Cenas do Século XVIII em Portugal
Capítulo II
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Leonor em Chelas.—Antiguidade e origem dêste
convento.—Vida conventual.—As cartas do marquês de Alorna a sua mulher.—Não são escritas com sangue.— Correspondência entre Leonor e o pai.—O incidente entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia.—Versão correcta e autêntica dêste incidente que anda desfigurado nas biografias de Leonor.—Estudos.— Leitura dos filósofos franceses.—Lutas de Leonor com o pai, a mãe, a condessa do Vimieiro.—O esquecimento do passado e do presente procurado no estudo.—Confiança que Leonor tem no pai.—Festas de Chelas.—Outeiros.— Representação de Atália.—Intermédios jocosos.— Coragem e alegria de Leonor através de todo o seu infortúnio.—O problema religioso.—Ilusões simpáticas do espírito de Leonor.—O marquês de Alorna condena Voltaire a ser queimado.—Admirável resposta de Leonor. —Discussões acesas de Leonor com os confessores do convento.—Lutas de consciência.—Antagonismo entre Leonor e o seu meio.—Fantásticos projectos de salvar seus pais.—Cartas a Luís XV e a Voltaire.—Mau francês e óptimos sentimentos.—Controvérsias literárias e poéticas entre o marquês de Alorna e Leonor.—Bom senso e bom gôsto do marquês.—O que Leonor diz a respeito do amor.—A Zamparini e várias anedotas da côrte.—O marquês de Gouveia e Maria de Almeida.— Entusiasmo com que Leonor antevê a factura existência dos seus no campo.—Influência de Rousseau.—Dois projectos de casamento para Leonor.—Retrato de um fidalgo ignorante.—Versos de Chelas.—Os sonhos de Leonor.—O príncipe azul.—Morte do rei que vem libertar a família de Alorna.
Como no anterior capítulo foi dito, a 14 de Dezembro de 1758 entravam a marquesa de Alorna e suas filhas Leonor e Maria, no convento de Chelas. Fica, como se sabe, nos subúrbios de Lisboa êste mosteiro, ao qual frei Luís de Sousa consagra longos períodos de que citaremos os que seguem:
«Junto à cidade de Lisboa, ao norte dela, em distância de quási uma légua, há um vale por cópia de quintas e frescura de hortas e pomares assás deleitoso, que chamam Vale de Chelas. Havia nêle pelos anos em que vamos, de 1223, uma igreja tão antiga na primeira fundação que, sem haver quem disso duvidasse, se referia ao tempo em que a primitiva igreja florescia com favores do céu e perseguições da terra, porque sendo regada com rios de sangue de infinitos mártires, que cada hora padeciam, tomava fôrças do mesmo ferro e fogo com que era perseguida, e ia crescendo e pulando, e tomando posse do mundo. Assim é cousa certa que deram ocasião a se fundar esta igreja os gloriosos mártires S. Felix e Santo Adriano, porque padecendo ambos em tempo de Diocleciano imperador, animosa e santamente pela fé, Felix em Gerona de Catalunha, aonde veio buscar o martírio, fugindo da cidade Scilitana em que nascera, e da de Cesária em África, onde seus pais o criavam no estudo, e Adriano sendo martirisado em Nicomédia de Bithinia, por varios casos, e em tempos diferentes, vieram as santas relíquias de ambos, com muitas de outros companheiros do martírio aportar neste vale, e no lugar da igreja onde naquele tempo chegava o mar, que agora lhe fica longe quási meia légua. Foram os mártires conhecidos pela relação de quem os acompanhava, mas logo reconhecidos e reverenciados por meio de esclarecidos milagres que obraram.
«Edificou-lhes igreja a devoção de Lisboa, e foram honrados nela debaixo do nome de S. Felix, ou porque padeceu em terras de Espanha, ou porque foi o primeiro em chegar ao vale; e em testemunho da grande antiguidade ficou com o nome quási trocado no povo, chamando-se S. Pero Fins de Achelas.
«Na entrada dos mouros, que depois sucedeu, de crer é que o mêdo e a confusão que por castigo do céu oprimia os ânimos, usaria do remédio mais fácil para salvar as santas relíquias, que era enterrá-las no mesmo lugar e encomendá-las aos mesmos
santos»[19].
«Lançados os mouros de Lisboa pelo braço e valor de el-rei D. Afonso Henriques, purificadas as igrejas que haviam em pé, e reedificadas pouco a pouco as que estavam em ruína, foi povoada esta de frades, o que se vê das provisões e outros instrumentos autênticos do cartório dela, que particularmente vimos, notámos e
cotámos»[20].
Parece que os mouros reconquistando Lisboa aos leonenses expulsaram de Chelas seus habitantes, e converteram a igreja em mesquita, porquanto el-rei D. Afonso Henriques, tratando de purificar e restituir ao culto divino vários templos que os infieis tinham profanado, fôra um dêles o convento de Chelas, sendo celebrante o bispo de Lisboa D. João Peculiar, e assistindo o soberano à cerimónia da purificação e ao descobrimento e transladação das relíquias que estavam em duas caixas de mármore, as quais foram colocadas na capela mor, de modo que
ficaram servindo de altares de S. Felix e de Santo Adrião [21].
Primeiramente foi o convento duplex, e povoado pelos cónegos regrantes de Santo Agostinho. Deixou depois de ser duplex, e só nêle ficaram religiosas; não se sabe, porêm, o ano em que isto sucedeu.
O que, porêm, de tudo que acêrca dêle se escreveu pode com certeza deduzir-se, é que êste convento de Chelas é dos mais antigos e memoráveis de Lisboa.
A porta principal da entrada é de um lindo gôsto manuelino. O convento vasto, mas sem nenhuma beleza de arquitectura digna de nota. O côro em 1883 ainda se podia considerar um pequeno
museu[22] onde se encontravam várias obras artísticas, tais como quadros, jarras de merecimento, imagens de prata, loiças do Japão, etc.
Não se recomendavam pela austeridade da clausura nem pelo ascetismo contemplativo das monjas os conventos do século em tôda a Europa ocidental.
Passara havia muito o tempo dos milagres, das visões místicas, da loucura da cruz. Já ninguêm se supliciava em martírios de uma pungitiva delícia, na expiação de grandes paixões terrenas, ou na esperança ardente de uma sonhada bemaventurança. Um frígido sôpro passara, esterilizante e devastador, pelas almas e pelas consciências do tempo.
Leonor de Almeida não teve, pois, a sentir ali uma pressão que em parte alguma já existia nessa época. Pelo contrário; seria doce e calma a vida conventual para quem não tivesse lá dentro um desgôsto a minar-lhe a existência.
