Como Vejo o Mundo

Albert Einstein · Capítulo 2 de 6 · parte 1/2

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Como Vejo o Mundo

Joseph Popper-Lynkaeus

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Era mais do que um engenheiro e um escritor. Fazia parte daquelas poucas personalidades marcantes, alma e consciência de uma geração. Ele nos convenceu de que a sociedade é responsável pelo destino de cada indivíduo e nos mostrou como concretizar esta obrigação moral. A comunidade ou o Estado não encarnam verdadeiros símbolos, porque um direito se fundamenta deste modo: se o Estado exige uma abnegação do indivíduo, se tem este direito, em compensação deve dar ao indivíduo a possibilidade de um desenvolvimento harmonioso.

SEPTUAGÉSIMO ANIVERSARIO DE ARNOLD BERLINER

Gostaria de dizer aqui a meu amigo Arnold Berliner e aos leitores de sua revista As Ciências da Natureza por que o aprecio, a ele e a sua obra, de modo tão veemente; é aliás preciso que o diga aqui, senão não terei mais ocasião. Nossa educação objetiva tornou “tabu” tudo o que é pessoal e um homem só em circunstâncias excepcionais, como esta, pode transgredir essa regra.

Após ter-me justificado como agora, volto à terra no mundo objetivo. O campo dos fatos cientificamente analisados estendeu-se prodigiosamente e o conhecimento teórico aprofundou-se além do previsível. Mas a capacidade humana de compreensão é e sempre estará ligada a limites estreitos. Torna-se portanto inelutável que a atividade de um único pesquisador se reduza a um setor cada vez mais restrito em relação ao conjunto dos conhecimentos. Por conseguinte, toda especialização impossibilitaria uma simples compreensão geral do conjunto da Ciência, indispensável no entanto para o vigor do espírito de pesquisa, e, por consequência, afastaria inexoravelmente outros progressos da evolução. Desse modo se constituiria uma situação análoga àquela descrita na Bíblia de modo simbólico pela história da torre de Babel. Um pesquisador sério experimenta um dia ou outro esta evidência dolorosa da limitação. Malgrado seu, vê o círculo de seu saber ir apertando-se cada vez mais. Perde então o senso das grandes arquiteturas e se transforma em operário cego num conjunto imenso.

Sentimos todos o esmagamento desta servidão; mas, que fazer para libertar-nos? Surge Arnold Berliner e inventa para os países de língua alemã um instrumento de utilidade exemplar. Percebe que as publicações populares existentes bastavam para a vulgarização e o estímulo dos espíritos profanos. Mas entende que uma revista, sistematicamente dirigida com o máximo cuidado, se impõe para os conhecimentos científicos dos sábios. Estes querem conhecer e compreender a evolução dos problemas, os métodos e os resultados para poderem formar um juízo pessoal. Durante longos anos, persegue esta meta, inteligentemente, incansavelmente, e nos satisfez plenamente, a nós e à Ciência. Jamais lhe seremos bastante reconhecidos por este serviço.

Precisava obter a colaboração de autores científicos de renome, mas também obrigá-los a expor seu assunto da forma mais acessível, mesmo para um não-iniciado. Por várias vezes falou-me sobre os problemas que devia resolver para chegar a sua meta e, um dia, definiu-me seu tipo de dificuldade por esta adivinhação: que é que é um autor científico? Resposta: “o cruzamento entre uma mimosa e um porco-espinho”. A obra de Berliner existe. Porque tinha paixão pelas idéias claras nos domínios mais vastos. Este desejo o estimulou durante toda a vida. Vontade apaixonada que o obrigou a compor com muita assiduidade, durante muito tempo, um tratado de física do qual um estudante de medicina dizia-me, há bem pouco tempo: “Sem este livro, não sei como teria podido compreender os princípios da física nova, levando em conta o tempo de que dispunha.”

A luta de Berliner pelas sínteses claras permitiu-nos, de maneira especial, compreender ao vivo os problemas atuais, os métodos e os resultados das ciências. Sua revista continua sendo indispensável para a vida científica de nossos contemporâneos. Tornar vivo, manter vivo este conhecimento é mais importante do que resolver um caso particular.

 

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SAUDAÇÕES A G.B. SHAW

Raros são os espíritos com suficiente domínio de si mesmos para ver as fraquezas e loucuras de seus contemporâneos sem cair nas mesmas armadilhas. Estes solitários, porém, depressa perdem a coragem e a esperança de melhoria moral, porque aprenderam a conhecer a dureza dos homens. Somente a um pequenino número foi dado, por seu humor delicado, seu estado de graça, fascinar sua geração e apresentar a verdade sob o aspecto impessoal da forma artística. Saúdo hoje, com a mais viva simpatia, o maior mestre neste gênero. A todos nós ele encantou e instruiu.

B. RUSSELL E O PENSAMENTO FILOSÓFICO

Ao ser convidado pela redação para escrever alguma coisa sobre Bertrand Russell, minha admiração e estima por ele me impeliram a aceitar imediatamente. À leitura de suas obras devo inúmeros momentos de satisfação, o que — exceção feita de Thorstein Veblen — não posso dizer de nenhum outro escritor científico contemporâneo. Mas bem depressa verifiquei que era mais fácil prometer do que cumprir. Ora, prometi escrever algumas idéias sobre Russell filósofo e teórico do conhecimento. E quando comecei a redigir, cheio de confiança, verifiquei logo em que terreno escorregadio me aventurava. Porque sou um escritor inexperiente, só me arriscando com prudência até aqui a falar sobre física. Para o iniciado, portanto, a maior parte de meu artigo poderá parecer pueril; reconheço-o de antemão. Mas um pensamento me consola. Quem fez a experiência de pensar em outro domínio sobrepuja sempre aquele que não pensa de modo algum ou muito pouco.

Na história da evolução do pensamento filosófico através dos séculos, uma questão vem sempre em primeiro lugar: que conhecimentos o pensamento puro, independente das impressões sensoriais, pode oferecer? Será que tais conhecimentos existem? Do contrário, que relação estabelecer entre nosso conhecimento e a matéria bruta, origem de nossas impressões sensíveis? A estas questões e algumas outras estreitamente relacionadas corresponde uma desordem de opiniões filosóficas, absolutamente inimagináveis. Ora, nesta progressão de esforços meritórios, mas relativamente ineficazes, uma linha indestrutível vai se traçando e se reconhece: um crescente ceticismo manifesta-se diante de qualquer tentativa de procurar explicar pelo pensamento puro “o mundo objetivo”, o mundo dos “objetos” oposto ao mundo simplificado das “representações e dos pensamentos”. Observemos aqui que, para um filósofo clássico, as aspas (“ ”) são empregadas para indicar um conceito fictício, que o leitor momentaneamente aceita, apesar de refutado pela crítica filosófica.

