Colecionador de Almas
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
J trouxe um prato de comida para Cristina e espiou Júlio que estava agora se secando, mandou que ele saísse apenas com a toalha, não deixando que se vestisse, ele se cobriu como pode e voltou para seu lugar, J mandou que ele colocasse a algema na barra de ferro deixando um braço livre e lhe deu, assim como a Cristina um prato de comida e uma garrafa de água. Pegou uma cadeira na cozinha e se sentou encostado ao banheiro enquanto os observava comer. Cristina pensou que a comida poderia estar envenenada pois não via nenhuma lógica no que ele estava fazendo, após tanto tempo sem comer e exausta como estava, ela já não se importava se estaria ou não envenenada, queria apenas saciar a fome e recuperar as forças e se fosse para morrer já se sentia pronta. J recolheu os pratos, prendeu a outra mão de Júlio que estava solta, dessa vez colocou também uma coleira de ferro em seu pescoço fazendo com que sua cabeça ficasse rente a parede, passou fita adesiva em seus pés para mantê-los juntos e disse a ele:
— Você quer a liberdade?
Ele olhava para Cristina desesperado, ninguém que estivesse próximo de ganhar a liberdade, seria amarrado daquela maneira.
— Responda! Você precisa dizer, que quer ser liberto.
— Eu quero ser liberto! – Júlio disse sem mais opções, J colocou as mãos juntas e levantou a cabeça para cima, fixando o teto como se pudesse ver algo ali, Cristina olhava o teto vazio, pensando que ele deveria ser internado em um manicômio.
— Obrigado, Senhor Deus, por mais essa missão, como seu mensageiro irei libertar mais um filho teu!
Ele fechou a boca de Júlio com fita adesiva e tomou seu ombro dizendo:
— Não temas, irmão! O Senhor te espera para glória eterna!
Os olhos de Júlio ficaram muito abertos e Cristina começava a gritar, já prevendo o que aconteceria, J virou-se para ela e disse:
— Cala-te mulher, não distraia o servo do senhor!
Deu lhe um tapa no rosto, fazendo com que se calasse imediatamente, mesmo assim, voltou a prender a mão que estava solta e colocou fita adesiva, precisava de concentração e ela poderia voltar a distraí-lo. Agora, as únicas coisas que Cristina e o noivo podiam fazer, era se olharem e deixar que as lágrimas caíssem, Júlio, através do seu olhar cansado, dizia mentalmente que a amava, se desculpava por não poder salvá-la, salvá-los daquela situação. Ela, por sua vez, implorava por perdão, por ter conhecido e se aproximado de J, lamentou todos os anos que deixariam de viver e implorou a Deus que a morte deles fosse rápida. J voltou a se sentar na cadeira com um livro nas mãos, logo eles viram se tratar de uma Bíblia. Abriu em Salmos 119:105 e disse:
“A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho”.
Depois em João, leu:
“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça”.
— E eu sou o instrumento purificador, meus irmãos, eu fui enviado à Terra por Deus, para livrar todos do pecado e da imundice! Eu sou a verdade, eu sou o Purificador de Almas!
Não haveria como descrever o pavor que Cristina e Júlio sentiam a cada palavra que J dizia e ele continuou com mais um verso de Hebreus:
“Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do coração”.
Ele beijou a bíblia, a deixando sobre a cadeira, caminhou até a cozinha e voltou com uma tesoura de jardineiro, arrancou a toalha que cobria Júlio e ele começou a emitir sons abafados, devido ao impedimento na boca, Cristina começava a ver o sangue escorrer de se seus pulsos, tamanho era o esforço que fazia para se soltar das algemas, J não demorou muito, segurou o pênis de Júlio com uma mão, para cortá-lo em seguida. Ele saiu da sala rapidamente com o membro, enquanto Cristina era deixada, observando Júlio perder uma enorme quantidade de sangue, o corpo começando a convulsionar, mas ela desmaiou antes de vê-lo dar seu último suspiro, o que não levou muito tempo. J costurou pacientemente o membro, para evitar que mais sangue se perdesse, o limpou cuidadosamente com álcool e o colocou em um vidro com formol, fechou a tampa e fez uma prece.
— Mais uma alma liberta, em nome do Pai!
CAPÍTULO 13
Uma semana após o desaparecimento de Cristina, chegou ao Hospital um inspetor de polícia, falou com o diretor e J foi chamado à sala dele. Após os cumprimentos. J se sentou e esperou que o inspetor falasse:
— Recebemos uma queixa de desaparecimento sobre uma colega de trabalho, Cristina e seu noivo Júlio, saberia algo a respeito?
— Está desaparecida? Pelo que sei, ela se mudou.
O inspetor estreitou os olhos e perguntou:
— E ela te disse para onde mudaria?
— Não, mas disse ao diretor.
O investigador olhou para o diretor e se perguntou porque não havia sido informado disso imediatamente.
— Na verdade, ela não falou comigo, ela ligou para o hospital, a recepcionista atendeu e ela deixou o recado que estaria se mudando com o noivo, se desculpava por sair assim do hospital, mas tinha pressa.
— E eu posso falar com a pessoa que atendeu ao telefonema?
— Mas é claro, aguarde um momento, por favor.
O diretor saiu e o inspetor continuou fazendo perguntas à J.
— Pelo que sabemos, essa moça prestou uma queixa contra o senhor, mas curiosamente, retirou a queixa antes de desaparecer.
— Ela retirou a queixa?
— Não sabia?
— Não, não falei mais com ela.
Poderia me dar a localização de onde estava no dia 18 de maio, mais precisamente, na madrugada de sexta para sábado?
— Estava trabalhando.
— Imagino que o diretor possa confirmar isso?
— Mas é claro.
J terminou de dizer isso, quando Juliana entrou acompanhada do diretor.
— A senhora foi a última pessoa a falar com Cristina nesse hospital?
— Não sei se fui a última, mas com certeza falei com ela.
— E o que ela lhe disse exatamente?
— Que ia se mudar, que estava com pressa, de malas prontas, que o noivo tinha recebido uma proposta irrecusável.
— E não achou estranho, ela sair assim do nada? Em nenhum momento achou que ela poderia estar sob ameaça ou com medo de algo?
— Ela não estava sob ameaça, eu posso garantir.
— Como pode garantir algo assim?
— Tínhamos um código, meu nome como sabe é Juliana, então obviamente ninguém teria motivos de me chamar de Má, ela me chamava, porque gosto daquele cantor Marcos Simões, sabe? Começou como uma brincadeira, eu também a chamava de Má, mas depois, até uma vez falamos que serviria de código, caso alguém precisasse de algo, era só chamar pelo nome mesmo, saberíamos que algo estaria errado.
— E ela te chamou de Má? – o investigador indagou fazendo algumas anotações.
— Chamou sim e disse que me amava e que eu deveria me cuidar.