Reflecte-se uma espécie de suavidade íntima, de alegria transcendente no rosto das mulheres consagradas desde a mocidade à vida do claustro ou às missões da caridade. Despindo as tumultuosas paixões e as intermitentes alegrias humanas, elas despem tambêm a faculdade de se interessarem, de se entristecerem, de vibrarem ao influxo dos sentimentos mundanos.
Apagado nas almas o sombrio ascetismo mediévico, essa nevrose de que o mundo cristão sofreu tão intensamente durante séculos, ficou a doce calmaria conventual a substituí-lo. As rezas variadas, as minuciosas práticas do culto, o cultivo caprichoso das mais lindas e cheirosas flores, a produção geitosíssima de flores artificiais, de paramentos ricamente bordados, de doces em que se exibia a fantasia colectiva de cada convento, as distracções inocentes que dava a cada uma êste trabalho, para todos proveitoso, a tagarelice natural a pobres mulheres ignorantes sem responsabilidade de árduos deveres nem compreensão nítida do seu sacrifício, as visitas à grade de parentes e amigos enchiam ali o monótono giro dos dias e dos anos.
O século tinha tambêm os seus outeiros, as suas eleições, as suas festas de locutórios e de igreja.
Acudiam poetas às solemnidades do abadessado e, desde Filinto até Bocage, quantos ali fizeram brilhar o seu engenho, glosando motes, improvisando sonetos, repetindo quadras e décimas amaneiradas e requintadas. Os filhos segundos das primeiras casas do país interrompiam então as tropelias de toureiros, as arruaças nocturnas com que se deleitavam em assustar o burguês pacífico, e vinham tambêm espreitar sob o véu que a meio lhes ocultava o rosto, os lindos olhos coriscantes, os rubros lábios risonhos, as morenas faces penugentas como pêssegos, das suas primas e parentes, as lindas noviças, as doces raparigas destinadas ao serviço de Deus, por não haver cá fora quem as quisesse sem dote, ou por não consentirem as famílias que elas deslustrassem a sua altiva prosápia em casamentos menos dignos da preclara origem do seu nome.
Era um tempo estranho êste. A crença primitiva embotara-se nas almas, deixando ainda nos lábios o seu vocabulário especial, a sua tecnologia sagrada. Ninguêm se revoltava ainda abertamente contra os abusos de um regímen religioso e político que, degenerando da sua nobre origem, tinha conservado os defeitos e perdido as grandes qualidades que o haviam feito longamente viver; ninguêm se revoltava em palavras, mas as obras correspondiam ao relaxamento de tôda a disciplina, à tibieza crescente de tôda a fé.
Leonor de Almeida, dentro do convento de Chelas, pôde, mercê dessa transformação completa da disciplina conventual, ler, pensar, instruir-se, formar uma concepção pessoal do mundo e da vida, sem que ninguêm ousasse intervir no fôro íntimo da sua juvenil consciência.
Ninguêm, engano-me. Intervinham amiudadas vezes o pai, a mãe, a amiga mais querida de Leonor, a condessa de Vimieiro, Teresa de Melo Breyner, a quem ela, em versos e cartas, chama poéticamente e arcádicamente à moda do tempo, a sua Tirce. Mas a todos estes ela iludia com hábeis sofismas, ou contradizia com rigorosos argumentos. O mais penetrante espírito com que o seu se correspondia era o do pai, o marquês de Alorna, muito mais ilustrado, muito mais inteligente que o vulgar da sua classe e do seu meio, mas imbuído de muitos dos preconceitos de ambos.
Temos felizmente à vista parte das cartas inéditas dirigidas por Leonor de Almeida ao marquês seu pai, e por elas podemos reconstruir a vida das três senhoras no convento de Chelas, modificando e corrigindo com a publicação de documentos autênticos alguns dos erros que se notam no prólogo às obras poéticas da marquesa, publicadas em seis voluno ano de 1844.
Nesse prólogo, que não traz nome de autor, mas no qual se sente a inspiração da filha da marquesa de Alorna, D. Henriqueta, então dama camarista da senhora D. Maria II, se diz que o marquês de Alorna, pai de Leonor, escrevia à espôsa do seu cárcere da Junqueira, tendo por tinta o próprio sangue. Exagêro romanesco êste, que se acha desmentido no prefácio do folheto escrito pelo próprio marquês de Alorna, e publicado mais tarde pelo presbítero
José de Sousa Amado, sob o título que damos em nota [23].
Citemos o período que explica e esclarece êste ponto importante da vida do prisioneiro:
«Naquelas prisões, onde por tanto tempo gemeu a inocência e o merecimento, os presos eram privados de tinteiros, talvez pelo receio de se relacionarem uns com os outros, ou com suas famílias. O autor, porêm, desta memória excogitou um meio que muito bem lhe surtiu, para haver tinta; e foi lavar os pés das cadeiras que lhe deram pintadas de vermelho, com o vinagre que lhe ia ao jantar.»
Foi com esta tinta, de um róseo desmaiado, que temos à vista, que o marquês escrevia à mulher e à filha.
Sem serem própriamente as clássicas masmorras de séculos mais cruéis do que êste, que ainda o era tanto, os cárceres da Junqueira eram suficientemente escuros e lôbregos e infectos para que não seja necessário acrescentar à sua história tenebrosa a lenda do sangue usado como tinta pelos prisioneiros desgraçados.
Em algumas das celas em que os presos viviam—como, por exemplo, na do marquês—tão débil era a claridade do dia que penetrava por uma estreita fresta, que a luz tinha de estar perpétuamente acesa para que os infelizes que ali habitavam podessem escrever ou ler ou remendar os seus miseráveis
andrajos [24]. Por falta de tratamento e de curativo ali enlouqueceu o conde de S. Lourenço, ali morreram o conde de Óbidos e o conde da Ribeira. Ali sofreu inocente a mais atroz miséria D. Martinho de Mascarenhas, o filho do duque de Aveiro, conhecido entre os presos pelo Marquesito, e a cuja caridade engenhosa, a cuja bondosa solicitude o pai de Leonor tanto deveu na sua enclausuração. O marquês de Alorna foi, porêm, dos poucos que suportaram, em plena integridade mental e sem grandes sofrimentos físicos, êsse período tenebroso e cruel, êsse período de tormentosa perseguição que durou dezoito anos.
As cartas de Leonor, e algumas do marquês, que tivemos a fortuna de ler, revelam os finos quilates dêsse carácter de fidalgo, fiel à religião em que se criara, e na qual achou confôrto e fôrça para o longo suplício; fiel à instituìção monárquica a cujos abusos devia a sua imensa desgraça e a dos seus; coerente consigo próprio, como se não pode ser nas épocas de transição, tais como aquela em que a filha vai desenvolver-se e vai viver. O marquês de Alorna viajara, vira a côrte de França no seu ainda absoluto esplendor de etiqueta e luxo; comparara as cousas lá de fora com as nossas, e percebia a fundo a abjecta decadência em que a pátria tinha caído.
