Como Vejo o Mundo

Albert Einstein · Capítulo 3 de 6

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Como Vejo o Mundo

Resposta de Albert Einstein

Le Coq/Mer, 21 de abril de 1933

Baseei minha demissão da Academia das Ciências da Prússia nesta evidência: na situação atual, não posso ser cidadão alemão nem me encontrar, seja de que modo for, sob a tutela do Ministério da Instrução Pública da Prússia. Esta razão por si só não me obrigaria a uma ruptura com a Academia da Baviera. No entanto, se desejo que meu nome seja riscado da lista dos membros correspondentes, tenho uma outra razão. As Academias reconhecem como principal responsabilidade sua a promoção e a salvaguarda da vida científica de um país. Ora, as comunidades culturais alemães, na medida em que posso sabê-lo, aceitaram sem protestos que uma parte não pequena de sábios e de estudantes alemães, bem como de trabalhadores dependentes da instrução acadêmica, tivesse sido privada da possibilidade de trabalho e até mesmo de viver na Alemanha! Com uma Academia que tolera semelhante segregação, mesmo por constrangimento exterior, eu jamais poderei colaborar!

RESPOSTA AO CONVITE PARA PARTICIPAR DE UMA MANIFESTAÇÃO

Estas linhas são a resposta ao convite dirigido a Einstein para participar de uma manifestação francesa contra o anti-semitismo alemão.

Analisei cuidadosamente, sob todos os pontos de vista, seu pedido tão importante. Porque ele me diz respeito de modo muito íntimo. Recuso-me a participar de sua manifestação, malgrado sua extrema importância, por duas razões:

Em primeiro lugar, sou ainda cidadão alemão, e em segundo, sou judeu. Não me esqueço de que trabalhei em instituições alemãs e fui considerado na Alemanha uma pessoa de confiança. Mesmo sofrendo e deplorando que fatos tão inquietadores se estejam produzindo em meu país, mesmo devendo condenar as terríveis aberrações que se realizam com a cumplicidade do governo, não posso colaborar pessoalmente com uma organização provinda de personalidades oficiais de um governo estrangeiro. Para avaliar corretamente este ponto de vista, peço-lhe imaginar um cidadão francês, colocado em idêntica situação, quer dizer, organizando com eminentes políticos alemães uma manifestação contra as decisões do governo francês. Mesmo que julgasse perfeitamente fundada esta atitude, o senhor com toda a probabilidade consideraria a participação de seu concidadão um ato de traição! Se Zola, por ocasião da questão Dreyfus, tivesse sido obrigado a deixar a França, certamente não teria participado de uma manifestação de personalidades alemãs, ainda que, de fato, a aprovasse totalmente. Ele se isolaria, rubro de vergonha por seus compatriotas.

Eu sou judeu. Um protesto contra as injustiças e os atos de violência adquire incomparável valor significativo quando provém de pessoas que participam exclusivamente por sentimentos de humanidade e de amor da justiça. Mas eu, por ser judeu, considero os outros judeus meus irmãos e sinto a injustiça feita a um judeu como uma injustiça pessoal. Penso que não posso tomar partido. Mas espero que pessoas não diretamente envolvidas definam sua posição.

São estas as minhas razões. Não me esqueço de que sempre admirei e respeitei o elevado desenvolvimento do sentimento da justiça. Constitui um dos aspectos mais nobres da tradição do povo francês.

 

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CAPÍTULO IV

Problemas judaicos

 

OS IDEAIS JUDAICOS

A paixão pelo conhecimento em si mesmo, a paixão da justiça até o fanatismo e a paixão da independência pessoal exprimem as tradições do povo judeu e considero minha pertença a esta comunidade como um dom do destino.

Aqueles que hoje se desencadeiam contra os ideais de razão e de liberdade individual e que, com os meios do terror, querem reduzir os homens a escravos imbecis do Estado, nos consideram com justiça como seus irreconciliáveis adversários. A História já nos impôs um terrível combate. Mas, por longa que seja nossa defesa do ideal de verdade, de justiça e de liberdade, continuamos a existir como um dos mais antigos povos civilizados, e sobretudo realizamos no espírito da tradição um trabalho criador para a melhoria da humanidade.

HÁ UMA CONCEPÇÃO JUDAICA DO MUNDO?

Não penso que exista semelhante concepção do mundo, no sentido filosófico do termo. O judaísmo, quase exclusivamente, trata da moral, quer dizer, analisa uma atitude na e para a vida. O judaísmo encarna antes as concepções vivas da vida no povo judeu do que o resumo das leis contidas na Torá e interpretadas no Talmude. A Torá e o Talmude representam para mim o testemunho mais importante da ideologia judaica nos tempos de sua história antiga.

A natureza da concepção judaica da vida se traduz assim: direito à vida para todas as criaturas. A significação da vida do indivíduo consiste em tornar a existência de todos mais bela e mais digna. A vida é sagrada, representa o supremo valor a que se ligam todos os outros valores. A sacralização da vida supra-individual incita a respeitar tudo quanto é espiritual — aspecto particularmente significativo da tradição judaica.

O judaísmo não é uma fé. O Deus judeu significa a recusa da superstição e a substituição imaginária para este desaparecimento. Mas é igualmente a tentação de fundar a lei moral sobre o temor, atitude deplorável e ilusória. Creio no entanto que a possante tradição moral do povo judeu já se libertou amplamente deste temor. Compreende-se claramente que “servir a Deus” equivale a “servir à vida”. Com esta finalidade, as melhores testemunhas do povo judeu, em particular os profetas e Jesus, se bateram incansavelmente.

O judaísmo não é uma religião transcendente. Ocupa-se unicamente da vida que se leva, carnal por assim dizer, e de nada mais. Julgo problemático que possa ser considerado como religião no sentido habitual do termo, tanto mais que não se exige do judeu nenhuma crença, mas antes o respeito pela vida no sentido suprapessoal.

Existe enfim outro valor na tradição judaica, que se revela de modo magnífico em numerosos salmos. Uma espécie de alegria embriagadora, um maravilhar-se diante da beleza e da majestade do mundo exalta o indivíduo, mesmo que o espirito não consiga conceber sua evidência. Este sentimento, onde a verdadeira pesquisa vem haurir sua energia espiritual, lembra o júbilo expresso pelo canto dos pássaros diante do espetáculo da natureza. Aqui se manifesta uma espécie de semelhança com a idéia de Deus, um balbuciar de criança diante da vida.

Tudo isto caracteriza o judaísmo e não se encontra em outra parte sob outros nomes. Com efeito, Deus não existe para o judaísmo, onde o respeito excessivo pela letra esconde a doutrina pura. Contudo considero o judaísmo como um dos simbolismos mais puros e mais vivos da idéia de Deus, sobretudo porque recomenda o princípio do respeito à vida.

É revelador que, nos mandamentos relativos à santificação do Sabat, os animais sejam expressamente incluídos, de tal forma a comunidade dos vivos é percebida como um ideal. Mais

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nitidamente ainda se expressa a solidariedade entre os humanos, e não é por acaso que as reivindicações socialistas emanem sobretudo dos judeus.

Como é viva no povo judeu a consciência da sacralização da vida! É muito bem ilustrada até na historiazinha que Walter Rathenau me contou um dia: “Quando um judeu diz que caça por seu prazer, ele mente”. A vida é sagrada. A tradição judaica manifesta esta evidência.

CRISTIANISMO E JUDAÍSMO

Se se separa o judaísmo dos profetas, e o cristianismo tal como foi ensinado por Jesus Cristo de todos os acréscimos posteriores, em particular aqueles dos padres, subsiste uma doutrina capaz de curar a humanidade de todas as moléstias sociais.

O homem de boa vontade deve tentar corajosamente em seu meio, e na medida do possível, tornar viva esta doutrina de uma humanidade perfeita. Se realizar lealmente esta experiência, sem se deixar eliminar ou silenciar pelos contemporâneos, terá o direito de se julgar feliz, ele e sua comunidade.

COMUNIDADE JUDAICA

Discurso pronunciado em Londres

Tenho dificuldade em vencer minha atração por uma vida de retiro tranquilo. Todavia não posso me furtar ao apelo das sociedades O.R.T. e O.Z.E.*. Ele evoca o apelo de nosso povo judeu tão duramente perseguido. E eu lhe respondo.

A situação de nossa comunidade judaica dispersa pela terra indica igualmente a temperatura do nível moral no mundo político. Que poderia haver de mais revelador para avaliar a qualidade da moral política e do sentimento de justiça que a atitude das nações diante de uma minoria indefesa, cuja única singularidade consiste em querer manter uma tradição cultural?

Ora, esta qualidade está desaparecendo em nossa época. Nosso destino prova-o tragicamente. Porque a atitude dos homens para conosco fornece a prova: é preciso portanto consolidar e manter esta comunidade. A tradição do povo judeu comporta uma vontade de justiça e de razão, proveitosa para o conjunto dos povos de ontem e de amanhã. Spinoza e Karl Marx estavam impregnados desta tradição.