— Entendo...
O inspetor dispensou Juliana e se voltou ao diretor:
— Então, J estava de plantão na madrugada em que Cristina desapareceu?
— Sim, ela saiu cerca de cinco horas da manhã e J sairia às sete.
— Sairia? Não saiu?
— Não, senhor.
J permanecia em silêncio apenas observando onde aquilo levaria, mas mentalmente podia sorrir, Cristina merecia até uma recompensa por ter chamado a outra de "Má", uma grande ajuda, a qual ele nem estava esperando.
— J começou a passar mal, passou o dia todo internado, fizemos vários exames, suspeitamos de pedra nos rins...
— E a que horas, ele saiu?
— Saiu com a namorada, cerca de seis horas da tarde.
— E sua namorada, como se chama?
— Tereza, eu posso pedir que ela venha até aqui, caso seja necessário, também estou disposto a fazer qualquer coisa para encontrar Cristina, se ela está mesmo desaparecida, inclusive lhe convido para ir na minha casa – disse estendendo a chave, mas o inspetor recusou.
— Por hora, prefiro fazer isso conforme a lei e não temos um mandado de busca.
— Mas gostaria que acompanhasse sua namorada à delegacia, assim que possível.
O inspetor entregou um cartão à J e saiu. Naquele dia à noite, J compareceu à delegacia com Tereza, que achava um absurdo ter que depor por causa.de uma maluca, que resolvera largar o emprego sem mais nem menos, mas ele disse que queria ajudar a polícia e caso a moça não tivesse ido embora, faria qualquer coisa para ajudá-los a encontrá-la.
Sentada sozinha com o investigador, J ficara com Clarinha no colo, na sala de espera, Tereza mostrava toda sua impaciência e má vontade por interromperem seus planos de jantar fora com o noivo.
— Agradeço seu tempo, senhora, gostaria de nos responder algumas perguntas?
— Não, eu não gostaria, mas tenho escolha?
O inspetor a olhou curioso e respondeu:
— Claro que tem escolha, a senhora não está sendo investigada por nada, apenas acreditamos que gostaria de ajudar seu namorado, sabe que a moça desaparecida prestou queixa contra ele, não sabe?
— É claro que sei, inveja pura, sabia que ele era mais competente do que ela, estava concorrendo por um cargo, só isso.
O inspetor respirou fundo, esse cara podia até ser um assassino em série, que essa mulher nunca acreditaria, grande parte das mulheres ficavam cegas em seus relacionamentos, embora não tivesse motivo para suspeitar de J, ainda assim, seria sua obrigação checar o álibi dele.
— Dia 18 de maio, seu namorado passou mal no trabalho, a senhora foi buscá-lo e o que aconteceu depois?
— Ele passou o dia no hospital, depois me ligaram, fui buscá-lo e fomos para minha casa.
— E ele passou a noite toda com a senhora?
— Mas é claro! Ele estava muito doente!
— Não teria nenhuma chance de ele ter saído de casa, sem que a senhora visse?
— Mas que absurdo! É óbvio que não! Além do mais, temos a Clarinha, ela acorda muito fácil.
— E o que aconteceu no dia seguinte?
— Era sábado, estávamos muito cansados, acordamos quase meio dia, saímos para almoçar fora, passeamos no shopping, à noite fizemos um jantar em casa e chamei minha mãe.
— Já tem uma semana e a senhora se lembra bem de tudo que fez, diria que tem boa memória?
— É claro que eu ia me lembrar desse dia, foi quando J me pediu em noivado – disse orgulhosa, mostrando o anel.
O inspetor a dispensou, o rapaz tinha um álibi, tudo indicava que Cristina realmente havia ido embora, mas a família do noivo não havia sido informada e ele continuava como desaparecido.
Estava mais do que na hora de J conseguir sair dali, não era interessante ter Tereza tão próxima à casa para onde levaria todos os meninos que conseguisse e muito menos estando Cristina lá dentro, o melhor seria mudar dali e fazê-la acreditar que comprariam outra casa, em outro lugar. Conversaria com Tijolo. Não gostava da ideia de mexer com tráfico, tudo que ele queria, era ficar longe dos olhos da polícia, mas precisava de dinheiro e ele provavelmente teria alguma solução.
— Já te falei cara, trabalhe comigo e ganhe uma boa grana –Tijolo disse se sentando em uma mesa de bar no morro do Piolho, o qual agora estava como chefe.
— Não Tijolo, quero algo diferente, sem correr riscos.
— Até tenho um serviço, se for homem o bastante para fazer.
— O que seria?
— Tem um deputado que está causando problemas... Se você colocar um fim nele...
— Você só pode estar maluco! Deputado? Eu quero sair da vista e não ser manchete de jornais...
— Depende, J, depende... – Tijolo dizia enquanto dava um longo trago no cigarro.
— Depende do quê?
— Ele está precisando de um enfermeiro particular, tem uma mãe doente...
— Não sei.
— Escuta, vou te explicar e aí você decide se quer ou não, estamos falando em grana alta, temos muita gente envolvida, capaz de dar até 1 milhão pela cabeça desse babaca.
Um milhão seria ótimo, resolveria o problema de levar a Tereza para longe, mas ter a cara dele de novo em uma delegacia não seria interessante. Passaram a tarde toda conversando, Tijolo garantiu que o problema com o tal deputado é que ele estava atrapalhando os "negócios" na Estação da Luz, ele cobrava uma boa porcentagem aos traficantes para que eles continuassem negociando naquele local, mais um deputado corrupto, enriquecendo de forma fácil.
Segundo Tijolo, o plano seria que ele fosse trabalhar com o tal deputado, e assim teria acesso a agenda dele, facilitando uma possível emboscada. De início J não gostou nada da ideia, a polícia já sabia sobre Michele, o desaparecimento de Cristina, seria muito suspeito se ele aparecesse novamente em outro caso, especialmente com uma pessoa pública.
Poderia dar certo sim, se ao invés de dizer onde estaria o tal deputado, ele facilitasse a entrada do grupo de Tijolo na casa, se ele também fosse atingido, seria mais fácil ainda, Tijolo ainda prometera documentos novos, isso ele precisava mesmo, aquele nome já estava começando a ter referências demais, inclusive um primo do tal deputado estava de acordo com o plano, mas ele não poderia estar presente e obviamente teria um álibi sólido, mas ele serviria de referência para que J conseguisse o serviço, com nome novo ele não precisaria usar referências do hospital, com tudo a seu favor, resolveu então aceitar esse trabalho, depois começaria vida nova, não seria difícil explicar a Tereza a mudança de documentos, uma vez que estaria trabalhando para alguém tão importante. E foi exatamente esse plano que J seguiu, continuou no hospital por mais 1 ano para não levantar suspeitas de desaparecer logo após o sumiço de Cristina, iniciaria na casa do deputado aos finais de semana e após um certo tempo, deixaria o hospital, ficaria fixo na casa, Tijolo mataria o deputado, ele ganharia 1 milhão e ainda teria documentos novos.
