Cicatrizes de Aço

Victoria Aveyard · Capítulo 1 de 1 · parte 2/3

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Cicatrizes de Aço

Cicatrizes de aço

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Rua Mill, depois da curva.

Contendo um sorriso, j ogo a trança por cim a do om bro direito.

Meus soldados espalhados pelo m ercado inteiro interrom pem as buscas. Movem -se com o se fossem um , com o um cardum e que segue o líder. Tento ignorar os resm ungos de dois rebeldes enquanto saím os do m ercado; aparentem ente alguém bateu a carteira deles.

— Todas as baterias sum iram num segundo. Nem percebi — Cara reclam a enquanto vasculha sua sacola.

Lanço um olhar para ela.

— E o com unicador? — pergunto, seca. Se o transm issor dela, um rádio m inúsculo que passa nossas m ensagens por estalos e bipes, estiver perdido, terem os um grave problem a.

Felizm ente, ela balança a cabeça e dá um tapinha num volum e em baixo da cam isa.

— Ainda está aqui — ela diz.

Me forço a apenas acenar com a cabeça enquanto engulo m eu suspiro de alívio.

— Ei, um as m oedas m inhas estão faltando! — outra rebelde, Ty e, a fortona, resm unga enquanto enfia as m ãos cheias de cicatrizes nos bolsos.

Quase com eço a rir dessa vez. Entram os no m ercado em busca do ladrão dos ladrões, e m eus soldados tão bem treinados acabam vítim as de um trom badinha qualquer. Em outro dia, talvez eu ficasse com raiva, m as hoj e esse leve percalço sequer m e incom oda. Um as m oedas perdidas não são nada no panoram a geral. Porque, no fim das contas, apenas algum as sem anas atrás o coronel cham ou nossa m issão de suicida.

Mas estamos indo bem. E continuamos muito vivos.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 11 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 1

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Albanus, NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

ASSOBIADOR de ALBANUS/ PALAFITAS vai colaborar na fase 2. Tem olhos dentro de SUMMERTON/ Palácio de Verão do rei. Tam bém falou de contatos no Exército Verm elho em CORVIUM. Vam os atrás.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : CENSURADO

Destinatário: OVELHA em Albanus

 

Não está nas ordens. Perigoso dem ais. Continuar TEIA VERMELHA.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 12 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 1

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Siracas, NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Obj etivo da TEIA VERMELHA é introduzir a GE em NRT via redes existentes. Exército está nas ordens.

Contatos no Exército Verm elho indispensáveis. Vam os atrás. Passar m ensagem para o COMANDO.

A cam inho de CORVIUM.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : CENSURADO

Destinatário: OVELHA em Siracas

 

Pare. Não vá p/ CORVIUM.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: General CENSURADO

Designação: BATEDOR

Origem : CENSURADO

Destinatário: OVELHA em Siracas, CARNEIRO em CENSURADO

 

Seguir p/ CORVIUM. Avaliar contatos no Exército Verm elho p/ conseguir inform ações e fase 2/ rem oção de ativos.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 12 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Corvium , NRT

Destinatário: COMANDO em CENSURADO, CARNEIRO em CENSURADO

 

Entendido.

Claram ente não é tão perigoso.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO AO COMANDO

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : CENSURADO

Destinatário: COMANDO em CENSURADO

 

Favor notar m inha forte oposição aos desdobram entos da TEIA VERMELHA. OVELHA precisa de rédea curta.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: General CENSURADO

Designação: BATEDOR

Origem : CENSURADO

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Anotado.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

Dá para sentir o cheiro do Gargalo daqui. Cinzas, fum aça, cadáveres.

— O dia está devagar. Nenhum a bom ba ainda — Ty e com enta com os olhos fixos no horizonte a noroeste. As nuvens escuras só podem vir da frente de com bate dessa guerra inútil.

Ty e serviu nas linhas de batalha, m as no lado oposto ao que estam os agora. Lutou pelos senhores de Lakeland e perdeu um a orelha para o frio congelante do inverno nas trincheiras. Ela não esconde a deform idade. Puxa todo o cabelo loiro bem para trás, para que todos vej am o toco arruinado que a suposta lealdade lhe valeu.

Tristan faz um a terceira varredura na área, estreitando os olhos pelo telescópio de seu rifle longo. Está deitado de barriga para baixo, parcialm ente oculto pelo m ato pegaj oso da prim avera. Seus m ovim entos são lentos e m etódicos, bem treinados na zona de tiro em Irabelle e nas florestas fechadas de Lakeland. Os pequenos arranhões no m etal do cano brilham contra a luz do sol. São vinte e dois no total, um para cada prateado m orto por aquela arm a até agora. Apesar de todos os tiques paranoicos, o dedo de Tristan surpreende pela firm eza no gatilho.

Da nossa posição elevada, tem os um a vista privilegiada das florestas ao redor. O Gargalo está alguns quilôm etros a noroeste, coberto de nuvens apesar do sol da m anhã, e Corvium fica m ais um pouco ao leste. Não há m ais cidades por perto, nem m esm o anim ais. A região é próxim a dem ais das trincheiras para qualquer criatura que não sej a um soldado. Mas eles se concentram na Estrada de Ferro, a via principal que passa por Corvium e term ina na frente de batalha. Ao longo dos últim os dias, aprendem os m uito sobre as legiões verm elhas, sem pre em m ovim ento para substituir os soldados derrotados, sem pre voltando na sem ana seguinte trazendo os m ortos e feridos. As tropas chegam ao am anhecer e no com eço da noite. Nos m antem os longe da estrada, m as ainda podem os ouvi-los m archar. Cinco m il em cada legião — cinco m il irm ãos e irm ãs verm elhos resignados à condição de alvos vivos. As caravanas de suprim entos são m ais difíceis de prever; só aparecem quando necessário, sem seguir qualquer program ação. Os veículos de transporte são tripulados por soldados verm elhos e oficiais prateados inúteis. Não há qualquer honra em com andar veículos cheios de com ida estragada e curativos usados. As caravanas de suprim entos são um castigo para os prateados e um alívio para os verm elhos. E o m elhor de tudo: são pouco protegidas. Afinal, o inim igo está firm e do outro lado do Gargalo, em Lakeland, separado por quilôm etros de terra arrasada, trincheiras e explosões de artilharia. Ninguém olha para as árvores ao passar. Ninguém im agina que existe outro inim igo, j á dentro de suas m uralhas de diam ante.

