Corte na Aldeia e Noites de Inverno (Volume I)
Dialogo V
DOS ENCARECIMENTOS
Não perdiam tempo os da conversação em se chegarem aos interesses d'ella: e era em todos tão egual o desejo, que nem a occupação de cada um os desencontrava; porque o gosto, em que se enleva o entendimento, faz menores todos os respeitos ordinarios da fazenda, e familia. Entraram á noite juntos em casa do hospede com grande alvoroço, dando cada um no caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam de gastar aquellas horas. Porém assentados, sem o estarem ainda no que seria, disse D. Julio: Por certo, senhores, que estou tão enleado com uma coisa que vos quero dizer, que temo das razões e da edade faltar ao decoro que convém ao sujeito d'ellas; porque nos mancebos as palavras de mero louvor de uma mulher, ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e mais facil é de presumir um engano de affeição nos meus olhos, que de persuadir um espanto a entendimentos tão levantados como os vossos. Porém seja o que fôr, e corra o meu credito o risco que ordenardes; que com todos, os que houver, me aventuro.—Que novidade é esta, senhor D. Julio (disse Solino), que sermão quereis fazer, que tomaes a graça, e nos tendes pendurados a todos no desejo de vos ouvir?—Esta manhã, (proseguiu elle) porque me pareceu de caça, e por gastar n'ella o dia, com menos cuidado do desejo da noite, me fui pôr detraz da nossa serra alongando-me para a parte do mar um grande espaço de caminho; e voltando sobre uma fonte, que nasce ao pé de uma corôa de penedos, coberta da sombra de uns altos hervados, e atoeiras, cheios de verde rama como no melhor tempo da primavera, embaraçados com umas vides silvestres que os atavam, e que ainda de todo não estavam despidas de sua folha, vi junto a ella, e coberto com elles o mais formoso rosto, que eu imagino que pode haver no mundo para satisfação de uns olhos afeiçoados: era de uma mulher em habito de peregrina, que fiada na solidão d'aquelle deserto, e por gosar dos raios do sol, que n'aquelle logar se espalhavam, com os toucados lançados sobre os ramos á vista da fonte concertava os cabellos; e eram elles taes, que não sómente faziam perder ao sol a formosura, mas cobrindo outro mais formoso, que era o seu rosto, contentavam de maneira o desejo, que não fazia muito por passar d'elles adiante. Eu sem atinar no silencio, com que era razão que me escondesse por lhe não ser pesado, fiquei tão esquecido, que, afrouxando as redeas ao cavallo, o deixei tropeçar entre os ramos, e fui sentido da formosa peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia os cabellos se apartaram, qual sôa ferir o relampago d'entre as nuvens, me saltearam a vista com uma luz estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos eram duas estrellas de diamantes, em cujo fundo um verde escuro de esmeraldas apparecia, que communicando áquella formosa côr a claridade dos raios, que despediam, roubariam as almas de quem os olhasse; e descendo d'elles abaixo, era tudo tão cheio de perfeições, que o menor logar, em que se empregava a vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca era um laço de todos os pensamentos amorosos; e nunca vi coisa tão pequena, em que coubessem tantas grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio, que com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam como por vidraça as perolas, que até então me não descobrira o pejo, com que ficou de haver visto. A columna, que sustentava este edificio, era um pescoço de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues muito delgadas, que me representaram n'aquella hora a côr do céo sereno, que pela rotura de duas nuvens brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o circulo da sombra, com que se engastava no aspero burel da esclavina que a romeira vestia: apeei-me eu; e n'este mesmo tempo lançou ella o toucado sobre os cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho; mas como as suas madeixas eram mais compridas, que a toalha branca, com que as quiz encobrir, se mexericavam pelos extremos das pontas, que vinham a guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe com a cortezia, a que a modestia, e gravidade do seu rosto me obrigava; e ella sem mostrar outro alvoroço de minha presença mais, que vestir de escarlata a branca neve de que parecia formado, me respondeu, perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle o caminho. Eu, que não perdia com os olhos um só movimento dos que os seus faziam, me pareceu tudo o que tinha visto, sombra da graça e brandura com que falou com uma voz tão fina, que penetrava o interior do coração, e tão suave, que o desfazia, e com uma modestia tão grave, que não dava logar a se pôrem n'ella os olhos direitamente, senão com um respeito armado de receios. Perguntei-lhe