Cicatrizes de Aço

Victoria Aveyard · Capítulo 1 de 1 · parte 3/3

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Cicatrizes de Aço

Cicatrizes de aço

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Atravessam os os arcos de entrada da arena com o gatos m atreiros, perto o bastante para ouvir os alvos, m as não para serm os notados. Sobre nossas cabeças, luzes elétricas toscas piscam , ilum inando a câm ara de teto alto que liga a esplanada de fora ao interior. A m ultidão engrossa à esquerda, onde diversos verm elhos esperam para apostar no com bate. Sobre ela, as placas anunciam os lutadores prateados e a proporção das apostas.

Flora Lerolan, oblívia, 3/1

Maddux Thany, pétreo, 10/1

— Esperem um segundo — Crance diz, fazendo o resto do grupo parar nas bancas de aposta. Sorrindo, um dos bronzeados se j unta a ele. Os dois enfiam a m ão no bolso à procura de um trocado para apostar.

Sob o pretexto de fazer o m esm o, Tristan e eu param os a não m ais que uns m etros dali, escondidos pela grande m ultidão. As apostas são populares entre os verm elhos de Rocasta, onde um a próspera econom ia m ilitar evita que a m aioria passe fom e. Há várias pessoas bem de vida por aqui — com erciantes e em presários orgulhosos de suas roupas lim pas. Escolhem um lutador e entregam punhados de m oedas de cobre — às vezes até alguns tetrarcas de prata. Aposto que o caixa da Arena Rocasta não é nada desprezível, e tom o nota para passar a inform ação ao Com ando. Se eles ainda me derem ouvidos.

— Vam os, vej a as chances! É dinheiro fácil! — Crance diz ao apontar para as placas sobre as j anelas das bancas, ainda com um sorriso contagiante. Os dois que vão atrás não parecem m uito convencidos.

— Você sabe algum a coisa sobre os pétreos que não sabem os? — o m ais alto pergunta. — Ele vai ser explodido em pedregulhos pela oblívia.

— Com o quiser, Horner. Mas não cam elei de Corvium até aqui pra ficar entediado na arquibancada.

Com o volante da aposta na m ão, Crance se retira, seguido pelo am igo, e deixa Horner e o outro suj eito esperando. Por algum m otivo, apesar de seu tam anho, Crance é incrivelm ente bom em cortar pelo m eio da m ultidão. Bom dem ais.

— Observe os dois — sussurro, tocando de leve o cotovelo de Tristan. Em seguida saio dali tam bém , com o cuidado de m anter a cabeça baixa. Há câm eras o bastante aqui para m e deixar alerta. Se as próxim as sem anas forem com o o planej ado, talvez eu com ece a esconder o rosto.

Vej o quando Crance passa o volante pela j anela da banca. A m anga da cam isa sobe quando ele enfia o braço pela grade e um a tatuagem fica à m ostra. Ela quase som e na pele escura dele, m as o form ato é inconfundível. Já vi um a assim antes: âncora azul, corda verm elha.

Não som os o único grupo trabalhando no com boio. Os Marinheiros j á têm um a pessoa lá dentro.

Isso é bom. Podemos trabalhar com isso. Me afasto da m ultidão às cotoveladas, com a m ente em cham as. Podemos pagar pela informação deles. Menos envolvimento da Guarda e o mesmo resultado. E há chances de o Marinheiro estar trabalhando na missão sozinho. Poderíamos tentar juntá-lo a nós. Aí teríamos olhos dentro dos Marinheiros. Poderíamos mexer os pauzinhos, absorver a gangue na Guarda.

A cabeça de Tristan desponta sobre a m ultidão, ainda observando os dois alvos. Tenho que segurar o ím peto de correr para o lado dele e contar tudo.

Mas um obstáculo surge entre nós. Um hom em careca com um brilho fam iliar de suor na testa. É de Lakeland. Antes que eu possa correr ou gritar, sinto um a m ão agarrar m eu pescoço por trás. Com força suficiente para m e m anter calada m as ao m esm o tem po m e deixar respirar. Com certeza força o bastante para m e arrastar pela m ultidão, com o Careca acom panhando de perto.

Outra pessoa talvez se agitasse ou tentasse lutar, m as não sou burra. Há agentes prateados por toda parte aqui, e não quero m esm o m e arriscar a receber a “aj uda” deles. Em vez disso, confio em m im m esm a e em Tristan. Ele tem que continuar vigiando e eu tenho que dar um j eito de m e libertar.

A m ultidão nos arrasta com o um a correnteza, e ainda não consigo enxergar quem está m e conduzindo. O corpo do Careca praticam ente m e esconde por com pleto, assim com o o cachecol que m eu captor enrola no m eu pescoço. Curiosam ente, é verm elho. E então com eçam os a subir os degraus. Chegam os bem acim a do nível da arena, até grandes bancos de concreto que parecem com pletam ente abandonados.

Só então sou liberada e forçada a sentar.

Me viro furiosa, com os punhos cerrados e prontos para atacar, apenas para deparar com o coronel m e encarando, bem preparado para a m inha raiva.

— Quer acrescentar “agressão ao seu superior” à sua lista de transgressões? — ele pergunta, quase num ronronado.

Não, não quero. Fecho a cara e baixo os punhos. Ainda que fosse capaz de ganhar um a briga com o Careca, não quero tentar a sorte com o coronel e sua força bruta. Em vez disso, levo a m ão ao pescoço para m assagear a pele dolorida sob o cachecol verm elho.

— Não vai ficar roxo — ele diz.

— Então está fazendo errado. Pensei que você quisesse m andar um a m ensagem . Nada diz tanto “é m elhor entrar na linha” quanto um hem atom a no pescoço.

O olho verm elho dele brilha.

— Você para de responder e acha que vou deixar passar? Sem chance, capitã. Agora m e diga o que está acontecendo aqui. Onde está sua equipe? Vocês desertaram ? Alguém fugiu?

— Não, ninguém fugiu — digo por entre os dentes. — Nenhum deles. Ninguém desertou tam bém . Todos ainda seguem as ordens.

— Que bom que alguém segue.

