Cicatrizes de Aço

Victoria Aveyard · Capítulo 1 de 1 · parte 1/3

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Cicatrizes de Aço

Cicatrizes de aço

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

SÉRIE A RAINHA VERMELHA

vol. 1: A rainha vermelha

vol. 2: Espada de vidro

CONTOS DIGITAIS

Canção da rainha

Cicatrizes de aço

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO AO COMANDO

Dia 61 da OPERAÇÃO LAGOA, fase 3

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : Solm ary, LL

Destinatário: COMANDO em CENSURADO

 

OPERAÇÃO LAGOA concluída antes do cronogram a, considerada bem -sucedida. Canais e eclusas nos LAGOS PERIUS, MISKIN e NERON sob o controle da Guarda Escarlate.

Agentes CHICOTE e ÓPTICO controlarão os desdobram entos da operação, m antendo contato estreito, canais abertos para a BASE MÓVEL e o COMANDO. Protocolo de parar e perguntar im plem entado, à espera de ordens de ação.

Voltando para TRIAL com OVELHA no m om ento. Resum o da operação:

Mortos em ação: D. FERRON, T. MILLS,

M. PERCHER (3).

Feridos: LIGEIRO, COSTELA (2).

3 PRATEADOS m ortos: verde (1), forçador (1), curandeiro de pele? (1).

Núm ero de baixas civis: desconhecido.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

— Vem tem pestade aí.

O coronel fala para quebrar o silêncio. Ele encosta o olho bom num a rachadura na parede do com partim ento, observando o horizonte. O outro tam bém está aberto, em bora m al consiga enxergar através da película de sangue verm elho. Nenhum a novidade. Há anos que o olho esquerdo está assim .

Sigo seu olhar, espiando entre as ripas frouxas de m adeira. Nuvens escuras se agrupam quilôm etros adiante, tentando se esconder atrás dos m orros cobertos de vegetação. Ao longe, um a série de trovões. Não dou a m ínim a. Só espero que a tem pestade não atrase o trem e não nos force a passar um segundo a m ais escondidos debaixo do assoalho falso de um veículo de carga.

Não tem os tem po para tem pestades ou conversa fiada. Faz dois dias que não durm o e m eu rosto é a prova disso. Não quero nada além de sossego e algum as poucas horas de descanso antes de voltarm os à base em Trial. Por sorte, não há m uito o que fazer por aqui além de deitar. Assim com o o coronel, sou alta dem ais para ficar de pé neste espaço. Am bos tem os que ficar j ogados pelo com partim ento pouco ilum inado, com as costas encostadas onde der. Logo virá a noite e apenas a escuridão para nos fazer com panhia.

Não posso reclam ar do m eio de transporte. Na viagem para Solm ary, passam os m etade do cam inho num a balsa carregada de frutas. Depois de um a parada longa dem ais no lago Neron, grande parte da carga apodreceu. Passei a prim eira sem ana de operações lavando roupa para tirar o fedor. E j am ais m e esquecerei da confusão antes de iniciarm os a Operação Lagoa, em Detraon. Três dias num cam inhão de gado, para então descobrir que a capital de Lakeland estava definitivam ente fora do nosso alcance. Perto dem ais do Gargalo e da frente de guerra para ter defesas fracas, um a realidade que m enosprezei conscientem ente. Mas eu não era oficial na época, e não cabia a m im a decisão de tentar infiltrar um a capital prateada sem ter inform ações ou apoio adequados. Cabia ao coronel. Naquela época, ele era apenas um capitão com o codinom e Carneiro e m uito para provar, m uito por que lutar. Eu, pouco m ais que um a soldada recém -j uram entada, apenas o seguia. Tam bém tinha coisas para provar.

Ele m antém os olhos fixos na paisagem . Não para observar o horizonte, m as para não m e encarar. Tudo bem. Tam bém não gosto de olhar para ele.

Com ou sem afinidade, form am os um a boa equipe. O Com ando sabe, nós sabem os, e é por isso que continuam nos m andando j untos para as m issões. Detraon foi nosso único passo em falso num a m archa infinita pela causa. E por eles, pela Guarda Escarlate, deixam os nossas diferenças de lado sem pre.

— Algum a ideia do nosso próxim o destino? — Assim com o o coronel, não vou aguentar o silêncio pesado.

Ele se afasta da parede, franzindo a testa, ainda sem m e encarar.

— Você sabe que não é assim que funciona.

Já sou oficial há dois anos, além de outros dois com o soldada da Guarda e um a vida inteira à som bra dela. Sinto vontade de cuspir um “É claro que sei com o funciona”.

Ninguém sabe m ais do que o necessário. Ninguém sabe nada além de sua operação, seu esquadrão e seus superiores im ediatos. A inform ação é m ais perigosa do que qualquer arm a que possuím os. Aprendem os isso depois de décadas de rebeliões fracassadas, todas reveladas por um prisioneiro verm elho nas m ãos de um m urm urador prateado. Nem o m ais bem treinado dos soldados é capaz de resistir a um ataque à sua m ente. São sem pre descobertos, e os segredos, revelados. Assim , m eus agentes e soldados se reportam a m im , sua capitã. Eu m e reporto ao coronel, e ele ao Com ando, sej a lá quem forem . Só sabem os que precisam os continuar em frente. Esse é o único m otivo para a Guarda ter durado tanto tem po, para ter sobrevivido enquanto todas as organizações clandestinas pereceram .

Mas nenhum sistem a é perfeito.

— O fato de você ainda não ter recebido novas ordens não significa que não faça ideia de qual vai ser o próxim o passo — digo.

Um m úsculo se retrai no rosto dele. Não sei se ele queria fechar a cara ou abrir um sorriso, m as duvido que fosse a segunda opção. O coronel não sorri há m uitos anos, não de verdade.

— Tenho m inhas suspeitas — ele responde depois de um longo m om ento.

— Que são?

— Minhas.

Cerro os dentes, bufando. Típico. Mas, sendo sincera com igo m esm a, provavelm ente é m elhor assim . O núm ero de vezes em que quase fui descoberta pelos cães de caça dos prateados serviu para m e conscientizar de com o o sigilo é vital para a Guarda. Só a m inha m ente j á contém nom es, datas, operações e inform ações suficientes para desfazer os dois últim os anos de trabalho em Lakeland.