No prefácio das obras, já citado, vem a narração do incidente, ligeiramente cómico, havido entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia, mas em circunstâncias que as cartas que temos à vista contradizem.
Nem o arcebispo ameaçou Leonor com as iras do marquês de Pombal, nem a condenou a dois anos de clausura ainda mais estreita do que já era a sua; nem tão pouco a gentil poetisa de Chelas lhe deu a resposta corneliana de que reza o prefácio. Foi muito mais pacífica e muito menos romanesca a sua entrevista com o prelado. Ouçam-na tal qual ela a narra a seu pai, em uma das suas cartas:
«Chegou meu irmão a Lisboa, bem galante e estimabilíssimo, não obstante as melhoras de minha mãe, o ar frígido e coado das grades meteu mêdo ao médico e não houve remédio de condescender com os desejos que ela tinha de o ver. Passados três dias de meu irmão estar em Lisboa fêz que, muito impaciente de ver minha mãe, obtivesse um tácito consentimento da prelada, entrasse com um barril de água, que lhe custou, mas deu tudo de barato. Jantou connosco, tivemos um dia de folga, todos juntos, e saíu meu irmão à noite, segundo o costume conventual, o qual admite aqui infinitas pessoas com qualquer pretexto. Minha mãe estava fora da cama, muito contente com o filho, e nós igualmente com o irmão, nem por sombras imaginávamos que isto seria prejudicial a coisa nenhuma. Entretanto as freiras, furiosas contra nós, davam conta aos prelados, com o aspecto mais horroroso que é possível, e no dia seguinte veio a aia da prioreza chamar-me a mim e à mana, da parte do arcebispo de Lacedemónia. A primeira coisa que me lembrou foi responder que não queria lá ir. Mas permitiu Deus que minha mãe julgasse o contrário, e fomos ambas, eu e a mana. Ao entrar na grade apresentaram-se-nos dois homens; um dêles valia por um esquadrão; era uma baleia de rebuço em um capote de baeta usada, um daqueles cónegos que pasma à l’aspect d’une soupe, e sem mais cumprimento com as pupilas se assentaram os nossos dois prelados. Êste gordo era o inspector, e o arcebispo, de menor volume, disse: «V. Ex.ᵃˢ podem estar a seu gôsto.» Sentámo-nos, escarrou êle, tossiu e se rengorgeant na cadeira, principiou: «Sua majestade, a quem constou o atentado que hontem cometeram seu irmão e v. ex.ᵃˢ, violando a clausura, me manda repreender a v. ex.ᵃˢ ásperamente, e é servido ordenar que v. ex.ᵃˢ não tornem à grade até segunda ordem, e que andem vestidas honestamente, e que as suas criadas se reformem nestes oito dias, passados os quais, se o não fizerem, tem a prelada ordem para serem expulsas.» Eu e a mana ouvimos em silêncio, modestamente, estes quatro versos, e acabada uma grande prelenga que êle fêz sôbre as imunidades da clausura, respondi eu que o nome augusto de sua majestade bastava para que pessoas que tinham sido educadas com honra olhassem só com respeito quaisquer ordens, e que eu segurava a s. ex.ᵃ que elas seriam executadas com fidelidade e prontidão. Porêm, que o nome atentado era tão horroroso, que depois de protestarmos a nossa obediente submissão, restava ainda pôr na sua verdadeira luz o pretendido atentado e convertê-lo numa acção generosa, digna da piedade dos nossos legisladores, e alêm disso conforme às liberdades que eram concedidas a minha mãe. Pintei-lhe com côres bastantemente vivas um filho que despreza o trabalho mais penoso para consolar uma mãe aflita, e satisfazendo com o seu cansaço as apertadas leis da clausura. Disse-lhe que havia uma multidão de casos idênticos, e que só dezesseis anos de pezares sem esperança de alívio davam motivo a que abusassem do nosso estado as nossas acusadoras... A respeito dos vestidos os nossos não foram invejados senão por limpos, e o arcebispo mesmo se riu das respostas filosóficas (sic) que lhe dei, e da prontidão com que me quis logo vestir de côr à sua escolha, achando-me muito honrada, que el-rei se dignasse dar ordens em uma matéria que eu muitas vezes deixava ao arbítrio do mercador... A reforma das criadas consiste em dois covados de cassa postos na cabeça. Considere v. ex.ᵃ que dificuldades e que casos fazem rodar um arcebispo de Lisboa aqui, chamar-nos, repreender-nos, e no fim dizer-nos que não necessitávamos de enfeites porque somos muito bonitas. Ria-se meu querido pai, e olhe
para estas cousas como merecem.»[25]
Esta citação dá o estilo epistolar de Leonor de Almeida, que sómente ousámos alterar na pontuação e na ortografia, pois que ambas são muito defeituosas. Viva e pronta na réplica, animosa na crise, sem covardia de género nenhum, nem moral, nem física, e usando com
facilidade e graça a fraseologia peculiar do seu tempo em que a filosofia intervem a propósito de tudo. Contamos por inteiro a anedota por não ser inteiramente conforme à que se conta no prefácio das obras poéticas da marquesa de Alorna, e por esta última versão ter sido inalterávelmente repetida por todos os
biógrafos que se teem ocupado da nossa poetisa[26].
Nos dezoito anos do seu cativeiro, a primeira e mais querida ocupação de Leonor de Almeida consiste no estudo e na leitura incessante de todos os livros que lhe vêm parar às mãos. Não preside a essa leitura nem método rigoroso, nem critério seguro. Em Portugal, e naquele tempo não o havia nem nos melhores espíritos.
Muita vez Leonor se entusiasma por um autor que não merece êsse preito, muita vez mistura à lista de grandes mestres, em literatura ou em filosofia, um nome absolutamente medíocre; outras vezes, falando de autores mais célebres, deixa entrever que os compreende mal, ou que não os compreende de todo.
Mas a sêde de saber devorante, angustiosa, intensa e viva, como uma paixão que é nela absorvente, ilude-lhe deliciosamente os longos anos, os intermináveis dias da sua estreita e monótona clausura.
Leonor estuda latim e com singular aproveitamento; estuda o francês, o italiano, o inglês, o alemão; chega a estudar o árabe! Aprende e cultiva a música, canta no côro as belas melopeias sacras da liturgia católica e conventual, e na grade, no lucutório, nos serões da abadessa as cançonetas italianas com letra de Metastásio, as árias dos compositores do tempo, franceses e italianos.
