Coração, Cabeça e Estômago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 4 de 7

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Coração, Cabeça e Estômago

Capítulo III · A Mulher que o Mundo Despreza

 

Naquele tempo li eu que Alfredo de Musset e Espronceda, poetas de altos espíritos, atordoavam as suas dores com a embriaguez, o primeiro porque amava uma literata anfíbia, o segundo porque o alanceavam remorsos de ter desgraçado uma Teresa, que morrera de paixão, por isso mesmo que não era literata.

Era então moda a vinolência, particularmente na academia universitária, onde os mancebos de mais poesia de alma e arremessos de “aspirações grandiosas”, como então se dizia, protestavam contra a estreiteza do âmbito, em que o século lhes apertava as faculdades, dilatando os fictícios horizontes da vida, até onde o vinho da bairrada, a genebra e o conhaque permitiam. Verdade é que nem sempre os ébrios podiam justificar a sua degradação com a necessidade de afogarem os desalentos e dissabores da existência nas copiosas libações. Uns embriagavam-se para darem em espetáculo de admiradores a capacidade do seu estômago, e bebiam por alguidares; outros contavam aos seus amigos uma história tenebrosa de amor, que lhes matara a esperança e os infernara para sempre: a história prefaciava de ordinário a emborcação de uma garrafeira. Os auditores do infausto rapaz levavam-no depois à cama, onde ele digeria o seu vinho e a sua angústia suprema.

Eu conheci um deles infelizes, que era meu conterrâneo e passava em Coimbra por ter sido ultrajado na sua nobre alma pela mulher de cujos lábios fementidos recebera a morte. Alguns poetas cantaram-no, praguejando a infame que lhe apunhalara o coração. Da história, que ele referia em tom cavo, a verdade nua era que ele viu a sobrinha de um abade numa romaria e ofereceu-lhe cavacas, que ela não aceitou, porque o abade lhes não tirava o olho de cima. junte-se a isto que ele foi à aldeia da Sra. Joaninha com o propósito de lhe falar em fugirem para um deserto; mas a pequena, como andasse atarefada com a matança dos cevados, não lhe deu trela. Por último, o meu vizinho ainda lá voltou numa noite de esfolhadas; porém, o abade, desconfiado, como pássaro bisnau que era, deu sobre o académico com uma foice roçadoira, e o académico fugiu com tanta pressa e felicidade que algum santo estava a pedir por ele. Em consequência disto é que o bacharel se embriagava, como Alfredo de Musset e Espronceda.

À imitação desta, podia eu contar a história de muitos bêbados ilustres da minha mocidade.(*) [(*) A palavra é pouco urbana e civil para livro de tanta polpa e gravidade. Bêbado é o homem que se embebeda na taberna. Ao bebedor que se embriaga nos cafés e nas salas, a não se lhe dar nome de espirituoso, também não deve chamar-se bêbado. Os glossários que conheço carecem desta distinção, que se quer observada entre pessoas que se tratam.]

Conheci outros que eram poetas orientais. Escreviam do amor das mouras, das volúpias dos serralhos, das acesas paixões dos Árabes. Claro é que num clima temperado, e com os costumes chãos e algum tanto lorpas e lerdos da nossa terra, a imaginativa carecia de espiritar-se com os boléus da embriaguez para sair-se dignamente com uma sextilha asiática. Vinham a fazer ditirambos, que intitulavam Arrobos, ou Coriscos.

 

***

 

NOTA

 

Entre as poesias de Silvestre, achamos uma, datada em 1855, que parece referir-se à época e aos poetas orientais de que vem falando nas suas memórias. Dela trasladamos um fragmento, que vem a ponto:

 

A esperança mocidade, a plêiade

De génios do Marrare, que é feito dela?

Pulavam em barda, enxame às nuvens

De abelhas, que libavam mel do Himeto,

Disfarçado em cognac; e, então, melífluos,

Como diz não sei quem, que sabe a língua,

Emelavam a gente, isto é, melavam!

E melaram os dulcíssimos meninos,

Quando neles se estava embelezado

O Tejo de cristal e a lua meiga.

 

Que é deles? Onde o ninho destas aves?

Que emplumavam, apenas, e já punham

O olhar na montanha bipartida,

E as cândidas asinhas sacudindo,

Era um gosto comum, um acto pátrio,

Um gosto nacional perdê-los d'olho

 

E ouvi-los, lá do alto, em trinos destes:

 

“Doce brisa,

Que desliza,

Pela junça

Do paul,

Traz perfume

Como a aragem

Da bafagem

Duma virgem

De Istambul.”

 

A compita de cântico, responde

 

Dalém, doutro poleiro, em sons mais ternos,

Outro bardo, que tem na terra amores:

“Minha Elisa, o teu segredo

Não no sei;

Nem na voz do arvoredo

Adivinhei.

..., querida!, diz-mo cedo,

Diz-mo, querida,

Pela vida!

Se não dizes,

Morrerei!”

 

No número de ébrios que inspiram compaixão às almas flexíveis estava eu. Quem tiver lido as minhas desventuras e pesado, nas cordas sensíveis do seu peito, as embaçadelas (por não dizer sempre desapontamentos) que apanhei na curta primavera da minha vida, decerto me desculpa do asqueroso vício de que me sinto assaz castigado pelas inflamações de vísceras que a miúdo me atormentam. A imagem de Paula não me parecia como visão que da mulher que nos abandonou enfastiada e talvez chorasse por não poder amar-nos! Deus sabe quanto dói à criatura que amaldiçoamos o tédio que as nossas meiguices, e lágrimas, e ciúmes, lhe causam!

Comecei por beber licor de hortelã-pimenta e acabei no abismo estreme. A minha embriaguez era pacífica e até certo ponto catedrática. Eu me explico. Se o auditório me favorecia, deixava-me ir em discursos sobre a filosofia da história, alternados com outros discursos sobre a história da filosofia. Estas matérias, que a todo o homem, em estado normal, se figuram áridas e insípidas, a mim pareciam-me deleitosas e lucidíssimas; e os ouvintes, salva a lisonja, mostravam-se igualmente admirados que instruídos. Não poderemos inferir daqui o facto de que as ciências de certa transcendência as devemos à alucinação de certas cabeças?, e que o espírito humano, sem o complemento de outros espíritos, cuja imortalidade ninguém discute, há de sentir sempre a estreiteza dos seus limites? Não discorro agora a este respeito, porque bebo água há dois anos.