Tudo seria perfeito, mas ainda assim tinha que tirar Tereza dali antes de tudo aquilo, Clarinha logo começaria a aprontar e crianças sempre achavam coisas que não deveriam, logo ela estaria levantando o tapete de sua casa e encontrando a porta que levava ao porão e como ele não tinha a menor intenção de explicar a polícia novamente o sumiço de uma namorada com filho, sabia que precisava providenciar o mais rápido possível uma mudança.
Acertou com Tijolo que queria uma parte adiantado pela facilitação da entrada na casa do deputado e ele deu emprestado um apartamento no Cecap, J conseguiu levar para lá tanto Tereza e sua filha, como a mãe de Tereza, não seria nada bom ter alguém que mantinha contato diário com sua casa "secreta", ele diria que alugaria a casa dele e que viveriam ali até que ele pudesse vender a casa e comprar outra, plano perfeito que facilitaria as idas de J ao Cocaia, dizendo estar fazendo manutenção na casa para o inquilino. Tereza ficou extremamente feliz, além dele amar e cuidar de sua filha, ainda se preocupou em levar junto sua mãe, como ambas as casas eram de aluguel, não foi difícil organizarem a mudança, agora Tereza podia vender seus doces e salgados pelos vários apartamentos que tinham no complexo do Cecap, teria sua mãe para ajudar e J estaria bem mais próximo do trabalho no hospital, sentia muito orgulho em ter um noivo enfermeiro e quando ele anunciou que trabalharia para um deputado então, Tereza não se cabia de felicidade, haviam combinado que só se casariam legalmente quando J pudesse comprar uma nova casa e assim ela esperava feliz.
CAPÍTULO 14
Delegacia de Guarulhos, 18 de Maio 2012 - 2 anos após a primeira caixa
Arantes e Andrade estavam estagnados no caso dos meninos desaparecidos, eles continuavam a desaparecer em uma proporção assustadora, obviamente não somente em Guarulhos, sabiam que o assassino estava ampliando seu território e buscando novas oportunidades, mas a maioria que havia desaparecido não tinha sido registrado oficialmente, essa pesquisa foi feita por Andrade, considerada off work*, segundo ele, estava seguindo uma pista, mas por não ter nada legal, não seria correto de sua parte usar o tempo na delegacia, o que Arantes, o Mascote, achava extremamente injusto, se eram parceiros, deveriam dividir toda a descoberta. Mas Andrade era cético, mal humorado e até ranzinza, o que aparentava de descuidado e até relapso como no caso da primeira caixa que receberam, se tornava detalhista e individualista na hora que algum caso chamava sua atenção e esse aparentemente havia conseguido ter sua total atenção de alguns meses para cá, antes disso, o Mascote não havia notado esse "afastamento" dele, a única informação que conseguiu retirar de Andrade foi que andou pelo Vale do Anhangabaú, Praça da Sé e Estação da Luz, fazendo algumas perguntas e descobriu que vários meninos haviam simplesmente desaparecido de lá.
Algo extremamente natural, sendo a maioria, moradores de rua, sem nenhuma família que se importasse e na maioria usuários de drogas, mesmo naquela tenra idade, qualquer um que desaparecesse não seria facilmente notado, primeiro porque "a família", ou seja, seu grupo não tinha o menor interesse em ter contato com a polícia, acreditando assim que ou fora levado a Fundação Casa, morto ou não fazia a menor diferença, era apenas um a menos para dividirem o "doce", um garoto de 11 anos lhe falara, que eles praticavam pequenos assaltos juntos e ao final do dia era contado todo dinheiro arrecadado por todos e dividido igualmente na compra de crack e comida.
Off work* expressão em inglês para realizações de trabalhos fora do horário do expediente.
Quanto aos investigadores, não faltava o que os mantivessem ocupados em Guarulhos, tendo muitos casos de homicídios registrados diariamente, Guarulhos segundo os dados do IBGE em 2010 se tornara a cidade mais populosa do estado com mais de 1 milhão de habitantes, sendo que o estado de São Paulo contava ao todo com pouco mais de 11 milhões, uma estimativa assustadora pensando que o estado possui 645 municípios.
Houve grande expectativa para o dia 18 de maio no ano anterior, mas nenhuma caixa fora recebida nem na delegacia nem no Instituto de Criminalística, otimistas, chegaram a pensar que seria apenas uma coincidência, mas Paulo insistira que não, já que o dia 18 de maio era considerado o dia nacional contra o abuso e a exploração infantil, com tais alegações, nenhum dos dois investigadores puderam deixar de dar crédito aos palpites de Paulo, os quais não foram poucos durante aquele período, mas sem novas denúncias ou pistas o caso foi novamente esfriando. Tanto Andrade como Arantes estavam sobrecarregados com outros casos e pareciam não perceber ou se percebiam, não demonstravam a mesma tensão carregada por Paulo naquela semana, o próximo 18 de maio se aproximava e ele tinha certeza que o assassino em série se manifestaria novamente.
Estava quase perdendo as esperanças de alguma notícia, uma vez que já passara a hora do almoço, quando viu Allan entrar apressado na delegacia.
— Cara, você não acredita! O maníaco voltou!
Todos os olhos se voltaram para ele, assim que se debruçou no balcão para falar com Paulo, até mesmo o delegado Farias, que estava tomando café, parou com a xícara suspensa no ar.
— Entregaram outra caixa no IC? – Andrade perguntou.
— Não, no meu carro, cara! Você não vai nem acreditar, é hilário! O cara é um colecionador de pintos!
Houve um silêncio mortal na delegacia, o escrevente parou de digitar na mesma hora e todos os olhos se voltaram para o sorriso que Allan exibia no rosto. Ele foi encaminhado à uma sala, onde Farias, Andrade, Mascote e mesmo sem ser convidado, Paulo, entraram. O estagiário falava muito contente, como se tivesse acabado de ver um filme eletrizante, era nítido o gosto macabro que ele apresentava.
— O que foi entregue em seu carro exatamente e onde? Você sabia que agora é um suspeito? – Mascote falou muito sério, fazendo com que o sorriso desaparecesse imediatamente de seu rosto.
Se estabeleceu um clima de tensão, mas nem mesmo o delegado suportou fazer aquele papel, era óbvio que Allan não tinha a menor vocação para assassino em série.
— Para com isso, Arantes, esse idiota só fala demais!
— As aparências podem enganar, Farias – o Mascote se aproximava dele, que agora sentado em uma cadeira, parecia se encolher.
— Poupe meu tempo! Assassinos em série são inteligentes, esse aí, é um idiota! Diga de uma vez, o que exatamente e onde você encontrou? – perguntou novamente o delegado, extremamente sério, se aproximando alguns passos do estagiário do Instituto de Criminalística.