Por conselho do Dr. Inácio Tamagnini, seu médico e seu amigo, põe-se um belo dia a estudar lógica, declarando ao pai que «não basta a lógica natural, que isso não é mais que um caminho andado para a saber, e por melhores que sejam as disposições, se a arte nos não diz que cousa é proposição lógica, se nos não faz conhecer que cousa é idea da imaginação ou do entendimento, quais são os erros que nos vêm dos sentidos e quais da autoridade, que cousa é crítica, o que são as ideas simples ou complexas, o silogismo, o maior, o menor, a conclusão, antimema, dilema, sorite, etc., nada
disto revela a natureza.» [27]
Portanto, ei-la que lê com afinco o professor Félice, o padre Teodoro, e Wolfio, e Verney e Port Royal, aconselhando estes autores e estes livros ao Marquesito de Gouveia, companheiro de cárcere do marquês de Alorna, e que êste sonhara dar mais tarde por marido a D. Maria de Almeida, a encantadora e fina irmã de Leonor, tão letrada ou quási tão letrada como ela, e para agradar à qual não bastam a nobreza, a elegância patrícia, a formosura viril, é tambêm indispensável a filosofia e a lógica!
A respeito dêste novo estudo compreendido sob os conselhos do bom médico, a quem o marquês de Alorna manda agradecer da Junqueira, a vida e a educação intelectual da talentosa filha, eis como o pai lhe responde inteiramente ao corrente do assunto versado:
«Parece-me muito bem o estudo da lógica, de que depende tudo quanto cabe no discurso humano, e muito particularmente a poesia e a retórica.
«Desta última arte tambêm seria conveniente que visses algum tratado.
«Nesta matéria bem sabes que te tenho falado há muito tempo. A lógica que algum dia te inculquei foi de Port Royal. Não conheço a de Mr. Félice, mas como nessa matéria não se pode inventar nada de novo tudo vem a dar no mesmo, com mais ou menos impertinência. É estudo algum tanto fastidioso, principalmente para os que teem mais lógica natural, mas os desta casta em pouco tempo o poderão devorar, e melhor é que não se dilatem nêle com excesso, porque nesta matéria o demorado artifício faz algum dano à boa natureza. Esta casta de lição tem um certo tempo em que consiste a sua conveniência, e da mesma forma que é muito proveitoso ter regras para se não equivocar com falsas aparências, como sucede muitas vezes aos poetas, tambêm o espírito sofístico não presta para nada.»
No meio dos seus estudos mais enfadonhos, as horas de distracção são tomadas pela leitura.
Pede licença ao pai para ler Rousseau[28] e Condillac, e Diderot, e Voltaire: decora Racine e Corneille, e ainda mais, Crébillon tambêm, a quem a França chamou por muito tempo o seu Sofocles! Lê Pope, lê Boileau, lê Cervantes. Tudo que lê a encanta, sem grande crítica, sem muita finura de percepção, sem um pensamento de síntese a que tanta leitura se subordine, mas devorada de curiosidade, e justificando o dito de Fontenelle de que basta a curiosidade para alimentar a existência.
De vez em quando, as influências de que já falámos e a superstição implacável do seu meio, congregam-se numa espécie de conspiração contra essa insaciável sêde de saber, que fatalmente há de ir minando nela a integridade e a pureza da sua fé católica, a sua ingenuìdade de menina e môça, e transformando-a numa criatura em absoluta desproporção, em mal disfarçado antagonismo com a sociedade hipócrita e beata, ignorantíssima e formalista, até ao fanatismo e à demência, em que ela pelo seu nascimento e posição será chamada mais tarde a viver.
Então, da alma fogosa e irrequieta de Leonor saem palavras quentes de viva eloqùência, defendendo o acesso dêsse mundo interior cujas visões a distraem, cujas maravilhas a enlevam, cujos prazeres puramente espirituais a trazem absorta e esquecida da vida rial tão pungente e tão lúgubremente solitária!...
Não, isso é que ela não consente que lhe roubem, essa vida fictícia que ela edificou com os seu livros, com os seus poetas, com os amigos dilectos da sua inteligência ávida e curiosa!
Nem os pedidos assustados da querida mãe, que ela envolve em carícias, em cuidados, em requintes de filial meiguice; nem os conselhos prudentes dêsse pai, a quem a sua alma se confessa com tão inefável e incansável ternura de todos os instantes, com quem o seu espírito tanto se compraz em conversar livremente, nem as cartas e as súplicas da amiga, entre tôdas preferida, a demovem do seu plano.
E êste plano é bem próprio dêsse século literário que tanto viveu pelo espírito, e que embora em Portugal não irradiasse os esplendores intelectuais que teve lá fora, ainda assim nos deu aqui alguns representantes típicos da ânsia de saber, de prescrutar, de sondar, de conhecer que é como que o seu cunho inconfundível e profundo. Consiste em estudar sempre, em estudar tudo, em fugir, pelos interesses vivos da inteligência, às ansiedades extenuantes da vida quotidiana, em esquecer o presente rial e concreto, pelas distracções violentas, que a uma imaginação tão irrequieta e tão ardente oferecia o mundo infinito da erudição, da poesia e da arte!
E depois é necessario não esquecer que Leonor de Almeida tinha no passado um fantasma sanguinolento e trágico: o cadafalso de Belêm! Tinha no presente um pesadelo lúgubre a entenebrecer-lhe a existência, sempre que por um momento a abandonava a seu estranho sonambulismo de erudita e de poetisa: o cárcere em que o pai ia consumindo hora a hora a sua virilidade florente e bela! Tinha permanentemente a pairar como nuvem lúgubre e prenhe de tempestades essa incerteza do seu destino, êsse pavor do desconhecido, que o capricho e a tirania de um homem omnipotente
podia transformar em eterna clausura rigorosa e inquebrantável [29].
Por isso, segundo mil vezes o repete, o estudo é a disciplina que ela impôs ao espírito para o furtar ao desespêro, é o seu alibi artificialmente inventado, com que ela se furta às visões tenebrosas que lhe enchem de angústia a mocidade.
Muito orgulhosa, muito viva, muito rica de energia e de fôrça espontânea, tendo uma destas organizações fadadas para o movimento, para a luta, para o desdobramento magnífico de maravilhosas faculdades complexas, ela sente quanto lhe é fácil sucumbir, logo que, defrontando com o seu próprio destino, o contemple face a face, na trágica realidade que o reveste.
E por isso foge de si própria, e por isso pede ao pai com eloqùência sentida, que a deixe estudar, ler, trabalhar, para não sofrer muito, para não cair vencida a meio do seu caminho áspero e duro!
«Minha mãe diz que sempre que abre os livros que v. ex.ᵃ sabe que eu tenho, lhes encontra uma blasfémia. É certo que o seu modo de falar (sic) que é inteiramente diverso da excessiva devoção de minha mãe pode produzir êste efeito. Emfim, eu que me limito sempre ao que v. ex.ᵃˢ podem querer, procuro modelar o horror desta melancólica inacção com a lição que me é permitida. Leio tôdas as manhãs Bourdaloue ou Fénélon, e depois disto história, poemas, lógica, metafísica. São as matérias de que gosto e creio que me são permitidos os livros em que me instruo, porque nenhum dêles deixa de ser nomeado por v. ex.ᵃ.
