Coração, Cabeça e Estômago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 7 de 7

Páginas do PDF

Coração, Cabeça e Estômago

Terceira Parte

ESTÔMAGO

CAPÍTULO I

DE COMO ME CASEI

 

Procurei o refúgio dos penates, o lar em que derivam bem-aventuradas as gerações dos meus passados. Saboreei-me nas delícias do repouso, posto que em volta de mim só visse as imagens da numerosa família que descansava no pavimento da pequenina igreja. Lá estavam todos, como operários, que findaram sua jeira e, ao entardecer, encostaram a face ao pedestal da cruz e adormeceram.

Meditei no suave viver dos meus pais e comparei-o às dores, umas lastimáveis e outras ridículas, que me tinham delido o coração, e desconcertado o aparelho de pensamento. Viver segundo a razão, alvitre que os filósofos pregoam, é bom de dizer-se e desejar-se, mas enquanto os filósofos não derem uma razão a cada homem, e essa razão igual à de todos os homens, o apostolado é de todo inútil.

Melhor avisados andam os moralistas religiosos, subordinando a humanidade aos ditames de uma mesma fé; todavia — e sem menoscabo dos preceitos evangélicos que altamente venero —, parece-me que o homem, sincero crente, e devotado cristão, no meio destes mouros, que vivem à luz do século, e meneiam os negócios temporais ao seu sabor, tal homem, se pedir ao seu bom juízo religioso a norma dos deveres a respeitar, e dos direitos a reclamar, ganha créditos de parvo, e morre sequestrado dos prazeres da vida, se quiser poupar-se ao desgosto de ser apupado, procurando-os.

Como sabem, eu nunca andei em boas-avenças com a religião dos meus pais; e por isso me abstenho de lhe imputar a responsabilidade das minhas quedas, seja dos pináculos aéreos onde o coração me alçou, seja do raso da razão, onde as quedas, bem que baixas, são mais igminiosas. Eu comparo o cair das alturas do coração à queda que se dá de um garboso cavalo: quem nos vê cair pode ser que nos deplore; mas decerto nos não acha ridículos. Ora, o cair da baixeza dos cálculos racionais é coisa que faz riso aos outros, e por isso muito comparável ao tombo que damos de um ignóbil burro. O cavalo despenha-nos e, com as crinas eriçadas, resfolga e arqueia-se com gentis corcovos. O burro, depois que nos sacode pelas orelhas, não é raro escoicear-nos. É o mesmo, se a comparação vos quadra, nas quedas do amor e nas quedas do raciocínio. Das primeiras erguemo-nos sacudindo as folhas secas de umas ilusões, enquanto outros gomos vêm já desabrolhando na alma para mais tarde reflorirem. Das segundas não há senão lama a sacudir e muita pisadura a curar com o bálsamo do tempo e de uma vida brutalmente desapegada de tudo que ultrapassa o momento da sensação.

A este viver assim de convalescença é que eu, por não sei que simpatia com a víscera essencial das nobilíssimas funções animais e espirituais, denominei o estômago.

Não pensem, porém, que eu hei de consumir o restante da minha individualidade em comer. Há faculdades que não se obliteram imolando-as a uma única manifestação da vida orgânica: o mais que pode fazer o espírito é impulsioná-las, concentrá-las e convergi-las todas para um ponto. De maneira que todas as minhas faculdades de ora em diante em volta do estômago as rege, e não há de alguma ideia preocupar-me sem sair elaborada nas mesmas cinco horas que os fisiologistas assinam às funções digestivas.

 

***

Logo que me aposentei para largo tempo na minha casa, curei de remover e prevenir todos os empeços ao sessego das minhas digestões.

Quando esta providência falta, nenhum cálculo vinga. Nenhuma semente vos desabrocha bem prosperada, se descurais o amanho da terra. Antes sair com as mãos feridas do arroteamento de carrascais e silvedos que ver abafados os renovos entre o mato. Notem já que a minha linguagem vai adquirindo um corpo e cor e uma certa consistência que não tinha. Os entendidos hão de achar que esta gravidade sentenciosa só pode dá-la uma inteligência algum tanto espalmada pela pressão do estômago. E assim é que se explicam os adiposos bacamartes do frade, cujo intelecto se nutria e inflava nas roscas do cachaço, pedestal digno daquelas grandes e repletas cabeças. A ciência do frade, pois, era a ciência das funções alimentícias. Todo o estômago, bem regulado, produz um génio.

Convinha-me, pois, vassourar da minha testada um influência odiosa: era o regedor da freguesia que nunca ma tinha perdoado os artigos em que lhe excruciei a estúpida ferocidade contra recrutas. A segunda vítima, destinada ao sacrifício da minha pachorrenta paz, era o vigário.

Enquanto ao regedor, as dificuldades deviam ser enormes, visto que todos os governos tinham achado nele um galopim, que vingava trezentos e vinte sufrágios.

Era preciso contaminar-lhe os créditos com a broca da retórica. Acerquei-me de três lavradores influentes da freguesia, expus-lhe a decadência do País e a inevitável perda da independência nacional, se continuássemos a dar o nosso voto irracionalmente a deputados da confiança do regedor.

Dei na minha casa preleções de direito constitucional a estes e outros lavradores levados pelos primeiros. Feri faíscas naquelas cabeças tapadas como pedreiras de mármore negro, e posso afoitamente asseverar que nunca a eloquência fez maiores milagres. Falei-lhes em nome do estômago, como Menénio Agripa, no monte sagrado, aos romanos fugidiços de Roma. Compreenderam o apólogo melhor que eu mesmo, e pediam-me com entusiasmo a repetição da história. O meu olhar, remedando o meu ilustre predecessor no doutrinamento da plebe, mirava a convencê-la de que o regedor da freguesia era o cancro do estômago social. Facto admirável do instinto! Quando eu disse isto, levaram todos a mão à barriga. E assim se prova que o órgão mais sensível à eloquência é ela, e que a humanidade sofredora é um estômago desconcertado, é bem assim se prova que todos os regedores facciosos podem ser banidos da confiança popular mediante o argumento do cancro, que eu ofereço a todas as oposições.

Acertou de estar próxima a luta eleitoral. O regedor bateu às portas dos eleitores com o macete das listas, e encontrou em cada lavrador um doutrinário, um cidadão que falava da liberdade do sufrágio com muito menos parvoiçadas que a maior parte dos jornalistas. Enraivecido contra as minhas sugestões, o funcionário oficiou ao governador civil pedindo-lhe autorização para me prender. O governador civil deu a ordem pedida, mandando ao secretário que a lavrasse, e citou a lei do código eleitoral que me aplicava a captura. Ora, como quer que o secretário folheasse o código e não encontrasse ao artigo, a autoridade superior do distrito oficiou ao regedor lamentando com ele a impossibilidade da minha prisão.

Seguiu-se perder o governo as eleições e o regedor adoeceu de maleitas.

Passados meses, caiu o Ministério, caíram as autoridades, e eu fui nomeado regedor.

Eis aqui o meu primeiro pulo na carreira política.

O meu velho inimigo, quando recebeu o ofício da demissão, tremia como Mariano Faliero ouvindo as fatais badaladas de S. Marcos. Um meu criado — para nada faltar à comparação com o desastre do infausto doge — foi ao campanário da igreja e repenicou o sino. Ao mesmo tempo, o meu vizinho Joaquim do Quinchoso atirou aos astros dois foguetes de lágrimas, que tinha sisado ao mordomo da festa do orago. Na aldeia próxima saiu à rua o Tio Manuel da Bouça com o lombo, e o meu compadre João da Fonte, que fora músico das milícias de Miranda, acordou os ecos das serras com o seu trompão.

O ex-regedor, escorrendo o suor glacial da morte, ergueu-se sobre os joelhos no seu catre, inteiriçou os braços descarnados; e, quando ia morrer nos braços do vigário, comeu uma perna de galinha, e salvou-se.

Mais um argumento da capacidade do estômago para afogar em si as deceções da política!

