Cenas do Século XVIII em Portugal
Capítulo II
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
«Torquemada e outros inquisidores são no meu conceito Nero e
Calígula, Cromwell[46] e outros monstros dêstes.
«Isto dizem que é pecado; será, mas é de razão e de piedade! V. ex.ᵃ é meu pai, tem mais sciência que os frades, e tem-me mais amor, para desejar o meu verdadeiro bem. Prouvera a Deus que me podesse confessar, escusava-me o trabalho de aturar estes piedosos preocupados, ignorantes e fanat... êste nome é proìbido. Perdôe-me v. ex.ᵃ enfadá-lo com estas impertinências, mas só com v. ex.ᵃ é que me entendo, meu querido pai.
«Disse eu que todos os filósofos assentaram que a terra se movia; dizem-me que eu disse uma blasfémia, porque Copernico foi condenado e Galileu obrigado a desdizer-se.
«Disse que o clima era origem da côr negra nos homens, e que a povoação da América era um mistério incompreensível, e provei estas duas proposições. Responderam-me que a maldição de Cham e não viagens imaginárias eram a solução. Tudo isto é ridículo para quem tem lido como eu, e o partido de calar-me que eu tomo há muito tempo, se basta para tranqùilizar-me aparentemente, consterna-me porque receio que minha mãe apreenda alguma coisa que a aflija, e assim tome v. ex.ᵃ o trabalho de a tranqùilizar sôbre os meus princípios, e de dizer o que quer que eu faça. Tôdas estas coisas compadeço eu com a pureza do cristianismo. Eu olho para o evangelho e para os apóstolos como meus mestres, tudo quanto os contradiz não admito, e a Igreja nossa mãe a respeito e a olho com a mais submissa veneração. Contudo os homens são sempre homens, e assim os considero. Se eu podesse escrever quanto me lembra, v. ex.ᵃ veria que abomino as questões, e que a docilidade é o que mais me agrada. Porêm, cada um dá diversa interpretação aos termos em que argumento, e quando digo razão, verdade, amor da ordem, entendem-me sistema, ensino e transtornação; neste
têrmo sofrerei eternamente um martírio quási incomportável...»[47]
Esta carta dá-nos em flagrante realidade a luta que nesse tempo se tratava em muitas almas piedosas e elevadas, que compreendendo a pureza inefável do cristianismo, e vendo-o interpretado por um sacerdócio ou fanático até à loucura, ou ignorante até à sordidez boçal, não sabiam conciliar contradições tão violentas como afligidoras.
Leonor de Almeida não conta senão os combates de consciência de uma pobre mulher isolada, talvez um pouco puérilmente vaidosa da sua incompleta sciência, bebida em leituras truncadas, sem método e sem guia; mas que eloqùência sublime tem essa luta obscura quando a relacionamos com tudo que a consciência humana tem sofrido para se resgatar do cativeiro em que jazeu presa longos séculos! Com que piedosa ternura, nós as almas libertas dêste tempo, devemos contemplar os que padeceram suplícios sem conto para que a verdade relativa que hoje é nossa posse atingisse emfim a sua alforria e o seu império! Quantos mártires expiaram em fogueiras, em húmidas masmorras infectas, em morticínios crudelíssimos, em hecatombes abomináveis, a aspiração que tiveram à liberdade da sua consciência, à integridade do seu pensamento, à expansão inteira da sua independência mental! E os que tinham nascido nobres e francos e sinceros, e se corromperam e degradaram rastejando na sombra corrupta da hipocrisia e da mentira, porque lhes faltava a heroicidade com que se afronta o martírio, ou porque os amolecia a sensibilidade estranha dos que sentem a própria vida identificada a outras vidas?!
E os que sofreram como Leonor a luta ingente, a luta dolorosa entre as doutrinas bebidas no leite maternal, sugeridas com infinito amor por lábios de mel e olhos de inefável brandura, e sentiram irromper da lição dos livros ou da observação dos factos, ou da lógica triunfante do espírito reflectido e lúcido, a verdade que não pode ser nem desmentida nem dominada, a verdade que baptiza como água lustral, que queima como o fogo do céu, que pulveriza como raio destruindo os edifícios erguidos pelos sofismas da hipocrisia ou pela imaginação ignara das multidões?!
É grande, é imensa a dívida que contraímos com êsses que sofreram para que nós conhecêssemos a tranqùila beatitude e a serêna alegria da consciência libertada!
E não são pueris as queixas de Leonor logo que nos lembrarmos que para pensar livremente, tudo que então valia um pouco em Portugal ou teve de fugir, ou teve de degradar-se pela mentira!
Filinto, Ribeiro Sanches, Garção, Bocage, José Anastácio da Cunha, e tantos e tantos outros lá estão a provar que o receio do confessor pusilâmine não era uma desculpa vã!
E no entanto devemos confessar que quem estava na lógica da sua crença eram os que discutiam acremente com a juvenil livre-pensadora de Chelas!
Não havia conciliação possível entre o velho e o novo credo.
Não se tratava do evangelho livremente comentado pelo espírito individual, tratava-se da Igreja, poder político e poder social, ao mesmo tempo que era poder religioso, e cujos dogmas definidos, rigorosamente formulados, por um clero que, depositário da verdade, a tinha traído em benefício dos seus interesses, formava hoje um corpo que ou havia de triunfar inteiro ou inteiro caír.
O confessor da marquesa de Alorna, profetizando para dali a alguns anos o cataclismo supremo em que a velha sociedade se afundasse, revelava um tino, uma previdência e uma penetração bem raras no clero português daquela época, e muito superior, em todo o caso, à filosofia optimista e à incoerência anti-católica da sua contendora juvenil.
Com certeza que a esta carta comovedora, escrita ao pai, e que é como a confissão palpitante de uma alma sincera, e que busca entre agonias a verdade e a luz, o marquês, mais lógico consigo próprio e com a educação que lhe tinha modelado e formado a inteligência, respondeu pondo-se francamente do lado da autoridade e da tradição contra a indisciplina da filha e a vaidade gentílica do seu entendimento.
Mas não se limitou a esta escaramuça entre ela e os dois confessores a inquietação da consciência de Leonor.
A amiga Tereza de Melo Breiner escreveu-lhe, lamentando a sua índocilidade aos conselhos da Igreja, e mais de uma vez ou a chistosa ironia ou a grave reflexão de Leonor dá lugar a conflitos entre ela e a mãe, ou a amiga, ou os frades que a cercam.
A erudita reclusa conhece os textos dos doutores, as opiniões de S. Paulo, de Santo Agostinho, de Tertuliano, as conclusões dos concílios, as matérias sôbre que versam as diversas bulas, e confunde não raro os seus adversários, mostrando-se muito mais instruída do que êles nos assuntos que debatem em perpétuas controvérsias.