d'onde era, para onde ía, encarecendo-lhe o perigo em que punha sua belleza de ser offendida, fiando-a de desvios tão solitarios. Mas ella despresando todos os temores, e fazendo mais difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe pendia, que pelos trances que á sua conta se me representavam, deu a entender muitas cousas, com que eu perdi o accôrdo, e ousadia de lhe perguntar outras, e lhe offerecer algumas das que costumam haver mistér os que fóra da sua patria vem experimentar os males das alheias. E além de eu estar atalhado com sua vista, o estava ella tanto com minha presença, que perdi o interesse de a vêr, por o respeito de a não molestar: despedi-me magoado: estou arrependido; e cubiçoso de a tornar a vêr, de maneira que não aparto o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram. E porque ainda me parece que deve ser mais estranho o successo, que a traz n'aquelles vestidos, que a novidade de sua gentileza, a que se deve todo o cortezão tributo de vontades bem nascidas; peço ao senhor Leonardo que por a melhor via, que lhe parecer, saiba d'esta estrangeira, que por esta noite deve de estar na aldeia; ouvirá d'ella mesma a sua historia, e eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.—Bem andastes, senhor D. Julio (disse o doutor) em tomar primeiro carta de seguro para o que havieis de dizer; porque os encarecimentos d'essa peregrina são mais pinturas vossas, que gentilesas suas; porque não ha mulher nas obras da natureza tão perfeita cá na terra como a soube fingir o vosso entendimento, ou affeição: e á conta d'ella me parecia bem que assentassemos o retrato de belleza tão sobrenatural, que em materias de amor tudo o que reluz é ouro, e tudo o que assombra é sol; e só com esta desculpa salvareis louvores tão desacostumados.—A affeição do que vi não posso eu negar (tornou elle) mas á vista da peregrina dizei o que quizerdes contra minhas razões, que nas suas partes hei de achar armas com que defenda o que disse. Leonardo se offereceu então a mandar fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando para Solino, que tinha os olhos no chão, lhe disse: Vós, callaes, quereis allegar serviços ao senhor D. Julio, porque a vossa natureza não é deixar passar esta mercadoria sem registo.—Estava agora (respondeu elle) cuidando nos livros de cavallarias, que ha poucas noites que defendi; e desejava dar um cavalleiro andante áquella peregrina; que se uma cousa d'estas apparecêra a meu amigo Pindaro, que encantamentos não rompera, e que poesias, e obras heroicas appareceram de novo no mundo, que alabastros, marfins, marmores, crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este encontro mais elegante do que se esperava; Pindaro, com sua licença, tem n'esta materia mais direito adquirido; e não se houvera de contentar de descer do céo as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas os archanjos, cherubins, dominações e potestades haviam de ter logar n'elles.
—Não será fora de proposito (disse o doutor) divertirmo-nos agora com esta materia em desconto, e recompensa das passadas; e gastar esta noite em saber a causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que é pensamento que já me desvelou em outra edade.—Obrigo-me eu (disse Leonardo) que a nenhum dos presentes descontente a vossa escolha; e eu particularmente estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do Licenciado, que por hospede, estudioso e cortezão se lhe deve o logar.—O meu voto (tornou Feliciano) é de pouca importancia, e o logar devido a outrem; mas com toda a humildade acceitarei o que me derem: e se com a minha razão ficar corrido, barato é o saber que se compra com primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos nascidos de amor não devem parecer estranhos (por deseguaes que sejam) a nenhum juizo affeiçoado; porque o amante para pintar a formosura de uma dama, que satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente achará nas cousas creadas a que a compare, que lhe fique parecendo que a encarece; porque, ainda que sejam formosas as estrellas, lhe não agradam tanto como os seus olhos; e sendo o Sol tão bello, se alegra menos com a claridade de sua luz, que com vêr o rosto de quem ama; e são de menos valia para seu gosto e desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras, que o riso da sua bôcca e a graça da sua vista; e de não imaginar na terra um amante cousa que se eguale ao objecto da sua affeição, dá em o desvario de a comparar aos espiritos que não alcança com o entendimento, subindo com elle pelas gerarchias mais levantadas: a causa é, porque o amor faz as cousas tão formosas a seus olhos, que leva muita vantagem á natureza que creou umas, e outras; e a cubiça e opinião, que engrandeceu a muitas d'ellas: que até do gosto, como diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor é saboroso; nem ha fel tão amargoso, que com elle não pareça suave: que não sómente com seus poderes dá perfeição ás cousas, mas tambem as converte em outra substancia.