Colecionador de Almas
Copyright©2019 by Caroline Factum
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Editora Empoderar Editora
Revisão Celine Paz
Diagramação Estefania Cristina
Capa Estefania Cristina
_________________________________________________
C292c –
Factum, Caroline
Colecionador de Almas / Caroline Factum
2. Ed – Belo Horizonte, MG
ISBN: Colecionador de almas
Todos os direitos desta edição reservados ao autor da obra e a editora. __________________________________________________
Índice para catálogo sistemático:
1. Literatura Brasileira CDD 869.93
2. CDU 821.134.382-3
É proibida a reprodução total e parcial dessa obra, de qualquer forma ou por qualquer meio
eletrônico, mecânico, inclusive por processos xerográficos, incluindo o uso da internet, sem
permissão expressa da Editora na pessoa do seu editor (Lei 9610 de 19/02/1998).
Está é uma obra de ficção. Nomes, lugares e acontecimentos são produtos do(a)
imaginação do autor(a). Quaisquer semelhanças com nomes e datas é coincidência.
Carta de apresentação
A razão pela qual este livro deve ser publicado é que em primeiro lugar, não se trata de um livro de entretenimento, e sim de uma obra de interesse nacional e até mesmo mundial, contando com informações legais de um perito criminal federal, dois pós doutorados em direito e uma pós doutorado em psicologia. Abordamos a mente de um psicopata, assim como situações onde, infelizmente por descuido, acabamos contribuindo para possíveis vítimas.
Todos os depoimentos aqui apresentados são de pessoas que sobreviveram aos traumas do abuso e da violência, embora muitos livros abordam atualmente a psicopatia e o tema seja de certa forma comum, poucos livros irão mostrar o que realmente devemos fazer, apontar situações que à primeira vista parecem óbvias e no entanto, nos passam despercebidas.
O livro está dividido em blocos, sendo que o primeiro bloco não faz referência ou se espelha em nenhum caso verídico específico, o mesmo consiste numa junção de vários crimes, tendo acontecido no Brasil ou fora dele.
Bloco 1 – Colecionador de Almas
Bloco 2 – O livro
Bloco 3 – A psicopatia segundo a psicologia
Bloco 4 – Através dos olhos da lei
Bloco 5 – Alguns assassinos na escala 22
Bloco 6 – Assassinos brasileiros
Bloco 7 – Depoimentos reais dos sobreviventes Bloco 8 – O que você precisa entender
Nota da autora
O objetivo deste livro é mostrar a lógica ilógica mente de um psicopata e alertar as pessoas de que não existe um logotipo para identificá-los.
Nem todos os homens são psicopatas, mas todo homem pode ser. E eles estão no meio de nós!
O psiquiatra forense Michael Stone, da Universidade de Columbia, criou um “índice da maldade" para ajudar a ciência a entender e prevenir esse tipo de comportamento, classificando cada assassino em uma escala de 1 a 22.
1- Matam em legítima defesa e não apresentam sinais de psicopatia.
(Pessoas normais)
2- Amantes ciumentos que cometeram assassinato, mas que apesar de
egocêntricos ou imaturos, não são psicopatas. (Crime passional)
3- Cúmplices voluntários de assassinos: personalidade esquizóide,
impulsiva e com traços antissociais.
4- Matam em legítima defesa, porém provocaram a vítima ao extremo
para que isso ocorresse.
5- Pessoas desesperadas e traumatizadas que cometeram assassinato,
mas que demonstram remorso genuíno em certos casos e não apresentam traços significantes de psicopatia.
6- Assassinos que matam em momentos de raiva, por impulso e sem
nenhuma ou pouca premeditação.
7- Assassinos extremamente narcisistas, mas não especificamente
psicopatas, que matam pessoas próximas a ele.
8- Assassinos não-psicopatas, com uma profunda raiva guardada, e que
matam em acessos de fúria.
9-Amantes ciumentos com traços claros de psicopatia.
10- Assassinos não-psicopatas que matam pessoas "em seu
caminho", como testemunhas, são egocêntricos, mas não claramente psicopatas.
11- Assassinos psicopatas que matam pessoas "em seu
caminho".
12- Psicopatas com sede de poder que matam quando estão
encurralados.
13- Psicopatas de personalidade bizarra e violenta, e que matam
em acessos de fúria.
14- Psicopatas cruéis e autocentrados que montam esquemas e
matam para se beneficiarem.
15- Psicopatas que cometem matanças desenfreadas ou
múltiplos assassinatos em uma mesma ocasião.
16- Psicopatas que cometem múltiplos atos de violência, com
atos repetidos de extrema violência.
17- Psicopatas sexualmente perversos e assassinos em série: o
estupro é a principal motivação, e a vítima é morta para esconder evidências.
18- Psicopatas assassinos-torturadores, onde o assassinato é a
principal motivação, e a vítima é morta após sofrer tortura não prolongada.
19- Psicopatas que fazem terrorismo, subjugação, intimidação e
estupro, mas sem assassinato.
20- Psicopatas assassinos-torturadores, onde a tortura é a
principal motivação, mas em personalidades psicóticas.
21- Psicopatas que torturam até o limite, mas não cometem
assassinatos.
22- Psicopatas assassinos-torturadores, onde a tortura é a
principal motivação (na maior parte dos casos, o crime tem uma motivação sexual, mesmo que inconsciente).
Esse livro tratará de um assassino em série que seria classificado na escala 22.
BLOCO I
“Ainda não se pode afirmar, que os ossos encontrados, são de homem ou de mulher e nem a idade aproximada da pessoa a quem eles pertenciam. Nos próximos dias, os ossos serão enviados ao Instituto de Criminalística (IC), em São Paulo, para que exames definam o sexo e a idade aproximada da vítima. A polícia espera que a família da vítima reconheça os seus pertences, pois não há registros de desaparecidos com as características e objetos encontrados.”
Jornal Diário
PREFÁCIO
São Paulo, 1988
Seu sétimo aniversário foi marcado por uma lembrança que carregaria por toda sua vida.
Seu pai havia acabado de bater com uma barra de ferro na cabeça de sua mãe e ela permanecia desmaiada no chão. Não chegou a pensar que ela poderia estar morta, isso era uma rotina quase diária e na maioria das vezes, a mãe fingia desmaiar para que o pai parasse com as agressões.
Na entrada da cozinha, o garoto assistia em silêncio o pai, que agora abaixava as calças e urinava no corpo imóvel de sua mãe, em seguida deu uma sonora gargalhada e apanhou a garrafa que estava em cima da mesa, virando-a de uma só vez na boca.
Ele apertou com força a mão de sua irmã, que se juntara à ele na soleira da porta, espiando com olhos pequenos, procurando algum sinal de movimento no corpo materno.
Seu pai os notou, passou as costas da mão pela boca, depois pigarreando, cuspiu duas vezes no chão, chutou os chinelos para longe e arrancou de vez a calça e a regata, ficando completamente nu, à medida que caminhava em direção a eles, o garoto sentiu seu corpo se petrificar e não saberia dizer por que prendeu a respiração.