— Ainda estou na operação, quer você vej a isso ou não. Tudo o que faço aqui é pela causa, pela Guarda. Com o o senhor disse, coronel, aqui não é Lakeland. E apesar de a rede dos Assobiadores de Will Whistle ser prioridade, Corvium tam bém é. — Preciso sibilar para que m inha voz sej a ouvida sobre o ruído do público cada vez m aior. — Não podem os ficar quietos aqui. As coisas são m uito centralizadas. As pessoas vão notar, vão nos elim inar antes m esm o de estarm os prontos. Precisam os atacar rápido, com força; atacar onde os prateados não podem se esconder de nós.

Estou ganhando terreno, m as não m uito. Porém é suficiente para evitar que a voz dele trem a de raiva. Ele está irritado, m as não furioso. Ainda é possível argum entar.

— É exatam ente para isso que você gravou aquele vídeo — ele diz. — Você se lem bra, não?

Um a câm era e um cachecol verm elho cobrindo m etade do m eu rosto. Um a pistola num a das m ãos e um a bandeira nova em folha na outra, recitando palavras decoradas com o um a oração. E nós vamos nos levantar, vermelhos como a aurora.

— Farley, é assim que agim os. Ninguém tem todas as cartas na m ão. Ninguém sabe qual é o j ogo. É a única form a de seguirm os vivos — ele continua. Se viessem de outra pessoa, as palavras poderiam parecer um a súplica. Mas não é assim com o coronel. Ele não pede. Apenas ordena. — Mas acredite em m im quando digo que tem os planos para Norta. E não são tão diferentes do que você quer.

Os guerreiros da Efem éride m archam sobre a areia cinza e estranha lá em baixo. Um deles, o pétreo da fam ília Thany, tem a barriga estufada e é quase tão largo quanto alto. Com o não precisa de arm adura, seu peito está nu. Já a oblívia passa toda a im agem de seu poder. Vestida com placas verm elhas e laranj a, dança com o um a cham a ágil.

— E esses planos incluem Corvium ? — sussurro, voltando-m e para o coronel. Preciso fazê-lo entender. — O senhor acha que sou cega a ponto de não notar se houvesse outra operação nesta cidade? Porque não há. Não há ninguém aqui além de m im . Ninguém m ais parece se im portar com a fortaleza por onde cada verm elho destinado a m orrer passa. Cada um dos vermelhos. E o senhor acha que este lugar não é im portante?

Lem bro da cabo Eastree. O rosto cinza, os olhos cinza, a determ inação sólida. Falava de escravidão, porque é isso que há neste m undo. Ninguém ousa dizer, m as é isso que os verm elhos são. Escravos e moribundos.

Pela prim eira vez, o coronel dobra a língua. Ótimo. Senão eu seria capaz de cortá-la.

— Reporte para o Com ando e peça que outra pessoa continue a Teia Verm elha. Ah, e inform e a eles que os Marinheiros tam bém estão aqui. Não têm a m esm a visão curta que o resto de nós.

Parte de m im espera um tapa por insubordinação. Em todos estes anos, j am ais falei com ele desse j eito. Nem m esm o… nem m esm o no norte. No lugar congelado que todos costum ávam os cham ar de casa. Mas eu era criança na época. Um a garotinha fingindo ser caçadora, estripando coelhos e fazendo caretas para m e sentir im portante. Já não sou m ais assim . Tenho vinte anos. Sou capitã da Guarda Escarlate. E ninguém , nem m esm o o coronel, pode m e dizer que estou errada agora.

— E então?

Depois de um longo m om ento, ele abre a boca.

— Não.

Lá em baixo ocorre um a explosão com parável à m inha raiva. Os suspiros da m ultidão acom panham o ritm o da luta. Todos observam a delicada oblívia tentar corresponder às apostas. Mas o Marinheiro tinha razão. O pétreo vai ganhar. É o com bate de um a m ontanha contra o fogo, e a m ontanha vai resistir.

— Minha equipe vai ficar do m eu lado — aviso. — Você vai perder dez excelentes soldados e um a capitã por ser orgulhoso, coronel.

— Não, capitã, ninguém vai assum ir a Teia Verm elha no seu lugar — ele diz. — Mas vou solicitar ao Com ando um a operação para Corvium , e quando a equipe estiver form ada, vai assum ir o controle.

Quando. Não se. Mal posso acreditar no que ele está dizendo.

— Enquanto essa hora não chega, você perm anece em Corvium e continua trabalhando com seus contatos. Passe toda inform ação pertinente pelos canais de costum e.

— Mas o Com ando…

— O Com ando tem a m ente m ais aberta do que você pensa. E por algum m otivo tem você em alta conta.

— Não sei se você está m entindo.

Ele apenas dá de om bros. Os olhos dele voltam a fitar o centro da arena para ver o pétreo despedaçar a j ovem oblívia.

De algum a form a, o fato de ele agir racionalm ente m e m achuca m ais do que qualquer outra coisa. É difícil odiá-lo em m om entos com o este, quando lem bro de com o ele costum ava ser. E então, claro, m e lem bro do resto. O que ele fez com a gente, com a fam ília dele. Com a m inha m ãe e a m inha irm ã que não eram tão horríveis com o nós, que não conseguiram sobreviver ao m onstro que ele criou.

Desej o que ele não fosse m eu pai. Já desej ei isso tantas vezes.

— Com o vai a Operação Muralha? — balbucio para m anter os pensam entos sob controle.

— À frente do cronogram a — ele diz sem um pingo de orgulho, com o quem apenas enuncia um fato. — Mas o transporte pode ser um problem a quando passarm os à rem oção.

Teoricam ente, essa é a segunda fase da m inha operação. Rem over e transportar ativos considerados úteis à Guarda. Não apenas verm elhos capazes de se j untar à causa, m as que saibam disparar um a arm a, dirigir um veículo, ler, lutar.

— Eu não deveria saber… — com eço, m as ele m e corta. Tenho a sensação de que ele não tem com quem conversar, a j ulgar pelo Careca. Agora que fui embora.

— O Com ando m e deu três barcos. Três. Acham que três barcos podem aj udar a povoar e tornar funcional um a ilha inteira.

Um a luz se acende num canto do m eu cérebro. No centro da arena, o pétreo ergue os braços rochosos em vitória. Os curandeiros de pele tratam a oblívia; consertam seu m axilar quebrado e seus om bros esm agados com toques rápidos. Crance vai ficar feliz.