—Não estou contra a vossa razão (acudiu Leonardo) mas parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes, que todos, pouco mais ou menos, não sahem de certos limites; porque, em descendo da pedraria, os que são menos lapidarios empeçam em coral, marfim, porfido, alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto, a paixão de amor não havia de guardar regra certa nas palavras, e louvores, antes encarecer sua dama com as cousas que a seu gosto e opinião sejam mais formosas; e como as affeições são tão differentes, assim o seriam os gabos, e encarecimentos.—Para louvar (replicou Feliciano) não ha tantos caminhos como para ter affeição; porque logo daes com uma estrada Coimbrã, que é tão bella como o Sol, tão clara como a Lua, tão alva como a neve, tão loura como o ouro; e d'aqui adeante.—A mim me parece bem (disse Solmo) a razão do Licenciado, que o doutor tinha geito de metter os louvores de uma dama em exemplos caseiros, chamando-lhe fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim, clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e como os amantes para encarecer se não contentam com pouco, todos chegam ao que pode ser: todo o branco é crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos; e até as mães dos meninos, a que naturalmente tem excessivo amor, não lhes sabem chamar pouco: quando os tomam nos braços, logo os intitulam de meu duque, meu marquez, meu conde; nas pedras meu diamante, e nas flôres meu cravo, e minha rosa: quanto mais louvando mulheres, a quem todo o encarecimento fica curto, e envergonhado pela fôrça, com que tem captivos os sentidos, e as potencias dos que hão de falar n'ellas. E para conclusão de tudo, diga Pindaro o que sente n'este particular.—Os encarecimentos, de que usam os amantes (disse Pindaro) menos são seus, que adquiridos dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os escriptos em suas obras: porque, como retratadores das obras excellentes da natureza, buscaram tão altivos materiaes para darem vivas côres á formosura. E não é muito que, pintando um rosto formoso da terra, lhe accommodassem côres, e attributos celestes, quando para pintarem cousas do mesmo céo usam tantas vezes de semelhanças, e encarecimentos da riqueza da terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos de lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de topazios, jacintos, e esmeraldas; e o mesmo fez pintando os pavões, que no céo levavam o carro da Deusa Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano Capella. E como a phrase poetica é a mais excellente, e levantada, e por tal escolhida das Sibyllas, e Oraculos para usarem d'ella, tambem fizeram os amantes a mesma eleição; entre os quaes qualquer miuda consideração de um voltar de olhos é arco, aljava, e settas de Cupido, com todas as mais allegorias, e transformações que os poetas usaram.—A verdade é (disse o doutor) que a perfeição da formosura animada se não pode devidamente encarecer com alguma semelhança, que o não seja, porque todas lhe ficam muito inferiores: o que declarou bem uma dama Florentina, que perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor d'aquelle tempo; ella, sem responder com palavras, fez que uma creada sua formosa e bem proporcionada, despisse em si as partes, que a figura mostrava núas; e logo á vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama, e valor que d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico da formosura, que declara engenhosamente este pensamento: a figura do qual era uma mulher com a cabeça mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas rodeado de um resplendor, que o não deixava vêr distinctamente; na mão direita um lirio, e na outra um compasso; significando com a cabeça mettida no céo, e no resplendor, que só com as cousas d'elle se podia encarecer, fazendo impedimento á vista humana como raios derivados da belleza Divina; o lirio denotando a graça das partes naturaes, porque em côr, e pureza foi sempre symbolo da formosura; o compasso a medida, proporção, e correspondencia dos membros, em que consiste toda a perfeição d'ella. Mas Pindaro tudo quer attribuir á sua profissão: e n'esta parte não tem pouca justiça: porque sómente na licença poetica podem entrar os desvarios dos namorados, por serem muito eguaes o furor poetico, e o amoroso. Porém, já que os encarecimentos estão approvados com tão boas razões, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que vivem, morrem, e ressuscitam a cada passo, e que andam sem almas como cantaros, e sem coração como furões, que, a meu vêr, é gente que por privilegio de amor vive exceptuada das leis da natureza.