— Capitã Farley.

Não usam os títulos e nom es na correspondência oficial. Meu nom e é Ovelha em tudo que pode ser interceptado. Mais um a defesa. Se um a das nossas m ensagens cair em m ãos erradas, se os prateados decifrarem nossos códigos, vão ter bastante trabalho para nos rastrear e descobrir nosso vasto e dedicado sistem a de com unicações.

— Coronel — respondo, e ele finalm ente m e encara.

Um brilho de arrependim ento aparece no seu olho bom , que ainda conserva um tom azulado fam iliar. O resto dele m udou m uito ao longo dos anos. Dá pra notar que ele ficou m ais duro, um a m assa rij a de m úsculos debaixo de roupas esfarrapadas. O cabelo loiro, m ais claro que o m eu, com eçou a rarear. Há algum as m echas brancas nas têm poras. Não acredito que não notei isso antes. Ele está ficando velho. Mas não lento. Nem burro. O coronel continua rápido e perigoso com o sem pre.

Fico im óvel sob seu olhar silencioso e breve. Tudo é um teste. Quando ele abre a boca, sei que passei.

— O que você sabe sobre Norta?

Abro um sorriso.

— Então finalm ente decidiram expandir.

— Eu fiz um a pergunta, Ovelhinha.

O apelido é risível, j á que tenho quase dois m etros.

— Outra m onarquia, igual a Lakeland — disparo. — Os verm elhos têm que trabalhar ou são recrutados. A m aior concentração populacional é no litoral, e a capital é Archeon. Está em guerra com Lakeland há quase um século. Mantém um a aliança com Piedm ont. O rei é Tiberias, Tiberias…

— Tiberias VI — ele com pleta com o um professor. Não que eu tenha passado m uito tem po na escola para saber com o um professor se com porta. Culpa dele. — Da Casa Calore.

Idiotas. Não têm cérebro suficiente nem para dar nomes diferentes aos filhos.

— Ardentes — acrescento. — Reclam am para si a cham ada coroa flam ej ante. Um a oposição conveniente aos reis ninfoides de Lakeland.

Lakeland é um a m onarquia que conheço bem dem ais, depois de viver m uito tem po sob seu dom ínio. A dinastia é tão interm inável e invencível com o as águas do seu reino.

— De fato. Estão em lados opostos, m as são terrivelm ente sem elhantes.

— Se é assim , vai ser fácil nos infiltrarm os lá.

Ele arqueia a sobrancelha e gesticula para o espaço sufocante em que estam os. Parece querer rir.

— Você cham a isto de fácil?

— Não levei nenhum tiro hoj e, então, sim , cham o de fácil — respondo. — Além disso, Norta tem o quê? Metade do tam anho de Lakeland?

— Populações com paráveis. Cidades densas, infraestrutura m ais avançada…

— Melhor ainda para nós. É m ais fácil se esconder nas m ultidões.

Ele range os dentes, irritado.

— Você tem resposta para tudo?

— Sou boa no que faço.

Lá fora, outro estrondo de trovão, m ais perto desta vez.

— Então o próxim o destino é Norta. Para fazer o que fizem os aqui — insisto.

Meu corpo j á com eça a vibrar de ansiedade. Era o que eu esperava. Lakeland é apenas um a engrenagem da m áquina, um a nação em m eio a um continente. Um a rebelião lim itada por suas fronteiras fracassaria, esm agada pelos outros reinos. Mas um a união m aior, que estivesse em dois reinos, que fizesse desm oronar m ais um apoio dos m alditos prateados, teria um a chance. E um a chance é só o que peço por cum prir m eu dever.

A pistola ilegal na m inha cintura nunca pareceu tão confortável.

— Você não pode esquecer, capitã — ele com eça, fixando os olhos nos m eus. Preferiria que desviasse o olhar. Ele é tão parecido com ela. — Não pode esquecer nossas verdadeiras habilidades. Quem éram os quando com eçam os, de onde viem os.

Sem aviso prévio, bato o pé contra as tábuas sob nós. Ele não se m ove. Minha raiva não é surpreendente.

— Com o posso esquecer? — rebato. Resisto à vontade de m exer na longa trança loira sobre m eu om bro. — Meu espelho m e lem bra todo dia.

Nunca ganho discussões com o coronel. Mas desta vez parece que em patam os, pelo m enos.

Ele desvia o olhar para a parede. Os últim os raios de sol penetram pela m adeira e ilum inam o sangue do seu olho ferido. Um brilho verm elho sob a luz fraca.

Seu suspiro vem carregado de lem branças.

— O m eu tam bém .

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO AO COMANDO

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : Trial, LL

Destinatário: COMANDO em CENSURADO

 

De volta a TRIAL com OVELHA.

Relatos de contra-ataque prateado em ADELA, LL, confirm ados. Solicito autorização para enviar FERIADO e equipe para observar/ responder.

Solicito autorização para iniciar a análise de possíveis contatos em NRT.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: General CENSURADO

Designação: BATEDOR

Origem : CENSURADO

Destinatário: CARNEIRO em Trial, LL

 

Perm issão para o envio de FERIADO concedida. Apenas observação. OPERAÇÃO OLHO VIVO.

Perm issão para a análise de possíveis contatos em NRT concedida. OVELHA assum irá a frente da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, entrando em contato com redes de contrabando e agentes clandestinos em NRT, focando o m ercado negro em torno dos ASSOBIADORES. As ordens anexas devem ser lidas apenas por ela. Partir para NRT ainda esta sem ana.

CARNEIRO assum irá a frente da OPERAÇÃO MURALHA. As ordens anexas devem ser lidas apenas por você. Partir para Ronto ainda esta sem ana.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

Trial é a única cidade grande na fronteira de Lakeland. Suas m uralhas e torres detalhadam ente esculpidas dão vista para o lago Redbone e para o coração rural de Norta adiante. Sob o lago há um a cidade perdida, que foi arrasada e saqueada por m ergulhadores ninfoides. Enquanto isso acontecia, os escravos de Lakeland construíram Trial nas m argens, com o se zom bassem das ruínas alagadas e da terra desolada de Norta.