Quem quer manter o espírito deve se preocupar também com o corpo, que é seu invólucro. A sociedade O.Z.E. presta serviços ao corpo de nosso povo, no sentido literal da palavra. Na Europa Oriental, ela trabalha sem descanso para manter o bom estado físico de nosso povo, lá onde já é severamente oprimido na sobrevivência econômica, ao passo que a sociedade O.R.T. está a postos para conjurar uma terrível injustiça social e econômica a que o povo judeu está submetido desde a Idade Média. Com efeito, desde a Idade Média, as profissões diretamente produtivas nos foram proibidas, fomos então obrigados a nos entregar a profissões mercantis. Nos países orientais, ajudar realmente o povo judeu equivale a dar-lhe livre acesso a novos setores profissionais e por essa causa o povo judeu se bate no mundo inteiro. A sociedade O.R.T. trabalha com eficácia para resolver este problema delicado.

Os senhores, compatriotas ingleses, estão convidados para esta obra de grande envergadura, dela participando e continuando o trabalho criado por homens superiores. Nestes últimos anos, e mesmo nestes últimos dias, causaram-nos uma decepção que deve ser de grande interesse para todos os senhores. Não lamentemos nossa sorte! Mas procuremos encontrar no fato um motivo suplementar de viver e de manter nossa fidelidade à causa da comunidade judaica. Creio muito sinceramente que, de modo indireto, nós preservamos os objetivos comuns da humanidade. Ora, estes devem continuar a ser para nós os mais elevados.

* Sociedade de estímulo ao trabalho artesanal e agrícola. — Sociedade para a proteção da saúde dos judeus.

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Reflitamos também que dificuldades e obstáculos impelem à luta e a provocam, dando saúde e vida a toda a comunidade. A nossa não teria sobrevivido, se apenas tivéssemos vivido nos prazeres. Disto estou intimamente persuadido.

Um consolo ainda mais belo nos espera. Nossos amigos não são uma multidão, mas entre eles há homens de inteligência e senso moral elevadíssimos. Consideram um ideal de vida aperfeiçoar a comunidade humana e libertar os indivíduos de qualquer opressão aviltante.

Estamos contentes e felizes por contar entre nós hoje homens deste calibre. Não pertencem ao mundo judeu, mas conferem a esta importante sessão uma solenidade particular. Alegro-me por ver diante de mim Bernard Shaw e H. G. Wells. Suas concepções da vida me seduzem.

O senhor, Sr. Shaw, foi bastante feliz em ganhar a afeição e a estima alegre dos homens num terreno em que outros ganharam o martírio. Não apenas o senhor pregou a moral aos homens, mas soube zombar daquilo que para todos parecia um tabu inviolável. O que fez, somente um artista era capaz. O senhor fez surgir de sua caixinha mágica inúmeras figurinhas que se parecem com os homens, e criou-as, não de carne e osso, mas de espírito, de fineza e de graça. Elas chegam a se assemelhar aos homens mais do que nós próprios, tanto que esquecemos de que não se trata de criações da natureza, mas obra sua. O senhor movimenta estas figurinhas em um pequeno universo, onde as graças estão vigilantes e impedem todo o ressentimento. Quem quer que tenha observado este microscópico universo terá descoberto nosso universo real visto sob nova luz. Vê as figurinhas se introduzirem tão habilmente nos homens reais que estes de repente adquirem nova imagem, bem diferente da anterior. E por colocar nas mãos de todos nós o espelho, o senhor nos ensina a libertar-nos, como quase nenhum de nossos contemporâneos o soube fazer. Com isto o senhor retirou da existência algo de seu peso terrestre. Nós lhe estamos agradecidos do fundo do coração e aplaudimos o acaso que nos gratificou, através de penosos sofrimentos, com um médico da alma, com um libertador. Pessoalmente eu lhe agradeço pelas inesquecíveis palavras dirigidas a meu irmão mítico, que complica muito minha vida, embora em sua grandeza rija, honorífica, no fundo não passe de um camarada inofensivo.

Aos senhores, meus irmãos judeus, repito que a existência e o destino de nosso povo dependem menos de fatores exteriores que de nossa fidelidade às tradições morais que nos sustentaram durante séculos na vida, apesar das terríveis tempestades desencadeadas sobre nós. Sacrificar-se a serviço da vida equivale a uma graça.

ANTI-SEMITISMO E JUVENTUDE ACADÊMICA

Enquanto vivíamos num gueto, o fato de pertencermos ao povo judeu acarretava dificuldades materiais, às vezes até perigos físicos; em compensação jamais problemas sociais e psíquicos. Com a emancipação, a situação de fato se modificou radicalmente, em particular para os judeus que se encaminharam às profissões liberais.

O jovem judeu na escola e na universidade está sob a influência de uma sociedade estruturada de maneira nacional. Ele a respeita, admira-a, recebe sua bagagem intelectual; sente que lhe pertence, mas ao mesmo tempo percebe ser tratado por ela como estrangeiro, com um certo desdém e até alguma aversão. Mas arrastado pela sugestiva influência desta força psíquica superior mais do que por considerações utilitárias, ele se esquece de seu povo e de suas tradições e se considera definitivamente integrado aos outros, enquanto procura se disfarçar, a si e aos outros, mas sem resultado porque esta conversão é sempre unilateral. Assim se reconstitui a história do funcionário judeu convertido, ontem como hoje digna de lástima! As causas são, não a falta de caráter ou a ambição desmedida, mas antes, como já fiz notar, a força de persuasão de um ambiente mais ponderável em número e em influência. Evidentemente bom número de filhos muito dotados do povo judeu contribuiu largamente para os progressos da civilização européia, mas, com algumas exceções, seu comportamento não foi sempre desta natureza?

Como para todas as doenças psíquicas, a cura exige uma clara explicação da natureza e das causas do mal. Temos de elucidar perfeitamente nossa condição de estrangeiro e daí deduzir as consequências. É estúpido querer convencer outrem, mediante todo tipo de raciocínio, de nossa

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identidade intelectual e espiritual com ele. Porque a própria base de seu comportamento não é obtida pela mesma camada cerebral. Temos de emancipar-nos socialmente, encontrar por nós mesmos a solução para nossas necessidades sociais. Temos de formar nossas sociedades de estudantes, comportar-nos frente a não-judeus com toda a cortesia, mas com lógica. Queremos também viver a nosso modo, não imitar os costumes dos espadachins e dos beberrões. Nada disto nos diz respeito. Pode-se conhecer a cultura da Europa e viver como bom cidadão de um Estado, sem deixar de ser ao mesmo tempo um judeu fiel. Não nos esqueçamos disto e façamos assim! O problema do anti-semitismo, em sua manifestação social, será resolvido então.

DISCURSO SOBRE A OBRA DE CONSTRUÇÃO NA PALESTINA

1. Há dez anos, tive a alegria de encontrá-los pela primeira vez. Tratava-se de incrementar a idéia sionista e tudo ainda estava no futuro. Hoje, podemos encarar estes dez anos passados com alguma alegria. Porque neles, as forças conjuntas do povo judaico realizaram na Palestina uma obra magnífica de construção, perfeitamente eficaz e bem superior a nossas mais loucas esperanças.

Assim superamos a dura provação que os acontecimentos dos últimos anos nos infligiram. Um trabalho incessante, sustentado por uma ideologia elevada, conduz lenta mas seguramente ao êxito. As últimas declarações do governo inglês marcam uma volta a uma avaliação mais correta de nossa situação. Nós o reconhecemos com gratidão.

Todavia não nos esqueçamos nunca da lição desta crise. O estabelecimento de uma satisfatória cooperação entre judeus e árabes não é problema da Inglaterra, mas nosso. Nós, judeus e árabes, temos de nos pôr de acordo entre nós acerca das linhas diretrizes de uma política de comunidade eficaz e adaptada às necessidades dos dois povos. Uma solução honrosa, digna de nossas duas comunidades, exige de nós a seguinte convicção: o objetivo, capital e magnífico, conta tanto quanto a própria realização do trabalho. Reflitamos neste exemplo: a Suíça representa uma evolução estatal mais progressista do que qualquer outro Estado, justamente por causa da complexidade dos problemas políticos. Mas sua solução exige, por hipótese, uma constituição estável, já que se refere a uma comunidade formada de vários agrupamentos nacionais.

Muito ainda há por fazer. Mas um dos pontos mais ardentemente desejados por Herlz já foi alcançado. O trabalho pela Palestina ajudou o povo judeu a descobrir em si a solidariedade e a forjar para si uma disposição de ânimo. Porque todo organismo tem precisão dela para se desenvolver normalmente. Aquele que deseja compreendê-lo realmente pode ver hoje esta evidência.

Aquilo que realizamos para a obra comum, não a realizamos somente por nossos irmãos, na Palestina, mas para a moral e a dignidade de todo o povo judeu.

2. Estamos hoje reunidos para comemorar uma comunidade milenar, seu destino e seus problemas. É uma comunidade de tradição moral, que nos momentos de provação sempre revelou sua força e amor pela vida. Em todas as épocas, suscitou homens que encarnaram a consciência do mundo ocidental, e que defenderam a dignidade da pessoa humana e da justiça.