— O Com ando j á m encionou pilotos algum a vez? — m e pergunto em voz alta.

O coronel se volta para m im , com um a sobrancelha arqueada.

— Pilotos? Pra quê?

— Acho que m eu hom em infiltrado em Corvium pode nos arranj ar algo m elhor do que barcos. Ou pelo m enos um j eito de roubar algo m elhor do que barcos.

Outro hom em sorriria, m as o coronel apenas assente.

— Vá em frente.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO AO COMANDO

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : Rocasta, NRT

Destinatário: COMANDO em CENSURADO

 

Fizem os contato com OVELHA. Equipe ainda de pé, sem

perdas.

Avaliação: CORVIUM m erece um a operação própria. Sugestão:

MISERICÓRDIA. Recom endam os pressa. OVELHA vai abrir m ão e voltar à TEIA VERMELHA.

OVELHA passando inform ações vitais para MURALHA e

rem oção/ transporte.

Retornando ao posto.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: General CENSURADO

Designação: BATEDOR

Origem : COMANDO em CENSURADO

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO, OVELHA em Corvium , NRT

 

Sugestão de CORVIUM sob análise.

Capitã Farley volta à TEIA VERMELHA em dois dias. COMANDO dividido quanto à punição.

À espera das inform ações.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Corvium , NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO, COMANDO em CENSURADO

 

Solicito um a sem ana.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

— Você é especialm ente burra, m enina. CARNEIRO.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: General CENSURADO

Designação: BATEDOR

Origem : COMANDO em CENSURADO

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO, OVELHA em Corvium , NRT

 

Cinco dias. Sem m ais negociações.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

De algum a form a, a casa da fazenda abandonada com eça a parecer um lar.

Mesm o com o teto caído, as barracas estragadas pela um idade e o silêncio da floresta. É o lugar em que passei m ais tem po com exceção de Irabelle, m as lá sem pre foi a nossa base. Em bora os soldados sej am o m ais próxim o de fam ília que tenho, j am ais consegui enxergar o concreto frio e as passagens labirínticas com o m ais do que um ponto de parada. Um lugar para treinar e esperar a próxim a m issão.

O m esm o não se aplica à casa arruinada à beira do cam po de batalha, à som bra de um a cidade fantasm a.

— É isso — digo a Cara e m e apoio m ais um a vez na porta do arm ário.

Ela assente e guarda o transm issor.

— Bom ver você toda falante de novo.

Antes de eu poder rir, a batida seca de Tristan faz a porta im provisada trem er.

— Tem os com panhia — avisa.

Barrow.

— O dever m e cham a — resm ungo ao trom bar com Cara quando passo por ela no côm odo apertado. Abro a porta e m e surpreendo ao m e deparar com Tristan tão perto, pilhado com o sem pre.

— Os olheiros o avistaram desta vez, finalm ente — ele diz. Norm alm ente ele estaria orgulhoso, m as algo na situação o deixa à flor da pele. Nunca vem os Barrow se aproxim ar. Então por que hoje? — Ele disse que é im portante…

A porta da casa se escancara atrás de Tristan e revela o rosto verm elho de Barrow, que chega ao lado de Cris e Pequeno Coop.

Um olhar apavorado é o bastante.

— Se espalhem — disparo.

Eles sabem o que isso quer dizer. Sabem para onde ir.

Um furacão se agita na casa e leva o clim a de lar em bora. Arm as, pistolas, provisões, aparelhos: tudo desaparece dentro de sacolas e m ochilas num ritm o treinado. Cris e Pequeno Coop j á foram para as árvores, subir o m ais alto que puderem . Seus espelhos e assovios de pássaro vão transm itir a m ensagem para os outros na floresta. Tristan supervisiona o resto enquanto carrega o rifle.

— Não dá tem po. Eles estão vindo agora! — Barrow ruge, de repente ao m eu lado. Ele m e segura pelo cotovelo sem nenhum a delicadeza. — Vocês precisam ir!

Dois estalos do m eu dedo. A equipe obedece e solta tudo o que j á não está em pacotado. Acho que vam os ter que roubar um as barracas em breve, m as essa é a m enor das m inhas preocupações. Outro estalo e eles voam com o balas. Cara, Ty e, Rasha e o resto passam pela porta e a parede caída e correm em direções diferentes a toda velocidade. A floresta os engole por inteiro.

Tristan m e espera porque é seu trabalho. Barrow espera porque… não sei por quê.

— Farley — ele sibila e dá um cutucão no m eu braço.

Lanço um últim o olhar pela casa para garantir que não esquecem os nada e trato eu m esm a de escapar para as árvores. Os rapazes acom panham m eu ritm o por entre as raízes retorcidas e os arbustos. Minha pulsação latej a nos ouvidos, batendo com o um tam bor alucinado. Já passamos por coisa pior. Já passamos por coisa pior.

Então ouço os cães.

Farej adores controlados por algum anim os. Sentem nosso cheiro, nos perseguem … Os lépidos vão nos alcançar. Se tiverm os sorte, pensarão que som os desertores e nos m atarão na floresta. Se não… Não quero nem pensar nos horrores que a cidade negra de Corvium abriga.

— Corram para a água! — digo com esforço. — Vão perder nosso cheiro!

Mas o rio fica a quase um quilôm etro de distância.

Minha única esperança é que gastem um tem po revistando a casa, o que nos daria o tem po necessário para escapar. Pelo m enos os outros estão m ais longe, bem espalhados. Nenhum a m atilha pode seguir todo m undo. Mas eu, a últim a a sair da casa, com o cheiro m ais forte? Presa fácil.

Apesar do protesto dos m eus m úsculos, aperto o passo e corro m ais rápido do que nunca. Mas depois de apenas um m inuto — apenas um minuto — com eço a m e cansar. Se ao m enos pudesse correr tão rápido quanto o m eu coração…

Tristan dim inui o ritm o para m e acom panhar, em bora não precise.

— Há um riacho m ais perto — ele diz, apontando para o sul. — Um braço do rio. Você vai pra lá.

— Do que está falando?

— Eu consigo chegar no rio. Você não. E eles não são capazes de seguir nós dois.