Não consigo avistar a Estrada de Ferro do alto desta serra — a folhagem das árvores obscurece a avenida pavim entada —, m as não querem os observar a estrada hoj e. Não vam os reunir dados sobre a m ovim entação das tropas. Vam os falar diretam ente com elas.

Meu relógio interno m e diz que estão atrasadas.

— Pode ser um a arm adilha — Tristan m urm ura, sem pre ansioso para m anifestar seus m edos.

Ele se m antém alerta, o olho firm e contra o telescópio. Espera um a arm adilha desde o m om ento em que Will Whistle (com o o sobrenom e denuncia, o Assobiador em Palafitas) nos falou dos contatos no exército. E agora que vam os nos encontrar com eles, seus nervos estão m ais à flor da pele do que o norm al, se é que isso é possível. Não é um instinto ruim , m as não aj uda nada no m om ento. O risco faz parte do j ogo. Não vam os chegar a lugar nenhum se pensarm os apenas na própria pele.

Mas há um m otivo para só três de nós esperarm os.

— Se for um a arm adilha, a gente escapa — com ento. — Já enfrentam os coisa pior.

Não é m entira. Todos tem os nossas cicatrizes e assom brações. Algum as nos levaram até a Guarda Escarlate, e outras vieram por causa dela. Conheço a dor de am bas.

Minhas palavras são m ais para Ty e do que para Tristan. Com o todos os que escaparam das trincheiras, ela não está nem um pouco feliz em retornar, ainda que não vista o uniform e azul de Lakeland. Não que ela vá reclam ar disso em voz alta, m as dá para perceber.

— Movim ento.

Ty e e eu nos agacham os e viram os na direção do olhar de Tristan. A m ira do rifle se m ove no ritm o de um a lesm a, acom panhando algum a coisa entre as árvores. Quatro som bras. Estamos em menor número.

Eles surgem com os braços erguidos, exibindo as m ãos vazias. Diferente dos soldados na estrada, os quatro estão com os uniform es do avesso, preferindo o m arrom m anchado e as costuras pretas à cor de ferrugem usual. É um a cam uflagem m elhor para a floresta. Isso sem falar que esconde seus nom es e hierarquia. Não vej o nenhum tipo de insígnia ou distintivo. Não faço ideia de quem são.

Um a brisa calm a sopra pelo m ato com o um lago atingido por um a só pedra, ondulando em círculos verdes que se desfazem contra os quatro que se aproxim am em fila única. Olho bem para os pés deles. Eles têm o cuidado de pisar nas pegadas do líder. Se alguém checasse, acharia que apenas um a pessoa veio por esse cam inho, não quatro. Espertos.

Um a m ulher está à frente. O queixo lem bra um a bigorna e ela não tem os dois dedos que vão no gatilho. É incapaz de atirar, m as, a j ulgar pelas m arcas de cansaço no rosto, ainda é soldada. Seu cabelo foi raspado por inteiro, assim com o o da garota esbelta e bronzeada logo atrás.

Dois hom ens vêm pela retaguarda. Am bos j ovens, talvez no prim eiro ano de serviço. Nenhum deles tem cicatrizes ou ferim entos visíveis, então não podem estar se fingindo de feridos em Corvium . Provavelm ente são soldados da caravana de suprim entos. Têm sorte de apenas carregarem caixas de m unição e com ida. Em bora o segundo, bem no fim da fila, pareça m agro dem ais para o trabalho m anual.

A m ulher careca para a três m etros de distância, ainda com as m ãos para cim a. Perto dem ais para o gosto de nós duas. Forço-m e a levantar do m ato e dim inuo a distância entre nós. Ty e e Tristan perm anecem im óveis. Não se escondem , m as tam bém não avançam .

— Som os nós — ela diz.

Apoio a m ão no quadril, com os dedos a centím etros da pistola presa ao cinto. Um a am eaça clara.

— Quem nos enviou? — pergunto para testá-la. Atrás de m im , Tristan enrij ece com o um a cobra. A m ulher tem coragem para desviar os olhos do rifle, m as os outros não.

— Will Whistle de Palafitas — ela responde. E não para por aí, em bora isso baste por enquanto. — Filhos tirados das m ães, soldados m andados para o abatedouro, incontáveis gerações de escravos. Cada um deles enviou vocês.

Batuco levem ente com os dedos. O ódio é um a faca de dois gum es, e essa m ulher j á foi ferida pelos dois lados.

— Will Whistle é o suficiente. E vocês são?

— Cabo Eastree, da Legião Torre, com o o resto. — Ela gesticula para trás, apontando os três que ainda observam Tristan. Aceno com a cabeça e o dedo dele no gatilho relaxa um pouco. Mas não m uito. — Som os tropas de apoio, destacadas para Corvium .

— Will m e disse isso — m into rápido. — E o que ele falou de m im ?

— O bastante para nos fazer vir até aqui. O bastante para arriscarm os o próprio pescoço — soa a voz do j ovem no fim da fila. Ele se inclina para o lado, desviando-se de seu com panheiro. Abre um sorriso torto, desafiador e frio. Seus olhos brilham . — Você sabe que serem os executados se form os pegos aqui, certo?

Outra brisa, m ais forte do que a anterior. Forço um sorriso vazio.

— Ah, isso é tudo?

— Melhor serm os rápidos — Eastree diz. — Sua turm a pode proteger seus nom es, m as isso não adianta pra nós. Eles têm o nosso sangue, o nosso rosto. Estes aqui são soldado Florins, soldado Reese e…

O do sorriso torto dá um passo para fora da fila antes de ela conseguir dizer seu nom e. Ele se aproxim a, m as não estende a m ão para nos cum prim entar.

— Meu nom e é Barrow. Shade Barrow. E é m elhor vocês não m e deixarem m orrer.

Lanço um olhar cerrado para ele.