Numa dessas noites de exorbitância intelectual, como o auditório me abandonasse, saí do Marrare das Sete Portas e fui ver a Lua, que crispava de cintilantes escamas a superfície prateada do Tejo. Eram onze horas. Num dos bancos que adornam o Cais do Sodré vi sentada uma mulher, que trajava de escuro e apoiava a cabeça entre as mãos, que, ao revérbero de um candeeiro, pareciam de alabastro, amarelecido de anos.

Aproximei-me dela, parei com quanta firmeza as pernas me permitiam, e disse-lhe:

— Mulher!

E ela, voltando para mim a face pálida, encarou-me e não respondeu.

— Mulher! — tornei, encostando-me ao peitoril do cais para manter a dignidade e aprumo do discurso.

— Que quer? — respondeu ela.

— Que tens tu com as magnificências da noite? Que segredos vens tu dizer às estrelas, que o Criador fizera tuas irmãs na formosura do brilho? Se te despenhaste da tua inocência, que queres tu deste céu que só verte o orvalho consolador no seio das criaturas afligidas sem mancha, das padecentes sem culpa, ou das infames com dinheiro?

Pouco mais ou menos, foi isto o que lhe disse, que me lembre; o restante, a não ser discurso sobre a história filosofia.

O mais que me lembra é que, às cinco horas da manhã desse dia de Agosto, a mulher do Cais do Sodré ia comigo numa carruagem e respirava o ar balsâmico da estrada de Sintra.

 

***

 

— Conta-me a tua história, Marcolina, antes que eu perca a razão, para lhe dar valor. A embriaguez, quando não é insultuosa, é pouco persistente nos sentimentos generosos. Faz-me compadecer de ti e darás à minha vida rumo novo, ou pelo menos uma ideia útil e própria de homem que ainda tem intervalos de encontrar-se na consciência. Tu choraste, quando viste árvores e flores; pediste-me que te deixasse morrer lá em cima entre as fragatas da serra; erraste uma vista, de quem se sente morrer de desalento, pela extensão do mar. Quem és tu?, donde caíste até encontrar o primeiro apoio na tua queda sobre o ombro de um homem perdido de razão, que tu recebeste como se encontrasses um teu irmão no despejo e na desgraça? Já sei o teu nome; vejo que foste bela; que a natureza te quer ainda vestir de umas galas que tu expeliste de ti, quando as rasgavas com pedaços do coração. Já tens outra cor; e as lágrimas, em que te nadam os olhos, parece que te querem lavar os estigmas da face. Voarão nesta atmosfera os anjos invisíveis que te conheceram, quando tu eras pura?

Marcolina abraçou-me sem a veemência convulsiva que os dramaturgos mandam nas rubricas. Foi um abraço senhoril, comedido e honesto como nossas avós os davam naqueles jogos e saiam sempre numa cadeira em frente da minha otomana e disse:

— Nasci no dia em que o meu pai morreu nas linhas de Lisboa. Tenho dezoito anos. O meu pai foi empregado na tesouraria, onde ganhava para levar a vida com abundância. Se algum desgosto sentia, era por não ter um filho. Morreu, como lhe disse, no dia em que eu nasci.

A minha mãe ficou muito nova e bonita; mas quase pobre. As economias que o meu pai deixara dariam escassamente a subsistência de um ano. Ouvi dizer que a casa estava trastejada com luxo, em que o meu pai se esmerava, por ter sido criado no paço, onde meu avô era cirurgião.

A mãe teve muito quem a pretendesse, não tanto por ser bela como por correr fama que tinha dinheiro. Teria eu um ano quando ela casou com um empregado público, mais novo e mais pobre que ela.

Lembro-me da minha infância dos seis anos em diante, e dos meus irmãos, que já eram dois, filhos do meu padrasto; e, quando eu tinha dez anos, já éramos seis irmãos, todos meninas.

Não tenho memória nenhuma de viver em casa mobilada com limpeza. A minha mãe foi vendendo pouco e pouco algumas joias que tinha para ajudar às despesas, que aumentavam, e aos vícios do seu marido, que também cresciam com a pobreza. O que me lembra muito bem é a indigência, e a fome, e a nudez das minhas irmãs.

O meu padrasto, por causa de uma revolução, foi demitido do lugar; e, obrigado pela penúria, fez um roubo, e esteve preso alguns meses. Nunca mais o vi, e não sei ainda hoje se foi degredado, se foi para o Brasil, como a minha mãe dizia.

Quando eu tinha doze anos, vivíamos num último andar de uma casa na Rua de S. Luís. A minha mãe saía à noite com três das minhas irmãs e recolhia-se muito tarde a fazer a ceia, que era muitas vezes o jantar. Creio que ela andava mendigando. Outras vezes fechava-nos todas na única alcova da casa, e ela ficava na saleta: creio que este facto era mais horrível que pedir esmola.

Aos catorze anos, estando eu sozinha em casa uma noite, fazendo camisas para embarque, ouvi um rangido de botas nas escadas próximas e estremeci. A porta foi aberta de fora com a chave, e eu ergui-me, espavorida, correndo à janela que se abria sobre o telhado. Lembraram-me, naquele instante, palavras que a mãe me tinha dito, e julguei-me perdida.

Quando lancei a vista à porta para me bem convencer da desgraça, vi um homem que caminhava para mim, dizendo que me não assustasse. Eu fui recuando até ao cantinho da casa e encolhi-me a tremer e a chorar.

Parece que o homem teve piedade de mim. Esteve a olhar-me com ar melancólico, sentou-se e limpou o suor da testa.

Perguntou-me quantos anos tinha; se a minha mãe nada me tinha dito a respeito de uma visita; se eu antipatizava com ele; se eu queria sair de tanta pobreza e da companhia da minha mãe, que me vendera e que tencionava viver do preço da minha honra.