«A história natural faz as minhas delícias, e se v. ex.ᵃ me privar disto, seguro que me priva daquilo que mais me recreia. Concluindo, estou pronta para queimar mr. Buffon e todos os que me vierem à mão dessa espécie.»
O pai que é, como já dissemos, um homem de sólido bom senso, que tem a prudência dos pais, aguçada pela inteligência do meio em que a filha terá de viver, não desanima e continua a aconselhar!...
Uma vez, por exemplo, escreve-lhe depois de lhe falar largamente de um refutador de Voltaire, e a respeito das obras dêste:
«...Nisto é que me fundo, segundo o que alcança o meu entendimento, para pretender que tu não leias muitas obras de Voltaire. A maior parte são dignas de fogo, assim como o teem sido das censuras da Igreja, e por êsse motivo até as que não teem embaraço devem ser lidas com cautela. Êste autor é tido justamente pelo mais prejudicial que tem havido há muito tempo, por ser católico, e depois disto não tanto pela sua sabedoria como pela sua grande arte de falar. Com efeito não será fácil encontrar-se outra maior, mas ao mesmo tempo nem sei que houvesse nunca mais mal empregada, porque uma grande parte das suas obras, bem se pode dizer afoitamente que compreendem quanto há de pior na escola do deismo, do materialismo, do desafôro e da mais alta patifaria. Fala em diferentes lugares como nunca falou um infiel nem hereje contra a igreja romana. Procura sempre com o maior cuidado ocultar ou destruir quanto nela houver de edificativo, e exagera quanto pode o que se lhe tem visto de débil e humano. Essas coisas que a todos devem fazer horror, são muito nocivas aos juizos novos, vivos e femininos, e sem embargo de destituídas de provas, e às vezes opostas às mais leves luzes naturais, são ditas com expressões tão engenhosas que o demónio depara, e proferidas de um modo tão deliberado que fazem muitas vezes grande impressão, principalmente em quem for mais sensível à fôrça do consoante. Mas não é só Voltaire o autor pernicioso de quem tu deves ter cuidado de fugir; há outros, tambem modernos, de que te deves igualmente precatar, e contra os quais a lição de Bourdaloue e de Fénélon não é certamente preservativo bastante.
«O teu entendimento, tambêm podes ter a certeza que não basta, porque não houve até agora nenhum que fôsse livre de tentação e de ilusão; mas alêm disto a minha conta tambêm se funda em que muito maior será o proveito literário que vocês tirem dos livros que lhe não podem preverter o coração e o juizo, do que dêsses que, por conta da moda e de um apetite cego, se arriscam a resultar-lhe grande dano. No que toca a história natural ninguêm no mundo com razão a pode condenar. É das lições mais indiferentes que pode haver, mas sôbre a de mr. Buffon, e só no que respeita a anatomia, me parece que não convêm a uma pessoa do teu estado pela
liberdade filosófica que tomou, etc.»[30] Ao que Leonor, já se vê, se submete na aparência. Logo, porêm, que o conflito se declara abertamente, ela ilude a vontade dos que a cercam ou lhe resiste com pertinácia invencível, embora envolta nas formas do mais cerimonioso respeito, da mais formal submissão.
É que rialmente sem êsse forte derivativo do estudo, que é nela
uma idea fixa, seria incomportável o seu destino[31].
«Em vinte e dois anos que já conto não se acha paciência nem filosofia bastante para sofrer inalterávelmente tanto dano sem a
esperança do futuro.» [32] «Estes dias (o dia dos anos da mãe) em que se renovam as memoráveis ideas que temos do passado, parece-me que trazem consigo um pêso formidável.»
E esta idea de distrair-se violentamente para esquecer, aparece mil vezes sob diversas formas, mas sempre expressa com sinceridade espontânea.
O seu temperamento, diz ela, é muito melancólico. «Quando estou divertida não sinto nada; quando rezo, e sou tão miserável que me não diverte isso nada, sofro infinitamente.»
—«O que me custa é considerar a nossa infelicidade. É ver preso, oprimido, pobre e tão distante a v. ex.ᵃ, é ver como se desbaratam tôdas as ideas de felicidade que minha mãe formou, e a impossibilidade que desgraçadamente tenho para poder desempenhar os meus desejos a benefício de meus pais. Estas são as causas das montanhas que tenho sôbre o peito, e dos meus
desfalecimentos. [33] »
É contra esta tristeza medonha que a sua impressionável e ardente imaginação reage com insólita vivacidade. E sem afectação nem fingimento, assim como descreve ao pai as torturas que a pungem longe dêle, tambêm lhe narra as distracções com que ilude ou anestesia o seu sofrer.
Nas noites de inverno reùnem-se no quarto de uma. Cantam, dansam, dizem versos, falam em literatura, recitam poesias italianas.
Outras vezes há no convento exames dos respectivos estudos que teem versado.
Leonor, mais erudita e sisuda, dá conta dos primeiros oito séculos da história eclesiástica. (!) Maria, aquela doce e poética Maria que Filinto Elísio crismara em Daphne, como crismara Leonor em Alcipe, é examinada em poesia e em música!
Na eleição da abadessa acodem aos outeiros de Chelas, já celebrado por ter enclausuradas as duas lindas, discretas e infelizes filhas do marquês de Alorna, os poetas do tempo, os fidalgos tafuis parentes de ambas, os belos espíritos curiosos daquela estéril quadra literária, Garção, Filinto, etc.
E Leonor, alegre e vivaz, atira-lhe da janela para o pátio, em que se êles atropelam curiosos e ávidos de vê-las, os motes alambicados, os conceitos preciosos, ao estilo do tempo.
—Alcipe, venha mote!—clamam de baixo os vates freiráticos.
E Alcipe, e a irmã Daphne e a companheira Amaryllis (!) respondem infatigáveis, e as décimas chovem, entrelaçam-se os acrósticos, e o soneto desdobra-se monótono e falsamente majestoso, com o seu remate, que pretende ser conceituoso e que é banal, como tôda essa poesia dos outeiros e saraus poéticos do nosso século , tão vazio de pensamento e tão pobre de forma.
Um dos encantos com que Alcipe deslumbra o seu auditório consiste na memória prodigiosa que ela possue e que manifesta, repetindo a décima galanteadora ou o alambicado soneto, mal o seu autor acaba de improvisá-lo.
Há uma vibração de intensa alegria na descrição incorrecta, desordenada, sem relêvo plástico, mas cheia de vida, que Leonor faz ao pai dêsses dias de agitação, de festa, de comoção literária.