— Eu estava indo para meu horário de almoço e quando cheguei no meu carro, estava lá em cima, bem perto do para-brisa, uma caixa de presentes, cara, eu juro que pensei que era da minha namorada, ontem fizemos um ano de namoro e ela ficou de me fazer uma surpresa e como ela não tinha me dado nada ainda e minha prima me contou que a viu em um sex shop, então...
— Allan! – gritou o delegado, fazendo com que ele se calasse imediatamente. — Como era a caixa? Pode descrever apenas o que eu perguntei?
— Era branca, com uma tampa que encaixa, igual a outra, mas era menor. — respondeu o estagiário, já sem muita empolgação na voz, devido ao grito inesperado do delegado.
— Tinha um laço azul na tampa? – Mascote perguntou.
Ele apenas assentiu com a cabeça.
— E você, a abriu na mesma hora?
— Abri – ele respondeu torcendo as mãos, Andrade não pôde deixar de sorrir, a maneira perfeita de se torturar Allan, era impedindo que ele falasse, podia sentir a língua dele se coçando, para despejar de uma vez por todas, o que sabia.
— E então? – Andrade continuou fazendo um sinal aos demais para que o deixassem falar a seu modo, seria mais rápido, do que pausá-lo a cada pergunta, ele parecia ter que se conter para falar e acabava esquecendo de detalhes, como não havia mencionado o laço azul, assim que pediram para que descrevesse a caixa.
— Aí eu abri e adivinha só – continuou de novo tomado pela empolgação — Tinha um frasco lá, com um pinto dentro! E tinha umas 5 fotos também, com um armário enorme, cheios de frascos, cheios de pintos!
Allan terminou seu relato satisfeito e o Mascote tomou a palavra.
— E o tal "pinto", podemos entender que se refere ao órgão sexual masculino, o pênis, e não ao pinto, animal bípede penoso, gallus domesticus, correto?
Allan pareceu confuso com a última informação e acabou dizendo:
— Era pinto de gente mesmo!
O delegado levou ambas as mãos ao rosto, merecia um aumento por tudo que tinha que aturar, sentiu pena das pessoas que acreditavam que todos os profissionais da área, fossem dotados de palavreados elegantes, discretos e acima de tudo, profissionais, Allan era a prova viva de alguns tipos de pessoas, que estavam encarregadas de ajudar a cumprir a Lei.
Farias apenas olhou para os investigadores e eles sabiam que deveriam ir ao IC, para verificar tudo que Allan havia dito. Paulo saiu da sala sem nenhuma observação e Allan foi levado de volta ao IC, junto com os investigadores, após assinar seu depoimento.
CAPÍTULO 15
Cativeiro de Guarulhos – 2 anos após o sequestro de Cristina
Cristina estava acorrentada naquele quarto, na cidade de Guarulhos, grande São Paulo, onde todos os dias implorava pela morte, mas esta não chegava, com um metro e setenta, pesava agora 45 quilos. A magreza excessiva se dava pela falta de alimentação adequada, na maioria das vezes comia o resto que sobrava do prato de seu carrasco, mas não naquele dia, dia 18 de maio era um dia especial, ela já havia passado por outro 18 de maio e sabia o que a esperava nos próximos minutos.
Enrolou a corrente no braço, detestava o barulho dela arrastando no chão e cambaleou até o banheiro sem porta para vomitar, a corrente presa a uma argola de ferro cimentada na parede do quarto tinha comprimento suficiente apenas para chegar até ao vaso sanitário. Vomitou várias vezes, e desejou que pudesse morrer asfixiada no próprio vômito, mas não, ela continuava viva, jogou água fria no rosto tentando não sentir o cheiro que vinha da cozinha.
O cheiro adocicado, metálico, misturado a urina, fezes e sangue que estavam ainda espalhados pelo chão a fez fechar os olhos por alguns segundos achando que fosse desmaiar.
— Tina! Vem querida, está na mesa!
Cristina abriu os olhos lentamente, enquanto J se aproximava com um largo sorriso doentio em seu rosto.
— Está com fome? — perguntou enquanto abria o cadeado da corrente, para que ela chegasse até a mesa. Cristina não respondeu, no primeiro 18 de maio, ela foi para a mesa sem saber do que se tratava o banquete e quando se atreveu a dizer não...
J havia parado na porta do quarto e segurava o taco de beisebol em uma das mãos, apenas para lembrá-la do que aconteceria, se ela se recusasse novamente. Caminhou lentamente e suas lágrimas caiam pelo chão enquanto andava, sentiu ânsia novamente, quando ele colocou o caldeirão sobre a mesa, ela continuava sentada imóvel, enquanto ele assoviava uma canção à medida que pegava a sopa com a concha. Encheu o prato dela e lhe entregou uma colher, depois se serviu de uma grande porção e se sentou satisfeito.
Olhando para seu prato, ela agradeceu mentalmente por ele ter pego somente os dedos.
— Está delicioso! – J disse enquanto mordia um pedaço suculento do que foi um braço.
O nome do menino era Felipe, tinha chegado há três dias, bem a tempo de preparar o banquete, era loiro, tinha oito anos e Cristina ainda podia ouvir os gritos dele na noite anterior, enquanto J retirava-lhe os dedos, um a um, com um alicate de mecânico. Ele fora levado para “O quarto dos brinquedos”, a porta de aço que no primeiro dia em seu cativeiro, a viu trancada com vários cadeados, aquele era o lugar onde J levava os meninos, às vezes, Cristina era obrigada a assistir, às vezes, ele brincava sozinho. O rosto do Felipe ainda estava muito nítido em sua mente, seus olhos que mostravam um pavor quase palpável, sua voz rouca depois de tantos gritos, até que tudo terminou, e agora ela olhava para o prato, com muitas cenouras e batatas e os pequenos dedos dele. Um barulho ensurdecedor a fez tremer, J batia o taco de beisebol na parede, ela levantou os olhos lentamente e o viu em pé bem próximo a ela, a voz dele não saiu, mas ela pôde ler seus lábios se movendo.
— Come, vadia!
Cristina respirou fundo e levou uma colher cheia à boca, enquanto mais lágrimas caíam em seu prato e seu carcereiro voltava a se sentar satisfeito.
Felipe, oito anos, era filho de uma mãe solteira que trabalhava como manicure, o garoto ia e voltava da escola sozinho, já que era muito perto de sua casa, ele teria apenas que seguir reto e cruzar duas esquinas. Anete sempre se certificava que o filho fosse acompanhado para a escola, havia mais três garotinhos que caminhavam com ele todos os dias, mas naquele dia fatídico, Felipe não sabia que seu destino havia sido traçado, quando caminhou até a casa ao lado e tocou a campainha, a mãe do seu colega saiu dizendo que hoje o filho não poderia ir à escola, que havia amanhecido com febre. Ele então só precisava caminhar mais 5 casas, até sua próxima parada.