Eu respondi soluçando a tais perguntas. O homem, que se mostrava condoído, chegou a chamar-me para junto dele, oferecendo-me uma cadeira. Fui sentar-me com muito medo; mas tranquilizei-me algum tanto quando vi que me não lançava as mãos. Uma vez que ele se inclinou para mim, deitando-me o braço à cintura, ergui-me de salto e ajoelhei, pedindo que me deixasse. Ergueu-me com brandura e disse-me: ‘Esteja sossegada, que eu não lhe faço mal’ — e passados instantes continuou: ‘A sua felicidade não é eu deixá-la; porque amanhã a sua mãe a venderá a outro homem que se não compadeça da sua inocência e lhe despreze as lágrimas. A sua posição, menina, é muito desgraçada nesta casa. Eu vinha preparado para encontrá-la bem disposta a ceder ao destino que a sua mãe lhe deu; vejo que não é fingida a sua dor. Quer, Marcolina, salvar-se das grandes vergonhas que a esperam? Saia já desta casa, aceite a minha amizade; venha para minha companhia, e depois pensará no que melhor lhe convier para ser menos infeliz. Confesso-lhe que a sua beleza me encanta; mas já não serei capaz de a querer sem que o seu coração a leva a ser minha amiga.’

Continuou a falar neste sentido longo tempo; e a final estando já de pé para sair, lançou-me ao regaço dinheiro em ouro e disse: ‘Quando a sua mãe vier, diga-lhe que está pura, peça-lhe que não a venda, e obrigue-se a sustentá-la com a condição de não a vender. Esse dinheiro é o necessário para um mês; no princípio do mês que vem receberá igual quantia.’ E saiu, beijando-me na testa e murmurando, quando me viu estremecer ao contato da sua boca: ‘Pobre menina!’

— Era novo esse sujeito? — interrompi.

— Não, senhor. Teria cinquenta anos.

— Continua. A tua mãe quando chegou...

— Viu o ouro sobre a mesa e fez-se escarlate de infernal alegria. Olhou para mim e disse: ‘Não estás mal comigo?’ Rompi num choro, que me afogava. Quis ela abraçar-me, chamando-me tola com modos carinhosos, e eu fugi para a alcova onde minhas irmãs estavam assentadas no enxergão.

— Das tuas irmãs, uma já devia ter treze anos nesse tempo.

— Essa não vivia connosco.

— Que destino tinha tido?

— O que a minha mãe quiser dar-me. A mãe disse-me que ela estava na Casa Pia; mas, alguns meses depois, soube que ela estava na situação em que estou hoje.

— E está ainda?

— Não, senhor. Morreu de dezasseis anos.

— No hospital?

— Não, senhor, na minha casa.

— E as outras irmãs?

— Logo lhe direi.

 

***

 

— A minha mãe quis que eu lhe contasse o que se passara entre mim e o Sr. Barão.

— Ah!, era barão, o sujeito?!

— Era barão; mas não o maldiga, que tinha boas qualidades.

— Veremos... Por enquanto, não há razão de queixa. Ora diz o mais.

— Contei à mãe o sucedido; menos o modo como ele me falara dela. Ouviu-me com admiração e disse-me: “Se eu soubesse que ele tinha palavra e te dava mesada, saíamos destas águas-furtadas e podíamos viver regaladamente.” Acrescentou a estas palavras um plano vergonhoso que devia enriquecer-me em poucos anos. Faz-me horror o que lhe ouvi!

No dia seguinte, a minha mãe comprou-me um vestido de cassa, um mantelete em segunda mão, um chapéu de palha e outras miudezas. Mandou-me pentear, e vestir, para darmos um passeio. Atravessámos algumas ruas, que eu via pela primeira vez, e entrámos no pátio de um palacete. ‘Onde vamos?’, disse eu. ‘Aqui é que mora o Sr. Barão; é preciso sermos gratas.’ O guarda-portão, que já a conhecia, tinha subido a dar parte ao amo, e voltou quando a minha mãe me estava a dizer: ‘Deves mostrar-te muito agradecida ao fidalgo e pede-lhe licença para mudares de casa e alugares outra onde ele possa entrar sem repugnância.’

Fez-me uma mudança espantosa no meu espírito, quando tal ouvi. Não hesitei. Subi as escadas, e a minha mãe sentou-se no banco do pátio. Entrei numa sala muito rica e sentei-me à espera. Tinha o rosto banhado de lágrimas. Chegou o barão, e veio ao pé de mim, com ar muito alegre e meigo. ‘Quem a trouxe aqui, Marcolina?’, disse ele. ‘Foi a minha mãe, com um recado; mas eu venho dizer-lhe outra coisa.’

Faltou-me o ânimo para continuar; mas, instada pelo barão, e com a odiosa imagem da minha mãe a instigar-me, cobrei forças e pude dizer-lhe que me tirasse da companhia da minha mãe e se compadecesse do meu infortúnio. ‘Agora mesmo’, disse ele. E saiu da sala para entrar noutra, onde mandou chamar a minha mãe. Soube, depois, que nessa ocasião se realizou o contrato, com muita generosidade da parte dele no pagamento e pronta anuência dela no separarmo-nos. Neste intervalo, chorei com saudades da minha irmãzinha mais nova, que tinha cinco anos e meio e era linda como um anjo.

Passados quinze dias, a minha guarda-roupa estava cheia de cetins e veludos. Tinha brilhantes que faziam invejável a minha desonra. Tinha uma mestra, que me ensinava as atitudes senhoris nos camarotes e recebia dessa mesma lições para entrar na carruagem, apanhando a cauda dos vestidos com elegância, e saltando dela garbosamente para o banco almofadado que me oferecia o lacaio. Numa das minhas primeiras idas a S. Carlos, vi minha irmã num camarote com mais duas senhoras. Dei um grito de surpreendida e indiquei-a ao barão. ‘Não olhes para lá, disse-me ele, ‘tua irmã, se é aquela, deve ser o que são as companheiras: são três prostitutas que ali estão.’ Baixei os olhos, como obrigados pelo peso das lágrimas e da vergonha. Vergonha e lágrimas! Que mais valia eu que a minha irmã, e quem era mais digna de lágrimas que eu!

Um dia recebi um bilhete da minha irmã, dando-me os parabéns da minha felicidade e pedindo-me que a não desprezasse por ter sido menos feliz que eu na carreira que a mãe nos dera a ambas. Mostrei esta carta ao barão, e ele, com soberba irritação exclamou: ‘Não lhe respondas; proíbo-to, sob pena de ficarmos mal.’