Arregalo os olhos. Quase tropeço de tão confusa, m as Barrow m e agarra e segura firm e até eu passar por cim a de um a raiz torta.

— Tristan… — balbucio.

Meu tenente apenas sorri e dá um tapinha no rifle preso nas costas. Então aponta de novo.

— Por ali, chefe.

Antes de eu conseguir detê-lo, antes de eu conseguir lhe dar a ordem para não ir, ele salta pelas árvores, contando com as pernas longas e os galhos baixos para vencer os piores trechos do solo esburacado. Não posso gritar. Na verdade, não consigo nem ver direito o rosto dele; apenas um em aranhado de cabelo verm elho reluzindo em m eio ao verde.

Barrow praticam ente m e em purra. Ele parece aliviado, m as não deve estar. Especialm ente quando um cão late a m enos de cem m etros. E as árvores sobre nós com eçam a se curvar, os galhos descendo com o dedos vorazes. Verdes. Animos. Lépidos. Os prateados vão nos pegar.

— Farley. — De repente ele segura m eu queixo e m e força a encarar seu rosto absurdam ente calm o. Há m edo, cintilando em seus olhos dourados, claro. Mas não o bastante para a situação. Não grande com o o m eu. Estou aterrorizada. — Você tem que m e prom eter que não vai gritar.

— Quê?

— Prometa.

Avisto o prim eiro cão. Um farej ador do tam anho de um pônei, salivando. Ao lado dele, um borrão cinza com o vento sólido. Lépido.

Mais um a vez, sinto Shade apertar o corpo contra o m eu, e em seguida um a sensação m enos agradável. O m undo encolhendo, a tontura, o m ergulho no vazio. Tudo isso se m istura e se contrai, e acho que com eço a ver estrelas verdes. Ou talvez árvores. No com eço, caio sentindo um a onda de náuseas fam iliar. Desta vez, aterrisso num rio em vez de concreto.

Com eço a pigarrear e cuspo água e bile, lutando contra a vontade de gritar ou vom itar ou am bos.

Barrow está agachado ao m eu lado e ergue a m ão.

— Ah, não grite.

Vem o vôm ito.

— Im agino que isso sej a m elhor no m om ento — ele sussurra, tendo a delicadeza de olhar para qualquer outra coisa que não o m eu rosto verde. — Desculpa, acho que preciso treinar m ais. Ou talvez você sej a sensível dem ais.

A correnteza borbulhante do rio lim pa o que não consigo lim par, e a água fria m e aj uda m ais do que um a caneca de café puro. Retom o a atenção e olho para os lados, para as árvores inclinadas sobre nós. Salgueiros, não carvalhos com o segundos atrás. Não estão se mexendo, percebi com um a lufada de alívio. Nada de verdes por aqui. Nem de cães. Mas afinal… Onde estamos?

— Com o? — pergunto com a voz áspera. — Não m e diga que foi pelos dutos.

A m áscara bem treinada de Shade Barrow cai um pouco. Ele recua uns passos e senta num a pedra sobre as águas, em poleirado com o um a gárgula.

— Não tenho um a explicação — ele diz, com o se adm itisse um crim e. — O m elhor… o m elhor que posso fazer é dem onstrar para você. E, de novo, você precisa m e prom eter não gritar.

Confirm o com a cabeça. Minha m ente flutua, ainda desequilibrada. Mal consigo sentar em m eio à correnteza, quanto m ais gritar.

Ele respira fundo. Aperta os dedos contra a pedra até as pontas ficarem brancas.

— Muito bem .

E então ele desaparece. Não… Ele não saiu correndo, não se escondeu nem m esm o caiu da pedra. Ele sim plesm ente não está mais aqui. Pisco várias vezes. Não acredito no que vej o.

— Aqui.

Viro a cabeça tão rápido que quase fico zonza de novo.

Lá está ele, de pé na m argem oposta. Logo ele faz de novo, voltando à pedra e sentando devagar novam ente. Ele se esforça para abrir um sorriso sem qualquer alegria. Seus olhos estão m uito arregalados. Se eu tive m edo alguns m inutos atrás, ele está com pletam ente petrificado. E com razão.

Porque Shade Barrow é prateado.

Instintivam ente, saco a arm a e engatilho sem nem piscar.

— Posso não ser capaz de gritar, m as sou capaz de te dar um tiro.

Ele cora, e de algum a m aneira seu rosto e pescoço ficam verm elhos. É uma ilusão, um truque. O sangue dele não é dessa cor.

— Há alguns m otivos para isso não dar certo — ele diz, ousando desviar o olhar da pistola. — Um : o cano está cheio de água. Dois: caso você não tenha notado…

De repente, ele está ao m eu lado, agachado com igo no m eio da correnteza. O choque da aparição m e faz soltar um grito agudo, ou quase, se ele não tivesse tapado m inha boca com a m ão.

— … sou bem rápido — ele sussurra no m eu ouvido.

Estou sonhando. Não é real.

— E três: os cães talvez não consigam m ais nos farej ar, m as com certeza conseguem ouvir um disparo — ele diz, sem tirar as m ãos dos m eus om bros, apertando-os com força. — Então… vai repensar sua estratégia, capitã?

— Você é prateado? — m urm uro, m e soltando dele. Dessa vez, retom o o equilíbrio antes de cair. Com o em Corvium , o enj oo passa logo. Um efeito colateral do poder dele. O poder prateado. Ele fez isso comigo antes e eu nem percebi. A lem brança queim a na m inha m ente. — Durante todo esse tem po?

— Não, não. Sou verm elho com o a aurora de que você vive falando.

— Não m inta — rebato, ainda com a pistola na m ão. — Isso tudo foi um truque para nos pegar. Aposto que você levou aqueles caçadores direto até a m inha equipe!

— Eu disse sem gritar.

A boca dele perm anece aberta. Shade arquej a nervoso. Está tão próxim o que consigo ver os vasos de sangue ram ificando no branco dos olhos. São verm elhos. Uma ilusão, um truque, é o que m e vem à cabeça de novo. Mas então lem bro das vezes em que o encontrei. Em quantas delas não estivem os sozinhos? Há quantas sem anas ele não está trabalhando conosco, passando inform ações em conj unto com a cabo Eastree? Quantas vezes não teve oportunidade de bolar um a arm adilha?