— Felipe!
Felipe se virou e viu seu vizinho o chamando.
— Oi, J!
— Oi, Felipe, e aí, tudo bem?
— Tudo e contigo?
— Tudo certo! Já vai pra escola?
— Vou, mas o Gustavo está doente, vou na casa do Rodrigo, agora.
— O Rodrigo não vai pra escola hoje também.
— Por quê? Ficou sabendo que ele está doente também?
— Não, não está doente nada, ele está lá em casa, agora.
— Ué, ele não vai para a escola não?
— Você não conta pra ninguém? – J perguntou falando mais baixo.
— Não conto – respondeu Felipe.
— Eu comprei um fliperama.
Os olhos de Felipe brilharam, mas ainda assim, não entendeu direito.
— Mas por que não posso contar para ninguém?
— Porque eu estou alugando, e você sabe, né? Não pode ter essas máquinas de jogo em casa.
— Ah, entendi e quanto você vai cobrar?
— Pra você, que é meu camarada, vou cobrar só 1 real – J disse, passando o braço por cima do ombro de Felipe, enquanto apertava o passo para ultrapassar a casa de Rodrigo. — Vamos lá em casa, agora, dá tempo de você jogar uns dez minutos e depois ir com o Rodrigo.
— Não sei, J... – o garoto olhava para ele e para trás, onde ficava a casa do amigo que acabara de passar.
— Vamos! Para com isso, não é um real por dez minutos não, é por uma hora, mas depois, eu deixo você terminar o tempo quando voltar da escola.
— Está certo, então!
Felipe confiava em J, ele era o vizinho querido da rua, todo mundo gostava dele, ele sempre, aos fins de semana, jogava bola com os meninos, dava algodão doce e chicletes. Embora, agora ele só aparecesse aos finais de semana, havia se casado com Tereza e se mudado, mas por causa da crise e dos tempos difíceis, ele não conseguia vender o imóvel, por isso, ele aparecia aos sábados e às vezes aos domingos, para fazer a manutenção da casa e interagir com os vizinhos. J era um moço muito direito, dizia sua mãe, ele morou tanto tempo naquela rua e nenhum vizinho podia falar nada dele, sempre ajudava a todos, fosse em construções ou qualquer favor que alguém precisasse, era muito trabalhador, ainda cuidava da filha de Tereza como se fosse dele, poucos homens fariam isso!
— J é um moço bem sofrido, Felipe, trabalha muito e o que ganha, divide com os mais pobres – Sua mãe dissera uma vez, quando ele comprara o remédio que o seu Antônio, da rua de baixo, não podia comprar. A família de J tinha morrido, ele era sozinho e dava muita pena, felizmente, formou família com Tereza. — Deus vai ajudar que vendam a casa, ele merece!
Cristina terminou a sopa e perguntou se podia se levantar.
— Se você vomitar minha sopa, você vai comer o que vomitou. — J disse, enquanto voltava a se servir. Cristina voltou ao seu quarto e se deitou no único colchão surrado ao canto da parede, fechou os olhos e começou a lembrar de quando Felipe chegou.
— Tina, chegamos! – ela ouvira a voz de J, no topo na escada que dava ao porão.
— Ué? Sua casa tem porão? – perguntou Felipe estranhando o fato, ele já havia vindo várias vezes àquela casa com seus colegas e até mesmo com sua mãe e outros vizinhos. Lembrou de um Natal, antes mesmo dele conhecer Tereza, quando sua mãe havia preparado uma marmita especial e foram levar para J, pois sabiam que ele não tinha condições, mas em nenhum momento, tinha visto aquela tampa de madeira quadrada no chão, sempre tinha um tapete velho muito grande na sala.
— Quem é Tina? — Felipe perguntou colocando a mão no chão, olhando a longa escadaria.
— Vai lá descobrir! – J gritou enquanto dava um chute nas costas de Felipe, fazendo com que o menino rolasse escada abaixo.
Felipe recebeu um chute no final da coluna, o fazendo cair de cabeça, batendo a boca no primeiro degrau e logo depois deu uma cambalhota, nos demais degraus, fora uma descida reta de costas e rápida, até o chão onde caiu desacordado. J fechou a tampa atrás de si e desceu as escadas calmamente, chegando até o garoto que permanecia imóvel no chão, puxou-o pelos cabelos, mas ele não dava sinais de reação.
— Esse não vai durar um dia! – disse sorrindo enquanto olhava Cristina perto da porta, impedida de chegar até o garoto por causa.de sua corrente.
Ele não mais deixava Cristina solta quando trazia um novo brinquedo, pois descobriu que ela estava matando os meninos, antes dele poder se divertir, ou “purificar suas almas”, como ele mesmo dizia, mas isso foi logo no começo, agora ele tinha aprendido que ela não entendia sua missão e que deveria ficar presa para não atrapalhar.
— Brinquedo novo, Tina! – ele aumentou a voz animado, enquanto arrastava Felipe para o quarto onde ela estava.
Na parede oposta à de Cristina, havia agora outra corrente e duas outras argolas chumbadas na parede, ele prendeu as correntes em cada uma das argolas e depois, virando Felipe de costas, colocou cadeado em cada uma das mãos. Cristina foi presa com uma corrente menor, geralmente a que ela ficava, enquanto estava sozinha, dava-lhe liberdade para circular pelo quarto, mas quando ele estava para trazer um novo garoto, encurtava a corrente para impedi-la de se aproximar.
— O que acha dele, Tina? – disse levantando a cabeça de Felipe para trás.
O garoto começou a dar sinais que acordaria, quando J começou a lamber seu pescoço. Felipe não entendia o que estava acontecendo, ficando sem reação, estava com muita dor pela queda e assustado ao notar que estava acorrentado, mas a dor ainda nem havia começado.
Ele segurava os cabelos de Felipe com força, colocou um dedo em sua boca, enquanto dizia em seu ouvido.
— Te desejo há cinco anos, Felipe, tá proibido de morrer, antes de me satisfazer.
Felipe ia dizer algo, quando teve sua boca invadida pela língua de J, para em breve largá-lo, ao observar com o canto dos olhos, que Cristina escondia seu rosto de encontro à parede, assim, um chute foi dado em seu estômago, fazendo com que ela perdesse o ar.
— Se você não olhar, eu vou arrancar os olhos dele e te fazer comer.
Ela então se colocou no modo distante, fazia isso sempre que era obrigada a assistir, olhava fixo, mas seu pensamento estava em outro lugar, nem sempre funcionava, mas depois de tantos outros meninos, ela estava começando a aprender a controlar o que seus olhos viam. Felipe olhava para trás, até onde seu pescoço conseguia virar, lágrimas corriam de seus olhos e ele começou a rezar à medida que J arrancava sua calça. Para J, aquela pele clara era muito excitante, uma bunda pequena e redondinha, ele mal conseguia se conter, poderia ter um orgasmo só olhando, desabotoou seu cinto, mas tinha algo errado, o garoto deveria estar gritando como todos os outros.