Vê-se que ela foi feita para brilhar, para gozar acremente e violentamente da vida,—não da vida feita pelos obscuros e ásperos deveres quotidianos, que dessa triunfam sómente os temperamentos contrários ao de Leonor de Almeida: os que aceitam as tarefas monótonas com resignação inquebrantável e o pêso do destino adverso com passiva tranqùilidade, os que sabem enfastiar-se com coragem e aborrecer-se com fleugma heróica;—mas da outra, da mais brilhante, que se compõe de dias felizes e noites vitoriosas, da que embriaga o espírito, da que excita perigosamente os sentidos, da que exalta em agudos espasmos a imaginação e a fantasia...
Leonor não tem, infelizmente para ela, os salões esplêndidos de uma côrte artística e literária como aqueles em que brilharam Vitória Colona ou Margarida de Navarra, madame de Lafayete ou a marquesa de Sévigné...
Não tem um centro de polida e graciosa conversação em que se toquem ao de leve, polvilhando-os de oiro, os assuntos mais fúteis e os mais áridos, os mais técnicos e os mais gerais, como aquele que, no seu tempo, em Paris se substituía à própria côrte de Versailles, e acabava por ofuscá-la absolutamente, aquele em que a parisiense, sua contemporânea, se vingava com brilho incomparável da longa obscuridade a que a mulher fôra condenada, no qual ela surgia envolvida nos mais subtis encantos da inteligência, e nas mais deslumbradoras pompas da beleza e da elegância, rainha voluptuosa de um mundo que a arte iluminava com a sua luz azul, que a literatura impregnava do seu capitoso encanto, e onde até a filosofia se fazia ligeira, acessível e risonha para que ela a assimilasse, a propagasse, a compreendesse e lhe rendesse culto.
[34]
E emquanto lá fora a apoteose da mulher se celebra magnificamente, ostentosamente, no meio do requintado luxo de uma época de sensualismo espiritualizado—é muito obscuramente, no ridículo outeiro de um convento do extremo da península, que esta criatura, feita para brilhar na mais ampla e mais elevada esfera, se deleita em mostrar o seu inquieto espírito, borboleta embriagada pelo néctar de uma falsa poesia.
¿Mas que importa o scenário, se ela o transfigurara com a sua imaginação de chama? ¿Se ela o enfeita com tôdas as pompas de seu espírito de sonhadora? ¿Se ela consegue ali conhecer o intenso gôzo de ser admirada, de todos o mais forte, o mais entontecedor para certos organismos de excepção?
Numa das oito noites consagradas à festa da eleição Leonor representa com Maria de Almeida, sua irmã, algumas scenas da tragédia de Racine Atália. Atália é Maria de Almeida. Eis como ela a descreve:
—«A mana ficou linda. Estava de donaire[35] com um vestido de uma espécie de velilho que se usa agora (porque a pragmática vai-se profanando fortemente), com o fundo côr de rosa e prata, com listas negras para fazer a rainha viúva, um véu do tal velilho branco e prata, penteadas de plumas côr de rosa e negras.
«Eu ia vestida de um velilho azul claro e prata, com listas azul ferrete, que é a côr que me fica melhor. O meu vestido foi copiado de uma estampa do sumo sacerdote, e tinha barbas que me
chegavam à cintura.» [36]
Depois desta grave tragédia racineana, houve ainda um
intermédio jocoso em que Leonor reaparece vestida de [37] frialeira,
com gibão côr de rosa e prata, mantéu verde e saia arregaçada, côr
de rosa, branca, côr de fogo e prata[38].
No baile que se seguiu à representação, tôdas as noviças de Chelas queriam dansar com as duas irmãs. É que elas são de-veras lindas e deliciosas de espírito, graça, gentileza e veia cómica. Leonor com o seu belo rosto altivo, de uma correcção que não exclue o mimo, a bôca finamente e espirituosamente recortada numa linha rubra e sinuosa, o cabelo opulentíssimo que se levanta nos voluptuosos penteados do tempo, ou que se espraia em ondas
pelas espáduas esculturais, inspirando à irmã versos entusiastas [39]; Maria, mais pálida, mais melancólica, de olhar estranho e doce, e
cuja voz celebrada por Filinto[40] é a delícia dos serões de Chelas, como será mais tarde a delícia dos saraus aristocráticos de Lisboa, onde ela aparecerá envolta no misterioso véu de etérea graça com que se cobrem aquelas que a morte tem de colher em flor!...
No dia dos anos do pai, mesmo preso e distante como está, da mãe doente e triste, ou de qualquer das duas irmãs, há festa em Chelas para obedecer ao tradicional costume antigo, cuja memória não deve quebrar-se.
A iniciativa engenhosa de Leonor é que faz tudo. De dia vai ela para a cozinha, arregaça as mangas, põe a nú os seus braços de deusa de uma plástica impecável e de uma brancura lirial, e rola as finas massas, e bate as alvas espumas, e manipula os saborosos cozinhados e faz ela própria o jantar com a elegante majestade com que lavavam roupa as princesas de Homero. Depois, findos os trabalhos grosseiros do dia, vestem ambas belos vestidos de setim côr de laranja ou côr de rosa que elas próprias cortaram e fizeram, de que inventaram ou executaram os bordados ou as rendas, e convidando alguma amiga preferida, ou mesmo descendo ao locutório e recebendo algum amigo dilecto, partilham com êles do seu pequenino banquete. Á noite dansam, cantam, tocam, riem até que o uso conventual as obrigue ao sossêgo da noite.
Quanta vitalidade, que poderoso optimismo bebido nas suas belas e pacificadoras leituras, as filhas de Alorna não manifestam nesta reacção contra a injusta fortuna e o bárbaro destino!
Não são lânguidas heroínas de um romantismo bastardo, são duas organizações perfeitas, de pronta e viva sensibilidade, tão acessíveis à dor como ao prazer, tão capazes de sofrerem com violência como de gozarem com arrebatamento.
No meio da sua miséria, das suas iniqùidades, da tirania negra que pesava sôbre as almas e sôbre os corpos, da superstição que nublava os horizontes, era optimista e forte o século ; e os seus
filhos não teriam obrado tão altas maravilhas, se a vontade fôsse nêles amolecida e doente como nos seus descendentes miseráveis! A sensiblerie começava, é certo, a ser moda em França, e a formular-se em livros, em tratados filosóficos, em tiradas trágicas, em quadros simbólicos, etc., etc. Mas a emotividade vibrante, estranha doença moderna, que nos faz tão fracos, tão susceptíveis, de um melindre tão mórbido ante as próprias dores e as alheias, não existia ainda. Foi o produto de uma lenta evolução que então começava. Os defeitos grandíssimos e as grandíssimas qualidades de que o passado se reveste aos nossos olhos, vem justamente dessa ausência quási absoluta de sentimentalismo e de ternura.