Enquanto esta comunidade for cara a nosso coração, ela se perpetuará para a salvação da humanidade, embora continue informal sua organização. Há algumas décadas, homens inteligentes, entre eles o inesquecível Herzl, pensaram que tínhamos necessidade de um centro espiritual para manter o sentimento de solidariedade no momento da provação. Assim se desenvolveu a idéia sionista e a colonização na Palestina. Pudemos ver os sucessos dessas realizações, sobretudo nos inícios cheios de promessas.

Com satisfação, foi-me dado verificar que esta obra tinha grande impacto no moral do povo judeu. Minoria dentro das nações, o judeu conhece problemas de coexistência, mas sobretudo tem de se haver com outros perigos, mais íntimos, inerentes à sua psicologia.

Nestes últimos anos, a obra de construção sofreu uma crise que pesou enormemente sobre nós e ainda não está totalmente superada. Contudo as últimas notícias provam que o mundo e em particular o governo inglês estão dispostos a reconhecer os elevados valores morais, revelados em nosso ardor pela realização sionista. Neste exato momento, tenhamos um pensamento reconhecido para com nosso chefe Weizmann que assegurou o êxito da boa causa com um devotamento e uma

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prudência sem igual.

As dificuldades encontradas provocaram felizes consequências. De novo mostraram o poder dos laços entre os judeus de todos os países, principalmente acerca de seu destino. Mas esclareceram nossa maneira de ver o problema palestino, libertando-a das impurezas de uma ideologia nacionalista. Proclamou-se abertamente que nossa meta não é a criação de uma comunidade política, mas que nosso ideal, fundado na antiga tradição do judaísmo, se propõe a criação de uma comunidade cultural, no sentido mais amplo do termo. Para consegui-lo, temos de resolver, nobremente, publicamente, dignamente, o problema da coabitação com o povo irmão dos árabes. Temos a oportunidade de provar aquilo que aprendemos durante os séculos de um passado vivido duramente. Se descobrirmos o caminho exato, ganharemos e serviremos de exemplo para outros povos.

Aquilo que empreendemos para a Palestina, nós o realizamos pela dignidade e a moral de todo o povo judeu.

3. Alegro-me com a ocasião que me é oferecida de dizer algumas palavras à juventude deste país, fiel aos objetivos gerais do judaísmo. Não desanimem pelas dificuldades que temos de enfrentar na Palestina. Situações deste tipo constituem experiências indispensáveis para o dinamismo de nossa comunidade.

Com razão criticamos as medidas e as manifestações do governo inglês. Não devemos contentar-nos com isto, mas procurar também tirar suas conseqüências.

Devemos manter em nossas relações com o povo árabe a mais extrema vigilância. Graças a esta atitude, poderemos evitar que no futuro tensões muito perigosas venham a se manifestar e poderiam ser aproveitadas como uma provocação a atos belicosos. Com facilidade poderemos atingir nosso objetivo, porque nossa realização foi e é concebida de maneira a servir também aos interesses concretos da população árabe.

Conseguiremos então impedir a situação catastrófica tanto para os judeus quanto para os árabes de apelar para a potência mandatária como árbitro. Neste espírito, seguiremos a via da sabedoria, mas também das tradições que dão à comunidade judaica seu sentido e sua força. Porque esta comunidade não é política e não deve vir a sê-lo. Exclusivamente moral, assim ela existe. Unicamente nesta tradição poderá encontrar novas energias, e unicamente nesta tradição reconhece sua razão de ser.

4. Há dois milênios, o valor comum a todos os judeus está encarnado em seu passado. Para este povo disperso pelo mundo somente existia um único lugar, ciosamente mantido, o da tradição. Evidentemente judeus, enquanto indivíduos, criaram grandes valores de civilização. Mas o povo judeu, como tal, não parecia ter a força das grandes realizações coletivas.

Tudo se transformou agora. A História confiou-nos nobre e importante missão sob a forma de uma colaboração ativa para construir a Palestina. Irmãos notáveis já trabalham com todas as forças para a realização deste objetivo. Temos a possibilidade de instalar focos de civilização nos quais todo o povo judeu pode reconhecer sua obra. Esperamos profundamente estabelecer na Palestina um lugar para as famílias e para uma civilização nacional própria, que permita despertar o Oriente Médio para uma vida econômica e intelectual.

A meta preconizada pelos chefes sionistas não quer ser política, mas antes social e cultural. A comunidade na Palestina deve aproximar-se do ideal social de nossos antepassados, tal como está escrito na Bíblia; deve ao mesmo tempo tornar-se um lugar para os encontros intelectuais modernos, um centro intelectual para os judeus do mundo inteiro. A fundação de uma Universidade judia em Jerusalém representa, nesta ordem de idéias, uma das metas principais da organização sionista.

Fui nestes últimos meses à América para auxiliar a constituir a vida material desta Universidade. O sucesso dessa campanha impôs-se por si mesmo.

Graças à incansável atividade, à generosidade ilimitada dos médicos judeus, recolhemos bastantes meios para iniciar a fundação de uma faculdade de medicina e imediatamente começamos seus trabalhos preparatórios. De acordo com os atuais resultados, sem dúvida alguma obteremos as estruturas materiais indispensáveis para as outras faculdades, e sem delongas. A faculdade de

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medicina deve ser concebida principalmente como um instituto de pesquisa. Agirá diretamente para o saneamento do país, função indispensável em nossa empresa.

O ensino em um nível mais alto só se desenvolverá mais tarde. Como já se encontrou suficiente número de sábios capazes e responsáveis para uma cátedra na Universidade, a fundação da faculdade de medicina, ao que parece, não coloca mais problemas. Noto no entanto que um fundo particular foi previsto para a Universidade, fundo absolutamente separado dos capitais necessários à construção do país. Para estes fundos particulares, nos últimos meses, graças ao incansável esforço do professor Weizmann e de outros chefes sionistas na América, reuniram-se somas muito importantes, graças sobretudo às elevadas doações da classe média. Termino por um vibrante apelo aos judeus alemães. Que contribuam, apesar da terrível situação econômica atual, para possibilitar com todas as suas forças a criação de um lar judeu na Palestina. Não, não se trata de um ato de caridade, mas de uma obra que diz respeito a todos os judeus. Seu êxito será para todos a ocasião da mais perfeita satisfação.

5. Para nós, judeus, a Palestina não se apresenta sob o aspecto de uma obra de caridade ou de uma implantação colonial. Trata-se de um problema de fundo, essencial para o povo judeu. E em primeiro lugar, a Palestina não é um refúgio para os judeus orientais, mas antes a encarnação renascente do sentimento da comunidade nacional de todos os judeus. Será necessário, será oportuno despertar e reforçar este sentimento? A esta pergunta não respondo levado por um sentimento reflexo, mas por sólidas razões.

Digo sim sem reserva alguma. Analisemos rapidamente o desenvolvimento dos judeus alemães nestes últimos cem anos! Há um século, nossos antepassados viviam, com raras exceções, no gueto. Eram pobres, sem direitos políticos, separados dos não-judeus por um muro de tradições religiosas, de conformismo na vida e de jurisdições limitativas. Estavam mesmo fechados, em sua vida intelectual, dentro da própria literatura. Eram pouco e superficialmente marcados pelo possante despertar que havia sacudido a vida intelectual da Europa desde a Renascença. Mas estes homens, de pouca importância e sem grande influência, guardavam uma força superior à nossa. Cada um deles pertencia por todas as fibras de seu ser a uma comunidade da qual se sentia membro integral. Exprimia-se e vivia em uma comunidade que nada exigia dele que fosse de encontro com seu modo de pensar natural. Nossos antepassados de então eram certamente miseráveis física e intelectualmente, mas socialmente se revelavam de espantoso equilíbrio moral.

Depois houve a emancipação, que, de repente, ofereceu ao indivíduo possibilidades de progresso insuspeitadas. Os indivíduos, cada qual por seu lado, adquiriam rapidamente situações nas camadas sociais e econômicas mais elevadas da sociedade. Com paixão haviam assimilado as conquistas principais que a arte e a ciência ocidental criaram. Participavam com intenso fervor deste movimento, e eles próprios criavam obras duradouras. Devido a esta atitude, adotaram as formas exteriores do mundo não-judeu e aos poucos foram se afastando de suas tradições religiosas e sociais, aceitando costumes, padrões de vida, modos de pensar estranhos ao mundo judeu. Poder-se-ia pensar que iriam assemelhar-se completamente aos povos entre os quais viviam, povos quantitativamente mais numerosos e política e culturalmente mais bem coordenados, ao ponto de, em algumas gerações, nada mais subsistir de visível do mundo judeu. Completo desaparecimento da comunidade judaica parecia inevitável na Europa Central e Ocidental.