Ele ergueu sua irmã pelos cabelos, a ponto de seus pés, vez ou outra, não tocarem o chão, continuou a arrastando pela cozinha enquanto ele permanecia imóvel no mesmo lugar, ouvia os gritos dela e as lágrimas caindo, enquanto era jogada em cima da mesa, onde o shorts e sua camiseta foram facilmente rasgados. O menino segurava com força o batente da porta, como se a qualquer momento ele fosse cair, seus olhos não conseguiam piscar, enquanto hipnotizado, ele observava sua irmãzinha tentando chutar o pai com a força que tinha, mas ele obviamente era mais forte e um único murro foi suficiente para que ela não oferecesse mais resistência.
— Vem aqui, viado! — Seu pai o chamava, mas ele não conseguia se mexer. — Vem aqui, seu viado imundo! Venha aqui aprender como se come uma mulher!
Ele não precisava ir perto para ver seu pai segurando o membro rígido na mão, que logo foi introduzido na garota ainda desmaiada.
— Venha, é sua vez agora, vem mostrar que sabe o que é ser um homem!
O garoto tremia encostado na parede, indeciso se deveria fugir.
Seu pai caminhou até ele rindo de uma maneira grotesca, mostrando seus dentes amarelados pelo cigarro, puxou de uma vez sua calça de moletom, deixando-o nu.
— Está surdo, moleque imundo? Mostra que serve para alguma coisa!
Seu pai deu-lhe um tapa na parte detrás da cabeça, fazendo seu corpo se impulsionar para frente, por pouco não caiu, já que as calças abaixadas diminuíram o movimento das pernas.
— Levanta essa merda! Você é homem ou não é?
Ele tremia, não conseguia entender o que tinha acontecido com seu pai, as surras eram constantes, insultos também, mas chegar ao ponto que chegara, isso foi muito além do que ele poderia imaginar, e agora, além de ser um completo doente, violentando a própria filha de dez anos, esperava que ele fizesse a mesma coisa.
Sentiu seu cabelo sendo agarrado um pouco acima da nuca e sua cabeça tombando para trás, teve sua boca invadida pela garrafa que há pouco seu pai bebera e sentiu o gosto amargo que queimava enquanto escorria por sua garganta, ao mesmo tempo em que parte do líquido entrava pelo nariz.
— Isso é bom! — Seu pai se afastou um passo, voltou a beber e depois continuou. — Mas isso é melhor! – disse apontando para as partes íntimas da filha.
E ele foi empurrado para o meio das pernas de sua irmã, pernas que estavam ensanguentadas, penduradas na borda da mesa. Em meio àquela visão fúnebre, o menino olhou para sua barriga, na qual notou uma respiração leve, ela não estava morta ainda, mas o que aconteceria depois?
— O que está esperando, seu desgraçado?
As lágrimas em seus olhos deixavam sua visão embaçada, não iria fazer a vontade monstruosa dele, então saiu correndo da cozinha, caindo antes mesmo de atingir a porta, tropeçando nas calças que seu pai havia abaixado, ainda enroladas acima dos pés.
Seu pai, furioso, o levantou pelos cabelos, assim como havia feito com a irmã, mas talvez por ele ser menor e mais leve, levantou-o completamente, de forma que olhando para baixo, o garoto via seus pés dançando sem tocarem o chão. Começou a chutar o ar, lutando o quanto podia, pois sabia que de seu pai podia esperar tudo, depois de ver o que ele havia acabado de fazer à sua irmã.
Foi colocado no chão assim que chegaram de novo até a mesa, onde teve seu pescoço agarrado, mais precisamente em sua garganta. Chegou a pensar que morreria ali mesmo, pois a força era tanta que já estava perdendo o ar, mas logo foi solto e sem conseguir se mexer, tentava puxar o ar, em vão, tentando fazer sua respiração voltar ao normal. Seu pai se afastou para retornar em seguida com um martelo em suas mãos, o mesmo martelo de carne que sua mãe estava usando minutos antes de começarem aquela briga. Seu braço foi puxado de maneira violenta e teve sua mão colocada sobre a mesa, deixando a palma completamente aberta, assim, não foi difícil prever o que viria a seguir, aquele era seu castigo por não ter uma ereção, por não ter sido capaz de fazer sexo com sua própria irmã. O único ruído presente era dos seus ossos sendo quebrados, seu pai fazia pressão em seu punho para que não retirasse a mão enquanto descia com força várias vezes o martelo, pelos dedos e as costas da pequena mão.
Logo o sangue começou a escorrer, mas o agressor não parecia disposto a parar e não demorou muito para ver uma parte branca se destacando em meio ao sangue, seu pai conseguiu afundar a carne ao ponto de se ver os ossos.
CAPÍTULO 1
Delegacia de Guarulhos dia 18 de maio de 2010 5:45 da manhã
Paulo, moreno claro, 1.70 de altura e 110 quilos, era policial civil há dez anos. Naquela manhã, iniciava mais um dia de trabalho, seu turno começaria às seis, mas sempre chegava um pouco antes, pois gostava de tomar o café e fumar seu cigarro antes mesmo de entrar, não é que não tivesse café disponível dentro da delegacia ou não tivesse um lugar reservado aos fumantes, mas essa era uma mania que Paulo tinha desde quando começara a trabalhar ali, chegava mais cedo, passava no bar em frente, comprava seu copo de café e ficava encostado na mureta das escadarias que o levariam à mais um dia.
Há anos, Paulo era inspetor e esteve à frente de perseguições, mas agora estava acima do peso, devido a um desequilíbrio na tireoide, com isso acabou sendo designado a fazer o registro de ocorrências e atender ao telefone, o que não era de todo ruim, embora sentisse falta da ação, não podia se queixar de seu ambiente de trabalho, pois as pessoas ali o tratavam com respeito e gostavam dele. Isso seria algo totalmente natural entre parceiros, defensores da lei, se não fosse pela homossexualidade assumida, nem sempre as pessoas o tratavam da mesma forma quando sabiam de sua condição sexual, mas ali, naquela delegacia, todos, desde os encarregados da limpeza até o delegado, o tratavam com o devido respeito e podia até dizer que era querido.
Paulo deu seu último trago e desceu três degraus para colocar sua bituca no cinzeiro, que estava localizado ao lado da escadaria, em um passeio gramado. Seus olhos foram atraídos para uma caixa de presente branca, com um grande laço azul fixado na tampa, olhou em volta e não viu ninguém, voltou a olhar através das portas da delegacia, onde podia ver dois de seus colegas conversando normalmente. Seu raciocínio foi rápido, não poderia ser uma bomba, primeiro não tinham recebido nenhuma ameaça, depois, não era comum bombas no Brasil e muito menos em Guarulhos, e terceiro, o fundo da caixa estava molhado, o que significava que havia sido colocada ali há um certo tempo, pois estava garoando quando ele saiu de casa, o que aconteceu às 4:30, se tivesse que explodir, já teria explodido. Com esse pensamento, não pôde deixar de sorrir, às vezes sua imaginação o levava a pensamentos totalmente utópicos, tão contrários da posição realista necessária aos encarregados de cumprir a lei. Embora sua vontade fosse abrir a caixa, o que poderia fazer facilmente, uma vez que era uma daquelas caixas em que a tampa apenas se encaixa na base, algo em seu peito dizia que não deveria, ele havia sido treinado para agir com a razão e lógica, mas nunca deixava de ouvir também seu sexto sentido.