— Começa o barão... — atalhei eu.

— Começa o segundo acto da minha tragédia — disse Marcolina.

 

***

 

— Fui um dia ao Campo Grande: ia sozinha na carruagem. Apeei para passear entre as árvores e vi ao longe duas senhoras correndo para mim. Conheci minha irmã e corri para ela. Abraçámo-nos a chorar. Contou-me em breves palavras a sua vida. Era a minha, com a diferença das pompas. Vivia com um mercador de panos, que aborrecia; mas sujeitava-se por não ver outro caminho por onde achasse mais honesto modo de vida. Praguejou contra a mãe, analisando ao mesmo tempo os meus anéis e pulseiras com olhos cobiçosos.

Quando assim estávamos entretidas, apareceu de súbito o barão; encarou-me com desabrimento e disse-me: ‘Já para casa!’ Não repliquei, nem mesmo olhei para minha irmã. O barão arguiu-me severamente; e, dizendo-lhe eu que a minha vida não era mais honesta que a da outra desgraçada, mostrou-se muito ofendido com ser comparado ao mercador de panos. Arrependi-me de dizer tal, porque ouvi insultos da sua vaidade ferida com tão pouco. Desde esse dia, comecei a sentir os espinhos da minha posição. Caí numa modorra de tristeza, mais dolorosa que a miséria. Se ia ao teatro, era violentada: se me vestia, a capricho do barão, fazia-o tão contrariada que ele rompia em desatinos contra mim, dizendo-me que eu já o não amava... como se eu o tivesse amado algum dia! O ódio a minha mãe recrescia, quanto mais eu entrava na consciência da minha perdição e no preço das galas com que eu insultava a virtude honesta. A minha grande desgraça, senhor, era eu não poder destruir os sentimentos da dignidade, talvez herdados do meu pai, que fora honrado. As mulheres na minha posição começam a ser felizes quando se enterram de todo no charco das torpezas.

Um dia, estava eu à janela, e vi passar a minha mãe com a filha mais nova. Retirei-me, quando ela me ia acenar com a mão; mas ficaram-me os olhos na criança, e escondi-me a chorar. O barão encontrou-me a enxugar as lágrimas; contei-lhe a causa; e ele, querendo consolar-me, disse-me que a minha mãe e irmãs estavam vivendo fartas e com decência à minha sombra, e acrescentou que, enquanto eu me portasse bem, não lhes faltaria nada. Pedi-lhe que me deixasse ter na minha companhia a mais nova das minhas irmãs. Não quis, nem mesmo concedeu que ela me visitasse alguma vez. Ora isto, e muitas outras contradições que fazem o desgosto da vida íntima, conseguiram desvanecer pouco e pouco a amizade que eu cheguei a dar-lhe, mais por amor da piedade com que me tratou na minha pobre casa que pela opulência com que me tinha na sua. Entrei a pensar no modo de me resgatar do cativeiro; porém, não via nenhum que não fosse aumentar o meu infortúnio.

Lembrei-me de ir para uma terra da província ensinar meninas; mas eu escrevia tão mal, e lia tão pouco, que de certo me rejeitariam. De prendas de costura, apenas sabia dar um ponto, visto que a minha mãe não pudera nem quisera dar-me educação, nem tive mestra, senão quatro meses, enquanto se me não romperam os vestidinhos que me dera minha madrinha.

Pedi ao barão que me desse uma mestra de escrita e de leitura e me mandasse ensinar algumas prendas para me entreter.

Anuiu a tudo, menos ensinar-me a escrever, dizendo que o saber escrever era causa de muitas mulheres se perderem.

Irritou-me muito esta objeção; mas aceitei o consentimento de aprender a marcar, bordar e talhar vestidos de senhoras. Felizmente a mestra escrevia sofrivelmente, e ensinou-me às escondidas, com grande aproveitamento.

O barão tinha um guarda-livros, que raras vezes me via, e perdia a cor se acertava de encontrar-se comigo. Era novo como eu, tinha uma fisionomia agradável e um acanhamento que me fazia supor que eu, na minha situação, ainda impunha respeito. Conheci então o amor, à força de pensar que sentimento seria o que ele me causava. Era eu quem já o procurava ver de longe, e me retirava, se o guarda-livros me surpreendia a observá-lo de uma janela por onde, através do pátio, se via o escritório.

Alguém me denunciou ao barão, quando eu me julgava a resguardo da menor suspeita. O caixeiro foi despedido e a notícia deu-ma o barão com um riso sardónico e do mau intento. ‘Já sei o fim para que tu querias saber escrever’, disse ele. ‘Qual era?, acudi eu. Não respondeu.

Passados dias, achei uma carta no livro que andava lendo, emprestado pela mestra. Era do guarda-livros. Quem trouxera esta carta? Seria isto uma velhacaria traiçoeira do barão?! Não era. A mestra fora-me dada por informação do caixeiro e, a instâncias dele, me trouxe a carta, que não ousara entregar diretamente.

Não me afligiu a temeridade do rapaz, que eu amava. Recebi a carta, agradeci-a à mestra, e respondi-lhe sem artifício, dizendo-lhe sinceramente que o amava; mas que entre mim e ele estava uma eterna barreira, levantada pela minha vergonhosa posição. Mulher que não amasse com toda a candura e inexperiência do que são verdadeiras vergonhas não escreveria tal carta. A mulher experimentada na infâmia finge sempre que não a incomoda a consciência de que a tem e nega aos outros o direito de pensarem que ela se imagina infame. Penso eu que é verdade isto, pelo que tenho aprendido de mim própria.

O guarda-livros respondeu-me admirando-se que eu visse tal barreira entre nós, quando ele meditava em me fazer sua esposa. Desde que li esta segunda carta, senti-me doida de esperanças felizes; apaixonei-me pelo homem, que me não via ás nódoas da desonra: não era já amá-lo, era adorá-lo na minha imaginação.

E, ao mesmo tempo, tamanha aversão me fazia o outro de quem o meu corpo era escravo que já mal podia dissimulá-la.

