Colorismo
3-2 Colorismo e Poder
Sendo assim, o colorismo não é a bala de prata do racismo. Ainda que implicado nos séculos de violação de mulheres não brancas que, ao darem à luz sujeitos mais claros ou com traços que deixam dúvida quanto à sua origem, o colorismo não resolve o racismo embaralhando suas características. O amálgama de certos elementos raciais que é visível em certos grupos é atribuível também, depois de séculos de colonização e trabalho escravo, à condição socioeconômica do indivíduo, sua religiosidade ou mesmo sua capacidade cognitiva, cujas correspondências levam também à sua identificação racial como negro, ainda que o indivíduo tenha uma cor considerada clara. Pensar que a mestiçagem dá cabo ao racismo por meio da sobreposição de traços e origens é desconsiderar que o colorismo não se resume a traços e marcadores raciais.
O fato do colorismo desenvolver-se par a par com o racismo faz dele uma tecnologia social interseccional que também interioriza vetores socioeconômicos, culturais e históricos nas suas classificações e atribuições de valor. Portanto, cada sociedade afigura-se como um experimento secular desses jogos de associação, reproduzidos no campo público e privado, cuja transmissão se faz de modo familiar, mas também de modo estatal por meio de políticas públicas de ensino, saúde, transporte, sendo estes lugares de proa desses processos de reprodução. Identificar cada traço e marcador de africanidade e branquitude durante séculos de observação, exploração e reprodução torna-se algo perfeitamente natural e transmissível, que se apreende como ocorre com todo e qualquer mecanismo cultural. Aprender a transitar na sociedade brasileira é também aprender que cada cor e atributo que faz parte dos matizes raciais revela um espaço de interditos e de pertencimentos.
3-2 COLORISMO E PODER
No Brasil, os cremes clareadores não são tão populares como nos mercados africanos porque o colorismo brasileiro foi mais eficiente e violento. A religião católica fez parte desse processo violento ao demonizar as expressões culturais e religiosas de matriz africana, impondo santos e, claro, um messias embranquecido. Reagindo a essa violência, a umbanda, por exemplo, incorporou certas narrativas do panteão católico para sobreviver à marginalização e, ulteriormente, ao cárcere, em razão das leis que criminalizavam terreiros, mães de santo e pais de santo.
Essas engenhosidades criadas a fim de permitir a sobrevivência das práticas e de seus praticantes, reinventaram seus símbolos sem desnaturar o seu caráter cultural. Elas tornaram-se parte de uma estratégia secularmente empregada e transmitida, e parecem ultrapassar o campo religioso. Essa plasticidade do culto é também encontrada na plasticidade da aparência, que aprendeu a disfarçar ou tornar menos evidente características que servem como alvo na sociedade racista: a africanidade. Muito embora a rejeição da africanidade em muitos casos surja como resultado do trauma, e às vezes torne-se doença de ordem psicanalítica, ela também pode carregar outros significados.
Por mais acolhedores e amorosos que os lares possam ser, nada pode preparar uma criança para enfrentar o racismo do mundo. A violência de perceber-se inferior, diferente, rejeitada, contudo, pode provocar menos danos quando a família é capaz de criar um ambiente no qual falar de racismo não é algo interditado sob o falso antídoto do “nós não enxergamos cores” — o color blindness. A família, as escolas e as universidades têm a responsabilidade de promover uma conversa segura, especialmente para negros, a fim de nomear o “elefante na sala” que é o colorismo e o racismo, bell hooks aborda esse tema de suma importância em Salvation: Black People and Love [Salvação: povo negro e amor], ressaltando a importância de tornar as crianças sujeitos “letrados” sobre os códigos racistas que, quer queiramos ou não, serão impostos a eles:
Nossas mães, ao contrário de suas homólogas brancas, têm que tentar construir um lar em meio a um mundo racista que já selou nosso destino, um mundo desigual esperando para nos dizer que éramos inferiores, não inteligentes o suficiente, indignos de amor. Diante desse cenário em que a negritude não era amada, nossas mães tiveram a tarefa de construir um lar. Como anjos em casa, elas tiveram que criar um mundo doméstico onde a resistência ao racismo fazia parte da vida cotidiana tanto quanto fazer a cama e cozinhar refeições. Não foi uma tarefa fácil, uma vez que o racismo internalizado significava que trazíamos os valores da supremacia branca para nossas casas por meio do sistema de castas de cores. Todos sabiam que quanto mais clara você era, mais sorte você tinha. E todos nos julgavam com base na cor da nossa pele. Em algumas casas, como aquela em que cresci, mães e pais que sofreram por serem muito escuros rejeitaram os valores do sistema de castas de cores. Nossa mãe de pele clara, que fora criada por uma mãe que poderia se passar por branca, estava decidida de que seus filhos não julgariam uns aos outros de acordo com o tom da cor da pele. Quando éramos pequenos, ela nos ensinou a ver a beleza de nossa diversidade. Seus sete filhos tinham cores de pele diferentes e várias texturas de cabelo, e cada um tinha seu estilo e beleza de modo único. Mas toda a sabedoria da Mamãe não conseguiu nos proteger do mundo fora de casa, que constantemente nos lembrava de que preto não era a cor certa, que quanto mais escuro você fosse, mais você sofreria. (HOOKS, 2001, p. 35-36)
O escamoteamento de certas características fenotípicas para negros de pele clara ou escura às vezes só reflete uma estratégia temporária de sobrevivência, uma tentativa de passar despercebido sob o radar racista de instituições ou de espaços públicos e privados. É preciso distinguir, no entanto, os efeitos dessas alterações para brancos e negros. As alterações na aparência não sujeitam brancos e negros do mesmo modo. Uma mulher branca de turbante africano, um signo importante da comunidade negra, não oferece risco a nenhuma regra social estabelecida, e não corre risco de apedrejamento ou intimidação. Neste caso, falamos de associação positiva à cultura africana pelas razões certas — compreensão do significado do turbante, ou vivência da cultura africana, mas também pode ser pelas razões erradas, quando o apego relaciona-se a uma ideia de “exo-tismo” que inferioriza e reifica a africanidade como algo que possa ser adquirido ou possuído.
