Corte na Aldeia e Noites de Inverno (Volume I)
Dialogo Iv
DOS RECADOS, EMBAIXADAS E
VISITAS
Amanheceu o sol tão claro e gracioso, que alguns dos amigos por se lograrem d'elle com a occasião da caça se espalharam pelos montes; mas depois de horas de vespera visitou o estudante em companhia de Pindaro ao doutor Livio, com quem passaram a tarde n'um seu jardim em boa conversação, esperando a da noite, a que elles foram os primeiros que acudiram, e se acharam em casa de Leonardo; que commummente nos lettrados se accende melhor o desejo de saber, e não n'aquelles aos quaes lhes custou menos. Sentaram-se á vista do fogo, que á conta dos hospedes estava melhor ordenado; e depois de gastarem algumas palavras de cumprimento, chegaram D. Julio e Solino a quem todos fizeram muita festa; e, reprehendidos da pequena tardança, disse Solino:— Grande espaço ha que eu pudera gosar esta companhia, se me não detivera em esperar resposta de um recado, que mandei ao sr. D. Julio.—E eu (respondeu elle) se vos não encontrára, ainda não tinha entendido o vosso moço; porque de maneira embaraçou o que me mandaveis dizer, que nem por discrição pude tirar o recado: nem vos desfaçaes d'elle para os que forem de importancia, que val a peso de ouro.
A isto se começaram todos a rir, e tornou Solino:—O meu moço, sr. D. Julio, tem desculpa em ser nescio, porque é meu moço; que, se soubera mais, eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como vós, esses hão de ser discretos, pois são tão bons como eu: e comtudo eu vos sei dizer que ha aqui moço que no dar um recado o pudera fazer como ao que lá mandei, que não é dos peiores da sua ralé, e já entermette de lêr carta mandadeira: mas nos recados ainda agora lê por nomes, e não acerta a nenhuma cousa.—Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um creado que esperdiça o entendimento de seu amo: mandaes um recado concertado, discreto e cortezão: e o madraço, que o leva, muda-lhe os trastos e desentôa com uma parvoice que vos desacredita, como com os meus me tem acontecido mil vezes.—Nos vossos não é muito (disse Solino) que daes os recados guarnecidos de rhetorica com seus vivos de latim, que são mais perigosos na bôcca d'estes, que vidro em mão de menino: mas os meus, que não passam de quatro palavras em linguagem corrente, e que assim os virem do carnás e me mettam em vergonha, não é desgraça? Ora prometto que os de importancia eu mesmo os leve como aconteceu ao cortezão ausente, que levou elle proprio a carta a sua mulher: e os que houver de dar o meu moço, que sejam seus, por não andar remendando o burel da sua natureza com o trabalho da minha disciplina. D'aqui por deante bôcca faz jogo: digo, que o que o meu moço disser, elle o diz, e que me não ha de chamar por auctor das suas impertinencias.—Certo (disse Leonardo) deixando de tratar dos meus, e vossos recados, que importam menos, e de outros em que vae tão pouco, que é uma das cousas de maior consideração aos reis, principes, republicas, e aos grandes mandarem suas embaixadas, visitas e recados por homens de auctoridade, discretos e bem disciplinados, em cujas razões e procedimentos consiste muitas vezes o bom successo do que pretendem. E assim os reis, principes e republicas nas materias de estado; as cidades e povos nas occasiões das côrtes; os senhores particulares nas visitas; devem sempre escolher homens, que no entendimento se avantajem dos outros, porque não sómente conseguem o fim da pretenção de quem os manda; mas o acreditam: e porque ás vezes por respeitos, privança e valia se antepõem os menos sufficientes para estes cargos, se deitam a perder negocios de uma republica, em que consiste a quietação e honra d'ella.—Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o sr. Leonardo á materia dos recados, que não ficam fóra de seu logar, depois de o terem as cartas missivas; e bem se póde fazer a noite bem assombrada com tão bom sujeito.—Desculpado estou (respondeu elle) com o trabalho, que na de hontem cahiu á minha conta, em fugir d'elle; mas não de approvar a vossa advertencia.
