Cinco Minutos
Capítulo III
Depois, fingindo que se tinha esquecido de alguma cousa, tornou á entrar no camarote, e estendeu-me a mão.
—Não saberá nunca o que me fez soffrer, disse-me com a voz tremula.
Não pude ver-lhe o rosto; fugio, deixando-me o seu lenço impregnado d'esse mesmo perfume de sandalo e todo molhado de lagrimas ainda quentes.
Quiz seguil-a; mas ella fez um gesto tão supplicante que não tive animo de desobedecer-lhe.
Estava como d'antes; não a conhecia, não sabia nada á seu respeito; porém ao menos possuia alguma cousa d'ella; o seu lenço era para mim uma reliquia sagrada.
Mas as lagrimas? Aquelle soffrimento de que ella fallava? O que queria dizer tudo isto?
Não comprendia; si eu tinha sido injusto, era uma razão para não continuar á esconder-se de mim. Que queria dizer este mysterio, que parecia obrigada á conservar?
Todas estas perguntas e as conjecturas á que ellas davam lugar não me deixáram dormir.
Passei uma noite de vigilia á fazer supposições, cada qual mais desarrazoada.
III
Recolhendo-me no dia seguinte, achei em casa uma carta.
Antes de abril-a conheci que era d'ella, porque lhe tinha imprimido esse suave perfume que a cercava como uma aureola.
Eis o que dizia:
«Julga mal de mim, meu amigo; nenhuma mulher
póde escarnecer de um nobre coração como o seu.
Si me occulto, si fujo, é porque ha uma fatalidade que
á isto me obriga. E só Deus sabe quanto me custa
este sacrificio, porque o amo!
Mas não devo ser egoista e trocar sua felicidade por
um amor desgraçado.
Esqueça-me.
C.»
Essa assignatura era a mesma lettra que marcava o seu lenço, e á qual eu desde a vespera pedia debalde seu nome!
Reli não sei quantas vezes esta carta, e, apezar da delicadeza de sentimento que parecia ter dictado suas palavras, o que para mim tornava-se bem claro é que ella continuava á fugir-me.
Fosse qual fosse esse motivo que ella chamava uma fatalidade, e que eu suppunha ser apenas escrupulo, sinão uma zombaria, o melhor era aceitar o seu conselho e fazer por esquecel-a.
Reflecti então seriamente sobre a extravagancia da minha paixão, e assentei que com effeito precisava tomar uma resolução decidida.
Não era possivel que continuasse á correr atrás de um fantasma que esvaecia-se quando ia tocal-o.
Aos grandes males os grandes remedios, como diz Hippocrates. Resolvi fazer uma viagem.
Mandei sellar o meu cavallo, metti alguma roupa em um sacco de viagem, embrulhei-me no meu capote e sahi, sem me importar com a manhã de chuva que fazia.
Não sabia para onde iria. O meu cavallo levou-me para o Engenho-Velho, e eu d'ahi encaminhei-me para a Tijuca, onde cheguei ao meio-dia, todo molhado e fatigado pelos máos caminhos.
Si algum dia se apaixonar, minha prima, aconselho-lhe as viagens como um remedio soberano e talvez o unico efficaz.
Deram-me um excellente almoço no hotel; fumei um charuto, e dormi doze horas, sem ter um sonho, sem mudar de lugar.
Quando accordei, o dia despontava sobre as montanhas da Tijuca.
Uma bella manhã, fresca e rociada das gottas do orvalho, desdobrava o seu manto de azul por entre a cerração, que se desvanecia aos raios do sol.
O aspecto d'esta natureza quasi virgem, esse céo brilhante, essa luz esplendida cahindo em cascatas de ouro sobre as encostas dos rochedos, serenou-me completamente o espirito.
Fiquei alegre, o que ha muito tempo não me succedia.
O meu hospede, um Inglez franco e cavalheiro, convidou-me para acompanhal-o á caça; gastámos todo o dia á correr atrás de duas ou tres marrecas e á bater as margens da Restinga.