Costum ava im aginar quem seria idiota para lutar nessa guerra prateada, j á que eles insistem em restringir o cam po de batalha à área abandonada do Gargalo. A fronteira ao norte é longa, sinuosa, segue o curso do rio e é quase toda coberta de florestas, m as apesar de estar sem pre bem defendida, nunca é atacada. Claro, no inverno se torna um a região de frio e neve brutais, m as e no final da prim avera e no verão? E agora? Se Norta e Lakeland não estivessem lutando há um século, eu esperaria que a cidade fosse atacada a qualquer m om ento. Mas não aconteceu, nem vai acontecer.

Porque, afinal, a guerra não é um a guerra.

É um exterm ínio.

Soldados verm elhos são recrutados, lutam e m orrem aos m ilhares, ano após ano. Dizem -lhes para lutar pelo rei, para defender sua fam ília e o país, que certam ente seria dom inado e destruído se não fosse pela coragem forçada deles. E os prateados ficam sentados confortavelm ente, m ovendo suas legiões de brinquedos de um lado para o outro, trocando golpes que nunca parecem m udar m uita coisa. Os verm elhos são pequenos dem ais, lim itados dem ais, desinform ados dem ais para perceber. É doentio.

Essa é apenas um a das m il razões por que acredito na causa e na Guarda Escarlate. Mas acreditar não torna m ais fácil suportar a dor de um tiro. Não com o da últim a vez que voltei a Irabelle, com o abdom e sangrando, incapaz de andar sem a droga da aj uda do coronel. Pelo m enos tive um a sem ana para descansar e m e recuperar. Agora duvido que vou ficar aqui m ais do que alguns dias antes de nos m andarem a cam po de novo.

Irabelle é a única base decente da Guarda na região, pelo m enos de acordo com m eu lim itado conhecim ento. Existem abrigos espalhados pelo curso do rio e no interior das florestas, m as Irabelle é com certeza o coração do nosso grupo. Meio subterrânea e com pletam ente ignorada, a m aioria de nós cham aria Irabelle de lar se fosse preciso. Mas a m aioria de nós não tem um lar. Não tem os nada além da Guarda e dos verm elhos ao nosso lado.

A estrutura é m uito m aior do que nossas necessidades; é fácil um forasteiro — ou invasor — se perder lá dentro. Perfeito para quem precisa de silêncio. Isso sem falar que boa parte das entradas e dos corredores é equipada com com portas. Um a ordem do coronel e todo o com plexo vai por água abaixo, inundado com o o m undo antigo que existia ali. Isso torna Irabelle úm ida e fresca no verão, m as m uito fria no inverno, com paredes que parecem lâm inas de gelo. Independente da estação, gosto de andar pelos túneis, de patrulhar solitária as passagens de concreto esquecidas por todos, m enos por m im . Depois do tem po no trem , evitando o olhar rubro e acusador do coronel, o ar fresco e o túnel diante de m im são o m ais próxim o da liberdade que j á cheguei.

Giro a pistola no dedo, num equilíbrio cuidadoso que sou boa em m anter. Não está carregada. Não sou idiota. Mas seu peso letal j á m e agrada. Norta. A pistola não para de girar. As leis de porte de arma são mais rígidas do que em Lakeland. Só caçadores registrados têm permissão para andar armados. E são bem poucos. Apenas m ais um obstáculo que estou ansiosa para superar. Nunca estive em Norta, m as suponho que sej a igual a Lakeland. Igualm ente prateada, perigosa e ignorante. Mil carrascos para um m ilhão com a corda no pescoço.

Há m uito tem po parei de m e perguntar por que tudo isso ainda é tolerado. Não fui criada para aceitar a j aula do dom ador, ao contrário de m uitos. O que enxergo com o um a rendição enlouquecida é a única chance de sobrevivência para tantos outros. Acho que devo ao coronel m inha crença inabalável na liberdade. Ele nunca m e deixou pensar o contrário. Nunca m e deixou aceitar de onde viem os. Não que eu vá lhe dizer isso algum dia. Ele j á fez coisas dem ais para m erecer m eu agradecim ento.

Assim com o eu. É j usto, suponho. E não acredito em j ustiça?

O som de passos m e faz virar a cabeça. Escorrego a pistola para a cintura, com o cuidado de m antê-la escondida. Um cam arada rebelde não se im portaria com a arm a, m as um oficial prateado com certeza sim . Não que eu espere que algum oficial nos encontre aqui em baixo. Nunca encontram .

Indy nem se dá ao trabalho de m e cum prim entar. Detém -se a uns m etros de distância; as tatuagens são evidentes sobre a pele bronzeada, m esm o à pouca luz. Espinhos subindo por um lado, do punho até a cabeça raspada, e rosas serpenteando pelo outro braço. O codinom e dela é Feriado, m as Jardineira com binaria m ais. Outra capitã que responde ao coronel. Som os dez sob o com ando dele, cada um com um núm ero m aior de soldados com prom etidos com seus respectivos capitães.

— O coronel quer você na sala dele. Novas ordens — ela diz. Em seguida, continua com a voz m ais baixa, em bora ninguém possa nos ouvir nos fundos de Irabelle. — Não está contente.

Abro um sorriso sarcástico ao passar por ela. É m ais baixa do que eu, com o a m aioria das pessoas, e precisa se esforçar para não ficar para trás.

— E algum a vez ele j á esteve contente? — ironizo.

— Você sabe o que quero dizer. É diferente.

Seus olhos escuros cintilam e deixam um m edo raro transparecer. A últim a vez que vi esse m edo foi na enferm aria, quando ela estava diante do corpo de outra capitã. Saraline, codinom e Misericórdia, que acabou perdendo um rim durante um a incursão de rotina atrás de arm as. Ainda está se recuperando. O cirurgião estava trem endo, para dizer o m ínim o. Não é culpa sua. Não é seu trabalho. Mas fiz o que pude m esm o assim . Não sou daquelas que não consegue ver sangue e eu era a m elhor m édica disponível. Ainda assim , foi a prim eira vez que segurei um órgão hum ano na m ão. Pelo menos ela está viva.

— Ela está andando — Indy acrescenta, com o se pudesse ler a culpa na m inha expressão. — Devagar, m as está conseguindo.

— Que bom — com ento, sem com pletar dizendo que ela deveria ter voltado a andar sem anas antes. Não é culpa sua, ecoa na m inha cabeça de novo.