Mais uma carta sôbre o mesmo assunto, e com respeito à condessa do Vimeiro: «Já vejo que v. ex.ᵃ tem curiosidade sôbre o
que diz Tirce [48] a respeito dos filósofos. Na realidade, esta estimável amiga, o único defeito que tem é a tenacidade em certos pontos, e persuadida uma vez de que a filosofia era o móvel das minhas acções, independente de outros princípios mais sagrados, é impossível arrancar-lhe dos miolos esta preocupação. Na carta que há mais tempo me escreveu e a que deu origem a graça de D.
Alexandre [49], discutia largamente êsses pontos, e eu dei a resposta que então me pareceu razoável e digna de mim e dela... A consideração que eu faço dos inferiores, o desprêzo das acções más cometidas por fidalgos, o ódio à injustiça e a contradição que isto tem com o sistema de certa fidalguia ridícula que governa o mundo, são pontos críticos, e quem vê por outro modo as coisas não me dá as desculpas, nem a razão que eu mereço. Tirce (condessa de Vimeiro), que é uma santa, parece-lhe muito a propósito que tôdas as coisas vão adubadas de frases místicas,—eu que amo a religião e que a respeito muito para introduzi-la a torto e a direito, e que tudo nesta parte que pode parecer uma afectação me aborrece muito, emquanto tenho razão não cito livros santos. Como não sou hereje, nem tenho tentações contra a fé, escuso de fazer a minha protestação a cada instante, contentando-me com cativar o coração com as verdades do evangelho sem dar nisso contas a ninguêm. Agradam-me as coisas como são e prescindo de exterioridades equívocas. Tirce tem tido por isto uma grande inquietação, querendo quási para seu sossêgo, que eu lhe reze o credo em cada carta. O meu génio já v. ex.ᵃ o conhece e não é para ceder senão à ternura. A razão alheia é como a minha, e por isso não me desvio do que julgo bem feito por motivo nenhum. Escrevi a primeira carta na qual, sem abaixar o meu estilo a condescendências aborrecíveis, cuidei de explicar-me segundo o sistema da nossa santa religião, nos termos mais simples que me foi possível, e na boa intenção de tranqùilizar a minha querida amiga e de salvar-me da idea injuriosa que talvez ela tenha da minha submissão aos filósofos. Falei com uma pessoa instruída, e desafio S. Paulo para que ache na minha carta uma palavra condenável. Que efeito teve? Nenhum.
«Ficou Tirce como dantes, porêm calada. Torna outra vez a entender comigo, e verá v. ex.ᵃ pelas minhas cartas com que fundamento. Eu quási que estou tomando o partido de me calar. Na última carta dizia coisas muito mais cristãs que em nenhuma das que remeto a v. ex.ᵃ, mas estou certa que não há de bastar cousa nenhuma.»
Mas não é sómente a sua leitura dos filósofos e enciclopedistas,
de Alembert, a quem ela chama [50] o carácter mais amável, de
Voltaire, que ela considera o [51] maior dos homens do século, de
Rousseau, [52] o genio filósofo o mais raro e o mais estranho, de Diderot, menos encantador que de Alembert, mas tão estimável
como êle[53]; não é sómente a sua intimidade com os grandes escritores do tempo que a põe em antagonismo permanente com o seu meio.
É tambêm na sua qualidade de poetisa, de mulher de letras, bicho raro para a época, que de todo se esquecera ou de todo ignorava que tivesse havido no século uma floração encantadora de
latinistas, de eruditas e de literatas em tôrno da poética figura da princesa D. Maria, nessa côrte de D. Manoel, que foi umas das mais brilhantes da Renascença. O talento feminino foi sempre para o homem de tôdas as épocas e de tôdas as nações uma anomalia repugnante, uma monstruosidade inquietadora.
O talento, que é quási sempre o exagêro esplêndido de uma faculdade da imaginação ou de uma espécie da sensibilidade, não se contenta fácilmente com a obscuridade da vida doméstica.
Na transformação completa que a democracia imprimiu à sociedade moderna, o talento da mulher, se é de escritora ou de artista, pode tomar a forma especial de um produto cotado no mercado como outro qualquer, e sendo assim hoje, o homem inteligente e ilustrado, se não aplaude a mulher que trabalha pelo cérebro, chega ao menos a compreender que o tolher-lhe o direito de trabalhar seria um criminoso abuso da sua fôrça.
Na Inglaterra contemporânea centenas de mulheres escampam à miséria e à perdição pelo trabalho. São romancistas, são jornalistas, escrevem nas Revistas, colaboram em publicações especiais, publicam relações de viagens, monagrafias de sciência ou de arte, pequenos tratados de economia doméstica, etc. A França do século
conta entre os seus mais altos espíritos e mais robustos
escritores duas mulheres, uma das quais ganhou com a pena manejada pela sua pequena mão nervosa a quantia modesta, mas apetecível de um milhão!
Basta para emmudecer a vaidosa prosápia de qualquer burguês desdenhoso da actualidade esta cifra, e a apresentação daqueles factos incontestáveis.
Mas o Portugal do século , que a mão poderosa de Pombal
tentava em vão arrancar ao mais abjecto obscurantismo, à mais completa inanidade mental, e que apenas sob êste valente impulso dava alguns sinais de galvanizada energia nas indústrias práticas, nas sciências positivas, o Portugal sem poesia, sem arte, sem elegância mundana, o Portugal dos fidalgos analfabetos e arruaceiros, dos gordos capelães hipócritas e devassos, dos parasitas, dos bobos, das velhas condessas beatas que expiavam a banhos de água benta os pecados galantes da mocidade, o Portugal em que soou o riso de Tolentino degradante e cómico, de que Filinto fugiu assombrado, em que Bocage não achou lugar, e onde êle chorou e blasfemou até morrer de libertinagem, de tédio e de agonia, o Portugal asfixiante e meio bárbaro do tempo não tinha lugar que oferecesse a uma mulher escritora, a uma mulher de talento superior e de alto e desanuviado critério.
O seu meio ou havia de escorraçá-la a golpes de grosseiro escárneo, ou havia de imporse-lhe, calando-a, humilhando-a, vencendo-a.
Percebiam isto muitos dos que a cercavam. Percebia-o a própria Leonor, e como é seu hábito, hábito encantador e que enternece como uma flor azul, nascida entre as fendas de uma agreste rocha —não é a doçura a faculdade predominante dêste temperamento—é ao pai que ela confessa mais êste conflito do seu destino.