Conseguiu Augusto que eu lhe falasse, quando saísse a passeio. Mandei pôr os cavalos à sege quando o barão estava fora. Apeei-me em S. Pedro de Alcântara e desci ao jardim, onde Augusto me esperava. Balbuciou a repetição do que me tinha escrito, sem ousar tocar-me a trémula mão, nem eu ousava oferecer-lha. Conheci que a minha riqueza o humilhava, lembrei-me então que aquele rapaz, se me visse numa pobre casa com modestos trajos, havia de amar-me expansivamente! Que falsos juízos forma o coração que se não vendeu o corpo. Que grande bem seria poder a mulher despojar-se da pureza da alma quando se desonra!

O barão teve aviso de que eu me encontrara com o guarda-livros. Nada mais natural! Como pensara eu que os criados me não espreitassem! Cegava-me a razão, o amor e o desejo impetuoso da liberdade. Já se me não dava que ele o soubesse e me expulsasse. Jussara até comigo de lhe dizer a verdade, provocando-me o barão a dizê-la.

Foi o que sucedeu. À primeira queixa do homem assanhado pelo ciúme respondi que certissimamente amava Augusto; que queria passar do crime faustoso para a virtude na pobreza; que era muito infeliz na vida que tinha; e que só com amor se podia suportar a vergonha de ser banida da sociedade.

Espantou-se do meu desembaraço o barão e cobriu-me de injúrias; das injúrias passou às lágrimas; das lágrimas tornou aos insultos; e quando eu menos podia esperar uma vilania sem nome, deu-me uma bofetada. Levei as mãos ao rosto e quase perdi os sentidos. Quando abri os olhos, desvariados de angústia, o barão estava ajoelhado aos meus pés e dizia: ‘Eu não sou, há muito, teu marido porque não posso sê-lo, porque nunca te disse que sou casado e que tenho a mulher no Brasil. Espera que ela morra, e então serás minha mulher. A sociedade te respeitará então o título, a riqueza e a virtude de me teres sido fiel.’

Não sei que mais lhe ouvi, que parecia aumentar o sentimento de abominação agravado pelas súplicas depois do insulto. Afastei-me e escrevi-lhe, a despedir-me. Devia de ser-lhe nova e aflitiva surpresa quando viu a minha carta escrita com boa letra e rancorosa eloquência com que eu lhe atirava ao rosto a desestima em que o tinha, já convertida em desprezo.

Dum arremesso, entrou no meu quarto. Trazia um par de pistolas aperradas: tive-lhe medo e horror quando ele gritou: ‘Uma para te matar e outra para mim!’ ‘Que mal fiz eu para morrer?!, exclamei com ânsia de quem quer e pede a vida.

 

***

 

— Menti-lhe para me livrar das baixezas suplicantes e das ameaças. Prometi deixar Augusto e ficar na companhia do barão. Pediu-me que escrevesse uma carta ao caixeiro, segundo ele ma ditasse. Recusei. Ameaçou-me de novo; vendo-me, porém, resistente e já disposta a morrer, tornou às branduras e desistiu da carta, como coisa inútil depois da minha promessa.

No mesmo dia, brindou-me com um alfinete de diamantes e mandou-me preparar para irmos viajar. O meu plano estava formado: respondi a tudo que sim.

Quando veio a mestra, dei-lhe uma carta para Augusto, avisando-o do meu projeto de fuga e pedindo-lhe que me recebesse assim pobre, que eu já sabia trabalhar e nunca lhe seria pesada.

A mestra estava já vendida ao barão, que foi logo senhor da carta. Se eu fosse esperta, adivinhara a perfídia da medianeira na alteração de rosto com que me recebeu a carta. Estava-se acusando a vil criatura; mas eu não podia julgá-la. Parece-me que só os infames podem julgar bem os infames.

Vi entrar o barão no meu quarto com terrível contratação de rosto. Sem me encarar, pediu-me uma a uma todas as minhas joias: dei-lhas. Pediu-me todos os meus vestidos, todos, nomeando-os um a um pelas suas cores e estofos: dei-lhos; e perguntei se devia despir o que tinha vestido. ‘Veremos’, disse ele. E, depois de atirar com os vestidos a pontapés para o interior do seu quarto e guardar as joias, acrescentou: ‘agora, vá quando quiser, que vai como veio. ‘Não vou como vim’, respondi eu. ‘Era pura quando entrei nesta casa, Sr. Barão.’ Replicou-me com um insulto sem nome e saiu.

Esperei que anoitecesse, e no entanto pensei para onde iria. O coração impelia-me para Augusto; mas eu ignorava a residência dele. Lembrou-me ir pedir agasalho a minha irmã, e de casa dela indagar a morada de Augusto. Lembrou-me de relance a minha mãe; mas suposto me sorrissem as minhas irmãzinhas, fechei logo os olhos a esta horrorosa visão. Prevaleceu o único refúgio, que era minha irmã, muito menos desgraçada do que eu.

Escureceu; saí do quarto e desci as escadas. Ia assim como estou agora. Não levava comigo cinco réis, nem valor algum além de um vestido de casa que tinha no corpo. A meio das escadas, saiu-me o barão de uma sobreloja, travou-me pelo braço com mais amor que força e disse-me: ‘Onde vais, desgraçada?! Pensa bem no passo que vais dar. Contas com o caixeiro? Esse miserável é tão pobre como tu. Desde que saiu da minha casa, já me mandou pedir um empréstimo, que eu lhe dei como esmola. Nenhuma casa comercial o aceita sem as minhas informações; e eu, a quem mas pede, respondo que ele aniquilou a minha felicidade e desgraçou para sempre duas famílias. Serve-te assim o homem? Pensas que o caixeiro irá pedir esmola para te sustentar? Irá; mas quem é que lha dá? E quando ele, cansado de humilhações e desonras, friamente olhar para ti e te julgar a causa da sua desgraça, há de aborrecer-te, odiar-te, e abandonar-te, e fugir de ti como quem foge do maior inimigo. Medita nisto, Marcolina. Perdoo-te o mal que me fizeste, esqueço tudo, peço-te mesmo perdão do que fiz hoje, alucinado pelo amor que te tenho. Ficas, Marcolina?

‘Não fico’, respondi, ‘nem vou procurar Augusto. Para desgraça, basta a minha. Vou ter com a minha irmã e de lá procurarei uma casa onde sirva.’