A crença elementar da filosofia em sua gênese reconhece no pensamento puro a possibilidade de descobrir todo o conhecimento necessário. Era uma ilusão, cada qual pode compreendê-lo com facilidade, se se esquecer provisoriamente das aquisições ulteriores da filosofia e da ciência física. Por que se admirar, se Platão concede à “Idéia” uma realidade superior à dos objetos empiricamente experimentados? Spinoza, Hegel inspiram-se no mesmo sentimento e raciocinam fundamentalmente da mesma forma. Poder-se-ia quase fazer a pergunta: sem esta ilusão será possível no pensamento filosófico inventar algo de grandioso? Mas deixemos de lado esta interrogação.

Diante da ilusão, bastante aristocrática, do poder de percepção ilimitada do pensamento, existe outra ilusão bem plebéia, o realismo ingênuo, segundo o qual os objetos “são” a pura verdade de nossos sentidos. Ilusão que ocupa a atividade diária dos homens e dos animais. Na origem, as ciências se interrogam deste modo, sobretudo as ciências físicas.

As vitórias sobre as duas ilusões nunca se separam. Eliminar o realismo ingênuo é relativamente fácil. Russell define de forma muito característica este momento do pensamento na introdução a seu livro An inquiry into Meaning and Truth.

“Começamos todos com o realismo ingênuo, quer dizer, com a doutrina de que os objetos são assim como parecem ser. Admitimos que a erva é verde, que a neve é fria e que as pedras são duras. Mas a física nos assegura que o verde das ervas, o frio da neve e a dureza das pedras não são o mesmo verde, o mesmo frio e a mesma dureza que conhecemos por experiência, mas algo de totalmente diferente. O observador que pretende observar uma pedra, na realidade observa, se

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quisermos acreditar na física, as impressões das pedras sobre ele próprio. Por isto a ciência parece estar em contradição consigo mesma; quando se considera extremamente objetiva, mergulha contra a vontade na subjetividade. O realismo ingênuo conduz à física, e a física mostra, por seu lado, que este realismo ingênuo, na medida em que é consequente, é falso. Logicamente falso, portanto falso.”

À parte sua perfeita formulação, estas linhas expressam algo em que eu jamais pensara. Para um olhar superficial, o pensamento de Berkeley e de Hume parece o oposto do pensamento científico. Mas o enunciado acima de Russell revela uma relação. Berkeley insiste sobre o fato de que não percebemos diretamente os “objetos” do mundo exterior por nossos sentidos, mas que os órgãos de nossos sentidos são afetados por fenômenos ligados como causa à presença dos “objetos”. Ora, esta reflexão suscita a convicção por já raciocinar como a ciência física. Se não se tem bastante confiança na maneira de pensar física, mesmo em suas grandes linhas, não há razão alguma para impor qualquer coisa entre o objeto e o ato de ver que isola o sujeito em relação ao objeto e torna problemática “a existência dos objetos”.

A mesma técnica de reflexão em ciência física e os resultados assim obtidos revolucionaram a tradicional possibilidade de compreender os objetos e suas relações pelo lado único do pensamento especulativo. Aos poucos, se firmava a convicção de que todo conhecimento sobre os objetos era inexoravelmente uma transformação da matéria bruta oferecida pelos sentidos. Sob esta apresentação geral (formulada intencionalmente em termos vagos), esta proposição é aceita comumente. A convicção repousa assim sobre dupla prova: a impossibilidade de adquirir conhecimentos reais pelo puro pensamento especulativo, mas sobretudo a descoberta dos progressos dos conhecimentos pela via empírica. Primeiro, Galileu e Hume justificaram este princípio com uma perspicácia e uma determinação totais.

Hume bem compreendia que conceitos, julgados essenciais por nós — por exemplo, a relação causal —, não podem ser obtidos a partir da matéria fornecida pelos sentidos. Esta compreensão o levou ao ceticismo intelectual diante de qualquer conhecimento. Quando se lêem suas obras, fica-se espantado de que depois dele tantos filósofos, em geral bem considerados, tenham podido redigir tantas páginas tão confusas e encontrado leitores gratos. Contudo Hume marcou com sua influência os seus melhores sucessores. E nós o reencontramos na leitura das análises filosóficas de Russell: o estilo preciso e a expressão simples são os mesmos de Hume.

O homem aspira profundamente ao conhecimento certo. E por esta razão, o sentido da obra de Hume nos comove. A matéria bruta sensível, única fonte de nosso conhecimento, nos modifica, nos faz crer, esperar. Mas não pode conduzir-nos ao saber e à compreensão de relações que revelam leis. Kant então propõe um pensamento. Sob a forma em que foi apresentada é indefensável, porém marca um nítido progresso para resolver o dilema de Hume. “O empírico, no conhecimento, jamais é certo” (Hume). Se queremos conhecimentos certos temos de baseá-los na razão. Tal é o caso da geometria, tal o do princípio de causalidade. Estes conhecimentos, mais alguns outros, formam uma parte de nosso instrumento-pensamento. Por conseguinte não devem ser obtidos pelos sentidos. São conhecimentos a priori.

Hoje todo o mundo sabe, evidentemente, que os famosos conhecimentos nada têm de certo, nada de intimamente necessário, como Kant acreditava. Mas Kant colocou o problema sob o ângulo desta constatação. Temos um certo direito de pensar conceitos que a matéria experimental sensível não pode dar-nos, se permanecermos no plano lógico em face do mundo dos objetos.

Penso que é preciso ainda superar esta posição. Os conceitos que aparecem em nosso pensamento e em nossas expressões linguísticas são — do ponto de vista lógico — puras criações do espírito e não podem provir indutivamente de experiências sensíveis. Isto não é tão simples de admitir porque unimos conceitos certos e ligações conceptuais (proposições) com as experiências sensíveis, tão profundamente habituais que perdemos a consciência do abismo logicamente insuperável entre o mundo do sensível e o do conceptual e hipotético.

Por isto, incontestavelmente, a série de números inteiros marca uma invenção do espírito humano, um instrumento criado por ele para facilitar e ordenar algumas experiências sensíveis. Não existe possibilidade alguma de tirar este conceito da própria experiência sensível. Escolho de

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propósito a noção do número porque pertence ao pensamento pré-científico e seu aspecto operatório é facilmente identificável aqui. Mas quanto mais nos aproximamos dos conceitos elementares na vida cotidiana, tanto mais o peso de hábitos arraigados nos embaraça para reconhecermos o conceito como criação original do espírito. Assim se elaborou uma concepção fatal e gravemente errônea para a compreensão das relações reais e imediatas: os conceitos se constituiriam a partir da experiência e em seguida da abstração, mas com isto perdem uma parte de seu conteúdo. Desejo mostrar por que esta concepção me parece tão errônea.

