Colorismo
2.2 o Colorismo e o Racismo nos Arranjos do
De fato, ninguém que seja considerado branco ou branca pode investir-se da condição negra sem que isso seja visualmente identificado com certa rapidez. E muito dificilmente um negro claro consegue trânsito completo nas esferas de poder nas quais a presença negra é praticamente inexistente. Ademais, a realização de políticas públicas em consonância com as pautas importantes da comunidade negra, como moradia digna, emprego, saúde e educação pública de qualidade, não consta como prioridade de quem nasce branco e herdeiro de patrimônio e de reserva no espaço público para dar voz às suas reivindicações de classe. Por isso, as políticas de cotas de inserção em carreiras públicas, ou nas universidades, continuam se mostrando eficientes, apesar de casos pontuais de fraude. Os procedimentos previstos para identificação de fraudadores, ou seja, brancos tentando se passar por negros, têm se mostrado suficientes para inibir o desvirtuamento dessas ações afirmativas.
Essas medidas de inserção racial nos espaços quase impermeáveis aos negros no Brasil são importantes, muito embora continuem sendo paliativos diante do quadro geral de racismo estrutural do país. A hierarquização das cores faz parte do modus operandi do capital, da criação necessária de bolsões de trabalhadores reificados, dispensáveis e ultravulnerabilizados, cuja justificativa encontrou amparo na ciência quando do florescimento das teorias eugênicas. Igualmente no campo cultural e político, essas forças centrífugas que posicionam o branco no centro atuam também sobre indígenas e asiáticos. Subjugados pelo mesmo capital, é certo que qualquer sorte de aliança entre oprimidas e oprimidos faz-se necessária, sem a qual não é possível romper o jugo em comum ao qual sujeita-se todo racializado periférico. Se racismo e colorismo entre negros, asiáticos, indianos e indígenas possuem critérios e características diferentes,^ não há dúvida de que as repercussões econômicas e sociais ligadas ao empobrecimento e à marginalização são muitas vezes semelhantes. Portanto, esse jogo de luzes deve visar à pluralidade de dimensões que a sociedade comporta. Há luz para tudo e para todos. O desafio desse exercício é fazê-lo considerando que o foco deve primar pela totalidade da sala, usando algo maior do que um isqueiro para iluminar seus eixos constitutivos tão largamente esquecidos.
2.2 O COLORISMO E O RACISMO NOS ARRANJOS
DO CAPITAL
“O capitalismo requer a existência de uma massa de subalternos de trabalho excedente.”!^ Essa afirmação de hooks em 1994 reforça sua tese de 1967 que já asseverava que a estrutura de classe no seio da sociedade estadunidense era modelada pela política racial da supremacia branca, de modo que “a luta de classes está in-trinsecamente ligada à luta contra o racismo”.!! Igualmente, Angela Davis dedicou o trabalho de toda uma vida a desvelar as relações intrínsecas entre as lutas contra o capital, o sexismo e o racismo. Taylisi Leite faz um excelente paralelo entre o pensamento de Davis e de Roswitha Scholz, que assim articula a divagem racial em relação à organização da esfera do trabalho e a produção de valor no capitalismo: “Numa perspectiva próxima à de Roswitha Scholz, Angela Davis demonstra que houve uma divagem entre a esfera pública (domínio dos homens) e a vida doméstica, em que uma nova ideologia acerca dos modelos de feminilidade se disseminou, por meio das revistas femininas e romances voltados às leitoras, mas essa era uma condição exclusiva das mulheres brancas, decorrente da economia industrial e da vida urbana. Os arranjos econômicos da escravidão contradiziam os papéis sexuais hierárquicos incorporados na ideologia de gênero burguesa, pela qual as mulheres brancas passaram a ser vistas como habitantes de uma esfera totalmente separada do mundo do trabalho produtivo. Essa questão racial, inegavelmente relevante, ainda mais na realidade brasileira, não é ignorada por Scholz; ao contrário, Roswitha faz questão de trazer esse elemento para suas reflexões. Essa é a característica principal de sua militância teórica, que, inclusive, custou-lhe a exclusão do grupo que ajudou a criar.” (LEITE, Taylisi. Crítica ao feminismo liberal: valor divagem e marxismo feminista. São Paulo: Contra-corrente, 2020. p. 238.)!! Denunciando os ângulos mortos e o absoluto desconhecimento sobre as condições específicas de mulheres negras que desserviam às primeiras ondas do feminismo, Davis sublinha que na luta por igualdade a contestação do capitalismo monopolista é essencial, assim como a construção das redes de solidariedade com os trabalhadores, notadamente os precarizados.ü.