— Não prom eto nada.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 23 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 1

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Corvium , NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Dados de CORVIUM anexos: estatísticas do forte, m apa da cidade, diagram a dos túneis, cronogram a do exército. Avaliação prelim inar. Mais prom issores: Cabo E (ansiosa, raivosa, tudo ou nada) e Aj udante B (bem relacionado, auxiliar de oficial novo em CORVIUM). Possíveis recrutas ou fase 2. Am bos parecem prontos para se unir a nós, m as não sabem da presença da GE em NRT, LL. Ter dois agentes dentro de CORVIUM é de valor incalculável. Seguirem os em frente. Solicitação de recrutam ento rápido?

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : CENSURADO

Destinatário: OVELHA em Corvium

 

Solicitação negada. Cabo E e Aj udante B não são essenciais. Deixar CORVIUM. Continuar avaliando contatos dos ASSOBIADORES/ ativos para a fase 2 da TEIA VERMELHA.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Corvium , NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Dados de CORVIUM são vitais para toda a causa da GE. Solicitação de m ais tem po no local. Passar ao COMANDO. Acredito m uito que Cabo E e Aj udante B são fortes candidatos.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: General CENSURADO

Designação: BATEDOR

Origem : CENSURADO

Destinatário: OVELHA em Corvium , CARNEIRO em CENSURADO

 

Solicitação negada. Ordens para continuar a avaliação da fase 1 para início da fase 2/ rem oção de ativos.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO AO COMANDO

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Corvium , NRT

Destinatário: BATEDOR em CENSURADO

 

Forte oposição. Muitos ativos m ilitares em CORVIUM, precisam ser avaliados para o início da fase 2.

Solicitação de m ais tem po no local.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: General CENSURADO

Designação: BATEDOR

Origem : CENSURADO

Destinatário: OVELHA em Corvium

 

Solicitação negada. Saia daí.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

Seguindo o protocolo, ateio fogo na carta, um a fina tira de papel. Os pontos e traços que detalham as ordens do Com ando se desfazem , consum idos pela cham a. Conheço a sensação. A raiva quente se agita dentro de m im . Mas m antenho um a expressão im passível, por Cara.

Ela observa tudo, com os óculos grossos equilibrados no nariz. Seus dedos coçam , prontos para digitar a resposta para as ordens que ela é incapaz de ler.

— Não precisa — digo, dispensando-a com um gesto. A m entira hesita por um instante em m eus lábios. — O Com ando cedeu. Vam os ficar.

Aposto que o olho ruim do coronel está dando voltas no crânio neste exato m om ento. Mas suas ordens são idiotas, lim itadas, e agora o Com ando pensa com o ele. Devem ser desobedecidos em nom e da causa, em nom e da Guarda Escarlate. Cabo Eastree e Barrow são indispensáveis para nós, sem contar que am bos estão arriscando a própria vida para conseguir a inform ação de que preciso. A Guarda lhes deve um j uram ento, quando não um a retirada na fase 2.

Eles não estão aqui, sujando as mãos, digo a m im m esm a. Aj uda a aliviar a culpa pela desobediência. O coronel e o Com ando não entendem o que Corvium significa para as forças arm adas de Norta, nem o quão im portante será essa inform ação. Só o sistem a de túneis j á vale o m eu tem po — ele conecta cada um a das partes da cidade-fortaleza, perm itindo não apenas a m ovim entação de tropas clandestinas, m as um a infiltração fácil em Corvium . Graças ao posto de Barrow com o aj udante de um alto oficial prateado, tam bém sabem os dados m enos requintados… Sabem os quais oficiais preferem a com panhia forçada de soldados verm elhos. Sabem os que existe um a briga entre a fam ília do general Lord Osanos, o ninfoide que governa a região e com anda a cidade, e a do general Lord Laris, com andante de toda a esquadra aérea de Norta. Sabem os quem é vital para os m ilitares e quem só usa a patente para se m ostrar. A lista não acaba. Rivalidades m esquinhas e fraquezas a serem exploradas. Um a série de articulações apodrecidas que podem os golpear.

Se os m em bros do Com ando não veem isso, é porque são cegos.

Mas eu não sou.

E hoj e é o dia em que vou por m eus próprios pés lá dentro, do outro lado das m uralhas da cidade, para ver o que Norta tem de pior a oferecer para a revolução de am anhã.

Cara fecha o transm issor e volta a pendurá-lo no pescoço. O dispositivo está com ela o tem po todo, aninhado perto do coração.

— Nem m esm o para o coronel? — ela pergunta. — Para provocar?

— Hoj e não — respondo forçando um sorriso, o que a deixa satisfeita.

E m e convence. As duas últim as sem anas foram um a m ina de ouro de inform ações. As próxim as duas com certeza serão iguais.

Saio do côm odo abafado e lacrado que usam os para as transm issões pisando forte. Essa é a única parte da casa abandonada que tem as quatro paredes e o telhado intactos. O resto da construção cum pre bem seu papel de abrigo para nossas operações em Corvium . A sala principal, um grande quadrado, tem paredes de tij olos, em bora um a delas tenha desm oronado j unto com o telhado de latão enferruj ado. E o am biente m enor, provavelm ente um dorm itório, não tem m ais nada do telhado. Não que a gente se im porte. A Guarda Escarlate j á passou por coisa pior, e as noites têm sido bem quentes para a época, ainda que úm idas. O verão está chegando a Norta. Nossas barracas de plástico protegem da chuva, m as não do ar úm ido. Não é nada, digo a m im m esm a. Um leve desconforto. Mas o suor escorre pelo m eu pescoço m esm o assim . E ainda não é nem meio-dia.

Tentando ignorar a sensação grudenta, enrolo a trança no topo da cabeça, com o se fosse um a coroa. Se o tem po continuar assim , pode ser que a corte fora.

— Ele está atrasado — Tristan diz de seu posto atrás de um a j anela sem vidro. Seus olhos nunca param . Estão sem pre atentos, caçando.

— Ficaria preocupada se não estivesse — com ento. Barrow não chegou no horário nenhum a vez nas duas últim as sem anas, em nenhum dos encontros.

Cara se j unta a Ty e no canto, deixando o corpo cair sentado e alegre no chão. Em seguida, com eça a lim par os óculos com o m esm o esm ero com que Ty e lim pa as pistolas. São parecidas, loiras de Lakeland. Com o eu, não estão acostum adas com o calor de m aio e se esprem em na som bra.