Quando chegam os ao pátio central, Indy se separa de m im e volta à enferm aria. Não sai do lado de Saraline por nada, exceto para m issões e, ao que parece, para dar recados do coronel. Chegaram j untas à Guarda, próxim as com o m elhores am igas. Depois, com o mais do que am igas. Ninguém liga. Não há regras contra a intim idade na organização, desde que todos cum pram o dever e voltem vivos. Até o m om ento ninguém em Irabelle foi burro ou sentim ental o bastante para arriscar nossa causa por algo tão m esquinho.

Deixo Indy com suas preocupações e tom o a direção oposta, onde sei que o coronel m e espera.

A sala dele daria um a excelente tum ba. Sem j anelas, apenas paredes de concreto e um a lâm pada que parece sem pre queim ar na hora errada. Há lugares m uito m elhores em Irabelle para cuidar das coisas, m as o coronel gosta do silêncio e do am biente fechado. Apesar da estatura m ediana, o teto baixo o faz parecer um gigante. Provavelm ente é por isso que ele gosta tanto da sala.

A cabeça dele raspa o teto quando ele levanta para m e cum prim entar.

— Novas ordens? — pergunto, j á sabendo a resposta.

Faz dois dias que estam os aqui. Sei m uito bem que não devo esperar um a folga, m esm o depois do sucesso absoluto da Operação Lagoa. As passagens centrais de três lagos, todos dando acesso ao interior de Lakeland, agora nos pertencem , e ninguém vai sequer desconfiar. Não sei qual é o grande plano por trás disso — isso é problem a do Com ando, não m eu.

O coronel desliza um a folha de papel dobrada por cim a da m esa. As bordas estão lacradas. Preciso rom per a fita com o dedo. Estranho. Nunca tinha recebido ordens lacradas antes.

Meus olhos percorrem a página e se arregalam a cada palavra lida. Ordens do Com ando. Saíram do topo, passaram pelo coronel e vieram direto para m im .

— Isso aqui é…

Ele ergue a m ão para m e interrom per.

— O Com ando disse que só você deve ler. — A voz dele está controlada, m as capto sua irritação m esm o assim . — A operação é sua.

Preciso cerrar o punho para m anter a calm a. Minha própria operação. O sangue latej a nas m inhas orelhas, im pulsionado pelos batim entos cardíacos cada vez m ais acelerados. Travo a m andíbula para não sorrir. Olho de novo para as ordens para ter certeza de que são reais. Operação Teia Vermelha.

Depois de um tem po, m e dou conta de que falta um a coisa.

— Não há m enção ao senhor aqui, coronel.

Ele ergue a sobrancelha do olho ruim .

— E você esperava que tivesse? Não sou sua babá, capitã — vocifera. A m áscara de controle am eaça cair e ele se concentra na m esa im pecável, espanando um grão de pó inexistente.

Ignoro o insulto.

— Muito bem . Suponho que o senhor tenha as próprias ordens.

— Tenho — ele diz rápido.

— Então tem os m otivos para com em orar.

— Você quer com em orar por ser a nova garota propaganda? — O coronel quase ri. — Ou prefere brindar a um a m issão suicida?

Então eu paro de conter m eu sorriso.

— Não vej o as coisas assim . — Devagar, dobro as ordens de novo e guardo o papel no bolso do casaco. — Esta noite, brindo à m inha prim eira m issão independente — continuo. — E am anhã, parto para Norta.

— Só você deve ler as ordens, capitã.

Ao chegar à porta, lanço um olhar desafiador por cim a do om bro.

— Com o se o senhor j á não soubesse. — O silêncio dele é a única confirm ação de que preciso. — Além disso, ainda terei que prestar contas ao senhor, que depois retransm itirá ao Com ando — acrescento. Não resisto à tentação de lhe dar um a leve cutucada; ele m erece, j á que fez o com entário sobre ser m inha babá. — Com o se diz? Ah, sim : você é o interm ediário.

— Cuidado, capitã.

Aceno com a cabeça e, sorridente, giro a m açaneta.

— Sem pre, senhor.

Felizm ente, ele quebra o silêncio desconfortável.

— A equipe de transm issão está esperando no seu aloj am ento. Melhor com eçar logo.

— Tom ara que eu estej a pronta para as câm eras — brinco com um a vaidade fingida.

Ele balança a m ão, oficialm ente m e dispensando. É o que faço, de m uito bom grado, zanzando entusiasm ada pelos corredores de Irabelle.

Para m inha surpresa, a em polgação que pulsa dentro de m im não dura m uito. Saio correndo em direção ao aloj am ento, querendo caçar os soldados sob m eu com ando e contar a boa nova. Mas logo dim inuo o ritm o, e m inha satisfação deu lugar à relutância. E ao m edo.

Há um m otivo — além do m ais óbvio — para nos cham arem de Carneiro e Ovelha. Jam ais fui m andada para qualquer lugar sem o Coronel. Ele sem pre estava lá, com o um salva-vidas que eu nunca quis, m as com quem j á tinha m e acostum ado. Ele salvou m inha vida tantas vezes que j á perdi a conta. E com certeza é o m otivo de eu estar aqui e não num vilarej o congelante, perdendo dedos a cada inverno e am igos a cada recrutam ento. Não enxergam os m uitas coisas da m esm a form a, m as sem pre cum prim os a m issão e perm anecem os vivos. Conseguim os o que ninguém m ais consegue. Sobrevivem os. Agora preciso fazer isso sozinha. Agora tenho que proteger outros e carregar a vida deles — e tam bém a m orte — nas m inhas costas.

Desacelero o passo, o que m e dá m ais uns instantes para m e recom por. As som bras frescas são calm as e convidativas. Apoio o corpo contra a parede de concreto liso e deixo o frio percorrer m eu corpo. Preciso ser como o coronel na hora de escolher os soldados. Sou a capitã, a comandante, e preciso ser perfeita. Não há lugar para erros e hesitações. Seguir em frente, a todo custo. Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora.

O coronel pode não ser um a boa pessoa, m as é um líder brilhante.

Isso sem pre foi o suficiente. E agora vou dar o m eu m elhor para ser assim . Penso m elhor no m eu plano. Deixo os outros esperarem um pouco m ais.