Voltou a subir mais três degraus e assobiou para chamar a atenção de seus colegas, o investigador Roberto Arantes, 49 anos, um corpo muito atlético apesar da idade e poderia se dizer muito bem-apessoado, se não fosse a calvície que o acometera bem antes dos 30, e seu outro colega, também da equipe de homicídio de Arantes,
Guilherme Andrade de 35 anos, era chamado de Mascote, pois não havia nem ao menos três meses que tinha sido transferido do Paraná para São Paulo, ele deveria estar ao final de seu turno, tanto que
Paulo podia vê-lo já sem as roupas do laboratório e com um casaco pendurado em seu braço esquerdo, além de sua mochila nas mãos.
— Bom dia, Paulo!
— Bom dia, Mascote! – Paulo respondeu apertando a mão do colega, para em seguida apertar a mão do outro investigador.
— Tudo certo nesse paraíso? – Paulo perguntou tentando não demonstrar o nervosismo que sentia.
— Tudo em paz, noite tranquila! – respondeu Guilherme.
— Me faltam ainda dois relatórios e já quero ir, ontem não dormi quase nada, minha filha viajou com meu genro e deixou a bebê lá em casa, como chora! Eu já não me lembrava mais de como era cuidar de crianças.
Os três riram e quando Mascote fez menção de se despedir, Paulo os chamou:
— Venham até aqui, vejam isso – disse apontando para a caixa.
Os três se entreolharam.
— Não acho que seja uma bomba, o fundo está molhado – Paulo disse acendendo mais um cigarro.
— Pode não ser uma bomba, mas pode ser algo tóxico – disse o Mascote dando um passo para trás e inclinando o corpo para frente como se procurasse ter uma visão melhor.
Guilherme Arantes, ao contrário de Paulo, que muitas vezes sonhava acordado, era muito rígido, às vezes até demais, tinha um raciocínio rápido, não era dado a exageros, mas o tinham como um homem muito precavido.
— Ou pode ser só um presente – disse Roberto, bem-humorado, afrouxando a gravata.
— Não temos terroristas em Guarulhos, ao menos não fora dos aeroportos! – falou descontraído. — Vamos pegar logo essa caixa!
— De jeito nenhum! – disse Mascote segurando-o pelo paletó. — Temos que ter certeza!
Embora investigador experiente e condecorado, Roberto não era conhecido pela segurança, ele se arriscava demais e Mascote embora estivesse tão pouco tempo na delegacia, já havia perdido as contas de quantas vezes o havia repreendido por ser tão inconsequente.
— E pretende fazer o quê? Como se o Farias fosse dar permissão para acionar a equipe antibomba por causa.de uma caixa de presentes e não endereçada, sem termos recebido qualquer ameaça e sem nenhum caso recente – disse Roberto bem impaciente.
Guilherme pegou o celular e discou um número, esperou alguns toques e assim que foi atendido disse:
— Alguma chance de te tirar dos braços de tua namorada, para vir ver o presente que foi deixado aqui na delegacia?
Ele tentou ser bem-humorado, mas seu semblante não demonstrava tanta tranquilidade assim.
— Mas quanta bobeira! Até esse aí chegar, já vão estar derretidos! – Roberto voltou a falar.
Guilherme e Paulo olharam para ele sem entender.
— Deve ser bombons, que algum admirador te deixou Paulo, você é o único a ficar plantado nesses degraus todo santo dia! E além do mais, foi deixado pouco antes de você chegar – explicou ele dando um bocejo.
— Como sabe?
— Porque eu acompanhei uma senhora que veio prestar queixa contra o marido, isso às 4:40, até o táxi e coloquei uma caixa de chicletes nesse cinzeiro, se essa caixa estivesse aí, eu já teria aberto e teria comido tudo antes de você chegar.
O que Roberto falava não parecia ser tão utópico assim, tinha que admitir que podia ser verdade, embora ninguém soubesse, uma vez havia brigado com um namorado e ele havia deixado uma camiseta embebida com seu perfume favorito na mureta daquela escada, era possível, mas algo lhe dizia que não eram chocolates que havia naquela caixa.
— Vai para casa, Mascote, e deixa esse tonto aí esperando seu homem antibomba, que eu vou para minha sala!
Roberto subiu as escadas bocejando e Paulo deu de ombros, ele concordava com Guilherme, não deveria se arriscar assim, então ficou imaginando como Roberto podia ser tão bom no que fazia, se às vezes conseguia ser tão relapso.
Paulo atravessou a rua, pegou mais dois copos de café e ficaram por ali conversando, esperando Diego chegar, eles já haviam sido apresentados uma vez em uma operação que Paulo fez no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na época que ainda trabalhava em "campo", um caso de uma briga de casal que parecia comum e acabou se tornando algo bem maior, foi descoberto que a tal briga era uma maneira de distrair os seguranças daquele setor enquanto uma quadrilha tentava embarcar com embalagens de cocaína nas solas dos sapatos. Isso não seria motivo para Diego estar presente se não fosse o pacote deixado na entrada do check-in, uma bomba caseira com o intuito de causar ainda mais distração, enquanto um dos cúmplices, funcionário da própria alfândega deixava as "solas brancas" passarem e mais algumas malas com fundos falsos, contendo frascos de LSD líquido, que curiosamente seriam vendidos a cinquenta reais a gota. A operação foi concluída com a prisão de dez pessoas sendo quatro funcionários do aeroporto. Foi nessa ocasião que Paulo conheceu Diego, que fazia parte do esquadrão antibomba e era primo do Mascote, também vindo do Paraná, Diego já morava há mais tempo em São Paulo e embora atuassem em áreas distintas, vez ou outras acabaram se esbarrando, como hoje por exemplo. Diego, funcionário de uma empresa privada, muitas vezes atendia os locais de ocorrência, mas hoje seria apenas um favor, ele parecia ser tão precavido quanto seu primo, onde preferia ter certeza antes de arriscar. Paulo tinha acabado de concluir sua lembrança quando Diego parou alguns metros à frente da delegacia e desceu parecendo um servidor da NASA em uma missão astronáutica. Não pode deixar de rir, nem mesmo no aeroporto ele parecia tão equipado quanto naquele dia, provavelmente porque a hora que o conheceu ele já havia terminado a inspeção e estava com bem menos roupa.
— Acho bom que tenha pelo menos três bombas aí! Eu estava numa boa! – Diego falou sorrindo.
Aparentemente, ninguém levava a sério aquela situação, então qual era o motivo de Paulo estar ainda com aquela sensação horrível?
— Talvez não seja tão sério assim, Diego. – Paulo disse, mas foi interrompido.
— Bobagem! Precisamos prestar atenção, especialmente no Brasil, por acharem que não é um país alvo de terroristas, acaba se tornando exatamente o alvo. Agora, se for uma bomba caseira, pode conter vidro ou um pedaço de cano vedado, por isso, antes que o invólucro seja destruído e projetado, quero que fiquem distantes.
