Conhecimento, inovação e comunicação em serviços de saúde

Francisco José Aragão Pedroza Cunha · Capítulo 1 de 12

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Conhecimento, inovação e comunicação em serviços de saúde

Prefácio

O tema deste livro, originado de um amplo e profundo debate de atores do mundo acadêmico e da gestão em saúde, insere-se como um dos grandes desafios da sociedade contemporânea e para o contexto do Brasil, em especial.

O assunto tratado em sua dimensão técnico-científica, referente ao conhecimento, à inovação e à comunicação em serviços de saúde, de fato, remete para os grandes empecilhos enfrentados por países como o Brasil que, ao mesmo tempo, procuram “acertar as suas dívidas” com um passado de desigualdade e “enfrentar o futuro” da sociedade do conhecimento, em meio a um processo assimétrico de globalização que recoloca a desigualdade em novas bases.

Mais do que a questão técnica e gerencial do uso dos sistemas de informação para as redes de serviços em saúde, coloca-se a questão tradicional da economia política de quem detém o poder sobre o conhecimento e de como esse poder é exercido na perspectiva da construção de um sistema de saúde universal, integral e equânime – objetivos estes fruto do pacto social constitucional vigente no Brasil. Ou seja, ao tratar do conhecimento, da inovação e da comunicação em um contexto institucional específico – os serviços de saúde – a técnica e a gestão são problematizadas pelo próprio contexto político e social que se quer construir.

Esta certamente é a grande riqueza e contribuição, a um só tempo, epistemológica, política e gerencial, que este livro traz para o debate, mesmo que de modo implícito na leitura da proposta de seus organizadores e das contribuições que constam dos diferentes capítulos.

Os serviços de saúde, sob uma perspectiva sistêmica, constituem o espaço concreto social onde se realizam os conhecimentos e as inovações em saúde. É na constituição das redes de atenção, em seus diferentes níveis de complexidade e de intervenção na sociedade, que os resultados das pesquisas, das inovações institucionais e gerenciais, das inovações tecnológicas incorporadas a novos bens e serviços se realizam, sendo o ponto de chegada de uma verdadeira trama social que envolve o Estado, o mercado e os atores sociais que forçosamente tem que interagir implícita ou explicitamente (pesquisadores, gestores do SUS, categorias profissionais, empresas e representantes do poder executivo e legislativo).

Duas questões essenciais, sob essa perspectiva, permeiam toda discussão. Primeiro, quem gera e qual o grau de autonomia existente nos sistemas de informação, que hoje talvez sejam a base material essencial para a gestão de redes nacionais e locais de serviços de saúde. As informações não são neutras e o domínio social sobre sua geração e difusão é essencial para determinar sua orientação para os sistemas de saúde. A superação da perspectiva de quais “pacotes tecnológicos” devem ser adotados em favor da construção de um caminho nacional é crucial, ainda que inserido nas redes globais de conhecimento.

É desta definição que a informação pode se constituir um meio decisivo para se formar redes gerenciais que tenham um sistema universal e equânime como estratégica política ou “sistemas, máquinas e pacotes” que se voltam para resolver problemas organizacionais. Ou seja, a apropriação e a capacidade de assimilar e desenvolver inovações e conhecimentos nas tecnologias de informação em saúde tornam-se questões centrais como meios de ruptura de um sistema de saúde ainda fragmentado e excludente, inserindo-se no processo político e social em curso de constituições de um sistema universal em um país da dimensão do Brasil, em termos territoriais e populacionais.

Segundo, o tema tratado e a visão sistêmica – que está na raiz do conceito do Complexo Econômico-Industrial da Saúde – remetem para a necessidade de superação do olhar sobre os serviços apenas como um espaço de consumo, mas sim como um espaço de geração ativa de conhecimento e de inovações, o que obriga a sair da lógica fragmentada de uma “indústria produtora” de tecnologias de informação e comunicação e de um serviço de saúde que demanda soluções técnicas para sua gestão geradas fora de seu espaço social. Os serviços conferem organicidade, ainda pouco percebida pelos agentes públicos, a todo um sistema produtivo que gera e absorve conhecimento e inovação, deixando de ser uma instância passiva e independente.

Com isto, torna-se necessário ir muito além da visão predominante sobre os serviços de saúde que normalmente restringem a questão de quem vai adquirir sistemas e “soluções” com certos atributos específicos e de sua relação com agentes “externos” públicos ou privados. No lugar desta visão, os serviços emergem como um locus concreto da “trama” política, social e institucional que orienta o rumo, a autonomia e o uso social da informação e das máquinas e sistemas que serão utilizados ou não em prol de um sistema universal nacional e regionalizado no Brasil.

Em síntese, este livro e as contribuições apresentadas, plurais e densas, incorporam o contexto contemporâneo e histórico do Brasil em que se trava a luta pela saúde universal no contexto tardio da construção de um Estado de Bem-Estar e luta pela soberania de quem gera, participa e orienta os conhecimentos, as inovações e as informações, contribuindo para superar as restrições provenientes de uma base técnica, política e social, que determinará os limites da liberdade para termos um projeto nacional de desenvolvimento no qual a saúde seja parte orgânica como uma vertente crítica estruturante, sem a qual não será possível dizer que nossa sociedade, enfim, superou o atraso e se tornou civilizada.

Carlos Augusto Grabois Gadelha

Secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do

Ministério da Saúde.

Professor e coordenador acadêmico do Mestrado de Política e

Gestão de Ciência e Tecnologia em Saúde da Escola Nacional de

Saúde Pública da Fiocruz.