Entro no aloj am ento sozinha, de cabeça erguida. Não sei por que fui escolhida, por que o Com ando quer que eu sej a a pessoa a gritar nossas palavras. Mas tenho certeza de que há um bom m otivo. Um a j ovem erguendo um a bandeira é um a figura m uito m arcante — m as tam bém difícil de entender. Os prateados podem enviar a m esm a quantidade de hom ens e m ulheres para m orrer no cam po de batalha, m as um grupo rebelde liderado por um a m ulher é facilm ente subestim ado. Exatam ente o que o Com ando quer. Ou sim plesm ente preferem que eu sej a identificada e executada, e não um deles.

Um m em bro da equipe de transm issão — fugitivo de um a favela, a j ulgar pelo pescoço tatuado — gesticula para a câm era que j á está preparada. Outro m e entrega um cachecol verm elho e um a m ensagem datilografada, que não será pronunciada por m uitos m eses.

Mas quando ouvirem a m ensagem , quando ela ecoar através de Norta e Lakeland, vai cair com a força de um m artelo.

Encaro as câm eras sozinha, com o rosto escondido e palavras de aço.

— Vam os nos levantar, verm elhos com o a aurora.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO AO COMANDO

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : Trial, LL

Destinatário: COMANDO em CENSURADO

 

OPERAÇÃO OLHO VIVO liderada por FERIADO enfrentou oposição em ADELA.

Abrigo de ADELA destruído.

Resum o da OPERAÇÃO OLHO VIVO:

Mortos em ação: R. INDY, N. CAWRALL, T. TREALLER, E. KEYNE (4).

Prateados m ortos: Zero (0).

Núm ero de baixas civis: desconhecido.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 4 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 1

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Harbor Bay, NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Livre m ovim entação pelas regiões de ADERONACK, GREATWOODS e COSTA DO PÂNTANO.

Movim entação difícil pela região de BEACON. Presença m aciça de tropas de NRT.

Contato feito com MARINHEIROS. Entrada em HARBOR BAY com a aj uda deles.

Haverá encontro com EGAN, líder dos MARINHEIROS. Avaliação em breve.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

Qualquer bom cozinheiro dirá que sem pre há ratos na cozinha.

No reino de Norta não é diferente. Pelas suas rachaduras e fendas rastej am aqueles que a elite prateada cham aria de “verm es”. Ladrões, contrabandistas, desertores, adolescentes fugindo do recrutam ento ou idosos fracos tentando escapar do castigo pelo “crim e” de ficarem velhos e im produtivos — todos verm elhos. Concentram -se nos bosques e nos vilarej os do interior, bem m ais ao norte e m ais perto da fronteira com Lakeland, encontrando segurança em lugares onde nenhum prateado de respeito se dignaria a m orar. Mas em cidades com o Harbor Bay, onde os prateados m antêm casas bonitas e leis horríveis, os verm elhos recorrem a m edidas m ais desesperadas. E eu preciso fazer o m esm o.

Não é fácil chegar perto de Egan. Seus supostos sócios conduzem m eu tenente, Tristan, e eu por um labirinto de túneis debaixo das m uralhas da cidade litorânea. Dam os várias voltas, para m e confundir e despistar qualquer um que tentasse nos seguir. Tenho quase certeza de que Melody, a ladra de voz suave e olhar perspicaz que cam inha à frente, vai nos vendar. Em vez disso, ela deixa a escuridão fazer seu trabalho e, quando saím os do subterrâneo, m al sei reconhecer o verdadeiro norte, m uito m enos o cam inho para fora da cidade.

Tristan não é de confiar nos outros; j á aprendeu m uito nas m ãos da Guarda Escarlate. Ele paira ao m eu lado, com um a m ão no bolso da j aqueta, sem pre segurando o punhal que carrega consigo. Melody e seus hom ens riem da am eaça indiscreta. Abrem seus casacos para revelar suas próprias arm as cortantes.

— Não se preocupe, espichado — ela diz, arqueando as sobrancelhas diante da altura descom unal de Tristan. — Vocês estão bem protegidos.

Ele fica verm elho de raiva, m as não solta o punhal. Tam bém carrego um a faca na bota, sem falar da pistola enfiada na parte de trás das calças.

Melody continua cam inhando e nos conduzindo por um m ercado que vibra com o barulho e um cheiro forte de peixe. Seu corpo robusto vai cortando a m ultidão, que se abre para deixá-la passar. A tatuagem no bíceps — um a âncora azul envolta por um a corda verm elha — basta para deixar todos alertas. Ela é dos Marinheiros, a rede de contrabando que o Com ando m e m andou averiguar. E, a j ulgar pela m aneira com o dá ordens ao próprio destacam ento, os três que a obedecem , Melody é bem ranqueada e respeitada.

Sinto que ela está m e exam inando o tem po todo, m esm o quando olha para a frente. Foi por isso que decidi não trazer o resto da equipe com igo para conhecer o chefe dela. Tristan e eu som os suficientes para avaliar a operação que Egan lidera, j ulgar os m otivos dele e fazer um relatório para o Com ando.

Egan, ao que parece, adota um a postura diferente.

Espero um a fortaleza subterrânea bem parecida com a nossa em Irabelle, m as Melody nos leva para um farol antigo com paredes castigadas pelo tem po e pela m aresia. Antes, sua luz guiava os navios até o porto, m as agora o farol está longe dem ais da água, j á que a cidade se expandiu por cim a da baía. Por fora, parece abandonado, com j anelas lacradas e portas bloqueadas. Os Marinheiros não ligam nem um pouco. Nem se incom odam em esconder sua aproxim ação, em bora todos os m eus instintos clam em por discrição. Em vez disso, Melody nos conduz de cabeça erguida pelo m ercado de rua.

A m ultidão se m ove conosco, com o um cardum e de peixes, oferecendo cam uflagem . Nos acom panha ao longo de todo o cam inho até o farol e a um a porta gasta e trancada. A ação m e deixa de olhos arregalados. Os Marinheiros parecem bem organizados. Inspiram respeito, isso é óbvio, sem falar na lealdade. Am bos são valores adm iráveis para a Guarda Escarlate, que nem o dinheiro nem a intim idação podem com prar de verdade. Meu coração salta no peito. Os Marinheiros realm ente parecem aliados viáveis.