Ora, nada disto aconteceu. Os instintos das nacionalidades diferentes, ao que parece, impediram uma fusão completa; a adaptação dos judeus aos povos europeus entre os quais viviam, a suas línguas, a seus costumes e até parcialmente a suas formas religiosas, não pôde destruir o sentimento de ser um estrangeiro, que se mantém entre o judeu e as comunidades européias que o acolhem. Em última análise, este sentimento de estranheza constitui a base do anti-semitismo. Este não será extirpado do mundo por escritos, por bem intencionados que sejam. Porque as nacionalidades não querem se misturar, mas seguir o próprio destino. Uma situação pacífica só se instaurará na compreensão e na indulgência recíprocas.

Por esta razão, é importante que nós, judeus, retomemos consciência de nossa existência como nacionalidade e que recuperemos de novo o amor-próprio indispensável a uma vida realizada. Temos de reaprender de novo a interessar-nos lealmente por nossos antepassados e por nossa

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história, e devemos, como povo. assumir missões suscetíveis de reforçar nosso sentimento de comunidade. Não basta que participemos como indivíduos do progresso cultural da humanidade, é preciso também que enfrentemos o gênero de problemas que competem às comunidades nacionais. Eis a solução para um judaísmo novamente social.

Peço-lhes que considerem o movimento sionista nesta perspectiva. A história, hoje, nos confiou uma missão, a de participar eficazmente na reconstrução econômica e cultural de nossa pátria. Pessoas entusiastas e notavelmente dotadas analisaram a situação e muitos de nossos melhores concidadãos estão prontos para se consagrarem de corpo e alma a esta tarefa. Que cada um dos senhores considere realmente suas capacidades em relação à obra e contribua com todas as forças!

A “PALESTINA NO TRABALHO”

Entre as organizações sionistas, a “Palestina no trabalho” representa a que mais bem corresponde pela atividade, de modo mais preciso, à categoria mais digna de estima das pessoas de lá, trabalhadores manuais, transformando o deserto em colônias florescentes. Estes trabalhadores são uma seleção de voluntários vindos de todo o povo judeu, uma elite de homens corajosos, conscientes e desinteressados. Não se trata de operários sem categoria, que vendem sua força a quem mais paga, mas homens instruídos, de espírito vivo e livres, cuja luta pacífica com um solo abandonado redunda em proveito de povo inteiro, mais ou menos diretamente. Diminuir, se possível, a rudeza de seu destino significa salvar vidas humanas singularmente preciosas. Porque o combate dos primeiros colonos contra um solo ainda não saneado se traduz por esforços duros e perigosos e uma abnegação pessoal rigorosa. Somente uma testemunha ocular pode compreender como é justa esta idéia. Por isso, aquele que ajuda estes homens, possibilitando a melhoria dos utensílios, ajuda a obra de modo benéfico.

E esta classe de trabalhadores é a única a tornar possíveis sadias relações com o povo árabe: e é este o objetivo político mais importante para o sionismo. Com efeito, as administrações aparecem e desaparecem. Em compensação as relações humanas constituem na vida dos povos a etapa decisiva. Assim sendo, um auxílio à “Palestina no trabalho” significa também a realização de uma política humana e respeitável na Palestina, e ainda um combate útil contra os vagalhões nacionalistas retrógrados. Porque o mundo político em geral e, em menor escala, o pequeno universo da obra palestina, ainda sofrem suas consequências.

RENASCIMENTO JUDAICO

Um apelo em prol de “Keren Hajessod”

Os maiores inimigos da consciência e da dignidade judaica se chamam decadência dos estômagos cheios, se chamam frouxidão provocada pela riqueza e vida fácil, se chamam forma de submissão interior ao mundo não-judeu, já que a comunidade judaica se relaxou. O que há de melhor no homem somente desabrocha quando se desenvolve em uma comunidade. Terrível portanto se mostra ó perigo moral para o judeu que perde contacto com a própria comunidade e se descobre estrangeiro até mesmo para aqueles que o acolhem. O balanço de uma situação destas quase sempre resulta em egoísmo desprezível e sombrio.

Ora, atualmente se revela particularmente importante a pressão contra o povo judeu. E este gênero de miséria nos cura. Porque suscita uma renovação da vida comunitária judaica tal que até a penúltima geração não poderia imaginar. Sob a influência do sentimento de solidariedade, tão novo, a colonização da Palestina, iniciada por chefes devotados e prudentes através de dificuldades aparentemente insuperáveis, começou a dar frutos tão belos que não posso mais pôr em dúvida o sucesso final. Para os judeus do mundo inteiro, a importância da obra se revela de primeira ordem. A Palestina será para todos os judeus um lugar de cultura, para os perseguidos um lugar de refúgio,

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para os melhores de nós um campo de ação.

Para os judeus do mundo inteiro, ela encarnará o ideal de unidade e um meio de renascimento interior.

CARTA A UM ÁRABE

15 de março de 1930

Sua carta muito mealegrou. Prova-me, com efeito, que de seu lado há a clarividência necessária para uma solução razoável: nossos dois povos podem resolver as dificuldades pendentes. Os obstáculos me parecem de natureza mais psicológica do que objetiva, e poderão ser vencidos se, de parte a parte, se agir com a vontade de eliminar os problemas!

Nossa situação atual apresenta-se desfavorável porque judeus e árabes são postos face a face como dois adversários pela potência mandatária. Esta situação é indigna dos dois povos e somente será modificada se descobrirmos entre nós um terreno onde os dois campos possam dialogar e se unir.

Explicarei aqui como encaro a realização de uma mudança nas atuais condições deploráveis. Apresso-me a dizer que esta opinião é exclusivamente minha, já que não a comuniquei a ninguém.

Constitui-se um “conselho privado” para o qual judeus e árabes delegam respectivamentee em separado quatro representantes, absolutamente independentes de qualquer organismo político.

Assim, de parte a parte se reuniriam: um médico, eleito pelo conselho da ordem; um jurista, eleito pelas instâncias jurídicas; um representante operário, eleito pelos sindicatos; um chefe religioso, eleito por seus semelhantes. Estas oito pessoas se reúnem uma vez por semana. Comprometem-se sob juramento a não servir os interesses de sua profissão nem de sua nação, mas exclusivamente a procurar com toda a consciência a felicidade da população inteira. As discussões são secretas e nada deve ser divulgado; nem mesmo na vida particular.

Se se tomar uma decisão sobre um problema qualquer com o assentimento de pelo menos três de cada lado, esta decisão poderá ser publicada, mas sob a responsabilidade do conselho inteiro. Se um dos membros não aceitar uma decisão, poderá abandonar o conselho, mas sem nunca se ver livre da obrigação do segredo. Se um dos grupos citados responsáveis pelas eleições não se considerar satisfeito com uma resolução do conselho, poderá substituir seu representante por um outro.

Embora o conselho secreto não tenha competência alguma bem delimitada, pode no entanto permitir que sejam progressivamente aplainados os desacordos e apresentar, diante da potência mandatária, uma representação comum dos interesses do país realmente oposta a uma política a curto prazo.

A NECESSIDADE DO SIONISMO — CARTA AO PROFESSOR DR. HELLPACH, MINISTRO DE ESTADO

Li seu artigo sobre o sionismo e o congresso de Zurique. É preciso que eu lhe responda, ainda que brevemente, como o faria alguém que estivesse inteiramente convencido desta idéia.

Os judeus formam uma comunidade de sangue e de tradição, sendo que a tradição religiosa não representa o único ponto comum. Revela-se antes pelo comportamento dos outros homens diante dos judeus.

Quando cheguei à Alemanha, há quinze anos, descobri pela primeira vez que era judeu e esta descoberta me foi revelada mais pelos não-judeus do que pelos judeus.

A tragédia da condição judia consiste nisto: os judeus representam indivíduos que chegaram a um estágio evidente de evolução, mas não têm o sustentáculo de uma comunidade para uni-los. A insegurança dos indivíduos, que pode provocar grandíssima fragilidade moral, vem como consequência. Aprendi por experiência que a saúde moral deste povo não seria possível, a não ser

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que todos os judeus do mundo se reunissem numa comunidade viva, à qual cada um de plena vontade se associaria e que lhe permitiria suportar ódio e humilhação que encontra em todas as partes.

Vi o execrável mimetismo em judeus de grande valor e este espetáculo me fez chorar lágrimas de sangue. Vi como a escola, os panfletos e as inúmeras potências culturais da maioria não-judia haviam minado o sentimento de dignidade, mesmo nos melhores de nossos irmãos de raça, e senti que isto não poderia mais continuar.

Aprendi por experiência que somente uma criação comum, que os judeus do mundo inteiro levassem a peito, poderia curar este povo doente. Esta foi a obra admirável de Th. Herzl: compreendê-lo e bater-se com toda a energia para a realização de um centro ou — para falar mais claramente ainda — de um lugar central na Palestina. Essa obra exigia todas as energias. Contudo inspirava-se na tradição do povo judeu.