Se se aceita a crítica de Hume, formula-se logo a idéia de que todo conceito ou toda hipótese devem ser rejeitados do espírito como “metafísica”, por não serem extraídos da matéria bruta sensível. Porque todo pensamento só recebe seu conteúdo material através da relação com o mundo sensível. Julgo perfeitamente exata esta idéia; em compensação, uma construção que sistematiza dessa forma o pensamento me parece falsa. Pois esta pretensão lógica, levada ao extremo, excluiria inevitavelmente qualquer pensamento como metafísico.

Para que o pensamento não degenere em metafísica, quer dizer em parolice, é preciso que um número suficiente de proposições de um sistema conceptual esteja ligado de modo exato às experiências sensíveis e que o sistema conceptual, na função essencial de ordenar e de sintetizar o vivido sensível, revele a maior unidade, a maior economia possível. Afinal, o “sistema” exprime um livre jogo (lógico) de símbolos por meio de regras (lógicas) arbitrariamente dadas. De igual maneira, tudo isto é válido para traduzir o cotidiano; e até para pensar as Ciências, sob uma forma mais consciente e mais sistemática.

Aquilo que vou dizer torna-se então mais claro: Hume, por sua crítica lúcida, possibilita um progresso decisivo da filosofia. Mas causa, sem responsabilidade de sua parte, um real perigo, porque esta crítica suscita um “medo da metafísica” errado, por realçar um vício da filosofia empírica contemporânea. Este vício corresponde ao outro extremo da filosofia nebulosa da antiguidade, quando ela pretendia poder dispensar os dados sensíveis, ou até mesmo desprezá-los.

Apesar de minha admiração pela perspicaz análise apresentada por Russell em Meaning and Truth, tenho receio de que também aí. o espectro do medo metafísico haja causado alguns estragos. Esta angústia me explica, por exemplo, o papel da razão para conceber a “coisa” como um “feixe de qualidades”, qualidades que devem ser abstraídas da matéria pura sensível. Este fato (duas coisas devem ser consideradas uma única e a mesma coisa se se correspondem respectivamente em suas qualidades) nos obriga a avaliar as relações geométricas dos objetos como qualidades. (De outro modo, seríamos obrigados, de acordo com Russell, a declarar serem “a mesma coisa” a Torre Eiffel em Paris e a torre de Nova Iorque.) Diante disto, não vejo perigo “metafísico” em acolher o objeto (objeto no sentido da física) como um conceito independente no sistema ligado à estrutura espacial-temporal que lhe pertence.

Levando em conta esses esforços, estou contente ainda por descobrir, no último capítulo, que não se pode dispensar a “Metafísica”. Minha única crítica esclarece a má consciência intelectual que se sente através das linhas.

OS ENTREVISTADORES

Se pedem publicamente a alguém que dê as razões de tudo quanto declarou, mesmo por brincadeira, num momento de capricho ou de despeito momentâneo, é em geral coisa desagradável, mas afinal de contas normal. Mas se publicamente vêm pedir-lhe uma justificativa daquilo que outros disseram em nome do senhor, sem que pudesse proibi-lo, então sua situação seria aflitiva. “Quem é este coitado?” poderão perguntar. Na verdade, qualquer homem cuja popularidade basta para justificar a visita dos entrevistadores! Podem não acreditar! Tenho tanta experiência sobre este assunto, que não hesito em referi-la.

Imaginem, uma bela manhã, um repórter lhe faz uma visita e pede amavelmente que dê sua opinião sobre seu amigo N. A princípio o senhor sente alguma irritação diante desta pretensão. Mas bem depressa percebe que não há escapatória possível. Porque se recusar uma resposta equivalerá a: “Interroguei o homem que é tido pelo melhor amigo de N., mas ele recusou prudentemente”. Desta

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atitude, o leitor tirará inevitáveis conclusões. Então, já que não há nenhuma escapatória, o senhor declara:

“N. tem um caráter alegre, franco, estimado por todos os amigos. Sabe ver o lado bom de cada situação. Pode assumir responsabilidades e chega a realizá-las sem restrição de tempo. Sua profissão é sua paixão, mas ama a família e dá à esposa tudo quanto tem...”

Isto significará: “N. não leva nada a sério. Possui o raro talento de se fazer amar por todos e se esforça para isto por um comportamento exuberante e amável. Mas é de tal forma escravo de sua profissão que não pode refletir sobre assuntos pessoais ou interessar-se por questões estranhas a sua pesquisa. Trata a esposa com excesso de cuidados, escravo abúlico de seus desejos...”

Um verdadeiro profissional em reportagem diria tudo isto num estilo ainda mais incisivo. Mas para o senhor e seu amigo N., já é bastante. Porque no dia seguinte, N. lê isto no jornal e outras frases do mesmo gênero e sua cólera contra o senhor explode com fúria, apesar do caráter alegre e franco. A ofensa que lhe fizeram fazem com que o senhor fique profundamente aborrecido porque gosta realmente de seu amigo.

Então?! que fazer nesta situação? Se descobrir um método, eu lhe suplico, ensine-me para que possa aplicá-lo imediatamente.

FELICITAÇÕES A UM CRÍTICO

Ver com os próprios olhos, sentir e julgar sem sucumbir à fascinação da moda, poder dizer o que se viu, o que se sentiu, com um estilo preciso ou por uma expressão artisticamente cinzelada, que maravilha. Será preciso ainda felicitá-lo?

MINHAS PRIMEIRAS IMPRESSÕES DA AMÉRICA DO NORTE

Tenho de cumprir a promessa de dizer em poucas palavras minhas impressões sobre a América do Norte. Não é tão simples assim. Porque nunca é simples julgar como observador imparcial, quando se foi acolhido com tanta afeição e exagerada estima quanto o fui na América.