Puxou novamente seu cabelo para trás e mordeu sua orelha, forte o suficiente para sentir o gosto do sangue, mas Felipe continuava em silêncio. J sugava seu pescoço, subindo até o ouvido:
— Grita, Felipe, eu quero te ouvir gritar!
O garoto, em estado de choque, continuava mudo e ele começou a perder a paciência, afastou as pernas do garoto, o segurou firme pelo quadril e introduziu o mais rápido que pôde, mais de cinco minutos haviam se passado, sem que Felipe soltasse o menor gemido de dor e isso estava fazendo com que J se desesperasse. Saiu de cima dele e o chutou na costela.
— Cinco anos esperando por você, seu viado! E é assim que você me agradece?
Soltou as correntes das argolas e arrastou Felipe para o quarto dos brinquedos, abriu uma gaveta, pegando um alicate de mecânico, acionou o gravador de voz do celular e sentou em cima de Felipe, que ainda estava jogado de barriga no chão, puxou suas mãos para trás e começou a cortar um a um, seus dedos. Após o primeiro corte, Felipe já estava gritando, enquanto J chupava longamente cada um que arrancava, engolindo a chuva de sangue com prazer. No quinto dedo, Felipe parou de gritar, o quarto estava inundado de sangue, mesmo assim, terminou de arrancar os dedos da outra mão pacientemente, depois se levantou, pegou o celular e colocou em modo de reprodução para ouvir novamente os gritos.
— Agora sim! – disse satisfeito, enquanto segurava o quadril sem vida.
Foi somente nesse momento, que J conseguiu ter um orgasmo.
CAPÍTULO 16
Delegacia de Guarulhos, uma semana depois.
O delegado Farias chegou pisando duro, assim que adentrou com um calhamaço de jornais na mão, olhou para Paulo, Andrade e Mascote, que estavam em pé logo na entrada. Foi tirando um a um dos jornais e batendo com força em cima do balcão:
— Diário de Guarulhos! “Delegado esconde maníaco que aterroriza cidade”.
— Jornal Cidade! “Delegacia oculta provas recebidas”.
— Folha do dia! “Investigadores são chacota do maníaco dos meninos”.
— A tarde! “Maníaco da fita azul ataca novamente”.
— Jornal todo dia! “Delegacia mostra incompetência diante de assassino em série”.
Mais e mais jornais eram arremessados ao balcão com as manchetes:
— “Maníaco dos metacarpianos ataca novamente.”
— “Maníaco da caixa deixa provas do crime aos investigadores.”
— “Serial Killer de Guarulhos, sequestra e mata meninos e a polícia ainda não fez nada.”
— “Psicopata dos vidros, cada caixa uma vida a menos.”
Todos estavam sem reação, os olhos do delegado pareciam que iam saltar das órbitas, seu rosto estava muito vermelho e podia-se observar leve tremor nas mãos.
— Somos a piada da cidade, senão do país! Tudo graças a um idiota que não sabe manter a boca fechada e um cretino metido a Sherlock! – disse isso olhando para Paulo, em seguida, saiu batendo a porta com força.
Andrade saiu atrás do delegado e o Mascote passou por Paulo, colocando a mão em seu ombro, com um gesto de lamento e apoio, Paulo decidiu não ir atrás, o semblante do delegado deixava bem claro que ele era a última pessoa que gostaria de ver. Assim que os investigadores entraram na sala do delegado, ele estava sentado com ambas as mãos na cabeça e levantou os olhos cansados, assim que a porta foi aberta, respirou fundo e perguntou com a voz embargada de fadiga.
— Onde estamos?
— Temos até agora, cerca de cinquenta meninos desaparecidos nos últimos quatro anos, isso incluindo Guarulhos, São Paulo e grande São Paulo, fiz um levantamento com outras delegacias e pude averiguar os dados, neste relatório consta apenas desaparecimentos de crianças isoladas, não cogitamos casos onde pais ou responsáveis também tenham desaparecido, como em caso de assaltos e latrocínio – Andrade falou entregando uma pasta ao delegado. — Sobre o I C, constatamos que o órgão deixado na última caixa era humano e que não pertencia à primeira vítima, naquela caixa tanto a cabeça como o órgão, eram da mesma pessoa e não consta caso de desaparecimento por alguém naquela idade específica, calculamos que teria cerca de 55 anos, caucasiano branco, sem ficha criminal, tampouco consta no banco de dados e logo não temos onde comparar o DNA.
Mascote assumiu quando o colega terminou:
— Agora que temos a mídia sabendo dos casos, creio que seja a hora de pedirmos aos pais das vítimas uma amostra do DNA e comparar com os primeiros ossos deixados.
— Façam isso! – disse o delegado sem mais palavras, sentia-se cansado e impotente em meio a todo aquele massacre.
— Quanto às fotografias que vieram junto com a caixa, temos motivos para acreditar que sejam realmente órgãos dos meninos desaparecidos, pelas imagens conseguimos contar 42 frascos diferentes, inclusive, em algumas imagens podemos ler o rótulo, o maníaco colocou nomes, eu pessoalmente, acredito serem os nomes das vítimas.
O delegado levantou os olhos curioso e Mascote tirou uma da fotografia do bolso.
— Estávamos agora mesmo falando sobre isso, pois chegou o resultado da perícia, afirmando que não é montagem, veja, aqui na parte superior da prateleira, podemos ler alguns nomes.
O delegado colocou os óculos e observou a fotografia, um armário aparentemente de aço com muitas prateleiras, todas praticamente preenchidas com pequenos frascos onde podia se ver flutuando no líquido interno, o que parecia ser um órgão sexual masculino infantil, e um rótulo em cada um dos frascos, como o lugar era de pouca iluminação, nem todos os rótulos puderam ser legíveis durante o flash em que a fotografia fora tirada. Mas, especialmente na primeira prateleira, podia-se ler claramente os nomes, Matheus, Carlos, João Vitor, Cristiano, Diego, Danilo, Pedro Henrique, João Miguel, Robson, logo abaixo podia ver um nome que começava com Mar, mas o flash batera em cima e poderia ser Marcos, Marcio ou quem sabe até Marcelo. O delegado levantou as sobrancelhas para os investigadores, como se pudesse perguntar mentalmente se aqueles nomes estavam de acordo com os nomes dos garotos desaparecidos, e então Andrade como que lendo sua mente disse:
— São os nomes dos meninos desaparecidos!
O telefone pessoal do delegado tocou e ele atendeu prontamente, alguns segundos depois, ele desligou e pelas poucas palavras proferidas, os investigadores sabiam que não eram boas notícias.