Um a vez seguros dentro do farol, ao pé de um a escada espiralada que parece infinita, sinto um nó de tensão se desfazer no m eu peito. Não sou nova na atividade de infiltrar cidades prateadas e circular pelas ruas com segundas intenções, m as com certeza não é um a situação que m e agrada. Especialm ente sem o coronel ao m eu lado com o um escudo rude e eficaz contra qualquer coisa que pudesse acontecer.

— Vocês não têm m edo dos guardas? — pergunto enquanto um dos Marinheiros fecha a porta por onde entram os. — Eles não sabem que vocês estão aqui?

Melody ri m ais um a vez. Ela j á subiu uns dez degraus da escada e responde sem interrom per os passos.

— Ah, eles sabem que estam os aqui.

Os olhos de Tristan quase saltam das órbitas.

— O quê?! — ele questiona, pálido, pensando o m esm o que eu.

— Eu disse que os agentes de segurança sabem que estam os aqui — ela repete, e sua voz ecoa pelo lugar.

Quando piso no prim eiro degrau, Tristan segura m eu punho.

— Não deveríam os estar aqui, capi… — ele m urm ura, esquecendo o com binado.

Não lhe dou a chance de dizer m eu nom e, de ir contra as regras e os protocolos que nos protegeram por tanto tem po. Em vez disso, m eto o antebraço na garganta dele e o em purro da escadaria com toda força. Ele cede e tom ba, esparram ando toda a sua estatura por vários degraus.

Meu rosto cora de calor. Não gosto de fazer isso, sej a na frente de estranhos ou não. Tristan é um bom tenente, ainda que superprotetor. Não sei o que é m ais prej udicial: m ostrar aos Marinheiros que pode haver discórdia na nossa hierarquia ou que tem os m edo. Espero que sej a a segunda opção. Dou de om bros, calm a, recuo e estendo a m ão para Tristan, m as sem m e desculpar. Ele sabe por quê.

Sem m ais um a palavra, ele m e segue escada acim a.

Melody nos deixa passar. Sinto seus olhos acom panharem cada um dos m eus passos. Com certeza está m e observando agora. E eu deixo, com postura e rosto im passíveis. Faço o m áxim o para ser igual ao coronel: ilegível e inabalável.

No topo do farol, em vez das j anelas lacradas, há um a vista am pla de Harbor Bay. Literalm ente construída sobre outra cidade, m ais antiga, Harbor Bay era um em aranhado de ruas velhas. As vias estreitas e curvas eram m ais adequadas para cavalos do que veículos, e precisávam os nos esprem er em becos para evitar atropelam entos. Daquele ponto privilegiado, consigo ver que tudo gira em torno do fam oso porto, com becos, túneis e esquinas esquecidos dem ais para um a patrulha com pleta. Som ando isso à alta concentração de verm elhos, Harbor Bay é o lugar perfeito para a Guarda Escarlate com eçar. Nosso serviço de inteligência identificou a cidade com o a base m ais viável para a rebelião em Norta quando chegar a hora de pegar em arm as. Diferente da capital, Archeon, onde a sede do governo exige controle e ordem absolutos, Harbor Bay não é tão fiscalizada.

Mas tam bém não é indefesa. Há um a base m ilitar construída sobre a praia, dividindo o sem icírculo perfeito de terra e ondas ao m eio. Forte Patriota. Um a parada para o Exército, a Marinha e a Aeronáutica de Norta, o único lugar que serve aos três ram os das forças m ilitares prateadas. Com o o resto da cidade, as paredes e os prédios do Forte são brancos, e a parte de cim a term ina em telhados azuis e altos obeliscos prateados. Já que tenho um a vista privilegiada, tento m em orizar a construção. Quem sabe não será útil um dia? E graças à guerra inútil travada ao norte, o Forte Patriota ignora com pletam ente tudo que acontece na cidade. Os soldados se fecham atrás dos m uros enquanto os agentes de segurança m antêm a cidade na linha. De acordo com os relatórios, eles protegem os seus, os cidadãos prateados, m as os verm elhos de Harbor Bay basicam ente governam a si m esm os, com grupos próprios para m anter a ordem . São três bandos em particular.

A Ronda Verm elha atua com o polícia, fazendo o possível para instaurar um a espécie de j ustiça verm elha, defendendo e aplicando leis com as quais os agentes prateados não se im portam . Ela resolve disputas e crim es com etidos entre verm elhos com o intuito de evitar novos abusos por parte das m ãos im piedosas dos prateados. O trabalho da Ronda Verm elha é conhecido e até tolerado pelas autoridades da cidade, e é por isso que não vou procurá-los. Por m ais nobre que sej a a causa deles, estão m uito próxim os dos prateados para o m eu gosto.

A gangue idolatrada dos Piratas m e deixa igualm ente desconfiada. Tudo indica que são violentos, um a característica que costum o adm irar. O negócio deles é sangue, e agem com o um cão raivoso. Cruéis, im placáveis e burros, seus m em bros são quase sem pre executados e logo substituídos. Detêm o controle de um setor da cidade m ediante assassinatos e chantagens, e m uitas vezes se estranham com o grupo rival, os Marinheiros.

Que devo avaliar por m im m esm a.

— Suponho que você sej a Ovelha.

Me viro, dando as costas para o horizonte que se estende em todas as direções.

O hom em que suponho ser Egan está apoiado na j anela oposta, sem consciência ou sem m edo da m era vidraça velha que o separa de um a longa queda. Com o eu, ele blefa, m ostrando as cartas que quer enquanto esconde o resto.

Vim até aqui apenas com Tristan para passar um a determ inada im agem . Egan, com Melody de um lado e um a tropa de Marinheiros do outro, escolhe dem onstrar força. Para m e im pressionar. Bom.

Ele cruza os braços, exibindo seus m úsculos e cicatrizes; cada braço tem um a tatuagem de âncora. O coronel m e vem à m ente, em bora eles não se pareçam em nada. Egan é baixo, atarracado, tem o peito estufado e a pele bronzeada. Do cabelo longo e danificado pela m aresia pende um a trança em baraçada. Não duvido que tenha passado m ais da m etade da vida num barco.

— Ou pelo m enos é esse o codinom e que botaram em você — Egan continua, com um sorriso sem vários dentes. — Estou certo?

Dou de om bros, displicente.

— O m eu nom e im porta?

— Nem um pouco. Só suas intenções. Que são…?

Im itando o sorriso dele, avanço até o centro do am biente, com cuidado para evitar o buraco redondo onde a lâm pada do farol costum ava ficar.