Portanto, o fato de mulheres brancas não assumirem as perspectivas femininas negras como pautas válidas — tampouco visibilizando as narrativas negras e o protagonismo negro de mulheres capazes de portarem elas mesmas suas causas, sem intermediárias ou representações —, configura inexoravelmente um desdobramento da ausência do eixo de classe e de raça na composição das reivindicações feministas. Uma mulher trabalhadora branca não enfrenta os mesmos limites que uma mulher trabalhadora negra. Esta assume o fardo da precarização do trabalho em uma proporção muito maior, aliando vulnerabilidade econômica à se-cularização da sua marginalização existencial em termos estéticos, afetivos e culturais. O capital se utiliza de dados culturais para fragilizar a maior parte das mulheres, que no caso do Brasil são negras, hierarquizando os corpos pela estratificação das opressões baseado no colorismo, mas também fragmentando o corpus político negro ao impor o falseamento dessas negritudes e branquitudes. O colorismo é, assim, um testemunho vivo da plasticidade com a qual o capital opera sua tecnologia.
As distinções entre a escravidão praticada em alguma medida no continente africano e aquela iniciada pelo tráfico negreiro colonial são importantes, e não negligenciáveis. Imediatamente, é importante dizer que a escravidão não era uma prática inerente a todos os povos e tribos do continente, a exemplo da sociedade dos Sherbro, no território hoje equivalente à Serra Leoa, que só veio a conhecer a escravidão quando foi invadida pelos primeiros colonizadores.!! Se a prática da escravidão se estendia sobre a África de maneira heterogênea antes das invasões, o mesmo não pode ser dito das missões coloniais europeias. Estas impuseram-se de modo avassalador e homogêneo sobre o continente, impressionando pelos números da empreitada colonial. O tratado transatlântico culminou no sequestramento de treze milhões de homens e mulheres entre 1440 e 1870, dos quais mais de dois milhões não sobreviveram aos horrores da travessia atlântica a bordo dos cativeiros construídos dentro dos navios negreiros.
Entretanto, o continente africano conheceu outras formas de escravidão antes da chegada do colonizador europeu. Do século 8 até o século 20, há relatos abundantemente documentados pela historiografia sobre práticas escravagistas no continente africano, que se intensificaram por meio do processo do tráfico transaariano de escravos, também conhecido como tráfico árabe de escravos. Muito embora esses comércios não se estendessem sobre a totalidade do continente, eles compuseram uma parte considerável das transferências de recursos e sujeitos de forma forçosa, e igualmente cruel, que são de fato pré-capitalistas. Contudo, as razões desse tipo de escravidão fundam-se em processos históricos e econômicos bastante distintos. No lugar daquilo que foi o cristianismo!! para as empreitadas coloniais europeias, o arrimo metafísico das regras de quem pode ou não pode ser escravizado nesse caso é o islamismo.
Antes da chegada do europeu, portanto, o mundo islâmico encontrava na cosmologia africana um elemento de desconsideração da humanidade negra, dada sua natureza diversa e sua origem tribal profundamente aliada aos conhecimentos seculares das tribos e povos africanos. Considerados pagãos e bárbaros por sua natureza não convertida, haja vista seu não reconhecimento de Maomé como chefe religioso, o suporte ideológico da escravidão encontrou, assim, um vasto terreno de florescimento. Tal fator, aliado à superioridade bélica dos muçulmanos, fez de inúmeros povos africanos alvo preferencial para o sequestramento e cativeiro daqueles povos, o que pode ter escravizado entre oito e dezessete milhões de africanos.
Ainda nesse inventário das principais diferenças entre o tráfico transatlântico de escravos e o tráfico tran-saariano — em que pese terem ambas empreitadas visado homens e mulheres negros como objetos da exploração total de seus corpos —, há que se sublinhar uma distinção de gênero importante entre esses dois processos. As finalidades do aprisionamento e da exploração total dos corpos negros empreendidas pelo tráfico interno na África não se confundem com aquelas que visavam às plantations nas Américas. O tráfico transa-ariano de escravos tinha em vista mais os corpos femininos que os masculinos, e deixava alguma autonomia a essas escravas e escravos, muito embora formas mais duras e próximas das condições extenuantes de trabalho nas Américas também tenham se desenvolvido em algumas regiões.46
Entretanto, destaca-se a presença majoritária de mulheres negras nos processos de captura e venda, geralmente associados ao fator reprodutivo do sexo feminino. Antes da invasão europeia,!? havia duas maneiras pelas quais as mulheres negras eram exploradas depois do seu sequestramento e cativeiro: nas sociedades pautadas pela linhagem as escravas realizavam trabalhos agrícolas e domésticos; já nas sociedades dinásticas, elas exerciam um trabalho altamente valorizado de administração, cumprindo um papel político naquelas sociedades. Nas sociedades dinásticas escravocratas a mulher negra tornada escrava não representava qualquer perigo, posto que não era considerada membro da família, e não podia, portanto, firmar alianças que ameaçassem a organização das redes de poder. Por isso, eram compradas para se tornarem concubinas nas sociedades nas quais a linhagem patriarcal definia as regras de pertencimento familiar.!! Os horrores da submissão às sevícias do proprietário estavam calcadas em uma razão particular: nessas sociedades, era menos dispendioso “comprar” uma concubina negra do que esposar uma mulher livre e pagar o dote aos seus pais. Como bem ensina o provérbio swahili, “uma mulher nunca é livre”.