A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem a materia de mais longe; e pediram ao doutor que, tomando-a á sua conta começasse.—Bem pudera usar (disse elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para minha escusa; porém ainda que os tinha, e qualquer dos presentes mais sufficiencia para este encargo por lhe não pôr a elles ruim fôro, me dou por obrigado. Digo que recado é nome que entre nós tem a etymologia. A significação é muito duvidosa, pelo modo em que usamos d'elle: porque, se houveramos de derivar este nome do verbo italiano recare, que é trazer; ou do verbo recapacitare que é recapacitar (d'onde elles chamam recapacitar ao recado) nunca disseramos d'elle tanto, como na nossa lingua portugueza significamos; mas se lhe buscarmos a origem do latim, virá mais ao nosso modo pela differença do messageiro ao que leva recado: que o primeiro missa gerit, faz as cousas que lhe mandam; e o segundo recautus, este é homem acautelado, que sabe o que ha de fazer no que está á sua conta; que assim convém mais com o nosso modo de falar, quando dizemos homem de recado, que quer dizer de importancia, posto a bom recado, que é seguro, e com cautella: tardar e arrecadar, que é levar ao fim o que começou: porém seja uma cousa ou outra, ou ambas, o principal recado de todos é o do embaixador; e estes são de duas maneiras, ou o que o principe manda a outro por occasião successiva; ou o que de ordinario assiste em sua côrte, para conservação da benevolencia e amisade que entre elles ha: estes segundos tinham os romanos nas provincias junto á pessoa do consul, que as governava com titulo de legados, e com elles despachava os negocios de importancia. Mas aos primeiros chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes no officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em nossos tempos se aproveitaram muitos d'essa arte, sendo escolhidos para o cargo de embaixadores.—Eu (disse Leonardo) tenho um cartapacio não pequeno de falas e orações de embaixadores portuguezes feitas a grandes principes, e não pouco doutas e elegantes, como foi uma que fez o bispo D. Garcia do Menezes ao papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei D. Affonso V, e por capitão de uma armada que elle mandava contra os turcos em favor da egreja no anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e outra, que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo com o arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar obediencia por el-rei D. Manuel no anno de mil e quinhentos e cinco: e outra, que fez o mesmo doutor ao papa Leão, indo com Tristão da Cunha embaixador a lhe dar obediencia com aquelle famoso ornamento, que ainda agora é dignamente celebrado na egreja romana assim pela grande devoção d'aquelle pio e catholico rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze, á qual o papa respondeu em publico com uma doutissima oração de louvores do mesmo rei. E não é este costume só dos nossos embaixadores, mas de todos os extrangeiros, assim quando eram enviados a este reino, como a outros. Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco de França a el rei D. Manuel, que estava em Almeirim, no anno de mil e quinhentos e seis, Monsieur de Lanjaca, governador de Avinhão, lhe fez uma douta oração em sua chegada: fóra outras muitas com que pudera allegar.—D'esses exemplos ha muitos (disse o doutor), e continuando com o que convém mais ao fim do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo de embaixador os homens das familias mais illustres do reino, dos illustres os mais discretos e cortezãos, d'estes os mais animosos e liberaes, dos animosos os mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados; e são todas estas partes tão necessarias ao embaixador, que com a falta de qualquer d'ellas ou arriscará o credito do principe, que o manda, ou o negocio de que vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e dos illustres d'elle, e por honra tambem do principe a que é mandado, pois ha de fazer as partes de um, e assistir á ilharga do outro. E assim n'este reino, e nos vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores muito chegados em sangue ás casas dos reis que os enviaram, e sahirem outros da mesma qualidade; o que não só tem exemplo dos reis da Europa, mas da Persia, Japão e outras remotas partes do oriente. Depois de illustre ha de ser discreto e cortezão, porque parece que mais que todas as outras partes, lhe está requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrição e cortezia para tratar as cousas convenientes á sua embaixada, encobrindo, desculpando e persuadindo o que a seu rei convém; que esta é a differença do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o que lhe mandam que diga: o outro dispõe, ordena e conclue o que lhe encommendam que faça: um leva o recado na lingua, outro no peito, como disse um embaixador dos romanos aos carthaginezes na guerra de Sagunto, que levava a paz, e a guerra dentro no peito; e assim não vindo elles no que os romanos pediam, declarou a guerra. Além d'isto como o embaixador é um terceiro, e conciliador da amizade de dois principes, nenhuma cousa lhe é mais importante, que o entendimento, e tambem o ser cortezão lhe importa muito, pois a sua principal assistencia é no paço, e junto á pessoa do principe, com communicação dos principaes senhores do reino; e ás vezes por esta parte sendo engraçado, e acceito áquelle a quem é mandado, acaba mais facilmente os negocios e pretenções de quem o manda. Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque nas materias que tocarem á guerra, tregua e liga, ou confederação com seu principe, se não mostre por sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue com seu exemplo a que o respeitem e temam; e tambem porque na occasião em que se offerecer ao senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com as obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E o segundo, porque com a magnificencia se conquistam mais vontades e animos extrangeiros, que com qualquer outra valia, por grande que seja; e posto que esta parte a todas as pessoas illustres é necessaria, e em todos os cargos de guerra e officios da paz é tão estimada, no de embaixador é muito mais proveitosa para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella que convém ao de sua embaixada, e para mover os ministros e validos, em cuja mão ou conselho está seu negocio. Convém além d'isto que seja o embaixador homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e veneração; que em outro modo o corpo pequeno em pessoas de grande logar lhes tira muita parte do que se lhes deve. E um doutor nosso de muito grande nome, e pequena estatura, mandou pôr ao pé de um retrato seu uma lettra que dizia: A presença diminue a fama.
E outro do mesmo grau, e não de maior corpo, indo d'este reino com uma embaixada a um rei assás poderoso, vendo-o elle tão pequeno, lhe perguntou motejando d'elle: "Se el-rei seu irmão tinha em seu reino outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante cargo?" Ao que elle respondeu valendo-se do entendimento, e animo que tinha: "Que na corte d'el-rei seu senhor havia muitos homens do grande pessoa, e partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que para sua magestade lhe pareceu que elle bastava, e por isso o mandára." Finalmente é de muita importancia ser bem acostumado, para com sua temperança, continencia, e bom termo conservar, e acreditar o bom nome, e fama de seu rei, a honra de sua patria, e da propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus costumes não faça com que se diminua, e perca o respeito, liberdades, e exempções que tem os embaixadores, como aconteceu aos da Persia, que vieram a el-rei Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traça de Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, não podendo soffrer sua estranha dissolução, mandou alguns moços de bellissima figura, que em habito de damas os servissem á meza, levando escondidos punhaes com que se vingassem de qualquer deshonesto acometimento dos embaixadores; que usando de sua demasiada luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da Persia offendido de se não guardarem com os seus as leis dos embaixadores, mandou um poderoso exercito contra el-rei Amyntas; porém o general d'elle sabendo como o caso passára, se retirou sem querer dar batalha aos Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores sejam escolhidos de sujeito acommodado aos negocios, de que hão de tratar; que tal occasião se offerece, em que convém serem humildes; e outra, em que é melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam de ser animosos, e arriscados; e outras brandos, e dissimulados. Francisco Dandalo, embaixador dos Venezianos ao Papa Clemente V para levantar o interdicto ao Senado, contra quem estava iroso por razão das coisas de Ferrara, esteve lançado de bruços grande espaço á meza do Summo Pontifice, com uma cadeia de ferro ao