Ouçamos o que numa carta lhe diz:
«Depois de ter estudado, como v. ex.ᵃ sabe e com o fim único da minha felicidade, formei um pequeno plano para as minhas acções, que sendo conforme com as intenções dos meus queridos pais, eu podesse contentar-me tambêm e praticá-lo livremente. Meditei as minhas obrigações a respeito de Deus, da sociedade, de mim mesma; avaliei quanto me era possível, o estado do mundo, e principalmente o da minha terra, e resultou daqui assentar fixamente que eu não podia ter uma hora de sossêgo, se me lembrasse um só dia de escrever para o público. Que a êste só serviam verdades disfarçadas ou mentiras positivas, que a liberdade (ídolo do meu entendimento) seria uma vítima infeliz das máximas estranhas da minha terra, e que se queria ter fortuna com ela servisse o jugo da opinião pôsto pelas tôlas de idade, pelas ignorantes de título, e por outros indivíduos semelhantes, a que eu chamo em segrêdo baixa plebe.
«Cuidei de distinguir bastantemente o carácter das pessoas com quem falo, e com quem estabeleço muito acauteladamente as minhas relações literárias, debaixo da inspecção adorável da minha querida mãe. Assentei que o número havia de ser muito pequeno e com efeito o é. Mas fixo êste, tudo aquilo que não contradiz a idea que eu tenho da virtude e da felicidade, que são para mim o mesmo, livremente o pratico e com isso me recreio. Assentando fixamente que os meus versos não encontram o parecer de nenhuma das pessoas a quem os mostro, de quem quero o prémio, ora os dirijo a um, ora a outro dos três amigos nossos que me entendem; e gosto de o fazer assim, porque me agradam os ingleses bons e os alemães, onde vejo êste método estabelecido, como um meio para facilitar e acender mais a imaginação. O gôsto da moralidade tambêm me persuade a isto, porque fácilmente se oferecem reflexões, supondo que alguem me escuta do que falando só. Parece-me alêm disto que o meu trabalho não é uma honra, nem uma lisonja que faço áqueles homens, mas sómente um sinal da minha gratidão pelo que êles contribuem para o meu adiantamento com as suas conversações, com os seus livros, e com a emulação que me dão com as suas obras. Nenhum dêles estima essas coisas vãs que só teem valor entre os que sabem pouco. Filinto é um carácter original para a nossa terra. Conhece bem que a felicidade está em si, que lhe não vem dar honras que lhe fazem os fidalgos, não os distingue senão pela virtude ou pelos talentos. É um filósofo incapaz de sujeitar-se a lisonjas, nem de gabar-se das que recebe. V. ex.ᵃ o conhecerá, e verá que dista muito da idea que v. ex.ᵃ forma. Neste têrmo, achando, quási de portas a dentro, quanto era necessário para me ocupar agradávelmente para aqui é que escrevo, não quero que me leia ninguêm que possa reparar no que digo, porque quero falar o que entendo e o que me inspiram a razão
e a virtude.»[54]
Descontando no que a fraseologia do tempo tem de especial, de affectado—e é isto justamente que imprime data—vê-se que os sentimentos de Leonor estão a par do que mais elevado e nobre havia no século. Não aceita da crença em que a educaram senão a puríssima moral e a requintada essência evangélica; dos preconceitos sociais que bebeu com o leite destaca lúcidamente tudo que há nêles de exagerado e iníquo.
Nós que fomos educados sob um regímen absolutamente oposto ao que naquela época reinava, só pelo raciocínio conseguiremos dar um verdadeiro aprêço a esta independência de um espírito de mulher, que a tirania das ideas e a dos costumes não logrou acobardar, nem vencer.
De uma das fantasias mais simpáticas do romanesco espírito de Leonor encontramos na correspondência inédita vários documentos.
Imaginou dirigir-se a Luís XV, a Voltaire, a diversos personagens influentes da côrte de França e interessá-los pela causa de seu pai. Não podemos afirmar que as cartas atingissem o seu destino, ou mesmo que elas chegassem a ser enviadas áqueles a quem são dirigidas, mas não resistimos à tentação de transcrever alguns trechos dos rascunhos encontrados. Aqui estão em primeiro lugar passagens da carta dirigida a Luís XV. O francês é defeituoso. Hoje, qualquer rapariga educada pelos novos métodos, escrevia mais correctamente. Mas que entusiasmo pelos seus essas cartas traduzem!
«Sire. Avec le plus profond respect, avec la plus douce espérance dans ces vertus qui ont acquis à Votre Magesté le glorieux titre de Bien aimé si propre à faire la douce attente des malheureux, je viens oh grand roi, faire retentir mes plaints devant votre trône auguste...
«Une malheureuse fille de vingt deux ans, vous demande, Sire, avec des larmes, la protection pour un père et une famille que pendant l’espace de quatorze ans ont épuisé tout l’horreur du destin le plus rigoureux...
«Je suis prisionière depuis l’âge de huit ans avec ma mère et ma sœur. Dans le temps où je commençais à goûter le délicieux plaisir d’être au sein de ma famille, je fus arrachée des bras paternels; je vis traîner mon malheureux père dans un afreux cachot.
«Les frères, la mère, le père de celle qui m’a donné le jour, deux oncles, je les ai vue tous expirer dans le plus honteux tourment.
«Mon cœur affligé par ces blessures qui saignent toujours a nourri dans le malheur les précieuses connaissances des biens qu’on m’enleva. Chaque jour m’apporte un nouveau trait, chaque instant où je considère ma famille avec les marques honteuses de l’infidélité, tout mon sang bouillonne, je me sens mourir avec les désirs impuissants de faire voir l’innocence et l’honneur de ceux qui me l’ont fait connaître dès le berceau.»
Não é menos interessante nem menos romanesca nos intuitos a carta a Voltaire do que a carta dirigida a Luís XV por intervenção de um dos seus ministros.
Ao rei de França Leonor pedia a intercessão poderosa junto dos poderes da terra para libertar seu pai. A Voltaire ela pede a rectificação de apreciações que mais tarde lançarão a sombra de uma negra suspeita sôbre a inocência da sua família estremecida.
E sempre a mesma ânsia de reabilitação, é sempre a mesma actividade incansável de espírito, e sempre, ai de nós! o mesmo francês laborioso e terrível!
«C’est au defenseur de l’infortuné Calas que je porte mes plaintes. Un cœur navré par la douleur, enflammé par la gloire, et charmé par vos écrits sublimes, m’inspire un désir ardent de justifier devant les yeux d’un sage, ma famille trop honnête pour endurer la calomnie.
«C’est de vous, monsieur, que je me plains; c’est monsieur de Voltaire, cet homme illustre qui brave les préjugés, cet ami du genre human qu’avec la même plume dont il défend le juste opprimé répand le poison de l’opprobe sur des innocents parce qu’ils n’eurent pas le bonheur de naître en France. Votre siècle de Louis XV vient de tomber dans les mains d’une jeune infortunée, que dans la catastrophe du Portugal est envellopée avec sa famille dès son plus bas âge.