— Meu pescoço está a prêmio – ele disse olhando pela janela — Vão nos mandar um psiquiatra forense do Rio Grande do Sul, na verdade, ele já está a caminho, se essas fotos tivessem caído na imprensa, estariam nos mandando o FBI!
Como nenhum dos dois investigadores ousou dizer nada, o delegado continuou:
— Parem imediatamente com qualquer outro caso, se dediquem exclusivamente a esses meninos, agora, o Brasil todo está com os olhos voltados para nós, deixem os demais casos e repassem qualquer outra coisa em que estavam trabalhando para o Pereira e o Marcondes ou pra quem quiserem, mas quero vocês vinte e quatro horas atrás deste desgraçado, entenderam?
O processo de comparação de DNA com todos os familiares que prestaram queixa de crianças desaparecidas é sempre demorado, mas tinha esperança em achar qual das crianças pertenciam os ossos coletados e uma vez tendo essa confirmação, infelizmente saberia o fim de todos os outros casos, mesmo ainda não tendo provas para isso. Esperavam que a ajuda do psiquiatra forense fosse capaz de dar uma precisão melhor sobre o psicopata, por hora tudo que sabiam era sua altura, se ele fosse realmente a pessoa que mandara o motoboy entregar a segunda caixa, tanto o depoimento do entregador como as câmeras de segurança deram uma aproximação de 1.80 de altura, caucasiano branco, olhos escuros, mas isso não significava nada, ele ainda poderia estar usando lentes. Nenhuma digital fora encontrada no vidro entregue ao estagiário do Instituto de Criminalística, nenhuma outra forma de pelo ou tecido que não fosse da vítima fora encontrado, senão estavam lidando com um profissional, ao menos estavam ligando com um criminoso muito cuidadoso em não deixar pistas. Embora Andrade e Mascote já tivessem participado de alguns treinamentos sobre perfis de psicopatas seria interessante ouvir um especialista, especialmente que ele pudesse traçar um perfil mais exato, Andrade lembrou-se de alguns casos que estudou onde a psiquiatra forense havia traçado os perfis dos criminosos e conseguiram uma precisão exata, quanto a idade, nacionalidade e etnia, mesmo quando não havia nenhuma evidência concreta, apenas através do perfil psicológico do assassino, dessa vez eles já tinham algumas evidências a mais, então não podia deixar de estar bem otimista quanto ao avanço investigativo.
No dia seguinte chegou o psiquiatra forense, tanto os investigadores como o delegado esperavam ansiosos por sua chegada. Um homem alto e roliço adentrou a delegacia, caucasiano, com a face um pouco vermelha pelos raios de sol, mascava um chiclete constantemente e com olhos muito pequenos, esboçou uma espécie de sorriso quando Farias lhe estendeu a mão o cumprimentando.
— É um prazer conhecê-lo, Doutor Felipe Leviane Otto.
— O prazer é meu, me chame apenas de Otto.
Após cumprimentarem o psiquiatra, os investigadores o guiaram até a sala onde seria feita a palestra e o delegado não gostou de ver Paulo se acomodando em uma das cadeiras, mas não queria dizer nada indelicado na frente do recém-chegado. Depois de acomodados, após a copeira trazer café e água para todos, o psiquiatra puxou a tela projetora, onde passaria seus slides, tudo havia sido preparado de acordo com as instruções que receberam, assim como o cavalete Flip-chart*, enquanto o psiquiatra escrevia suas anotações na tela, o delegado Farias tentava mandar algum sinal para Paulo deixar a sala, mas ele fazia questão de não olhar para o lado dele, com certeza estava ciente que sua presença não era bem vinda e evitava os olhos do delegado.
*Flip chart é um termo americano para uma prancheta colocada em pé, onde é anotado informações de casos, essa prancheta possui várias páginas onde o palestrante pode virá-las, “flip”, e rever suas anotações.
Mascote se divertia com a situação, mas não deixava transparecer, Andrade parecia muito sério e alheio aos olhares do delegado, sua atenção estava voltada exclusivamente para o psiquiatra forense, como se pudesse analisá-lo, enquanto analisava o caso em um todo.
— Muito bem, coloquei aqui o que sabemos até agora.
Otto disse apontando para a tela, ao mesmo tempo em que leu o que estava escrito:
— Psicopata assassino em série
— Psicótico torturador
— Preferência pelo sexo masculino
— Profissional da saúde
— Trinta anos
— Por todas informações que recebemos e analisamos previamente, temos motivos para acreditar que estamos lidando com um assassino com cerca de trinta anos.
— Isso foi dito pela testemunha que entregou a caixa – disse Paulo, mas Otto fez que não ouviu e continuou.
— Pelas análises feitas até agora e termos constatado que as duas vítimas eram brancas, podemos assumir que o assassino é branco também, inúmeras pesquisas demonstram que assassinos em série escolhem apenas um tipo de etnia e apenas um sexo para praticar seus crimes.
Paulo balançou a cabeça, revoltado, não tinha o menor cabimento o que estava ouvindo, o maníaco matava meninos e não fazia diferença se eram brancos, negros ou verdes.
Mais uma vez ignorando o gesto de Paulo, Otto continuou:
— Também podemos considerá-lo um profissional da saúde pelo corte preciso na caixa recebida pelo IC – disse olhando sua prancheta de anotações. — Assim como a sutura encontrada nos membros e até mesmo o uso do formol, que conservou o tecido. Através da foto deixada, supondo que são membros de outros meninos desaparecidos, podemos afirmar com certeza uma obsessão paranóica do assassino com órgãos sexuais, ele provavelmente é um homossexual não assumido e está indignado com o próprio órgão, em sua mente doentia, mutilando os garotos, ele estaria mutilando a si mesmo, eliminando assim a atração sexual que sente pelo mesmo sexo.
— Isso é ridículo! Nunca ouvi nada mais absurdo, você se diz um psiquiatra? – Paulo explodiu, fazendo com que o delegado se levantasse.
— Pontes! Perdeu a razão?
Farias estava prestes a mandar Paulo para fora, seu rosto instantaneamente se avermelhou, seus olhos saltaram e saliva era visualizada ao canto da boca, mas Otto sorriu tranquilamente e acenou com a mão para que o delegado se acalmasse e continuou dizendo:
— É compreensível essa reação de indignação em tais acontecimentos, meu caro inspetor, e delegado, é compreensível a fúria e reação humana mediante casos bizarros, entendo completamente a urgência que há em toda equipe desta delegacia, em trazer prontamente a solução, é natural o cérebro reagir em situação de estresse, mesmo em profissionais capacitados.
Paulo revirou os olhos, ignorando completamente tais palavras, enquanto o delegado ainda não estava nenhum pouco à vontade para manter Paulo por ali. Mascote, que já passara do momento de achar engraçado a situação, resolveu interferir:
— Doutor Otto, acredita que o assassino ainda esteja na ativa ou que seja algum profissional da saúde afastado?