O senhor dá a isto o nome de nacionalismo, não sem se enganar. Mas o esforço para criar uma comunidade, sem a qual não podemos viver nem morrer neste mundo hostil, sempre poderá ser designado por este termo odioso. De qualquer modo, será um nacionalismo, mas sem vontade de poder, preocupado pela dignidade e saúde morais. Se não fôssemos constrangidos a viver no meio de homens intolerantes, mesquinhos e violentos, eu seria o primeiro a rejeitar todo o nacionalismo em troca de uma comunidade humana universal!

A objeção — se queremos, nós judeus, ser uma “nação”, não poderemos mais ser cidadãos integrais, por exemplo, do Estado alemão — revela um desconhecimento da natureza do Estado, a fundar sua existência partindo da intolerância da maioria nacional. Contra esta intolerância jamais estaremos protegidos, tenhamos ou não o nome de “povo”, “nação”, etc.

Disse tudo o que penso, resumidamente, sem floreios e sem concessões. Mas, a julgar por seus escritos, sei que o senhor aprecia mais o sentido do que a forma.

AFORISMOS PARA LEO BAECK

— Feliz quem atravessa a vida prestativo, sem medo, estranho à agressividade e ao ressentimento! Numa natureza assim, revelam-se as testemunhas magníficas que trazem um reconforto para a humanidade nas situações desastrosas que cria para si mesma.

— O esforço para unir sabedoria e poder raramente dá certo e somente por tempo muito curto.

— O homem habitualmente evita reconhecer inteligência em outro, a não ser quando, por acaso, se trata de um inimigo.

— Poucos seres são capazes de dar bem claramente uma opinião diferente dos preconceitos de seu meio.

A maioria é mesmo incapaz de chegar a formular tais opiniões.

— A maioria dos imbecis permanece invencível e satisfeita em qualquer circunstância. O terror provocado por sua tirania se dissipa simplesmente por sua distração e por sua inconsequência.

— Para ser um membro irrepreensível de uma comunidade de carneiros, é preciso, antes de tudo, ser também carneiro.

— Os contrastes e as contradições podem coexistir de modo permanente numa cabeça, sem provocar nenhum conflito. Esta evidência atrapalha e destrói qualquer sistema político pessimista ou otimista.

— Quem banca o original neste mundo da verdade e do conhecimento, quem imagina ser um oráculo, fracassa lamentavelmente diante da gargalhada dos Deuses.

— A alegria de contemplar e de compreender, eis a linguagem a que a natureza me incita.

 

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CAPÍTULO V

Estudos científicos

 

PRINCÍPIOS DA PESQUISA

Discurso pronunciado por ocasião do sexagésimo aniversário de Max Planck

O Templo da Ciência apresenta-se como um edifício de mil formas. Os homens que o frequentam, bem como as motivações morais que para ali os levam, revelam-se bem diferentes. Um se entrega à Ciência com o sentimento de felicidade que a potência intelectual superior lhe causa. Para ele, a Ciência é o esporte adequado, a vida transbordante de energia, a realização de todas as ambições. Assim deve ela se manifestar! Muitos outros, porém, estão igualmente neste Templo exclusivamente por uma razão utilitária e não oferecem em troca a não ser sua substância cerebral! Se um anjo de Deus aparecesse e expulsasse do Templo todos os homens das duas categorias, o Templo ficaria bem vazio, mas, mesmo assim, ainda se encontrariam homens do passado e do presente. Entre estes encontraríamos nosso Planck. É por isso que o estimamos.

Bem sei que, com nosso aparecimento, expulsamos, despreocupados, muitos homens de valor que edificaram o Templo da Ciência em grande, talvez em sua maior parte. Para nosso anjo, a decisão a tomar seria em vários casos bem difícil. Mas uma certeza se me impõe. Não houvesse indivíduos como os excluídos, o Templo não teria sido edificado, da mesma forma que uma floresta não pode expandir-se se apenas contiver plantas trepadeiras! Na realidade, tais indivíduos se contentam com qualquer teatro para sua atividade. As circunstâncias exteriores é que decidirão sobre a carreira de engenheiro, de oficial, de comerciante ou de cientista. Todavia, olhemos de novo para aqueles que encontraram favor aos olhos do anjo. Mostram-se singulares, pouco comunicativos, solitários e, apesar desses pontos comuns, são menos parecidos entre si do que aqueles que foram expulsos. Que é que os conduziu ao Templo? A resposta não é fácil e certamente não pode aplicar-se a todos uniformemente. Contudo, em primeiro lugar, com Schopenhauer, imagino que uma das mais fortes motivações para uma obra artística ou científica consiste na vontade de evasão do cotidiano com seu cruel rigor e monotonia desesperadora, na necessidade de escapar das cadeias dos desejos pessoais eternamente instáveis. Causas que impelem os seres sensíveis a se libertarem da existência pessoal, para procurar o universo da contemplação e da compreensão objetivas. Esta motivação assemelha-se à nostalgia que atrai o morador das cidades para longe de seu ambiente ruidoso e complicado, para as pacíficas paisagens das altas montanhas, onde o olhar vagueia por uma atmosfera calma e pura e se perde em perspectivas repousantes, que parecem ter sido criadas para a eternidade.

A este motivo de ordem negativa, ajunta-se outro mais positivo. O homem procura formar, de qualquer maneira, mas segundo a própria lógica, uma imagem simples e clara do mundo. Para isso, ultrapassa o universo de sua vivência, porque se esforça em certa medida por substituí-lo por essa imagem. A seu modo é esse o procedimento de cada um, quer se trate de um pintor, de um poeta, de um filósofo especulativo ou de um físico. A essa imagem e à sua realização consagra o máximo de sua vida afetiva para assim alcançar a paz e a força que não pode obter nos excessivos limites da experiência agitada e subjetiva.

Entre todas as imagens possíveis do mundo, que lugar conceder à do físico teórico? Ela encerra as maiores exigências, pelo rigor e exatidão da representação das relações, única a ser autorizada pelo uso da linguagem matemática. Mas em compensação, no plano concreto, o físico deve se restringir, tanto mais quanto se contentar em representar os fenômenos mais evidentes acessíveis a nossa experiência, porque todos os fenômenos mais complexos não podem ser reconstituídos pelo espírito humano com a precisão sutil e espírito de constância exigidos pelo físico teórico. A extrema nitidez, a clareza e a certeza só se adquirem à custa de imenso sacrifício: a

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perda da visão de conjunto. Mas então, qual pode ser a sedução de compreender precisamente uma parcela tão exígua do universo e de abandonar tudo o que é mais sutil e mais complexo por timidez ou falta de coragem? O resultado de uma prática tão resignada ousaria ostentar o audacioso nome de “Imagem do mundo”?

Penso ser muito bem merecido este nome. Porque as leis gerais, bases da arquitetura intelectual da física teórica, ambicionam ser válidas para todos os fatos da natureza. E graças a estas leis, por utilizar o itinerário da pura dedução lógica, poder-se-ía encontrar a imagem, quer dizer, a teoria de todos os fenômenos da natureza, inclusive os da vida, se este processo de dedução não superasse, e de muito, a capacidade do pensamento humano. A renúncia a uma imagem física do mundo em sua totalidade não é uma renúncia de princípio. É uma escolha, um método.

A suprema tarefa do físico consiste, então, em procurar as leis elementares mais gerais, a partir das quais, por pura dedução, se adquire a imagem do mundo. Nenhum caminho lógico leva a tais leis elementares. Seria antes exclusivamente uma intuição a se desenvolver paralelamente a experiência. Na incerteza do método a seguir, seria possível crer que qualquer número de sistemas de física teórica de valor equivalente bastaria. Em princípio, esta opinião é sem dúvida correta. Mas a evolução mostrou que, de todas as construções concebíveis, uma e somente uma, em um dado momento, se revelou absolutamente superior a todas as outras. Nenhum daqueles que realmente aprofundaram o assunto negará que o mundo das percepções determina de fato rigorosamente o sistema teórico, embora nenhum caminho lógico conduza das percepções aos princípios da teoria. A isto Leibnitz denominava e significava pela expressão de “harmonia preestabelecida”. Com violência, os físicos censuraram a não poucos teóricos do conhecimento o não levarem bem em conta esta situação. Aqui também, a meu ver, se encontram as raízes da polêmica que, há alguns anos, opôs Mach a Planck.

A nostalgia da visão desta “harmonia preestabelecida” persiste em nosso espírito. Contudo Planck se apaixona pelos problemas mais gerais de nossa Ciência sem se deixar atrair por objetivos mais lucrativos e mais fáceis de serem atingidos. Por várias vezes ouvi dizer que confrades tentavam explicar seu comportamento por uma força de vontade e uma disciplina excepcionais. Enganam-se, ao que me parece. O estado afetivo que condiciona semelhantes proezas mais se assemelha ao estado de alma dos religiosos ou dos amantes. A perseverança diária não se constrói sobre uma intenção ou um programa, mas se baseia numa necessidade imediata.

Ele está aí, nosso querido Planck, sentado e divertindo-se interiormente com minhas manipulações infantis da lanterna de Diógenes. Nossa simpatia por ele não precisa de pretextos. Possa o amor pela Ciência embelezar sua vida também no futuro e levá-lo à resolução do problema físico mais importante de nossa época, problema que ele mesmo colocou e faz progredir consideravelmente! Que consiga unificar em. um único sistema lógico a teoria dos quanta, a eletrodinâmica e a mecânica!