— Acho que você j á sabe.

Minhas ordens afirm avam que o contato j á havia sido estabelecido, m as sem especificar até que ponto. Um a om issão necessária para garantir que alguém de fora não pudesse usar a correspondência contra nós.

— Sei. Conheço bem os obj etivos e as táticas da sua gente, m as estou falando com você. Por que você está aqui?

Sua gente. Registro as palavras na m inha m ente. Mais tarde vou decifrá-las. Queria m uito enfrentar um a briga em vez desse j ogo insuportável de esconde-esconde. Prefiro um olho roxo a um quebra-cabeça.

— Meu obj etivo é estabelecer canais abertos para a com unicação. Vocês são um grupo de contrabandistas, então é bom para nós dois term os am igos do outro lado da fronteira — digo, para em seguida abrir outro sorriso vitorioso e correr os dedos pela m inha trança. — Sou apenas um a m ensageira, senhor.

— Ah, não acho correto cham ar um a capitã da Guarda Escarlate de apenas um a m ensageira.

Dessa vez Tristan fica quieto. É a m inha vez de reagir, apesar do m eu treinam ento. Egan não deixa de notar m eus olhos arregalados ou m inhas bochechas coradas. Seus com panheiros, Melody em especial, têm a audácia de trocar risinhos entre si.

Sua gente. A Guarda Escarlate. Ele j á nos encontrou antes.

— Então não sou a prim eira.

Outro sorriso.

— Nem de longe. Passam os m ercadorias para vocês desde… — Ele encara Melody, fazendo um a pausa para criar suspense. — Dois anos, não é?

— Desde setem bro de 300, chefe — ela responde.

— Ah, sim … Parece que você não sabia nada disso, Ovelha.

Luto contra o ím peto de cerrar os dentes e urrar. Discrição, diziam as ordens. Duvido que j ogar um crim inoso arrogante do alto de sua torre decadente sej a considerado discreto.

— Não é o nosso estilo. — É a única explicação que dou. Porque, em bora Egan se considere superior e bem m ais inform ado do que eu, está enganado. Ele não faz ideia do que som os, do que fizem os e de quanto m ais planej am os fazer. Não é sequer capaz de im aginar.

— Bom , seus cam aradas pagam bem , isso é certo — ele diz enquanto agita um a pulseira de prata toda trabalhada, trançada com o um a corda. — Espero que você faça o m esm o.

— Se você fizer o que pedirm os, sim .

— Então vou fazer o que pedirem .

Um aceno de cabeça basta para pôr Tristan em m ovim ento. Ele dá dois passos largos e desaj eitados para o m eu lado, tão rápido e tosco que Egan com eça a rir.

— Caram ba, m as você é com prido! — Egan diz. — Com o te cham am ? Varapau?

Um canto da m inha boca trem e, m as não sorrio. Por Tristan. Não im porta o quanto ele com a ou treine, parece incapaz de ganhar m úsculos. Não que faça m uita diferença para o cargo dele. Tristan é um atirador de elite, não um lutador. É m ais valioso a cem m etros de distância com um bom rifle. Não vou contar para Egan que o codinom e dele é Caveira.

— Solicitam os um resum o e um a introdução à cham ada rede dos Assobiadores — Tristan diz, fazendo as exigências no m eu lugar. Outra tática que adotei do coronel. — Procuram os contatos viáveis nessas áreas-chave.

Ele entrega um m apa, com um exceto pelos pontos verm elhos em cidades im portantes e entrepostos espalhados pelo país. Sei tudo de cor. Os subúrbios industriais da Cidade Cinzenta e da Cidade Nova, a capital Archeon, Delphie, a cidade m ilitar de Corvium , e m uitos vilarej os e aldeias entre elas. Egan nem olha para o papel, m as assente m esm o assim . É um a dem onstração de confiança.

— Algo m ais? — pergunta com a voz rouca.

Tristan m e encara, com o se m e desse um a últim a chance para renegar a ordem final do Com ando, m as perm aneço firm e.

— Em breve vam os requisitar seus serviços de contrabando.

— É fácil. Com a rede dos Assobiadores, o país inteiro está aberto para vocês. Podem enviar lâm padas daqui para Corvium e de volta para cá se quiserem .

Não consigo segurar e abro um sorriso largo.

Mas a anim ação de Egan parece dim inuir um pouco. Ele sabe que não vai ser sim ples.

— Qual é a carga?

Com um gesto rápido, atiro um saquinho de tetrarcas aos pés dele. Todas as m oedas são de prata. São suficientes para convencê-lo.

— As pessoas certas.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 6 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 1

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Harbor Bay, NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Líder EGAN dos MARINHEIROS aceitou os term os. Vão assum ir o transporte da região de Beacon assim que com eçarm os a fase 2 da TEIA VERMELHA.

Aviso: MARINHEIROS têm conhecim ento da organização da GE. Outras células estão ativas em NRT. Pedir m ais esclarecim entos?

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 6 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 1

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : CENSURADO

Destinatário: OVELHA em Harbor Bay, NRT

 

Desconsiderar. Foco na TEIA VERMELHA.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 10 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 1

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Albanus, NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Contato firm ado com a rede dos ASSOBIADORES desde a região de BEACON até CAPITAL VALLEY. Tudo a favor da fase 2. Tentando ir para o norte seguindo o RIO CAPITAL. Vilarej o de ALBANUS, centro verm elho m ais próxim o de SUMMERTON (casa de verão do rei Tiberias + seu governo). Im portante? Avaliação em breve.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

A população cham a o lugar de Palafitas. Dá pra ver por quê. O nível do rio ainda está alto por causa do gelo que derreteu na prim avera, e boa parte da cidade ficaria debaixo d’água se não fossem os pilares que suspendem as construções. Um a arena coroa o topo de um m orro, um lem brete firm e de quem é o dono deste lugar e quem governa este reino.

