Contos Populares Portugueses

Adolfo Coelho · Capítulo 1 de 22

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Contos Populares Portugueses

História da Carochinha

 

Era uma vez uma carochinha que andava a varrer a casa e achou cinco réis e foi logo ter com uma vizinha e perguntou-lhe: «Ó vizinha, que hei de eu fazer a estes cinco réis?» Respondeu-lhe a vizinha: «Compra doces.» «Nada, nada, que é lambarice.» Foi ter com outra vizinha e ela disse-lhe o mesmo; depois foi ainda ter com outra que lhe disse: «Compra tas, ores, braceletes e brincos e vai-te pôr à janela e diz:

Quem quer casar com a carochinha

Que é bonita e perfeitinha?»

Foi a carochinha comprar muitas tas, rendas, ores, braceletes de ouro e brincos; enfeitou-se muito enfeitada e foi-se pôr à janela, dizendo:

«Quem quer casar com a carochinha

Que é bonita e perfeitinha?»

Passou um boi e disse: «Quero eu.» «Como é a tua fala?» «U, u…» «Nada, nada, não me serves que me acordas os meninos de noite.» Depois tomou outra vez a dizer:

«Quem quer casar com a carochinha

Que é bonita e perfeitinha?»

Passou um burro e disse: «Quero eu.» «Como é a tua fala?» «Em ó… em ó…» «Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.» Depois passou um porco e a carochinha disse-lhe: «Deixa-me ouvir a tua fala.» «On, on, on.» «Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.» Passou um cão e a carochinha disse-lhe: «Deixa-me ouvir a tua fala.» «Béu, béu.» «Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.» Passou um gato. «Como é a tua fala?» «Miau, miau.» Nada, nada, não me serves, que me acordas os meninos de noite.» Passou um ratinho e disse: «Quero eu.» «Como é a tua fala?» «Chi, chi, chi.» «Tu sim, tu sim; quero casar contigo», disse a carochinha. Então o ratinho casou com a carochinha e cou-se chamando o João Ratão.

Viveram alguns dias muito felizes, mas tendo chegado o domingo, a carochinha disse ao João Ratão que casse ele a tomar conta da panela que estava ao lume a cozer uns feijões para o jantar. O João Ratão foi para junto do lume e para ver se os feijões já estavam cozidos meteu a mão na panela e a mão cou-lhe lá; meteu a outra; também lá cou; meteu-lhe um pé; sucedeu-lhe o mesmo, e assim em seguida foi caindo todo na panela e cozeu-se com os feijões. Voltou a carochinha da missa e como não visse o João Ratão, procurou-o por todos os buracos e não o encontrou e disse para consigo: «Ele virá quando quiser e deixa-me ir comer os meus feijões.» Mas ao deitar os feijões no prato encontrou o João Ratão morto e cozido com eles. Então a carochinha começou a chorar em altos gritos e uma tripeça que ela tinha em casa perguntou-lhe:

Que tens, carochinha,

Que estás aí a chorar?

Morreu o João Ratão

E por isso estou a chorar.

E eu que sou tripeça

Ponho-me a dançar.

Diz dali uma porta:

Que tens tu, tripeça,

Que estás a dançar?

Morreu o João Ratão,

A Carochinha está a chorar,

E eu que sou tripeça

Pus-me a dançar.

E eu que sou porta

Ponho-me a abrir e a fechar.

Diz dali uma trave:

Que tens tu, porta,

Que estás a abrir e a fechar?

Morreu o João Ratão,

A Carochinha está a chorar,

A tripeça está a dançar,

E eu que sou porta

Pus-me a abrir e a fechar.

E eu que sou trave

Quebro-me.

Diz dali um pinheiro:

Que tens, trave,

Que te quebraste?

Morreu o João Ratão,

Carochinha está a chorar,

A tripeça está a dançar,

A porta a abrir e a fechar,

E eu quebrei-me.

E eu que sou pinheiro

Arranco-me.

Vieram os passarinhos para descansar no pinheiro e viram-no arrancado e disseram:

Que tens, pinheiro,

Que estás no chão?

Morreu o João Ratão,

A Carochinha está a chorar,

A tripeça está a dançar,

A porta a abrir e a fechar,

A trave quebrou-se,

E eu arranquei-me.

E nós que somos passarinhos

Vamos tirar os nossos olhinhos.

Os passarinhos tiraram os olhinhos, e depois foram à fonte beber água. E diz-lhe a fonte:

Porque foi passarinhos,

Que tirastes os olhinhos?

Morreu o João Ratão,

A Carochinha está a chorar,

A tripeça a dançar,

A porta a abrir e a fechar,

A trave quebrou-se,

O pinheiro arrancou-se,

E nós, passarinhos,

Tirámos os olhinhos.

E eu que sou fonte

Seco-me.

Vieram os meninos do rei com os seus cantarinhos para levarem água da fonte e acharam-na seca e disseram:

Que tens, fonte,

Que secaste?

Morreu o João Ratão,

A carochinha está a chorar,

A tripeça a dançar,

A porta a abrir e a fechar,

A trave quebrou-se,

O pinheiro arrancou-se,

Os passarinhos tiraram os olhinhos,

E eu sequei-me.

E nós quebramos os cantarinhos.

E foram os meninos para o palácio e a rainha perguntou-lhes:

Que tendes, meninos,

Que quebrastes os cantarinhos?

Morreu o João Ratão,

A carochinha está a chorar,

A tripeça a dançar,

A porta a abrir e a fechar,

A trave quebrou-se,

O pinheiro arrancou-se,

Os passarinhos tiraram os olhinhos,

A fonte secou-se,

E nós quebrámos os cantarinhos.

Pois eu que sou rainha

Andarei em fralda pela cozinha.

E eu que sou o rei

Pelas brasas me arrastarei