— Preciso estar seguro de que irão evitar as ondas de propulsão, as ondas de choque e a fragmentação.
Diego falava mais para si do que para eles, parecia um daqueles cientistas malucos, que andava e falava ao mesmo tempo.
— E isso, em português, quer dizer o quê? – Paulo perguntou.
— Para ficarmos longe – respondeu Mascote. Atravessaram a rua e ficaram em frente ao bar, que ainda se encontrava deserto.
— Espero que não exploda seu primo – Paulo tentou brincar.
— Mesmo que seja uma bomba, ele não será atingido, as roupas são feitas com algum produto à base de aramida, apresenta-se satisfatório em termos de blindagem geral, com fibras entrelaçadas, tem placas balísticas que ajudam a dissipar a força e repelir os estilhaços e a fragmentação secundária.
O tempo pareceu demorar horas, mas não havia se passado tanto tempo assim quando Diego acenou para eles, com a caixa nas mãos, se aproximou da escada e colocou o objeto em cima da mureta, dizendo:
— Seja o que for, não vai machucar ninguém! Ele se despediu somente depois de receber o sincero agradecimento do Mascote e de xingá-lo muito, por tê-lo tirado da cama.
— Vamos logo abrir isso, quero ir para casa de uma vez e se o Roberto estiver certo e isso for chocolate, eu tenho o direito de ficar com metade, já que me segurou aqui por tanto tempo.
Paulo segurou o laço azul que estava bem preso na tampa e o puxou, os dois se curvaram para ver o conteúdo da caixa e não demorou muito para perceberem que Roberto não estava certo, mas que Diego também não, quando dissera que, seja lá o que fosse não machucaria ninguém. Fisicamente não...
Paulo subiu correndo as escadas para chamar o investigador, Guilherme voltou a fechar a caixa e a levou para dentro. Procurou uma sala vazia e avisou um atendente que chamasse o delegado e o encontrasse ali.
— Mas que droga está acontecendo aqui?
O delegado Farias chegou acompanhado de Paulo e do investigador Roberto, Guilherme novamente retirou a tampa e os quatro se debruçaram novamente para olhar.
— Que porra é essa? – perguntou o delegado, mostrando nítido desespero ao passar a mão pelo cabelo.
Roberto colocou as luvas e apanhou um dos itens, todos iguais, três lotes de pequenos ossos amarrados com uma fita azul e em cada lote haviam cinco ossos.
Ele desfez o laço e examinou cada osso por um tempo, enquanto seus colegas, com exceção de Paulo, também colocavam as luvas e examinavam todos os demais, alguns estavam gelados, demonstrando que ao menos alguns deles estiveram em um freezer, outros já estavam em temperatura normal e ainda era possível ver pedaços de carne e cartilagens remanescentes.
— Parecem humanos – disse Guilherme.
— É mais do que isso, são metacarpianos, eu posso reconhecê-los. – Paulo falava rapidamente como se cuspisse as palavras. — Se cada lote for de uma única vítima, temos ao menos três assassinatos.
São dos meninos desaparecidos que temos recebido queixas, o laço azul prova isso!
Paulo estava totalmente fora de controle, era muito emotivo quando o assunto eram crianças, e isso chegava até causar problemas em sua profissão, embora fosse um ótimo policial.
— Vamos colher o sangue das famílias das crianças desaparecidas e fazer um exame de DNA com esses ossos, assim....
— Silêncio!
O delegado Farias estava muito sério e sua voz soou bem mais alta que o normal, fazendo com que Paulo se calasse imediatamente.
— Quanto tempo está atuando como inspetor, senhor Pontes?
Paulo engoliu em seco, o delegado chamava todos pelo sobrenome, mas nunca ele, ele sempre era o Paulo, e se estava sendo chamado assim, ele havia falado demais.
— Não ouviu minha pergunta, senhor Pontes?
— Dez anos, senhor! – Paulo respondeu de forma rápida, como se fosse um soldado do exército batendo continência ao seu superior.
— E presumo que, em dez anos nesse departamento, saiba que uma fita azul seja apenas uma prova circunstancial, certo? Assim como espero que saiba, que não podemos pedir às famílias uma amostra de DNA, sem termos encontrado material suspeito.
Paulo pensou em dizer que sim, pois acabaram de encontrar material suspeito, mas bastou um olhar de Roberto para não dizer absolutamente nada, permaneceu na postura ereta, olhando para o delegado.
— E para pedirmos a amostra dos supostos pais, teremos que notificá-los da descoberta dos ossos. E não queremos isso, queremos? Precisamos dar mais motivo de angústia para essas famílias, sem termos algo concreto? Nenhum dos presentes emitiu nenhum som, o delegado deu um suspiro cansado e disse:
— Andrade, Arantes, verifiquem como anda o caso dos garotos desaparecidos e deixem esses ossos em custódia, até que um vento bom sopre pela minha sala. Estão dispensados.
CAPÍTULO 2
No dia seguinte, pela manhã, Paulo praticamente correu a entrada da delegacia como se fosse encontrar outra caixa, mas obviamente não tinha nada naquele lugar. Comprou seu café habitual e fumou seu cigarro calmamente; desde o acontecimento anterior o delegado não falava com ele, além do necessário, entendia a posição do delegado, mas também não achava que teriam que ficar esperando, contando com a sorte, tinha certeza absoluta de que se tratava de um assassino em série, e só de imaginar quantas crianças mais estariam com ele nesse momento, fazia com que um arrepio gelado subisse pela espinha.
"Que o delegado não me escute, mas se eu o pegar, ele não irá para a cadeia." Paulo se remoía, enquanto a maioria pensava a mesma coisa, ele era o único capaz de admitir, pelo menos a si mesmo que esse tipo de psicopata merecia pena de morte e não ficar sendo sustentado pela população, tendo mais privilégios que os pais de família que trabalham o mês todo sem que nunca o salário fosse suficiente.
Não viu nem o Roberto, nem o Mascote, também eles saíram no dia anterior depois do almoço, não teriam a menor condição de voltar ao plantão noturno, provavelmente nem mesmo hoje os veria. Tinha que encontrar uma maneira de entrar nesse caso, ele sabia que poderia ajudar de alguma forma, mas não conseguia pensar em nada que pudesse convencer o delegado Farias. As horas foram passando em sua total normalidade, resolveu mexer nos arquivos dos garotos desaparecidos e ver se algo havia sido deixado para trás, tinham no mínimo dez queixas de desaparecimentos, poucas pistas ou nenhuma, não havia tido ameaça as famílias e muito menos pedido de resgate, todas as investigações terminaram sem muito o que pudessem fazer; embora os casos continuassem abertos, se viam presos no mesmo lugar.