pescoço; e com tantas lagrimas, e palavras o obrigou, que alcançou d'elle o que pedia. Este por sua grande humildade foi chamado cão, e por seu valor succedeu no Ducado de Veneza. Pelo contrario Orfato Justiniano, homem de letras, e animo generoso, embaixador do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles, que pelo mau animo, que contra os Venezianos tinha, não fazia d'elle a conta, e estima que seu valor merecia. Orfato lhe mostrava tão pouca inclinação, e humildade, que o rei indignado mandou fazer tão baixa a porta, por onde entrava a lhe falar, que á força lhe fizesse dobrar o pescoço: porém elle entendendo a tenção de Fernando, entrou com as costas para diante, e voltando-se direito na casa fez a mesma cortezia, que costumava. Outro dia achando-se em um banquete, que o rei mandou fazer, dando-lhe de proposito os convidados tão estreito lugar que achava sua auctoridade, deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga, que trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar como os outros assentos.—A mim me parece (disse Leonardo) que os attributos mais importantes ao embaixador, e que sempre n'elle devem andar annexos, são esforço, e entendimento, que são como dois eixos, em que se revolve o maior peso, e substancia, das coisas do Estado; o que se colhe dos exemplos que dissestes, e de outros muitos; porque o esforçado e entendido em nada falece, nem áquillo a que seu rei o manda, nem ao que a si mesmo deve, nem á occasião de que se póde aproveitar, como aconteceu a Pompilio, embaixador a el-rei Seleuco, sobre conservar amisade com os Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo o Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava melhor; e entendendo o Romano que aquella dilação se fundava em fraqueza, e cautela, com o bordão que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou mettido, dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse se havia de determinar na resposta de sua embaixada; e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz que lhe requeria. E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador aos Tarentinos, lançando-lhe por desprezo sobre as roupas muitas immundicias com grande rizada, e escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente: Vingai-vos agora do riso á vontade, porque tendes muito que chorar quando com vosso sangue se lavarem as nodoas d'este meu vestido.—Esses casos (accudiu D. Julio) são da mera jurisdicção do esforço, e cavallaria; ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque o valor do animo a tudo acode, e em nada perde ponto. E se não, vede a estimação que fizeram os reis catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo Fernandes de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o prior sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou a combater valorosamente tirando com muitos louvores d'aquella batalha feridas; e querendo-o el-rei desviar antes, porque não convinha ao cargo que trazia, lhe respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue, e o animo o obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe I a Frederico Badoaro, que os Venezianos lhe mandaram por embaixador a Genova, sendo elle principe de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos no segundo logar, succedeu chamar o principe a si ao duque de Saboia; e acenando ao veneziano que lhe désse o lugar, o que elle não quiz fazer, o principe com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes tirar; mas respondeu que antes havia de deixar a vida, que aquelle lugar, porque com a morte de um particular se não fazia affronta ao Senado; mas que se lhe faria muito grande, se désse o lugar, que lhe era devido, a pessoa inferior em merecimentos. E quanto á dissimulação, e soffrimento só nos esforços costuma a achar confiança para metterem em cortezania o que puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a Giuberto Dandalo, embaixador dos Venezianos ao Papa Nicolau III, que já mais foi ouvido, nem pôde alcançar entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha contra o Senado, sobre a possessão de Ancona; até que, vendo elle o pouco que importavam suas muitas diligencias, fingio um dia, sahindo com alegre semblante, haver-lhe fallado, e alcançado o fim do negocio a que vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para Veneza; onde perguntando-lhe o Senado o que passara, respondeu: "Não achei o Papa em Roma, nem quem me soubesse dizer onde o acharia."