Não dá. Não consigo entender nada.

— E ninguém m e seguiu. É óbvio que ninguém é capaz de m e seguir. Descobriram vocês por conta própria. Coisa de espiões em Rocasta, não consegui entender tudo.

— Então você ainda está seguro em Corvium , ainda trabalha para eles? Com o um deles?

A paciência dele se desfaz com o um a folha seca.

— Já disse que não sou prateado! — ele urra com o um anim al.

Tenho vontade de dar um passo para trás, m as m e forço a perm anecer firm e, im óvel, sem m edo. Apesar de ter todos os motivos para temê-lo.

Num gesto brusco, ele estende o braço e levanta a m anga do casaco com os dedos trêm ulos.

— Corta — ele diz, assentindo para responder à m inha pergunta antes m esm o de eu fazê-la. — Corta.

Para a m inha surpresa, m eus dedos trem em tanto quanto os dele quando saco a faca da bota. Ele estrem ece quando a aperto contra sua pele. Pelo menos sente dor.

Meu coração para por uns instantes quando o sangue brota debaixo da lâm ina. Vermelho como a aurora.

— Com o isso é possível?

Ergo a cabeça e m e deparo com Shade m e encarando à procura de algo. Pela m aneira com o seus olhos brilham , acho que ele encontra.

— Para ser sincero, não sei. Não sei o que é isso, o que sou. Só sei que não sou um deles. Sou um de vocês.

Por um m om ento excruciante, esqueço m inha equipe, a floresta, m inha m issão e até m esm o Shade diante de m im . De novo o m undo parece balançar, m as não por causa de algum poder. É m ais. Um a transição. Um a m udança. Um a arma a ser usada. Não, uma arma que eu mesma já usei diversas vezes. Para obter informações, para infiltrar Corvium. Com Shade Barrow, a Guarda Escarlate pode ir a qualquer lugar. A todo lugar.

Seria de im aginar que depois de tantas violações das norm as eu tentasse evitar quebrar m ais um a. Mas, ao m esm o tem po, o que mais poderia fazer?

Devagar, fecho os dedos ao redor do punho dele. Ele ainda sangra, m as não ligo. Convém agora.

— Você j ura fidelidade à Guarda Escarlate?

Fico na expectativa de um sorriso. Em vez disso, a expressão dele endurece.

— Sob um a condição.

Ergo tanto as sobrancelhas que elas devem ter sum ido debaixo da m inha franj a.

— A Guarda não faz barganhas.

— Não é um pedido à Guarda, m as a você — ele responde. Apesar de ser um hom em capaz de se m over m ais rápido do que um piscar de olhos, consegue dar o m ais lento dos passos à frente. Nossos olhares se encontram , o azul com o dourado.

A curiosidade m e vence.

— E o que é?

— Quero saber seu nom e.

Meu nome. Dentro da Guarda Escarlate, isso não existe. Nom es não têm im portância. Só patentes e codinom es im portam de verdade. Com o a m inha m ãe m e cham ava não vale nada para ninguém , m uito m enos para m im . É um fardo antes de m ais nada, um lem brete doloroso da voz dela e da vida que tínham os antes. De quando eu cham ava o coronel de pai; de quando a Guarda Escarlate não passava de um sonho m aluco de caçadores, fazendeiros e soldados ociosos. Meu nom e é m inha m ãe, m inha irm ã Madeline e os túm ulos delas cavados num vilarej o congelado onde ninguém m ais m ora.

Shade continua a m e encarar, esperançoso. Percebo que está segurando a m inha m ão, sem se im portar com o sangue coagulando sob m eus dedos.

— Meu nom e é Diana.

Pela prim eira vez, o sorriso dele é sincero. Sem piadas nem m áscaras.

— Você está conosco, Shade Barrow?

— Estou com vocês, Diana.

— Então vam os nos levantar.

A voz dele se une à m inha:

— Verm elhos com o a aurora.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 34 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 1

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Em trânsito

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO, COMANDO em CENSURADO

 

Saindo de CORVIUM, rum o a DELPHIE. Paradas em postos dos

ASSOBIADORES pelo cam inho.

Planos de iniciar a fase 2 dentro de 1 sem ana. Avisar agentes de CORVIUM que a segurança acredita que

existem “bandidos e desertores” na floresta.

Anexo: inform ação detalhada da esquadra aérea estacionada em

DELPHIE. Dados trazidos pelo recém -j urado Aj udante B (codinom e: SOMBRA) ainda em CORVIUM.

Sugiro que Cabo E tam bém faça o j uram ento. Sou e continuarei a ser o contato de SOMBRA na GE. SOMBRA será retirado de CORVIUM quando eu decidir. Resum o de CORVIUM:

Mortos em ação: G. TYE, W. TARRY, R. SHORE, C. ELSON, H. “GRANDE” COOPER (5).

Desaparecidos: T. BOREEVE, R. BINLI (2).

Núm ero de baixas prateadas: Zero (0).

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Responsável: General CENSURADO

Designação: BATEDOR

Origem : COMANDO em CENSURADO

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Inform ações da Aeronáutica boas. Operação em DELPHIE

iniciada.

Transporte de trem funcional entre ARCHEON e Cidade #1. Iniciar contagem regressiva de três sem anas para OPERAÇÃO

ALVA.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

— Sua m enina tem culhões. BATEDOR.

 

— A m enina fez nossa gente m orrer. CARNEIRO.

 

— O resultado valeu o sacrifício. Mas o com portam ento dela deixa a desej ar. BATEDOR.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 54 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 2

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Albanus, NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

ASSOBIADORES de CAPITAL VALLEY operando. Em

ALBANUS para iniciar a rem oção com ASSOBIADOR da GE, WILL.

30 ativos rem ovidos em 2 sem anas.

SOMBRA ainda opera em CORVIUM. Inform ação: há troca de

legiões nas trincheiras, o que deixa brechas.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

Odeio este trailer fedorento.

O contrabandista, o velho Will, acende um a vela, com o se isso pudesse m elhorar o cheiro. Só deixa o lugar ainda m ais quente, m ais abafado do que é possível. Mas apesar do fedor, m e sinto relaxada.