«C’est moi, monsieur, la petite fille des marquis de Tavora.
«Ces illustres malheureux, morts dans un echafaud, n’on point purgé, la honte attachee au crime mais subi avec de l’honneur et du courage des revers de son sort.
«Ah monsieur! Si vous n’êtes point ému à la vue du tableau effrayant de nous même, que penserai-je de la philosophie?
«Quel homme de bronze aurait pû écrire ce que vous dites, aprés avoir connu les secrets ressorts de notre chute.
«Savez vous que mon grand père a été l’objet de la haine du premier ministre? Savez-vous que ma grand mère après son retour des Indes orientales, n’avait jamais vû le moine que l’on fait son confesseur? La moindre connaissance, le moindre soupçon des malheurs que menaçaient mon Roi et ma patrie aurait obligé mes parents à verser volontairement jusqu’à la dernière goutte de son sang? S’il était possible que l’on pût concevoir cet horrible projet dans ma famille, un seul l’aurait pensé, que les autres, renouvellant les creautés anciennes, eussent, comme Brutus, fait mourir leurs enfants mêmes.
«Les préjugés sont trop puissants dans le pays que m’a vue
naître, et celui de l’honneur [55]était le partage de ma famille. L’amour du Roi, la paix de la societé, et le bien être de la famille, occupaient dans ce temps de tenèbres les cœurs de mes parents.
«Quand la maligne ambition, ce fiéau du genre humain, d’accord avec l’envie, nous plangea dans le sein de l’amertume, la nature avec tous les charmes, la grandeur, cette charmante folie des humains, étaient notre partage. Les êtres les mieux partagés par la nature, étaient aussi les mieux assortis par la fortune. Des époux jeunes e amoureux, des femmes jolies e honnêtes, des pères tendres, tout nous promettaient un bonheur inaltérable, quand l’orage vint tomber sur nos têtes. Je fus arrachée des bras de mon père à l’âge de huit ans, avec ma plus jeune sœur, et ma mère; quel tableau horrible! Dans cet âge heureux des plaisirs et de l’amour, arrachée des bras d’un jeune époux le plus aimable, qui joignait à la félicité d’êfre sage, et d’avoir des lumières qu’il avait puisées en France, les grâces de la figure! Un jeune homme aimable, un homme de lettres et de probité, fut arraché de ses bras, dans une nuit funeste, et dans le même jour elle se vit sans époux et sans père!»
Como o marquês de Alorna fôsse grande entendedor em literatura, um dos assuntos freqùentemente versados entre a filha e o pai era o da poesia. O marquês admirava francamente o engenho de Leonor; achava maravilhosas as suas odes, admiráveis os seus sonetos, e entre os dois travam-se engenhosas palestras sôbre letras.
«O que me parece que te tem atrazado muito,—escreve-lhe êle um dia,—é a demasiada crítica, e uma especulação excessiva da natureza e gôsto verdadeiro dos poemas, juntamente com a preocupação dilatada a favor do verso sôlto. Se não fôsse isso, e o demasiado trabalho e melancolia que te fizeram adoecer, terias a estas horas composto coisas prodigiosas e talvez de grande vulto.
«O bem que tem é que ainda estás a tempo de reparar o perdido. Se te quiseres dar às obras morais, no gôsto de Pope e mais poetas moralistas, farás maravilhas, com que todos fiquem espantados e te resulte grande nome.
«O que fizeres à imitação de Camões há de ser muito agradável a todos, desviando-te ao mesmo tempo do amoroso, que neste grande autor se mostra com demasia. Eu entendo que êste género lamuriento foi uma das coisas que mais deitou a perder e desacreditou a poesia. O que ela agora, para se estabelecer no conceito de tanta gente que lhe é contrária, necessita mais que tudo, é que haja poetas que preguem em verso como S. Paulo, como Séneca, etc., e a uma mulher da tua ordem e da tua criação é a quem isso compete mais que a ninguêm.»
O preconceito aristocrático, que é no marquês de uma fôrça indestrutível, manifesta-se em mil frases características no género da última citada; aqui vai outra ainda mais frisante, que arrancamos a outra carta.
—«...Não há dúvida que o conde de Tarouca era às vezes algum tanto empolado, mas tambêm é certo que aqueles a quem a natureza não deu uma certa expressão eloqùente a ideas fora do comum, não querem nunca achar naturalidade onde encontram qualquer elevação, e tudo querem reduzir ao seu modo de falar e pensar rasteiro. Não digo isto a respeito de nenhuma pessoa determinada, e só acrescento que quando encontrares algum dêstes amantes da natureza (por naturalidade), será bom que examines que tal é o seu estilo, e se o achares pertencente à classe baixa podes ter por suspeitoso tudo que lhe ouvires a respeito de elevações, principalmente de autor contemporâneo!»
Sôbre questões de técnica poética discutem, não raras vezes, os dois eruditos correspondentes. Que lição para os que perdem a coragem e o ânimo à menor contrariedade da vida, não dá êste homem no vigor da virilidade, enclausurado, perseguido, cheio de privações crudelíssimas, separado de todos os seus, e esta mulher em viço de anos, bela, nobilíssima, prometida a uma existência de alegria e luxo, encerrada desde a infância num triste convento, e tendo, apesar disso, suficiente liberdade de espírito, suficiente heroicidade de ânimo para se entreterem em discussões literárias, em controvérsias intelectuais, em comentários eruditos às respectivas leituras, em matérias emfim que os afastassem a ambos da contemplação do seu atroz destino sem esperança.
Leonor é pela poesia sôlta sem auxílio da rima, o marquês contradiz neste ponto eruditamente o gôsto de sua filha.