PRINCÍPIOS DA FÍSICA TEÓRICA

Discurso de recepção na Academia das Ciências da Prússia

Caros colegas! Queiram aceitar meus mais profundos agradecimentos por me terem concedido o maior benefício que se possa outorgar a alguém como eu. Chamando-me para sua Academia, os senhores me permitiram livrar-me das agitações e da labuta de uma profissão prática, permitiram que me consagrasse exclusivamente aos estudos científicos. Rogo-lhes que acreditem em meus sentimentos de gratidão e na assiduidade de meus esforços, ainda que os resultados de minhas pesquisas lhes pareçam medíocres.

Peço licença para fazer a respeito algumas reflexões gerais sobre a posição que meu setor de trabalho, a física teórica, ocupa em relação à ciência experimental. Um amigo matemático dizia-me recentemente, em parte por brincadeira: “O matemático sabe alguma coisa, mas não é exatamente aquilo que lhe perguntam em dado momento”. Com frequência o teórico da física se encontra nesta situação, ao ser consultado por um físico experimental. Qual a origem desta falta de adaptação

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característica?

O método do teórico implica que, como base em todas as hipóteses, ele utilize aquilo que se chamam princípios, a partir dos quais pode deduzir consequências. Sua atividade portanto se divide principalmente em duas partes. Em primeiro lugar, tem de procurar estes princípios e em seguida desenvolver as consequências inerentes a eles. Para a execução do segundo trabalho recebe na escola excelentes instrumentos. Se então a primeira de suas tarefas já estiver realizada em dado setor ou por um conjunto de relações, não há dúvida de que terá êxito por um trabalho e reflexão perseverantes. Mas a primeira chave destas tarefas, quer dizer, a de estabelecer os princípios que servirão de base para sua dedução, se apresenta de maneira totalmente diferente. Porque aqui não existe método que se possa aprender ou sistematicamente aplicar para alcançar um objetivo. O pesquisador tem antes que espiar, se assim se pode dizer, os princípios gerais na natureza, enquanto detecta, através dos grandes conjuntos de fatos experimentais, os traços gerais e exatos que poderão ser explicitados nitidamente.

Quando esta formulação obtiver êxito, começa então o desenvolvimento das consequências, que muitas vezes revelam relações insuspeitadas que ultrapassam muito o campo dos fatos donde foram tirados os princípios. Mas, enquanto os princípios básicos para a dedução não forem descobertos, o teórico não tem absolutamente necessidade dos fatos individuais da experiência. Nem mesmo pode empreender qualquer coisa com as leis mais gerais, descobertas empiricamente. Deve antes confessar seu estado de impotência diante dos resultados elementares da pesquisa empírica até que se lhe manifestem princípios, utilizáveis como base de dedução lógica.

É nesta situação que atualmente se situa a teoria relativa às leis da irradiação térmica e do movimento molecular em baixas temperaturas. Há quinze anos, ninguém duvidava que, nas bases da mecânica Galileu/Newton aplicada aos movimentos moleculares, bem como pela teoria de Maxwell sobre o campo magnético, fosse possível obter uma representação exata das propriedades elétricas, óticas e térmicas dos corpos. Planck então mostrou que, para fundar uma lei da irradiação térmica correspondente à experiência, é preciso utilizar um método de cálculo cuja incompatibilidade com os princípios da mecânica clássica se tornava cada vez mais flagrante. Por este método de cálculo, Planck introduzia na física a célebre hipótese dos quanta que depois foi notavelmente confirmada. Com esta hipótese dos quanta, ele subverteu a mecânica no caso em que massas suficientemente pequenas se deslocam com velocidades suficientemente fracas e com acelerações suficientemente importantes, a tal ponto que não podemos mais hoje encarar as leis do movimento estabelecidas por Galileu e Newton a não ser como situações limites. Contudo, apesar dos esforços mais perseverantes dos teóricos, ainda não se conseguiu substituir os princípios da mecânica por outros que correspondam à lei da irradiação térmica de Planck ou à hipótese dos quanta. Ainda que devamos reconhecer sem sombra de dúvida que temos de tornara pôr o calor no movimento molecular, temos também de reconhecer que nos encontramos hoje, diante das leis fundamentais deste movimento, na mesma situação em que estavam os astrônomos anteriores a Newton diante dos movimentos dos planetas.

Recordo aqui um conjunto de fatos não redutíveis a um estudo teórico por falta de princípios de base. Mas há ainda outro caso. Princípios lógicos e bem formulados chegam a consequências total ou quase totalmente exteriores aos limites do domínio atualmente acessível a nossa experiência. Então, por longos anos, se fará necessário um trabalho empírico, às apalpade-las, para afirmar que os princípios da teoria poderíam descrever a realidade. Eis a exata situação da teoria da relatividade.

A reflexão sobre os conceitos fundamentais de tempo e de espaço provou-nos que o princípio da constância da velocidade da luz no vácuo, que se deduz da ótica dos corpos em movimento, absolutamente não nos obriga a aceitar a teoria de um éter imóvel. E mesmo foi possível armar uma teoria geral que lembra o fato estranho de que, nas experiências realizadas sobre a terra, jamais transcrevemos algo do movimento de traslação da terra. Nesta circunstância, então, emprega-se o enunciado do princípio de relatividade: as leis naturais não se modificam quanto à forma, quando se abandona um sistema de coordenadas original (experimentado) por um novo sistema, que efetua um movimento de traslação uniforme em relação ao primeiro. Esta teoria recebeu notáveis

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confirmações da experiência. Torna também possível uma simplificação da representação teórica de conjuntos de fatos, já ligados uns aos outros.

Mas, por outro lado, esta teoria ainda é insuficiente, porque o princípio de relatividade, tal como acabo de formular, privilegia o movimento uniforme. Do ponto de vista físico, sem dúvida não se pode atribuir um sentido absoluto ao movimento uniforme. Então surge a questão: será que esta afirmação não deveria estender-se aos movimentos não uniformes? Ora, se se toma por base o princípio da relatividade em sentido lato, foi demonstrado que se obtém uma extensão indefinida da teoria da relatividade. Assim somos conduzidos a uma teoria geral da gravitação, incluindo a dinâmica. No momento, porém, não encontramos os fatos suscetíveis de pôr à prova a justificação para a introdução do princípio que sirva de eixo.

Já provamos que a física indutiva questiona a física dedutiva e vice-versa e que este tipo de resposta exige de nossa parte absoluta tensão e esforço. Que possamos bem depressa chegar a encontrar, graças aos esforços e trabalhos de todos, as provas definitivas para nossos progressos neste sentido.

SOBRE O MÉTODO DA FÍSICA TEÓRICA

Se o senhor quer estudar em qualquer dos físicos teóricos os métodos que emprega, sugiro-lhe firmar-se neste princípio básico: não dê crédito algum ao que ele diz, mas julgue aquilo que produziu! Porque o criador tem esta característica: as produções de sua imaginação se impõem a ele, tão indispensáveis, tão naturais, que não pode considerá-las como imagem do espírito, mas as conhece como realidades evidentes.

Este preâmbulo parece autorizá-lo a abandonar o próprio lugar desta conferência. Porque o senhor poderia redarguir: quem nos fala agora é justamente um físico teórico! Deveria então abandonar toda a reflexão sobre a estrutura da ciência teórica para os teóricos do conhecimento.

A semelhante objeção, respondo apresentando meu ponto de vista pessoal. Porque afirmo falar aqui, não por vaidade, mas para satisfazer ao convite de amigos. Estou nesta cátedra porque ela me traz a lembrança de um homem que consagrou toda a vida a pesquisar a unidade do conhecimento. Além disto, objetivamente, minha prática de hoje poderia encontrar uma justificativa neste sentido: não seria interessante conhecer aquilo que pensa sobre sua ciência um homem que, durante a vida inteira, se esforçou com toda a energia a esclarecer e a aperfeiçoar seus elementos básicos? Seu modo de apreender a evolução antiga e contemporânea poderia influenciar terrivelmente aquilo que espera do futuro e portanto aquilo que visa como objetivo imediato. Mas é este o destino de cada indivíduo que se entrega apaixonadamente ao mundo das idéias. É o mesmo destino que espera o historiador, ao organizar os fatos históricos, mesmo de modo inconsciente, em função dos ideais subjetivos que a sociedade humana lhe sugere.

Hoje analisamos o desenvolvimento do pensamento teórico de modo muito geral, mas ao mesmo tempo temos presente no espírito a relação essencial que une o discurso teórico ao conjunto dos fatos experimentais. Trata-se sempre do eterno confronto entre os dois componentes de nosso saber na física teórica: empirismo e razão.