Por isto, uma observação prévia:

O culto da personalidade é a meus olhos sempre injustificado. É claro, a natureza reparte seus dons de maneira muito diferente entre seus filhos. Mas, graças a Deus, existe grande número de filhos generosamente dotados e, na maior parte, levam uma vida tranquila e sem história. Parece-me portanto injusto e até de mau gosto, ver umas poucas pessoas incensadas com exagero e, além do mais, gratificadas com forças sobre-humanas de inteligência e de caráter. É este meu destino! Ora, existe um contraste grotesco entre as capacidades e os poderes que os homens me atribuem e aquilo que sou e o que posso. A consciência deste estado de coisas falacioso seria insuportável, se uma soberba compensação não me consolasse. Porque é um sinal encorajador em nossa época, tida por tão materialista, que transforme homens em heróis, quando as finalidades de tais heróis se manifestam exclusivamente no domínio intelectual e moral. Isto prova que o conhecimento e a justiça são, para grande parte da humanidade, julgados superiores à fortuna e ao poder. Minhas experiências me mostraram a predominância desta estrutura ideológica em grau elevado nesta América acusada de ser tão materialista. Depois desta digressão, vou falar de meu assunto, mas, peço, não dêem a minhas modestas observações mais importância do que têm.

Para um visitante, a primeira e mais viva admiração é provocada pela assombrosa superioridade técnica e racional deste país. Mesmo os objetos de uso comum são mais resistentes e mais sólidos do que na Europa, e as casas tão mais funcionais! Tudo é calculado para economizar o trabalho humano. Porque este é caro, uma vez que o país é pouco povoado em comparação com os recursos naturais. Mas b preço elevado da mão-de-obra estimula e desenvolve de modo fabuloso os meios técnicos e os métodos de trabalho. Por contraste, pensa-se na Índia ou na China, superpovoadas, em que o irrisório preço da mão-de-obra humana impediu o desenvolvimento dos meios técnicos. A Europa ocupa posição intermediária. Quando o maquinismo se desenvolve

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bastante, ele se torna rentável e custa menos do que a mão-de-obra humana. Na Europa, os fascistas deveriam refletir sobre isto! Porque, por motivos de política a curto prazo, trabalham por aumentar a densidade da população em suas respectivas pátrias. Por outro lado, os Estados Unidos, mais reservados, se fecham sobre si mesmos por um sistema de imposto proibitivo sobre as mercadorias estrangeiras. Pode-se exigir de um visitante inofensivo que quebre a cabeça? Pode-se realmente estar seguro de que cada pergunta comporta uma resposta inteligente?

Segunda surpresa para o visitante; presta atenção na atitude americana feliz e positiva diante da vida. Nas fotografias nota-se este sorriso dos seres, símbolo de uma das principais forças dos americanos. Mostra-se amável, consciente de seu valor, otimista e sem inveja, ao passo que o europeu julga os contactos com os americanos inocentes e agradáveis.

Em compensação, o europeu demonstra espírito crítico, forte consciência de si, falta de generosidade e de auxílio mútuo, exige muito de seus divertimentos e de suas leituras, relativamente aos americanos. Mas no final das contas, revela-se bastante pessimista.

A vida suave, o conforto têm um lugar importante nos Estados Unidos. Sacrificam-lhes fadiga, preocupação e tranquilidade. O americano vive mais em função de uma meta precisa e para o futuro do que o europeu. A vida, para ele, é mais um devir, não um estado. Neste sentido é radicalmente diferente do russo e do asiático, mais ainda do que do europeu.

Todavia existe outro domínio em que o americano se assemelha mais ao asiático do que o europeu. Reconhece ser menos estritamente egotista do que o europeu, encarado psicologicamente e não economicamente.

Fala-se mais “nós” do que “eu”. Sem dúvida, isto resulta de que os usos e a convenção ocupam lugar importante, o ideal de vida dos indivíduos e sua atitude moral e estética parecem mais conformistas do que na Europa. Este fato explica em grande parte a superioridade econômica americana sobre a Europa. Com efeito, com mais rapidez, mais facilidade do que na Europa se organizam o trabalho, sua repartição, eficácia na fábrica, na universidade ou até em um instituto particular de beneficência. Esta atitude social talvez provenha parcialmente da influência inglesa.

Violento contraste, enfim, com os comportamentos europeus: a zona de influência do Estado é relativamente fraca. O europeu admira-se de que o telégrafo, o telefone, as estradas de ferro, a escola pertençam na maioria a sociedades particulares. Já explicamos isso acima. A atitude mais social do indivíduo o permite. Além do mais, a repartição fundamentalmente desigual dos bens não provoca as desigualdades insuportáveis sempre pela mesma razão. O senso de responsabilidade social dos ricos se revela mais vivo aqui do que na Europa. Acham muito natural consagrar grande parte de sua fortuna, e até mesmo de sua atividade, a serviço da comunidade. Imperiosamente, a opinião pública (poderosa!) o exige deles. Acontece então que as funções culturais mais importantes podem ser confiadas à iniciativa particular e que o raio de ação do Estado neste país seja relativamente bastante reduzido.

Contudo o prestígio da autoridade do Estado diminuiu singularmente por causa da Lei Seca. Nada é mais prejudicial, para o prestígio da lei e do Estado, do que promulgar leis sem ter os meios para fazê-la respeitar. É uma evidência reconhecida que o índice crescente de criminalidade neste Estado depende estreitamente desta lei.

Sob outro aspecto, a proibição contribui, no meu entender, para o enfraquecimento do Estado. O botequim oferecia um lugar onde os homens tinham a oportunidade de trocar suas ideias e opiniões sobre os negócios públicos. Oportunidade que aqui desaparece, a meu ver, a ponto de fazer com que a imprensa, controlada em grande parte pelos grupos interessados, exerça uma influência determinante e sem contraste sobre a opinião pública.

O inegável valor do dinheiro neste país se revela ainda mais forte do que na Europa, mas parece-me decrescer. Aos poucos se substitui a idéia de que uma grande fortuna não é mais indispensável para uma vida feliz e próspera.

No plano artístico, sinto a mais viva admiração pelo gosto que se manifesta nas construções modernas e nos objetos da vida diária. Em compensação, relativamente à Europa, julgo o povo americano menos aberto para as artes plásticas e para a música.

Admiro profundamente os resultados dos institutos de pesquisa científica. Entre nós, com

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muita injustiça, se interpreta a superioridade crescente da pesquisa americana exclusivamente como fruto do poder do dinheiro. Ora, devotamento, tolerância, espírito de equipe, senso da cooperação contribuem de modo singular para seu sucesso. Para terminar, uma observação! Os Estados Unidos, hoje, representam a força mundial tecnicamente mais avançada. Sua influência sobre a organização das relações internacionais nem se pode medir. Mas a grande América e seus habitantes ainda não manifestaram até agora profundo interesse pelos grandes problemas internacionais, e sobretudo por aquele, terrivelmente atual, do desarmamento. Isto deve mudar, no interesse mesmo dos americanos. A última guerra provou que não há mais continentes isolados, mas que os destinos de todos os povos estão hoje estreitamente imbricados. Por conseguinte, será preciso que este povo se convença de que cada habitante seu tem uma grande responsabilidade no domínio da política internacional. Este país não deve se resignar com a função de observador inativo, esta função com o correr do tempo se revelaria nefasta para todos.