—«É certo que vendo-te há tempos infinitos não fazer outra coisa senão odes alatinadas, gabando cada vez mais esta casta de obra até te mostrares de todo encantada a seu respeito, tive receio de que aí ficasses para sempre, e que nunca mais te podessem reduzir a intentar outra espécie de composições. Dêste modo não tem dúvida nenhuma que perderias infinito daquela galanteria e grande arte de agradar que todos te admiram, porque a maior parte da gente, entrando nela innumeráveis poetas, não estão a favor da soltura do verso, nem é natural que admitam as tais odes senão se forem poucas, e atendendo a muitas outras coisas mais agradáveis da mesma autora. As ditas odes, vista a sua natureza, tambêm me fazem temer do teu génio, que te não separasses nunca delas, e com isso tinha tambêm mêdo que certas imperfeições nas tuas produções, em lugar da emenda fôssem sempre a crescer!... Alêm disto ficarias dêsse modo sem nunca chegares a ter de todo a rima às tuas ordens, como acham todos preciso para um poeta dizer em verso tudo que quiser, e sem cuja posse em tal grau não pode ser admitido no dia de hoje nos primeiros assentos do Parnaso. O verso sôlto com as circunstâncias que tu dizes é admirável, confesso que dêsse modo não lhe faz a rima nenhuma falta, mas da forma que tu o pintas aí é que está a maior dificuldade, e para a sua fabrica haverá muitas mais prisões e quebradoiro de cabeça. Que a rima dá fôrça a infinitas coisas que sem ela seriam semsabores, não tem dúvida nenhuma. Será preocupação, mas da forma que todos estão encasquetados a favor dessa dificuldade aparente, necessita o verso sôlto para agradar um tal carácter que serão sem comparação em maior número os versos rimados que possam parecer excelentes. A dita dificuldade sempre se exigiu na poesia, e assim parece preciso para suprir a sublimidade que nem sempre se pode encontrar, principalmente nas obras mais compridas. Entre os antigos a diabrura dos pés ainda era de mais trabalho...
«Veremos as odes de Laura e Petrarca[56]. Entendo que serão excelentes e sôbre o amor platónico não haveria pouco que dizer. Creio que o teu é dessa casta (o que ela celebrava numa ode em que se fingia Petrarca ou Laura), mas como a maior parte do mundo está a êste respeito de um materialismo terrível, por essa razão estou pelo que já disse, e acho preciso evitar-se tudo a que pela malignidade das gentes se pode dar uma má interpretação.»
Leonor é que se não deixa fácilmente convencer. Apesar do bom senso e do gôsto apurado do pai, ela cheia da sua razão, defende-se enérgicamente.
«Diz v. ex.ᵃ que eu estou em termos de tresler em matéria de poesia, quando eu entendo que nunca estive em melhores termos do que estou presentemente.
«Será talvez demasiada presunção, porêm, se v. ex.ᵃ me conhecer bem, verá que, o que eu disse não é o efeito de uma sujeição servil aos antigos dos quais me desgostam infinitas coisas. É certo que as odes de Horácio me agradam infinitamente, e que sempre me agradaram coisas similhantes na nossa língua. Bem vejo que a rima é um adorno muito bonito, porêm desnecessário em muitos casos quando a medida é certa e o verso por si harmonioso. As odes pedem um certo vôo que não sofre a mínima sujeição, e a das consoantes é lei forte que
Maudit soit le premier dont la verve insensée Dans ces bornes étroits renferma la pensée.
«Não se encontrará fácilmente uma ode rimada que seja boa, e eu aconselhava a todos que as fizessem assim, que lhe chamassem cantigas, versos ou coisas, como chama um galante poeta da nossa terra a tôdas as suas composições. V. ex.ᵃ não é dêste parecer, e é esta a minha única desconsolação, porque a não ter esta razão de descontentar-me, tôdas as mais estão da minha parte. V. ex.ᵃ bem sabe que cada palavra ou contêm uma idea simples ou complexa, ou se desvia ou se dirige ao todo do discurso. Não é possível que em tôdas as palavras das rimas se ache uma concordância admirável com o desenho do poeta, e em tendo de quebrar o discurso no fim do verso, já se rebate o vôo e sublimidade que exige esta sorte de poema, nascem ideas novas, constrange-se a mente, não corre como de fonte o tal licor de Castalia, e só numa língua em que as palavras tenham muitas rimas consentirei que as odes sejam rimadas. O poeta distingue tanto a poesia da rima que sendo o verso cheio, harmonioso, livre e de palavras puras não prova menos recreio nos que chamamos soltos que nos rimados. O ponto está em que as ideas sejam claras, poéticas e bem formadas; o desenho regular e sublime segundo o género em que escreve. Estou vendo que v. ex.ᵃ não há de gostar nada do meu poema da Morte, porque é feito em verso sôlto. Nem o exemplo de Camões, de João Franco(!) e de outros me poderão resolver a rimar a tal obra, porque a autoridade que um e outro se arrogaram de falar latim à portuguesa não é para se imitar. A esta hora está v. ex.ᵃ fazendo muito escárneo da minha suficiência, porêm eu tendo, graças a Deus, uma vontade bastantemente dócil, o meu entendimento tem
muito pouca sujeição, e diz [57] Almeno que eu sempre digo a torto e a direito quanto quero.»
Eis como ela responde ao que o pai lhe diz a respeito de quanto é necessário a uma mulher evitar assuntos amorosos que se prestem a interpretações malignas.
—«O que eu compreendo sempre do amor, o que me obrigou a fazer versos sôbre alguns assuntos ternos, vem a ser que o amor é o vínculo suavíssimo e a primeira virtude da natureza humana; sempre o considerei só digno das grandes almas, e tal qual o pinta ou o exige Platão. Só êste apareceu aos meus olhos, e se há alguma coisa criminosa ou perigosa de que se não deva falar, não é isso que eu entendo quando falo de Laura e Petrarca. Estes dois amantes do século , gabados pela inocência e constância do seu
amor e dos seus costumes, pareceram-me dignos de os louvar nos meus versos, e como um autor francês supôs Laura poetisa, e não aparecem os versos que ela fêz, as duas odes são de Laura.
«Uma supondo Petrarca ausente na sua embaixada da Espanha, outra, simplesmente explicando os seus sentimentos em resposta a uma canção dêle.»
Ainda a respeito do amor, leiamos êste trecho de outra carta tão singularmente característico do tempo, e não precisando de data para que um crítico o reconheça imediatamente como pertencendo ao nosso alambicado século .
—«Vejo o que v. ex.ᵃ me diz sôbre o amor. Êste sentimento ou paixão que domina o mundo, segundo tenho observado, creio que assim como o sono foge das pálpebras molhadas de lágrimas, assim êle se desvia dos corações ocupados dos grandes trabalhos. Eu tenho lido e meditado muito para ignorar absolutamente o que seja a natureza, e v. ex.ᵃ verá nos meus serões, o meu coração sem algum véu. Mas verá igualmente a minha antipatia por tudo isso. Eu
tenho um gôsto nímiamente metafísico [58], quási tudo me desgosta e me fatiga fora dos discursos e dos exercícios da alma. Simplesmente sou apaixonada de platonismo, e creio que os corações cândidos não poderiam nunca admitir outras ideas a respeito do amor. Mas tudo isto se passa em mim em razão de discurso, e jámais tomarei interêsse particular nestas matérias, que não seja dirigido pela razão de uns pais que sabem únicamente o que me convêm. Eu tenho bastante reserva nas minhas ideas; ninguêm sabe de que partido eu sou em certas coisas em que a decisão é perigosa, pode v. ex.ᵃ descansar nesta matéria.»