—A razão (respondeu Feliciano) é a mesma; porque quem encarece a causa egualmente exagera os effeitos: a pena de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivança é o maior tormento da morte ao que ama; e um favor e brandura, que recebe em sua affeição, é na sua estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de viver sem alma, e sem coração, o declarou maravilhosamente um poeta moderno, dizendo em um soneto á sua dama, da qual estava ausente, que uma parte da alma, com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava, entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem é outra cousa os desvarios, e desattentos dos que amam, senão viver em certo modo fora de si, como pareceu a Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde o juizo; e o que eu vejo que poucos em presença da cousa amada ficam com elle.—Tambem S. Jeronymo (accrescentou o doutor) escreve que o amor da formosura é um esquecimento da razão; e assim chamam os poetas ao amor, inimigo d'ella. E que maior exemplo se pode imaginar d'esta verdade e mudança dos que amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de Lidia acharam lançado no regaço de sua amada, mudando-lhe os anneis dos dedos, ella com a corôa real na cabeça, e o famoso Thebano com um sapato seu d'ella em logar de corôa? que menos esperado que o de Dionisio Syracuzano, que por mão, e parecer de Mirta sua amiga despachava os negocios importantes do seu reino? que mais extranho, que o de Themistocles Atheniense, famoso capitão de Grecia, que namorado de uma dama, que captivou na guerra de Epyro, usava em uma doença, que sua amada teve, dos mesmos remedios que lhe a ella faziam, tomando as purgas, e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto por regalo, e gentileza com o seu sangue d'ella? que menos crivel, que o de Lucio Vitelio Imperador, que namorado de uma filha de um escravo seu, a quem libertara, de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma esquinencia, não usava outro remedio mais que um unguento que fazia de mel com o cuspo de sua dama, imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar saúde untando com elle a garganta?—De maneira (disse Leonardo) que amor tira os sentidos, e o juizo a quem se emprega todo em seus cuidados: e eu tinha para mim, e ouvi sempre dizer que não podia o nescio ser bom namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa opinião, pois os que amam não tem entendimento.—Só o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser amante, e por isso perde o juizo nas mãos de amor; que o nescio mal poderá perder n'ellas o que não tem. E falando mais ao ponto da vossa duvida, o amante pelo ser não fica nescio, mas parece-o em muitas acções dos sentidos, e entendimento; porque, transportado na imaginação do que ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.—Extranhamente (accudiu Solino) me contenta ouvir esta razão para desculpar commigo os maus successos de namorados, a que não sabia tão boa desculpa; que assás grande é para esquecer cousas menores quem está fora de si: porque, deixados esses exemplos de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e mais notavel o desatino, com que nas mãos do amor renunciaram o entendimento; de outros de menos estofa, e mais modernos sei eu descuidos, que podiam entrar em historia n'esta occasião, e por me aproveitar d'ella: Eu conheci um cortezão mui empenhado em finezas de amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama em um quartão, que já aturava aquelle fadario todos os dias como em atafona; acertou n'aquelle a ser mais favorecido da senhora, que de quando em quando lhe apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado mancebo, que por seguir a caça se esqueceu do tempo, e das horas de comer, mettendo-se pelo certão da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que não devia de estar tão affeiçoado a aquella estancia como á sua costumada, estancava muitas vezes do passeio, sem haver accordo nem espora que o despertasse; até que uma vez, estando o amante parado com o ponto no alvo da janella, acertou a passar um macho que levava uma rede de palha, a que o rocim se arremessou com tanta furia, que, prendendo os copos da brida nos laços da rede, se embaraçou de maneira, que levou ao quartão enamorado por todo o terreiro, onde se resentio do rapto, sem se poder valer contra os couces do macho, e risada dos rapazes. Mas não é muito padecer d'elles afrontas quem do um tão mal acostumado fia sua liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor não era armado cavalleiro, passeava a pé á vista de seu cuidado, ora com os olhos na janella, ora com o tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a dama, que não trazia ainda aquella affeição em abertas, e publicadas, porque não notassem os que passavam os meneios, e esgares que o mancebo fazia, acenando-lhe se tirou do posto passando-se a uma janella mais pequena que cahia sobre uma esquina das mesmas casas: o galante mais com o tento na mudança, que no caminho, com os olhos no alto, deu com a testa um grande encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em um monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado á parede, ficando até os sendaes mais caiado, que cantareira d'Alfama.