Olhou a foto de um dos garotos, Gustavo, cinco anos, cabelos pretos, pele clara, bochechas bem rosadas; aquele era um caso dos mais estranhos que já havia visto. Os pais alegaram que a criança havia desaparecido de dentro de casa, sem sinais de arrombamento, nem impressões digitais deixadas no local, parecia algo absurdo de se acontecer e, no entanto, Gustavo desaparecera há seis meses sem deixar rastro. Paulo se assustou e fechou rapidamente o arquivo quando viu o delegado parado em frente a ele, estava tão entretido relendo a história que nem o tinha visto se aproximar.
— Se eu fosse o maníaco da caixa, você já estaria morto, não é Paulo?
O delegado disse muito sério, mas Paulo sabia que aquela forma, principalmente por ter voltado a chamá-lo pelo primeiro nome, era porque já não estava com tanta raiva.
— Tome. – O delegado colocou um copo de café em sua mesa, enquanto bebericava o seu. — É exatamente por isso que eu quero você longe dessa investigação, você se torna desatento e emotivo demais.
— Eu posso ajudar, Farias, de alguma forma...
— Não, você não pode e não falaremos mais nisso. – O delegado saiu, deixando Paulo pensativo.
Será que o delegado sabia o que ele estava olhando? Mais algumas horas se passaram e Paulo ia e voltava até a porta da sala de Farias, tinha que convencê-lo a deixá-lo participar daquela investigação, depois de umas três idas e vindas, resolveu empurrar a porta que estava entreaberta, visualizou o delegado muito sério, segurando uma folha em frente dos olhos, lendo concentradamente.
— Não, eu já disse!
Paulo levou um susto ao ouvir a voz do delegado, ele o havia visto ou sentido, mesmo estando concentrado, ainda assim, ele empurrou a porta e se aproximou mais.
— Eu posso ajudar, Farias, se me manter informado, eu posso ajudar, três cabeças pensam melhor que duas, não? Eu não quero nenhum tipo de remuneração extra e....
O delegado soltou a folha de papel, recolocando-a em meio a uma pasta e acendeu um cigarro dizendo:
— Como se eu tivesse alguma intenção, de pagar do meu próprio salário, por essa "ajuda" extra de qualquer forma – disse abrindo os braços e fazendo o sinal de aspas na palavra ajuda.
— Eu posso ajudar, eu sei que posso!
— E vai ajudar fazendo exatamente o quê? Ou você acha que receberá permissão para deixar suas obrigações e se dedicar a esse caso?
— Eu só quero poder falar.
— Você não precisa da minha permissão para falar, precisa? Não está falando agora? – Farias disse com um leve sorriso. — Me deixe trabalhar, Paulo, e me avise se não tem o que fazer, que eu providencio algo para mantê-lo ocupado.
Paulo voltou ao seu posto frustrado, mas não chegou a passar uma hora, quando uma ligação muito interessante havia chegado, ele anotou tudo o que disseram e correu para a sala de Farias.
— Eu não acredito que é você de novo, Paulo! Faria falava de costas, enquanto abria uma gaveta. Paulo não pôde deixar de sorrir, aquele delegado era o que realmente se dizia de uma pessoa com olhos nas costas!
— Farias, o IC acaba de ligar, mandaram outra caixa diretamente para eles.
O delegado passou a mão pelo bigode lentamente, digerindo suas palavras.
— Outra caixa? Branca, de laço azul?
— Muito maior do que a que recebemos, senhor, eu falei com o Allan.
— Allan? O Delegado disse levantando as sobrancelhas. Era só o que me faltava, um desequilibrado e um fofoqueiro! Diga de uma vez o que aquele boca aberta contou!
— Não contou muito, Farias – disse sinceramente lamentando. — Mas encontraram partes de corpos na caixa.
O delegado acendeu um cigarro e deu um longo trago, sentou-se novamente e começou a falar sozinho.
— Então, o maluco das caixas está brincando com a polícia, ótimo, um egocêntrico inteligente.
— O que te leva a pensar nisso, Farias?
— Ele não poderia ter certeza que a caixa seria aberta por um de nós, qualquer pessoa poderia tê-la levado embora, e ainda se a abríssemos, poderíamos tê-la ignorado, mas ele quis deixar claro, mandando o resto do corpo para o IC.
— Na verdade, não é o resto.
— Fale de uma vez o que o Allan disse!
— É um corpo, mas é de um homem adulto, na verdade parte do corpo, só a cabeça e...
— E o quê, Paulo?
Paulo pensou e respondeu:
— Também foram encontrados ligamentos e articulações da pélvis.
— Como é, que é?
— A bunda, senhor.
— Eu sei o que significa ligações da pélvis, Paulo! Pelo amor de Deus! Mande o Andrade e o Arantes para lá imediatamente, quero um relatório completo, e espero que fique claro que, é para os dois irem, e não você!
CAPÍTULO 3
Andrade bateu no volante do carro com raiva, ao encontrar o semáforo fechado, Arantes checava o celular no banco do passageiro e depois falou:
— Não caiu na mídia ainda, vamos ver por quanto tempo teremos sorte.
— O que me preocupa mesmo, é o Paulo – disse Andrade, colocando o carro de novo em movimento. — Nada seria pior para mim, do que prender um amigo.
— E por que acha que terá que prendê-lo?
— Não terei, não se encontrarmos o maníaco antes dele.
— Ele sofreu algum tipo de violência na infância? — perguntou Mascote, olhando para a esquerda ao mesmo tempo em que Andrade, antes de fazerem a curva.
— Se sofreu, nunca comentou, mas isso não tem a menor importância, se o cara das caixas tem ligação com os meninos desaparecidos, ele já fez vítimas demais para fazer um de nós estragar a carreira e a vida!
Dez minutos depois, estacionaram em frente ao Instituto de Criminalística, onde já eram aguardados.
— Ainda bem que chegaram! Eu nunca vi nada igual, cara! O assassino é mesmo um pervertido!
— Cala a boca, Allan! – disse Andrade, já mal-humorado e sem nenhuma paciência para com o estagiário, que sempre falava demais, como o Mascote não disse nada, Allan resolveu ficar em silêncio e os acompanhou ao laboratório.
Após o estagiário se retirar, eles cumprimentaram a doutora Ellen.
Ela ajeitou os óculos no rosto e os olhou muito séria.
— Trinta anos e nunca vi algo parecido, me acompanhem. — Caminhou em direção à porta, descendo até a sala de autópsia.
Pelo lençol esticado na mesa, era possível observar dois volumes, ela se aproximou do maior e retirou o lençol cuidadosamente.
— Um quadril, sem membros inferiores, como podem ver.
Se afastou alguns passos e apanhou uma prancheta.
— Homem caucasiano, aproximadamente sessenta anos, tipo sanguíneo A negativo, pênis removido. — Fez uma curta pausa.
— Uma pena, hoje pela manhã, a Lúcia me disse que estavam em falta de A negativo.
Os investigadores se olharam sem dizer nada e ela continuou:
— Como podem observar, posso afirmar com certeza, que só apresenta o osso ilíaco e o sacro, a vértebra lombar foi serrada com uma serra elétrica, observem o corte preciso.
Ela voltou a olhar a prancheta e continuou:
— Foi encontrado cola no reto e após a amputação dos membros inferiores, foi cessado o sangramento com um ferro em brasa.