Assim passei nove dias na Tijuca, vivendo uma vida estupida quanto póde ser; dormindo, caçando e jogando o bilhar.
Na tarde do decimo dia, quando já me suppunha perfeitamente curado e estava contemplando o sol, que se escondia por detrás dos montes, e a lua, que derramava no espaço a sua luz doce e assetinada, fiquei triste de repente.
Não sei que caminho tomáram as minhas idéas; o caso é que d'ahi á pouco descia a cerra no meu cavallo, lamentando esses nove dias, que talvez tivessem feito perder para sempre a minha desconhecida.
Accusava-me de infidelidade, de traição; a minha fatuidade dizia-me que eu devia ao menos ter-lhe dado o prazer de ver-me.
Que importava que ella me ordenasse que a esquecesse? Não me tinha confessado que me amava, e não devia eu resistir e vencer essa fatalidade, contra a qual ella, fraca mulher, não podia lutar?
Tinha vergonha de mim mesmo; achava-me egoista, cobarde, irreflectido, e revoltava-me contra tudo, contra o meu cavallo, que me levára á Tijuca, e o meu hospede, cuja amabilidade alli me havia demorado.
Com esta disposição de espirito cheguei á cidade, mudei de trajo, e ia sahir, quando o meu moleque deu-me uma carta.
Era d'ella.
Causou-me uma sorpresa misturada de alegria e de remorso:
«M .
Sinto-me com coragem de sacrificar o meu amor á sua
felicidade; mas ao menos deixe-me o consolo de
amal-o.
Ha dous dias que espero debalde vêl-o passar, e
acompanhal-o de longe com um olhar! Não me queixo;
não sabe nem deve saber em que ponto de seu
caminho o som de seus passos faz palpitar um
coração amigo.
Parto hoje para Petropolis, d'onde voltarei breve; não
lhe peço que me acompanhe, porque devo ser-lhe
sempre uma desconhecida, uma sombra escura que
passou um dia pelos sonhos dourados de sua vida.
Entretanto, eu desejava vêl-o ainda uma vez, apertar a
sua mão e dizer-lhe adeus para sempre.
C.»
A carta tinha a data de 3; nós estavamos a 10; havia oito dias que ella partira para Petropolis e que me esperava.
No dia seguinte embarquei na Prainha e fiz essa viagem da bahia, tão pittoresca, tão agradavel, e ainda tão pouco apreciada.
Mas então a magestade d'essas montanhas de granito, a poesia d'esse vasto seio de mar, sempre alisado como um espelho, os grupos de ilhotas graciosas que bordam a bahia, nada d'isto me preoccupava.
Só tinha uma idéa—chegar; e o vapor caminhava menos rapido do que meu pensamento.
Durante a viagem pensava n'essa circumstancia que a sua carta me revelára, e fazia-me por lembrar de todas as ruas por onde costumava passar, para ver si adivinhava aquella onde ella morava, e d'onde todos os dias me via sem que eu suspeitasse.
Para um homem como eu, que andava todo o dia desde a manhã até a noite, á ponto de merecer que a senhora, minha prima, me appellidasse de Judêo Errante, este trabalho era improficuo.
Quando cheguei á Petropolis eram cinco horas da tarde; estava quasi noite.
Entrei n'esse hotel suisso, ao qual nunca mais voltei, e emquanto me serviam um magro jantar, que era o meu almoço, tomei informações.
—Têm subido estes dias muitas familias? perguntei ao criado.
—Não, senhor.
—Mas ha cousa de oito dias não vieram da cidade duas senhoras?
—Não estou certo.
—Pois indague, que preciso saber e já; isto o ajudará á obter informações.
A physionomia sizuda do criado expandio-se ao tinir da moeda, e a lingua adquiriu a sua elasticidade natural.
—Talvez o senhor queira fallar de uma senhora já idosa que veio acompanhada de sua filha.
—É isso mesmo.
—A moça parece doente; nunca a vejo sahir.
—Onde está morando?