Tristan não se afeta tanto. Nasceu em Piedm ont, filho de um inverno brando e um verão lam acento. O calor não o incom oda. Na verdade, o único indício em seu corpo da m udança de estação são as sardas, que parecem aum entar. Pontilham cada dia m ais os braços e o rosto dele. Seu cabelo tam bém está m aior. Parece um esfregão verm elho-escuro desgrenhado.

— Foi o que eu falei para ele — Rasha diz do outro canto, enquanto faz tranças no cabelo para tirá-lo do rosto negro. Com cuidado, ela reparte os cachos pretos em partes iguais. O rifle dela, não tão longo quanto o de Tristan, m as usado com a m esm a m aestria, está escorado na parede ao lado dela. — Estou com eçando a achar que ninguém dorm e em Piedm ont.

— Se você quer saber m ais sobre m eus hábitos de sono, Rasha, é só perguntar — Tristan dispara. Desta vez, ele lança um olhar por cim a do om bro, só por um segundo, para encontrar os olhos negros dela. Am bos trocam olhares significativos.

Tenho que m e controlar para não bufar.

— Deixem isso para a floresta, vocês dois — resm ungo. Já é bem difícil dormir no chão sem ouvir uma barraca chacoalhando. — As sentinelas ainda estão lá fora?

— Tarry e Shore estão patrulhando o m orro. Não voltam antes do anoitecer. O m esm o vale para Grande Coop e Martenson — Tristan conta o resto da equipe nos dedos. — Cristobel e Pequeno Coop estão cerca de um quilôm etro à frente, nas árvores. Esperando o seu am igo Barrow faz um tem po, e pelo visto a espera vai longe.

Confirm o. Tudo em ordem então.

— O Com ando está feliz até aqui?

— Mais feliz é im possível — m into com toda a sutileza que tenho. Felizm ente, Tristan não tira os olhos do relógio e não percebe m eu pescoço ficando verm elho. — Estam os passando boas inform ações. Com certeza vale o nosso tem po.

— Estão pensando em aceitar Eastree ou Barrow?

— Por que está perguntando isso?

Ele dá de om bros.

— Acho que estam os gastando m uito tem po com um a dupla que não vam os recrutar. Ou você sugere que os levem os para a fase 2?

Tristan não quer ser enxerido. É um bom tenente, o m elhor que j á vi, leal até os ossos. Não sabe o que está cutucando, m as m achuca m esm o assim .

— Ainda estou pensando nisso — m urm uro, cam inhando devagar para longe das perguntas dele. — Vou dar um a volta na propriedade. Me cham e se Barrow der as caras.

— Entendido, chefe — a voz dele ecoa pela sala.

É um a batalha conseguir dar passos regulares, e a sensação é de que se passa um a eternidade até eu chegar à segurança das árvores. Respiro fundo para m e acalm ar. É o melhor a fazer. Mentir para eles, desobedecer às ordens… É o melhor. Não é culpa sua se o coronel não entende. Não é culpa sua. O velho m antra m e estabiliza, reconfortante com o um a bebida forte. Tudo o que fiz e que vou fazer é pela causa. Ninguém pode alegar o contrário. Ninguém j am ais questionará m inha lealdade, não quando eu lhes entregar Norta num a bandej a de prata.

Devagar, um sorriso aparece em m inha cara habitualm ente fechada. Minha equipe não sabe o que vem pela frente. Nem m esm o Tristan. Não sabem o que o Com ando planej ou para este reino nas próxim as sem anas, ou o que fizem os para botar as coisas em ação. Sorrindo, m e lem bro da câm era ligada. Das palavras que disse diante dela. Logo o m undo vai ouvi-las.

Não gosto dos bosques daqui. Calm os dem ais, silenciosos dem ais. O cheiro de cinzas fica grudado no ar. Apesar de as árvores viverem , este lugar está m orto.

— Boa hora para um a cam inhada.

Minha pistola encosta na cabeça dele antes de eu sequer pensar.

Por algum m otivo, Barrow nem trem e. Apenas ergue os braços, fingindo se render.

— Você é um tipo especial de idiota — digo.

Ele ri.

— Devo ser. Afinal, continuo voltando ao seu clube de rebeldes esfarrapados.

— E está atrasado.

— Prefiro dizer que estou em desvantagem cronológica.

Grunhindo m al-hum orada, baixo a arm a, m as não tiro a m ão dela. Olho bem para ele. Geralm ente, o uniform e está do avesso para servir de cam uflagem , m as dessa vez ele nem se deu ao trabalho. O casaco puído é verm elho e escuro com o sangue e se destaca em m eio ao verde.

— Mandei dois olheiros esperarem você.

— Eles não devem ser m uito bons — ele diz com aquele sorriso de novo. Outra pessoa acharia Shade Barrow anim ado, aberto. Mas há algo frio por baixo. Um a rigidez de ferro. — Vim do j eito de sem pre.

— Mesm o? — zom bo, dando um tapa na j aqueta dele.

Aí está. Os olhos dele brilham com o âm bar congelado. Shade Barrow tem segredos, com o todo m undo.

— Vou avisar m eu pessoal que você está aqui — digo, recuando um passo do corpo esguio de Barrow. Os olhos dele seguem m eus m ovim entos, m e analisando devagar. Só tem dezenove anos e pouco m ais de um ano no serviço m ilitar, m as o treinam ento certam ente o m arcou.

— Você quer dizer que vai avisar o seu cão de guarda?

Um canto da m inha boca se levanta.

— O nom e dele é Tristan.

— Tristan, certo. Cabelo ruivo, sem pre colado no rifle.

Barrow abre espaço para m im , m as m e segue pelo cam inho até a sede da fazenda.

— Engraçado — ele continua. — Nunca esperei encontrar um sulista entre vocês.

— Sulista? — m inha voz não vacila apesar da especulação não tão vaga de Barrow.

Ele aperta o passo, quase ao ponto de pisar no m eu calcanhar. Me seguro para não lhe dar um coice no j oelho.

— Ele é de Piedm ont — Barrow continua. — Tem que ser, com aquele sotaque. Não que sej a segredo. Assim com o o restante do seu bando. Todos de Lakeland, não é?

Lanço um olhar por cim a do om bro.

— De onde você tirou essa ideia?