RESPOSTA ÀS MULHERES AMERICANAS

Uma liga de mulheres americanas julgou dever protestar contra a entrada de Einstein em sua pátria. Recebeu a seguinte resposta:

“Jamais encontrei, da parte do belo sexo, reação tão enérgica contra uma tentativa de aproximação. Se por acaso isto aconteceu, jamais, em uma só vez, tantas mulheres me repeliram”.

Não têm razão, estas cidadãs vigilantes? Deve-se acolher um homem que devora os capitalistas calejados com o mesmo apetite, a mesma volúpia com que, outrora, o Minotauro cretense devorava as delicadas virgens gregas e que, além do mais, se revela tão grosseiro que recusa todas as guerras, com exceção do inevitável conflito com a própria esposa? Escutai portanto, vós, mulheres prudentes e patriotas; lembrai-vos também que o Capitólio da poderosa Roma foi outrora salvo pelo cacarejar de suas fiéis patas.

 

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CAPÍTULO II

Política e pacifismo

 

SENTIDO ATUAL DA PALAVRA PAZ

Os gênios mais notáveis das antigas civilizações sempre preconizaram a paz entre as nações. Compreendiam sua importância. Mas hoje, esta posição moral é rechaçada pelos progressos técnicos. E nossa humanidade civilizada descobre o novo sentido da palavra paz: significa sobrevivência. Do mesmo modo, seria concebível que um homem, em sã consciência, pudesse fugir à sua verdadeira responsabilidade diante do problema da paz?

Em todos os países do mundo, grupos industriais poderosos fabricam armas ou participam de sua fabricação; em todos os países do mundo, eles se opõem à resolução pacífica do menor litígio internacional. Contra eles, porém, os governos atingirão este objetivo. essencial da paz, quando a maioria dos eleitores os apoiar energicamente. Porque vivemos em regime democrático e nosso destino e o de nosso povo dependem inteiramente de nós.

A vontade coletiva se inspirará nesta íntima convicção pessoal.

COMO SUPRIMIR A GUERRA

Minha responsabilidade na questão da bomba atômica se limita a uma única intervenção: escrevi uma carta ao Presidente Roosevelt. Eu sabia ser necessária e urgente a organização de experiências de grande envergadura para o estudo e a realização da bomba atômica. Eu o disse. Conhecia também o risco universal causado pela descoberta da bomba. Mas os sábios alemães se encarniçavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances para resolvê-lo. Assumi portanto minhas responsabilidades. E no entanto sou apaixonadamente um pacifista e minha maneira de ver não é diferente diante da mortandade em tempo de guerra e diante de um crime em tempo de paz. Já que as nações não se resolvem a suprimir a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma arbitragem pacífica e não baseiam seu direito sobre a lei, elas se vêem inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra. Participando da corrida geral dos armamentos e não querendo perder, concebem e executam os planos mais detestáveis. Precipitam-se para a guerra. Mas hoje, a guerra se chama o aniquilamento da humanidade.

Protestar hoje contra os armamentos não quer dizer nada e não muda nada. Só a supressão definitiva do risco universal da guerra dá sentido e oportunidade à sobrevivência do mundo. Daqui em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalável decisão: lutar contra a raiz do mal e não contra os efeitos. O homem aceita lucidamente esta exigência. Que importa que seja acusado de anti-social ou de utópico?

Gandhi encarna o maior gênio político de nossa civilização. Definiu o sentido concreto de uma política e soube encontrar em cada homem um inesgotável heroísmo quando descobre um objetivo e um valor para sua ação. A Índia, hoje livre, prova a justeza de seu testemunho. Ora, o poder material, em aparência invencível, do Império Britânico foi submergido por uma vontade inspirada por idéias simples e claras.

QUAL O PROBLEMA DO PACIFISMO?

Senhoras, Senhores,

Meus agradecimentos por me permitirem exprimir minhas idéias sobre este problema.

Alegro-me por terem os senhores me proporcionado a ocasião de expor brevemente o

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problema do pacifismo. A evolução dos últimos anos de novo pôs em foco como temos poucas razões para confiar aos governos a responsabilidade na luta contra os armamentos e as atitudes belicosas. Mas também a formação de. grandes organizações, mesmo com muitos membros, não pode por si só nos aproximar da meta. Continuo a afirmar que o meio violento da recusa do serviço militar é o melhor. É proclamado por organizações que, em vários países, ajudam moral e materialmente os corajosos objetores de consciência.

Por este meio podemos mobilizar os homens quanto ao problema do pacifismo. Porque esta questão, posta assim tão direta e concretamente, interpela as naturezas íntegras sobre esse tipo de combate. Porque, na verdade, trata-se de um combate ilegal, mas de um combate pelo direito real dos homens contra seus governos, já que estes exigem de seus cidadãos atos criminosos.

Muitos bons pacifistas não gostariam de praticar o pacifismo desta maneira, invocando razões patrióticas.

Nos momentos críticos, porém, poder-se-á contar com eles. A guerra mundial provou-o cabalmente.

Agradeço-lhes sinceramente por me terem dado a ocasião de lhes manifestar de viva voz minha opinião.

ALOCUÇÃO NA REUNIÃO DOS ESTUDANTES PELO DESARMAMENTO

Graças às descobertas da ciência e da técnica, as últimas gerações nos ofereceram um magnífico presente de valor: poderemos nos libertar e embelezar nossa vida como nunca outras gerações o puderam fazer. Mas este presente traz consigo perigos para nossa vida, como nunca antes.

Hoje, o destino da humanidade civilizada repousa sobre os valores morais que consegue suscitai em si mesma. Por isto a tarefa de nossa época de modo algum é mais fácil do que as realizadas pelas últimas gerações.

Aquilo de que os homens precisam como alimentação e bens de uso corrente pode ser satisfeito ao cabo de horas de trabalho infinitamente mais reduzidas. Em compensação, o problema da repartição do trabalho e dos produtos fabricados se mostra cada vez mais difícil. Percebemos todos que o livre jogo das forças econômicas, o esforço desordenado e sem freio dos indivíduos para adquirir e dominar já não conduzem mais, automaticamente, a uma solução suportável deste problema. É preciso uma ordem planificada para a produção dos bens, o emprego da mão-de-obra e a repartição das mercadorias fabricadas; trata-se de evitar o desaparecimento ameaçador de importantes recursos produtivos, o empobrecimento e o retorno ao estado selvagem de grande parte da população.