—Mui principaes (disse o doutor) são as partes de esforço, e entendimento no embaixador; porém tem igual necessidade de todas as outras para representar com a nobreza a pessoa do seu rei: para com a magnificencia adquirir as vontades dos ministros, e criados: para com a gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado: para com o conhecimento das coisas do Estado, e experiencia d'ellas acertar nas que se lhe offerecessem: e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar uma approvação na vista, de tudo o que se conhecer de suas obras. Mas porque não pareça que vou fora do em que comecei: A que os embaixadores não levam recados, é certo, (que ainda que os seus sejam de maior confiança) que levam por escripto muito do que hão de dizer, e do que hão de pedir, ou conceder; porém a eleição do tempo, occasiões, e palavras fica subordinada ao seu entendimento; e para isso dão os reis, e seus conselhos supremos largas instrucções, regimentos, e ordens de como se hão de haver nas coisas os embaixadores; que são mais largas, quanto são mais remotas as provincias, a que são enviados.—O officio (disse Leonardo) é de tanta importancia, que nenhum outro demanda maior cabedal de partes da natureza, e das adquiridas por experiencia: e sei-vos eu dizer que houve n'este reino famosos homens d'esta profissão, e taes, que, querendo nomear alguns, faria manifesto aggravo a outros muitos. Mas se o gran-duque de Florença, vencido da eloquencia, e partes de Hermolau Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos Venezianos) com tantas mercês, e favores o persuadia a que ficasse em seu serviço; não faltaram outros, que sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram maior inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum teve lugar nos tribunaes supremos da corte de Hespanha, que para negocios particulares de um principe d'este reino foi mandado a ella, que pela grande satisfação, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido para os de uma monarquia tão dilatada. Mas não é de espantar que de um embaixador e messageiro particular se fizesse um conselheiro de estado, sendo criado da casa de um senhor, do serviço do qual, como de outro cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e varões insignes em todas as profissões: d'onde sahiram vice-reis, e capitães maiores para o Oriente, e soldados para capitães, e mestres de campo, que defenderam, e honraram o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram Malta; fronteiros valorosos, que se assignalaram em Africa, todos criados da mesma casa, onde se acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem a Marte, e engrandeçam a Minerva, fazendo inveja aos mais avantajados nos exercitos, e presidios hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e academias mais nomeadas da Europa.
—Tendes levantado este discurso de maneira (disse Solino) e está a materia d'elle tão altiva, que me parece que eu e Pindaro ficamos esta noite camarço, sem nenhum de nós fazer postoleta: ainda este mau jogo me fez o meu moço, que não cuidei que d'elle saltasseis a coisas tão differentes: folgara de saber se haveis de ficar n'esse tom, porque vos deixarei em termo com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar minha vida.—Ainda não tendes razão de vos queixar (respondeu elle) que antes por me chegar pouco, e pouco aos criados, deixei muito dos embaixadores, após os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores, que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes, e outras vezes a visitas, e occasiões dos principes, que não menos devem ser escolhidos para estes cargos, buscando n'elles as partes mais necessarias que são discrição, experiencia, e pessoa, quando não possam concorrer todas as mais; porque a cidade, ou villa, que manda ao principe seu procurador, ou agente, n'esse mesmo faz representação de sua sufficiencia.—De um cidadão se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado por procurador a cortes, lhe esqueceu no caminho o que a cidade lhe encommendára, e tornou a dormir a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que ía: e fôra melhor eleição, se a mandaram a ella, pois lhe não esqueceu.—De outro ouvi eu (respondeu Solino) que jurou por vida da sua a el-rei Filippe I que se havia de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome de uma cidade d'este reino: fóra outras impertinencias que na pratica disse, mais dignas de riso, que de credito. E um conheci eu, a que cahiram as luvas, e o chapéo da mão, começando a dar o recado de uma cidade a um principe; e levantando-as, perdeu o que queria dizer, de maneira que nunca atinou palavra.