Cartografias do envelhecimento: velhice e terceira idade
1 Sobre a cartografia: percursos metodológicos
1 Sobre a cartografia: percursos
metodológicos
A cartografia, de acordo com uma definição geográfica, é a ciência e a arte de expressar graficamente, por mapas ou cartas, os variados aspectos de uma paisagem ou de uma superfície. Nessa ciência, o olhar do cartógrafo é parte da construção daquilo que pretende apresentar. Seu percurso, cujas marcas estão registradas no caminho percorrido e em seu diário de bordo, é traduzido em cartas que apontam aquilo que vê e sente.
Nas ciências humanas, a cartografia diz respeito, basicamente, ao mapeamento de signos, rastreando suas formações, contornos de regiões de produção de sentido, tensões que divisam e instauram discursos, estratégias de enunciação e toda significação que recorta um tempo e um lugar. Assim, ela acompanha as modulações que dão formas significativas às relações e afetos entre os homens (Rolnik, 1989).
Como um modo de análise social e de suas narrativas, a cartografia coloca-se como uma das possíveis ferramentas na pesquisa em ciências humanas (Mairesse & Fonseca, 2002). Nessa perspectiva, ela confronta o saber e o fazer pesquisa instituídos na modernidade, tal como o método cartesiano, que fixa um lugar para o pesquisador e para o objeto que se deixa conhecer.
Pesquisas que procuram impor suas verdades universalizantes, arrogando para si o estatuto de ciência, têm por princípio a chamada "neutralidade científica", ou seja, supõem o pesquisador como um elemento neutro, no processo de conhecimento da verdade e do saber, sem estar incitado pelo momento histórico, pelas conjunturas econômicas, políticas e sociais. Como um procedimento tipicamente positivista, a investigação com base no pressuposto de neutralidade realiza uma cisão entre sujeito do conhecimento e objeto a conhecer (S/O). Ao sujeito do conhecimento cabe conhecer a natureza do homem para conhecer a natureza do objeto, uma vez que seu objeto é o próprio ser humano. Nesse caso, a metodologia é o que irá possibilitar a construção da natureza em si do objeto, isto é, conceber sua verdade originária e sua essência (Dreyfus & Rabinow, 1995). Para Patrícia Kirst, "esse é o indivíduo neutro da modernidade que, esterilizado pelo método, adquire a assepsia e a pureza necessárias para investigar o real sem infectá-lo"(2003, p.93).
Na pesquisa cartográfica, o cartógrafo, parte integrante da investigação, não se pretende neutro e com um lugar pré-fixado. Dessa forma, nossa cartografia visa mapear a produção dos processos de envelhecimento, na dimensão social e histórica, especificamente os perfis engendrados na velhice e na terceira idade, mediante concepções criadas sobre elas e as gestões que as tomam como objeto de políticas públicas, no cenário brasileiro contemporâneo.
Para tanto, foi a partir do encontro entre objeto e cartógrafo que os traçados deste livro ganharam seus contornos. O que se pretende não é a configuração de um mapa, na sua totalidade homeostática, nem o desvelamento de uma verdade antes oculta. Nossa ferramenta de pesquisa incita a busca de percursos possíveis, principalmente aqueles investidos de bom sentido ou de um sentido verdadeiro, de tal maneira que escapemos da captura de caminhos anteriormente dados.
As primeiras paisagens de nossa cartografia foram avistadas ainda na graduação, quando do encontro e experimentação com um grupo de idosos que frequentavam as Oficinas de Psicologia, dentro do projeto Universidade Aberta à Terceira Idade, no campus da Unesp
de Assis. 1 A partir dessas oficinas, realizadas semanalmente e coordenadas por nós durante mais de quatro anos, surgiram algumas inquietações sobre as várias faces do envelhecimento. Rostos que nos apontavam as diferentes possibilidades de experimentações, como a vivência do luto na viuvez, a constrição ou a expansão dos espaços de circulação social, a vida de senhora recatada, da apaixonada pelos bailes da terceira idade, da alegria de ser avó, bisavó, das dores que tomam conta do corpo, as perdas, a utilização do tempo livre, as saudades e os projetos... Territórios que nos encorajaram a trilhar os diversos percursos referentes a esse objeto tão complexo, com diversas materialidades.
Ao longo desses anos de experiência com o grupo de idosos, uma das oficinas foi deveras intrigante e, ao mesmo tempo, elucidativa. Com o intuito de construir um conceito de velhice, realizamos uma atividade na qual os participantes teriam de se expressar com gestos e comportamentos típicos, de acordo com as várias idades da vida. Na fase referida à infância, eles a representaram de forma lúdica, imitando brincadeiras e fazendo gracejos. O olhar sobre a adolescência foi caracterizado por gestos típicos, tais como um andar desmazelado, o emprego de uma fala com gírias e trejeitos consumistas e frívolos. A fase adulta foi caracterizada pela escassez do tempo, na figura de um adulto envolto com seu trabalho, na correria do dia a dia. Por fim, ao solicitarmos que os idosos representassem a velhice, eles a caracterizaram como uma fase decrépita, como se o corpo estivesse em franco estágio de degenerescência e ruína. Esses gestos chamaram-nos a atenção, pois percebemos claramente que o grupo não se via nessa condição de velhice. Afinal, que velhice era aquela significada por eles? E como esse grupo de fato se representava?