Contudo, se na vida econômica o egoísmo, “monstro sagrado”, acarreta consequências nefastas, na vida política internacional causa estragos ainda mais atrozes. Agora os progressos da técnica militar tornam possível o extermínio de toda a vida humana, a menos que os homens descubram, e bem depressa, os meios de se protegerem contra a guerra. Este ideal é capital e os esforços até hoje empregados para atingi-lo são ainda ridiculamente insuficientes. Procura-se atenuar o perigo pela diminuição dos armamentos e por regras limitativas no exercício do direito à guerra. Mas a guerra não é um jogo de sociedade onde os parceiros respeitam escrupulosamente as regras. Quando se trata de ser ou de não ser, regras e compromissos não valem nada. Somente a rejeição incondicional da guerra pode salvar-nos. Porque a criação de uma corte de arbitragem não basta de forma alguma nesta circunstância. Seria preciso que também os tratados incluíssem a afirmação de que as decisões de semelhante corte seriam aplicadas coletivamente por todas as nações. Afastada esta certeza, jamais as nações assumirão o risco do desarmamento.

Imaginemos! Os governos americano, inglês, alemão, francês exigem do governo japonês a imediata cessação das hostilidades contra a China, sob pena de um boicote estrito de todas as mercadorias “made in Japan”. Julgam os senhores que um governo japonês assumiria para seu país um risco tão grande? Ora, contra toda a evidência isto não se deu. Por quê? Cada pessoa, cada nação receia verdadeiramente por sua existência. Por quê? Porque cada qual só tem em vista o

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próprio proveito, imediato e desprezível, e não quer considerar primeiro o bem e o proveito da comunidade.

Por isso eu lhes declarei, logo de início, que o destino da humanidade repousa essencialmente e mais do que nunca sobre as forças morais do homem. Se quisermos uma vida livre e feliz, será absolutamente necessário haver renúncia e restrição.

Onde haurir forças para semelhante modificação? Alguns já desde a juventude tiveram a possibilidade de fortalecer o espírito pelo estudo e de manter um modo claro de julgar. São os antigos, eles olham para os senhores e esperam que lutem com todas as energias com o fito de obter afinal aquilo que nos foi recusado.

SOBRE O SERVIÇO MILITAR

Extrato de uma carta

Em vez de autorizar o serviço militar na Alemanha, dever-se-ia proibi-lo em todos os países e não admitir um exército a não ser o dos mercenários, podendo-se discutir sobre sua importância e armamento. A França, por este meio, se tranquilizaria, mesmo que se satisfaça com a compensação dada à Alemanha. Deste modo se impediria o desastre psicológico provocado pela educação militar do povo e a morte dos direitos do indivíduo inerentes a esta pedagogia.

Que vantagem evidente para dois Estados, de pleno acordo, em dirimir seus inevitáveis conflitos por um arbitramento, e que progresso poder unificar sua organização militar de profissionais em um único corpo de quadros mistos! Que economia financeira e que aumento de segurança para os dois países! Um arranjo assim poderia estimular uniões cada vez mais estreitas e até chegar a uma polícia internacional que se reduziria à medida que a segurança internacional crescesse.

Querem discutir esta proposta-sugestão com nossos amigos? Não quero defendê-la de modo especial. Mas julgo indispensável que nos apresentemos com programas concretos. Porque ficar só em posição de defesa não oferece nenhum interesse estratégico.

A SIGMUND FREUD

Muito caro Senhor Freud,

Sempre admirei sua paixão para descobrir a verdade. Ela o arrebata acima de tudo. O senhor explica com irresistível clareza o quanto na alma humana os instintos de luta e de aniquilamento estão estreitamente relacionados com os instintos do amor e da afirmação da vida. Ao mesmo tempo, suas exposições rigorosas revelam o desejo profundo e o nobre ideal do homem que quer se libertar completamente da guerra. Por esta profunda paixão se reconhecem todos aqueles que, superando seu tempo e sua nação, foram julgados mestres, espirituais ou morais. Descobrimos o mesmo ideal em Jesus Cristo, em Goethe ou em Kant! Não é bastante significativo ver que estes homens foram reconhecidos universalmente como mestres apesar de terem fracassado em sua vontade de estruturar as relações humanas?

Estou persuadido de que os homens excepcionais que ocupam a posição de mestres graças a seus trabalhos (mesmo em círculo bem restrito) participam deste mesmo nobre ideal. Não têm grande influência sobre o mundo político. Em compensação, a sorte das nações depende, ao que parece, inevitavelmente de homens políticos, sem nenhum escrúpulo e sem qualquer senso de responsabilidade.

Tais chefes e governos políticos obtêm seu cargo seja pela violência seja por eleições populares. Não podem se apresentar como representantes da parte intelectual e moralmente superior das nações. Quanto à elite intelectual, não exerce influência alguma sobre o destino dos povos. Dispersa demais, não pode nem trabalhar, nem colaborar quando se trata de resolver um problema

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urgente. Sendo assim, não pensa o senhor que uma associação livre de personalidades — garantindo suas capacidades e a sinceridade da vontade por suas ações e criações anteriores — não poderia propor realmente um programa novo? Uma comunidade de estrutura internacional, na qual os membros se obrigariam a ficar em contacto por permanente intercâmbio de suas opiniões, poderia tomar posição na imprensa, mas sempre sob a responsabilidade estrita dos signatários, e exercer influência significativa e moralmente sadia na resolução de um problema político. Evidentemente, tal comunidade se veria a braços com os mesmos inconvenientes que, nas academias de ciência, provocam tantas vezes pesados malogros. São os riscos inerentes, indissoluvelmente ligados à fraqueza da natureza humana. Apesar do que, não seria preciso tentar uma associação deste gênero? Para mim, julgo-a um dever imperioso.

Se se chegasse a concretizar semelhante associação intelectual, ela teria de procurar educar sistematicamente as organizações religiosas no sentido de se baterem contra a guerra. Daria força moral a muitas personalidades cuja boa vontade se vê esterilizada por penosa resignação. Creio enfim que uma associação com tais membros, inspirando imenso respeito bem justificado por suas obras intelectuais, daria precioso apoio moral às forças da Sociedade das Nações que realmente consagram suas atividades ao nobre ideal dessa instituição.

Submeto-lhe estas idéias, ao senhor mais do que a qualquer outro, porque o senhor é menos vulnerável do que qualquer um às quimeras e seu espírito crítico se baseia em um sentimento muito profundo da responsabilidade.

AS MULHERES E A GUERRA

Na minha opinião, na próxima guerra, dever-se-ia mandar para as primeiras linhas as mulheres patriotas de preferência aos homens. Isto seria pela primeira vez uma novidade neste mundo desesperado de horror infinito e, além disso, por que não utilizar os sentimentos heróicos do belo sexo de modo mais pitoresco do que em atacar um civil sem defesa?

