Cinco Minutos
Capítulo VI
O meu primeiro pensamento foi ir saudar a minha casinha; estava ainda fechada.
Eram oito horas.
Resolvi dar um passeio para disfarçar a minha impaciencia; voltando ao hotel, o criado disse-me terem trazido um objecto que recommendáram me fosse entregue logo.
Em Petropolis não conhecia ninguem; devia ser d'ella.
Corri ao meu quarto, e achei sobre a mesa uma caixinha de páo setim; na tampa havia duas lettras de tartaruga incrustada:—C. L.
A chave estava fechada em uma sobrecarta com endereço á mim: dispuz-me á abrir a caixa com a mão tremula e tomado por um triste presentimento.
Parecia-me que n'aquelle cofre perfumado estava encerrada a minha vida, o meu amor, toda a minha felicidade.
Abri.
Continha o seu retrato, alguns fios de cabello e duas folhas de papel escriptas por ella e que li de sorpresa em sorpresa.
VI
Eis o que ella me dizia:
«Devo-te uma explicação, meu amigo.
Esta explicação é a historia de minha vida, breve
historia, da qual escreveste a mais bella pagina.
Cinco mezes antes do nosso primeiro encontro,
completava eu os meus dezeseis annos, a vida
começava á sorrir-me.
A educação rigorosa que me dera minha mãi me
conservára menina até aquella idade, e foi só quando
ella julgou conveniente correr o véo que occultava o
mundo aos meus olhos que eu perdi as minhas idéas
de infancia e as minhas innocentes illusões.
A primeira vez que fui á um baile fiquei deslumbrada
no meio d'aquelle turbilhão de cavalheiros e damas,
que girava em torno de mim sob uma atmosphera de
luz, de musica, de perfumes.
Tudo me causava admiração; o abandono com que as
mulheres se entregavam a seu par de valsa, o sorriso
constante e sem expressão que uma moça parece
tomar na porta da entrada para só deixal-o á sahida,
esses galanteios sempre os mesmos e sempre sobre
um thema banal, ao passo que me excitavam a
curiosidade, faziam desvanecer o enthusiasmo com
que tinha acolhido a noticia que minha mãi me dera de
minha entrada nos salões.
Estavas n'esse baile; foi a primeira vez que te vi.
Reparei que n'essa multidão alegre e ruidosa tu só
não dansavas nem galanteavas, passando pelo salão
como um espectador mudo e indifferente, ou talvez
como um homem que procurava uma mulher e só via
toilettes.
Comprehendi-te, e durante muito tempo segui-te com
os olhos: ainda hoje me lembro de teus menores
gestos, da expressão de teu rosto e do sorriso de fina
ironia que ás vezes fugia-te pelos labios.
Foi a unica recordação que trouxe d'essa noite, e
quando adormeci, os meus doces sonhos de infancia,
que, apezar do baile, vieram de novo pousar nas alvas
cortinas de meu leito, apenas foram interrompidos um
instante por tua imagem, que me sorria.
No dia seguinte reatei o fio de minha existencia, feliz,
tranquilla e descuidosa, como costuma ser a
existencia de uma moça aos dezeseis annos.
Algum tempo depois fui á outros bailes e ao theatro,
porque minha mãi, que guardára a minha infancia
como um avaro esconde seu thesouro, queria fazer
brilhar a minha mocidade.
Quando cedia a seu pedido e me ia a apromptar,
emquanto preparava o meu simples trajo, murmurava:
—Talvez elle esteja.
E esta lembrança, não só me tornava alegre, mas
fazia com que procurasse parecer bella, para te
merecer um primeiro olhar.
Ultimamente era eu quem, cedendo á um sentimento
que não sabia explicar, pedia á minha mãi para irmos
á um divertimento, só na esperança de encontrar-te.
Nem suspeitavas então que entre todos aquelles
vultos indifferentes havia um olhar que te seguia
sempre e um coração que adivinhava teus
pensamentos, que expandia-se quando te via sorrir e
contrahia-se quando uma sombra de melancolia
anuviava teu semblante.
