano, que muitas vezes não percebe as nuances do dia a dia. Em outra oficina, trabalhamos com as várias possibilidades de olhar o mundo por meio da troca de óculos entre os participantes. Cada um vestia as lentes do outro para experimentar as formas de ver e perceber as coisas ao redor. Essa atividade abriu margem para analisarmos e reconhecermos as diferentes perspectivas e visões de mundo.
Os outros sentidos do corpo humano também foram trabalhados ao longo desses anos de experiência, como o olfato, o paladar e a audição. Procuramos aguçar essas sensações por meio de um contato direto com diferentes objetos, como também pelo resgate de lembranças de cheiros, sons e gostos da infância.
Esse trabalho de sensopercepção com o grupo foi deveras significativo. Muitos idosos apresentavam dificuldades em algum dos sentidos, como a perda da audição, da visão, do olfato, do paladar ou até mesmo do tato, devido à maior sensibilidade provocada pelas dores de reumatismos. Dessa forma, ao colocarmos em análise essas restrições advindas com os anos, pudemos vislumbrar outras possibilidades de experimentação dos sentidos, seja pelo seu aguçamento, seja pelo resgate de memórias relacionadas às diversas sensações revividas.
Ao realizarmos atividades a partir dessa temática nas oficinas, julgamos ser necessário analisar em nosso livro a visão dos estudiosos do envelhecimento sobre o corpo idoso. Constatamos, conforme discutiremos ao longo do livro, que muitos insistem em acentuar a perda da acuidade dos sentidos e não suas potencialidades de experimentação, encerrando esse corpo em uma materialidade instituída e engessada.
O papel da linguagem nas oficinas
A função da linguagem como possibilidade de ruptura e subversão do instituído, conforme destaca Roland Barthes em seu texto Aula (1996), foi nosso referencial no trabalho com a palavra nas oficinas ou nas ofissignas, de acordo com o neologismo criado, certa vez, por um estagiário, para nomear especificamente as oficinas que tinham o signo e o processo de produção de sentido como alvo (Justo et. al., 1997, p.95).
De acordo com Barthes (idem), a língua possui um caráter eminentemente fascista por impor uma forma de dizer: uma gramática por si só é constrangedora das múltiplas condições de possibilidades de produção de sentidos. Segundo ele, o fato de a enunciação ter que se fazer a partir de um eu ou um tu já representa um amordaçamento e constrição da linguagem. Porém, adensa essa tese radical o fato de que não é possível sobreviver fora da língua e, portanto, o que resta é trapacear com ela, como fazem os poetas. Era o que buscávamos fazer modestamente, sem a pretensão de produzir grandes revoluções ou golpes criativos na linguagem.
Algumas ofissignas foram marcantes. Em uma delas, propusemos ao grupo a recriação de mensagens padrão utilizadas em datas comemorativas como o natal e ano novo ou as mensagens de felicitações de aniversário. O objetivo foi questionar a estereotipia de tais mensagens prontas e reinstituir a condição de fruição da linguagem mediante uma participação ativa de cada membro do grupo na construção de sentidos e experiências com a palavra. Em outra ocasião, o alvo foram os ditados, frases e dizeres populares, veiculadores de mensagens normativas, tais como "Deus ajuda quem cedo madruga". A proposta era subverter esses ditados, desconstruí-los e possibilitar a eclosão da polissemia, ou melhor, a produção de sentidos inversos àqueles cristalizados e assimilados mecanicamente.
Muitas outras oficinas tiveram a linguagem como centro do trabalho, utilizando-se como expediente, por exemplo, a produção de autobiografias, de poemas coletivos, relatos de "causos", escrita de cartas para entes queridos, produção e divulgação de mensagens em murais ou por meio de pequenos livretos e assim por diante.
Explorávamos as conexões possíveis da linguagem com o pensamento, a memória, a percepção, a práxis, os relacionamentos emocionais, afetivos e sociais, enfim, com toda a constelação que compõe os processos de subjetivação.
A velhice e a lei
Para analisar com o grupo a emergência e a configuração da velhice na atualidade, utilizamo-nos de várias estratégias nas oficinas. Por exemplo, tematizamos com os idosos o papel da lei na produção social da velhice e recorremos ao Estatuto do Idoso para analisar e refluetir os direitos e deveres que lhes são consignados e o tipo de envelhecimento nele concebido e implementado. Muitos participantes desconheciam seu conteúdo, por isso providenciamos cópias do Estatuto, realizamos uma apresentação sobre as principais leis e promovemos um debate sobre suas implicações. Por fim, confeccionamos diversos cartazes sobre cada aspecto da legislação, que foram expostos na Universidade, nos postos de saúde, pontos de ônibus e no comércio em geral.
A partir dessa atividade, percebemos que seria indispensável cartografar as políticas públicas dirigidas à velhice em nosso livro, pois elas poderiam nos fornecer elementos importantes para analisarmos a visão do Estado sobre essa população e as estratégias de gestão do envelhecimento, conforme discutiremos adiante.