TRÊS CARTAS A AMIGOS DA PAZ

1. Soube que, por inspiração de seus nobres sentimentos e levado pelo amor dos homens e de seu destino, o senhor realiza quase secretamente maravilhas. Raros são aqueles que olham com os próprios olhos e sentem com a própria sensibilidade. Unicamente estes poderiam evitar que os homens venham de novo a mergulhar no clima de apatia, hoje proposto como inelutável a uma desorientada massa.

Possam os povos abrir os olhos, compreender o valor da renúncia nacional indispensável para evitar a mortandade de todos contra todos! O poder da consciência e do espírito internacional ainda é tímido demais. No momento atual revela-se mais fraco ainda, já que tolera um pacto com os piores inimigos da civilização. Neste nível, a diplomacia da conciliação se chama crime contra a humanidade, mesmo se a defendem em nome da sabedoria política.

Não podemos desesperar dos homens, pois nós mesmos somos homens. E é um consolo pensar que existem personalidades como o senhor, vivas e leais.

2. Devo confessar que uma declaração, do tipo da que vai junto, não representa, a meu ver, valor algum para um povo que em tempo de paz se submete ao serviço militar. Sua luta deve procurar ter como resultado a liberação de qualquer obrigação militar. O povo francês pagou terrivelmente caro sua vitória de 1918! E no entanto, apesar do peso desta experiência, o serviço militar mantém a França na mais ignóbil de todas as espécies de servidão.

Seja portanto infatigável nesta luta! O senhor tem mesmo aliados objetivos entre os reacionários e militaristas alemães. Porque se a França se aferra à idéia do serviço militar obrigatório, não lhe será possível, com o tempo, proibir a introdução desse serviço na Alemanha. Então fatalmente se chegará à reivindicação alemã da igualdade dos direitos. Para cada escravo militar francês, haverá dois escravos militares alemães. Será que isto concordaria com os interesses

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franceses? Só a supressão radical do serviço militar obrigatório autoriza imaginar a educação da juventude no espírito de reconciliação, na afirmação das forças da vida e no respeito de todas as formas vivas.

Creio que a recusa ao serviço militar, pela objeção de consciência simultaneamente afirmada por cinquenta mil convocados ao serviço, teria um poder irresistível. Porque um indivíduo sozinho não pode obter muita coisa e não se pode desejar que seres do maior valor sejam entregues ao aniquilamento pelo abominável monstro de três cabeças: estupidez, medo, cobiça.

3. Em sua carta o senhor analisou um ponto absolutamente essencial. A indústria dos armamentos representa concretamente o mais terrível perigo para a humanidade. Mascara-se, poderosa força maligna, por trás do nacionalismo que se estende por toda parte.

A nacionalização do Estado poderia sem dúvida oferecer alguma utilidade. Mas a delimitação das indústrias interessadas parece muito complicada. Incluirão a indústria aeronáutica? e em que proporções nelas entrarão a indústria metalúrgica, a indústria química?

Quanto à indústria das munições e o comércio do material de guerra, a Sociedade das Nações, já há anos, se esforça por exercer um controle sobre este tráfico abominável. Mas, quem ignora o malogro desta política? No ano passado, perguntei a um diplomata americano de renome por que, mediante um boicote comercial, não se impedia o Japão de perseverar em sua política de ataques? Resposta: “nossos interesses econômicos estão por demais implicados”. Como ajudar a indivíduos de tal forma cegos por tais respostas? E o senhor crê que uma palavra minha seria suficiente para obter um resultado neste campo! Que engano! Enquanto não os atrapalho, os homens me elogiam. Mas se tento defender uma política desagradável a seus olhos, insultam-me e caluniam-me a fim de protegerem seus interesses. Quanto aos indiferentes, eles se refugiam na maior parte do tempo numa atitude de covardia. Ponha à prova a coragem cívica de seus concidadãos! A divisa tacitamente aceita se revela: “assunto tabu... nem um pio!” Pode estar certo, empregarei todas as forças para executar o que puder, no sentido que o senhor me indica. Mas pela via direta, como me sugere, não há nada a tentar.

PACIFISMO ATIVO

Considero-me muito feliz por assistir a esta grande manifestação pacifista, organizada pelo povo flamengo. Pessoalmente sinto necessidade de falar diante de todos os que aqui participam, em nome daqueles que pensam como os senhores e têm as mesmas angústias diante do futuro: “Nós nos sentimos profundamente unidos aos senhores nestes momentos de recolhimento e de tomada de consciência.”

Não temos o direito de mentir a nós mesmos. A melhoria das condições humanas atuais, constrangedoras e desesperadoras, não pode ser imaginada como possível sem terríveis conflitos. Porque o pequeno número de pessoas decididas aos meios radicais pesa pouco diante da massa dos hesitantes e dos recuperados.* E o poder das pessoas diretamente interessadas na manutenção da máquina da guerra continua considerável. Não recuarão diante de nenhum processo para obrigar a opinião pública a se dobrar diante de suas exigências criminosas.

Segundo todas as aparências, os estadistas atualmente no poder têm por objetivo estabelecer de modo duradouro uma paz sólida. Mas o incessante aumento das armas prova claramente que estes estadistas não têm peso diante das potências criminosas que só querem preparar a guerra. Continuo inabalável neste ponto: a solução está no povo, somente no povo. Se os povos quiserem escapar da escravidão abjeta do serviço militar, têm de se pronunciar categoricamente pelo desarmamento geral. Enquanto existirem exércitos, cada conflito delicado se arrisca a levar à guerra.

Um pacifismo que só ataque as políticas de armas dos Estados é impotente e permanece impotente.

Que os povos compreendam! Que se manifeste sua consciência! Assim galgaríamos nova

* Recuperado. Do francês recupere, soldado reformado que é recrutado para a guerra. (N. do E.).

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etapa no progresso dos povos entre si e nos recordaríamos do quanto a guerra foi a incompreensível loucura de nossos antepassados!

UMA DEMISSÃO

Ao secretário alemão da Sociedade das Nações

Prezado Senhor Dufour-Feronce,

Não quero deixar sua amável carta sem resposta porque o senhor poderia se enganar ao considerar meu ponto de vista. Minha decisão de não mais comparecer a Genebra baseia-se na evidência adquirida por dolorosa experiência: a comissão em geral não manifesta em suas sessões a firme vontade de realizar os progressos indispensáveis para as relações internacionais. Muito ao contrário, assemelha-se a uma paródia do adágio ut aliquid fieri videatur.* Vista deste modo, a comissão me parece até mesmo pior do que a Sociedade das Nações em conjunto.