Como a câmara eletiva fosse dissolvida, decretou o poder executivo novas eleições. Deram-se contra mim os pés o vigário e o ex-regedor. A influência do primeiro era temível. Para contrariar-lha nas vésperas do sufrágio, industriei o meu fiel criado a prender a consciência política do padre com o cabresto do garrano do mesmo. O leitor acha dura de entender esta metáfora. Foi assim: o meu criado entrou numa bouça, onde pastava o garrano; tirou-o para o monte; desceu com ele a garganta de duas montanhas, e foi prendê-lo num recôncavo de matagal onde o vigário só pudesse encontrá-lo com tardias informações de algum pastor desgarrado por aquelas brenhas. Cumpre, porém, dizer, em pró da minha equidade, que o garrano, indigno de ser castigado com o amo, recebia todas as noites porção de feno e bebia do arroio límpido que lhe banhava os pés.

O vigário, azoado com a perda, e tolhido de ir arengar aos paroquianos das aldeias vizinhas, sentiu-se baldo de entusiasmo e patriotismo e deixou o seu correligionário em campo.

Venci as eleições por espantosa maioria. Disse-o o sino a reboar por aquelas quebradas; disseram-no as violas e zabumbas de sete aldeias: o ar incendiou-se de foguetes de três estalos, e eu fiz subir às nuvens um balão, feito de jornais em que eu fora redator.

O garrano voltou, nesse mesmo dia, à porta do vigário, que o estreitou ao peito em fervoroso amplexo e exclamou: — Fizeste-me perder a eleição; mas para outra vez a ganharemos! Vem, filho pródigo!

 

***

 

Dois meses depois recebi o hábito de Cristo, solicitado pelo governador civil.

Seguiu-se a romaria de S. João, e eu levei o hábito. O ex-regedor, quando me viu a cruz e a fitinha escarlate, estava encostado a uma pipa bebendo o seu quartilho e discorrendo acerca do real-d ’água e quinto para a amortização das notas, que ele chamava uma ladroeira. De repente, dá de cara comigo. Cai-lhe da mão convulsa o copo, encosta a cara pálida ao ombro da taverneira, que tinha boas espáduas para suportar aquela esfera de granito, e ia desmaiar, quando, ao chegarem-lhe aos beiços uma caneca de água, ele disse que o mais acertado era chegarem-lhe vinho. E, bebendo, recobrou-se de cores, ganhou o aprumo e, para disfarce, deu um piparote no nariz da rapariga.

Deixá-lo lá com as suas foscas, o infeliz! Come-lhe as entranhas o rancor político. Um dia virá em que ele, descoroçoado de apanhar a regedoria, veja a Pátria pelos olhos de Bruto e, com b pequeno, se deixe morrer de uma fartadela de rojões de porco, sem alguma esperança de renome entre as vítimas do patriotismo. Não!, pobre tolo que tinhas em ti uma alma tal e qual, ceterisparibus, como a dos grandes estadistas, que se hão de rir das tuas agonias: não, meu émulo desditoso, a posteridade falará de ti, as gerações porvindouras lerão nesta página, mais durável que o bronze das estátuas, o teu infortúnio e a minha generosidade. Voere perenius victis!

O hábito de Cristo foi causa a episódios não despiciendos nestas memórias.

No arraial de S. João andava o sargento-mor de Soutelo com a sua filha única, Tomásia.

Tomásia era mulher de carne e osso mais que o ordinário. Vestia de amazona: mas ficava um pouco aquém dos limites da elegância, porque era mais larga na cintura que nos ombros — visível defeito do vestido. Tinha uns longes de cara admiráveis: figurava-se-me uma flor de magnólia entre duas rocas de cerejas.

O sargento-mor, que também era cavaleiro de Cristo, desde 1812, pensava desde muito casar Tomásia com cavaleiro da mesma ordem. Conhecia-me ele de nome e formava de mim opinião desvantajosa: não assim a rapariga que me tinha visto anos antes, numa festa de Endoenças, e gostara de me ver com a opa verde de irmão das almas, funcionando nas cerimónias da igreja.

A casa do sargento-mor rendia quinhentas medidas de centeio, meia pipa de azeite e vinte carros de castanha; sustentava três juntas de bois e quatro irmãos padres.

O leitor ignora, talvez, a jerarquia de um sargento-mor. Pensa que é uma patente destas que enchem a cobiça do coração de uma costureira ou criada de sala, a quem o sargento oferece sua alma e oito vinténs diários de pré?

O sargento-mor das antigas milícias era um potentado, imediato na jerarquia ao capitão-mor, com quem por igual se repartiam os lombos e os respeitos sociais. O baque da monarquia absoluta, esmagando com os privilégios o acatamento que os privilegiados incutiam, respeitou o sargento-mor de Soutelo. Os povos reverenciavam-no no teor antigo e testemunhavam seu acatamento presenteando-o com os lombos dos cevados, tal e qual como nas ominosas eras em que o sargento e o capitão-mores representavam, no aparelho gástrico do absolutismo, um dos intestinos mais importantes — o reto, se quiserem.

Tomásia era um rapariga desempenada e com olhares derretidos. De entendimento era escura, como quem não sabia ler, nem tivera, alguma hora, desgosto da sua ignorância. Tinha vinte e seis anos e nunca estivera doente. Nunca tomara chá nem café. Almoçava caldo de ovos com talhadas de chouriço. O Sol, ao nascer, nunca a surpreendeu em jejum. Trabalhava de portas adentro com as criadas: fazia as barrelas, fabricava o pão, administrava a salgadeira e vendia os cereais e as castanhas. Regularmente calçava soquinhas debruadas de escarlate e sarapintadas de verde. As meias eram de lã ou algodão azuis; mas não usava ligas, de jeito que as meias caiam em refegos à roda do tornozelo — o que não era feio. Nas romarias, calçava sapato de fitas e trazia chapéu desabado com plumas brancas. Os pulsos eram de uma cana só, como lá dizem para exprimirem a força. Cada palma de mão parecia uma lixa; e elogiar-lhe o cuidado das unhas seria adulação indigna da minha sinceridade. Dentes nunca os vi ricos de esmalte. Limpava-os com erva do monte, que lá chamam mentrasto; e as pomadas das suas opulentas tranças louras eram a água cristalina do tanque em que ela mergulhava a cabeça todas as manhãs. Sentava-se depois à sombra de um castanheiro, nos dias festivos, a pentear-se, e era belo vê-la então coberta dos seus cabelos até à cintura, que moura mais linda a não sonharam poetas, em orvalhadas de S. João, alisando as madeixas com pente de ouro.

Assim foi que eu a vi quando cheguei à janela do quarto em que pernoitara na casa do sargento-mor, descendo eu de uma feira onde fora vender um macho e comprar bezerros para criação.

 

***

 

O pai de Tomásia, erguia a toalha da mesa, onde almoçámos, às sete horas da manhã, sopa de ovos, salpicão, batatas ensopadas com toucinho e toucinho cozido com batatas, disse-me que a sua filha estava casadeira e ele disposto a casá-la comigo, se eu quisesse. Antes que eu respondesse, inventariou os seus cabedais, o valor do património dos seus quatro irmãos padres, os quais estavam presentes e unanimemente disseram que tudo deixavam por escritura a sua sobrinha.

Pedi espera de alguns dias para responder; e a instâncias de todos, passei aquele dia em Soutelo.

Tomásia, que tinha almoçado na cozinha, segundo o seu costume, quando havia hóspedes em casa, apareceu-me, meia-hora depois do almoço, perguntando-me se queria comer uma tigela de requeijão e beber um pichel de vinho verde.

Gostei desta patriarcal franqueza e desci à cozinha, onde encontrei sobre a mesa do escabelo, adorno da lareira, uma tigela vermelha vidrada com requeijão e um pichel reluzente de estanho a transbordar de espumoso vinho verde. Tomásia sentou-se do outro lado e comeu e bebeu como a filha de Labão com Jacob.

Conversámos nestes termos também patriarcais:

— Quantos anos tem a Sra. Tomásia? — perguntei.

— Vinte e seis, feitos pela Santa Luzia.

— Muito bem empregados. Admiro que vossemecê não esteja ainda casada!

— Ainda não é tarde.

