Crônicas de Viagem

Alberto Pimentel · Capítulo 4 de 18

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Crônicas de Viagem

Chronicas de Viagem

—Aquillo é muito bom quando é pelo tempo dos cyrios e pelo tempo... dos dezoito annos, que foi quando eu vi bem os cyrios...{25}

 

CHRONICAS DE VIAGEM

III

 

Alcobaça

Quando eu escrevi a Porta do Paraiso, que tão boa fortuna alcançou, como prova o facto de estar hoje em terceira edição, foi na villa de Alcobaça, á sombra do vetusto mosteiro cisterciense, que localisei o principio da novella, a qual depois se desdobra em Lisboa.

Clarinha era d'ali, d'Alcobaça, de cujos vergeis floridos eu fallei sem os ter visto. Foi em Alcobaça que lhe desabrochou no coração o primeiro amor, primeiro e unico de toda a sua vida, o que já então era raro e hoje é rarissimo. Eu não tinha visto os coutos pittorescos de Alcobaça, abundantes de fructas e aguas, de sombras e frescura, mas conhecia-os pela Alcobaça illustrada de Frei Manuel dos Anjos e pela descripção{26} oral, muitas vezes repetida, sempre calorosamente, de um rapaz que era d'ali natural e estava desempenhando no Porto o cargo de guarda-livros da Companhia Viação, a Entre-Paredes.

Ha quinze annos eu conhecia pouco o paiz: um bocado do Minho, outro bocado do Douro, e mais nada. O scenario de que podia dispôr era, pois, muito resumido, acanhado. Depois d'isso é que me pude dar o prazer de touriste, e hoje, com excepção do Algarve, conheço menos mal o paiz. A paizagem agreste do Douro abundava já nos meus primeiros livros, de modo que, posto curasse por informações, foi por amor da variedade que eu desferi vôo para Alcobaça a fim de pendurar nos seus arvoredos a minha novella, como um ninho de tristezas brandas, que a minha imaginação, timida andorinha, se propunha fabricar...

Quando se abre o livro, está-se em Alcobaça; assiste-se a um serão de Clarinha: o tio a um lado, a outro lado o primo revolvendo livros.

Não me demorei em pormenores de paizagem; descrevi-a em dois traços, de fugida, porque o que eu queria era achar um sitio de eleição, que fosse ameno e formoso, e cujo nome bastasse ser indicado para que se comprehendesse que n'esse meio geographico não podiam gerar-se caracteres abominaveis.

Eu sempre detestei... o abominavel, então e agora.{27}

Rodaram annos, estive de passagem n'outras localidades, bem menos agradaveis por certo, e sempre me ficava no fundo da alma, como uma violeta antiga, perdida entre as paginas d'um livro, o desejo saudoso (deixem-me dizer saudoso...) d'essa villa opulentamente fradesca, onde eu só mentalmente havia estado alguns dias, com Clarinha, com seu tio e com seu primo, assistindo em espirito a esses doces serões de provincia.

Foi só agora que pude apagar a saudade d'esse desejo.

Quando nas Caldas o revelei ao meu velho amigo Carrilho, elle, que tinha estado poucos dias antes em Alcobaça, disse-me com a sua habitual energia:

—Homem, amanhã, no comboio do meio dia, partimos ambos para Alcobaça.

—Mas lá perdemos nós uma tarde de aguas, e foi para tomar as aguas que eu vim ás Caldas.

Elle replicou:

—Tomaremos as aguas de manhã; de tarde tomaremos Alcobaça. Á noite estaremos a jantar nas Caldas, de regresso. Um passeio que se faz por gosto, vale por um bom remedio.

Fomos. Já tinhamos ido á Nazareth, o que quer dizer que já conheciamos a linha da Figueira até á{28} estação do Vallado. A surpreza, para mim, começava d'ahi por deante.

A planicie verdejante do Vallado, essa immensa campina plana como a palma da mão,—propriedade do snr. Manuel Iglesias,—era para mim o bello prologo da viagem a Alcobaça pela linha da Figueira.

O Vallado é realmente um sitio delicioso, vasto, lavado de um puro ar saudavelmente temperado com o oxygenio dos campos e o iodo do mar, que não fica longe. Principia ahi o grande pinhal de Leiria; uma guarda avançada de bastos pinheiros faz sentinella ao chalet encarnado onde reside um fiscal da matta. Ao longe, dominando a estrada da Nazareth, o morro de S. Bartholomeu, phantasiosamente recortado, com a sua ermidinha entalada entre rochedos, parece olhar desdenhosamente para a planicie infinita que se lhe desenrola aos pés, timidamente, longamente...

Do Vallado para Alcobaça ha diligencias, a tostão por pessoa. É preciso deixar passar o comboio para podermos atravessar a linha. Esperam-se cinco minutos, o comboio parte, e a diligencia do Gallinha parte logo depois do comboio.