Diferente de cidades m aiores com o Harbor Bay ou Haven, não há m uros, portões nem checagem de sangue. Meus soldados e eu entram os de m anhã com o resto dos com erciantes que percorrem a Estrada Real. Um policial prateado confere nossas identidades falsas com um a olhadela desinteressada antes de gesticular para seguirm os em frente, deixando um bando de lobos entrar em sua vila de ovelhas. Se não fosse a localização e a proxim idade do palácio de verão do rei, eu não olharia para Albanus duas vezes. Não há nada de útil aqui, apenas lenhadores exaustos e suas fam ílias, praticam ente sem forças para com er, m uito m enos se rebelar contra o regim e prateado. Mas Sum m erton fica a alguns quilôm etros rio acim a, o que torna Albanus digna da m inha atenção.

Tristan decorou o vilarej o antes de entrarm os, ou pelo m enos tentou. Não seria bom consultar m apas em público e deixar todo m undo saber que não som os daqui. Ele vira à esquerda rápido. O resto de nós vai atrás, passando do pavim ento da Estrada Real para a estrada de barro verm elho que acom panha a m argem úm ida do rio. Nossas botas afundam , m as ninguém escorrega.

As casas de palafita se erguem à nossa esquerda, pontilhando a rua Marcher, se não m e engano. Crianças suj as e entediadas nos observam passar enquanto j ogam pedras no rio. Mais ao longe, pescadores içam redes reluzentes e enchem os barcos com a pesca do dia. Riem um para o outro, felizes por trabalharem . Felizes por terem um em prego que os poupa do recrutam ento para a guerra inútil.

A Assobiadora de Orienpratis, um a cidade que vive da pedreira na beira de Beacon, é o m otivo para estarm os aqui. Ela nos assegurou que outro Assobiador operava em Albanus, dando cobertura para roubos e outras atividades não legalizadas da cidade. Mas ela só com entou sobre a existência do Assobiador, não disse onde encontraríam os esse hom em ou m ulher. Não por não confiar em m im , m as por não saber. Com o a Guarda Escarlate, os Assobiadores usam seus próprios segredos com o escudo. Assim , m antenho os olhos abertos e atentos.

O m ercado de Palafitas pulsa de atividade. Vai chover logo, e todo m undo quer resolver seus assuntos antes do tem poral. Jogo a trança por cim a do om bro esquerdo. Um sinal. Sem olhar, sei que m eus rebeldes se dividem nos pares de costum e. As ordens são claras. Cobrir a extensão do m ercado. Ficar atento a possíveis pistas. Encontrar o Assobiador se conseguirem . Com seus pacotes de contrabando inofensivo — m içangas de vidro, pilhas, pó de café bolorento —, vão tentar negociar e vender até chegarem à fachada da operação do Assobiador. E eu farei o mesmo. Minha bolsa pende da cintura, pesada m as pequena, escondida por um pedaço da barra da cam isa de sisal fora da calça. Dentro da bolsa, balas de revólver. Variadas, de calibres diferentes, aparentem ente roubadas. De fato, vieram do estoque do nosso novo abrigo em Norta, um a ótim a caverna nos recônditos da região de Greatwoods. Mas ninguém na cidade pode saber disso.

Com o sem pre, Tristan se m antém próxim o, m as está m ais relaxado. Cidades pequenas e vilarej os não são perigosos, não para os nossos padrões. Apesar de os policiais prateados patrulharem o m ercado, são poucos e desinteressados. As punições são reservadas aos coraj osos, aqueles que ousam encarar um prateado nos olhos ou criar um a confusão tão grande a ponto de obrigá-los a deixar a preguiça de lado e se m eter.

— Estou com fom e — digo ao virar para um a barraca que vende um pão grosseiro.

Os preços são astronôm icos se com parados com o que costum am os pagar em Lakeland, m as então lem bro que Norta não é um bom lugar para o cultivo de grãos. O solo deles é m uito pedregoso para as fazendas prosperarem . Com o esse hom em se sustenta vendendo um pão que ninguém consegue com prar é um m istério. Na verdade, seria um m istério, para outra pessoa.

O padeiro, m agro dem ais para a profissão, m al nos encara. Não parecem os clientes prom issores. Chacoalho as m oedas no bolso para cham ar sua atenção.

Ele finalm ente levanta a cabeça; seus olhos são úm idos e grandes.

O som de m oedas a essa distância das cidades m aiores o surpreende.

— O que você está vendo aqui é tudo o que tenho.

Nada de papo furado. Já gosto dele.

— Esses dois — digo, apontando para os m elhores pães que ele tem . O padrão não é m uito elevado.

Ainda assim , ele ergue as sobrancelhas. Pega os pães e os em brulha num papel velho com a eficiência do hábito. Quando entrego as m oedas de cobre sem chorar um desconto, a surpresa dele aum enta. Assim com o a suspeita.

— Não conheço vocês — ele sussurra, desviando o rosto e olhando para a direita, ao longe, onde um policial repreende um bando de crianças subnutridas.

— Som os negociantes — Tristan explica. Ele se inclina para a frente, apoiando-se nas tábuas frágeis da barraca de pão. Um a das m angas da cam isa sobe um pouco, deixando o punho à m ostra. Um a fita verm elha que dá a volta com pleta aparece, a m arca dos Assobiadores, conform e tínham os descoberto. É um a tatuagem falsa. Mas o padeiro não sabe disso.

Os olhos do suj eito se detêm em Tristan por apenas um instante antes de se voltarem para m im . Ele não é tão tonto quanto parece.

— E o que vocês querem negociar? — ele pergunta, entregando um dos pães para m im . Ele segura o outro, à espera.

— Um a coisinha aqui, outra ali — respondo. E então assovio, um som suave e baixo, m as inconfundível. A m elodia única de duas notas que a outra Assobiadora m e ensinou. Inofensiva para quem não sabe de nada.

O padeiro não sorri nem confirm a nada. Seu rosto não revela qualquer sentim ento.

— É m elhor negociar de noite — ele sim plesm ente diz.

— Concordo.

— No fim da rua Mill, depois da curva. Um trailer — o padeiro acrescenta. — Depois do pôr do sol, m as antes da m eia-noite.

Tristan assente. Ele sabe onde fica o lugar.

Faço o m esm o, num m inúsculo gesto de agradecim ento. O padeiro não agradece. Em vez disso, agarra m eu outro pão e o põe de volta no balcão. Num único m ovim ento, ele arranca o em brulho de papel e dá um a m ordida provocadora. As m igalhas se espalham por sua barba rala, e cada um a delas é um recado. Minha m oeda foi trocada por algo m ais valioso que pão.

Continuar: parte 2 de 3