Admiramos a Grécia antiga porque fez nascer a ciência ocidental. Lá, pela primeira vez, se inventou a obra-prima do pensamento humano, um sistema lógico, isto é, tal que as proposições se deduzem umas das outras com tal exatidão que nenhuma demonstração provoca a dúvida. É o sistema da geometria de Euclides. Esta composição admirável da razão humana autoriza o espírito a ter confiança em si mesmo para qualquer nova atividade. E se alguém, no despertar de sua inteligência, não foi capaz de se entusiasmar com uma arquitetura assim, então nunca poderá realmente se iniciar na pesquisa teórica.

Mas para atingir uma ciência que descreva a realidade, ainda faltava uma segunda base fundamental que, até Kepler e Galileu, foi ignorada por todos os filósofos. Porque o pensamento lógico, por si mesmo, não pode oferecer nenhum conhecimento tirado do mundo da experiência. Ora, todo o conhecimento da realidade vem da experiência e a ela se refere. Por este fato, conhecimentos, deduzidos por via puramente lógica, seriam diante da realidade estritamente vazios.

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Desse modo Galileu, graças ao conhecimento empírico, e sobretudo por ter se batido violentamente para impô-lo, tornou-se o pai da física moderna e provavelmente de todas as ciências da natureza em geral.

Se, portanto, a experiência inaugura, descreve e propõe uma síntese da realidade, que lugar se dá à razão no campo científico?

Um completo sistema de física teórica comporta um conjunto de conceitos, de leis fundamentais aplicáveis a tais conceitos, e de proposições lógicas normalmente daí deduzidas. As proposições sobre as quais se exerce a dedução correspondem exatamente a nossas experiências individuais; é esta a razão profunda por que, em um livro teórico, a dedução abrange quase toda a obra.

Paradoxalmente, é exatamente o que acontece com a geometria euclidiana. Mas os princípios fundamentais aqui se chamam de axiomas e, por consequência, as proposições a serem deduzidas não se baseiam em experiências banais. Em compensação, se se encara a geometria euclidiana como a teoria das possibilidades da posição recíproca dos corpos praticamente rígidos e, por conseguinte, é compreendida como uma ciência física, sem que se suprima sua origem empírica, a semelhança lógica entre a geometria e a física teórica é flagrante.

Portanto, no sistema de uma física teórica, estabelecemos um lugar para a razão e para a experiência. A razão constitui a estrutura do sistema. Os resultados experimentais e suas imbricações mútuas podem ser expressos mediante as proposições dedutivas. E é na possibilidade desta representação que se situam exclusivamente o sentido e a lógica do sistema inteiro, e mais particularmente, dos conceitos e dos princípios que formam suas bases. Aliás, estes conceitos e princípios se revelam como invenções espontâneas do espírito humano. Não podem se justificar a priori nem pela estrutura do espírito humano nem, reconheçamo-lo, por uma razão qualquer. Estes princípios fundamentais, estas leis fundamentais, quando não se pode mais reduzi-los a lógica estrita, mostram a parte inevitável, racionalmente incompreensível, da teoria. Porque a finalidade precípua de toda a teoria está em obter estes elementos fundamentais irredutíveis tão evidentes e tão raros quanto puderem ser, sem se olvidar da adequada representação de qualquer experiência possível.

Esquematizo esta tentativa de compreensão a fim de realçar como de modo algum o aspecto puramente fictício dos fundamentos da teoria não se impunha nos séculos XVIII e XIX. Mas a ficção ganhava sempre mais, porque a separação entre os conceitos fundamentais e as leis fundamentais de um lado, e as deduções por coordenar de acordo com nossas relações experimentais, de outro lado, não paravam de crescer com a cada vez maior unificação da construção lógica. Assim, pode-se equilibrar uma completa construção teórica sobre um conjunto de elementos conceituais, logicamente independentes uns dos outros, mas em menor número.

Newton, o primeiro inventor de um sistema de física teórica, imenso e dinâmico, não hesita em acreditar que conceitos fundamentais e leis fundamentais de seu sistema saíram diretamente da experiência. Creio que se deve interpretar neste sentido sua declaração de princípio hypotheses non fingo.

Na realidade, nesta época, as noções de espaço e de tempo não pareciam apresentar nenhuma dificuldade problemática. Porque os conceitos de massa, inércia e força com suas relações diretamente determinadas pela lei pareciam provir em linha reta da experiência. Uma vez admitida esta base, a expressão força de gravitação, por exemplo, se nos apresenta como saída diretamente da experiência e podia-se razoavelmente esperar o mesmo resultado quanto às outras forças.

Evidentemente, nós percebemos com facilidade, até mesmo pelo vocabulário, que a noção de espaço absoluto, implicando a de inércia absoluta, embaraça de modo particular a Newton. Porque percebe que nenhuma experiência poderá corresponder a esta última noção. Da mesma forma o raciocínio sobre ações a distância o intriga. Mas a prática e o enorme sucesso da teoria o impedem, a ele e aos físicos dos séculos XVIII e XIX, de entender que o fundamento de seu sistema repousa em base absolutamente fictícia.

Em geral, os físicos da época acreditavam de bom grado que os conceitos e as leis fundamentais da física não constituem, no sentido lógico, criações espontâneas do espírito humano,

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mas antes que se pode deduzi-los por abstração, portanto por um recurso da lógica. Na verdade, somente a teoria da relatividade geral reconheceu claramente o erro dessa concepção.

Provou que era possível, por se afastar enormemente do esquema newtoniano, explicar o mundo experimental e os fatos de modo mais coerente e mais completo do que esse esquema permitia. Mas deixemos de lado a questão de superioridade! O caráter fictício dos princípios torna-se evidente pela simples razão de que se podem estabelecer dois princípios radicalmente diferentes, que no entanto concordam em grande parte com a experiência. De qualquer modo, toda tentativa de deduzir logicamente, a partir de experiências elementares, os conceitos e as leis fundamentais da mecânica está votada ao malogro.

Então, se é certo que o fundamento axiomático da física teórica não se deduz da experiência, mas tem de se estabelecer espontaneamente, livremente, poderíamos pensar ter descoberto a pista certa? Coisa mais grave ainda! esta pista certa não existirá apenas em nossa imaginação? Poderemos nós julgar a experiência digna de crédito, quando algumas teorias, como a da mecânica clássica, se apóiam muito na experiência, sem argumentar sobre o fundo do problema? A esta objeção declaro com toda a certeza que, a meu ver, a pista certa existe, e podemos descobri-la. De acordo com a nossa pesquisa experimental até o dia de hoje, temos o direito de estar persuadidos de que a natureza representa aquilo que podemos imaginar em matemática como o que há de mais simples. Estou convencido de que a construção exclusivamente matemática nos permite encontrar os conceitos e os princípios que os ligam entre si. Dão-nos a possibilidade de compreender os fenômenos naturais. Os conceitos matemáticos utilizáveis podem ser sugeridos pela experiência, porém em caso algum deduzidos. Naturalmente a experiência se impõe como único critério de utilização de uma construção matemática para a física. Mas o princípio fundamentalmente criador está na Matemática. Por conseguinte, em certo sentido, considero verdadeiro e possível que o pensamento puro apreenda a realidade, como os Antigos o reconheciam com veneração.

Para justificar esta confiança, sou obrigado a empregar conceitos matemáticos. O mundo físico se representa como um continuum de quatro dimensões. Se suponho neste mundo a métrica de Riemann e me pergunto quais são as leis mais simples que podem ser satisfeitas por tal sistema, obtenho a teoria relativista da gravitação e do espaço vazio. Se, neste espaço, tomo um campo de vetores ou o campo de tensores anti-simétricos que daí pode derivar-se e indago quais as leis mais simples que um tal sistema pode satisfazer, obtenho as equações do espaço vazio de Maxwell.

Neste ponto do raciocínio, ainda falta uma teoria para os conjuntos do espaço onde a densidade elétrica não desaparece. Louis De Broglie adivinhou a existência de um campo de ondas que podia servir para explicar certas propriedades quânticas da matéria. Por fim Dirac descobre nos spins os valores de um campo de novo gênero, cujas equações mais simples permitem deduzir, de modo muito importante, as propriedades dos elétrons. Ora, junto com meu colaborador, o Dr. Walter Mayer, descobri que os spins constituem um caso especial de uma espécie de campo de novo gênero, matematicamente ligado ao sistema de quatro dimensões, que havíamos denominado de “semivetores”. As equações mais simples a que estes semivetores podem ser submetidos dão uma chave para compreender a existência de dois tipos de partículas elementares de massas ponderáveis diferentes e com cargas iguais, mas com sinais contrários. Estes semivetores representam, depois dos vetores ordinários, os elementos magnéticos do campo, os mais simples que são possíveis em um continuum métrico de quatro dimensões. Poderiam, ao que parece, descrever com facilidade as propriedades essenciais das partículas elétricas elementares.

Para nossa pesquisa, é capital que todas estas formas e suas relações por meio das leis sejam obtidas através do princípio de pesquisa dos conceitos matemáticos mais simples e de suas ligações. Se pudermos limitar os gêneros de campo simples a existir matematicamente e as equações simples possíveis entre eles, então o teórico tem a esperança de apreender o real em sua profundidade.