A estrada é graciosa, alegre como um sorriso luminoso da natureza, feito de claridade e de verdura. A breve trecho estamos na Fervença, cujo nome provém{29} das suas aguas sulphurosas, e onde um velho portico de propriedade nobre me enleiaria o olhar, se não tivesse de voltar-me logo para vêr o edificio da fabrica de fiação e tecidos, estabelecida alli em 1874.

Sombras, frescura, agua, a flux,—uma estrada que mais parece uma avenida de recreio cortada atravez de uma floresta banhada por nascentes abundantes.

Avista-se Maiorga, avistam-se casaes alvejantes, frescos e claros, brilhando na palpitação suave da verdura, levemente batida por uma pontinha de ar refrigerante. A agua corre nos campos, em ondas de abundancia, entornando diamantes ao saltar de pedra em pedra, como uma princeza louca, que vae estragando thesouros. E o arvoredo põe no solo branco e crú grandes manchas de sombra, que parecem ligar-se caprichosamente pelos seus contornos irregulares, phantasticos.

Surge-nos á margem da estrada outra fabrica, de louça, dando-nos a conhecer que vamos entrando n'um concelho vitalisado pela industria, laborioso e rico. Depois as primeiras casas da povoação, brancas e baixas, enfileiram-se em linha, correndo a par da diligencia, e um palacio, dominador e vasto, abre á luz sobre a estrada as suas janellas em longas series parallelamente dispostas.

Vejo, de relance, sobre um cunhal de muro o letreiro{30} que diz: Rua de Frei Fortunato. E penso n'este nome. Emquanto a diligencia roda, lembro-me que aquella rua memorará frei Fortunato de S. Boaventura, alcobacense, miguelista acerrimo, polygrapho fecundo, author da Historia chronologica e critica da real abbadia de Alcobaça. E d'ahi talvez não seja; mas aposto que será esse mesmo, o de S. Boaventura.

A diligencia entra n'um triumpho de estrondo e poeira—egual a todos os outros triumphos—no Rocio de Alcobaça, e á nossa esquerda, como um leviathan de pedra, ferido pelo arpéo do vandalismo, o mosteiro avulta na sua vastidão enorme, fria e dura, remendado, propinado, cuspido na face vetusta pela antiguidade e pelo progresso.

A egreja, encravada no mosteiro, exhibe n'uma confusão chaotica os seus numerosos estylos architetonicos, especie de bric-á-brac de todas as grandezas de um passado extincto, e por entre as pedras e as imagens que negrejam como carvões contrastam remendos de cartão branco, farrapos de pedra nova, fazendo lembrar uma capa de pedinte pendurada do alto das torres, e aberta ao sol.

Imaginem que visitando um dia a feira da ladra se recordaram subitamente de D. Affonso Henriques ao vêr um capacete de armadura posto sobre uma farda de soldado da guarda municipal. {31}

Foi o que me aconteceu.

D. Affonso Henriques passou por ali, e plantou um mosteiro. Mas veio depois a invasão de Miramolim, e derrubou-o. Poz-se uma estaca á arvore partida, e a arvore renasceu. Vieram ainda depois os caprichos realengos, os accrescentos anachronicos, os terremotos, os raios, e D. Affonso Henriques, se voltasse a este mundo, não conheceria a sua bella arvore de pedra, plantada em honra de Nossa Senhora, por memoria do feito de Santarem.

Aberta a porta do templo, talhada em arcos ogivaes, as suas vastas tres naves alongam-se n'uma fria extensão silenciosa, e ao fundo a capella mór, em semi-circulo como todas as charolas das grandes basilicas, esfuma-se n'um como nevoeiro, que duvidosamente deixa entrever columnas e imagens.

Á esquerda, uma porta abre sobre a chamada casa dos reis, que se nos patentêa com os seus altos azulejos allegoricos, o seu caldeirão bojudo de Aljubarrota e as suas estatuas grotescas, de reis antigos, presididas por Affonso Henriques, recebendo a corôa, curvado aos pés de S. Bernardo, essa montanha de santidade, como lhe chamou frei Luiz de Souza.

Á ilharga de Affonso Henriques, n'uma prateleira, um pequeno busto, em gesso, de D. Pedro V, põe n'essa galeria de antigas estatuas de reis, modeladas{32} ao natural, uma nota acre do contraste moderno, mostrando como os reis teem ido perdendo na grandeza da sua exhibição...

Tudo o que em Alcobaça é moderno, é atroz: especialmente o vandalismo.

É verdade que os francezes roubaram todas as alfaias valiosas do mosteiro; que abriram sacrilegamente os tumulos de D. Pedro e de D. Ignez, para arrancar aos cadaveres as suas ricas vestes reaes; mas, em nome da liberdade, os indigenas foram depois roubando, a exemplo dos francezes, as reliquias e as pedras, indifferentemente, os santos e as cantarias; a verdade é que os governos do fim do seculo não são menos vandalos do que os francezes do principio d'elle, porque não tardará muito, talvez, que toda a abobada do templo, já fendida, desabe.