— E você é do extrem o norte, im agino. Mais longe do que os m apas registram — ele insiste. Tenho a sensação de que está se divertindo, com o se m ontasse um quebra-cabeça. — Vocês vão adorar quando chegar o verão de verdade, com dias longos e carregados de calor. Nada com o um a sem ana de nuvens negras que não chovem e um a brisa que parece capaz de sufocar.

— Não m e surpreende que você não estej a nas trincheiras — digo ao tocar a m açaneta. — Não precisam de poetas na linha de frente.

O idiota tem a cara de pau de piscar pra m im .

— Bom , não podem os ser todos uns brutos.

Apesar dos m uitos alertas de Tristan, sigo Barrow desarm ada. Se for pega em Corvium , posso im plorar dizendo que sou um a sim ples verm elha de Norta no lugar errado e na hora errada. Mas isso não seria possível se estivesse portando m inha pistola de Lakeland ou um a faca de caça bem gasta. Nesse caso, seria executada no ato, não apenas por portar arm as sem perm issão, m as por ser claram ente de Lakeland. Provavelm ente m e deixariam cara a cara com um m urm urador só pra garantir, e esse é o pior destino de todos.

Enquanto a m aioria das cidades cresce para os lados, com bairros e cidades m enores circundando seus lim ites, Corvium se ergue solitária. Barrow para um pouco antes do fim da linha da floresta e olha para o norte, para a paisagem lim pa ao redor da m ontanha. Meus olhos varrem a cidade-fortaleza em busca de qualquer detalhe útil. Eu tinha m e debruçado sobre os m apas roubados de Corvium , m as ver o lugar ao vivo é com pletam ente diferente.

As m uralhas são de granito preto com espinhos de ferro reluzente incrustados, bem com o outras “arm as” facilm ente dom adas pelos poderes dos prateados. Trepadeiras verdes tão grossas quanto troncos se enrolam pelas dez ou doze torres de vigia. Um fosso de água escura alim entado por canos rodeia a cidade inteira. Espelhos estranhos pendem entre ganchos de m etal que descem dos parapeitos com o presas. Suponho que sej am para os som brios, para que possam concentrar seu poder de dom inar a luz. Claro, isso sem contar as arm as tradicionais. As torres de vigia escuras com o petróleo tam bém estão repletas de arm as pesadas e de um a artilharia pronta para disparar contra qualquer pessoa ou coisa nos arredores. E, atrás das m uralhas, os edifícios sobem cada vez m ais alto, especialm ente por causa do espaço apertado. Tam bém são pretos, com o topo dourado e prata, um a som bra sob a luz intensa do sol. De acordo com os m apas, a cidade em si é organizada com o um a roda, com vias dispostas feito raios, todas partindo da praça central usada para reunir as tropas e realizar as execuções.

A Estrada de Ferro corta a cidade ao m eio, de leste a oeste. O trecho oeste é tranquilo; ninguém nas ruas agora no fim da tarde. Mas o trecho leste vibra com os veículos, a m aioria de prateados, levando nobres e oficiais para longe da fortaleza. Ao final da fila, vai um com boio verm elho de entregas que retorna aos m ercados de Rocasta, a cidade m ais perto para arranj ar suprim entos. São veículos m otorizados, carroças e até m esm o pessoas a pé, fazendo todo o traj eto de trinta quilôm etros para voltar em alguns dias. Tiro a luneta do bolso da j aqueta para acom panhar a fileira irregular.

Um a dúzia de veículos, o m esm o núm ero de carroças, talvez trinta verm elhos a pé. Todos vão devagar para perm anecerem j untos. Vão levar pelo m enos nove horas para chegar ao destino. Um desperdício de contingente, m as duvido que se im portem . Entregar uniform es é m ais seguro do que usá-los. Observo o últim o m em bro da caravana deixar o portão leste.

— O portão da reza — Barrow cochicha.

— Hum ?

Ele dá um tapinha na m inha luneta e explica:

— Cham am os de portão da reza. Quando você entra, reza pra sair. Quando sai, reza pra nunca m ais voltar.

Não consigo segurar um riso irônico.

— Não sabia que Norta era religiosa — digo, e ele apenas nega com a cabeça. — Então pra quem vocês rezam ?

— Acho que pra ninguém . São só palavras no fim das contas.

De algum a form a, sob a som bra de Corvium , os olhos de Shade Barrow encontram um pouco de calor.

— Se você m e levar até lá, te ensino um a oração m inha. — Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora. Por m ais irritante que Barrow sej a, tenho a sensação crescente de que logo m ais será um escarlate.

Ele inclina a cabeça, m e encarando com a m esm a intensidade com que o encaro.

— Com binado.

— Em bora eu não tenha ideia de com o você planej a fazer isso. Aquela caravana era a nossa m elhor chance, m as infelizm ente você chegou… Com o foi que você disse? Em desvantagem cronológica?

— Ninguém é perfeito, nem m esm o eu — ele responde com um sorriso de idiota. — Mas eu disse que ia colocar você lá dentro hoj e, e sem pre cum pro m inha palavra. Cedo ou tarde.

Olho pra ele de cim a a baixo, m edindo sua postura. Não confio em Barrow. Não é do m eu feitio confiar em ninguém de verdade. Mas o risco faz parte do jogo.

— Você vai m e fazer levar um tiro?

O sorriso dele aum enta.

— Acho que você vai ter que descobrir.

— Muito bem , e o que vam os fazer?

Para a m inha surpresa, ele estende a m ão. Seus dedos são longos, e eu apenas observo, confusa. Será que ele quer que a gente pule o portão como crianças risonhas? Franzindo a testa, cruzo os braços e viro de costas.

— Bom , vam os com eçar…

Um a cortina de escuridão cobre m inha vista quando Barrow j oga um cachecol por cim a dos m eus olhos.

Eu gritaria se pudesse, para avisar Tristan, que nos segue a quinhentos m etros de distância. Mas, de repente, o ar é esprem ido dos m eus pulm ões, e tudo parece encolher. Não sinto nada além de um m undo cada vez m ais apertado e a pressão do peito de Barrow contra m inhas costas. O tem po gira em falso, tudo cai. O chão dança sob m eus pés.