É isto que o faz ao mesmo tempo duro como o granito e resistente e forte como êle. Despreza a vida humana, é verdade; mas não se enternece diante das suas próprias dores, o que é um grande bem e quási que uma virtude.
Ás grades de Chelas acodem os amigos mais queridos da família
de Alorna. Garção é um dêles [41], e Filinto Elísio é outro. Nas obras do erudito escritor e nas da futura Marquesa de Alorna encontram-se as poesias que entre si trocavam os dois. Uma vez doente, e julgando-se perto da morte, Leonor consagra a
Francisco Manuel do Nascimento um soneto, que ela apelida ao terminá-lo:
Do rouco cisne a voz talvez extrema[42].
É Filinto quem lhe pôs o nome poético de Alcipe que ela nunca mais deixou de usar nos seus versos. A amiga mais querida, é, como já dissemos, a condessa de Vimieiro, D. Tereza de Melo Breiner, a autora da Osmia, e irmã de Pedro de Melo Breiner, tambêm grande amigo das enclausuradas senhoras. Tamagnini, o conde dos Arcos, Pedro Inácio Quintela, administrador da casa de Alorna, Frei Alexandre da Silva, depois bispo de Malaca, eis os outros amigos a quem, na truncada mas preciosa correspondência que a Marquesa de Fronteira nos confiou, Leonor de Almeida se refere com mais freqùência.
Não é natural que fôssem muito mais numerosos os seus visitantes do tempo em que estar fora da privança de el-rei e do primeiro ministro constituía um crime, quanto mais viver sob o permanente castigo que ambos teimavam em infligir a esta família desventurada.
Os dezoito anos de cativeiro de Leonor não teem, pois, peripécias interessantes ou dramáticas. Os únicos acontecimentos desta existência conventual, monótona e triste, é dentro do espírito da nossa heroína que temos de os procurar. Teem um interêsse de psicologia, não teem nenhum outro. O corpo dela, preso dentro das grades de um convento, não pode sequer mover-se para alcançar a
saúde que naquele meio asfixiante a ia de todo abandonando.[43]
Mas nunca o seu espírito repousa, pois que mil problemas das mais diversas ordens e procedências se movem e agitam dentro dêle.
Um dêsses problemas, o mais sério para uma consciência sincera e lúcida daquela época, era o religioso. Leonor de Almeida que, com o volver dos anos, se fêz estreitamente devota e intransigentemente aristocrática, era áquele tempo ledora assídua da enciclopédia, das obras de Alembert, Diderot, Helvetius, Rousseau, etc., etc. Muita vez ilude e torneia a dificuldade de conciliar esta leitura com as ordens expressas que tem do pai, apresentando só um lado das doutrinas em que se embebe, ou um aspecto dos livros que quotidianamente folheia, mas é de ver que num espírito de mulher, acessível às influências externas—e sempre espêlho que reflecte e não luz que irradia—estas leituras aturadas haviam de produzir o seu efeito natural.
Nesta fase activa e interessante da sua vida espiritual, Leonor partilha com muitos espíritos do seu século, educados na tradição católica, uma doce e simpática ilusão.
Ela pretende conciliar o racionalismo filosófico com a religião bebida na infância. Quer amar um Deus corrigido pela razão, uma religião mondada de superstição e de abusos, uma Bíblia que Voltaire houvesse préviamente aprovado, um evangelho em que o Vicaire Savoyard não encontrasse crítica alguma que apontar.
A sã filosofia, que estava então no seu fulgurante início, patrocinada pelos reis, pelos príncipes, pelos bispos e pelos grandes, não fôra ainda levada ao seu têrmo lógico por Saint-Just e Robespierre... A velha sociedade julgava possível subsistir, inteira, hierárquica, em pleno gôzo dos seus preconceitos, riquezas, privilégios e excepções, desmoronados ao vento da ironia voltaireana, os alicerces seculares em que assentava o seu domínio positivo.
Não admira que uma criança inteligente e sonhadora, tendo tido ocasião de perceber a baixeza moral a que a superstição levara êste país, tivesse a mesma ilusão que então deslumbrava tantos entendimentos luminosos...
Leonor sentia-se permanentemente sob a censura disfarçada ou clara dos que mais íntimamente privavam com ela. O próprio pai, esclarecido como era, sentia mêdo ao perceber os assomos de independência espiritual, que ela deixava transparecer nos conceitos, e naturalmente derivava de cada uma das suas leituras.
Vejâmos as cartas com que Leonor respondia às observações prudentes e cautelosas dêste amigo do seu coração, com o seu espírito melhor se entendia.
«Eu li muitas vezes as Reflexões de mr. de Bossuet, li parte da obra de l’Abbadie, que me fatigou, mas que tornarei a ler com mais gôsto. Fora disto tenho lido quanto achei a favor da religião, com desejo de fortificar a doutrina com que me criaram. Agora há muito tempo que me privo dessas leituras, de propósito, julgando que uma coisa superior a tôdas as razões humanas escusa delas; e tratando de nutrir o meu coração de virtudes que teem por fundamento esta crença, cultivo o entendimento com os conhecimentos próprios para um génio curioso, sem esperar daqui mais fruto que o de livrar-me da ociosidade e arruinar de alguma sorte a fôrça da melancolia.
«Jámais entrou nos motivos da minha aplicação algum espírito de singularidade e uma vaidade gentílica como v. ex.ᵃ lhe chama, incompatível com a modéstia de que desejo animar as minhas acções. Gosto de saber quanto cabe nas minhas fôrças, mas antes
quero ser ignorante do que indócil.»[44]
E noutra carta sôbre o mesmo assunto a que volta freqùentemente, revelando bem a importância que êle tem para o marquês de Alorna, solícito conselheiro de sua filha, e talvez, como é natural do seu sexo, do seu tempo e da sua raça, um pouco aterrado ante uma superioridade feminina, a que êle não percebe aplicação prática de espécie alguma:
«Sôbre Voltaire não acho que dizer, porque v. ex.ᵃ entende da matéria melhor do que eu. Sôbre a controvérsia sou proìbida a falar por todos os princípios, e até devo a S. Paulo a obrigação de me escusar o meu parecer absolutamente. Contudo êle é reputado como um grande filósofo e como o assombro dêste século. Eu me lastimo dos seus erros, mas não posso deixar de confessar a v. ex.ᵃ que me vieram as lágrimas aos olhos quando vi que v. ex.ᵃ lhe dava sentença de queima! De que servem homens queimados, meu querido pai? Por ventura reconhecem êles a verdade na fogueira? Não é Deus só quem deve pôr têrmo aos nossos dias? Se Deus sofre os homens miseráveis sôbre a terra, que direito teem os homens para os não sofrer? Eu conheço que v. ex.ᵃ tem muita virtude e muito juizo para decidir bem, mas eu que son mulher, com o coração muito pequeno, quando se fala em matar sempre me aflijo pelo sentenciado, seja quem for. Não está mais na minha mão!
