Crônicas de Viagem

Alberto Pimentel · Capítulo 9 de 18

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Crônicas de Viagem

Chronicas de Viagem

VI

 

Uma festa de charidade

Organisara-se nas Caldas da Rainha uma festa de charidade, no Salão da Convalescença, em beneficio da Associação Promotora do Ensino dos Cegos.

Luiz Gama, este endiabrado rapaz que toda Lisboa conhece e estima, rapaz que parece um velho quando joga o whist, posto andasse muito azoinado com os callixtos que lhe rodeiavam a mesa do jogo, fosse em plena Alameda, nas horas de calma, ou sob o Ceu de Vidro, nos intervallos da valsa, que elle raras vezes perdia, não poude resistir ao convite que lhe fizeram algumas senhoras para tomar parte na matinée.

Comprometteu-se, e comprometteu-me pedindo-me com instancia que lhe escrevesse uns versos, consentaneos{54} ao seu genio alegre, para dizer no Salão da Convalescença. Eu não chegava então para os largos passeios que todas as semanas fazia com o meu amigo Carrilho. Luiz Gama insistia, porém, e não tive outro remedio senão procurar um assumpto entre um copo d'agua das Caldas e a partida d'um comboio.

Não estava Luiz Gama sendo, segundo elle mesmo caramunhava, uma victima dos callixtos? Toda a gente o sabia. Pois bem. Lembrei-me de proporcionar á victima uma excellente occasião para vingar-se publicamente dos seus algozes, e mandei-lhe isto, que elle teve a paciencia de decorar e dizer:

OS CALIXTOS

Se os ha?! Que os ha, é de fé.

Até suppõe muita gente

Que Adão e Eva tiveram

N'um joguinho que fizeram

Por callixto uma serpente.

Eva perdeu... quanto tinha.

O proprio Adão foi no prégo Pôr a caixa do rapé!

Só os não vê quem fôr cego...

Se os ha?! Que os ha, é de fé.{55}

Ha-os de varios feitios.

Um, gallinha nunca farta,

Cobrindo co'a aza o filho,

Vai vendo carta por carta

Como a comer grãos de milho.

Um outro a penca intromette

Entre as cartas e o sujeito,

Como se fosse um petiz

Que a gente tivesse ao peito,

Sendo a ama d'um nariz.

Até se diz que um parceiro

Do mirone a penca assuou No Ceu de Vidro, domingo,

Porque em boa fé pensou

Que era o seu que tinha pingo.

Já encontrei um callixto

Gordo, obeso, uma balêa,

Que me poz o barrigaço

—Façam vossencias ideia!—

Em peso sobre este braço!

O general é medonho!

Não ha callixto peior

Entre os maus que tenho visto.

Vejam lá! é meu callixto

Desde que elle era major!{56}

No Gremio um desconhecido

Foi-se sentar a meu lado:

Perdi a trena e o leme,

Apanhei logo um xeleme

E outro d'ahi a bocado.

Perguntei-lhe: Em seu juizo

Qual animal é maior?

Hesitou. D'ahi a um instante

Disse que era o elephante.

—«Pois então faça favor

«D'ouvir isto que lhe digo,

(Repliquei, de mim já fóra,

Ameaçador, fulminante)

«Olhe, snr. elephante,

«Não posso mais!... vá-se embora.»

Em sendo calvo o callixto,

Tremo logo só de vel-o.

É tão callixto o diabo,

Que até do proprio cabello

Por callixtice deu cabo!

Ha outros que têm madeixas

Como cachos de banana,

E que escorrem sobre a gente

Algum óleo impertinente

Ou agua circassiana.{57}

Tambem os ha femininos,

Que põem o pé na cadeira,

Mostrando a botina... Eu acho

Que, sendo d'esta maneira,

Só encallixtam por baixo...

Mas a peior das callixtas...

Não me lembra agora isto!

A coisa... não vae ao fim!

Pois se um senhor que é callixto

Está d'além a olhar p'ra mim!