Bato forte contra o concreto, o que faz m eu cérebro chacoalhar ainda m ais. Minha visão fica em baçada, pontos pretos contra um fundo ainda m ais escuro. Tudo ainda gira. Preciso fechar os olhos de novo para m e convencer de que não estou girando tam bém .

Minhas m ãos apalpam algo viscoso e frio quando tento levantar, e torço para que sej a água. Não consigo. Caio para trás. Abrindo os olhos na m arra, m e deparo com um a escuridão azul e úm ida. As m anchas dim inuem , prim eiro devagar e depois som em com pletam ente.

— Mas que m …?

Viro de bruços e vom ito tudo o que tinha na barriga.

A m ão de Barrow surge nas m inhas costas fazendo gestos circulares que ele acha que vão aliviar a dor. Mas o toque m e deixa arrepiada. Depois de botar tudo pra fora, dou um a cusparada e levanto m esm o com os pés trêm ulos. Minha intenção é pelo m enos conseguir m e afastar dele.

Ele estende a m ão para m e apoiar, m as eu a afasto com um tapa, desej ando ter trazido a faca.

— Não encosta em m im — rosno. — O que foi isso? O que aconteceu? Onde estou?

— Cuidado! Você está virando um a filósofa.

Dou um a cusparada de bile ácida nos pés dele.

— Barrow! — sibilo.

Ele suspira incom odado, com o um professor de crianças.

— Trouxe você pelos dutos de água. Alguns deles estão na beira da m ata. Precisei vendar seus olhos, claro. Não posso entregar todos os m eus segredos de graça.

— Dutos o cacete. Estávam os lá fora há um m inuto. Nada se m ove tão rápido.

Barrow faz o possível para conter um sorriso.

— Você bateu a cabeça — ele diz depois de um longo m om ento. — Desm aiou quando com eçam os a escorregar.

Isso explicaria o vôm ito. Contusão. No entanto, j am ais m e senti tão desperta. Toda a dor e náusea dos últim os segundos passaram de repente. Apalpo m inha cabeça m eticulosam ente em busca de um galo ou algum ponto dolorido, m as não encontro nada.

Ele observa m eu exam e com um a atenção intensa.

— Ou você acha que percorreu o m eio quilôm etro até chegar na fortaleza de Corvium de outra m aneira?

— Não, im agino que não.

À m edida que m eus olhos se adaptam à pouca luz, percebo que estam os num a despensa abandonada ou esquecida, a j ulgar pelas prateleiras vazias e pelos dois dedos de água no chão. Evito olhar para o m onte de vôm ito fresco.

— Aqui, vista isso — ele diz ao tirar um a m uda de roupa encardida de algum lugar no escuro; um canto escondido, m as fácil de achar. A roupa voa até m im e bate contra o m eu peito, levantando um a pequena nuvem de pó e fedor.

— Maravilhoso — m urm uro ao desdobrar as peças e ver que se trata de um uniform e do regim ento. Está bem gasto, rem endado e com m arcas de sabe-se lá o quê. A insígnia é sim ples: um a única barra branca com contornos em preto. Um soldado da infantaria, recrutado. Um cadáver ambulante. — De que defunto você arrancou isso?

O choque frio faísca dele m ais um a vez por um instante.

— Vai servir — ele responde. — Isso é tudo com que você precisa se preocupar.

— Muito bem .

Jogo os om bros para trás e m e livro da j aqueta sem m uita cerim ônia, arrancando a calça gasta e a cam isa em seguida. Minha roupa de baixo não é nada especial. Não com bina, m as está lim pa, felizm ente. Barrow, contudo, olha para o lado, com a boca um pouco aberta.

— Em boca aberta entra m osca, Barrow — provoco enquanto visto a calça do uniform e. Sob a luz escassa, parece verm elha e gasta com o canos enferruj ados.

— Desculpe — ele balbucia e então vira o rosto, seguido do corpo, na m inha direção. Com o se eu ligasse para privacidade. Acho graça que ele estej a ficando verm elho.

— Não sabia que os soldados tinham tanta vergonha do corpo fem inino — continuo enquanto fecho o zíper da cam isa do uniform e. É apertado, m as serve. Obviam ente foi feito para alguém m ais baixo e com om bros m ais estreitos.

Ele volta a olhar para os lados. Agora até suas bochechas estão verm elhas, e ele parece m ais j ovem . Não, percebo. Agora ele parece ter a idade que tem.

— Não sabia que as pessoas eram tão liberais em Lakeland.

Abro um sorriso tão frio quanto o olhar dele.

— Sou da Guarda Escarlate, garoto. Tenho m ais com que m e preocupar do que ter vergonha do m eu corpo.

Algo trem e entre nós. Um a corrente de ar, quem sabe, ou talvez sej a apenas m inha dor de cabeça voltando. Deve ser isso.

E então Barrow com eça a rir.

— O quê?

— Você m e lem bra a m inha irm ã.

É a m inha vez de sorrir.

— Você a espia sem pre, é?

Ele não cai na provocação, ignorando m eu com entário.

— O seu com portam ento, Farley. O seu j eito. Vocês pensam igual.

— Ela deve ser um a garota brilhante.

— Com certeza ela acha que é.

— Muito engraçado.

— Acho que vocês duas seriam grandes am igas — ele diz. Depois inclina a cabeça refletindo por um segundo. — Ou acabariam se m atando.

Pela segunda vez em poucos m inutos, encosto em Barrow contra m inha vontade. Não com a m esm a gentileza dele quando esfregou m inhas costas. Na verdade, dou um soquinho no braço dele.

— Vam os com eçar, então — digo. — Não gosto de andar por aí com roupas de m ulheres m ortas.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

— Capitã, responda às ordens. O COMANDO não vai tolerar isso. CARNEIRO.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO AO COMANDO

Dia 29 da OPERAÇÃO MURALHA, fase 2

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : CENSURADO

Destinatário: BATEDOR em CENSURADO

 

Dois dias sem contato com OVELHA.

Solicito perm issão para interceptar.

OPERAÇÃO MURALHA à frente do cronogram a. Ilha #3

operacional, m as o transporte é problem ático. É preciso m ais barcos do que pensam os.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: General CENSURADO

Designação: BATEDOR

Origem : Com ando em CENSURADO

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Interceptação perm itida. Enviarem os m ais info sobre a

localização dela.