Cabelos brancos na rua: a ocupação dos
espaços urbanos pela terceira idade
Um dos princípios básicos das oficinas estabelecia a saída paulatina do grupo do espaço no qual habitualmente se reunia para se pôr em movimento, deixar-se afetar por cineses, circular por recantos desconhecidos e habitar novos espaços. Afinal, se era imprescindível expandir o universo da velhice e da terceira idade e romper com práticas de reclusão, não se poderia mantê-los confinados em uma sala de reuniões nem mesmo nos interiores da Universidade.
A saída da toca era fundamental e fazia-se mediante incursões por regiões cada vez mais distantes e estranhas: primeiro, os corredores do prédio e áreas adjacentes à sala de reuniões do grupo, realizando entrevistas, afixando mensagens em murais e paredes, promovendo uma festa junina no saguão, por exemplo; depois, visitando e fazendo intervenções em espaços do campus para, finalmente, aventurar-se pela cidade, sobretudo, pela "cidade proibida".
Realizamos passeios por lugares diversos, como museus da cidade, parques, bailes do clube da terceira idade e, em ocasiões mais raras, lançamo-nos com mais arrojo aos espaços "proibidos", por exemplo, levando o grupo a uma "balada"de uma prestigiada casa noturna frequentada por jovens.
Ainda que as visitas e "invasões"de redutos que proscrevem a velhice não tenham se realizado na intensidade desejada, elas serviram como experiência paradigmática da importância e das possibilidades de romper com as especializações e guetificações dos espaços urbanos, fundamentais na produção de estigmas e na modelação da subjetividade.
Além das intervenções diretas nos espaços da cidade, ela foi tema de oficinas que possibilitavam interrogá-la e situá-la no plano simbólico. Programávamos exercícios individuais de perambulação por lugares não frequentados, ainda que fossem os arredores do próprio bairro, ou simples mudanças de itinerários ou ainda de localizações habituais, como o lugar que comumente ocupavam na igreja ou no ambiente doméstico.
Essas experimentações com o grupo incitaram-nos a refluetir sobre a presença e as memórias da velhice acerca da urbe e sua relação com o espaço diante das incitações do mundo contemporâneo, conforme será desenvolvido neste livro.
Remexendo o baú de memórias
As oficinas sobre a memória talvez tenham sido as principais ferramentas de nosso trabalho para promover nosso objetivo com o grupo. Era preciso testar a herança construída ao longo da vida e também aquela transmitida pelos antepassados, da qual esses idosos eram portadores. O legado cultural, para nós, era o bem maior que cada um possuía, pois no relato de histórias de vida havia a memória coletiva de um tempo. Por isso, julgamos necessário abordar algumas refluexões acerca dessa temática em nosso livro.
Dessas atividades sobre a experiência narrativa resultaram diversos cartazes e revistas que circularam na Universidade. A primeira revista que confeccionamos chamava-se O dinossauro e suas histórias; o nome foi criado e escolhido pelos próprios participantes. O conteúdo da revista era todo de causos e lendas de terror. Histórias de bruxas, mulas sem cabeça, fantasmas, lobisomens, cemitérios e velórios, heranças de um mundo fantástico perdido na memória. Por meio dessas histórias, questionamos o lugar, ou melhor, o não lugar desse legado cultural, pois até mesmo muitos netos dos participantes não se interessavam por elas.
Com as oficinas sobre a memória, analisamos a condição de narrador do idoso, uma prática hoje quase anulada, pois suas histórias muitas vezes carecem de ouvintes a quem testar suas heranças. Ecléa Bosi, em sua obra Memória e sociedade (1987), menciona que a memória só pode existir quando evocada por outrem. Encontramos essa situação em nosso grupo, quando, ao incitarmos as lembranças, muitos dos participantes alegavam que haviam praticamente se esquecido de diversas histórias de vida. Essas memórias ganharam corpo em forma de relatos, fotografias ou objetos trazidos para as oficinas.
Editamos, ainda, o segundo volume de O dinossauro e suas lembranças (com o subtítulo "recordar é viver"), no qual recorremos a memórias de costumes, hábitos e práticas do dia a dia, como o cuidado com o próprio corpo e o zelo pelo outro. No terceiro volume, realizamos um levantamento das doenças, dos medicamentos caseiros e simpatias utilizados para a cura dos males da época. A produção do grupo foi bastante extensa, e constatamos uma série de práticas hoje já extintas.
Esses dois trabalhos ajudaram a refluetir sobre a sujeição do homem moderno ao estatuto médico e científico, que extirpa do sujeito sua condição de cuidar de si e do outro, inserindo-o na lógica da governabilidade e pedagogização da vida humana, ainda mais acentuada na velhice. Tais observações fizeram-nos recorrer à refluexão sobre o papel da ciência na construção das categorias de envelhecimento e nas práticas de gestão dessa população para a elaboração de nossa cartografia.