A umbanda não é menos africano-centrada por incorporar certas imagens que podem remeter ao catolicismo, assim como a negra que alisa seu cabelo não é menos preta ao utilizar um signo branco para se manter no emprego. Essa maleabilidade, típica de sociedades que levam a violência com certos grupos à sua quintessência ao retirar dos sujeitos sua condição humana, faz dos negros oriundos da mestiçagem um alvo perfeito para um escorraçamento duplo: não são suficientemente escuros para os racial-puristas, tampouco absolutamente brancos para os racistas-eugenistas. Do mesmo modo, adotar uma religião pentecostal não retira necessariamente da negra praticante sua postura antirracista, tampouco o compromisso político com a emancipação de seu povo. É preciso sempre ressaltar que o modus operandi racista faz uso das práticas de homogeneização de grupos “minoritários”. Combater o colorismo e, portanto, também o racismo, é permitir que negras e negros possam expressar sua negritude em seus corpos, mas também na sua postura política. Ostentar tranças ou dreads ao mesmo tempo em que denunciam o genocídio de crianças negras nas periferias, ou tratar quimicamente o cabelo liso sem deixar de cultuar seus orixás e lutar pela liberdade religiosa. A negritude é diversa, e a luta antirracista só tem a ganhar com isso. Como bem assinala Angela Davis ao falar da academia e dos espaços de reprodução do saber, é preciso focar naquilo que pretendemos transformar e, para isso, precisamos de todos.
Não podemos mais ignorar as maneiras como por vezes acabamos reproduzindo as próprias formas de dominação que gostamos de atribuir a algo ou outrem. Frases como: “Ela não é negra. Ela nem parece negra.” Ou então: “Ela é muito negra. Ouça como ela fala. Ela parece mais uma pregadora do que uma erudita.” Ou ainda: “O trabalho dela não é realmente sobre mulheres negras. Ela está interessada apenas em lésbicas.” Ou, de forma mais geral: “Ela não é uma estudiosa de verdade.” Antes, qualquer trabalho feito por um negro sobre questões negras não era reconhecido como “bolsa de estudos real”. Considere quanto tempo levou para a academia reconhecer o trabalho de W. E. B. Du Bois ou de Zora Neale Hurston. O último ponto que mencionei tinha a ver com nossas posições como mulheres negras. E não somos as únicas mulheres racializadas, devo dizer. Quando pensamos em nós mesmas como mulheres racializadas, isso significa que somos compelidas a pensar sobre uma série de questões e contradições e diferenças. O trabalho de Audre Lorde continua a nos desafiar a pensar sobre a diferença e a contradição não como momentos a serem evitados ou escapados — que devemos temer —, mas como generativos e criativos.^
A tragédia do colorismo é que ele foi capaz de falsear a própria natureza da mestiçagem. É como se a violência do estupro “original”, da primeira criança mestiça concebida forçosamente, precisasse ser repetida atavi-camente, negando aos seus filhos toda e qualquer condição de existência no mundo. Contudo, para cada mulher que fez um aborto para salvar um filho da condição de escravo sob o suplício da escravidão, interrompendo a violência do estupro, uma outra pariu, amou e transmitiu seus saberes ancestrais a uma criança, por mais que sua pele fosse mais clara. Para cada avô que festejou o nascimento de um neto negro mais claro que os demais, muitos outros avôs cuidaram para que a neta pudesse se desenvolver sem valores racistas, e que bisnetos negros escuros adviessem de outras construções afetivas nas gerações vindouras. E o mais importante, para cada criança que cresceu em uma família que ridicularizou ou escondeu sua negritude, houve muitas outras que puderam encontrar afago nos terreiros, acolhimento e saber nos movimentos sociais e em seus intelectuais, ou que mesmo sozinhas puderam ladrilhar as trilhas da pedagogia do oprimido na busca autônoma por sentido e humanização da sua condição negra mestiça.