Usar força se necessário. Ela foi sugestão sua e será erro seu se

continuar assim .

Passe TEIA VERMELHA para fase 2. Colabore com outras

equipes para com eçar a rem oção.

Analisarem os outras opções de transporte para #3.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

— Farley, m elhor entrar na linha ou é a sua cabeça em j ogo. CARNEIRO.

 

Outra m ensagem queim ada.

— Encantador — m urm uro enquanto observo as palavras do coronel arderem .

Dessa vez, Cara não se dá ao trabalho de perguntar. Mas os lábios dela se contorcem num a linha fina, contendo um a torrente de perguntas. Já se passaram cinco dias desde que m andei m inha últim a m ensagem , oficial ou não. É óbvio que ela sabe que algum a coisa está acontecendo.

— Cara… — com eço, m as ela ergue a m ão para m e interrom per.

— Não tenho autorização — ela responde. Seus olhos encontram os m eus com um a ferocidade incrível. — E não m e im porto por qual cam inho você vai nos levar, desde que acredite que é o certo.

Sinto um calor dentro de m im . Faço o m áxim o para não dem onstrar, m as um sorriso discreto acaba escapando m esm o assim . Minha m ão encontra o om bro dela no m enor dos toques de agradecim ento.

— Não banque a sentim ental com igo, capitã — ela ri ao guardar o transm issor.

— Entendido.

Endireito o corpo e m e viro para o resto da equipe. Estão agrupados na esquina do beco fum acento, a um a distância respeitável para m e dar espaço para a correspondência privada. Para disfarçar nossa presença, Tristan e Rasha estão sentados na sarj eta, de frente para a rua. Mendigam com ida ou dinheiro com a m ão estendida e a cabeça coberta por um capuz. Todos passam reto, olhando para outro lugar.

— Ty e, Grande Coop — cham o. A dupla em questão dá um passo à frente. Ty e inclina a cabeça, direcionando o ouvido bom para m im . Grande Coop faz j us ao apelido, com o tronco do tam anho de um tonel e quase dois m etros e m eio de puro m úsculo. Ele é quase o dobro do irm ão, Pequeno Coop. — Fiquem com Cara e aprontem o segundo rádio.

Ty e estende o braço, se coçando para pôr as m ãos na nossa m ais nova aquisição: um rádio de segurança de últim a geração feito pelos técnicos. Roubam os três dos estoques de Corvium graças à m ão leve de Barrow. Passo um rádio adiante e m antenho o segundo aparelho com igo. Barrow ficou com o terceiro, para o caso de precisar entrar em contato. Não que ele j á tenha usado. Não que eu estej a vigiando a com unicação dele. Barrow geralm ente só aparece quando quer trocar inform ações, sem pre sem avisar, passando por todos os olheiros que ponho ao redor da casa da fazenda sem ser visto. Mas hoj e estam os além até de seu alcance. Quarenta quilôm etros a leste, no m eio de Rocasta.

— Quanto aos outros, Cristobel e Pequeno Coop, vocês ficam de guarda. Procurem um lugar alto e se escondam . Os sinais são os de sem pre.

Cris m ostra um sorriso com dentes faltando — castigo por “caçoar” do seu senhor prateado quando ainda era um a criada de doze anos num a m ansão em Trial. Pequeno Coop dem onstra a m esm a ansiedade. O tam anho e o com portam ento tím idos — sem falar da parede de m úsculos que é o irm ão — escondem um agente habilidoso com nervos de aço. Sem precisar de m ais nada, am bos se põem a trabalhar. Pequeno Coop se segura num a calha e sobe pelas paredes do beco, enquanto Cris trepa num a cerca e a usa para tom ar im pulso até o beiral estreito de um a j anela. Am bos desaparecem em questão de instantes para nos seguir dos telhados.

— Os dem ais, atenção aos alvos. Mantenham os ouvidos atentos. Decorem os m ovim entos. Quero saber tudo, de aniversário a tam anho do sapato. Coletem o que conseguirem no tem po que tem os.

As palavras são fam iliares. Todo m undo sabe por que quis essa ronda. Mas tam bém serve de grito de guerra, m ais um nó para nos m anter unidos. Mais um nó para atá-los à sua desobediência, você quer dizer.

Cerro o punho, cravo as unhas na palm a da m ão, onde ninguém pode ver. A dor apaga o pensam ento. A brisa que sopra pelo beco faz o m esm o. Fede a lixo, m as pelo m enos é fresca. Vem do lago Eris, ao norte.

— Quanto m ais souberm os do com boio de suprim entos de Corvium , m ais fácil será nos infiltrar — digo. Um motivo tão bom para ficarmos aqui como qualquer outro, apesar de o coronel só me pedir para voltar. — Os portões fecham ao pôr do sol. Voltem para o ponto de encontro em um a hora. Entendido?

Eles assentem ao m esm íssim o tem po, com olhos vivos, brilhantes e ansiosos.

Algum as quadras adiante, o relógio da torre soa nove vezes. Me ponho em m ovim ento sem nem pensar, passando pelos m eus rebeldes que form am um a fila atrás de m im . Tristan e Rasha são os últim os a entrar. Meu tenente parece nu sem o rifle, m as sei que carrega um a pistola em algum lugar, provavelm ente na base das costas, acum ulando o suor.

Partim os em direção às ruas, m ais especificam ente para um a das avenidas principais do setor verm elho da cidade. Estam os seguros por enquanto, cercados apenas por casas e com ércios verm elhos, com poucos ou talvez nenhum policial prateado para nos ver. Com o Harbor Bay, Rocasta conta com a própria Ronda Verm elha para proteger aquilo com que os prateados não se im portam . Em bora estej am os indo para o m esm o lugar, m inha equipe se divide nas duplas habituais e se dispersa. Não dá para peram bular pelo centro da cidade parecendo um a tropa de choque, m uito m enos um a gangue. Tristan ficar por perto de novo, e eu nos conduzo ao destino: a Estrada de Ferro. Com o Corvium , Rocasta tam bém é cortada ao m eio pela estrada, que avança direto pelo seu cerne com o um rio que corre por um vale. À m edida que nos aproxim am os do acesso principal, o trânsito com eça a aum entar. Criados atrasados se apressam para a casa dos senhores, vigias voluntários voltam do turno da noite, pais arrastam crianças para escolas decrépitas.