Nas oficinas, buscamos os movimentos de contrapoder e as possibilidades de linhas de fuga com relação a esses paradigmas dominantes sobre a população idosa. Mas muitas dessas linhas se perderam ou se aprisionaram a discursos instituídos. Há pouco tempo, ao solicitarmos que o grupo levantasse propostas de temas para oficinas, um participante pediu a presença de um médico geriatra para falar sobre as doenças da velhice e os cuidados com o corpo para "envelhecer bem". Não podemos deixar de assinalar nosso espanto diante dessa sugestão, depois de tanto tempo pensando que estávamos quebrando estereotipias. De fato, o saber especialista encontra-se amplamente difundido no cotidiano. Mas qualquer prática que pretenda problematizar o instituído é um exercício constante de enfrentamento dos saberes hegemônicos e que, mesmo assim, pode ser capturada pelas forças da biopolítica (Pelbart, 2003) instituídas no contemporâneo.
Terceira idade, velhice e a finitude humana
A experiência com grupos de idosos, além de se constituir em um espaço de exercício do pensamento, é também a possibilidade de entrar em contato com a condição de finitude a que somos sujeitos. Ao longo de nosso trabalho, pessoas muito queridas deixaram-nos para sempre. Vivenciar esses lutos, sem dúvida, foi uma vivência radical para nós e para o grupo: o fantasma da morte e da dor elaborados a partir do enfrentamento das perdas em uma relação com a vida e o pensamento. Além da falta dessas pessoas tão caras para nós, outros participantes tiveram de abandonar o grupo por adoecimento. O corpo, muitas vezes cansado, pedia repouso.
A morte continua indecifrável e incontornável, apesar de todos os avanços das ciências e das demais tentativas de dar-lhe um contorno e uma inteligibilidade aceitável, como a religião. Os grupos da terceira idade constituem-se ambiguamente em relação ao espectro da morte: por um lado, fornecem o amparo e a presença dos outros, confirmando a possibilidade da manutenção e do prolongamento da vida; por outro, na medida em que aqueles que estão ao lado sucumbem, vem à tona a constatação de que ela continua em sua insidiosa ronda.
As preocupações, temores e receios pela iminência da chegada da morte imiscuíam-se em contos e causos, em narrativas nas quais ela é a personagem principal ou o plot (núcleo central) da história, como, por exemplo, em histórias que contavam sobre os cuidados com os mortos velados em casa e até mesmo em situações cômicas relacionadas a esses eventos. Certa vez, uma pessoa do grupo contou que o tradicional cafezinho servido em um velório caseiro fora feito com a água com que haviam dado banho no defunto. Lendas ou realidades à parte, a questão é que essa temática da morte e da experiência da finitude está posta sempre no grupo, seja pela perda de algum ente querido, seja pelo afastamento de um participante por adoecimento.
Essa geração que hoje denota a velhice e a terceira idade apresentou uma convivência maior com a presença da morte. As tantas histórias e casos de velório que relatam não deixam dúvidas da proximidade que mantinham com a morte ou mesmo com a doença, tratada em casa.
Atualmente, com o poderoso arsenal médico e científico, a finitude humana é tratada por uma série de procedimentos que transformaram a morte em uma experiência distal, asséptica e higiênica. A internação do doente, os exíguos horários de visitação e a delegação dos cuidados do enfermo aos médicos e enfermeiros criam um distanciamento em relação à morte e um certo cordão de isolamento entre aquele que se encontra na iminência de morrer e os outros que lhe são próximos.
O prolongamento da vida e as tecnologias médicas colocam a experiência com a morte como algo intangível e afastado do ser humano. Além disso, o morrer tornou-se objeto de mercado de funerárias, fluoriculturas, cemitérios e velórios ávidos em oferecer seus serviços.
A relação do homem com a finitude passa por diversos intermediários que cada vez mais distanciam o sujeito da sua condição de ser finito.
A experiência com o grupo da terceira idade, nesse sentido, também é disparadora dessas questões relacionadas à presença da morte no curso da vida. No caso das oficinas, vivenciamos essa relação de maneira muito próxima e, passado o luto, o desejo pela eternidade ia além da presença física daqueles que se foram, pois, tal como dizia o poeta Drummond,
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Cenas introdutórias do itinerário cartográfico Esses relatos arquivados na memória e agora testados são o ponto de partida, os primeiros passos, para apresentar o percurso percorrido na construção de nossa cartografia sobre o envelhecimento na contemporaneidade. Uma trajetória que nos apresentou alguns caminhos de possibilidades para a análise da compreensão desse fenômeno no mundo atual, cujas principais vias foram a velhice e a terceira idade, diferentes faces da relação do homem com sua condição de finitude nos espelhos do tempo.
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim
magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu
não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida a minha face?
Cecília Meireles