Palafitas é um vilarej o sonolento, sem m uitos m otivos para se preocupar. Por acaso, foi aqui onde Shade nasceu. Não que ele fale m uito de casa; só com enta da irm ã. Mas sei que escreve para a fam ília. Eu m esm a “postei” a últim a carta, deixando-a no correio hoj e de m anhã. Ele disse que era m ais rápido do que confiar no exército para entregar, e tinha razão. Assim a fam ília vai receber a carta em m ais ou m enos duas sem anas, e não após um m ês, com o qualquer correspondência verm elha.

— Então isso tem a ver com o novo carregamento que m eus com patriotas estão levando pelos rios e pelas estradas para Harbor Bay, não é? — Will pergunta m e encarando com olhos m uito vivos para alguém de sua idade. Mas sua barba está m ais rala do que no m ês passado, e o corpo, m ais m agro. Ainda assim , ele se serve de um a xícara de chá com as m ãos firm es com o as de um cirurgião.

Educadam ente, recuso o chá quente num trailer ainda m ais quente. Como ele consegue usar manga comprida?

— O que você ouviu? — pergunto.

— Um a coisinha aqui, outra ali.

Esses Assobiadores são m atreiros até o fim .

— É verdade. Com eçam os a transportar pessoas, e a rede dos Assobiadores tem sido fundam ental para a operação. Espero que você concorde em entrar no esquem a.

— Mas por que eu seria burro o suficiente para fazer isso?

— Bom , você foi burro o suficiente para j urar fidelidade à Guarda Escarlate. Mas se precisar de m ais argum entos…

Com um sorriso, tiro cinco tetrarcas de prata do bolso, que m al tocam a m esinha antes de Will agarrá-las. As m oedas desaparecem entre os dedos dele.

— Mais para cada item — com pleto.

Ainda assim , ele não concorda. Faz um dram a antes de concordar, com o os outros Assobiadores.

— Você seria o prim eiro a negar — falo com um sorriso provocador. — E seria o fim da nossa parceria.

Ele agita a m ão, desdenhando.

— Sem pre m e virei bem sem vocês m esm o.

— Tem certeza? — insisto, alargando o sorriso. Will não é bom de blefe. — Muito bem , vou em bora e j am ais vou suj ar o seu… trailer de novo.

Antes m esm o de eu conseguir levantar, ele se põe de pé para m e deter.

— Quem vocês planej am transportar?

Consegui.

— Ativos. Pessoas que serão valiosas para nossa causa.

Enquanto o observo, o brilho de seus olhos dim inui. Um truque de luz.

— E quem decide isso?

Apesar do calor, um fio gelado corre pelas m inhas costas. Lá vem a com plicação de sem pre…

— Operações no país inteiro estão à procura dessas pessoas. A m inha tam bém . Avaliam os, sugerim os os candidatos e esperam os a aprovação.

— Suponho que os velhos, os doentes e os j ovens prestes a serem recrutados não são sugeridos. Não adianta salvar os que realm ente precisam .

— Se tiverem habilidades valiosas…

— Pfff ! — Will dispara, e suas bochechas ficam verm elhas. Ele bebe o chá em goles nervosos e seca o copo. O líquido, porém , parece acalm á-lo. Depois de baixar a xícara vazia, apoia a cabeça na m ão, pensativo. — Im agino que sej a nossa m elhor esperança.

Outro canal aberto.

— Por enquanto.

— Muito bem .

— Ah, provavelm ente vocês não terão problem as aqui, m as eu ficaria longe de qualquer prateado am anhã. Eles não vão estar m uito contentes.

Amanhã. Só de pensar sinto m eu sangue pulsar m ais rápido. Não sei o que o coronel e o Com ando planej aram . Só sei que inclui a m inha gravação e algo que m erece o hasteam ento da nossa bandeira.

— Será que quero saber? — Will se pergunta com um sorriso sarcástico. — Será que você sabe?

Não consigo evitar rir alto.

— Você tem algum a coisa m ais forte do que chá?

Ele nem tem a chance de responder j á que alguém com eça a esm urrar a porta do trailer. Will dá um pulo na cadeira e quase j oga a xícara no chão. Eu a seguro com destreza, m as não tiro os olhos dele. Um velho trem or de m edo percorre m eu corpo e am bos perm anecem os im óveis, à espera. Então m e lem bro: soldados não batem antes de entrar.

— Will Whistle! — diz um a voz de garota. Will é tom ado por alívio, e sinto a corda de tensão que m e prendia relaxar. Ele gesticula para eu ir para trás da cortina que divide seu trailer.

Faço o que Will pede e m e escondo segundos antes de ela abrir a porta.

— Srta. Barrow! — ouço-o dizer.

Mil coroas. Resm ungo palavrões enquanto cam inho de volta à taverna na beira da estrada. Cada um. Por que escolhi um a quantia tão ultraj ante? Não sei… A razão de eu concordar em ver a m enina — a irmã de Shade, só podia ser ela — era m enos obscura. Mas dizer que ia aj udar? Salvar o am igo, salvar ela própria do recrutam ento? Dois adolescentes que nem conheço, ladrões que iam acabar fazendo seus atravessadores m orrer? Mas lá no fundo, eu sei o m otivo. Lem bro do garoto em Rocasta, arrancado da m ãe. O m esm o aconteceu com Shade e seus dois irm ãos m ais velhos diante daquela garota que veio até m im im plorando hoj e à noite. Mare, o nome dela é Mare. Im plorou por si e por outro, o nam orado provavelm ente. Na voz dela, ouvi e vi tanta gente… A m ãe de Rocasta. Rasha, parando para ver. Ty e, m orrendo tão perto do lugar de onde queria fugir. Cara, Tarry, Shore, Grande Coop. Todos se foram , arriscando a vida e pagando o preço que a Guarda Escarlate sem pre cobra.

Não que Mare vá aparecer com o dinheiro. É um a m issão im possível. Ainda assim , devo isso e m uito m ais a Shade pelos seus serviços. Im agino que livrar a irm ã do recrutam ento sej a um preço pequeno a pagar pelas inform ações dele. E o que quer que ela traga vai direto para a causa.