— Também digo: mas quem é tão bonita como a Sra. Tomásia onde quer acha um noivo.

— Sou sã e escorreita. Deus louvado. Se lhe pareço bonita, isso é dos seus olhos. Coma uma colher de requeijão, e beba, que o vinho está muito fresco.

— Está excelente, mas eu não posso mais.

— Então fraco homem é!

— Almocei contra o meu costume. Estou afeito a almoçar leves de café ou chá.

— Credo! Vossemecê bebe chá por almoço?!

— Pois então!

— Ora essa! Cá em casa há chá, que compra o meu tio padre João, mas é para as dores de barriga. À minha boca nunca ele foi, em boa hora o diga!

— As comidas fortes dão-se bem com o seu estômago?

— Ora se dão! Nunca estive doente dois dias a fio.

— Costuma cear?

— Pudera não! Almoço, janto, merendo e ceio: é o costume cá de casa; e vossemecê?

— Eu começo agora, desde que vim para a aldeia, a comer melhor; mas não pude ainda habituar-me a cear.

— Pois quem não ceia, toda a noite rabeia: é ditado dos velhos. Então não come mais?

— Mais nada.

— Pois se quer vir daí à casa da eira, eu vou lá ver o que fazem os rapazes. Isto de servos, se a gente lhe tira os olhos de cima, pegam a mandriar que não fazem nada. Quer vir?

— Com muito gosto.

Tomásia encheu um grande cabaz de fruta e uma cabaça de vinho.

— Levo isto aos rapazes — disse ela — porque eles, quando eu chego à sua beira, estão sempre a olhar-me para as mãos.

— Se quer, eu levo a cabaz e o vinho — disse eu.

— Não é preciso: eu posso bem com isto.

— Ao menos deixe-me levar uma das coisas.

— Então leve a cabaça, que pesa menos.

Caminhámos ombro a ombro para a casa da eira. Tomásia parou muitas vezes a saudar os velhos e velhas que ia encontrando.

Os velhos diziam-lhe:

— Deus te guarde, flor.

E as velhas já de longe vinham dizendo:

— Aí vem o anjinho do Céu, a mãe da pobreza.

E ela ia tirando do cabaz alguns punhados de fruta para dar às que não a tinham da sua casa.

Passámos no adro da igreja.

Em frente da porta principal, Tomásia depôs o cesto sobre o baixo muro do adro, olhou para os olhos do santo, que tinha o seu nicho sobre a padieira da porta, fez curta oração, benzeu-se e tomou o cabaz.

Ao assomarmos ao beirado da eira, os criados, que andavam a limpar o centeio com pás e peneiras, redobraram de canseira.

— Assim que nos lobrigaram — disse Tomásia —, olhe como eles labutam! São uns calaceiros daquela casta!

E, levantando a voz, disse:

— Venham à fruta, a ver se refrescam. O serviço que vocês todos seis Têm feito fazia-o eu sozinha com uma perna às costas. Sempre estão umas rabaças, vocês!

Enquanto os criados comiam sofregamente as cerejas, as peras, os malápios e os gelemendes, Tomásia, ora com a pá, ora com a peneira, limpou uma rima de centeio, procurando a eminência mais ventilada da eira. O vento sacudia-lhe levemente a fimbria da saia de chita curta de grandes rofegos na cintura. Como erguia os braços ao alto, as largas mangas da camisa arregaçavam até aos ombros, e os folhos alvíssimos do peitilho, soprados pela viração, descobriam-lhe o seio, até onde o vento pode descobrir sem desairar o pudor.

Pareceu-me bonita assim, muito mais que vestida de amazona, calçada de duraque, e emplumada, qual a vi na romagem do S. João.

Voltaram os servos para o trabalho, e Tomásia veio sentar-se ao pé de mim debaixo de um coberto de colmo.

— Está fatigada? — disse-lhe eu!

— Agora estou! Vim para aqui fazer-lhe um migalho de companhia e depois torno lá. Hoje o pão há de ficar nas tulhas, custe o que custar.

— E deixa-me sozinho aqui?!

— Vossemecê, em se aborrecendo, vá para a casa, que lá está o pai e os tios. Vá jogar a bisca com os padres, que eles gostam muito. Sempre são!... Eu, se tivesse filhos, padre, Deus me perdoe, que não havia de ser nenhum!

— Porquê? Tem zanga dos padres?

— Agora tenho; os padres são a imagem de Deus; mas não fazem nada numa casa; dizem a sua missa, vão aos enterros e às festas, mas coisa de botarem a mão a uma sachola para tapar uma poça, ou cortar um agueiro, isso não é capaz! Olhe vossemecê, ali na minha casa quatro padres de uma assentada sem fazerem nada, a olharem uns prós outros e a lerem a gazeta de Lisboa... Eles aí vêm... é milagre saírem de casa a esta hora! Vêm cá pr’amor do Sr. Silvestre.

Chegam os quatro clérigos, e um deles vinha com a Nação em punho, explicando aos outros um relanço difícil do artigo de fundo.

Fui consultado acerca da passagem obscura, e o meu parecer esclareceu as dúvidas. Tomásia, enquanto eu falava uma linguagem para ela inapercebida, estava com os olhos postos em mim. Os padres louvaram a minha esperteza, e o mais velho, oráculo dos outros, disse:

— Ora o senhor, com esse talento que Deus lhe deu, devia ser realista!... É uma ingratidão não defender a religião dos nossos pais quem tanto deve à Providência.

Redargui que respeitava a religião dos nossos pais e que a política era uma coisa incidental na vida das nações, de todo o ponto estranho à religião.

Discutimos mansamente uma hora.

Tomásia fatigou-se logo de nos ouvir e foi trabalhar.

À hora da sesta fui sentar-me num escuro souto de castanheiros e meditei.

Estava o estômago no mais ativo da sua chilificação. Havia uma insólita claridade no meu espírito. Nenhum devaneio dos que arrombam poetas em ermos e sombras me perturbava o cozimento das pingues substâncias em que abundara o jantar. As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.

Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.

E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos de outra virgem que vos alinda os bens presentes.

E a meditar assim adormeci, reclinado sobre uma moita de malmequeres e boninas.

Quando acordei tinha sobre a face um lenço de linho, branco de neve.

Enxuguei o suor, relanceei em derredor os olhos e vi, a distância de cem passos, Tomásia, sentada à beira de um tanque, coberto de ramagens de para, costurando e cantando a meia voz.

— Boas tardes, Sr. Silvestre! — disse ela, risonha.

— Ande lá, que se regalou de dormir; e, se não sou eu, as moscas e os mosquitos chupavam-lhe o sangue.

— Muito obrigado, menina.

— Menina! — disse ela. — Eu sou mulher, não sou menina.

Ergui-me e fui lavar a cara na bica do tanque. Tomásia tirou o seu avental de linho para eu me limpar. Sentei-me, depois, à sua beira, e vi que ela estava remendando uma camisa.

— Remenda o teu pano, e chegar-te-á ao ano; torna-o a remendar, e tornará a chegar — disse ela.

Estivemos silenciosos alguns segundos. Cortou Tomásia o silêncio, perguntando:

— Vai-se embora amanhã?

— Vou.

— Não gosta de estar connosco?

— Gosto; mas cada um de nós tem a sua casa.

— Isso é verdade... — disse ela, com a mão da agulha suspensa e os olhos fixos em qualquer coisa distante.

— É feliz, não é, Sra. Tomásia?

— Feliz é quem está no Céu. Diz o meu tio padre João que neste mundo ninguém é contente da sorte que tem.

— Que lhe falta a si? Não tem tudo o que deseja?

— Eu desejo pouco...

— Então que mais quer para ser feliz?

— Queria que o Sr. Silvestre se deixasse estar mais alguns dias por aqui; mas, se tem que fazer na sua casa, vá. Lembra-se quando estivemos, faz anos para a Semana Santa, nas Endoenças de Santo Amaro?

— Lembro.

— Pois olhe que nunca mais me esqueceu! Vossemecê lembra-se de me ver?

— Mal me recordo...

— Lá me parecia...