O ponto mais delicado de uma teoria dos campos deste tipo reside, atualmente, em nossa compreensão da estrutura atômica da matéria e da energia. Incontestavelmente a teoria não se confessa atômica em seu princípio, na medida em que opera exclusivamente com funções contínuas do espaço, ao contrário da mecânica clássica, cujo elemento de base mais importante, o ponto material, já corresponde à estrutura atômica da matéria.

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A moderna teoria dos quanta, sob sua forma determinada pelos nomes de De Broglie, Schrõdinger e Dirac, mostra uma operação com funções contínuas e supera esta dificuldade por uma audaciosa interpretação claramente expressa pela primeira vez por Max Bom: as funções de espaço que se apresentam nas equações não pretendem ser modelo matemático de estruturas atômicas. Estas funções devem unicamente determinar, pelo cálculo, as probabilidades de descobrir tais estruturas, no caso em que se medisse em dado local ou em dado estado de movimento. A hipótese continua logicamente irrefutável e alcança importantes resultados. Mas obriga infelizmente a utilizar um continuum, cujo número de dimensões não corresponde ao do espaço encarado pela física atual (em número de quatro), pois cresce de maneira ilimitada com o número de moléculas que constituem o sistema considerado. Reconheço que esta interpretação me parece provisória. Porque creio ainda na possibilidade de um modelo da realidade, quer dizer, de uma teoria que represente as coisas mesmas, e não apenas a probabilidade de sua existência.

De outro lado, num modelo teórico temos de abandonar absolutamente a idéia de poder localizar rigorosamente as partículas. Penso que esta conclusão se impõe com o resultado duradouro da relação de incerteza de Heisenberg. Mas poder-se-ia muito bem conceber uma teoria atômica no sentido estrito (e não fundada sobre uma interpretação), sem localização de partículas em um modelo matemático. Por exemplo, para compreender o caráter atômico da eletricidade, é necessário que as equações do campo terminem somente na seguinte proposição: uma porção de espaço de três dimensões, em cujo limite a densidade elétrica desaparece em toda parte, retém sempre uma carga total elétrica representada por um número inteiro. Numa teoria de continuum, o caráter atômico de expressões de integrais poderia então enunciar-se de maneira satisfatória sem localização dos elementos constituintes da estrutura atômica.

Se uma tal representação da estrutura atômica se revelasse ser exata, eu consideraria o enigma dos quanta completamente resolvido.

SOBRE A TEORIA DA RELATIVIDADE

Sinto uma alegria singular porque posso hoje falar na capital de um país de onde se transmitiram, para serem divulgadas no mundo inteiro, as idéias básicas mais essenciais da física teórica. Penso em primeiro lugar na teoria do movimento das massas e da gravitação, obra de Newton; penso em seguida na noção do campo eletromagnético, graças à qual Faraday e Maxwell repensaram as bases de uma nova física. Tem-se razão ao dizer que a teoria da relatividade deu uma espécie de conclusão à grandiosa arquitetura do pensamento de Maxwell e de Lorentz, pois ela se esforça por estender a física do campo a todos os fenômenos, inclusive gravitação.

Ao tratar do objeto particular da teoria da relatividade, faço questão de esclarecer que esta teoria não tem fundamento especulativo, mas que sua descoberta se baseia inteiramente na vontade perseverante de adaptar, do melhor modo possível, a teoria física aos fatos observados. Não há necessidade alguma de falar de ato ou de ação revolucionária, pois ela marca a evolução natural de uma linha seguida há séculos. A rejeição de certas concepções sobre o espaço, o tempo e o movimento, concepções julgadas fundamentais até esse momento, não, não foi um ato arbitrário, mas simplesmente um ato exigido pelos fatos observados.

A lei da constância da velocidade da luz no espaço vazio, corroborada pelo desenvolvimento da eletrodinâmica e da ótica, junto com a igualdade de direito de todos os sistemas de inércia (princípio da relatividade restrita), indiscutivelmente revelada pela célebre experiência de Michelson, inclina desde logo a pensar que a noção de tempo deve ser relativa, já que cada sistema de inércia deve ter seu tempo particular. Ora, a progressão e o desenvolvimento desta idéia realçam que, antes da teoria, a relação entre as experiências pessoais imediatas, de uma parte, e as coordenadas e o tempo, de outra parte, não fora observada com a indispensável acuidade.

Eis sem contestação um dos aspectos fundamentais da teoria da relatividade: é sua ambição explicitar mais nitidamente as relações dos conceitos gerais com os fatos da experiência. Além disso, o princípio fundamental permanece sempre imutável, e a justificação de um conceito físico repousa exclusivamente sobre sua relação clara e unívoca com os fatos acessíveis à experiência. De

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acordo com a teoria da relatividade restrita, as coordenadas de espaço e de tempo ainda conservam um caráter absoluto, já que são diretamente mensuráveis pelos relógios e corpos rígidos. Mas tornam-se relativos já que dependem do estado de movimento do sistema de inércia escolhido. O continuum de quatro dimensões realizado pela união espaço-tempo conserva, de acordo com a teoria da relatividade restrita, o caráter absoluto que possuíam, conforme às teorias anteriores, o espaço e o tempo, cada um tomado à parte (Minkowski). Da interpretação das coordenadas e do tempo como resultado das medidas, chega-se à influência do movimento (relativo ao sistema de coordenadas) sobre a forma dos corpos e sobre a marcha dos relógios, e à equivalência da energia e da massa inerte.

A teoria da relatividade geral funda-se essencialmente sobre a correspondência numérica verificável e verificada da massa inerte e da massa pesada dos corpos. Ora, este fato capital, jamais a mecânica clássica o pudera explicar. Chega-se a esta descoberta pela extensão do princípio de relatividade aos sistemas de coordenadas, possuidoras de uma aceleração relativa de uns em relação aos outros. Assim, a introdução de sistemas de coordenadas possuidoras de uma aceleração relativa em relação aos sistemas de inércia mostra e descobre campos de gravitação relativos a estes últimos. Daí se torna evidente que a teoria da relatividade geral, baseada na igualdade da inércia e do peso, autoriza também uma teoria do campo de gravitação.

A introdução de sistemas de coordenadas aceleradas, um em relação a outro, como sistema de coordenadas igualmente justificadas, como parece exigir a identidade entre a inércia e o peso, conduz, juntamente com os resultados da teoria da relatividade restrita, à consequência de que as leis dos movimentos dos corpos sólidos, em presença dos campos de gravitação, não correspondem mais às regras da geometria euclidiana. Observamos o mesmo resultado na marcha dos relógios. Então, impunha-se, necessariamente, uma nova generalização da teoria do espaço e do tempo, já que, doravante, se mostram absolutamente caducas as interpretações diretas das coordenadas do espaço e do tempo pelas medidas habituais. Esta generalização de nova maneira de medir já existia no setor estritamente matemático, graças aos trabalhos de. Gauss e de Riemann. E descobrimos que se fundamenta essencialmente sobre o fato de que a nova maneira de medir empregada para a teoria da relatividade restrita, limitada a territórios extremamente pequenos, pode se aplicar, com todo o rigor, ao caso geral.

Tal evolução científica, narrada como foi vivida, tira das coordenadas espaço-tempo toda a realidade independente. O real, em sua nova medida, agora só se apresenta pela ligação de suas coordenadas com as grandezas matemáticas que reconhecem o campo de gravitação.

A concepção da teoria da relatividade geral aplica-se a partir de uma outra raiz. Ernst Mach realçara de modo singular o fato de que na teoria newtoniana havia um ponto verdadeiramente pouco explicado. Com efeito, considera-se o movimento sem referência a suas causas, mas simplesmente enquanto movimento descrito. Por conseguinte, não vejo outro movimento a não ser o movimento relativo das coisas umas em relação às outras. Mas a aceleração que descobrimos nas equações do movimento de Newton continua inconcebível desde que se raciocine a partir da idÉia do movimento relativo. Então Newton viu-se obrigado a imaginar um espaço físico com relação ao qual deveria existir uma aceleração. Este conceito de um espaço absoluto introduzido ad hoc mostra-se, é certo, logicamente correto, mas não satisfaz o sábio. Por este motivo E. Mach procurou modificar as equações da mecânica de modo que a inércia dos corpos fosse explicada por um movimento relativo, não por referência ao espaço absoluto, mas por referência à totalidade dos outros corpos ponderáveis. Em vista dos conhecimentos científicos do tempo, a combinação devia fracassar.

Mas esta questão atormenta sempre nossa razão. A indução do pensamento impõe-se com uma força ainda muito maior quando se pensa em função da teoria da relatividade geral, pois, segundo ela, sabe-se que as propriedades físicas do espaço são influenciadas pela matéria ponderável. Minha profunda convicção reconhece que a teoria da relatividade geral não pode superar estas dificuldades de maneira verdadeiramente satisfatória a não ser que se pense o universo como um espaço fechado. Os resultados matemáticos da teoria nos impõem esta concepção, se se admitir que a densidade média da matéria ponderável no universo possui um valor finito, por menor que seja.

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