Por ter querido me bater com todas as forças pela criação de uma Corte Internacional de Arbitragem e de regulamentação colocada acima dos Estados, e porque este ideal representa muitíssimo para mim, creio dever deixar esta Comissão.

A Comissão aprovou a repressão das minorias culturais nos vários países porque, nestes mesmos países, ela constituiu uma “Comissão Nacional”, único laço teórico entre os intelectuais do Estado e a Comissão. Esta política deliberada afasta-a de sua função própria: ser um apoio moral para as minorias nacionais contra toda opressão cultural.

Além disso, a Comissão manifestou uma atitude de tal forma hipócrita em face do problema da luta contra as tendências chauvinistas e militaristas do ensino nos diversos países, que não se pode esperar tenha uma atitude decisiva nesse domínio essencial, fundamental.

A Comissão constantemente se dispensou de ser o apoio de personalidades ou de organizações que, de modo irrecusável, se empenharam por uma ordem jurídica internacional e contra o sistema militar.

A Comissão jamais tentou impedir a integração de membros que bem sabia serem representantes de correntes de idéias fundamentalmente diversas daqueles que tinha a obrigação de representar.

Não quero mais enumerar outras acusações, pois estas poucas objeções dão suficiente motivo para se compreender minha decisão. Não quero no entanto me arvorar em acusador. Mas devia explicações sobre minha atitude. Se eu tivesse uma esperança, ainda que fosse mínima, teria agido de modo diferente, pode crer.

SOBRE A QUESTÃO DO DESARMAMENTO

A realização de um plano de desarmamento era ainda mais complicada porque, em geral, não se encarava claramente a enorme complexidade do problema. De ordinário a maioria dos objetivos se obtém por escalões sucessivos. Lembremo-nos por exemplo da transformação da monarquia absoluta em democracia! Mas aqui o objetivo não suporta nenhum escalão.

Com efeito, enquanto a possibilidade da guerra não for radicalmente supressa, as nações não consentirão em se despojar do direito de se equipar militarmente do melhor modo possível para esmagar o inimigo de uma futura guerra. Não se poderá evitar que a juventude seja educada com as tradições guerreiras, nem que o ridículo orgulho nacional seja exaltado paralelamente com a mitologia heróica do guerreiro, enquanto for necessário fazer vibrar nos cidadãos esta ideologia para a resolução armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente isto: não aprovar e nem organizar a paz, mas dizer sim à guerra e prepará-la. Sendo assim, não se pode desarmar por etapas, mas de uma vez por todas ou nunca.

* “Para dar a impressão de que se faz algo.” (N. do E.).

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Na vida das nações, uma realização de estrutura tão profundamente diferente implica uma força moral nova e uma recusa consciente de tradições fundamente arraigadas. Aquele que não está pronto a entregar, em caso de conflito e sem condições, o destino de seu país às decisões de uma Corte internacional de arbitragem e que não está pronto a se comprometer solenemente e sem reservas a isto por um tratado, não está realmente decidido a eliminar as guerras. A solução é clara: tudo ou nada.

Até este momento, os esforços empregados para conseguir a paz fracassaram, porque ambicionavam somente resultados parciais insuficientes.

Desarmamento e segurança só se conquistam juntos, A segurança não será real a não ser que todas as nações tomem o compromisso de executar por completo as decisões internacionais.

Estamos portanto na encruzilhada dos caminhos. Ou tomaremos a estrada da paz ou a estrada já frequentada da força cega, indigna de nossa civilização. É esta nossa escolha e por ela seremos responsáveis! De um lado, liberdade dos indivíduos e segurança das comunidades nos esperam. Do outro, servidão dos indivíduos e aniquilamento das civilizações nos ameaçam. Nosso destino será aquele que escolhermos.

A RESPEITO DA CONFERÊNCIA DO DESARMAMENTO EM 1932

1. Consentem que comece por uma profissão de fé política? Ei-la. O Estado foi criado para os homens, e não o inverso. Pode-se apresentar o mesmo arrazoado tanto para a Ciência quanto para o Estado. Velhas máximas buriladas por seres que situavam a pessoa humana no cume da hierarquia dos valores! Eu teria vergonha de repeti-las, se não estivessem sempre ameaçadas de mergulhar no esquecimento, sobretudo em nossa época de organização e de rotina. Ora, a tarefa principal do Estado consiste nisto: proteger o indivíduo, oferecer-lhe a possibilidade de se realizar como pessoa humana criativa.

O Estado deve ser nosso servidor e não temos obrigação de ser seus escravos. Esta lei fundamental é vilipendiada pelo Estado, quando nos constrange à força ao serviço militar e à guerra. Nossa função de escravos se exerce então para aniquilar os homens de outros países ou para prejudicar a liberdade de seu progresso. Consentir em certos sacrifícios ao Estado só é um dever quando contribuem para o progresso humano dos indivíduos. Estas proposições talvez pareçam evidentes para um americano, mas de modo algum para um europeu. Por este motivo, esperamos que a luta contra a guerra desperte poderoso eco entre os americanos.

Falemos agora desta conferência do desarmamento. Refletindo sobre ele, devemos sorrir, chorar ou esperar? Imaginem uma cidade habitada por cidadãos irascíveis, desonestos e rixentos. Seria permanente o risco de morrer e permanente, portanto, a terrível angústia, neutralizando qualquer evolução normal. A autoridade da cidade quer então suprimir estas condições pavorosas... mas cada magistrado e concidadão não aceita, sob nenhuma condição, que lhe proíbam trazer um punhal no cinto! Depois de longos anos de preparação, a autoridade decide debater em público o problema e propõe este tema de discussão: comprimento e corte do punhal individual autorizado a ser trazido no cinto durante os passeios?

Enquanto os cidadãos conscientes não tomarem a dianteira graças à lei, à justiça e à polícia para impedir as punhaladas, a situação ficará a mesma. A determinação do comprimento e do corte dos punhais autorizados só favorecerá os violentos e belicosos e lhes submeterá os mais fracos. Os senhores compreendem todo o sentido desta comparação. Temos com efeito uma Sociedade das Nações e uma Corte de Arbitragem. Mas a Sociedade das Nações mais se parece a uma sala de reunião do que a uma assembléia e a Corte não tem meios de fazer respeitar seus vereditos. Em caso de agressão, nenhum Estado encontrará segurança junto da Sociedade das Nações. Não se esqueçam, pois, desta evidência quando avaliarem a posição da França e sua recusa de se desarmar, sem segurança. Os senhores julgarão então com menor severidade do que se costuma fazer.

Continuar: parte 2 de 2