Si pronunciavam o teu nome diante de mim corava, e
na minha perturbação julgava que tinham lido esse
nome nos meus olhos ou dentro de minh'alma, onde
eu bem sabia que elle estava escripto.
E entretanto nem siquer ainda me tinhas visto; si teus
olhos haviam passado alguma vez por mim, tinha sido
em um d'esses momentos em que a luz se volta para
o intimo, e se olha mas não se vê.
Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos
reuniria, e então não sei o que me dizia que era
impossivel não me amares.
O acaso deu-se, mas quando a minha existencia já se
tinha completamente transformado.
Ao sahir de um d'esses bailes apanhei uma pequena
constipação, de que não fiz caso. Minha mãi teimava
que eu estava doente, e eu achava-me um pouco
pallida e sentia ás vezes um ligeiro calafrio, que eu
curava sentando-me ao piano e tocando alguma
musica de bravura.
Um dia, porém, achei-me mais abatida; tinha as mãos
e os labios ardentes, a respiração era difficil, e ao
menor esforço humedecia-se-me a pelle com uma
transpiração que me parecia gelada.
Atirei-me sobre um sofá, e com a cabeça recostada ao
collo de minha mãi cahi em um lethargo que não sei
quanto tempo durou. Lembro-me sómente que, no
momento mesmo em que ia despertando d'essa
somnolencia que se apoderára de mim, vi minha mãi
sentada á cabeceira de meu leito chorando, e um
homem dizia-lhe algumas palavras de consolo, que eu
ouvi como em sonho.
—Não desespere, minha senhora; a sciencia não é
infallivel, nem os meus diagnosticos são sentenças
irrevogaveis. Póde ser que a natureza e as viagens a
salvem. Mas é preciso não perder tempo.
O homem partio.
Não tinha comprehendido suas palavras, ás quaes
não ligava o menor sentido.
Passado um instante, ergui tranquillamente os olhos
para minha mãi, que escondeu o lenço e tragou em
silencio o pranto e os soluços.
—Chora, mamãi?
—Não, minha filha... não... não é nada.
—Mas está com os olhos cheios de lagrimas!... disse
eu assustada.
—Ah! sim!... uma noticia triste que me contáram ha
pouco... sobre uma pessoa... que tu não conheces.
—Quem é este senhor que estava aqui?
—É o Dr. Valladão, que te veio visitar.
—Então eu estou muito doente, boa mamãi?
—Não, minha filha, elle assegurou que não tens nada;
é apenas um incommodo nervoso.
E minha querida mãi, não podendo mais conter as
lagrimas que lhe saltavam dos olhos, fugio
pretextando uma ordem á dar.
Então, á medida que a minha intelligencia ia sahindo
do lethargo, comecei á reflectir sobre o que se tinha
passado.
—Aquelle desmaio tão longo, aquellas palavras que
eu ouvira ainda entre as nevoas de um somno agitado,
as lagrimas de minha mãi e a sua repentina afflicção,
o tom condoìdo com que o medico lhe fallára...
Um raio de luz esclareceu de repente o meu espirito.
Estava desenganada.
O poder da sciencia, o olhar profundo, seguro,
infallivel, d'esse homem, que lê no corpo humano
como em um livro aberto, tinha visto em meu seio um
atomo imperceptivel.
E esse atomo era o verme que devia destruir as fontes
da vida, apezar dos meus dezeseis annos, apezar de
minha organisação, apezar de minha belleza e dos
meus sonhos de felicidade!»
Aqui terminava a primeira folha, que eu acabei de ler entre as lagrimas que me inundavam as faces e cahiam sobre o papel.
Era este o segredo de sua estranha reserva; era a razão por que me fugia, por que se ócultava, por que ainda na vespera dizia que se tinha imposto o sacrificio de nunca ser amada por mim.