— Isso é relativo, meu caro investigador, tanto pode estar na ativa, como pode ter feito um estoque de todo material que usa em seus crimes e estar afastado, mas seria bem-vinda uma investigação por médicos e enfermeiros locais em consultórios públicos, que atendessem a esse perfil de idade e etnia.
— Com isso, você quer dizer que somente pobres são psicopatas? – Paulo disse, fazendo o delegado prensar os dentes com raiva.
— Obviamente não, inspetor, mas assassinos em série buscam vítimas as quais ninguém sentirá falta, não podemos esquecer que psicopatas não tem nenhum tipo de atraso mental ou dificuldade em raciocínio e eles não querem chamar atenção para com seus atos, os dados se mostram alarmantes em casos de tráfico de órgãos e mesmo em recém nascidos nas maternidades públicas, ao contrário das privadas, por isso um assassino em série teria melhor sucesso em um hospital público, onde facilmente seria explicado uma morte prematura.
— Tem consciência que os meninos não desaparecem de hospitais e sim de todos os lugares, não?
Paulo insistiu e sempre com seu sorriso pacífico, Doutor Otto voltou a falar:
— Perfeitamente, no entanto, objetos e equipamentos como soro, formol e demais líquidos, seriam mais notados em um hospital particular, caso começassem a desaparecer.
— Seria o caso, então, de procurarmos hospitais particulares que apresentaram desaparecimento de substâncias nos últimos quatro anos? – Andrade falou pela primeira vez.
— Seria válido, é claro – disse o Doutor Otto. — Mas as estatísticas apontam, que teriam mais sucesso se procurarem em hospitais públicos, pelo perfil do assassino. Uma vez encontrados profissionais da saúde que se enquadram nesse perfil, seria viável que realizassem um exame, de livre e espontânea vontade, sobre o estado cerebral.
— Você só pode estar de brincadeira! Sabe quantos médicos, enfermeiros e assistentes temos em São Paulo, para escanear o cérebro de todo mundo? – Paulo se levantou indignado e Farias também se pôs de pé.
— Pontes! Fora! Agora, seu cretino! E não quero ver tua cara nos próximos três dias!
— Isso é ridículo! O assassino coleciona almas! Doutores, tem certeza que estão usando o cérebro?
— Fora daqui ou eu mesmo te coloco atrás das grades! – gritou o delegado e Paulo saiu batendo a porta.
— Queira me desculpar, doutor Otto, mas esse policial está desequilibrado e passará por exames.
Doutor Otto afrouxou um pouco a gravata e ligou o retroprojetor, mostrando o primeiro slide:
A imagem mostrava dois cérebros através de uma ressonância magnética funcional (FMRI), devidamente circulados na área de destaque, entre um cérebro psicopata e um normal.
— Esse foi um estudo realizado em uma universidade de Chicago, USA, como podem ver, apresenta uma confecção mais “frouxa” entre as áreas neurais que processam as emoções. É sabido que os psicopatas não despertam empatia por outras pessoas, por isso esse estudo foi realizado provando nossa teoria, foram selecionados possíveis assassinos em série entre um grupo de presidiários, onde cerca de 120 serviram de experimento para um teste. Várias fotografias foram mostradas a eles, sobre pessoas sentindo dor em situações normais, por exemplo, batendo o pé em uma quina de armário, prendendo o dedo numa porta etc. Pedimos que eles imaginassem tais cenas acontecendo com eles próprios. O que foi analisado, são as respostas das suas funções neuros cerebrais, acionando mecanismos de dor e emoção.
O doutor deu uma pausa, em seguida, continuou:
— Entretanto, quando pedimos que imaginassem aquilo acontecendo com qualquer outra pessoa, a resposta foi completamente diferente, houve mínima coordenação na amígdala – região crucial no processamento de emoções, principalmente o medo –, e do córtex pré-frontal ventromedial, área com participação importante no autocontrole, na empatia e na moralidade. O mais surpreendente, é que algumas imagens, até sugerem que foram ativadas regiões associadas ao prazer.
O Doutor Otto desligou o slide e disse:
— Como podem observar, os psicopatas sentem dor e tristeza, mas somente quando algo está relacionado diretamente a eles, eles são incapazes de sentir a dor do semelhante, e em alguns casos, demonstram até prazer observando o sofrimento de outras pessoas, o que seria inexistente em pessoas “normais”, automaticamente, ao se observar um acidente de carro por exemplo, independente de conhecer ou não as vítimas, nossos cérebros reagiriam com pesar. Embora seja um processo longo e sem nenhuma data para se tirar algum benefício concreto, estudos com neuroimageamento poderão ser úteis com terapia cognitivo-comportamental (TCC) para a psicopatia, estimulando assim, a empatia, nesses indivíduos “defeituosos”.
— Simplificando, a hora que conseguirem introduzir sentimento dentro desses monstros, acabarão com a psicopatia.” – disse Paulo para si mesmo, com o ouvido colado na porta, do lado de fora.
— Agora, um fato curioso – o doutor Otto trocou o slide e mostrou várias imagens de cérebros de psicopatas. — Conseguem identificar essas imagens? Andrade levantou a mão e disse:
— Todos os cérebros presentes são de psicopatas, pois se observa menor atividade cerebral no campo destinado às emoções. Doutor Otto sinalizou feliz.
— Exatamente, no entanto, embora eficaz para detectar a psicopatia, não podemos nos basear exclusivamente na ressonância, veja esse cérebro aqui – disse apontando para um, que estava no centro de todos. — Alguém vê algo diferente entre esse, especificamente, e os demais? Como ninguém pôde observar nada de anormal, ele continuou: — Essa ressonância, corresponde ao meu cérebro, isso mesmo! Baseado nessas informações, eu seria um psicopata, no entanto, eu não sou! “Você é só um babaca enrolador!” – pensou Paulo, sem acreditar no que ouvia.
— Depois desse resultado, fui investigar minha família e encontrei dados passados de assassinatos por parte dos meus avós, geneticamente, eu carreguei de alguma forma essa deficiência e poderia ser um psicopata. No entanto, essa deficiência não me afetou, graças a excelente criação que tive, e embora a ciência ainda esteja engatinhando nessa nova teoria, eu poderia afirmar que um psicopata se cria e não nasce, ou seja, eu particularmente acredito que todas as pessoas possam se tornar psicopatas, assim como a célula do cancro, todos podem desenvolver, mas nem todos desenvolvem, obviamente o meio pode ativar tais células, assim como a psicopatia, crianças criadas em um ambiente não propício ou até mesmo sofrendo alguma fratura no crânio ou ainda alguma outra doença que altere os neurônios, poderiam ativar essa psicopatia “contida”.