— Porquê? Tem razão para supor que eu não a devia lembrar?

— É de um modo de dizer... Nem se lembra que eu lhe dei duas cavacas em casa do Sr. Vigário?

— Ah!, agora me lembro... levava os cabelos louros com laços de fita, não levava?

— E vestido vermelho de cetim.

— Tal e qual. Que linda ia! Fiquei a pensar em si muitos dias...

— Mas esqueceu-se, e nem me conheceu agora. Uma rapariga em dez anos muda de cara; estou já velha...

— Não está sequer mudada, menina.

— E ele a dar-lhe!... não gosto que me chame menina.

Chame-me Tomásia.

Neste momento chegou o sargento-mor e disse com muito afável gesto:

— Ó rapariga, olha que os teus tios já lá estão perguntando se tu fugiste com o Sr. Silvestre.

— Estamos a tratar disso, meu pai; quer vossemecê fugir também connosco? — respondeu ela com muita graça e desembaraço.

— Pois vamos lá com Deus.

E o velho, aproximando-se mais, reparou na costura de Tomásia, e disse:

— Não tens vergonha de estar a remendar camisas à frente deste senhor?

— Agora tenho! Pois isto é vergonha? Vergonha é trazê-las rotas. Ó Sr. Silvestre, ainda que eu seja confiada, diga-me: quem lhe arranja a sua roupa?

— A minha roupa está sempre desarranjada; quando se rompe, compro outra.

— É bom governo esse! — disse ela —, assim é que há de ir para a frente da sua casa!... Se eu morasse mais perto de si, dizia-lhe que mandasse a roupa para cá... Ri-se? Talvez pense que eu não sei engomar! Veja o colarinho da camisa do meu pai como está rijo!

— Pois o melhor de tudo — atalhou o velho — é que o Sr. Silvestre venha cá para casa de vez, e então lhe tratarás da roupa.

Tomásia compreendeu o figurado do dizer e pôs os olhos na costura.

Chegavam os padres, discutindo outro ponto do artigo de fundo da Nação, e caminhámos todos polemicando, até chegarmos a um campo marginal do rio, onde o sargento-mor tinha uma pequena casa com adega.

Entrámos na adega, cuja frescura consolava. Pouco depois chegou uma rapariga com o cesto da merenda. Era uma travessa de barro vermelho cogulada de trutas fritas.

Tomásia foi a uma poça colher celgas e agriões, de que fez salada, depois de esfregar as mãos com areia da margem do rio.

Rodeámos uma dorna de fundo ao alto, sobre a qual se colocou a travessa das trutas e o alguidar da salada, donde nos servimos todos com garfos de ferro muito lustrosos.

Tomásia tirou uma truta para cima de uma fatia de pão e sentou-se no socalco da pipa, donde tirava o vinho, que ressaltava espumando pelo batoque. Bebíamos todos do mesmo pichel de estanho; e o pichel, quando caia na mão de um padre, voltava vazio à torneira.

— Dão-me que fazer os tios!... — disse Tomásia a rir.

— Anda lá, rapariga — acudiu o padre João —, que tu também gostas de ver o fundo da caneca... Essas cores não se criam com água.

— Bebe, bebe, cachopa — disse o sargento-mor —, que o vinho é meia mantença.

Quando o pichel passou da minha mão à de Tomásia, reparei que ela assentou os lábios no rebordo molhado por onde eu tinha bebido. E, como visse que eu dera fé, corou.

Ao entardecer voltámos a casa.

 

***

Depois de ceia, Tomásia saiu a uma varanda de cantaria que dominava dilatadas várzeas orladas de arvoredo.

Os padres, o sargento-mor e eu ficámos praticando em sistemas de governo e discutindo as vantagens da representação nacional sobre o alvitre de um só homem. Os ardores da polémica eram refrigerados com beijos no pichel, beijos longos, longos, e absorventes como beijos de amantes.

O sargento-mor, como já não entendesse as teorias absolutistas dos irmãos, nem as minhas de emancipação social, adormeceu encostado ao espaldar de uma cadeira de couro.

A questão foi esmorecendo consoante as forças intelectuais iam convergindo para o lavor da digestão. A ceia tinha sido pouco menos chorumenta que o jantar. Afora duas galinhas, amarelas de gordas, com o seu préstito de salpicões, no centro da mesa, estava o alguidar do anho assado, que lourejava estirado sobre um vasto plano de arroz, atauxiado de rodelas de linguiça.

Três padres foram deitar-se, e o mais letrado dos quatro, padre João, disse-me se eu queria ir à varanda ver o rio prateado pela Lua e as penumbras dos altos serros circumpostos à graciosa aldeia.

Quando passávamos para a varanda, parei, e pedi ao padre que parasse.

Estava Tomásia cantando uma toada popular, triste como todas as cantilenas do Minho e Trás-os-Montes. A melancolia não a dava a letra menos que a música. Dizia assim:

 

Os teus cabelos me prenderam,

E teus olhos me mataram;

Os teus lindos pés me fugiram,

Quando morta me deixaram.

 

Entre as mãos frias de neve

Um raminho me puseste;

Levaste as rosas e os cravos,

Deixaste murta e cipreste.

 

Entrei de surpresa na varando e disse à maviosa cantora:

— Quem lhe ensinou essa letra tão triste e bonita?

— Ai! — exclamou ela —, não pensei que estava aí...

Estas cantigas eram as de menina de Chaves.

— Quem era a menina de Chaves?

O padre tomou à sua conta a resposta, e disse:

— Era a namorada de um meu condiscípulo no Seminário de Braga, que morreu de amores por ele no Convento de Sant’Ana, e ele também morreu por ela. Eram ambos de Chaves. Eu fiquei com o papelinho em que a coitada escreveu as coplas que a minha sobrinha canta a chorar.

— E está a chorar! — disse eu, vendo-lhe nos olhos espelhado um raio da Lua.

— Não que eu — disse Tomásia entre risonha e lagrimosa — tenho uma pena da criatura!... — Dela somente? — interrompi.

— E dele, que lá foi procurá-la ao outro mundo.

As lágrimas desta mulher que nome têm se não são a sublime poesia da ternura, que eu ainda agora encontro pela primeira vez!..., disse eu entre mim, de modo que o estômago me não ouvisse. E as cinzas, que foram coração, estremeceram levemente.

 

***

 

Ao amanhecer do dia seguinte ouvi a voz do sargento-mor, que passeava no pomar contíguo à casa.

Desci ao pomar e perguntei-lhe se tinha resolvido seriamente dar-me a sua filha.

O velho encostou o queixo às mãos, que assentavam sobre uma bengala alta de cana encostada em marfim, e disse:

— Eu tenho uma só palavra: sou o sargento-mor de Soutelo, cavaleiro professo na Ordem de Cristo desde 1812 e cavaleiro da Ordem da Verdade, filha de Cristo, desde que me conheço. Dou-lhe a minha filha, com a condição de que o Sr. Silvestre há de viver comigo, enquanto eu vivo for; depois, se quiser, leva a mulher para sua casa. Não a doto com isto nem com aquilo. Tudo que eu tenho e tem meus irmãos dela é. O senhor entra aqui mais como filho que como genro. Come, bebe e veste da casa. Os rendimentos da sua aplique-os ao desempenho dela, que, pelos modos, o senhor lá por esse mundo gastou muito e mal. Pagou o tributo: todos o pagam cada um pelo seu feitio. Eu também as fiz boas, e vi-as fazer piores aos meus padres, quando já tinham a cabeça rapada. Agora com águas passadas não mói o moinho. Faça-se homem, e descanse. Mande ao diabo as extravagâncias e os prazeres das cidades. Aqui é que reina a paz e a alegria nas boas consciências.

Prosseguiu o sargento-mor até que a filha assomou à janela da cozinha, dizendo:

— Venham daí o almoço.

— O senhor vai hoje ou fica? — perguntou, no caminho para casa, o velho.

— Vou dar as providências necessárias e voltarei, passados vinte dias, para ficar.

— Isso é decidido? É palavra de cavaleiro?

— Não mereço que o respeitável pai de Tomásia me faça essa pergunta.