Ela, já com as luvas postas, levantou o quadril, mostrando a crosta que se formava onde deveriam estar as pernas
— A parte da cintura, foi estancada ou ao menos foi tentado, com sal grosso. Conseguem enxergar essa forma? Aqui nas nádegas? – perguntou se aproximando novamente, tocando parte do ferimento.
— Parece uma gota, ao menos tem esse formato, foi feito com ferro quente, devido a profundidade, atingiu o tecido subcutâneo. Alguma pergunta? – Ela arrumou novamente os óculos e esperou.
— Como essa coisa chegou aqui? – o Mascote perguntara.
— Por um motoboy, ele já foi levado à delegacia para prestar esclarecimentos, mas já disse que foi contratado e não fazia ideia do que era o presente.
— E só chegou isso? Sem nenhuma pista sobre o resto do corpo? – Foi a vez de Andrade perguntar.
— Não, provavelmente o assassino comeu – respondeu ela, indiferente.
— Comeu? – Os detetives perguntaram juntos.
— Estão preparados para ver a próxima parte?
Ellen se dirigiu à outra ponta da mesa e disse ainda com expressão séria, mas seus olhos puderam mostrar uma leve satisfação.
— Imagino que em vocês, isso pode ser um pouco desagradável! Ela descobriu a cabeça e automaticamente os detetives levaram ambas as mãos para suas partes íntimas, exatamente como jogadores de futebol fazem quando algum jogador é escalado para marcar uma falta e se forma a barreira do time adversário, Ellen esboçou um leve sorriso de lado. A cabeça tinha a boca aberta e um pênis inserido nela.
— Isso é doentio!
O Mascote dava sinais nítidos de querer vomitar, enquanto Andrade se mantinha firme, tentando manter o foco.
— Temos fotos?
— Já está sendo providenciada a cópia para vocês – Ellen respondeu se voltando para a cabeça.
— Estão vendo essa marca? É uma mordida humana, provavelmente do assassino, por isso disse que deve ter comido o resto, pois do que era a bochecha, ele levou um bom pedaço.
— Eu já vi o suficiente – o Mascote falou se dirigindo para a saída, Ellen e Andrade o seguiram.
— Quando tivermos os resultados laboratoriais, enviaremos.
Eles deixaram o IC e a caminho da delegacia, o Mascote tentava entender.
— Não deve ser o mesmo caso dos meninos desaparecidos, a menos que o assassino procure qualquer espécie masculina, independentemente da idade!
CAPÍTULO 4
Enquanto isso na delegacia, o delegado colhia o depoimento do motoboy que fora incumbido de entregar a caixa no Instituto Criminalístico, como os investigadores estavam a caminho, manteve o rapaz por algum tempo caso eles quisessem fazer mais alguma pergunta, e Paulo saiu para seu horário de almoço, voltando não mais que vinte minutos depois com uma caixa de tamanho médio. A abriu e instalou o novo telefone em sua sala, jogando o antigo na lata de lixo. Foi apenas terminar de instalar e contemplar o telefone com gosto que notou Farias apoiado ao balcão o observando.
— Trouxe um novo telefone, Farias, aquele estava com defeito – Paulo se apressou em dizer.
— Claro que estava – Farias disse, passando a mão pelos olhos, os esfregando em sinal de cansaço. — E você, ao invés de pedir ao Souza a troca, comprou do seu próprio bolso um telefone sem fio. Acho admirável seu amor ao trabalho, Paulo!
Paulo ficou sem jeito, pois ele esperava que isso passasse despercebido pelo delegado.
— O que eu faço com você, Paulo?
Paulo não respondeu e o delegado continuou:
— Problema teu, se quer gastar dinheiro com um telefone sem fio para poder carregá-lo, enquanto escuta atrás das portas! Não pense que não sei que ouviu ou ao menos tentou escutar o depoimento do motoboy.
Antes que Paulo pudesse argumentar, Arantes e Andrade chegaram e o delegado os acompanhou até a sala em que estava o motoboy, Paulo pegou seu novo telefone e ia acompanhá-los, mas foi barrado por Farias.
— Você está me fazendo perder a paciência, Paulo.
— Me deixe participar, eu posso ajudar!
— Pode me ajudar ficando longe do meu caminho.
Paulo saiu pronto para dar um soco na cara do delegado, sentia uma vontade enorme de gritar. Eles entraram na sala e o delegado saiu fechando a porta. Ambos investigadores se sentaram após cumprimentarem o rapaz e o Mascote iniciou as perguntas, enquanto lia o depoimento.
— Você recebeu essa encomenda de uma enfermeira, correto?
— Sim – respondeu o rapaz já um pouco assustado.
— Você a conhecia, já fez entregas para ela antes? – perguntou Andrade.
— Não, senhor.
— Ela te disse que era enfermeira?
— Não, mas pela roupa branca, acho que deveria ser, ou médica talvez.
— E o que ela disse exatamente?
— Disse que precisava entregar uma encomenda no instituto, me deu o endereço e cem reais pelo serviço.
— E você não achou que era muito dinheiro, para uma só entrega? – O Mascote perguntou, aproximando seu corpo do motoboy.
— Me desculpa, mas eu não acho que é crime receber dinheiro alto, mesmo que seja para uma só entrega.
— Claro que não – disse o Mascote. — Você disse que era uma mulher bem alta, cerca de 1.80, correto? Conseguiu ver os pés dela?
— Sei lá, acho que não.
— Então não sabe me dizer se ela era mesmo alta ou estava de salto alto?
— Estava com uma sapatilha.
— Se não viu os pés dela, como sabe que eram sapatilhas? —O Mascote voltou a perguntar com uma voz mais firme e o rapaz começou a apresentar sinais de nervosismo. Passava a mão pelo cabelo e pelo pescoço, mostrando nítido desespero.
— Aqui, está tudo bem! – disse Andrade fazendo o papel do policial "bonzinho" — Beba um pouco de água, aceita um cigarro?
O rapaz pegou com as mãos trêmulas e disse:
— Olha cara, eu não fiz nada errado! Eu sei que puxaram minha ficha, eu já tive passagem quando era menor, mas eu não faço mais isso, tenho família, saca? Tenho uma bebê pequena, eu não matei ninguém!
Andrade puxou a cadeira mais para perto dele, dizendo com uma voz bem amigável:
— Quantos anos tem sua filha?
— Dez meses.
— Tem uma foto?
O rapaz estranhou, mas depois abriu a carteira mostrando um bebê rosado e risonho, no colo de uma senhora já idosa.
— Ela é minha mãe – informou o rapaz.
— É uma linda menina, eu também tenho uma neta, de seis meses, tem pulmões de tenor! Se gritar em casa, escuto daqui – disse sorrindo, fazendo o rapaz relaxar.
O Mascote, apenas se encostou na cadeira cruzando os braços, estavam acostumados a inverter os papéis, enquanto um fazia a testemunha tremer, o outro as fazia relaxar e assim terem o máximo que conseguissem tirar dela.
— Como chama sua filha?
— Luana.
— Que coincidência! Minha neta também se chama Luana!