De resto não havia nenhuma afectação de falsa inocência de modéstia hipócrita nas relações estabelecidas por escrito entre a filha e o pai. Leonor não é uma inocente. Conhece pela sua leitura a vida, nem parece que na educação daquele tempo houvesse o cuidado exagerado, e às vezes contraproducente, que hoje há em livrar as raparigas de todo o conhecimento rial das coisas.
A prova do que dizemos é que Leonor, no intento de distrair o pai, conta-lhe as anedotas salgadas do tempo, que de fora penetram até ela através das grades de Chelas.
—«Uma coisa que tem feito grande bulha e em que nunca falei a v. ex.ᵃ é na célebre actriz que exauriu os bolsos de todos os casquilhos e veio pôr à viola a nossa terra, porque tendo (segundo entendo) pouquíssimo merecimento, sabe encantar a todos e tem dado assunto a tôdas as palestras, muito verso, muita apologia, muita satira, porêm tudo junto é papel para aquentar camisas, e fica com muito honrada serventia. A tal madama chama-se Zamperini, não é demasiado bonita, canta muito bem, e dizem que declama excelentemente; mas para crer isto precisa-se fé, pois tudo quanto dizem é muito afastado das regras dessa arte, que as necessita como qualquer outra. Dizem que é muito afectada, nímiamente desembaraçada, e outras circunstâncias que impõem para os ignorantes da nossa terra. O nosso Inácio Quintela tem desembolsado os seus cabedais, o Anselmo da Cruz, o condinho de Oeiras ao princípio, e um círculo grande de adoradores que
aparecem pintados numa satira que lhe fizeram.[59] É de um carácter muito singular. Com tôdas quantas bugiarias pôde aprender no teatro engana a todos... Eu já estou enfastiadíssima de Zamperini, mas não quis deixar de lhe dar estas notícias que teem interessado tôda a nossa terra.»
Êste trecho e outros similhantes sôbre o valido da imperatriz da Rússia, sôbre as pieguices freiráticas que ela se não cansa de repelir, etc., etc., dá a nota da intimidade que havia entre Leonor e o pai. Êste acompanha-a sempre com o mais prudente conselho, com a admiração mais estimulante, com a bondade mais perfeita. O amor do pai, pode chamar-se a única grande alegria moral que Leonor recebe durante os anos do cativeiro.
Referimo-nos já por mais de uma vez a D. Martinho de Mascarenhas, filho do duque de Aveiro, e encarcerado na Junqueira com o marquês de Alorna.
O pai de Leonor planeara que ao sair da sua prisão lhe daria a mão de sua filha mais nova D. Maria de Almeida; e êste projecto, que não foi levado a efeito, pois que nunca D. Maria I restituiu os seus títulos e honras ao filho do homem que tinha tentado assassinar seu pai, enche, no convento de Chelas, de romanesca alegria as três enclausuradas senhoras.
As duas poetisas—Maria tambêm escrevia versos e tem uma graça indescritível de expressão nas suas cartas—muito letradas ambas como se sabe, baptisaram de Tancredo o marquesito de
Gouveia[60], acrescentando que só no herói do Tasso haviam encontrado as qualidades cavalleirescas que distinguiam o carácter do jovem fidalgo português.
Leonor escrevia-lhe de Chelas: «Meu estimado mano.—Dou a v. ex.ᵃ os parabens do dia de hoje e lhe seguro que a sua vida me interessa imediatamente à de meus pais, pelo dobrado motivo do seu merecimento e por depender dela o contentamento da pessoa mais amável que eu conheço nêste mundo. V. ex.ᵃ pode julgar-se o homem mais feliz do mundo todo; os sentimentos que premeiam os
seus ferros e os cuidados que v. ex.ᵃ tem no meu triste pai [61], devem suavizar tôdas as amarguras. Neste vale de lágrimas (como diz a Salve-Raínha), não era possível uma aliança tão linda sem se merecer por desgostos tais como o nosso. Que dias tão alegres nos tem preparado o infortúnio! Alegre-se v. ex.ᵃ e consolêmo-nos mútuamente até que Deus quebre obstáculos tão tiranos.» E outra vez no meio de uma carta dirigida ao pai: «E v. ex.ᵃ, mano Tancredo, não me esquece um instante. V. ex.ᵃ, que é o estimável companheiro de meu pai, tem parte com êle em todos os nossos pensamentos.»
Quando a doença de D. José bastante pronunciada para tornar provável a sua morte próxima dá alguma remota esperança de liberdade à infeliz família de Alorna, Leonor com a sua habitual expansão, escreve ao pai pintando-lhe os quadros de felicidade familiar, que a fantasia lhe representa. «Vamos, como diz o mano
Tancredo para o Vimeiro, para Almeirim[62]; a nossa sociedade, até Deus olhará para ela com gôsto. Nunca a virtude se há de desviar
dela e a liberdade fará tôda a sua delícia.»[63] «As ideas em tumulto não sofrem nenhuma ordem, quando escrevo—acrescenta Leonor na desordenada alegria com que a desnorteia a esperança, ou o prenúncio de uma próxima libertação.—O coração cheio de sentimento e num tremor de impaciência desacomoda-se para escrever. Nada me contentava agora senão voar e entrar como um pintasilgo por essas janelas para conversar com v. ex.ᵃ. Que gôsto teria em vos ver? Já lá estou... Vejo a v. ex.ᵃ alegre, e num cárcere, quási sem luz, descorado, magro e com tôda a impressão dos seus trabalhos... Será assim, meu querido pai? Melhor fôra que v. ex.ᵃ viesse aqui aonde eu me acho. Só, em uma pequena casa, rodeada de livros, escrevendo com as lágrimas nos olhos o que me não cabe no coração. Achar-me ia uma célebre figura, com um roupão côr de fogo, forrado de peles escuras, o capuz na cabeça, sem pós, despenteada, com tôda a desordem de quem sente infinitas saudades. Que me diz v. ex.ᵃ ao delírio desta carta?... Se v. ex.ᵃ visse o apetite, o alvorôço e as saudades com que eu estou, tudo acharia pouco. Devéras, meu querido pai, o coração avistando a meta desejada corre com uma velocidade atrás dela, que nem o tempo incansável pode alcançá-lo... Diga v. ex.ᵃ ao mano Tancredo que a condessa está convidada para madrinha da mana, para que tudo seja completo.»
A idea de viver com os pais no campo (em Almeirim) lisonjeia-lhe estranhamente a imaginação educada por Jean Jacques Rousseau, que então andava revelando os encantos da simplicidade, os encantos da natureza, às frívolas raínhas dos salões de Paris.