Lançou-se-me aos pés o barão, abraçou-me pela cintura abafado pelos soluços; disse-me até, no seu desvario, que iríamos para a França, e lá casaria comigo. Causou-me riso e compaixão este desatino!... Cedi, deixei-me ir quase nos braços dele até ao meu quarto. Parecia louco de alegria o pobre homem! Trouxe-me as joias, tirou do dedo um grande brilhante, que ele chamou anel de casamento, e quis à força que eu o pusesse entre outros, posto que podia abranger três dos meus dedos.

— Era uma pulseira! — interrompi eu com ambições de graça. — O barão, exceto os dedos, parece-me um bom sujeito!

— Era — disse Marcolina —, era um coração como poucos. As ameaças das pistolas, os insultos, a requisição das joias e dos vestidos, tudo isto, que parece vilania, era nele uma sublime maneira de exprimir o seu muito ciúme e paixão.

Nunca mais vi a mestra, nem tive pessoa que me falasse de Augusto. Naturalmente o fui esquecendo, o forçoso era esquecê-lo em Paris e Londres, para onde o barão me levou, sem me dar tempo a pensar uma hora no meu passado.

De Londres fomos para Alemanha, e estávamos em Baden-Baden, quando o barão, no gozo de robusta saúde e felicidade que a cada hora me confessava, morreu subitamente de um ataque apoplético, quando se estava banhando.

Não estou a moer-lhe a paciência com os pormenores das coisas sucedidas depois da morte do meu extremoso amigo. Basta dizer-lhe que eu fiquei apenas possuidora dos objetos valiosos que tinha para meu uso, e sem esses mesmos ficaria se um português que estava em Baden-Baden me não aconselhasse a sonegá-los às averiguações da justiça. A mulher do barão veio a Portugal e habilitou-se herdeira única da grande riqueza.

Deliberei voltar para Lisboa.

 

***

 

— As minhas joias valeriam quarenta mil cruzados.

Coadjuvada pelo serviçal português, que me aconselhara, vendi em Londres as melhores peças do meu cofre e apurei uns doze contos de réis. Cheguei a Lisboa e aluguei uma casinha agradável em Buenos Aires. Procurei minha irmã e encontrei-a com muita dificuldade, reduzida ao extremo aviltamento. Em menos de um ano, a infeliz descera a escala da abjeção, que outras descem em muitos anos de libertinagem, com reveses de miséria e luxo. Se alguma vez passou numas ruas imundas da cidade alta, onde as mulheres competem em palavras obscenas com os marinheiros embriagados, já sabe onde eu encontrei a primogénita das segundas núpcias da minha mãe.

E a minha mãe onde estaria? e as minhas irmãs a que destino seriam chamadas?

Levei a desgraçada para a minha companhia. Chorei três dias a contemplá-la; e ela não chorava. Vesti-a com decência igual à minha; levei-a comigo a passeios ao campo; falava-lhe em tudo, menos no seu destino; queria ela contar-me a sua queda, e eu pretextava sempre uma distração para não lha ouvir.

Passados quinze dias, conheci que a minha irmã amava o vinho e bebia muito, e ria desentoadamente depois, começava a rir logo de manhã, e chegava ao jantar já completamente embriagada. Chamei o criado a perguntas, e soube que ela bebia genebra em grandes porções e a toda a hora. Aconselhei-a primeiro brandamente, e depois, baldados os bons modos, repreendi-a com severidade. O resultado foi querer ela sair da minha casa e voltar ao sítio donde viera. Estava irremediavelmente perdida. Consenti que se embriagasse e não saísse. Não bastou esta concessão. Um dia desapareceu-me. Fui procurá-la às paragens mais prováveis e não pude achá-la. Só depois de um mês, com auxílio da polícia, pude descobri-la... no Hospital de S. José.

Fui ao hospital. Falei-lhe, e vi que estava de todo desfigurada. Consultei o facultativo da enfermaria e soube que a minha irmã estava mortalmente doente de tubérculos pulmonares. Fi-la transportar para minha casa, por me lembrar que no hospital, a religião não poderia dar-lhe esperanças de melhor vida, agonizando ela entre as suas companheiras de desgraça, que continuamente vociferavam torpezas, ou praguejavam contra Deus, enfrenesiadas pelas dores.

Ao sair do hospital, encontrei Augusto. Senti um abalo, como se visse ressuscitado um amigo morto e quase esquecido. Adiantou-se ele para mim, cumprimentou-me, e disse-me que andava estudando Medicina e estava no seu segundo ano, modo de vida que abraçara por ter parentes que o protegiam, conhecedores da malvadez com que o barão o perseguia.

A minha irmã morreu: já não podia vencer a morte. Prestei-lhe quantos auxílios cabiam em forças da amizade e da compaixão. Os paroxismos da infeliz foram tranquilos; e, se as lágrimas valem na presença de Deus, pode ser que o seu inferno fosse o deste mundo somente.

 

***

 

— Foi Augusto visitar-me.

Falou-me do passado, e eu contei-lhe tudo que decorrera desde a sua última carta.

Não lhe ocultei os haveres, que eu tinha em inscrições, compradas com o produto das joias. Respondi com amizade às reminiscências do seu amor. Pedi-lhe que fosse meu amigo, simplesmente meu amigo, e que não quisesse acordar um sentimento que por pouco nos não fizera a ambos desgraçados sem refúgio.

Encarreguei-o de indagar a sorte da minha mãe. Soube que ela, desde a morte do barão, estava vendendo os móveis para se sustentar e que, em breve, na opinião dos informadores, teria as filhas em conta de móveis. Augusto, industriado por mim, pode falar às meninas, na ausência da mãe, e persuadiu-as a fugirem para a minha companhia; o que elas prontamente fizeram. Ao mesmo tempo, mandei dar a minha mãe uma mesada, com a certeza de que as faria educar e preparar para um virtuoso destino.

Parece que o senhor às vezes se mostra espantado desta linguagem na boca da mulher que ontem encontrou às onze horas da noite!...

— Dizes bem, Marcolina; às vezes espanto-me. Tenho-te ouvido falar em virtude não sei quantas vezes!

— Uma.

— Só uma?! Será: mas tens tido raptos de eloquência religiosa que cabiam muito bem num livro espiritual.

— E daí que conclui? Que sou hipócrita?