Tristan se j unta a m im no m eio do cam inho entre Palafitas e a taverna. Eu tinha certa expectativa de encontrá-lo lá, com Rasha, Pequeno Coop e Cristobel, os únicos rem anescentes da nossa m alfadada equipe.

— Sucesso? — ele pergunta enquanto aj eita cuidadosam ente o casaco para esconder a pistola na cintura.

— Sim — respondo. Custou um esforço surpreendente pronunciar a palavra.

Tristan m e conhece o suficiente para saber que é m elhor não ser enxerido. Por isso, m uda de assunto e entrega o rádio de Corvium .

— Faz um a hora que Barrow está enviando cliques.

Entediado de novo. Não sei quantas vezes j á disse a Shade que o rádio é apenas para assuntos oficiais e em ergências, não para m e irritar. Ainda assim , não consigo evitar o sorriso. Faço o m áxim o para m anter os lábios im óveis, pelo m enos na frente de Tristan, e com eço a fuçar no rádio.

Com eço a clicar no receptor e envio um pulso que parece form ado por pontos aleatórios. Mas na verdade dizem “Estou aqui”.

A resposta dele vem tão rápida que quase derrubo o aparelho.

— Farley, preciso sair — a voz dele chia baixo no alto-falante m inúsculo. — Farley ? Preciso sair de Corvium .

Um arrepio de pânico percorre m inhas costas.

— O.k. — respondo com a m ente girando em velocidade m áxim a. — Você… você não consegue sair sozinho? — Se não fosse por Tristan, eu seria m ais direta. Por que ele não consegue fugir daquela fortaleza tenebrosa?

— Me encontra em Rocasta.

— Com binado.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 56 da OPERAÇÃO TEIA VERMELHA, fase 2

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Rocasta, NRT

Destinatário: CARNEIRO em CENSURADO

 

Parabéns pela explosão em ARCHEON.

Em ROCASTA para rem over SOMBRA.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO A OFICIAIS

Dia 60 da OPERAÇÃO MURALHA, fase 2

Responsável: Coronel CENSURADO

Designação: CARNEIRO

Origem : CENSURADO

Destinatário: OVELHA em Rocasta

 

Prossiga. Mande-o para TRIAL. Volte para a TEIA VERMELHA

o m ais rápido possível.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

 

Dem oro m ais tem po para chegar aqui do que o esperado. Isso sem m encionar o fato de eu ter vindo sozinha.

Depois da explosão em Archeon, está difícil viaj ar, m esm o pelos nossos canais de costum e. Os barcos cargueiros e os veículos dos Assobiadores não circulam m ais com tanta facilidade. E entrar nas cidades, m esm o em Rocasta, não é um a tarefa fácil. Os verm elhos precisam apresentar a identidade ou até o sangue em diferentes pontos de checagem ao entrar na cidade. E eu preciso evitar esses pontos a qualquer custo. Em bora m eu rosto estivesse coberto no vídeo em que anunciei a presença da Guarda Escarlate no país inteiro, não podia arriscar.

Até raspei a cabeça, despedindo-m e da longa trança loira bem nítida na transm issão.

Crance, o Marinheiro que trabalha no com boio de suprim entos, teve que m e levar escondida, e precisei usar m uitos argum entos para convencê-lo. Ainda assim , consegui chegar na cidade sã e salva, com o rádio firm e no cinto.

Setor vermelho. Mercado.

É lá que Shade quer m e encontrar, e é para lá que preciso ir. Não m e preocupo em cobrir o rosto ou usar capuz, o que daria às pessoas um a pista ainda m elhor sobre a m inha identidade. Em vez disso, uso óculos escuros para esconder a única parte do m eu rosto que apareceu no vídeo. Ainda assim , sinto o perigo a cada passo. O risco faz parte do jogo. Mas, de certa form a, não tem o por m im . Fiz m inha parte, m ais do que a m inha parte, pela Guarda Escarlate. Poderia m orrer agora e ser considerada um a agente bem -sucedida. Meu nom e apareceria na correspondência de alguém , provavelm ente na de Tristan, em tópicos para o coronel ler.

Me pergunto se ele lam entaria.

O dia está nublado, e o hum or da cidade reflete o clim a. A explosão está na boca de todos, nos olhos de todos. Os verm elhos dem onstram um estranho estado de esperança e abatim ento, e alguns cochicham sobre a suposta Guarda Escarlate. Mas m uitos, os m ais velhos principalm ente, caçoam dos filhos, criticando-os por acreditar em besteiras, dizendo que só vam os trazer m ais problem as para o povo. Não sou burra a ponto de parar para discutir.

O m ercado fica bem no centro do setor verm elho, m as está lotado de agentes de segurança prateados. Hoj e eles parecem lobos à caça, com as arm as na m ão, não no coldre. Ouvi notícias de rebeliões nas cidades m aiores, de cidadãos prateados perseguindo qualquer verm elho que encontrassem , culpando qualquer um pelos atos da Guarda Escarlate. Mas algo m e diz que esses agentes não estão aqui para proteger m eu povo. Só querem incutir m edo e nos m anter calados.

Mas nem eles são capazes de parar os cochichos.

— Quem são eles?

— A Guarda Escarlate.

— Nunca ouvi falar.

— Você viu? Archeon Oeste em cham as…

— … m as ninguém m orreu…

— … vão causar m ais problem as…

— … tem pos cada vez piores…

— … vão nos culpar…

— Quero encontrá-los.

— Farley.

A últim a fala vem em um sussurro m orno contra o m eu ouvido, num tim bre tão fam iliar quanto m eu próprio rosto. Viro por instinto e envolvo Shade num abraço, o que surpreende a nós dois.

— Tam bém é bom te ver — ele sussurra.

— Vam os tirar você daqui — cochicho ao m e afastar. Ao observá-lo m elhor, descubro que as últim as sem anas não foram fáceis. Seu rosto está pálido, com um a expressão abatida e círculos escuros ao redor dos olhos. — O que aconteceu?

Ele engancha o braço no m eu e m e conduz pela m ultidão que circula pelo m ercado. Parecem os duas pessoas com uns.

— Um a transferência para a frente de batalha — ele responde.

— Punição?

Shade balança a cabeça.