Soma-se à situação degradante de toda e qualquer forma de tolhimento da liberdade existente no tráfico transaariano o fator do tom da pele da mulher escravizada. Nas Áfricas, em suas pluralidades, há um contínuo desenvolvimento de valores estéticos muito próprios às particularidades de cada nação, nos quais é possível perceber uma valorização perturbadora das mulheres de pele clara. Valores longevos da sociedade africana em relação aos critérios de feminilidade e da beleza da mulher negra são encontrados em sociedades como as dos Massa e dos Moussey, existente no norte dos Camarões, assim como nas dos Peuls, entre os quais a pele clara é um atributo valorizado. Como narra o historiador Jean-Luc Bonniol,!! certas cantigas tribais nomeiam as peles consideradas mais bonitas como “vermelhas” ou “acobreadas”, em detrimento daquelas de tons mais escuros. Essas narrativas, espalhadas por quase todo o continente africano, parecem ter sido de algum modo recuperadas pelo colonizador europeu que, utilizando de um tropismo existente em alguma medida, fez de um elemento da estética negra, entre tantos outros, algo que passou a ser o fator-chave de desumanização de homens e mulheres africanos.
O que era um elemento entre outros na caracterização do feminino, tornou-se o ponto central da divagem entre humanos e esses supostos selvagens. A instrumentalização dos elementos culturais estéticos que coexistiam entre outros construídos por centenas de anos foram, assim, usados contra aqueles que sofriam o processo de colonização. Eis que, assim, o que era usado para distinguir mulheres, e não humanidades, uma vez desancorado da cultura que lhe dá sentido, abandona seu esteio de mera coordenada estética de feminilidade. A valorização última de uma pele clara torna-se veículo de escamoteamento das razões econômicas da escravidão e das suas formas correlatas de opressão — inclusive contra aqueles homens que haviam, anteriormente, contribuído para a reprodução cultural da narrativa da beleza da pele clara. Um fenômeno existente também na índia que, embora apresente uma cultura colorista profundamente arraigada na organização dos espaços públicos e privados, é uma sociedade distinta culturalmente da África no que tange ao tratamento do colorismo.
Esses elementos indicam uma preferência cultural digna de nota no que tange à questão da pigmentação da pele, podendo esta ser considerada um fenômeno cultural existente em algumas regiões do continente africano. Contudo, essas preferências, que são heterogêneas e não sistêmicas, não podem ser comparadas ao fenômeno do colorismo, cuja origem se inscreve no quadro da escravidão, tendo, assim, um caráter estrutural. Se em algumas sociedades a pele mais clara era valorizada, em outras o tamanho e a forma do pescoço, dos lábios vaginais, do ventre ou dos quadris também eram consideradas referências importantes de beleza. Por essa razão, o colorismo na sua acepção moderna só se desenvolveu a partir do momento em que um arquétipo racial tornou-se a regra, enquanto o outro é tomado como o elemento desviante, a ser evitado ou desprezado de modo uníssono e sistêmico. Assim sendo, como afirma Ndiaye, é preciso evitar o reducionismo da hierarquização racial como mero detalhe das relações de classe, compreendendo esse fenômeno como parte integrante relevante e, acima de tudo, imprescindível na superação da forma-valor. Nenhum levante popular poderá ser efetivo se persistirmos em colocar 56% da população de escanteio, excluindo também sua colaboração na construção de vias alternativas de transformação.
(...) As minorias étnico-raciais não só foram negligenciadas, mas, além disso, foram colocadas como suspeitas de participar da desmobilização e da desfiliação da classe trabalhadora. As suspeitas tiveram um efeito paralisante sobre as ciências sociais e as políticas públicas de reconhecimento e de correção das discriminações. Fundamentalmente, a questão que se coloca ao marxismo é de levar a sério o racismo e as formas de dominação racial, sem as dissolver nas relações de classe e sem considerar aqueles e aquelas que fazem parte dessas relações como alienados, ou seja, como incapazes de reconhecer a verdadeira natureza dos processos materiais e ideológicos pelos quais a classe dominante mantém seu poder. Desse modo, o racismo não procede simplesmente por ações calculadas das elites, assim como a luta antirracista não funciona a partir de ilusões de uma “falsa consciência”. A análise das relações de classe não é suficiente para dar conta de todas as formas de dominação, mesmo que essas relações se encontrem imbri-cadas de tal maneira que seria inconsequente jogar um véu de esquecimento sobre elas. É preciso pensar que, de um lado, temos a irredutibilidade da questão racial, e do outro, sua ligação indissolúvel com as relações de classe e sexo. NDIAYE, Pap. La condition noire. Paris: Calmann-Lévy, 2008. p. 93.^2