E tôda imbuída das máximas da filosofia reinante, de que eram propagandistas os seus autores queridos, escreve ao pai, o velho fidalgo que achava Voltaire digno de queima:
«Eu cuidei que ainda tinham algum poder sôbre v. ex.ᵃ os atractivos de uma côrte brilhante, e que a glória, que de um certo modo se entende ligada à ostentação, podia ser alguma tentação para v. ex.ᵃ que perdeu o tempo melhor da sua vida no seio dos desastres (sic). Vejo que não falta nada a v. ex.ᵃ, meu querido pai, e que avalia a felicidade segundo a filosofia, que dá mais valor a ser homem que a ser fidalgo, e isto que concorda inteiramente com os meus princípios dá-me um gôsto inexplicável. Não aspira v. ex.ᵃ senão a uma vida oculta e tranqùila, aspira a provar todo o preço da sua existência, aspira a tôdas as delícias do coração sensível, e eu não aspiro senão a procurar-lh’as e a gostar com v. ex.ᵃ os prazeres que se ignoram no tumulto da côrte. Diz v. ex.ᵃ que «se esqueceu que poderia ser grande doutor se aproveitasse todo êsse tempo», e eu digo que tudo quanto v. ex.ᵃ podesse adquirir não produzia mais do que v. ex.ᵃ possue na disposição em que se acha.
«E agora vou falar com o mano Tancredo. Pode v. ex.ᵃ segurar-lhe que a sua linda noiva gostou sumamente das novas que êle dá do que sabe. Estimou muito que soubesse as duas línguas italiana e francesa. Riu com a medicina, desejando mais que êle antes fôsse físico do que médico.»
O perfume avelhantado de tôdas as cartas de Leonor é que é o seu encanto supremo para o crítico. Como elas pertencem pelo estilo ao tempo de que são datadas!... E como a par disso elas teem o cunho individual da mulher que as escrevia, tão diversa das mulheres portuguesas da sua classe, tão namorada de erudição a ponto de parecer muitas vezes um poucochinho pedante. Mas essa leve tintura de pedantismo deve ser-lhe perdoada se a considerarmos a natural reacção de um espírito inteligente e culto contra a boçalidade que distinguia a sua classe e a sociedade de que ela fazia parte muito a seu pezar. Os que pretendem conhecer a fundo a ignorância do tempo em que destacaram excepções raríssimas, leiam as descrições da sociedade portuguesa no tempo de D. Maria I, feitas por estranhos sempre mais capazes de verem
bem aquilo que vêem pela primeira vez. [64] Ela mesmo dá mais de uma vez ao pai nas suas cartas exemplos dessa boçalidade que a desespera. Eis um dêles:
«Estávamos na grade com as primas S. Miguéis e outras pessoas de confiança, de sorte que uma delas estava cantando algumas cançonetas, cuja letra era de Metastásio, e caindo naturalmente a conversação sôbre a galanteria dêste poeta, disse o Principal Boto em tom de doutor, que o Metastásio não fizera mais que copiar Tibullo e Catullo, os quais não andavam pelas mãos de todos, e por essa razão nos admirávamos tanto das belezas de Metastásio, porêm êle que as achara já na língua latina traduzidas do grego, não fizera mais do que roubar-lhes o pensamento para as pôr nas suas obras. Eis aqui como por cá se fala, meu pai, e se v. ex.ᵃ viesse havia de ouvir muitas destas. A uns que o estabelecimento das Vestais fôra formado segundo a idea das Virgens do Evangelho, a outros que as almas felizes eram conduzidas por Júpiter aos Eliseus —mil frioleiras daqueles mesmos que teem a confiança de criticarem as mulheres que podiam mandá-los jogar o pião com os
rapazes de escola.» [65]
Outras vezes fala dos desdens que pela mulher aplicada—é esta a frase do tempo—teem e manifestam os rapazes fidalgos, os que levam a vida em arruaças, façanhas de picaria, guitarradas nocturnas, orgias de baixo nível. Beckfor mais de uma vez se refere ao gôsto de freqùências baixas que há nos moços da fidalguia portuguesa, os quais se não pejam de ter por amigos os picadores, os boleeiros, os lacaios, etc., com quem dansam o fado, e se associam para as grossas pancadarias. Tudo que se lê com respeito à casta aristocrática em Portugal, revela claramente como ela voluntáriamente abdicou, abastardando-se, anulando-se, embrutecendo nas convivências de parasitas, bobos e ignorantes de má laia... Tolentino é recebido nas grandes casas pelos lados mais degradantes do seu carácter, pela veia de pedinte e de adulador, que tão negramente macula o seu estro admirávelmente cómico. A aristocracia, à qual sómente restavam os privilégios adquiridos sem nenhuma das virtudes ou das heróicas façanhas que os haviam justificado, havia fatalmente de desaparecer da scena social, logo que, abolidos êsses privilégios e disperso aos quatro ventos o património que os representava, ela aparecesse tal qual era, tal qual uma educação corruptora e péssima a tinha feito lentamente, salvas raras excepções que destacam com pitoresco relêvo, e que por isso mesmo não constituem regra.
Leonor de Almeida percebia tudo isto. A sua inteligência mais vigorosa do que feminilmente delicada, não lhe deixava a respeito da sua classe em Portugal qualquer ilusão consoladora.
É por isso que tão ardentemente busca distanciar-se do meio em que nasceu e em que pensa terá de viver, é por isso que estuda infatigávelmente, protestando por êste modo contra a ignorância que a invade como uma maré lodosa e turva.
Duas vezes, durante o cativeiro de Leonor de Almeida, tiveram seus pais o projecto de a casar, como naquele tempo se casava por conveniência de família, por alto interêsse de raça.
Um dos noivos que para ela desejaram foi D. João de Bragança, o futuro duque de Lafões, de quem falaremos mais tarde, já velho áquele tempo, e que então, receoso da tirania política de Pombal, andava casquilhando e brilhando pelas côrtes de Viena e de Versailles.
A êste projecto um tanto fantasioso, e que parece não ter tido sólidos alicerces, pôs ponto o bom senso incontestável de Leonor e do marquês.
O outro noivo que quiseram dar-lhe, e com êste se adiantaram bastante as negociações, que felizmente Leonor de Almeida conseguiu malograr a final, era D. Brás da Silveira, filho primogénito de D. Nuno de Távora, o qual, por ser irmão segundo do marquês de Távora, estava na prisão da Junqueira juntamente com o marquês de Alorna. Uma filha de D. Nuno de Távora casara com o conde da Redinha, e êste enlace de uma sua parenta próxima com o filho do perseguidor da sua família inteira, desgostava profundamente D. Leonor de Almeida. A sua principal objecção ao casamento preconizado por seus pais, era ficar em virtude dêle cunhada do conde da Redinha. Isto é que o ânimo cavalheiroso e tão ultrajado de Leonor não podia aceitar livremente.