— Não por passar inform ações. Eles não sabem que sou eu que vazo, que levo tudo para a Guarda. Não, a ordem é estranha.

— Estranha com o?

— Pedido de um general. Alto escalão. Por minha causa. Não faz sentido. Assim com o outra coisa não faz sentido. — Ele estreita o olhar, e faço que sim com cabeça. — Acho que eles sabem , e acho que vão se livrar de m im .

Engulo em seco e espero que ele não note. Meu m edo por ele não pode ser interpretado com o nada além do profissional.

— Então vam os executar você prim eiro, dizer que você fugiu e foi executado por deserção. Eastree pode falsificar os docum entos com o faz com os outros ativos. Além disso, j á passou da hora de transferir você m esm o.

— Você faz ideia de para onde vai ser?

— Você vai para Trial, do outro lado da fronteira. Não vai ser m uito difícil para alguém com suas habilidades.

— Não sou invencível. Não consigo saltar centenas de quilôm etros, nem m esm o, bem , me localizar tão longe. Você consegue? — ele balbucia.

Sou obrigada a sorrir. Crance deve resolver.

— Acho que posso arranj ar um m apa e um guia.

— Você não vai? — Shade pergunta. Digo a m im m esm a que estou im aginando a frustração na voz dele.

— Tenho que tratar de outros assuntos prim eiro. Cuidado — acrescento ao notar um grupo de policiais à frente. O braço de Shade aperta forte o m eu e nos aproxim a m ais. Ele vai saltar se necessário, e vou vomitar nas minhas botas de novo.

— Tente não m e deixar enj oada dessa vez — resm ungo ao notar o sorriso torto dele.

Mas ele não precisa usar seu poder. Os policiais estão concentrados em outra coisa, num a tela de vídeo rachada, provavelm ente a única no m ercado verm elho. É usada para transm issões oficiais, m as não há nada de oficial no que estão assistindo.

— Esqueci que a Prova Real era hoj e — diz um deles ao se inclinar para a frente apertando os olhos para enxergar m elhor. A im agem fica turva às vezes. — Não conseguiu um aparelho m elhor pra nós, hein, Marcos?

As bochechas de Marcos ficam cinza de raiva.

— Aqui é o setor verm elho, o que você esperava? Mas está convidado a voltar à patrulha se não está satisfeito!

A Prova Real. Lem bro de algum a coisa sobre a expressão. Vi no resum o que recebem os sobre Norta, a m açaroca de inform ações que o coronel m e fez ler antes de m e m andar pra cá. Talvez sej a algum a coisa sobre os príncipes… escolherem suas princesas. Torço o nariz à ideia, m as não consigo desgrudar os olhos da tela à m edida que nos aproxim am os.

Nela, um a garota vestida de couro preto dem onstra seu estoque de poderes. Magnetron, percebo ao vê-la m anipular o m etal da arena onde está.

Então, um ponto verm elho cai e bate com tudo contra o escudo eletrificado que separa a m agnetron do resto da elite prateada que assiste à dem onstração.

Os policiais arquej am ao m esm o tem po. Um deles chega a desviar o rosto.

— Não quero ver isso — ele gem e, com o se estivesse prestes a vom itar.

Shade está cravado no chão, com os olhos fixos na tela para observar a m ancha verm elha. Ele m e segura m ais forte e m e obriga a ver. A mancha tem um nome. É a irmã dele.

Mare Barrow.

Sinto o corpo dele gelar assim que os raios a engolem .

 

— Era pra ela ter m orrido.

As m ãos de Shade trem em e ele precisa sentar no beco para evitar que o resto do corpo siga o exem plo delas. Caio de j oelhos ao lado dele, com um a m ão em seu braço trêm ulo.

— Era pra ela ter m orrido — ele repete com um olhar assustado e vazio.

Não preciso perguntar para saber que ele está repassando a cena na cabeça sem parar. A irm ã m ais nova caindo na arena da Prova Real. Sob todos os aspectos, caindo para a própria m orte. Mas Mare não m orreu. Foi eletrocutada ao vivo, m as não m orreu.

— Ela está viva, Shade — digo, virando o rosto dele para m e encarar. — Você viu com os próprios olhos. Ela levantou e correu.

— Com o isso é possível?

Agora não é o m om ento de apreciar a ironia da situação.

— Já te perguntei a m esm a coisa um a vez.

— Então ela tam bém é diferente. — O olhar dele escurece e desvia do m eu rosto. — E está com eles. Preciso aj udá-la.

Ele tenta levantar, m as o choque ainda não passou. Eu o aj udo a sentar de novo com a m aior delicadeza possível, deixando que se apoie em m im .

— Eles vão m atar m inha irm ã, Diana — ele sussurra num tom que m e parte o coração. — Podem estar m atando neste exato m om ento.

— Não sei, m as acho que não vão. Não podem . Não depois de todos terem visto um a verm elha que sobreviveu aos raios.

Vão precisar explicar primeiro. Inventar uma história. Igual às histórias que contavam para encobrir nossa existência até garantirmos que não podíamos ser ignorados.

— Ela m arcou a própria posição — acrescento.

De repente, o beco parece pequeno dem ais. O rosto de Shade assum e um a expressão que só um soldado é capaz de ter.

— Não vou deixar m inha irm ã sozinha.

— Ela não vai ficar só. Vou garantir isso.

Seu olhar endurece, refletindo m inha decisão.

— Eu tam bém .

A MENSAG EM DECODIFICADA A SEG UIR

É CONFIDENCIAL

ACESSO RESTRITO AO COMANDO

Dia 2 da OPERAÇÃO RELÂMPAGO

Responsável: Capitã CENSURADO

Designação: OVELHA

Origem : Sum m erton, NRT

Destinatário: COMANDO em CENSURADO

 

Operação iniciada. MARE BARROW fez contato com WILL, o

ASSOBIADOR, e CAVEIRA em ALBANUS. Jurou fidelidade à GE. Influência de SOMBRA deu resultado.

Agente CRIADA será o contato dentro do PALACETE DO SOL. Agente MORDOMO fez contato a respeito de novo ativo para

recrutam ento dentro do PALACETE DO SOL. Vam os investigar m ais.

 

VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

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Victoria Aveyard

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