— Desculpe à minha satisfação estas dúvidas. Boas são as venturas de que a gente duvida, quando as tem já na mão.

E abraçou-me com os olhos húmidos.

Estávamos à mesa. Tomásia, segundo o seu costume, andava da sala para a cozinha, levando e trazendo pratos e iguarias.

O pai mandou-a sentar ao meu lado.

Padre João, meu vizinho da direita, rolou o abdómen para dar lugar à sobrinha.

Tomásia parecia outra no acanhamento e não desfitava os olhos do pai.

— Tu que me queres rapariga, que olhas tão sisuda para mim? — disse ele. — Ó rapariga, o sangue parece que te quer saltar pela cara! É assim, é assim que eu vi a tua mãe há trinta e dois anos. O casamento dela foi tal qual como o teu. Soube-o na véspera do dia, como tu, e eu resolvi-me, de à noite para pela manhã, porque ela virtuosa, trabalhadeira e pura como as estrelas do Céu. Aí tens o teu noivo, Tomásia. Bebamos à saúde do nosso Silvestre!

Saíram do armário sete canecas de louça da Índia com que as saúdes se fizeram.

— São as mesmas que serviram há trinta e dois anos em casa do meu sogro — disse o sargento-mor.

Eu fiz um brinde em termos chãos à minha nova família.

Durante o almoço, Tomásia nunca me esperou um olhar.

Findo o almoço, perguntei por ela para despedir-me, e soube que estava na igreja.

Esperei-a. Entretanto, padre João entregou-me a certidão de idade da sobrinha e pediu-me que no mais breve termo lhe arremetesse a minha para se lerem os banhos.

Voltou Tomásia acelerada porque a foram chamar. Logo que pôde falar-me a sós, tirou do peito um embrulho e deu-mo, pedindo-me que lançasse ao pescoço o que ia dentro do lenço. Despedi-me e abracei-a. Tomásia não quis que outra pessoa me segurasse o estribo quando eu montava.

— Já pensa dele como de coisa sua! — disse o velho a rir, e os padres riram todos.

Depois tornou ela dentro à casa, mandando-me que esperasse um pouquinho, e veio logo com um pequenino alforge.

— É para o caminho — disse ela, atando-os às fivelas da sela.

Dei o último adeus, e Tomásia subiu ao topo de um outeiro donde se avistava grande espaço de estrada, e ali estava acenando-me até que me sumi numa baixa de serra.

Abri o embrulho: era um Agnus-Dei, encastoado em prata. O lenço que o envolvia tinha no centro um coração com muitos aleijões, atravessado por uma flecha que a caprichosa bordadeira deixava ver em todo o seu comprimento, de modo que parecia uma seta grudada ao coração.

Dali três léguas sentei-me à sombra de uns azinheiros e abri o alforge: era uma galinha assada, uma cabaça de vinho e um pão.

A leitora de coração fino e melindroso pergunta-me se eu gostei daquilo, se me não seria mais saboroso encontrar um ramo de flores.

Não, minha senhora, eu gosto muito mais de encontrar a galinha, o pão e a cabaça.

Os prazeres das flores cedo-os bizarramente aos amadores da vossa Excelência e a Vossa Excelência não levo a mal que se ria da filha do sargento-mor de Soutelo, que punha flores aos santos e pensava seriamente do estômago das pessoas que lhe eram caras.

 

***

 

Cheguei a minha casa e estranhei-a como se não fosse a minha.

Vi uns velhos criados, que se moviam taciturnos e tristes. Peava-me no peito aquela solidão, mais amargurada pelas lembranças da infância. O espírito refugiava-se em Soutelo, e eu pasmava de não sentir renascer o coração ao calor daqueles desejos, que semelhavam saudades.

Abreviei os meus arranjos, fazendo ler o primeiro proclame do meu casamento no dia imediato, que era domingo, dispondo novos arrendamentos dos bens, demitindo-me da regedoria e comprando na vila próxima algumas prendas de noivado.

Nestes preparativos, andava comigo um contentamento plácido e sereno como eu nunca houvera experimentado. Adormecia e acordava alegre, bem que esta alegria do despertar não fosse um alvoroço, uma embriaguez de gozo como eu sentira em outra idade, nos efêmeros prazeres, ou meras esperanças de os alcançar. Agora, a minha satisfação era toda ver-me sequestrado do mundo, estimado de cinco velhos felizes, ligado a uma mulher inocente, moldada pelas doces imagens que eu julgava extintas nos tempos bíblicos. Figurava-se-me a minha vida futura no decurso de trinta anos, que podia ainda viver. Antevia a uniformidade, no trabalho sem fadiga e no respeito e estima dos meus conterrâneos. Lia da minha pequena livraria os poetas bucólicos, e especialmente relia e decorava uma ode de Meléndez que começava assim:

Ya vuelvo a ti pacífico retiro:

Altas colinas, vale silencioso

Término a mis deseos,

Faustos me recebid; dadme el reposo

Por que en vano suspiro

Entre el tumulto y tristes devaneos

De la corte enganosa:

Con vuestra sombra amiga

Mi inocencia cubrid, y en paz dichosa

Dadme esperar el golpe doloroso

De la parca enemiga...

Algumas vezes interrogava a minha consciência, perguntando-lhe se eu amava Tomásia. Não me respondia, por se julgar desautorizada para a resposta. Ao coração é que tocava o discutirmos semelhantes pontos de pouquíssima importância para o complemento da minha felicidade. Eu tinha lido a Bíblia e não vira lá os patriarcas oferecendo ou pedindo amor às mulheres com quem se esposavam. Booz não diz a Rute que a ama. Jacob, conquanto dessimpatize com os olhos doentios de Lia, não se declara amoroso de Raquel. Abraão casou com Sara sem se despender em maravalhas do coração. Na idade de ouro, a mulher era a fêmea do homem: casavam para procriarem, segundo suas espécies, e procriando envelheciam ditosos.

O amor inventou-o depois o estragamento dos bons costumes gregos e romanos, como coisa necessária e acirrante aos paladares botos dos filhos viciosos das cidades.

Ainda agora nas aldeias, afastadas dos focos da corrupção, coisa que eu nunca ouvi dizer é: “A Maria do Ribeiro ama o António da Capela.” Lá não se diz ama; é querem-se. “Querem-se” é outra coisa; é amalgamarem-se num só ser, numa só vontade, numa identidade de alma e corpo tal, e tão uma que nem sequer pensam se há desgraça com força de desuni-los aquém da morte. E para lá da sepultura ainda eles têm como segura a vida imortal em união de penas ou glórias.

O amor dispensa-se onde está a profunda estima. Lá nesses consórcios bem-aventurados que florescem obscuros nas gargantas das serranias e nas selvas que bordam as margens dos rios não há tempo nem ocasião de discutirem subtilezas do coração. Crê-se ali que o vínculo é eterno e o sacramento do matrimónio uma religião, ou o dogma mais sacratíssimo dela. Pode ser que nem isto mesmo pensem: o que eles deveras sabem é que são felizes.

Eu pensava nestas e noutras coisas quando me estava a preparar para entregar a minha vida às quietas delícias de um casamento que faria rir de piedade os meus amigos.

 

***

Fui.

No carvalhal que forma o ádito da povoação de Soutelo esperavam-me os quatro clérigos, o sargento-mor, o abade, o boticário e o juiz eleito. Abraçaram-me todos sem ser apresentado aos três personagens que ampliavam o círculo das minhas relações. Aquela boa gente das aldeias vem direita a um homem, dá-lhe um abraço de amolgar as costelas e levanta-o ao ar na veemência da sua credulidade. Coisa que nunca por lá me disseram foi: “Aqui lhe apresento o Sr. Fulano”.

Os Fulanos da aldeia julgam-se sempre assaz visíveis para dispensarem que outrem diga deles: “Aqui lho mostro”.

Abalámos dali para casa.

Tomásia veio receber-me ao patim da escada e logo me perguntou pelo Agnus Dei. Mostrei-lho, tirando-o do peito. A contente rapariga beijou a relíquia e disse:

— Vê meu pai? Cá o tem ao peito. Vossemecê dizia que o Sr. Silvestre não punha isto!... Eu bem sabia que ele era cristão!