— Não: concluo apenas que és mulher, mistério enigma, absurdo, paradoxo, mescla de luz do Céu, e lavareda do Inferno, demónio e anjo, etc. Continua, que eu enquanto te não vir desfalecida de falar, não te lembro que devemos jantar hoje.

— Pois então jantemos, que eu não penso mais. Parte-se-me o peito com dores; preciso descansar, porque há seis anos que não falo tanto, meu amigo. Estou admirada do bem que me faz o ar do campo. Ainda não tossi desde que cheguei a Sintra.

— Pois tu tens tosse?

— Tenho a tosse da tísica.

— Estás tísica?

— Parece-me que sim... Não falemos em moléstias. Vamos jantar debaixo das árvores: pode ser que eu chore, e o Sr. Silvestre também. Felizes os que choram... É a única felicidade que eu posso dar-lhe.

Estava o jantar na mesa.

 

***

 

ENTRE PARÊNTESES DO EDITOR

 

Há de muita gente pensar que Silvestre da Silva, nesta parte das suas memórias, anda apegado às muletas literárias dos modernos regeneradores das mulheres degeneradas. Arguição injusta! A Margarida Gauthier é muito mais nova que a Marcolina; e reparem, além disso, que o processo da reabilitação. Eu estou em acreditar que Marcolina, longe de exibir a fibra pura do seu coração, pedindo que lhe aceitem a virgindade moral que ela se refugiou das paixões infames e infrenes, há de esconder os bons sentimentos com pejo de os denunciar, e fará que as fivelas da mordaça lhe apertem atrozmente os lábios, quando a palavra “amor” lhe rebentar da abundância do coração. ao meu ver, Marcolina está a dar lições de moralidade, quando muita gente pensa que ela está a pedir lágrimas e perdão dos agravos que fez à moral pública.

Veremos.

Como quer que seja, aqui não há damas de camélias, nem Armandos. Silvestre não quer que o romanceiem nem dramatizem. Conta as coisas em escrito como mas disse a mim conversando, e eu agora as dou em estampa ao universo quais as achei nos seus manuscritos. Da moral do conto, o universo que decida, e os localistas.

 

***

 

Marcolina fingiu que comia e que se alegrava. Quis ter graça para responder à provocação das minhas facécias: mas era senhoril de mais nos chistes, que saíam obrigados pelo desejo de fazer-me boa companhia. Tomou algumas chávenas de café e não provou nenhuma bebida espirituosa. À quarta ou quinta chávena, teve um acesso violento de tosse, que terminou com um golfo de sangue. Saiu do quebranto em que ficara com as faces emaciadas e lívidas. Pediu-me perdão do dissabor da sua doença e prontificou-se, se eu queria, a ir contar-me o restante da sua vida, à sombra das árvores. Desisti da minha curiosidade, dispensando-a de falar naquele dia em coisas que a fizessem chorar e me comovessem a mim. Não quis. Aceitou-me o braço e saímos. À sombra da primeira árvore, distante dos grupos que a viram passar e nos olhavam com um sorriso de escárnio ou de piedade da minha libertinagem, sentou-se Marcolina, e recomeçou com as últimas palavras que dissera antes de jantar:

— Felizes os que choram... E a única felicidade que eu posso dar-lhe. — E prosseguiu, depois de recordar o facto em que ficara suspensa a história:

Augusto, apesar das minhas instâncias, pouco sinceras, falou-me do seu amor incessantemente; com tanto respeito, porém, o fazia, quer eu estivesse sozinha, quer com as minhas irmãs, que me cativou a gratidão. Mal sabe o mundo quanto a mulher indigna de respeito sabe ser agradecida a quem teve com ela a comiseração do recato nas palavras e nos gestos!... A infeliz passa da estranheza à alegria de se ver ainda tratada com delicadeza, quando a consciência, o seu verdugo, lhe está dizendo que não merece inspirar sentimento algum, que não seja aviltante ou desonesto. Foi assim que me prendeu Augusto, sem me despertar o amor doutro tempo. Sentia que o não amava e mentia-lhe, querendo retribuir a sua generosidade cavalheirosa. O desapego do meu coração era incompreensível. Na minha vida só se tinham dado os infortúnios que lhe contei. Não gastara a sensibilidade; amara-o apenas a ele; e, sem ter sido enganada pela sedução de algum homem, sinceramente lhe digo que me inclinava a odiá-los todos. Creio que me levaram a isto as desgraças da minha irmã falecida. Pensei que todos os sentimentos de dignidade lhos tinham matado os homens, reduzindo-a à hediondez de corpo e alma em que a vi.

As conversações de augusto tendiam todas ao casamento. Contrariei-as com simulada repugnância; mas na minha alma antevia a felicidade de ter um marido, que nunca me havia de pedir contas do meu passado. Além disso, meditando nos costumes de Augusto, no seu viver, na sua aplicação aos estudos, e no plano que tinha de se retirar para uma província logo que estivesse formado, achava-o mais perfeito do que eu podia merecê-lo: parecia-me que qualquer menina sem mancha na sua reputação e com um bom dote se devia dar por bem-aventurada com tal marido.

Casei.

Acredite que eu não tive um mês de contentamento. Sou obrigada a crer que há em mim desgraça contagiosa. Augusto transfigurou-se, se não era hipócrita; ou o demónio do meu destino lhe entrou no espírito para me atormentar sem tréguas, nem fim. Eu não posso demorar-me a contar-lhe pelo miúdo o desconcerto em que vivemos. Augusto era libertino, dissipador, jogador, e até embriagado o vi muitas vezes. Como se explica esta mudança, a não ser pela precisão de mudar-se tão espantosamente um homem que devia ser o meu flagelo?! Mas Porquê? Em que era eu criminosa para tal castigo? Que mal fizera eu a Deus ou à sociedade? Não fui causa a que o barão deixasse a mulher, porque já a tinha abandonado quando me levou para si. Fui boa com a minha mãe e com as minhas irmãs. Lembra-me agora se o meu crime era possuir alguns contos de réis das joias que me tinham sido dadas, e que eu escondi aos direitos da herdeira. Mas a minha desonra e repulsão dentre as pessoas virtuosas não valia alguma coisa?