—Estes maus successos (proseguiu o doutor) testemunham o muito cuidado, com que se hão de eleger os homens para taes cargos; o que não importa menos aos titulares e fidalgos, que mandam vizitar a outros em occasiões de pazes, ou parabens, por pessoas, que saibam accommodar-se á tristeza, ou alegria que o caso requer, para credito, e boa opinão de quem os manda.—Certo (accudiu Leonardo) que não julgará bem quanto isso releva, senão o que já se envergonhou de ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um fidalgo que eu tratei particularmente, ao qual, estando enojado por morte de um seu filho, visitou da parte de um personagem um capellão bem apessoado, e disse que o senhor N. estimára muito aquella occasião para mandar visitar a sua M. e se offerecer a seu serviço. A este conto fizeram todos muita festa. E Solino, que vio lugar aos seus, accudio logo: "Não sei se virá muito a proposito; porém tambem eu hei de dizer a minha historia, em rasão da advertencia, e cuidado que deve ter quem visita em nome alheio; pois se vê que mais desattentos, que ignorancias, os erros d'estas materias. Uma senhora enojada por a morte de um seu irmão tomava as visitas em uma camilha, como as mais costumam. A esta mandou visitar outra parenta sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando na primeira casa achou tão escura que, pegando-se ás paredes, esperou uma dona que lhe servisse de moço de cego; a qual o levou por a mão até uma porta estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou para passar deante; a qual não alcançou tão bem o degrau, que não désse primeiro com as queixadas na humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a guiar a dona da mesma maneira até junto da camilha, onde o tornou a soltar: esta pessoa, cuidando que tinha alli outra porta, por não errar o degrau por baixo, levantou o pé de maneira, que o poz nos peitos á enojada, que dando um grande grito a fez cahir de focinhos. Muitos, que estavam na casa, e tinham furtada a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram tão grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo o sentimento do nojo, e cahia cada um para sua parte sem se poder valer." Como Solino tinha graça natural no que dizia, deu muita a este conto, que foi celebrado com riso de todos.—Se assim é (disse Solino) que nesses ha tantos desatinos, e inadvertencias, não ha que espantar de criados menores, que uns são por natureza tão rusticos, que em nada acertam; outros por malicia tão depravados, que não querem saber senão o que é em favor de sua maldade.—Uma questão se offerecia agora (acudiu Pindaro) que, ainda que rasteira, é em materia proveitosa. Convem a saber se é melhor servir-se um homem de um moço simples, e nescio; ou de um malicioso ainda que seja esperto.—Eu estou melhor (tornou D. Julio) com o que me engana, que com o que me enfada; porque a confiança, que fizer do meu moço, será segundo a opinião que d'elle tenho para me poder enganar em pouco: e do nescio nem posso confiar em um recado as minhas razões, nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora o que ha de dizer, menos sabe o que lhe convém calar: além de que é grande desgosto andar um homem de continuo ensinando um rustico, sem proveito, que não tomará em sua vida tinta de discrição, por mais que o cozam n'ella.—A mim me parece outra coisa (disse Solino) em razão d'aquelle proverbio: Antes asno que me leve, que cavallo que me derrube.—Pelo rifão (respondeu Leonardo) entendo que quereis defender o vosso moço. —Se o não fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou elle). Porém o moço nescio não pode desacreditar com sua parvoice o entendimento de seu amo, que não está obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso, e esperto, nem por o ser deixa de errar peior que os outros; porque não aprende o que convém a seu amo, senão ao intento de sua maldade; e dá ás vezes por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam; e quando não, troca as palavras ou o sentido d'ellas; muda o tempo, e a acezão do recado; vai quando quer, e não ao tempo que vos releva; tira-vos o credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque dizem que qual o amo tal o moço; mais vos desacredita com a murmuração, do que vos acredita com o recado; e quando vos lisonjeia, é quando vos rouba. O simples, se não diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se com o que d'elle fiais, e não trata de penetrar o que pretendeis; e muitas vezes seus erros cahem em graça como as subtilezas dos outros em damno.