O rapaz sorriu animado, enquanto o Mascote sorria de lado da mentira contada pelo colega.
— E como chama a mulher, que te mandou entregar a encomenda?
O rapaz voltou a piscar, mas ainda descontraído respondeu:
-— Ela não disse, se é que é mulher mesmo!
As sobrancelhas do Mascote se ergueram, mas Andrade olhou rapidamente para ele, deixando claro em uma conversa silenciosa, que já sabia o rumo que aquela conversa estava tomando.
— Diz isso pela altura? Eu imagino que não seja comum achar mulheres altas assim. Conheci uma vez uma professora de um metro e noventa, ela tinha muita vergonha, sabe, até para falar, ela falava baixo, tínhamos sempre a sensação que ela queria se esconder, não ser notada, entende?
O rapaz assentiu com a cabeça e Andrade continuou:
— Essa enfermeira também mostrava nervosismo na voz, falava baixo?
— Eu não sei, eu não escutei a voz dela.
O Mascote ia abrir a boca, mas um gesto rápido de Andrade fez com que ele esperasse.
— Entendo, acha que ela era surda muda?
— Não sei, acho que estava com uma dessas gripes que inventaram por aí, gripe do galo, gripe do frango, do porco, saca? Ela apenas me entregou o papel com as instruções e deu o endereço com o dinheiro.
— Ela aparentava estar doente?
— Não, mas estava com uma daquelas máscaras, essas brancas que se usa quando se está doente, sabe qual é?
— Claro que sim, você acha que era uma mulher bonita? Mesmo estando de máscara?
O rapaz pensou um pouco e depois colocou a cabeça para trás tomando fôlego.
— Olha doutor, na verdade, eu acho que era um viado, saca? Eu tenho um irmão que é montado, faz ponto, essas coisas, vou ser preso por dizer isso? Prostituição é crime, não é?
Andrade sorriu e balançou a cabeça.
— Garanto que ninguém vai te prender por isso, fique tranquilo.
— Certo rapaz, por acaso saberia me dizer a cor dos olhos dela?
— Não sei não, mas devia ser normal, porque se fosse de uma cor diferente, a gente nota, não é?
Um meio sorriso de Andrade e ele se levantou:
— Acho que é só isso por hoje, meu jovem.
— Caso seja necessário, o chamaremos de novo. – O Mascote falou e o rapaz saiu, apertando somente a mão do Andrade.
Assim que a porta se fechou, ambos se olharam satisfeitos.
O motoboy deixou um novo depoimento, acrescentando os detalhes que haviam sido esquecidos ou não dado a devida atenção, inclusive, parecia ter gostado tanto do investigador Andrade, que prometeu que se a "mulher" aparecesse novamente, iria segurá-la de qualquer forma.
CAPÍTULO 5
Agora Andrade e Arantes estavam sentados olhando atentamente as fotos, juntamente com o depoimento deixado.
— Devemos pedir amostras às famílias e ter certeza de uma vez que a primeira caixa era de um dos meninos.
O Mascote disse, enquanto examinava atentamente uma foto.
— O Farias ainda não quer, mas, eu acredito que sim, estamos lidando com um assassino em série, e embora, não exista nada legal que ligue um homem adulto ao caso dos meninos, tenho quase certeza que é o mesmo assassino.
— Há quanto tempo estamos recebendo queixas de desaparecimentos? – Andrade não esperou pela resposta. — Cerca de três anos, correto?
— Não tivemos nada parecido com esse homem, espero que eles consigam saber quem é, eu já pedi checagem de homens desaparecidos com a idade aproximada – Arantes disse se remexendo na cadeira e tomando água diretamente de uma garrafa.
— Veja bem a tal "gota" que a Ellen disse, ela foi profunda, precisa, o assassino queria nos dizer alguma coisa, ou à vítima – Andrade estendia a foto para o Mascote.
— Algo do tipo, foi a gota d'água? E assim justificaria o assassinato?
— Não tenho certeza, mas acho que...
— Acha o quê, Roberto?
— Em nossa profissão, não devemos trabalhar com suposições, mas...
Paulo abriu a porta trazendo um café para os dois investigadores e o telefone sem fio no bolso da calça. O Mascote que já havia escutado sobre a nova maneira que Paulo arrumara para acompanhar de perto as investigações, não foi capaz de conter o riso.
— Se o Farias te pega, Paulo...
Andrade falou sem tirar os olhos da gota.
— São as fotos? – Paulo perguntou sem esperar pela resposta e começou a olhá-las.
Nenhum dos dois investigadores concordavam com a obstinação de Paulo em ajudar, mas nenhum deles fez nada para impedi-lo de olhar as fotografias.
— O que você acha? – o Mascote perguntou e Paulo demorou para responder, pois não havia se dado conta que a pergunta tinha sido direcionada a ele.
Assim que percebeu os olhos do colega em sua direção, esboçou um sorriso radiante e puxou a cadeira para se sentar. Andrade apenas balançou a cabeça em um gesto de resignação, mas também esperou para ouvir a opinião dele. Paulo pegou a foto que tinha uma gota, olhou por um tempo e depois a devolveu.
— Eu não consigo ver a menor lógica em "tatuar" uma gota com ferro quente, ao ponto de atingir o tecido subcutâneo.
O Mascote falou esfregando os olhos cansados.
— E se essa gota for uma lágrima?
Andrade perguntou:
— E por que teríamos uma lágrima na bunda? – o Mascote perguntou se levantando e indo até a janela.
— Porque o assassino viu seu agressor de costas – Paulo disse.
O Mascote se virou e olhou para ele, Andrade se recostou na cadeira e estava tentando acompanhar o seu raciocínio.
— Deixa eu ver se entendi sua lógica, o assassino foi abusado sexualmente por este homem e à medida que o agressor saía do local da agressão, ele naturalmente ficava de costas para a vítima enquanto caminhava, é isso?
— Enquanto a vítima era deixada chorando – Paulo completou. O investigador Andrade franziu o queixo e a boca, balançando a cabeça em afirmação.
— Faz sentido.
— O que não faz sentido, é vocês serem pagos para brincarem de adivinhação! – o delegado Farias chegou a todo vapor, com um envelope nas mãos.
Abriu uma gaveta, retirou um notebook, abriu o envelope retirando um CD e o colocou no dispositivo. Os três continuaram sentados observando, enquanto o delegado continuava em pé de braços cruzados.
As imagens da câmera em frente à delegacia mostravam a hora que uma pessoa alta deixava a caixa no passeio gramado, uma pessoa alta, com roupas femininas, longos cabelos loiros e uma máscara igual ao que o motoboy descrevera.
— Devido à pouca iluminação, não podemos precisar se isso é ou não uma mulher, mas juntamente com o depoimento do rapaz, que a viu em plena luz do dia, temos motivos para crer que se trata de um travesti – o delegado falou retirando o CD do notebook e colocando-o novamente no envelope.
— Ele não é um travesti, ele apenas se vestiu de mulher para não ser reconhecido – Paulo falou.
— E por que você diz isso?
— Eu sinto.
— E eu sinto que você não deveria estar nessa sala.