«Deus terá piedade da minha fraqueza se não é boa, em conseqùência do preceito—de amar o próximo como a mim mesma; —queira Deus que eu não diga alguma tolice que desagrade a v. ex.ᵃ, mas copiei o meu sentimento, e disfarçá-lo parecer-me ia pior».
[45]
Êste trecho é de uma incomparável nobreza e até de uma simplicidade eloqùente e sentida, bem rara no estilo de Leonor de Almeida e da geração sua contemporânea em Portugal. Bastava êle para justificar o que no anterior capítulo escrevemos sôbre a concepção errada e cruel que acêrca da justiça havia naquele tempo entre nós, até nos espíritos mais cultos.
O marquês de Alorna tem direito a ser contado entre um dêles, e no entanto, de ânimo leve, numa carta à filha escrita do cárcere, onde agonizou dezoito anos, vítima da prepotência régia e da justiça da lei, vê-se que êle condena à pena de queima êsse Voltaire que defendeu Calas, e que fêz ouvir a sua voz eloqùente e viva, a sua voz que tinha asas e asas de fogo, em prol de tôdas as vítimas da iniqùidade humana, da iniqùidade social, da iniqùidade religiosa!
Tão pouco preço se dava então à vida do homem e ao seu sofrimento. Tão impiedosa e dura era a alma em que a superstição imprimira a sua negra influência, e que a tirania criara aos seus peitos de fera! The milk of human kindness, êsse leite da bondade humana, de que fala o poeta inglês, não corria certamente nas veias dos nossos maiores. Foi êste século que melhor do que tudo o sentiu, o criou, o fêz jorrar em mananciais permanentes da alma da humanidade, amolecida por tantas dores!... É bem verdade, e já aqui mesmo o repetimos, que pagámos com uma porção de energia êsse acrescentamento das nossas faculdades afectivas; mas abençoado o contrato que nos fêz bons, muito embora nos deixasse mais fracos...
A questão religiosa vê-se que é, a par de outras que teem relação com a sua superioridade literária, a origem de maiores tormentos para o espírito de Leonor de Almeida. É tão curiosa esta fase da sua vida íntima, que não resistimos a transcrever algumas das cartas que mais a esclarecem:
«Vou-me restabelecendo com os esforços da medicina e da filosofia; uma sem outra me seriam inúteis. Leio moderadamente, porque assim o preciso para viver, e apenas largo os livros não acho em redor de mim senão contradições que me tiranizam. A verdade e v. ex.ᵃ, que são os objectos que me obrigam a estudar, são quem me consola das perdas que faço, talvez, na opinião dos outros. A maior parte das pessoas com quem falo estão sempre de parecer contrário ao meu, e aquelas que concordam comigo ou não m’o confessam ou são tambêm vítimas dos caprichos dos outros. As sciências são um nome vago, insignificante, e elas em si mesmas são reputadas como um meio de ostentação; os melhores entendem que elas servem como um meio para saber argumentar, e não lhe vêem o fim com que eu as olho, de nos procurarem a felicidade e regularem os costumes. Ontem tive vários argumentos com o confessor de minha mãe, que sendo homem de infinito propósito e bom coração, está entestado das ideas vulgares a respeito dos filósofos modernos, e não admite absolutamente nenhum princípio honesto na aplicação fora, do que serve únicamente para a salvação eterna. Tudo inutiliza. Chama à poesia sciência de pagãos, à matemática sciência de loucos, à física meio de estabelecer nova religião; emfim prognostica que daqui a dez anos seguramente haverá alguma seita ou uma total transtornação do cristianismo. Esforcei-me inútilmente para provar que os filósofos, ainda que erravam em muita cousa, não eram, contudo, incompatíveis com o cristianismo sublime. E que a natureza que êles profundavam, era aquela obra magnífica, que mais que tôdas provava a existência de Deus, que êles olhavam com respeito as suas leis, de que Deus era o autor, e que Jesus Cristo não veio senão aperfeiçoar. Inexorável a tôdas as conseqùências que eu tirava dêstes princípios tão verdadeiros, recorreu ao ordinário meio dos que teem sistema e não teem razão, encheu de nomes injuriosos os escritores mais célebres dêste século e às injurias e gestos apostólicos deu o valor de convicções. Pretendia tirar argumentos contra Newton e outros herejes da sua irreligião, e nunca pôde admitir o princípio de que em matéria scientífica vale mais o dito de um sábio hereje, do que o de um santo ignorante.
«Eis aqui os homens de mais juizo e de maiores luzes que por cá temos!
«Eu que não quero, nem levemente, afastar-me da sujeição que devo à Igreja e às ideas de meus pais, quero que v. ex.ᵃ me diga o que crê a respeito dêstes pontos, em que os argumentos caíram, e que minha mãe não pode decidir, porque não estudou nem ao menos leu nada sôbre estas matérias. Sendo a minha razão livre como tôdas, a natureza e a ternura me persuadem que só admita o que meu pai admitir.
«Disse eu que a conquista da América tinha sido um atentado contra a espécie humana, porque a conversão daqueles povos devia ser menos obra de cães de fila, espada e artilharia espanhola, que da razão e da brandura; que Maomet persuadira a mentira com ferro e fogo, e Jesus Cristo a verdade por meio da sua cruz e da missão dos seus apóstolos; que não havia direito nenhum que permitisse tirarem-se as terras a seus próprios donos, para se darem aos tiranos que as conquistaram. E que a bula em que se fazia aos americanos a honra de os admitir na espécie humana era escusada, porque êles antes disso já eram homens. Diziam-me que devo crer que tudo isso foram obras meritórias.
«Os homens que se sacrificam por princípios de religião fazem-me lembrar os sacrifícios de Osiris, de Saturno, de Hércules, de Marte, e tanto fanatismo me parece uma coisa como outra.
«Não me absolveu o confessor porque eu lhe disse isto, e o de minha mãe, a quem fui falar para me dizer os termos em que havia de ficar para me absolverem, disse mil arengas, das quais vim a coligir que êle, no fundo, estava nos meus princípios, e que o não queria confessar para o não levarem ao santo ofício.
«Eu, que não tenho mêdo do santo ofício, como não tenho mêdo da sem-razão e dos erros, quero saber se hei de mudar de opinião, porque o confessor me reservou a absolvição até minha total emenda. O pecado que eu confessava era o de ter dito diante de pessoas menos aplicadas o meu sentimento nestas matérias.
«Lembrando-me ao mesmo tempo o texto de S. Paulo, em que nos recomenda não escandalizar os fracos; esta imprudência me atraíu tôda esta arenga que me tem aborrecido, porque quanto mais medito menos saída lhe acho. Os confessores são quási todos ignorantes e gente a quem nunca exporei as minhas dúvidas.