Seriam as joias, seriam, meu amigo... É certo que o meu marido em dois anos dissipou tudo, tudo. As inscrições vendeu-as; o resto dos braceletes, anéis, cadeias, relógios, tudo com razão ou sem ela, com violência ou brandura, me levou de casa. Restavam-me os móveis, quando, depois de esperar três dias por Augusto, recebi dele uma carta em que me dizia adeus para sempre. Não sei se saiu do País, se se matou. Há três anos que o não vi, nem os seus condiscípulos tiveram noticias dele.

Ficaram comigo três irmãs, e a minha mãe na sua casa, vivendo da mesada que eu lhe dera até ao fim, já quando a furtava à boca e à decência do vestir. Chamei minhas irmãs, que eram já mulheres, e disse-lhes que era necessário morrermos todas. Ouviram-me espavoridas. Disse-lhes que a morte era simples e rápida se acendêssemos dois fogareiros num quarto e fechássemos portas e janelas. Lançaram-se a mim a chorar. Não queria morrer.

Fui vendendo a roupa e os móveis. Perto estava já o dia da fome irremediável, quando fui convidada a procurar em determinada casa um homem que desejava tirar-me da miséria. A encarregada deste convite era uma mulher que tinha estabelecimento público de infâmia. Fui?... Fui... O meu amigo, porque minhas irmãs tinham vendido na véspera as suas camisas e a minha mãe já três vezes tinha vindo à minha porta pedir esmola com um ar de zombaria que me espedaçava. Apenas conheci a casa em que estava, quis fugir; mas fui estorvada pelo homem que me chamara. Era um amigo do barão.

Voltei a casa com uma peça de ouro e escondi das minhas irmãs a ignomínia daquele dinheiro. Inventei uma história, fiz o elogio da generosidade de um benfeitor, e as minhas irmãs, erguendo as mãos a Deus, pediram-lhe a saúde dele. Então ri-me... riso atroz!... creio que me ri da Providência... e, a falar a verdade, não sei bem do que me ri...

Calou-se Marcolina, obrigada pela tosse e pelo vómito de sangue. Amparei-lhe a cara nas minhas mãos; esperei que sossegasse e disse-lhe:

— E as lágrimas?... Tinhas-me dito que chorarias, infeliz!...

Pois não vê as lágrimas no sangue? — disse ela, sorrindo. — Os olhos já não as têm.

— Não quero ouvir mais — tornei eu.

— Não tem mais que ouvir... O que falta é...

— A duração da desgraça com um só meio de remediá-la...

— Decerto...

— Que fazias ontem no Cais do Sodré?

— Pedia coragem ao meu demónio para me matar; mas vi minhas irmãs, ou o demónio mas mostrava, para que o meu inferno se não acabasse.

— Basta. Esta noite partiremos para Lisboa. Confias de mim o teu destino e o das tuas irmãs? — disse-lhe eu, sem calcular o cargo que me impunha e pensando apenas na quantia que podia dispor.

Marcolina sorriu-se e disse:

— Que generosa alma a sua! Não sabe em que mundo está!...

 

***

 

Poucos dias depois da minha volta de Sintra, as três irmãs de Marcolina entraram num recolhimento, a título das minhas parentas.

Marcolina saiu de Lisboa comigo e entrou na minha casa na província. Estava já morta, a minha mãe. Os meus vizinhos escandalizaram-se de me verem em concubinagem, e o pároco da freguesia deixou de me visitar, e o boticário proibiu as filhas de me falarem, e o regedor recomendou à mulher que não fizesse conhecimento com a lisboeta, que tinha cara de pecado.

A minha aldeia é penhascosa, feia e triste. Marcolina amava os rochedos, e as sombras das matas, e ajoelhava às cruzes que encontrava nas veredas por onde andava sozinha, e dobrava-se rente com o chão para beber das fontes térreas em que borbulhava a água. Retingiram-se-lhe as faces e cessou algum tempo a tosse. Já subia comigo aos píncaros das serras, quando eu caçava; trazia ao tiracolo a saca de malha com a merenda, e por lá, naqueles vales, onde os medronheiros e avelãzeiras vinham a terra com frutos, era de ver as delícias com que ela comia, por igual comigo, as grosseiras iguarias que levávamos.

Entrou o Outono, e logo notei a desmedrança e abatimento de Marcolina. A decomposição parece que se via, como se os vermes lhe andassem roendo já perto da epiderme. Quis voltar com ela a Lisboa; mas achei-a pertinaz em não sair da aldeia. Dizia-me que fosse eu distrair-me e que a deixasse ali acabar os seus dias.

Poucos tinha ela já de vida, quando a mais velha das irmãs lhes escreveu contando que o pai voltara rico de África e pusera anúncios nos jornais indagando notícias da sua mulher e filhas. Dizia mais que ele fora ao recolhimento e chorara de alegria vendo-as; mas logo se enfurecera quando elas lhe falaram da mãe. Acrescentava que ele, sabendo que devia à enteada o refúgio das suas irmãs, estava ansioso por vê-la, e pedia-lhe que voltasse imediatamente a Lisboa.

Esta carta deu delírios de júbilo a Marcolina. Fez por vigorizar-se para a jornada, não tanto para testemunhar a felicidade das irmãs como para pedir ao padrasto que não desamparasse sua mulher. A esperança apagou-se súbita, quando preparávamos a partida. Fui, uma tarde, à vila próxima comprar alguns aprestos para a jornada, e quando voltei estava Marcolina nos últimos arrancos. Agitou-se vertiginosamente quando me viu apertou-me ansiosamente contra o coração e murmurou:

— Agora... e só agora me atrevo a dizer-te que te amei... Deixo-te a eterna lembrança da desgraçada que só à hora da morte se julga digna de ti...

Morreu.

Não posso bem dizer o que senti nessa hora. Morrera uma grande parte do meu ser. Senti o vácuo; era no peito que o sentia. Devia ser o coração, o que vulgarmente se diz coração, que morrera.

É, pois, certo que eu amei aquela mulher?

Ó meu Deus e a minha consciência! Vós bem vedes com que orgulho e saudade eu digo que sim, que amei!

Amei-a porque era mais pura, mais virgem e mais santa que a outra respeitada do mundo; e porque, em ódio à sociedade, que a desprezava, não posso vingá-la senão amando-a com eterna saudade.