—Boas são essas razões (disse Feliciano) porém é dura coisa que pelo moço nescio julguem por tal a seu amo; pois é regra de direito que faz por si o que manda fazer por outrem: e se a victoria dos soldados se attribue ao capitão, os ensinos, e palavras dos moços porque se não hão de julgar por de quem os governa, e manda? e menor damno é qualquer dos outros, que o de um homem parecer nescio á conta do seu moço. E sobre tudo não se ha de pintar tão perverso o malicioso, que faça mal, diga mal, e presuma mal, e seja intelligente; que os mais d'elles cantam de quem roubam; que d'esse outro modo não é pintar criado, mas inimigo.—E não sabeis vós (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a maior partes d'elles o são de quem os sustenta? e assim diz a sentença de Euripides, que não ha maior, nem peior inimigo que o criado: e Democrito diz que o criado é coisa tão necessaria, como amargosa: Luciano diz que os criados sempre tem malicia, e traições armadas contra seus amos.—A muitos tenho eu por inimigos (disse Feliciano) porém peior o será o nescio, que o que o não for; e não sómente sustentará inimigo em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo, não ha maior servidão que mandar a um nescio.—Eu tenho procuração em causa propria (disse Solino) para acudir pelos criados, como testemunha de muitos fieis, e verdadeiros a seus senhores: e Euripides, e os mais devem de entender, o que disseram, dos escravos, que, como lhe temos tomada a coisa mais principal, e mais sua, que é a liberdade, sempre nos tem odio, e nos desejam, e procuram mal; porque a vilesa do seu animo não soffre mostrarem valor na sujeição.—Não me parece a mim essa boa razão (accudiu o doutor) porque por dito de Seneca nenhum escravo ha mais vil, que o livre, que serve por sua vontade. (Não entendo n'este conto os nobres, e honrados, que servem aos grandes por respeitos razoaveis). E dos escravos, a que fez taes ou a ventura de guerra, ou outra desgraça, temos os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em que
deixaram muito atraz os proprios filhos. E se não, vêde se fez algum o que o escravo de Publio Catieno. que, deixando-o o senhor por universal herdeiro de seus bens, pela fidelidade com que o servira; elle, por se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira em que queimavam o corpo de seu senhor, e morreu com elle, mostrando que estimava mais tal servidão, que a vida, e as riquezas que lhe deixava. Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de ver a seu senhor vencido de Augusto. Euporo, escravo de Lucio Graco, que se matou sobre o seu corpo. E um escravo de Papinião, que, vendo que os inimigos entravam uma quinta, em que o senhor estava, para o matarem, trocou com elle o vestido, e metteu no dedo um seu annel de preço: e deitando-o fóra por uma porta, sahiu pela outra a receber a morte, que haviam de dar a seu senhor. E Frederico de Eveshim, escravo de Conrado Imperador, que, sabendo que vinham para o matar, o fez sahir do paço, e se deitou na sua cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado, o mataram: o outros muitos escravos sem nome, que mereciam que o seu ficasse eterno por memoria de sua fidelidade. Nem se póde esquecer aquelle grande animo de Lazaro Cherdo, escravo, de nação Serviano, que vendo seu senhor cativo de turcos, e depois morto, desejando vingar-lhe a morte por preço de sua vida, fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no campo Turquesco, e dizendo que queria fallar a Amurates, primeiro imperador d'aquelle imperio, o matou a punhaladas; d'onde não pôde fugir, mas perdeu a vida valorosamente.—D'esses escravos (replicou Solino) não trato eu, que mereciam ser senhores de seus senhores; como tambem houve criados que mereciam ser servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes foi escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava, em que sabia servir, respondeu: que em mandar homens livres; por o que Xeniades o libertou dizendo: aqui te entrego meus filhos para que os mandes. E Epicteto, que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedão, escravo de Cebes, ouvi dizer, que Platão dedicara um livro da immortalidade. Porém a nós não nos cahiram em sorte estes escravos, senão a gente mais barbara do mundo como é a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria da Asia, que é da gente mais vil das provincias d'ella; que uns, e outros tratam os portuguezes com rigoroso cativeiro n'aquellas partes, vendendo-os para serviço das minas das Indias de Hespanha como condemnados á morte: e assim se podem estes chamar com razão inimigos mortaes de seus senhores.