—A todos pareceram os contos de Solino cheios de graça; e (disse Leonardo) sempre sahe o amor culpado n'estes ferimentos; e não tenho por grande desar todo o que succede á sua conta, que por isso o pintam cego, e são conhecidos por taes os que o servem: porém a mim me parecia que quando o amante perde o tento, e o sentido de tudo o mais, devia ficar só discreto, e avisado para sua dama, que é o objecto em que todo se emprega; que para lhe falar lhe sobejariam razões galantes, respostas obrigadas, termos de subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia acho o contrario, que dos noivos, e dos amantes se contam as primeiras parvoices.—Não sei (disse Solino) se dirá agora Pindaro que tomaram isso os namorados dos poetas, como os encarecimentos.—Os poetas (respondeu elle) não são havidos por parvos; e quem lhes quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que poderia ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os amantes com affeição, como os poetas com o furor divino que os excita, aprenderiam d'elles. Pelo que o vosso remoque não deu boa chaça: mórmente que esses primeiros erros são de outra geração; e nenhum parentesco tem com a parvoice. Antes é um modo de se atalhar, e suspender um homem o seu entendimento com muita razão; porque não pode dizer cousa, que pareça bem aos outros a primeira vez que fala com aquella a quem ama; que é passo, onde os mais discretos o perdem.— Parece-me que está no certo meu companheiro (disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre os outros podiam falar sem medo, terem-no muito grande a estes primeiros encontros; que certo me parece mais respeito que se deve á formosura, que falta que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o verdadeiro é que amor o apura, e engrandece; e por este respeito os Athenienses lhe levantaram uma estatua na Academia de Palas como a sabio, e lhe dedicaram uma escola os Samios, significando que só na de amor se alcança com perfeição tudo, o que pelas do mundo variamente se aprende, e com muito discurso de annos se alcança: o aviso no falar, a discrição no escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir, a graça no parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade no dispender, o esforço no pelejar, a largueza no jogar, a humildade no servir, e a pontualidade no merecer. Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao mundo as emprezas discretas; as chimeras escuras, as idéas levantadas, os motes avizados, os versos excellentes, os enredos subtis, as cartas galantes, as fabulas bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas tudo é doutrina tirada das escolas de amor. E pois n'ellas se alcança tudo, não é muito que se ache tambem um termo de falar encarecido, e levantado sobre todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o juizo d'este acerto se não deve fazer por homens livres d'esta paixão amorosa, se pode haver algum, a quem não coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem outros exemplos, fazer a eleição d'ella o sr. Julio, que em todas as partes de côrte e gentileza pode servir de espelho aos mais apurados.—Vós me obrigaes por tantas vias (respondeu o fidalgo) que fico desconfiado de poder pagar nem com encarecimento do que mereceis, nem com a restituição dos louvores injustos que me daes, que só são devidos ao vosso entendimento. E pois a victoria d'esta batalha ficou por elle em meu favor, quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido o repouso da noite.—Essa resolução (disse Leonardo) é em damno de todos: e muito mais de sentir, porque á força nos obrigaes a que consintamos n'elle: mas como em logar de preza trouxestes da caça empreza tão difficultosa, poupaes horas para cuidar n'ella á nossa custa.—Antes (respondeu elle) para reformar no somno as que me desvelei na madrugada.
A isto se levantou; e os mais dando boas noites o iam seguindo, e disse para todos Solino: O senhor D. Julio vae a sonhar com aquelle thesouro encantado que lhe appareceu na fonte; e para este cuidado não quer companhia; que se a communicação dos bens de amor faz muito maior a gloria d'elles nos contentes; aos que só o estão de seu pensamento nenhuma cousa é mais agradavel, que saudosa lembrança.