A propósito dêstes seus parentes Silveiras fêz Leonor nas cartas ao pai um espirituoso e expressivo retrato que não deve ficar eternamente inédito, porque representa mais que uma individualidade, a final de contas obscura, representa a figura típica do fidalgo português, enfatuado, ignorante e ridículo. O retratado é D. Bernardo da Silveira, irmão daquele que os marqueses de Alorna desejavam para noivo de sua filha.
Ouçamos, pois, esta num dos seus raros momentos de verve endiabrada e natural.
«O carácter da família dos Silveiras é coisa muito célebre. Parecem-me fidalgos de província. O primo Bernardo é um daqueles que se pintam, e eu o pintara se v. ex.ᵃ me desse licença para dar quatro gargalhadas à custa do meu futuro cunhado, sem que isso ofendesse as minhas obrigações, mas falar com meu pai é pensar alto, e vou dizendo:
«É um mocetão pela figura do mano, mas de cara muito peor, contudo, persuadido da sua gentileza, crê piamente que andam nos seus ferros tôdas as belezas do mundo e toma um ar de satisfação muito célebre que faz rir.
«Com o desembaraço de colegial julga-se sábio, e zomba das belas letras de que não entende nada, celebrando sempre a profundidade dos autores de direito canónico, e os toiros, qualquer destas coisas muito interessante em uma companhia de senhoras.
«Não crê na aplicação das mulheres, e trata-nos sempre com ar de superioridade e de ignorantes, fatigando-se com explicações e pequenas histórias bastantemente impertinentes.
«Como a tia Maria tem assoprado muito a vaidade dêste e abusado da paciência, moleza e bondade do outro, observa-se uma certa altivez que vistos ambos, parece o primo Bernardo um sogro, que me faz obséquios, porque intenta casar seu filho comigo, e o outro um enteado, sem confiança com o padrasto. Eu e a mana, defronte dêstes dois indivíduos, tambêm nos podiam pintar, e se acaso se vê na minha cara a variedade de coisas que me passam pela cabeça, tambêm haveria de que rir. A tia Maria, em ar de Sybilla Comea, trata-me com o maior carinho, e eu correspondo como devo, mas estou muito costumada a reflectir para não distinguir o que é, do que parece. Do primo Brás (o futuro noivo) dará minha mãe notícias, mas eu não posso fiar de ninguêm esta anedota.
«Para agradar à sua noiva, que é aplicada, começa agora os seus estudos, por um jardim botânico e umas estufas.»
Quando o pai teima em apresentar a Leonor de Almeida as vantagens sociais do casamento com D. Brás da Silveira, ela responde-lhe com melancolia impressionadora:
«Estou nas fatais circunstâncias de ter que decidir-me, com um susto inexplicável e com o mais vivo desejo de acertar e de ser útil aos interesses de v. ex.ᵃˢ. Se me pertence a glória de ir com as minhas ansiosas diligências libertá-los, pereçam todos os sistemas em que eu tinha fundado a minha felicidade própria, e será uma sorte assás digna de satisfazer-me aquela em que eu puder servir o meu querido pai, e procurar o inteiro restabelecimento de minha mãe. Nada mais me pode obrigar ao sacrifício da minha liberdade, e a tomar o trabalhoso encargo de mãe de família. O coração e o pensamento todo ocupado das minhas perdas e das minhas aquisições apresenta-me como um desastre o sair dos braços da minha mãe, da casa de v. ex.ᵃ, para outra desconhecida, onde me não leva nenhum princípio dos que a natureza nestes laços poderia apresentar. O rapaz é um homem sem estudos; que julgará dos meus? Tem uma irmã aliada com o algoz que abomino. Como poderei eu ver de perto similhante gente? Mas representa meus avós (é filho de um tio direito da marquesa de Alorna); trabalha na liberdade de minha mãe, anuncia vagamente a de v. ex.ᵃ! Se me conseguir... oh! meu querido pai, tomara antes de separar-me desta casa, abraçar nela a v. ex.ᵃ, tomara que v. ex.ᵃ viesse aqui ensinar-me qual é o meu dever. V. ex.ᵃˢ ambos é que melhor do que eu poderiam remediar tantas perplexidades. Eu não sei o que digo, não sei o que faço, vivo em uma escuridade impenetrável... Deus me socorra, e me faça atinar com o que for melhor...»
Felizmente para a nossa biografada, o pai não teimou em dar-lhe para marido um homem que Leonor não respeitava nem amava, e a sonâmbula gentil do cláustro de Chelas continuou a ler, a sonhar, a instruir-se, a reflectir na plena liberdade do seu indisciplinado e ardente espírito.
Pena é que não tenhamos outras revelações do que ela então pensava e sentia, alêm das que encontramos nas suas cartas ao pai. Por muita confiança que aos vinte e vinte e quatro anos se tenha nos pais, nunca é a êles que uma alma juvenil se confessa inteiramente.
Os versos de Leonor feitos em Chelas e publicados no primeiro volume das suas obras, são ainda menos reveladores do que as suas cartas.
Pelo modo de versejar, Leonor pertence inteiramente nesta primeira fase da sua vida à escola pseudo-clássica do século ,
no que ela tem de mais falso e de pior.
Uma interminologia enfadonha, uma quantidade incontável de nomes e de alusões mitológicas—não da bela mitologia grega tão naturalista, tão profunda nos seus símbolos, tão ladina nas suas encarnações humanas,—mas de uma falsa mitologia, dentro da qual se não lobrigava uma idea única, e que abonando em favor da erudição de Leonor, diz muito pouco do seu coração e da sua sensibilidade.
O que, porêm, temos das suas belas cartas, de sobejo nos deixa perceber quantos sonhos se abrigariam naquela ardente imaginação de rapariga.
Tancredo—o infeliz filho do duque de Aveiro, a que estava reservado um destino tão negro—era o príncipe azul de Maria de Almeida. Leonor havia de fantasiar mil vezes o seu. Não sabia donde êle tinha de surgir um dia, mas estava certa de que viria na hora própria e de que não seria parecido com nenhum daqueles que os interesses da família por mais de uma vez tinham tentado impor-lhe.
Para êle cuidava com esmero da sua formosura singular em que tantas vezes ingénuamente se revê, com adorável garridice; para êle adorna o seu espírito de tôdas as graças, de tôdas as riquezas, de todos os encantos... Será bravo como um herói; há nela a paixão corneliana de tôdas as grandezas épicas; mas será tambêm cultivado como um sábio, eloqùente como um poeta, e profundo como um filósofo.