— Vou pedir à perícia para investigar e ver se consigo mais informações sobre a altura aproximada ou se seria possível um reconhecimento do indivíduo se não estivesse com a máscara.
— Ele não é um travesti, Farias, nem gay ele é! – Paulo insistiu.
— E você afirma isso por conhecê-lo? Faria a gentileza de trazer seu amigo até aqui para conversarmos? – ironizou o delegado, já caminhando para a saída, quando Paulo interrompeu.
— Olha essa foto, Farias! – Paulo apanhou a foto que tinha a cabeça com um pênis introduzido na boca. — Está vendo isso? A glande está para o lado errado, se ele fosse um travesti, ou gay, ele colocaria o pênis com a glande para dentro da boca e não saindo dela!
O Mascote teve vontade de perguntar se era experiência própria, mas sabia que isso seria uma brincadeira de mau gosto, então se limitou a esperar pelo delegado, que ao contrário do que ele esperava, não dando ouvidos ao que Paulo dizia, ficou muito sério e depois disse:
— E com isso ele quer dizer, que a vítima era o criminoso? Que mereceu morrer?
— Isso faria lógica com a lágrima, é uma vingança, ele se vingou de seu abusador! – Andrade disse animado.
— Talvez estejam certos, mas isso ainda não explica a ligação com os meninos, e não, não quero Paulo, ouvir a lógica que sei que já tem para isso, por hora, vamos aguardar os laudos.
CAPÍTULO 6
Hospital Central de Guarulhos, 2012
Cristina acabava de entrar às seis e cinquenta da manhã, com dois copos de café fresquinhos, colocou em cima da mesa e sorriu olhando seu colega de trabalho.
— Bom-dia, J!
— Bom-dia!
O rapaz se levantou sorridente, deixando as fichas que examinava e a cumprimentou com um leve beijo na bochecha. Cristina olhou para o relógio e disse:
—Temos ainda dez minutos, que tal uns biscoitos?
J a olhou sorrindo com os olhos e abriu uma gaveta.
— Eu sabia! – disse sorrindo. — Eu guardei para você, sabia que ia pedir.
Cristina e J eram enfermeiros nesse hospital, colegas de trabalho há alguns meses, se tornaram muito próximos, embora quando ela iniciava seu turno, ele o estava deixando, mas isso não foi impedimento para se tornarem bons amigos e dividissem o café da manhã, ela sempre trazia o café, assim que chegava ao hospital e ele guardava alguma caixa de biscoito que ganhasse ou tivesse comprado no dia anterior.
Tinham a mesma idade, 24 anos, mas J trabalhava neste hospital um ano há mais do que Cristina, ele havia entrado assim que se formara e ela um ano após, e embora tivessem estudado na mesma faculdade, com diferença apenas de um ano, nunca tiveram a chance de se conhecer, mas o destino havia lhes dado uma nova oportunidade.
Não havia nenhum tipo de interesse romântico por parte de Cristina, ela tinha um noivo, mas J era uma pessoa muito agradável e prestativa, além de ser muito atencioso com todos à sua volta, o tipo de homem muito raro de se achar, que ao contrário da maioria, estava sempre disposto a ouvir e dificilmente falava sobre si mesmo, o que ela achava ser uma certa timidez, dava a ele um charme ainda maior.
Ambos trabalhavam na Ala Geriátrica que ficava em frente à Ala Pediátrica, por algum motivo, o diretor do hospital acreditava que colocar duas alas tão distintas e opostas de alguma forma, traria benefícios simultâneos, não era difícil de se ver pacientes idosos olhando com olhos sorridentes para as crianças do outro lado do vidro, enquanto caminhavam pelo corredor, e as crianças por sua vez, eram incentivadas a melhorarem através dos enfermeiros que sempre diziam:
— “Está vendo aquela vovó ali? Ela estava muito doente, mas está comendo tudo e se quiser ficar forte como ela, também terá que comer!”
Ou ainda algo como:
— Aquele vovô só não morreu, porque comeu todos os legumes que trouxeram, são legumes mágicos!
Vez ou outra, ainda deixavam os pacientes idosos que estavam para receber alta, entrar na pediatria e contar às crianças como eles se curaram, sempre com histórias muito regadas à fantasia, disciplina e sempre tomando as “pílulas da cura” ou as refeições para “super-heróis”, era gratificante para os idosos e para as crianças que estavam mais do que dispostas, após alguns dias hospitalizadas, a fazerem qualquer coisa para voltarem para suas casas.
E isso funcionava na maioria das vezes, tornando a vida de todos, especialmente dos enfermeiros mais fácil.
Na próxima semana que se seguiu, Cristina e J passaram a trabalhar no mesmo turno, aproximando a amizade que tinham e dividindo o desejo que ambos sentiam de serem transferidos para a Ala Pediátrica, em horários sem muito movimento, ambos encostavam os narizes no vidro e ficavam admirando as crianças que dormiam tranquilas, eles se olhavam, trocavam um rápido sorriso e voltavam a admirar aqueles anjinhos.
Cristina adorava crianças e sonhava em ter muitos filhos com seu noivo, mas antes disso, gostaria de ter a chance de cuidar de todos aqueles bebês, um era mais lindo do que o outro, fazendo com que ela se perdesse em olhares e suspiros caso tivesse que escolher apenas um.
J fazia esforço para não salivar em frente dela, seus olhos estavam vidrados enquanto imaginava poder ficar sozinho com cada uma daquelas crianças, poder ouvir seus gritos enquanto cortava suas carnes jovens e macias, ou apenas ter um orgasmo ao ver a luz fugindo daqueles olhos pequenos.
CAPÍTULO 7
Mais alguns meses se passaram e a amizade de J com Cristina crescia a cada dia, inclusive começaram a sair para jantar juntos em seus dias de folga, Cristina com seu noivo e J com sua namorada, Michele. Cristina não tinha mais palavras para elogiar J ao seu noivo, o que despertou certo ciúmes, de início, mas após alguns jantares, até mesmo ele entendeu o que Cristina queria dizer, J não só era atencioso com Michele, mas também com seu filho de cinco anos, e era realmente encantador ver um rapaz novo como J, que além de namorar uma mulher mais velha e mãe solteira, amar tanto assim o filho dela. Ele sempre dava o que o garoto pedia, mesmo quando a mãe brigasse, dizendo que deveria comer verduras, J dava um jeito de conseguir que ele comesse, para depois ganhar o dobro de sobremesa.
— Ele tem um jeito incrível com crianças! — Cristina não cansava de repetir.
Chegaram a jantar umas três ou quatro vezes naquele mês e em todas as ocasiões, J nunca se mostrava cansado, quando o garotinho queria andar nos brinquedos oferecidos pelo restaurante, sem dúvidas, Michele tinha tirado a sorte grande, e ela também achava isso ao observar J voltando à mesa, com seu pequeno pendurado nos ombros dele, sorrindo feliz. Não importava o relacionamento anterior frustrado, pois havia conhecido um enfermeiro, além de uma profissão extremamente útil para quem tem filhos, seu namorado ainda adorava crianças, quantas mulheres poderiam ter uma sorte dessas?