Estava a mesa posta e coberta de pratos de trutas e escalos, entre açafates de fruta.

Merendámos e ficámos em palestra na varanda de cantaria até ao toque das ave-marias.

Depois da reza saíram os convidados: os padres também saíram para rezar o breviário, o sargento-mor foi tomar um banho no rio e eu fiquei sozinho com Tomásia.

Coaxavam as rãs e zumbiam os besouros. Dos soutos e carvalheiras vinha o pio gemente das corujas e dos mochos. Os morcegos voejavam por entre os pilares da varanda. Nas cortes vizinhas da casa balavam os cordeiros, e refocilavam-se as cabras, produzindo o som cavo do embate das marradas — divertimento que a humanidade usa com menos estrondo e mais às claras.

Tomei a mão de Tomásia e disse-lhe:

— És muito minha amiga?

— Sou — respondeu ela, dando a outra mão, que eu apertei entre as minhas.

— És feliz em casar comigo?

— Agora é que tenho quanto desejo.

— E se eu não voltasse, se eu não casasse contigo, eras desgraçada?

— Deus me livre! Morria como a menina de Chaves.

— E se te dissessem que eu gostava de outra mulher, querias-me?

— Se o Sr. Silvestre gostasse de outra não me queria a mim.

— Mas se eu viesse a gostar depois de casado?

Tomásia retirou as mãos. Não sei se perdeu a cor, que era suficiente a claridade das estrelas para este estudo.

— Porque tiras as tuas mãos das minhas?! — perguntei.

Tomásia deu-as outra vez, sem responder.

Insisti na pergunta.

— Isso não pode ser — disse ela.

— O que não pode ser?

— Casar comigo e gostar de outra depois... O meu pai quis sempre muito a minha mãe, e todos os casados que conheço são como era o meu pai.

— E eu serei como eles, minha amiga. Não penses mais nestas perguntas.

Abracei-a, dei-lhe um beijo na face e deixei-a ir dar as ordens para a ceia.

O beijo recebeu-o sem estremecimentos de pudor, como as donzelinhas dos romances.

 

***

 

Dois dias depois, às seis horas da manhã, ouvi um tiroteio que vinha soando das montanhas e vales convizinhos da aldeia.

Eram os amigos do sargento-mor, chamados e não chamados a festejar o casamento da morgada. Assim a denunciavam por ser filha única.

Encheram-se os extensos casarões de gente. Chamavam lá cobrados e casarões ao que nas terras onde já chegou a ilustração das palavras se chama “salas”.

Vinham à mistura com os lavradores muitas raparigas de alegres rostos, com abadas de flores desfolhadas.

O juiz eleito vestia casaca e o boticário parecia trazer na gola da sua todo o laboratório farmacêutico.

Tomásia trajava de cetim azul. Fora mandado vir de Chaves o vestido. A irmã do juiz eleito, que estivera a banhos na Foz, penteou-a à moda do Porto; mas a minha noiva, vendo-se ao espelho, desmanchou o penteado e formou da grande trança loura um diadema, sem mais enfeites que uma rosa de Alexandria. Por cima dos ombros, que o vestido deixava nus, lançou Tomásia um xaile de Tonquim escarlate, que eu tinha mandado a minha mãe e ela nunca vestira.

Saímos para a igreja entre alas de ativo bombardeamento. Eram centenares de pessoas de ambos os sexos.

As velhas erguiam as mãos aos céus, exclamando:

— Como tu vais linda! Bendito seja Deus! Pareces Nossa Senhora!

Confessamo-nos, comungamos e recebemos as bênçãos.

Desde que saímos da Igreja até à entrada de casa caminhámos sempre debaixo de nuvens de flores. O estrondo dos bacamartes era atroador e os dois sinos da freguesia repicaram desde que saímos do templo até ao anoitecer desse dia.

Meia hora depois que chegámos entrei no quarto da minha mulher e encontrei-a de joelhos à frente de uma imagem de S. João dos Bem-Casados.

Ergueu-se ela, benzendo-se, e esperou que eu a beijasse pela segunda vez. Penso que o público me releva a confissão de que, ao dar-lhe este segundo beijo, encontrei os lábios. Era o instinto das sensações agradáveis, mas honestas, que ensinou a minha mulher o segredo do máximo prazer de um beijo.

Estava o almoço na mesa.

 

***

 

O EDITOR AO RESPEITÁVEL PÚBLICO

Os autógrafos do meu amigo Silvestre da Silva carecem de nexo e ordem desde a data do seu casamento. Salta logo aos olhos que o ilustre autobiógrafo, chegado ao macro da bem-aventurança, ficou a repousar da peregrinação — Deus sabe quão penosa! — que trouxera pelas precipitosas veredas do seu passado.

Vejo aqui muito fragmento de obras bosquejadas, sobre assuntos de higiene caseira. Os mais aproveitáveis tendem a mostrar que a deusa da fortuna é a predileta amiga dos que submetem a vida ao regime suave da matéria e só exercitam seu espírito para corrigir-lhe as demasias. Estes trechos soltos acho-os enfaixados sob o título: A Felicidade pelo Estômago.

Há outros manuscritos que encarecem o egoísmo, mas o racional egoísmo de Bentham. É esta uma das máximas: “O homem só vive bem com os outros quando vive mais para si”. E neste ponto de sentenças podia eu mostrar, se tivesse paciência para copiá-las, que Silvestre da Silva, se cultivasse o género, poderia ser um La Rochefoucauld fora de Soutelo.

Pospondo como coisas da segunda ordem as manifestações intelectuais de Silvestre, vou tentar, auxiliado pelos apontamentos dele, e notícias que alcancei, organizar a sucessão dos factos posteriores ao casamento.

Silvestre foi eleito presidente da Câmara de Carrazedo de Montenegro, que assim se denomina o conselho onde a ventura lhe bafeja o outono da vida. Estreou-se nas funções municipais mandando construir uma porca nova para o sino da igreja e compor uma estrada descalçada que lhe passava à porta; depois propôs em sessão que se pedisse ao Governo uma estrada do Porto a Chaves, com um ramal por Soutelo.

Este alvitre criou-lhe créditos, que foram um espeque à sua reputação algum tanto abalada com o facto de consumir os dinheiros do cofre municipal na reconstrução do caminho da sua exclusiva serventia. Mais meiga lhe soprou a aura popular, quando ele, mediante a solicitude do deputado, que fizera eleger, conseguiu que o conselho de Carrazedo absorvesse, na divisão do território, outro conselho limítrofe.

Nas próximas eleições, Silvestre da Silva, sem inculcar-se aos povos, nem recomendar sua candidatura, foi eleito deputado, contra a vontade das autoridades.

Tomásia, sabendo que o seu marido se afastava dela no segundo ano de casada, fez tamanha e tão sincera choradeira que Silvestre desistiu da candidatura e fez que no escrutínio suplementar saísse deputado o juiz eleito, que também não serviu por se ter recusado a prestar o juramento, como legítima que era de entranhas.

O Governo chamou ao seu partido a influência de Silvestre e conseguiu fazer eleger no seu círculo um candidato desconhecido dos eleitores. Ganhou com isso o genro do sargento-mor uma comenda para seu sogro e outra para ele, e uma abadia pingue para o padre Atanásio, tio da sua mulher. Em consequência do que todos os padres voltaram a sotaina e proclamaram a legitimidade da Senhora D. Maria II, com grande desgosto do juiz eleito, que rompeu relações com a família dos renegados, ou arrenegados, como ele dizia.

Desta desavença resultou que os jornais do Porto agrediram Silvestre da Silva, acoimando-o de desviar os dinheiros do Município em benefício das suas propriedades.