Com base nessa atividade, percebemos que um novo movimento se engendrava entre a idade adulta e a velhice propriamente dita. Uma nova face que, aos poucos, foi se diferenciando do que habitualmente denominamos velhice. Estávamos lidando com a terceira idade, que apresenta atributos próprios pela relação do homem com sua finitude, conforme discutiremos ao longo deste livro. Seguramente, essa relação não é a mesma, tal como foi vivida por gerações anteriores, nem segue um fluuxo de tempo unidirecional. Portanto, trata-se de conhecer as materialidades que estruturam esses novos desenhos do envelhecimento delineados na contemporaneidade, seja a partir do encontro direto com o campo de trabalho, seja na literatura sobre o tema.
Em nosso trabalho com idosos, iniciado ainda na graduação, pudemos entrar em contato com as mais diferentes histórias de vida. Dessa convivência vinda de muitos encontros surgiram questões de fundo sobre as expressões da condição da finitude humana, principalmente com as narrativas da experiência de vida dos integrantes do grupo, relevos de uma cartografia dotada de diferentes campos de enunciação.
Para a construção dessa cartografia, foi possível observar alguns desenhos expressos em ensaios que se fizeram necessários na compreensão do fenômeno da descoberta da velhice na atualidade. Por isso, os objetos teóricos a serem utilizados serão explicitados de acordo com a necessidade da análise, no momento em que cada um deles for útil à leitura de um dado de pesquisa (Ferraz & Ferraz, 1994). Nesses anos de atuação com o grupo de idosos, pudemos realizar o registro de algumas falas, histórias e imagens que serão empregadas conforme o desenrolar de nosso livro. É importante ressaltar que houve a permissão do grupo para o aproveitamento do material produzido nas oficinas, uma vez que esse material faz parte também da vida desta pesquisadora. Seu conteúdo está inscrito na memória e no pensamento.
Em nosso livro, elegemos alguns percursos para mapearmos a condição da velhice e da terceira idade na contemporaneidade. Para tanto, na primeira parte deste livro, buscamos na literatura sobre o tema a emergência dessas categorias nas políticas públicas e na ciência, especificamente na geriatria e na gerontologia. Tal ferramenta é necessária e indispensável para compreendermos as materialidades e os atributos envoltos no processo do envelhecimento humano, pois o aumento da população idosa e a consequente aliança entre o Estado e a ciência engendraram novas práticas e saberes que incidem sobre a velhice e a terceira idade hoje em dia.
Ao interrogarmo-nos sobre a condição de envelhecimento na sociedade contemporânea, alguns relevos cartográficos emergiram em nosso livro, levando-nos a analisar sua relação com o tempo, o espaço, a memória, o mercado capitalista e a linguagem, ou seja, as condições de expressão das formas da velhice e da terceira idade na atualidade. Tais ensaios estão calcados na literatura sobre o tema e principalmente na nossa atuação com o grupo de idosos, uma vez que nessa relação sempre procurávamos questionar o lugar da velhice no tempo presente.
As cartas geográficas não se pretendem findas e definitivas. Assim como as paisagens físicas, as paisagens sociais também se modificam, ganham outros contornos. O olhar do cartógrafo constrói uma possibilidade de paisagem, mas o mapa expande-se para além de seus contornos. Por isso, a pesquisa deve comportar espaços vazios de interlocução e de recriação a partir do encontro entre cartógrafo e seu campo de trabalho. Esses espaços fazem-se necessários a fim de que a pesquisa tenha autonomia e possa experimentar as perdas que o conhecimento impõe, porque, de acordo com Kirst et al., o cartógrafo "também quer perder-se, pois é o único modo de ganhar: ganhar a experiência de se rever e de manter um certo grau de desprendimento perante a pesquisa e conhecimento produzido"(2003, p.97). Fundamentalmente, o que se pretende é dar passagem às narrativas e aos afetos da velhice, tantas vezes e por tanto tempo confinada e silenciada. Por conseguinte, esta cartografia não se constitui enquanto um fim, e sim como um meio.
1 As oficinas de psicologia com a terceira idade aconteceram semanalmente com um grupo de cerca de 25 idosos. O principal objetivo dessas atividades era construir um espaço grupal de expressão e compartilhamento de experiências comuns a essa faixa etária. A cada encontro, trabalhamos um tema elaborado previamente a partir de questões emergentes do próprio grupo ou dos coordenadores. A estrutura das oficinas era baseada no modelo de grupo-operativo de Pichón-Rivière, contemplando atividades na direção do plano sensorial para o cognitivo e do individual para o coletivo.