—Tambem (disse o doutor) houve já n'este reino escravos illustres de muito valor, entendimento, e sangue, conhecidos por taes, e tratados como se estiveram em liberdade, que cativaram nas nossas fronteiras de Africa, em cujas historias me eu não quero deter por me não alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas, que uns e outros representam a pessoa de quem os manda, no que toca ao recado que dão: o que a mim me parece que está bem provado com o costume, que os antigos tinham em mandar os seus, que não fallavam por terceira pessoa, como é o nosso uso, que dizemos diz fuão que vos beija as mãos; que vos pede isto; vos encommenda este outro; vos lembra tal coisa: antes costumavam: N. vos diz, beijo-vos as mãos, rogo-vos isto, encommendo-vos este outro, lembro-vos tal coisa, representando nas palavras a mesma pessoa que as mandava dizer; e d'esta maneira ficava arriscado nosso amigo Solino, representando pelo seu moço: pelo que a mim me parece que o melhor do recado é ser tão breve, que o possa dar sem erro quem o leva; e tão claro, que o entenda sem trabalho a quem se manda. E com isto, e com vossa licença me hei por desobrigado do que n'esta materia podia dizer.—Não pela minha parte (disse D. Julio) porque deixais de fóra um officio de mais habilidade que todos os de que falastes, em cuja profissão entra a de embaixador, agente, procurador e recadista; e ainda outros muitos, que é o do terceiro, ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais vil, e reprovado, que os de mais, e se empregar em materia tão odiosa á Republica: porém sem entrar no fundo d'elle, nos poderá dizer alguma coisa da superficie.— Bem sei (respondeu o doutor) que para me metter em desconfiança levantais essa lebre; e não vos enganeis, que tanto se deve tratar de officios viciosos para fugirem d'elles, como dos de virtude para os seguirem, e desejarem; e posto que esse é tão vil, já os romanos deram leis á sua profissão, segundo escreve Pedro Crinito; as quaes estavam escriptas no templo de Venus; e Licurgo, aquelle grande legislador dos Lacedemonios, tambem lhes deu regras, e liberdades, posto que lhe está melhor o castigo com que os nossos direitos os agasalham; mas se ha officio de muito cabedal, e pouca honra, é o do alcoviteiro, porque ha alguns que os não vence Tullio no fallar, Catão no dissimular, Sallustio no persuadir, Terencio no representar, Ovidio no fingir, Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar, Ulysses no tecer, Momo no desdenhar; e todas as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em afeiçoarem com engano vontades innocentes. E para lhe assignarmos as partes necessarias, fôra acertado pintar o avesso do embaixador, com que só convém em ser discreto, e experimentado; porém ha de ser baixo, vil, desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso, ingrato e soffredor de todos os escarneos e zombarias, porque não só é de sua profissão enganar, mas tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que seu exercicio merece.—Muito cruel estais contra elles (tornou D. Julio) e não tendes razão; quando vitupereis o seu officio, não vos esqueçais da grandeza das partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha, e convence como um rhetorico: finge, disfarça, e representa com figuras, espantos, meneios, e hypocrisias nos gestos, e palavras como um commediante: pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia toucados, e vestidos, e trata os rostos, e feições melhor que um pintor; sabe mais da natureza das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o falso por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades, e achaques dos que lisongeia, como medico; obriga, e engana no interesse, como legista; adivinha os tempos, occasiões, e vontades melhor que um astrologo. Não ha finalmente arte liberal, nem mecanica, de que se não valha, e em que não vença a seus professores.—Ainda me parece (disse Solino) que haveis de chegar á Celestina; que posto que o officio é do genero commum de dois, accommoda-se melhor ao feminino. E pois de embaixadores descemos a criados, não é de espantar que tropecemos em tão ruim gente.—Parece-me (disse o doutor) que de aposta quereis profanar a minha auctoridade; não vos quero dar esse gosto á minha custa: e não passemos d'aqui n'esta materia: e tambem porque é mais tarde do que parece, demos lugar a que o senhor Leonardo se recolha.
Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando e agradecendo cada um ao outro o que dissera; que tanto se contenta o discreto da boa razão alheia, como o nescio da sua ignorancia propria.