Agora é tempo de dizer que Silvestre saíra muito empenhado do Porto e os credores o tinham em conta de insolvente por saberem que a sua pequena casa estava hipotecada a dívidas mais antigas. Ora, como quer que os credores o vissem tratado nos periódicos como proprietário e indagassem, até saber que ele casara rico, e onde, remeteram deprecadas para ele ser citado com a sua mulher. Então saiu-se Silvestre com uma escritura nupcial, em que os bens havidos e por haver da sua mulher ficavam isentos de pagar as dívidas do marido, contraídas até à data do casamento. Os credores mais antigos saíram com as suas ações de execução sobre as hipotecas e retiraram pasmados de verem cópias de escrituras anteriores. O certo é que Silvestre da Silva, se necessário fosse, mostraria que os seus avós tinham hipotecado a casa, alguns séculos antes de ela existir.

É muito pouco de louvar-se este proceder; mas uma razão ilustrada concede que um homem maltratado pelas mulheres se vingasse nos credores. Um espírito sublime, quando trata de despicar-se, vinga-se em globo. Verdadeiramente inultos são aqueles que nem credores têm sequer!

O sargento-mor, conquanto fosse carácter dos bons tempos, transigiu com as velhacadas do genro e admirou-lhe a esperteza. A comenda iluminara-lhe o espírito, a cuja luz ele viu as coisas, os homens e a época.

Ao terceiro ano de casado, Silvestre formava com o peito e abdómen um arco. A gordura embargava-lhe a ação e abafava-lhe o espírito nas enxúndias.

Vi-o na Foz, e conheci então a Sra. Tomásia, e o seu pai, e um menino de dois anos, que era a doidice do avô.

Falei em assuntos literários com o meu antigo colega na imprensa. O homem ria-se de mim e dizia:

— Ainda estás nisso, pobrezote?! Esquece-te, brutaliza-te, faz-te estômago, se quiseres viver à imagem de Deus, que faz os homens neste tempo!

O único livro que lhe vi à cabeceira da cama era a Fisiologia do Paladar, de Brillat-Savarin, e a Gastronomia, poema de Bouchet.

Pediu-me que fosse passar com ele uma temporada a Soutelo, se queria voltar ao mundo com alma nova. Anuí, e lá me detive dois meses, voltando com o estômago arruinado pelo sarro do muito toucinho sobre o qual o meu amigo me prometia reconstruir o aparelho espiritual. Observei, na Foz, que Silvestre procurava a distração do jogo: dizia que a fortuna dos seus credores dependia dos ganhos que ele obtivesse. Os credores do meu amigo perdiam com ele, como pessoas infelicíssimas que eram.

Explicava Silvestre a excentricidade deste mundo, julgando-o bom e de nenhum modo interessado em ludibriar-me, o mundo folgou de explorar um tolo que abria o coração e a algibeira a todas as perfídias e zombarias.

Não tive um sincero amigo que me desse dinheiro sem primeiro me furar as algibeiras para o aparar com uma das mãos, enquanto a outra mo emprestava, já cercado dos juros. Os meus mais dedicados amigos serviam-me de indicadores de usurários, que me davam o décimo do valor da letra, que eu assinava. Era um jogo de ladrões; foram empréstimos da infâmia; só podem ser pagos com infames meios. A consciência de Santo António e de S. Francisco das Chagas não foram mais puras do que há de ir a minha à presença do supremo Juiz. Creio que não devo nada, porque os juros que paguei excedem o capital: ora o que eu não devo só por absurdo posso pagá-lo com o que não for meu.

Parece-me que a lógica manqueja nesta argumentação. Seja como for, há muito quem deixe de pagar como Silvestre da Silva; mas não pagar, firmado em raciocínios, à primeira vista, irrefutáveis, nisso é que ele foi singular.

Direi o que me pareceu a vida doméstica do meu amigo.

D. Tomásia adorava-o e, sem o querer, polira-se por amor dele, a ponto de renunciar às suas antigas ocupações de portas adentro. Andavam à competência de quem engordaria mais; e, nas horas de dormir, excediam a toda a gente, menos um ao outro. Silvestre levara do Porto um cozinheiro, que contribuiu grandemente para derrancar o estômago do sargento-mor e dos padres. A mesa de Silvestre cobrou fama nos arredores, principalmente depois que o boticário, comensal insaciável, morreu de uma indigestão de almôndegas. Estava sendo no Verão que eu lá passei muito concorrida a casa de famílias remotas, entre as quais vi gente que o dilúvio respeitou, e eu também.

Posso jurar que Silvestre nunca deu sombra de ciúme a sua mulher. A segurança em que mutuamente se tinham é escusado dizê-la. D. Tomásia era folgazã, ria até arrebentar, fazia rir com as suas simplicidades: porém, no que diz respeito à invulnerabilidade da sua castidade de esposa, nunca ninguém, exceto a leitora casada, me deu tão alto grau de certeza. E era bela, a não poder ser mais, aquela mulher de trinta e dois anos! A mesma exuberância de carnes parecia enfeitar-lhe as formas de uma certa majestade, que faria o terror da vossa Excelência, menina de Lisboa, cuja cintura, como a quebrar-se, vai ondeando ao capricho da brisa.

Mais de uma vez tentei espertar o entorpecido engenho do meu amigo, recordando as nossas palestras literárias nos cafés e citando passagens mais conhecidas dos seus folhetins. Silvestre acordava por instantes, ouvia-me com aspeto melancólico de saudade; mas logo retomava o ar alarve e motejador de quem se bandeia com os mofadores das letras. Aqui se me depara agora um poesia, que ele, em hora bem-humorada, tirou desta mesma pasta para me ler. Quando a releio e aquilato a tendência satírica de Silvestre, mal posso perdoar ao mundo que o exilou da pátria luminosa do espírito para as estúpidas de uma vida cuja felicidade eu desejaria, como vingança, a quem ma aconselhasse. Aqui tem o leitor os versos:

 

Da oca ostentação as vãs negaças,

E os tantos seus ridículos tamanhos,

Fazem chorar e rir.

Ó eras primitivas dos rebanhos,

Ó tempos patriarcais

Deixai que possa esta alma reflorir!

 

A filha de Labão enchia a bilha;

Penélope, a rainha, ensaboava

Os carpins conjugais.

Lucrécia com a roca sirandava,

E muito grandes damas

Faziam tudo aquilo, e muito mais.

 

E era um gosto ver como elas tinham

As casas petrechadas, trastejadas,

Mourejadas, varridas!

Curavam por mãos suas as meadas,

Teciam suas teias

E tinham sempre as arcas bem fornidas.

 

Ao domingo, depois de ouvirem missa,

Cuidavam do jantar à portuguesa,

Farta sopa e cozido.

Depois, para ajudar a natureza,

Vão dar um passeio

Desintourindo o bucho entumecido.

 

Ao lusco-fusco, as portas se trancavam,

E marido e mulher, numa só alma,

E numa cama só,

Ressonavam em doce e mansa calma;

Sonhavam sonhos d'ouro,

E amor os estreitava em mago nó.

 

Ó tempos patriarcais!...

Com que saudade

Eu, filho destas eras pataratas,

Invejo os meus avós!

Vivíeis pendurados dos rabichos,

Virtudes portuguesas!

O rabicho caiu, caístes vós.

E agora... ai!, que desmancho, que toleimas,

Que gente, que nação e que costumes

Os teus, ó Portugal!

Se há civilização, é só nos lumes,

Nos lumes-prontos só;

E, se teimam que há luz, é infernal!

 

Vão ver o que se passa em cada casa,

Que vive à lei de gótica nobreza,

E seus festins nos dá!

Se é jantar, o talher que vem à mesa,

O usuário o dera

Em troca do serviço que é do chá.

 

Se é baile, vai em troca do serviço

A inútil baixela do jantar;

E assim se faz figura;

E, se é jantar e chá, vão-se alugar

Ao sórdido judeu Ambas as coisas, que absorve a usura.

 

As famílias do tom mais miserandas

Aquelas são que têm sege em cachoeira

E seu guarda-portão;

Que dos riscos de giz do merceeiro

Deduz-se que a barriga

É imolada às glórias do brasão.

 

São moda agora uns fofos vaporentos

Omelettes souflés denominados,

E omelettes sucrées;

Emblema são do tempo estes bocados,

De todo o ponto avessos

Ao estômago sincero português!