E, claro, m ais agentes de segurança a cada esquina. Seus uniform es sóbrios, pretos com detalhes prata, se destacam sob o sol cruel do fim da prim avera, bem com o as arm as e os cassetetes reluzentes em suas cinturas. Engraçado eles sentirem necessidade de usar uniform e, com o se corressem o risco de serem confundidos com um verm elho. Com um de nós. Sem chance. A pele deles basta para distingui-los, com um fundo azul e cinza, drenada de toda vida. Não existe um verm elho vivo tão frio quanto um prateado.

Dez m etros à frente, Rasha para tão rápido que seu parceiro, Martenson, quase tropeça nela. Um a tarefa difícil, considerando que ela tem quase vinte centím etros a m ais do que o velhinho grisalho. Do m eu lado, Tristan fica tenso, m as não rom pe a form ação. Conhece as regras. Nada está acim a da Guarda, nem m esm o o afeto.

Legionários prateados arrastam um m enino pelos braços. Os pés dele chutam o ar. Ele é pequeno, parece ter m enos de dezoito anos. Duvido que sequer precise fazer a barba. Faço o possível para bloquear o som de suas súplicas, m as não consigo ignorar o lam ento da m ãe. Ela segue os três, com outros dois filhos logo atrás, enquanto o pai, solene, acom panha à distância. As m ãos dela agarram a cam isa do filho, num a últim a tentativa de im pedir o recrutam ento.

Todos na rua parecem prender a respiração enquanto observam a tragédia.

Um estalo e a m ãe cai para trás, levando a m ão à bochecha inchada. O legionário sequer levantou um dedo, nem chegou a desviar os olhos do seu trabalho lúgubre. Deve ser um telec e usou seu poder para afastar a m ulher com um tapa.

— Quer um a coisa pior? — ele vocifera quando a m ulher am eaça se levantar.

— Não! — o garoto diz, usando suas últim as palavras livres para suplicar.

Isso não vai durar. Isso não vai continuar. É por isso que estou aqui.

Mesm o assim , fico enoj ada por não poder fazer nada pelo garoto e pela m ãe. Nossos planos com eçam a dar certo, m as não rápido o bastante para ele. Talvez ele sobreviva, digo a m im m esm a. Mas um olhar para os braços finos e os óculos esm agados sob o pé de um dos legionários m e diz o contrário. O garoto vai m orrer com o tantos outros. Num a trincheira ou num fim de m undo, sozinho até o fim .

— Não consigo assistir isso — resm ungo e viro para outro beco.

Depois de um longo m om ento de estranha hesitação, Tristan vem atrás.

Espero que Rasha se atenha às regras com o ele, m as entendo. Ela perdeu dois irm ãos para o recrutam ento de Lakeland e fugiu de casa antes de ter o m esm o destino.

Rocasta não é um a cidade m urada e não tem portões para afunilar as saídas da Estrada de Ferro. É fácil entrar, m as isso dificulta um pouco a nossa tarefa. A m aior parte do com boio de suprim entos volta pela Estrada, m as alguns pedestres que o acom panham se dispersam , tom ando atalhos até seus destinos. Em outro dia, m inha equipe passaria horas seguindo-os até suas casas, só para observá-los dorm ir depois da longa j ornada. Não é o que farem os agora. Porque hoj e é a Prim eira Sexta. Hoj e é a Efem éride de j ulho.

Um a tradição ridícula de Norta, ainda que eficaz, a j ulgar pelas inform ações coletadas. Arenas em quase todas as cidades e vilarej os proj etam grandes som bras e vertem sangue um a vez por m ês. Os verm elhos são obrigados a com parecer, a sentar e assistir aos guerreiros prateados trocando golpes e exibindo seus poderes com a em polgação de artistas. Isso não existe em Lakeland. Os prateados não sentem necessidade de se exibir para nós, e a lendária am eaça de Norta basta para m anter todos aterrorizados.

— Tam bém fazem isso em Piedm ont — Tristan sussurra.

Ele se inclina sobre a cerca de concreto que ladeia o cam inho até a entrada da arena. Nossos olhares varrem a área em sincronia; um de nós sem pre atento às nossas posições, o outro observando o bando de agentes direcionando as pessoas para as presas escancaradas da Arena Rocasta.

— Cham am de Ato, não de Efem éride. E não tínham os apenas que assistir. Às vezes faziam verm elhos lutarem tam bém — ele continua. Sinto o trem or do ódio em sua voz, m esm o em m eio ao caos organizado que é o espetáculo de hoj e.

Toco seu om bro do m odo m ais gentil que consigo.

— Lutarem um contra o outro?

Matar vermelhos ou ser morto por prateados? Não sei o que é pior.

— Os alvos estão se m ovendo — ele apenas resm unga.

Mais um a conferida nos agentes, agora ocupados com um bando de crianças encardidas que atrapalham a passagem do público.

— Vam os — digo. E deixe essa ferida apodrecer com as outras.

Saio da parede ao lado dele e m e enfio na m ultidão, com os olhos fixos nos quatro uniform es m ais à frente. Não é fácil. A essa distância de Corvium , há um m onte de soldados verm elhos, ou m archando para assum ir seu posto no Gargalo ou passando para outros com boios com o o que seguim os. Mas os quatro hom ens cansados até os ossos — três de pele bronzeada e um de pele negra — se m antêm próxim os uns dos outros. Seguim os cada passo deles. Eram os ocupantes de um a carroça do com boio, m as não sei ao certo o que transportavam . Estava vazia quando voltaram com o resto. A j ulgar pela falta de segurança e de prateados, sei que não se tratava de um carregam ento de arm as ou m unições. Os três bronzeados são irm ãos, im agino, por conta dos traços e trej eitos parecidos. É quase côm ico vê-los cuspir e coçar o traseiro em sincronia. O quarto — um suj eito corpulento com olhos azuis lívidos — está absorto nas próprias coceiras, apesar de sorrir m ais que os outros três j untos. Acho que se cham a Crance, pelo que consegui ouvir da conversa.

Continuar: parte 3 de 3