 

Pondera alguém que as raças se depuram

Ao passo que a tintura vermelhaça

Dos rostos se some;

Dizem que a palidez extrema a raça;

Mas eu de mim não creio

Que seja perfeição: acho que é fome.

 

Em caução da minha crítica, declaro que me afasto dos admiradores de Silvestre, se alguns ele tem, como poeta. A genuína poesia não é aquilo, nem o foi nunca. O poeta puro-sangue levanta-se sobre o lodo da vida real e senhoreia-se dos milhares de mundos que Deus criou para os génios e os génios tomaram das mãos de Deus para cantá-los. Poeta que canta a sopa e o cozido falseia a sua vocação de medíocre cozinheiro. Assim é que eu, zeloso sacerdote da arte, entendo a poesia, e nem aos mortos indulto. Antes quisera ter de o criticar somente por umas bagatelas métricas com que Silvestre da Silva algumas vezes rastreou Nicolau Tolentino. A mordacidade distancia-se da poesia quanto as sátiras de Boileau discriminam das contemplações de Vitor Hugo. Aqui se traslada, ainda assim, o género em que prelevou Silvestre, à competência com Faustino Xavier de Novais, ambos, para assim dizer, feridos do mesmo dente da musa mordente:

 

Eu já fui rapaz do tom,

E, com pesar de o ter sido,

Resolvi fazer-me bom;

E ao mundo que hei ofendido,

Em paga, faço-lhe um dom.

Dos meus colegas, é certo,

Que os artifícios traidores

Hei de mostrar bem de perto.

Quero pôr a descoberto

Seus planos sedutores.

 

Quando a vítima incauta

(Quero dizer a donzela),

Chilreando em tom de flauta,

Lança à noite da janela

Cartinha escrita por pauta.

 

O poetastro entra em casa,

Devora, sôfrego, a empada,

E, se não é maré vaza

De inspiração desgrenhada,

Bate do estro a negra asa.

 

O que primeiro lhe acode Não é o ardente dizer,

Que pintá-lo melhor pode;

Primeiro, cumpre saber

Se há de ser canção ou ode.

 

Vai, depois, pondo em fileira

As regrinhas desasadas;

Arrepela a cabeleira,

Rói as unhas mal lavadas,

E, por fim, rebenta asneira.

 

Borra a pintura que fez,

E versos novos maquina;

Recorda doutros que, há um mês,

Mandara a certa menina,

Que, com ele, amava três.

 

Nova edição incorreta

Da cataplasma daninha Impinge o vesgo poeta

A analfabeta vizinha

Que engole os versos e a peta.

 

Engole, digo, pois quando

Ela, com custo, os soletra,

Parece está-los mascando;

E admira não ver setra

Com dois corações sangrando!

 

Repete os versos à amiga

Que diz nunca os vira iguais;

Mas, não sabendo o que diga

Em resposta a mimos tais,

Manda-lhe velha cantiga.

 

Os diques da inspiração

Rompem-se alfim em torrentes

De frutos de maldição;

Não são trovas, são candentes

Jorros de aceso vulcão.

 

Já começa a dar gemidos

A imprensa pouco honesta

Com os versos nunca lidos,

Que leitor grave detesta

Porque os fins são já sabidos.

 

E não leva a bela a mal

Que o mundo diga que é ela

Quem figura no jornal,

Disfarçada em nívea estrela

om promessas de imortal.

 

À inveja de certa amiga

Nem isto quer que se esconda.

E, soberba, se empertiga,

Vendo-se em letra redonda, Do pai cruel inimiga.

 

Já o vate exímio abarca

Um pensamento profundo,

Vem-lhe à memória Petrarca,

Que deixou cá neste mundo

Laura zombando da parca.

 

E estoutra Laura, tão sua,

Quer fazê-la eterna em verso;

E, quando pensa que atua

Na admiração do universo,

Não o conhecem na rua.

 

Trinta cadernos apronta

De pavorosa escritura,

Tira prospetos por conta

De equívoca assinatura,

Que por um terço desconta.

Sai a lume, e em trevas morre,

Filho da asneira e do amor,

livro que insónias socorre;

Mas quem risco amargo corre

É decerto o impressor.

 

Entretanto, a virgem meiga

Os versinhos, doce prenda,

Cada vez mais n'alma arreiga,

A tempo já que na tenda

Se embrulha nela manteiga.

 

Vive na fé, todavia,

Que do amante a loquaz fama,

Que até aos astros a envia,

Já seu talento proclama

Muito além da freguesia.

E, convicta disto assim,

Tendo-se em conta de eterna,

Julga ser mister ruim,

Coser ceroula paterna

Ou remendar o carpim.

 

Infeliz pai!, que aflições

Não tens tu de amargurar

Ao tirar dos gavetões

A peúga sem calcanhar

E a camisa sem botões!

 

Em velhice desditosa,

Dói-me ao ver-te submerso!

Enquanto a filha radiosa

Se fez imortal em verso,

Morres tu em chilra prosa.

 

Mas, ó patusca poesia, És a varinha de condão,

És no deserto água fria,

És tábua de salvação,

És farol que à Pátria guia!

 

Sem ti, doce companheira,

Amiga, sócia fiel,

A fábrica da Abelheira

Não venderia o papel,

Nem teria prémio a asneira.

 

Nem seria a mulher rola,

Nem celeste o seu sorriso,

Talvez fosse menos tola,

E tivesse mais juízo;

Mas isso de que consola?

 

Aí têm as futilidades com que, a grandes intervalos de tempo, se saía aquele espírito, que também sorteado entrara na república das letras! Vejam como se descompadecem a felicidade estúpida do marido de Tomásia e o engenho! Quão melhor lhe fora pedir ele à sociedade que lhe rasgasse de novo as cicatrizes e instilasse nelas o veneno que transpira depois em vociferações eloquentes na comédia, no poema e no romance! Ao menos, aquele brilhante astro, afogado no charco do estômago, irradiaria como tantos outros infelizes em volta da região intangível da felicidade, e o mundo, que o crucificara, seria depois o primeiro a apregoá-lo grande.

Saí de Soutelo no fim do Verão.

Silvestre acompanhou-me aos banhos da Póvoa e já vinha com todos os sintomas de caquexia, resultante da imobilidade, e cansaço das molas digestivas. Retirou-se para a província logo que os primeiros banhos e as primeiras perdas ao jogo lhe molestaram o corpo e o espírito. De lá me escreveu, contando os progressos da cabeça da doença e prognosticando o seu próximo fim. Nesta carta prometia o meu amigo legar-me os seus papéis, com plena autorização de divulgá-los, se eu visse que podiam ser de proveito para a iniciação da mocidade. À maneira do moralista Duclos, dizia ele: “J'ai vécu, je voudrais être utile à ceux qui ont à vivre.

Poucos meses depois recebi da mão de um almocreve uma chapeleira de couro repleta de embrulhos, que me enviava a Sra. D. Tomásia, e uma carta do sargento-mor asseverando-me que o seu genro morrera como um passarinho — a morte do justo; com a diferença que não ajustou contas com os credores, para quem a salvação do meu amigo é coisa muito duvidosa...

Na carta do saudoso sogro vinha o seguinte soneto, que o moribundo fizera, à imitação dos distintos génios de ambos os sexos, que sonetearam à hora da morte, tais como a poetisa D. Catarina Balsemão e Bocage.

O soneto reza assim:

Abri meu coração às mil quimeras;

Encheram-mo de fel, e tédio, e alma,

Tive, em paga do amor, riso de infama...

Ai!, pobre coração!, quão tolo eras!

 

Dobrei-me da razão às leis austeras;

Quis moldar-me ao viver que o mundo ama

O escárnio, a detração me suja a fama,

E a lei me pune as intenções severas.

 

Cabeça e coração senti sem vida,

No estômago busquei uma alma nova

E encontrá-lo pensei... Criança perdida!

 

Mulher aos pés o coração me sova;

Foge ao mundo a razão espavorida;

E por muito comer eu desço à cova!

 

Bem se vê que o soneto era o da morte. Um grande merecimento tem ele: é ser o último.

Você terminou Coração, Cabeça e Estômago

Camilo Castelo Branco

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.